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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Santa Ineficiência de Henri Nouwen


"Certa vez quando estava jantando com um grupo de escritores, a conversa começou a girar em torno da correspondência que recebemos de leitores. Richard Foster e Eugene Peterson mencionaram um jovem intenso que havia procurado direção espiritual tanto de um como do outro. Contaram que responderam da melhor maneira que sabiam, escrevendo cartas e recomendando livros sobre espiritualidade. Foster acabara de saber que o mesmo jovem na sua busca de respostas fizera contato com Henri Nouwen.
“Vocês não vão acreditar no que Nouwen fez,” ele disse. “Convidou este estranho a viver com ele por um mês a fim de poder aconselhá-lo pessoalmente.”
A maioria dos escritores protege com o máximo de zelo suas agendas e sua privacidade. Nouwen, que morreu de um ataque cardíaco em setembro de 1996, rompeu com tais barreiras de profissionalismo. Sua vida inteira, de fato, demonstrou uma “santa ineficiência”.
Treinado em Holanda como psicólogo e teólogo, Nouwen passou os primeiros anos da carreira correndo atrás de seus alvos, realizando e alcançando sucesso. Lecionou em Notre Dame, Yale, e Harvard, publicou em média mais de um livro por ano, e viajou extensamente como palestrante de conferências. Seu currículo era algo que parecia impossível de atingir — e era exatamente este o seu problema. Sua agenda apertada e a concorrência implacável estavam sufocando sua própria vida espiritual.
Nouwen foi para a América do Sul por seis meses, para investigar um novo papel como missionário ao terceiro mundo. Uma intensa agenda de palestras que o esperava quando voltou para os Estados Unidos só piorou as coisas. Finalmente, Nouwen caiu nos braços da comunidade L’Arche (da Arca) na França, que era um lar para pessoas com sérias incapacidades físicas. Lá se sentiu tão nutrido e apoiado que concordou em mudar para o lar da mesma comunidade em Toronto, no Canadá, chamado Daybreak (ou Amanhecer). Foi ali que Nouwen passou os últimos dez anos da sua vida, ainda escrevendo e viajando, mas sempre voltando ao seu abrigo.
Visitei Nouwen uma vez, e almocei com ele no seu pequeno quartinho. Só tinha uma cama, uma estante de livros, e algumas peças de mobília estilo Shaker (que originou na Inglaterra com um grupo cristão do século 18, e que se caracteriza pela simplicidade, praticidade, e ausência de ornamentação). As paredes não eram decoradas, com exceção de uma cópia de uma pintura de Van Gogh, e alguns símbolos religiosos. Um atendente da comunidade nos serviu com uma travessa de salada e pão. Não havia nenhum aparelho de fax, nenhum computador, nenhuma agenda na parede — neste quarto, pelo menos, Nouwen havia encontrado serenidade. A “indústria” da igreja parecia estar muito distante.
Depois do almoço, celebramos uma eucaristia especial para Adão, o jovem deficiente de quem Nouwen cuidava. Com solenidade, mas também com um brilho no seu olho, Nouwen dirigiu a liturgia em honra do vigésimo sexto aniversário de Adão. Incapaz de conversar, andar, ou vestir-se, profundamente retardado, Adão não dava nenhum sinal de compreensão. Parecia reconhecer, pelo menos, que sua família estava presente. Babou durante toda a cerimônia e grunhiu bem alto algumas vezes.
Mais tarde, Nouwen contou que levava quase duas horas para preparar Adão todos os dias. Dando banho nele, fazendo sua barba, escovando seus dentes, penteando seu cabelo, guiando sua mão para tomar o café da manhã— estes simples atos repetitivos se transformaram praticamente na sua hora de meditação.
Devo admitir que tive uma dúvida passageira se esta era a melhor maneira deste ministro atarefado usar seu tempo. Uma outra pessoa não poderia assumir estas tarefas manuais? Quando abri o assunto cautelosamente com o próprio Nouwen, ele me informou que eu estava entendendo tudo errado.
“Não estou sacrificando coisa alguma,” ele insistiu. “Sou eu, e não Adão, que está tirando o maior benefício da nossa amizade.”
Durante todo o restante do dia, Nouwen continuou a voltar para minha pergunta, mostrando várias maneiras em que havia se beneficiado do seu relacionamento com Adão. No princípio fora difícil, ele admitiu. O toque físico, o afeto, e a sujeira de cuidar de uma pessoa sem coordenação, não vieram facilmente. Mas aprendera a amar Adão, a realmente amá-lo. No processo, aprendeu como deve ser para Deus amar a nós — pessoas sem coordenação espiritual, retardadas, capazes de responder apenas com o que deve parecer a Deus como grunhidos e gemidos indistintos. De fato, trabalhar com Adão lhe ensinaram a humildade e o esvaziar-se que geralmente são alcançados somente por monges solitários depois de muita disciplina.
Nouwen disse que durante toda sua vida duas vozes competiam dentro de si. Uma o  encorajava a alcançar sucesso e realizações, enquanto a outra o chamava a simplesmente descansar no conforto de ser o “amado” de Deus. Somente na última década da sua vida foi que realmente ouviu àquela segunda voz.
No fim, Nouwen concluiu que “o alvo de educação e formação para o ministério é continuamente reconhecer a voz do Senhor, sua face, e seu toque em cada pessoa que encontramos”. Ao ler esta descrição no seu livro Gracias!, entendi por que ele não considerou perda de tempo convidar um estranho para morar consigo por um mês, ou dedicar duas horas por dia para cuidar manualmente de Adão.
Vou sentir falta de Henri Nouwen. Para alguns, seu legado consiste nos seus numerosos livros, para outros era seu papel como ponte entre católicos e protestantes, e para outros sua carreira distinta como professor nas universidades famosas do Ivy League (como Harvard, Princeton e Yale). Para mim, porém, uma única imagem capta melhor a sua pessoa: a do sacerdote enérgico, cabelos desarrumados, usando suas mãos inquietas para criar e modelar uma homília como se estivesse tirando do nada, celebrando uma eucaristia eloqüente para o aniversário de um homem infantil, incapaz de reagir, e tão deficiente que a maioria dos pais o teria abortado, se tivesse chance. Um símbolo melhor da Encarnação, seria difícil imaginar."

Philip Yancey - Revista Impacto, 29 de Novembro de 2011.


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Conhecendo um pouco sobre Santo Anselmo

Anselmo de Cantuária (1033/1034, Aosta - 21 de Abril 1109, Canterbury), nascido Anselmo de Aosta (por ser natural de Aosta, hoje na Itália), e também conhecido como Santo Anselmo, foi um influente teólogo e filósofo medieval italiano de origem normanda.

Foi Arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109 (sucedendo a Lanfranco, também um italiano), por nomeação de Henrique I de Inglaterra, de quem foi amigo e confessor, mas depois divergiu com ele na Questão das Investiduras. É considerado o fundador do escolasticismo e é famoso como o criador do argumento ontológico a favor da existência de Deus.

Viria mais tarde a ser canonizado pela Igreja Católica, e declarado Doutor da Igreja em 1720, pelo Papa Clemente XI. Santo Anselmo nasceu em Aosta, filho de um nobre, e de uma mãe rica, Ermenberga. Seguiu a carreira religiosa, estudou os clássicos e escreveu sempre em latim. Foi eleito prior em 1063, porque era considerado inteligente e piedoso. Sua biografia nos é contada pelo seu discípulo, Eadmero.

Foi comum na Idade Média que os religiosos buscassem o apoio da fé na razão. Anselmo escreveu uma obra sobre esse assunto. É considerado um dos iniciadores da tradição escolástica. "Não só a habilidade dialética fez de Anselmo o precursor da Escolástica, como também o princípio teológico fundamental que adotou: fides quarens intelectum. Foi ele também quem forjou uma nova orientação à teoria dos universais e que reverteu em grande proveito para os intuitos da Teologia racional" (SPINELLI, Miguel. O itinerário filosóffico de Anselmo de Cantuária, In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, t.64, f.1 2008, p. 247).

Anselmo buscava um argumento para provar a existência de Deus, e sua bondade suprema. Fala que a crença e a fé correspondem à verdade, e que existe verdadeiramente um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ele não existe apenas na inteligência, mas também na realidade. Anselmo desenvolveu uma linha de pensamento sobre essas bases, chamados de argumento ontológico, que foi retomada por Descartes e criticada por Kant, e ela estava numa obra chamada Proslógio. Ele parte do fato de que o homem encontra no mundo muitas coisas, algumas boas, que procedem de um bem absoluto, que é necessariamente existente. Todas as coisas tem uma causa, menos o ser incriado, que é a causa de si mesmo e fundamenta todos os outros seres. Esse ser é Deus. Seus argumentos não foram totalmente aceitos.

Anselmo chegou a arcebispo da Cantuária em 1093. Escreveu outras obras importantes, Do Gramático e Da Verdade, ambos em latim. Recebeu doações de terras para a Igreja, mas brigou com Guilherme, o ruivo, rei da Inglaterra pois não queria fazer comércio com os bens da Igreja. Isso foi considerado um desrespeito ao poder real, e Guilherme impediu Anselmo de viajar para Roma, desafiando o poder da Igreja.

Num dos seus primeiros livros, Monológio, em que apresenta sua visão de Deus, Anselmo fala que a essência suprema existe em todas as coisas e tudo depende dela. Reconhece nela onipotência, onipresença, máxima sabedoria e bondade suprema. Ela criou tudo a partir do nada. Anselmo procurava desenvolver um raciocínio evolutivo sobre o que considerava ser a verdade, que estava contida na Bíblia. Para Anselmo, o pensamento tem algo de divino, e Deus tem uma razão. Sua palavra é sua essência, e Ele é pura essência (essa noção não é nova) infinita, sem começo nem fim, pois nada existiu antes da essência divina e nada existirá depois. Para ela o presente, o passado e o futuro são juntos ao tempo, são uma coisa só. E Ela é imutável, uma substância, embora seja diferente da substância das outras criaturas. Existe de uma maneira simples e não pode ser comparado com a consciência das criaturas, pois é perfeito e maravilhoso e tem todas as qualidades já citadas. O verbo e o espírito supremo são uma coisa só, pois este usa o verbo consubstancial para expressar-se. Mas a maneira intrínseca que o espírito supremo se expressa e conhece as coisas é incogniscível para nós. O verbo procede de Deus por nascimento, e o pai passa a sua essência para o filho. O espírito ama a si mesmo, e transmite esse amor.

Para Anselmo, a alma humana é imortal, e as criaturas seriam felizes e infelizes eternamente. Mas nenhuma alma é privada do bem do Ser supremo, e deve buscá-lo, através da fé. E Deus é uno. Para contemplá-lo devemos nos afastar dos problemas e preocupações cotidianos e buscá-lo. Ele é onipotente embora não possa fazer coisas como morrer ou mentir. É piedoso, em parte por ser impassível, o que não o impede de exercer sua justiça, pois ele pensa e é vivo. Anselmo fala muito da crença divina do Pai, do filho e do espírito humano. Grandes coisas esperam por aquele que aceitar Deus e buscá-lo. Santo Anselmo influenciou muito o pensamento teológico posterior.


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