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domingo, 23 de dezembro de 2012

O futuro é uma criança



Mais um Natal se aproxima, a tradicional recordação do nascimento do menino Jesus, Deus encarnado em um ser infante. História de milagre, de humildade, de pobreza e de esperança. Talvez estejamos muito longe de considerar todos estes aspectos simbólicos trazidos com a celebração do Natal. Em grande parte, provavelmente, devido à secularização e mercantilização não apenas desta data, como também de outros feriados religiosos, como a Páscoa.

Mas para mim o Natal sempre traz a lembrança do Advento: tempo de reflexão, arrependimento e nutrição da esperança. Resgata à mente a importância de meus queridos, amigos e, especialmente, familiares, com os quais já não compartilho minha rotina, mas com os quais tenho podido compartilhar deste momento especial.

Mas mais do que isto, o Natal traz também à mente o pensamento de um desejo, um futuro novo.

E o futuro é uma criança.

É engraçado como uma ideia como esta pode soar estranha, mesmo que hoje vivamos em uma civilização cujos símbolos e referências culturais e valorativas se pautem por esta matriz milenar que é o cristianismo. Nos acostumamos a pensar Deus como Pai, Senhor, Ser supremo. Obviamente não se nega isto (entre os cristãos, é claro). Mas ressalto que mesmo no dias mais comuns, pouco lembramos deste aspecto infantil da vida de Cristo (e do próprio Deus). Fala-se sempre, com bons juízos ou preceitos equivocados, do aspecto grandioso e universal, gigantesco e atemorizador, dominante e indestrutível que seria constituinte da figura de Yahweh. Mas pouco se diz da figura frágil representada pela criança chorosa, carente e dependente, deitada naquela manjedoura – a não ser, é claro, no período do Advento. O aspecto humano pelo qual Jesus foi apresentado ao mundo não podia ser mais confuso. Poderia dizer também: não podia ser mais genial.

A história daquela criança me conduz a um olhar sobre as nossas crianças. Jesus, já em sua fase adulta, demonstrava um carinho especial para com os pequeninos. Exortava seus pares de que aqueles que recebessem uma destas crianças, estariam O recebendo. E dizia: “Cuidado para não desprezarem nem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste” (Mt. 18: 5, 10). Se estamos falando do nascimento de uma criança, o Natal nos permite falar dela, mas também de outras crianças como ela, e do futuro delas. E o tempo que vem, será que tempo para nossas crianças?

Há pouco tempo assisti ao vídeo, até então desconhecido para mim, de Happy Xmas, composta por John Lennon e Yoko Ono. A música tem um subtítulo: War is over. O vídeo em questão é recheado de duras e tenebrosas imagens, que atestam uma realidade à qual não damos a devida importância: crianças sem futuro. Crianças em zonas de guerra, passando fome, abandonadas, machucadas, doentes, sem sequer saberem o que pode significar a palavra esperança.

Nossa lembrança deve se voltar a elas. Mais do que celebrar o nascimento de nosso Salvador, creio que o desejo presente no coração de Deus se coloca a nós com este propósito: não despreze nenhum destes pequeninos. A frágil criança naquela manjedoura deve nos trazer a lembrança daquelas meninas e meninos que padecem onde se ausenta o amor, a igualdade e a justiça. Mais do que recordar aquilo que a Palavra nos diz sobre o nascimento do menino Deus, eu desejo profundamente que você possa encontrar Deus no olhar destas crianças. E que você possa compreender o sofrimento presente no coração de Deus a partir da observação da angústia destas crianças. E, principalmente, que você possa ansiar o futuro. Sonhar com o novo, com as mesmas cores desafiadoras que constituem o sonho das crianças. Para que elas não deixem de ser o futuro.

Feliz Natal.




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Sydnei Melo

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O que há de errado com os evangélicos na política brasileira?

Antônio Flávio Pierucci, em um de seus últimos artigos, registrava a seguinte passagem: "Não lembro, e certamente ninguém há de lembrar, de uma campanha eleitoral em que a intromissão da religião tenha sido tão grande e ido tão longe como na eleição presidencial de 2010 para a sucessão de Lula. Ingerência tão intensa e tão extraordinariamente inflamada, pra quê? Para tentar deter no voto popular a escalada ao poder central da nação de uma mulher sem Deus, que por falta de religião e visão minimamente decente da criatura humana iria querer, se eleita presidente, legalizar o aborto e criminalizar a homofobia".

Para mim, cientista social, cristão protestante, esta frase gerou um tremendo impacto. Traduziu de modo claro e evidente toda a polêmica que me angustiava dia após dia, ao ver as quarteladas de emails que alcançavam minha caixa de entrada, os vídeos que os ardorosos moralistas publicavam em suas páginas pessoais e nas comunidades da internet, e todo medo vigoroso que se instalava nos templos, nos púlpitos, demandando suas correntes de oração no seio de uma batalha contra a "institucionalização da iniquidade" em nosso país. Em nome dos valores sagrados de Nosso Senhor, empenhava-se uma luta franca e aberta contra o perigo petista da "lei da mordaça" e da legalização do aborto.

As evidências são perceptíveis para todos, e especialmente os pastores, bispos e apóstolos não deixaram de notar: os cristãos evangélicos podem definir um eleição. Eles podem levar um pleito para o segundo turno. Com cerca de 21,6% do eleitorado brasileiro (ESEB 2010), nenhum "grande" candidato ousaria se distanciar desta fatia eleitoral. Nenhum partido com chances reais de vitória abriria mão de tentar um diálogo, mínimo que seja, com alguma liderança denominacional evangélica.

Mas ledo engano achar que os evangélicos são os simples alvo dos políticos de plantão. Pelo contrário, as igrejas desejam profundamente serem procuradas. E não apenas isto. As igrejas, por via de seus grandes líderes "iluminados", atuam na cena política de modo bastante interessado e articulado. Não é por caridade, nem por altruísmo: os evangélicos querem espaço na política brasileira. Querem o direito de barganhar com o Estado. E querem refletir seu moralismo nas leis e na constituição que rege o Brasil. Como já escrevi em um outro texto, os evangélicos pensam o Estado através de uma "mentalidade bipolar": "Ao mesmo tempo que o apostolado da moderna cristandade eletrônica rechaça qualquer interferência do Estado nos espaços eclesiásticos, age no sentido de estabelecer suas convicções religiosas, sem as depurações necessárias e proveninentes do debate público, como instrumentos de orientação e prática do Estado".

A história dos evangélicos na política brasileira das últimas duas décadas é marcada pelos valores fundamentalistas, pelo voto de cabresto em grandes denominações pentecostais e neopentecostais, pela ausência de debates programáticos que norteiem o voto do eleitorado evangélico (refletindo habitualmente na orientação do voto de acordo com a determinação da autoridade religiosa), por vários escândalos de corrupção de parlamentares evangélicos, e pelo crescimento eleitoral vertiginoso desta parcela religiosa tornada alvo das campanhas políticas. A despeito de notáveis exceções, que obviamente não capitularam a este tipo de prática, há uma mancha sobre os evangélicos cuja dificuldade de ser limpada é grande, muito grande.

Diante deste diagnóstico, o que há por fazer para reverter tal quadro? Esta é talvez uma das perguntas mais angustiantes, pois frente às dimensões assumidas por todas estas práticas no interior da parcela evangélica é muito difícil observar um caminho de transformação. Assim como, na verdade, é um horizonte estranho e assustador para os mais ardorosos revolucionários também. Se a bárbarie parece instalada nas mais finas camadas de sustentação do status quo da sociedade de classes, deixando os socialistas atordoados com o fascismo nosso de cada dia, de que modo reverter o modus operandi do "pensamento evangélico" para a política?

Na oportunidade em que falei aos meu colegas do CEU, pontuei duas críticas que deveriam ser levadas em consideração para uma reorientação da prática política dos evangélicos, e que eu entendo que seriam mais adequadas às perspectivas cristãs.

A primeira crítica vem no sentido de defender a autonomia dos cristãos evangélicos para defender suas escolhas eleitorais. Todo debate no interior da igreja deve ser bem-vindo, o que caminha justamente no contrário das atuais práticas políticas de orientação de voto feita por pastores, bispos e apóstolos em diversas denominações evangélicas do nosso país. O "voto de cajado", termo criado pelo FALE-RJ para designar o típico voto de cabresto no interior das igrejas, difundiu-se como praga, e seu funcionamento se tornou ainda mais complexo e estruturado na medida em que denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) passaram a aplicá-la, influenciando a reorganização de práticas políticas em todo campo religioso e político brasileiro. Registro aqui a citação de Flávio Conrado, da revista Novos Diálogos: "O voto de cajado apequena o legado ético do cristianismo, leiloa consciências individuais e perde uma grande oportunidade de educação política para uma projeto democrático-republicano de nação".

Com a segunda crítica, desejo apontar um novo norte de atuação política, que não vise a defesa do moralismo barato, mas a defesa dos oprimidos. No lamentável vídeo em que o pastor Paschoal Piragine Jr. registrou sua pregação contra o PT nas eleições de 2010, a voz feminina que ali narrava o perigo da institucionalização da iniquidade também indagava: "Cadê a igreja? Ela se fechou em seus problemas internos. Adormeceu, ficou passiva. Precisamos clamar pelo nosso país. Igreja brasileira, reaja!". Se eu concordasse com esta frase, simplesmente estaria imerso em contradição. A igreja não é apenas visível, como também age espalhafatosamente em defesa de seus próprios interesses. A igreja brasileira não precisa "reagir" pelo simples fato de que a igreja já está em ação! E para nossa vergonha, com as intenções mais equivocadas. O que esperamos da igreja não é uma reação, mas uma completa reorientação de sua própria prática política. E aqui defendo claramente: a igreja deve se comprometer com a defesa dos oprimidos. Deve questionar a desigualdade social. Deve repudiar a exploração de classe. Deve rejeitar toda violência por motivo de raça, gênero, orientação sexual ou religião. Deve afirmar a defesa dos direitos humanos. Reivindicar a garantia de direitos sociais à toda população, em especial aos mais necessitados. E rejeitar qualquer barganha de interesses religiosos ao Estado, em respeito ao caráter laico do mesmo.

A defesa dos valores cristãos passa necessariamente pelo questionamento da opressão e pelo respeito à diferença e à democracia. Nosso norte deve assumir a forma da luta contra todo terror imposto pelo homens (Sl. 10: 17-18), até que a justiça corra como um rio perene (Am. 5:24).


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Sydnei Melo


sábado, 31 de dezembro de 2011

Dona Maria José

Pensava no que dizer como mensagem de final de ano para meus queridos amigos e leitores. Normalmente, a tendência é rememorarmos os momentos bons que vivemos no ano que se passou, e repensar aqueles que de alguma forma nos mostraram a necessidade de rever posturas e opiniões. Nada mais tradicional e batido, mas não menos importante. E, francamente, posso dar graças a Deus por um ano de muitas batalhas enfrentadas, muitos sonos perdidos, muitas preocupações, mas que coroou-se de maneira vitoriosa. E muitos de vocês, que leem estas palavras, que me acompanharam pessoalmente, ou pela internet, sabem bem que tortuosa e surpreendente foi esta estrada percorrida ao longo de 2011.

Porém, ao invés de fazer uma retrospectiva, resolvi contar uma história. Uma história que aconteceu comigo há alguns dias atrás.

Alguns amigos acompanharam o périplo que fiz para chegar a Aracaju a fim de comemorar as festividades de final de ano com minha família. Havia perdido meu voo, e após passar a madrugada no aeroporto de Guarulhos, consegui finalmente embarcar em um voo rumo a Salvador, onde me dirigi a rodoviária local para comprar uma passagem de ônibus que chegaria à capital sergipana. Só sairia no início da tarde. Então fui ao shopping Iguatemi, que ficava nas proximidades, almocei, descansei, e me dirigi por volta das 12:45 à rodoviária, para esperar o ônibus, que sairia às 14. Aproveitei todo esse tempo para finalmente concluir uma tarefa que há alguns anos procurava fazê-lo: concluir a leitura integral da bíblia sagrada.

Era isto que eu fazia quando uma senhora, por volta dos seus sessenta anos, se aproximou de onde eu estava sentado. Porém, logo em seguida, precisou voltar ao guichê da empresa de ônibus onde havia comprado sua passagem. Não queria carregar suas coisas até lá, e então solicitou que eu observasse suas coisas e guardasse sua cadeira no setor de espera, para que finalmente resolvesse seus problemas. O que, tranquilamente, não objetei.

Passaram-se cerca de 30 minutos até ela retornar. Tempo bastante demorado, por sinal. E eu, naturalmente, estava preocupado: "Ela vai retornar?"; "e se der meu horário, o que que eu faço?". Preocupações desfeitas com seu regresso...

Após se sentar, a senhora aguardou um tempo, observou-me, e resolveu perguntar-me a respeito do capítulo de Apocalipse, que eu estava lendo. Começamos, desta forma, uma conversa agradável, conde falávamos sobre nossa fé, o que entendíamos a respeito das traduções da bíblia, qual era melhor, qual era pior, sobre como agir na vida, sobre agradecimento, etc.

Neste tempo, aquela senhora, cujo nome eu ainda não sabia, resolveu me fazer uma confissão.

Ela contou pra mim que estava muito preocupada pelo problema com a passagem. E como precisava acertar aquilo, mas não sabia o que fazer com suas coisas, acabou confiando a mim, um garoto qualquer com o qual ela nunca tinha conversado, seus pertences. Disse que confiou no fato de eu estar com uma bíblia no colo, lendo-a. Confiou em uma ética e retidão de caráter que ela associou ao fato de eu estar com minha bíblia em mãos. Acho que não preciso dizer que, mesmo em uma circunstância como essa, tal procedimento não costuma ser o adotado por qualquer pessoa. Pra ser sincero, eu mesmo não agiria assim...

Quando ela resolveu o problema, ela se dirigiu equivocadamente ao setor de desembarque da rodoviária de Salvador, que é bastante parecido com o setor de embarque, onde eu me encontrava. Daí sua demora. Ficou procurando aquele garoto com a bíblia na mão, pensando onde, afinal, ele estaria. "Escafedeu-se? Sumiu com minhas coisas?", ela pensou. Depois de um tempo me procurando, finalmente descobriu que estava no lugar errado, e aliviou-se ao me encontrar sentado na mesma cadeira de espera de antes.

Depois deste relato, ela olhou pra mim e disse que falava aquilo em tom de confissão, pedindo perdão a mim e a Deus por ter pensado qualquer coisa que desconfiasse da minha moral, daquele garoto que podia colocar a perder sua imagem de um rapaz de fé por ter feito qualquer coisa contra ela. Que estava feliz por ter me encontrado, e desculpando-se por ter, em determinado momento, desconfiado de minha retidão.

Aquelas palavras me deixaram profundamente emocionado, e era extremamente difícil para mim encontrar um chão. Ela nunca havia me visto. Ela não havia feito nada contra mim. Não havia me criticado. Ela poderia simplesmente deixar a história passar, e seguir feliz pra sua casa, com suas coisas. Mas não. Ela confessou um "pecado" para mim e para Deus!

Eu poderia terminar o meu ano orgulhoso das conquistas e dos aprendizados que tive, de cada batalha à qual a vida me conduziu. Mas todos os motivos, todos os ensinamentos e vitórias pelos quais posso agradecer neste ano dificilmente superam este aprendizado que apareceu de surpresa e cicatrizou o meu cotidiano. Antes de qualquer possível vanglória, Deus dava um tapa na cara do meu orgulho, me conduzindo a reflexões de horas, dias, a respeito daquele momento. Me fazendo pensar onde estavam meus planos, minha postura frente às pessoas e aos acontecimentos. Para onde eu estava destinando o meu caráter e os meus esforços.

Descobri que seu nome era Maria José. E agradeci: "foi um prazer conversar com a senhora, dona Maria José".

Se há algum desejo que eu deva fazer para o ano novo que vem por aí, o faço para ela, bem como para todos vocês, familiares, amigos, leitores: a possibilidade de refletir frequentemente sobre o destino que se deseja assumir para sua própria vida, e no que isto vai implicar. O quanto de vitória, de perdão, de gratidão, de luta, de união, estarão presentes na sua rotina. E olha que o mundo anda realmente carente destas coisas...

Feliz ano novo.

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Sydnei Melo

domingo, 21 de agosto de 2011

A fé atéia

Nesta semana tive acesso a um diálogo a respeito de Deus, fé, ciência, ceticismo, entre outros elementos que compõem a complexa discussão que tem sido travada, principalmente no mundo anglo-saxão, entre ateus e religosos. Refiro-me a um vídeo que nos mostra um debate entre o biólogo Richard Dawkins e o teólogo protestante Alister McGrath.

Dawkins é reconhecido em sua área de formação por conta de seus trabalhos sobre evolucionismo e genética, mas tem ganhado notoriedade tambem por suas reflexões que culminaram na escrita do polêmico Deus, um delírio (2006), uma entre tantas obras que compõem a recente onda de trabalhos desenvolvidos em defesa do ateísmo por intelectuais como Sam Harris e Christopher Hitchens; McGrath é um eminente teórico anglicano, com trabalhos a respeito da relação entre as ciências naturais e a fé cristã, e um dos teólogos mais lidos do mundo atual. Entre suas obras, há dois títulos voltados diretamente ao debate promovido pelo biólogo: O delírio de Dawkins (2007) e O Deus de Dawkins: genes, memes e o significado da vida (2008).

O diálogo promovido no vídeo não se trata, aparentemente, de uma tentativa de estabelecer diálogos e conexões entre a fé e os postulados científicos, mas sim de esclarecer e confrontar posicionamentos a respeito de categorias polêmicas. Trata-se de uma entrevista, produzida por iniciativa do próprio Dawkins, prontamente aceita por McGrath. Mais do que perguntas, McGrath está ali para oferecer respostas, imediatamente confrontadas por Dawkins. E neste diálogo pude perceber que, diferente do que Dawkins alega ter ouvido de outros religiosos com posições mais acirradas e fundamentalistas, McGrath articula de maneira muito interessante e sensata as aparentes divergências a respeito da forma e do desenvolvimento da natureza. Mas tambem, e acredito que seja o grande ganho deste debate, demonstra que a grande chave da cosmovisão cristã não é a forma do mundo natural, ou o significado de todos os episódios históricos, mas sim a ótica que o cristianismo concede para se olhar o mundo e, através desta ótica, agir na história, tendo como eixo a figura de Cristo: morto, crucificado e ressurreto, em uma demonstração de sacrifício realizada em favor e por amor aos homens. Talvez seja esta a figura que mais confunda os profundos críticos da religião, uma vez que parece inconcebível a imagem de um Deus que se encarna em um Filho, e é entregue por homens aos calvário por amor à própria humanidade. E é claríssimo como Dawkins demonstra, durante esta entrevista, que tal idéia seja profundamente absurda, mas através de argumentos tão esvaziados quanto as alegações dos mais agressivos religiosos fundamentalistas.

Mas gostaria de apontar um momento em específico desta entrevista que me deixou um tanto consternado.

Se valendo do exemplo dos homens-bombas, Dawkins alega uma profunda preocupação com o fato de que, diferente de sua perspectiva de conflito no qual espera que seja possível sentar-se e conversar de maneira democrática, um extremista jamais se colocaria em um diálogo aberto, mas explodiria a ele e a seu interlocutor. Por admitir que a fé é capaz de causar esta coragem para que alguém dê cabo de sua própria vida e destrua outras, o biólogo questiona McGrath se é realmente correto educar crianças em uma perspectiva religiosa. O teólogo anglicano aponta que a chave para entender esta questão não seria a fé por si mesma, uma vez que ela tanto pode ser benéfica como tambem bastante perigosa; mas que se deveria partir de idéia de natureza humana para compreender as raízes de uma violência que instrumentaliza tanto a religião quanto o ateísmo - e uma análise da história do ateísmo no século XX demonstraria isto. Dawkins afirma que McGrath provavelmente se refere à Stalin, e o teólogo complementa esta referência ao afirmar que, para Stálin, que se pautava pela ideologia marxista de cunho profundamente anti-religioso, a religião representava uma ameaça ao poder, sendo por isto duramente combatida. Finaliza afirmando que um problema principal seria o dogma, cujo poder seria intensamente destrutivo. Ora, para Dawkins há um ponto fora da curva: recusa-se a acatar a idéia de que o ateísmo pudesse fornecer bases para a violência stalinista ou hitleriana. Segundo Dawkins, o ateísmo de Stalin, ou de Hitler, é acidental (!). Em contrapartida, McGrath afirma que seria fácil compreender a crítica cética e humanista à religião no século XIX, considerando as inquisições como exemplos máximos; mas a história do século XX, que apresenta como um de seus episódios a violência perpetrada por um ateísmo institucional, conduziria à conclusão de que tais episódios não provam ou negam a existência de Deus, mas evidenciam que os homens devem ser responsáveis por suas ideologias e seus impactos nas formas como vivemos. Finalmente, Dawkins recusa-se a aceitar o termo ateísmo institucional, alegando mais uma vez que ideologias podem ser produtoras de fenômenos violentos, e que a fé pode ser acrescentada a esta lista, mas não o ateísmo. Este volta a ser tomado como um acidente no percurso de Hitler e Stalin.

É impossível não registrar que fiquei impressionado com a argumentação de Dawkins. Porque a crítica cética ao pensamento religioso é profundamente marcada pelos fatos históricos, e a recente onda neoateísta só foi possível devido à força que o fundamentalismo religioso tem exercido no cenário político internacional, bem como nos debates a respeito dos direitos civis. Isto é claramente observável. Porém, valho-me da surpresa ao perceber em um profundo crítico da religião uma perspectiva tão aguerrida de defesa do ateísmo como uma ideologia imaculada. E é provavelmente neste ponto que se encontram algumas das principais fraquezas dos argumentos de intelectuais como Dawkins e outros que constroem esta militância em prol do ateísmo. Como argumentar a fé como um elemento de necessária superação, se a própria defesa desta superação necessita de uma negação simplista dos exemplos históricos que a contrariam? Como requerer crédito à defesa de uma postura anti-religiosa, se esta mesma postura necessita de um dogma, uma fé, na qual se basear?

Acredito que as teses desenvolvidas por estes intelectuais pecam justamente naquilo que mais rechaçam. Invocam um extremismo tão semelhante ao dos fundamentalistas religiosos para requerer a eliminação total da religiosidade como o verdadeiro caminho à paz humana. Não consigo definir esta crença na plena bondade humana e na plenitude de paz promovida pela razão senão como uma profunda fé atéia. E tal como outras tantas perspectivas dogmáticas (religiosas ou não), demonstra-se infrutífera diante de qualquer possibilidade de conceber parâmetros políticos e culturais verdadeiramente democráticos.

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Sydnei Melo

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um laicismo equivocado

Iranianas choram por conta da decisão da FIFA pela preservação de um
espaço público laico e democrático

Foi com pesar que soube da notícia de que a seleção iraniana feminina de futebol havia sido desclassificada das eliminatórias para a próxima edição dos jogos olímpicos, que acontecerão em Londres, em 2012. E o mérito não é o futebol desta equipe, que nunca vi em campo. A eliminação é decorrente do fato de elas terem entrado em jogo, contra a seleção jordaniana, cobrindo suas cabeças com o véu (vestimenta mais do que conhecida, e comum na cultura dos países de maioria muçulmana).

A FIFA, entidade máxima do futebol mundial (a despeito de todos os casos de corrupção que a envolveram nestas últimas semanas), estabeleceu protocolo para que nos jogos de futebol sejam proibidas quaisquer manifestações de caráter ideológico, pessoal, comercial e, como se vê, religioso.

Discussão semelhante, a respeito de manifestações religiosas, surgiu na Copa de 2010, por conta de críticas a jogadores que, em suas entrevistas ou em comemorações de gols, faziam vistosas exibições de textos com referências a figura de Jesus Cristo, ou declarações em que enfatizavam seus agradecimentos a Deus.

Esta busca por um terreno laico para o exercício do esporte, como algumas autoridades do mundo da bola, principalmente europeus, tem procurado afirmar, parece estar em um âmbito bastante equivocado. Eu poderia dizer até, perigoso.

Sempre fui crítico deste tipo de política de contenção de manifestações. No primeiro momento em que surgiram as críticas aos jogadores cristãos a respeito de seus proselitismos dentro das quatro linhas, sempre concordei que qualquer exagero deveria ser discutido e trabalhado em outras esferas que não o da proibição pura e simples. O futebol, como principal esporte mundial, envolve diversas identidades culturais, inclusive religiosas. Portanto, sempre entendi que atitudes sensatas deveriam trabalhar o esporte como espaço democrático de manifestação de idéias e identidades, sob a égide da tolerância e do diálogo.

Agora, a proibição da seleção feminina iraniana de participar das próximas olímpiadas, por conta do uso do véu, é evidência maior de que, não apenas a FIFA não se dispõe à construção de um diálogo internacional a respeito das diferentes identidades culturais, como demonstra que sua decisão bebe da mesma fonte das políticas de intolerância secular que ascendem em um número significativo de países europeus, baseadas no discurso de que o espaço público laico deve ser preservado de qualquer interferência de fundo religioso, e que todos os cidadãos, a despeito de suas crenças e valores, deve submeter-se em última instância à tutela do Estado nacional e isento de valores religiosos.

É necessário observar, porém, que tais políticas inserem-se em um contexto agudo de emergência de uma nova direita nacionalista, temerosa com o ingresso de contingentes de imigrantes, sobretudo vindos de países de predominância muçulmana - os mesmos países que, em época anteriores, foram sugadas por estes Estados europeus, antigos impérios coloniais que interferiram (e até hoje interferem) na soberania destes povos.

Em tempos de debates acalorados sobre a inclusão de novos atores sociais na cena política, de um necessário revigoramento das discussões a respeito do multiculturalismo, e de um novo ascenso do movimentos democráticos (no mundo árabe, e que já bate à porta dos países europeus), a política de intolerância à identidade religiosa só possibilita afirmar que o laicismo, como eixo organizacional do Estado e da sociedade contemporânea, necessita assumir um novo significado, pelo qual não seja capaz de construir (e nem mesmo de tangenciar) discursos de exclusão de identidades culturais, sobretudo religiosas.

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Sydnei Melo

terça-feira, 15 de março de 2011

Terremoto Teológico

O mundo foi surpreendido tristemente pelo terremoto, seguido de uma tsunami, que devastaram o norte do Japão na última sexta-feira, deixando centenas de mortos e e milhares de desaparecidos. E à partir disto, manifestações e discussões diversas surgiram na opinião pública a respeito do fenômeno.

Faço referência a uma delas, que tratou-se dos cristãos evangélicos discutindo o controle divino, ou não, deste episódio fatal. Infelizmente, muitas farpas foram soltas no meio deste debate. Afinal, tratar temas como a soberania de Deus sobre a história e a natureza é sempre uma discussão de viés extremamente complexo, e que na maioria das vezes não atingem conclusões importantes (e isto se não forem completamente estéreis).

Há pouco mais de um ano, quando ocorreu o terrível terremoto que arrasou o Haiti, ceifando centenas de milhares de vidas naquele país miserável e abandonado, um professor universitário, que se encontrava no país naquela ocasião, encaminhou um e-mail bastante sincero a seus colegas de trabalho, o qual iniciava com uma reclamação típica daqueles convictos da inexistência de Deus. Ora, dizia, que Deus é este que permite que uma tragédia como esta se faça? Como pode existir um Deus que aceite que ocorra barbaridade tamanha para gente tão sofrida?

Nestes últimos três dias, foi a vez dos cristãos se manifestarem com suas distintas posições. De um lado, em defesa de uma soberania divina plena sobre tudo e todos, cristãos defendiam a tese de que tais terremoto e maremoto, bem como todos os fenômenos sócio-históricos e naturais, jamais estariam fora do controle divino. O Deus onipresente, onisciente e onipotente jamais poderia ser soberano sem exercer a direção do mais microscópico fenômeno ao mais gigantesco, o que implica que a necessidade de seus fiéis é a de aceitar os fatos e buscar compreender o propósito presente no episódio.

Do outro, por compreenderem que Deus abdicou, por amor, de sua soberania, entendem que jamais aquele terremoto poderia ter acontecido mediante ordem divina. Abdicação esta que poderia signifcar, inclusive, a possibilidade de a história surpreender a Deus. Não se trata, desta maneira, de buscar o propósito por trás do fenômeno mortífero, mas exercer o ensinamento já enraizado no corações daqueles que crêem: orar e agir, inspirados pelo Pai e por seu amor, para consolar os que choram e sofrem.

À partir destas posições, diversos internautas, sejam teólogos e pastores ou simplesmente cristãos confessos, viveram um fogo cruzado de acusações. Teísmo aberto pra cá, fundamentalismo pra lá. Fariseus aqui, liberais ali. Houve inclusive quem alertasse um ao outro: isto é o que você pensa sobre deus. Mas Deus não é assim! Como se houvessem, profetas surgiram a rasgar o verbo na blogosfera cristã, gerando um debate infértil e inquisitório.

Considerando estas coisas, gostaria de fazer algumas pontuações.

Os dois extremos revelam a necessidade de se buscar um meio-termo, um equilíbrio. A dificuldade de sustentar qualquer destas posições mais radicais é evidente.

Vejamos: a argumentação que fala em nome da soberania absoluta de Deus mediante todos os fatos sociais e naturais corre o risco de assumir a ingrata afirmação de que o Deus que é a fonte de todo bem é também a fonte de todo mal. E por consequência, a fonte de todo pecado. Portanto, os terremotos no Japão e no Haiti, o genocídios em Ruanda, a queda das Torres Gêmeas, Auschwitz, etc, seriam fruto da suprema vontade divina para os propósito que bem Lhe entendem. Ora, não é preciso se estender longamente para mostrar que os relatos bíblicos evidenciam a constante desobediência do povo hebreu em relação a vontade de Javé. Mas fiquemos com um exemplo bem simples, o de Adão e Eva, que se alimentaram da árvore proibida por Deus (Gênesis 3). Aos que crêem em sua literalidade, o casal agiu em desobediência divina. Aos que a vêem de modo figurativo, a humanidade desafiou e optou por uma vida e uma história sem Deus. E óbviamente toda a criação lida com as consequências disto.

Já os que defendem que Deus abre mão de sua soberania, como se homem fosse, se arriscam em contrariar de maneira explícita passagens bíblicas a respeito do pleno conhecimento do Criador acerca de sua criação. Deus tem pleno conhecimento acerca da vida, do espaço, bem como do tempo passado e do tempo futuro, ou seja, todo o tempo: nada pode surpreender a Deus. O Salmo 139 é exemplar neste aspecto.

Mas então qual é a resposta possível a este problema? Esboço aqui minha visão.

Não se trata de não haver soberania. Esta é intrínseca a Deus, pois é o Criador cuidando de sua criação. A dimensão do tempo é distinta, posto que para Deus todo o tempo, o começo e o fim, são de sua alçada, e não apenas o presente, como é para a humanidade. É a clássica diferença entre Khronos e Kairós: o primeiro referente ao tempo humano e imediato, e o segundo, ao tempo de Deus. Se o tempo de Deus é o Kairós, significa que toda história está sob o olhar agudo do divino. Mas ter este olhar não significa controlar todos os fatos. A história vivida pela criação é a consequência de sua queda, portanto, de sua escolha de permanecer distante de Deus.

É isto que me leva a crer que nenhuma das três visões apresentadas aqui (incluindo a do nosso cético professor que testemunhou o terremoto haitiano) são justas. A soberania não tem a necessidade do controle total. Inclusive, controle este que, se quisesse, Deus poderia lançar mão (afinal, por ser o Criador, pode interferir da maneira como quiser no curso da história, como exemplifica Êxodo 7-12). Trata-se de compreender a permissão de Deus aos homens, o cuidar divino da humanidade sem amarras, para a qual Deus se humanizou mediante a vinda de Cristo, entregue em sacrifício por esta mesma humanidade, e vitorioso sobre a morte para proclamar: Eu Sou!

É justamente por esta reflexão sincera, ainda rabiscada, que creio que ela, a soberania, não deixa de existir, continuando como parte intrínseca da essência de Deus.

Resta-nos, assim, seguir a orientação de Nosso Senhor: orar pelos que sofrem e choram. Lutar pelos que sofrem e choram. Deixemo-nos inspirar pelo propósito divino, em nossos corações, para agirmos, em amor, pelas vidas sofridas atingidas por esta terrível catástrofe.

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Sydnei Melo

terça-feira, 8 de março de 2011

Sobre o meu samba ou Por quê não gosto de carnaval

2008, em idos tempos de Carnaval, compartilhei em meu blog pessoal breves e sinceros versos sobre o momento que se encerrava. Como agora, apesar das águas já serem de março.

Por isto, permitam-me compartilhar este texto, que relembrei com carinho nestes dias, iniciando desta maneira a minha empreitada neste espaço, com a qual nosso colega Ricardo Silva me honrou ao convidar-me.

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Foi-se o carnaval.

E foi-se sem que eu ao menos o sentisse. Assim.

Por que o carnaval explode colorido na ausência da Luz. Constrói o samba na ilusão da festa. Tateia o desejo no prezo da ausência. Reduz à nada o jugo desigual.

Estampa-se a vivacidade das gentes mortas.

Todo carnaval tem seu fim. E finda-se sem que eu ao menos o sinta. Assim.

E sorrio.

Por que o meu samba tem muita Luz.

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Sydnei Melo
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