Mostrando postagens com marcador Ricardo Gondim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Gondim. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

História em construção

Disseram-me que à medida que envelhecemos, melhor nos lembramos do passado. Não é verdade! Embora não esteja nem próximo da terceira idade, já posso constatar: muitos eventos se perderam irremediavelmente sob os escombros de um vento corrosivo chamado tempo.

Gostaria de lembrar o dia exato em que eu e meu pai saímos para colher cajus num matagal. Se eu cravasse essa data, seria meu feriado nacional. Elegeria como uma data mais importante que o natal ou a páscoa. Esse dia faz parte de minha memória mais remota. Não consigo registrar data mais antiga; e nela conquistei uma selva. Vivíamos em um bairro muito ermo com um nome peculiar: Cocorote. Só depois de adulto, numa conversa informal, aprendi seu significado; quando um brigadeiro da Força Aérea Brasileira nos divertia em um jantar em sua homenagem, contando peculiaridades do mundo da aeronáutica. Sei que ele nem percebeu a minha felicidade quando jocosamente explicou o nome do meu primeiro bairro. Inicialmente nos informou que os americanos usaram Fortaleza como pista de apoio e reabastecimento para poderem alcançar a costa da África na II Guerra Mundial. Como na cabeceira da pista de decolagem, corria o imponente rio Cocó, os aviões subiam na rota do Cocó – “The Coco Route”, em inglês. Anos depois, construíram algumas casas, entre cajueiros e denominaram aquelas redondezas de Cocorote – obviamente em “cearensês”. Foi ali, antes de nascer o bairro da Aerolândia, que armado de um bambu, derrubei infinitos cajus. Minha primeira bravura em um mundo selvagem.

Gostaria de lembrar uma história que ouvi da vovó Maria Cristina quando me punha para dormir. Ela embalava uma rede e me embriagava de sono com as travessuras de Pedro Malazarte, figura do folclore nordestino. Há pouco, bisbilhotando uma livraria, achei um Pequeno Dicionário de Lendas, Fábulas e Contos Populares Nordestinos. Havia uma seção todinha para o tal Pedro Malazarte, peralta imaginário, aprontador de estripulias e que sempre se safa com uma lição de moral. Li o livro inteiro e não consegui associar nenhum dos relatos aos resíduos que ainda guardo dessas histórias fabulosas de minha infância. Se me lembrasse, emolduraria em minha sala. Com elas, iniciei-me pelo mundo da ficção, do romance. Com a voz doce de minha avó, viajei por mundo imaginários onde os gatos falavam, as botas papavam léguas e o final sempre era feliz.

Gostaria muito de lembrar da primeira música que ouvi em um ambiente evangélico, nos corredores da Liga Evangélica de Assistência – que abriga pessoas idosas e é mantido pela igreja presbiteriana. A família que me evangelizou, visitava esse abrigo todas as tardes de domingo, realizando culto entre os velhinhos. Logo ouvi cantando acompanhado por uma sanfona um homem cego, negro e com uma deformidade na pele horrível. Horrorizei-me com sua aparência: as pontas do seu nariz e orelhas cresciam como cogumelos gigantes. Mas sua música me marcou profundamente.

Narrava a vida dos personagens bíblicos que muito padeceram; depois afirmava que mesmo não possuindo nada nesse mundo, tinham o amor de Deus: “E por isso eram mais que milionários”. Se pudesse me lembrar dessa música, pediria para nunca mais cantarem “Parabéns para você” no meu aniversário. Esse seria o hino de minha vida. Para nunca esquecer que comecei a minha carreira cristã num asilo de velhos; ouvindo um cego negro e doente cantar que era mais que milionário.

Gostaria muito de me lembrar dessas coisas para ser grato, ser para sempre grato; ser com o meu coração, com o espírito grato a Deus, ele que me traz em seu regaço desde as minhas origens e com mãos de joalheiro escreve a minha história.


Ricardo Gondim

domingo, 7 de agosto de 2011

Teimosia e esperança

A humanidade é constante vai-e-vem. Avanços e retrocessos fazem a história alternar entre tragédia e farsa. Enquanto erradicamos a poliomielite, cometemos atrocidades. Revolucionamos as comunicações, mas permanecemos culpados dos mais horrorosos crimes.

No século XX, duas guerras mundiais se somaram a genocídios e extermínios étnicos para alterar, definitivamente, filosofia e teologia. Positivismo virou ingenuidade - quem ainda acredita no mito do progresso?

Em algum lugar, no Pentágono, numa cova rasa do Camboja, num escombro de Ruanda, jazem os ossos do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau. De Camus a Martin Luther King se discorreu sobre o “mal profundo” que aleija a humanidade. Ele existe. Entre luzes e sombras, a história se alonga, malévola, com miséria, aniquilamento de culturas, e muita, muita, dor.

Antigas formulações sobre Deus, desapareceram. Hemingway colocou na boca de Robert Jordan, personagem de “Por quem os sinos dobram”, o porquê de seu ateísmo. Para o autor, que testemunhara os horrores da Guerra Civil da Espanha, Deus não existe: “se existisse, Ele não teria permitido que eu visse o que vi com estes meus olhos”.

Por outro lado, escancarados os campos de concentração nazista, ficou claro que monstros existem. E como se multiplicam! Elie Wiesel narrou o dia em que assistiu ao enforcamento de um menino no pátio do campo onde estava preso. Perfilado, viu a criança agonizar, pendurada por minutos que pareciam uma eternidade. Ele lembra que o menino tinha "os olhos de um anjo feliz". Na fila, Wiesel ouviu alguém perguntar: “Onde está Deus? Onde ele está? Onde está Deus, então?”. Uma voz respondeu em seu próprio coração: “Onde ele está? Ei-lo – está aqui, pendurado nesta forca”. Deus estava morto e o facínora, vivo.

Nunca testemunhei tantos horrores. Mas o pouco que vi bastou para eu refazer conceitos. Revisei o que entendia por Deus. Remexi na compreensão da vida. Distingui esperança de ilusão, ideal de compromisso, ingenuidade de realismo e comecei o árduo processo de reconstruir-me sem o imobilismo do pessimismo e sem a superficialidade do otimismo.

Depois de várias reformas, continuo a acreditar na possibilidade da vida, no potencial humano e no aparecimento de artesãos da história. Mesmo quando o encarceramento da bondade parece inexorável, vejo a bondade humana como a erva que rompe o cimento. Sob camadas de iniquidade, a virtude consegue vingar. Vinho bom pode vir do lagar onde se esmagam as uvas da ira. Creio no bem que ressurge, teimoso, como força existencial. Vivo com a esperança, sei que ventos imprevisíveis reacendem o pavio que fumega.

Vinicius de Moraes, logo após a II Guerra Mundial, em 1946, disse que “o pranto que choramos juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal entendido”. Sim, a humanidade é viável - caso contrário já estaria sepultada com os dinossauros - mesmo em meio a tanta ferocidade.

A maldade, mesmo universal, mesmo arraigada, não conseguiu asfixiar o bem. Os patifes têm maior visibilidade, os canalhas amedrontam, sórdidos intimidam, contudo, "onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Por mais que o ímpio resfolegue ódio e o tirano oprima, a morte os alcançará. Eles passarão e o lento fluir da história continuará. Basta um fiapo de luz para que se desperte fome e sede de justiça em alguém. De onde menos se espera nascerão vigorosos esforços de paz.

Os Judas, os Brutus, os Pinochets, os Husseins, os Bushes, sumirão pelo esgoto da irrelevância. No fim, quando o Diretor da peça entrar no palco e avisar que o espetáculo acabou, o malvado será apenas uma nódoa. Ele próprio se condenará como personagem da Divina Comédia. E deixará, como único legado, a possibilidade de gerar indignação nos que acreditam em outro mundo possível.

Mesmo na sordidez contemporânea, o justo acena com a aurora de uma Nova Cidade; aguarda, como sentinela, a luz da aurora virar dia perfeito. O profeta do desespero tenta, mas homens e mulheres de bem resistem. É necessário que lampejos de esperança brotem nos atos simples de bordadeiras, poetisas, teólogas, operários, jornalistas, lavradores.

O milênio começou com poucas opções. Carpideiras choram no velório dos ideais - foram contratadas para despistar a festa do Grande Capital. Na ressaca do baile progressista, alguns não acreditam que sobará ânimo para o enfrentamento do desastre sócio-ambiental. Entretanto, a Imago Dei – imagem de Deus – nos olhos das crianças convida a humanidade a não entregar os pontos.

A doença que nos aflige não é para a morte. Ainda dá para virar o jogo. Enquanto pequeninos mantiverem louvor à vida e homens e mulheres não se ajoelharem no altar do cinismo, a promessa continua de pé: “Os mansos herdarão a terra”.


Ricardo Gondim

sábado, 6 de agosto de 2011

Um solilóquio

Resisto. Me inquieto. Sei da necessidade de deflacionar delírios onipotentes.

Hércules mal resolvido, vejo a vida passar, o cenário mudar. Os anos desembestados apressam o passo. “Onde fui parar?” Resisto, estranhado. Quero guiar o tempo.

Adio mortes. Esqueço que elas são necessárias; a semente não pode ficar só, enterrada. Esperneio. Tenho dó de Narciso humilhado. Devo guardar o que Walter Benjamin ensinou porque careço não só de “liberdade para” (freedom to) mas a “liberdade de” (freedom from). Enquanto eu só for "livre para" instrumentalizarei minha liberdade. Quando apreender o significado de “livre de”, entenderei o sentido de desapegar de nome, de respeitos institucionais, de ostentação. E aí, só aí, poderei simplesmente Ser.

Quero enfrentar a deliciosa e vertiginosa aventura de viver sem o chumbo que eu mesmo agrilhoei ao tornozelo. Ordeno à alma que retire as mordaças que permiti amarrarem na boca. Exorcizo o cenho medonho que fantasiei, e que me humilha sem sequer existir.

Quero entender o significado de simplicidade e perceber que a verdadeira vida se esconde no momento despretencioso, despido de grandiloquência. Os nascidos do Espírito são livres, leves, transparentes. Que minha simplicidade seja como uma janela aberta para a aragem sutil que sopra a infinita e imperceptível presença do Divino.


Ricardo Gondim

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A força que me assalta

Acredito que o amanhã continuará com semelhante tempestade.

No vai e vem da vida tudo continuará se esvaindo em vaidade.

A lágrima continuará a escorrer na valeta do desdém.

O uivo dolorido da criança que se desmancha em diarreia,

continuará abafado no imenso sono da noite sem folia.

A muralha que isola o esfarrapado continuará sólida.

A estrela do general, lustrosa, brilhará em cada estreia.

O fadista continuará ébrio, preso à força do além.

Insisto em não desistir da sorte, fonte de agonia.

Não sei explicar a força que me assalta.

Sem noção, retomo à minha sina,

minha vocação, mesmo por padecer falta

volto ao vício, sandice de minha alma menina.

Ressinto aceitar o preço de ser parceiro

do padecer e nem sei se resisto ao aceno celeste.

Se desisto do sucesso, da sagração que a tantos fascina

confesso, sofro ao morrer para a ambição corriqueira.

Abandono a conquista do sonho já vencido.

Assim, sigo em assumir, assimilar, encarnar

a singela façanha de perseverar na Esperança.


Ricardo Gondim

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Eternizar o Instante

Ainda adolescente, assisti a um filme russo produzido na antiga União Soviética. O filme contava a história de um rapaz destacado para o front na II Guerra Mundial. 

Depois de dois anos longe de casa, ele finalmente ganhou um salvo conduto para visitar sua casa por 15 dias. Ficaria com a mãe. Mas a viagem de regresso foi cheia de percalços: o trem quebrou, houve ataque de tropas inimigas, perdeu a conexão, nevou. Aconteceram tantos incidentes, tantos atrasos, que ao desembarcar na estação do vilarejo, o jovem só dispunha de meros quinze minutos antes de pegar o trem de volta. Se não fizesse, enfrentaria processo como desertor.

O inominável aconteceu: a mãe também se atrasou. Os únicos quinze minutos do rapaz foram gastos a andar, desesperado, de um lado para outro. O tempo se esgotou e ele se viu obrigado a subir no mesmo vagão que viera. No exato momento em que o trem começou a se afastar, a mãe chega. A dramaticidade do filme atinge ao ponto máximo quando a mulher corre. Com a locomotiva já em movimento, filho e mãe mal conseguem tocar a ponta dos dedos.


O esforço da viagem se resumiu a esse simples toque, e a uma mera troca de olhares. Na última cena, o vagão some na curva, enquanto o rapaz se recosta, aliviado, no assento de madeira. Ele está feliz, com um leve sorriso nos lábios. O filme deixou uma mensagem: quando amamos, qualquer encontro, mesmo fluido, rápido, impermanente, é precioso.

Na vida, temos duas dimensões: passado e futuro; um passado que se alonga e um futuro que se encolhe. Nunca temos o presente. O instante nos foge. O presente escapa, esfumaça-se, dilui-se. A única constância que existe é o fluxo do devir que transforma futuro em passado. E não há nada ou ninguém que possa impedir.

No rápido hiato entre porvir e pretérito, alguns acontecimentos se perdem, outros se eternizam. Com o passar dos anos a memória vai se tornando seletiva. No que vivenciamos, apenas um punhado de coisas fica armazenada; algumas doloridas, outras felizes.

Sempre que guardamos algum evento, eternizamos o instante. Ficam com a gente tanto coisas boas como ruins. Carregamos em algum recinto da alma, cicatrizes, traumas, olhares ferinos, frases destruidoras, gestos ameaçadores. Também mantemos, como flash, incentivos, abraços solidários, acolhimentos, sorrisos.

Participei de reuniões que já não recordo a data. Dia, mês e ano se apagaram, mas consigo perceber o semblante de pedra das pessoas que lá estavam, posso repetir alguma frase agressiva e ainda noto a mão gelada que me cumprimentou na despedida.

Esqueci o nome de amigos. Perdemos o contato e já não sei por onde andam, mas posso descrever, piadas, brincadeiras e sorrisos que fizeram desses amigos a riqueza de minha história.

Meus pais ficarão eternizados dentro de mim. Bem criança, lembro de que o dedo estendido do papai substituía a sua mão. Sempre que saíamos para algum lugar, ele cerrava o punho para deixar apenas o indicador para eu segurar. Aquele dedo era minha âncora – só de lembrar, sinto-me forte. Ficou impregnada a iniciativa da mamãe de passar a limpo o meu dever de história do Brasil. Desde aquele longínquo quarto ano primário, as páginas do caderno, com sua letra bem desenhada, continuam nítidas.

Sou um museu de imagem e som. Vez por outra visito a sala onde ouço vozes e projeto filmes com a Carolina engatinhando, a Cynthia arengando para não comer e o Pedro aprendendo a andar de bicicleta. Nesses arquivos, recebo o abraço da Geruza, no aeroporto, para me receber de uma longa viagem ao exterior.

Acredito que viver se reduz ao esforço de não deixar que a fração diminuta do que entendemos por tempo se disperse, mas continue impregnada na alma. Sim, viver é estocar memórias até o momento em que o corpo vai notar que vida está nos derradeiros centésimos de segundos. Aquele instante em que veremos, num relance, tudo o que entesouramos; quando fecharemos os olhos com o sorriso do jovem soldado russo.


Ricardo Gondim

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Deus nos livre de um Brasil evangélico

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadú? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.


Ricardo Gondim

sábado, 1 de janeiro de 2011

Sonhos e utopias (im)possíveis

Morre mais um ano. Parecidíssimo com os demais, os meses desta década vieram marcados por tragédias que se misturaram com poucas alegrias. Rio de Janeiro e Haiti se misturaram às dores dos alagoanos. O sofrimento de tantos miseráveis clamou em alto e bom tom: a humanidade não pode esquecer-se de que o preço de um possível descontrole ambiental será altíssimo. O conflito iniciado pelo Ocidente, que tenta esvaziar a agenda fundamentalista muçulmana, parece não ter fim. Mais uma vez a história lembra que é mais fácil começar uma guerra que terminar.

Com a queda de alguns mitos da modernidade, o mundo padece de uma enxaqueca histórica. Não se acredita mais no progresso sem limite nem na agenda consumista do neoliberalismo. Sobrou uma ressaca, que imobiliza os ideais e as ações transformadoras da história; ressaca que alguns chamam de pós-modernidade. Se a alternativa da alienação não convém, parece que não há vigor para sonhar na reconstrução de outro mundo possível. Porém, sonhar é preciso. Nossos filhos e filhas não merecem herdar um mundo onde impera o desdém.

Trabalhemos pelo alvorecer de um novo dia em que os rios não poluam os oceanos; os peixes não morram asfixiados em águas podres; o raiar do sol seja menos abrasador, pois homens e mulheres conscientes restauraram as camadas estratosféricas porque adquiriram uma nova consciência ecológica. Aguardemos o dia em que novas leituras do Gênesis devolvam a humanidade à sacralidade do jardim e todos se comprometam a cuidar da criação, recompondo a natureza, que geme devido à insanidade do pecado.

Trabalhemos pelo despontar de um novo tempo em que se acabarão as fronteiras entre países, os muros étnicos e as cancelas rodoviárias; em que nos guichês de passaporte o pobre não seja impedido de procurar fugir de sistemas iníquos e o doente encontre o hospital que salvará a sua vida.

Trabalhemos pelo futuro quando espadas serão transformadas em arados. Procuremos ressignificar a esperança de que os bilhões de dólares gastos com armas e bombas sejam relocados em tratamento de esgoto, que aumenta a expectativa de vida de milhões de crianças. Repitamos: é possível acreditar que as fortunas desperdiçadas em cassinos sejam úteis em pesquisa pela erradicação da malária. Esforcemo-nos por esboçar outra realidade, em que se considera inadmissível uma bolsa custar mais que dois anos de salário de um operário.

Trabalhemos para que surjam muitas Madres Teresa de Calcutá em diversos continentes, todas empenhadas em acolher os moribundos. Sonhemos com mais profetas como Martin Luther King -- e que eles não sejam exceção rara. Concebamos que as penitenciárias políticas serão implodidas e que ninguém jamais seja preso por pensar diferente. Criemos um mundo em que os instrumentos de tortura se tornem peças macabras de museu e que não reste nenhuma ilha onde se maltrata outro ser humano em nome de ideologia, religião ou regime político.

Trabalhemos para que deixem de existir corregedorias, grampos telefônicos e espiões e que seja proibido bisbilhotar a privacidade das pessoas. Contribuamos para que o mundo se liberte das delações traiçoeiras contra o próximo. Convençamos os nossos filhos que é dever de todo homem e de toda mulher proteger o seu irmão. Esforcemo-nos para que os orfanatos não precisem manter as crianças por muito tempo porque as filas de adoção se multiplicaram; também, que os idosos nunca fiquem esquecidos em clínicas, à espera da morte.

Trabalhemos para que se multipliquem as orquestras e que os prefeitos construam coretos em todas as praças; e que as famílias se reúnam nos fins de semana para ouvir a apresentação vespertina de música. Não deveria ser considerado um delírio esperar que se projetem bons filmes em vilarejos e em cidades remotas. Oxalá bibliotecas ambulantes distribuam poesia para os tristes e boa literatura para os sonhadores; que escolas treinem bons malabaristas para a alegria das sextas-feiras e que mais trapezistas desafiem a gravidade nos picadeiros.

Trabalhemos para que os experimentos com células-tronco deem certo, e que muito em breve os tetraplégicos sejam curados e saltem como gazelas pela vida. Incentivemos quem trabalha no Projeto Genoma; e que eles terminem de mapear a estrutura da vida biológica para que se reduza o número de crianças com doenças genéticas.

Trabalhemos para que o turismo sexual seja banido e extinto entre os povos; que a pedofilia se torne um anacronismo; que se desarticulem os cartéis de droga -- o tóxico tem que parar de ceifar vidas, já que, um dia, pouquíssimas pessoas precisarão entorpecer a mente para tolerar a vida; os êxtases virão do encontro com a beleza, a bondade e a solidariedade.

Trabalhemos por um novo céu e uma nova terra. Todavia, reconheçamos que esse porvir não acontecerá enquanto a humanidade tolerar o pressuposto da sobrevivência do mais forte, ou da exclusão racial e da discriminação social. Optemos pelo legado de sabedoria que nossos pais nos deixaram, que nos convoca a construir a história. Incumbidos por Deus de promover o bem, represar o mal e disseminar a justiça, acreditemos que o futuro chegará de acordo com a semente que plantarmos no presente.

O futuro que ansiamos nascerá tanto de nossas mãos como de nossos ouvidos. Primeiro, ouçamos as verdades e os princípios eternos que Jesus nos ensinou. Depois, arregacemos as mangas. A vida espera por nós. Nossos filhos e netos não podem correr o risco de sermos negligentes ou apáticos. Qualquer hesitação pode redundar em desastre. Já é tarde!


Ricardo Gondim

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O rosto de Deus

Rafael, Michelangelo e vários outros pintores tentaram retratar o rosto de Deus. Foram infelizes. Como mostrar na tela quem nunca foi visto? Com a proximidade do Natal, mais artistas procuram esboçar o que imaginam ser o rosto de Deus.

Ele se parece com uma criança? É o frágil bebê das manjedouras? Talvez; o reino do céu pertence aos pequeninos, aos que mamam. Ao tentar desenhar o mistério, o artista termina com um ídolo.

O rosto de Deus, entretanto, pode ser experimentado nos sem-teto que perambulam pelas ruas e dormem nos viadutos das grandes cidades. Quando Jesus nasceu, a família estava sem moradia certa, não possuía recursos para pagar uma hospedaria e viu-se obrigada a refugiar-se em um estábulo.

O rosto de Deus pode ser percebido em vítimas de preconceito e em injustiçados. Sobre o menino que nasceu em Belém pairou uma dúvida: ele era de fato filho de José? O casal não inventara aquela história toda para se safar de um rolo?

O rosto de Deus se revela nos desprezíveis, nos que foram condenados à margem da história. Quando o menino nasceu, ninguém notou ou escutou o alarido dos anjos. A trombeta que anunciou paz na terra pela boa vontade de Deus passou desapercebida da grande maioria. Apenas um punhado de pastores foi sensível para presenciar o momento mais importante da história.

Qual o rosto de Deus? Ele não se parece com os cartões postais ou com o menino de barro das lapinhas. Deus é igualzinho a Jesus. E Jesus é bem parecido com o vizinho do lado, com a mulher que pede socorro na delegacia do bairro e com a família que chora a morte do filho no corredor do ambulatório.

Não é preciso muito para encontrar Deus, basta um coração de carne, humano.


Ricardo Gondim

Deus repousava na manjedoura

Há algum tempo, intrigado, comecei a questionar porque Jesus Cristo escandalizou fariseus, saduceus e doutores da lei. Nenhuma novidade me ocorreu: há séculos os judeus aguardavam o Messias. Eles viviam na expectativa política de que um Ungido se levantaria em nome de Deus. Nos setores mais politizados, o Messias viria como o grande libertador – uma encarnação melhorada e glorificada de Moisés; um Dom Sebastião dos tempos antigos. Para segmentos religiosos ortodoxos, o Messias chegaria para renovar os princípios da Torá. O cumprimento da Lei representaria uma renovação espiritual que resgataria o povo para um novo tempo.

Mas além dessa grande espera, Paulo também diz que Jesus foi loucura para os gregos. O Nazareno se revelou um retumbante fracasso porque nunca deixou colar nele as expectativas judaicas e depois, nem as gregas, sobre as ações da divindade. Via-se claramente que em Jesus Deus não se parecia com o Movedor Imóvel de Aristóteles. Ele colocava teologia e filosofia de ponta cabeça.

Se o Deus dos fariseus zelava pelo cumprimento estrito da lei, Jesus a tornava flexível pela misericórdia. Quando perdoou a mulher apanhada no próprio ato do adultério, deixou claro que o poder do amor dobra a rigidez da lei: “Onde estão os teus acusadores. Eu não te condeno, vá em paz e não peques mais”. Nos casos da siro-fenícia, do centurião romano, da “impura” devido a uma menstruação crônica, do endemoninhado gadareno, do cego da calçada, fica claro que qualquer um pode aproximar-se de Deus sem exigências ou protocolos religiosos. Quando Jesus estava por perto, esvaziava-se a ideia de “não-eleito”.

Jesus não comparou Deus a um fiscal punitivo, mas a um pai machucado. No alpendre, enquanto espera a volta do filho perdido, os olhos úmidos do pai eram os olhos de Deus. Sim, mesmo desolado, o velho corre ao encontro do filho sujo, mal cheiroso e o cobre de beijos.

Ricardo Peter intuiu corretamente o porquê do ódio dos fariseus contra Jesus:

Os fariseus começaram a perceber que Jesus estava mudando radicalmente a maneira de entender quem é Deus. Este Deus teria podido provocar confusão e dispersão entre as pessoas religiosas. O comportamento do Deus anunciado por Jesus, do Deus que demonstra um amor incondicionado pelos pecadores, começava a colocar o Deus dos fariseus na sombra. Tinha início uma luta de ‘Deus contra Deus.

A religião judaica antecipara um Deus mais forte que os antigos baalins, que causaram tanto problema. Jesus andou na contramão, ele tomou sobre si a fragilidade dos serviçais. Os conteúdos de sua causa não lidavam com poder, mas com serviço. Os tempos exigiam um líder que convocasse exércitos com a força letal superior às legiões romanas. Mas o Galileu preferia colocar uma criança no colo e dizer: “Dos tais é o Reino de Deus”.

A ambição era posicionar Israel como nação líder. O messias, certamente, vingaria séculos de opressão impostos por egípcios, persas, gregos e romanos. Mas eis que ele abriu o rolo da lei numa sinagoga e leu: “O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para pregar boas notícias aos pobres”. Se um homem assim, radicalmente humano, comprometido com a escória do mundo, se dizia a expressa imagem de Deus, tal homem precisava ser assassinado. Um Deus fraco não servia aos interesses da religião – como ainda não serve.

Além desta enorme decepção entre os semitas, os gregos também se horrorizaram. Se Deus encarnou assim, como sustentar as ideias de Aristóteles? Jesus não se assemelhava em nada com o conceito de Deus como “Ato Puro” ou como “Motor Imóvel”. O Rabi de Cafarnaum se movia de “viscerais afetos” por uma viúva a caminho de enterrar o filho, chorava diante da sepultura do amigo (a dor de homens e de mulheres dói em Deus; Isaías é enfático- 63.9 -: “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado”.), irritava-se quando a religião oprimia e se deixava molhar pelas lágrimas de uma prostituta. Deus não se mostrara apático.

Volto a Ricardo Peter com sua intuição sobre a revelação de Deus que Jesus brindou o mundo:

O Deus de Jesus assume o humano a tal ponto que liberta o homem da exigência de ser como Deus. Deus contém em si, agora o máximo de humanidade. Deus encontra-se imerso no humano. O ‘Reino’ de Jesus não requer seres excepcionais, melhores que o ‘resto dos homens’, que se preocupam em ser por eles contaminados.

Mas, o que verdadeiramente escandalizou no Deus que Jesus revelava foi sua tremenda inconsistência. Como assim, Deus inconstante? Misericórdia é sempre uma tremenda inconstância. A inconsistência de Deus em reverter sentenças, em anular destinos, em refazer histórias, em anular tragédias, foi a marca mais exuberante da vida de Cristo. Até o fato de seu ensino ser vazio de dogmatismos, desestabilizava qualquer teologia. E talvez tenha sido este o pingo que entornou a taça da ira dos fariseus: o Deus inabalável, rigoroso e severo do Antigo Testamento estava ausente nas palavras, gestos e atitudes do filho de Maria.

Ainda hoje, os que distinguem entre o Deus dos fariseus e o Deus de Jesus acharão boas razões para decretar sua morte. O reino que ele inaugurou entre os homens não encontra paralelo com os reinos deste mundo. Seus ensinos não são codificáveis.

Portanto, o Deus que nasceu em uma manjedoura continuará despercebido dos poderosos. Ele só será notado nas realidades singelas e pequenas: grãos de mostarda, meninos e meninas, ovelhas indefesas, desempregados em calçadas, servos inúteis, indignos, filhos pródigos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, estrangeiros, soldados e exorcistas informais.

Deus poderia escolher muitas maneiras para mostrar-se real, mas preferiu nascer em uma periferia esquecida; optou viver de um jeito que pode ser, poeticamente, comparado ao de um cordeiro.

Depois de séculos, ainda vale a pena celebrar um natal desses.


Ricardo Gondim

sábado, 4 de setembro de 2010

Visitas ao inferno

Já visitei o inferno. Estive lá em vida. Já entrei em suas câmaras horrendas diversas vezes. Em todas, padeci muito. Nada sei sobre o "Hades" mencionado pelos religiosos. Aquele que jaz embaixo da terra e começa depois da morte não me interessa. O inferno que já conheci e que me machuca fica aqui mesmo, na terra dos viventes.

Já estive no inferno do engano. Há algum tempo, visitei um parque suíço, em Zurique, para onde convergiam os toxicômanos da cidade. Subi o viaduto que atravessa o parque e do alto contemplei um cenário surreal e dantesco. Lama, lixo e fezes, atolavam rapazes e moças naquele submundo. Ali não existiam humanos, apenas carcaças ambulantes. Naquela mesma noite, no avião, desejei dormir profundamente só para fugir do que testemunhara. Eu preferia qualquer pesadelo a ter que conviver com aquele cenário, tão real. Perguntei-me diversas vezes quem eram aqueles jovens. E porque se revoltavam contra o sistema. Se tentavam ser livres, criaram uma masmorra. Acabaram construindo o inferno com as próprias mãos.

Daquele dia, despertei: o Lago de Enxofre permeia o mundo em que existo. Cada um daqueles jovens tinha um pai. Um pai que pranteia porque não sabe como apagar as labaredas medonhas do lago de enxofre.

Já estive no inferno da culpa. Hoje sei que nenhum tormento provoca maior dor que a culpa. Qualquer mulher culpada sabe o tamanho de sua opressão. Qualquer homem culpado fala que os ossos derretem com uma consciência pesada. Culpa é ácido. A culpa avisa que o passado não pode ser revisitado. Assim as pessoas se submetem a carrascos internos e esperam redenção através de açoites. A dor da culpa lateja como um nervo exposto.

Os culpados procuram dissimular o sofrimento com ativismos, divertimentos e até promiscuidade. Mas a culpa não cede; persegue, persegue, até aniquilar iniciativa, criatividade e esperança. Recordo quando, no final de uma reunião, uma mulher me procurou pedindo ajuda. Seu marido se suicidara de forma violenta. Depois de enroscar uma tira de couro no pescoço, deu partida em um motor, que não só o estrangulou como lhe decepou a cabeça. Mas antes, ele procurou vingar-se. Deixou uma nota responsabilizando a mulher pelo gesto trágico. Diante da tragédia, aquela pobre mulher, desorientada e aflita, não sabia como sair do cárcere que o marido meticulosamente construíra.

Já estive no inferno da maldade. Conheci homens nefastos. Sentei-me na roda de ímpios. Freqüentei sessões onde o martelo inclemente da religião espicaçou inocentes. Vi sacerdotes alçando o vôo dos abutres. Semelhante às tragédias shakespearianas, eu próprio senti o punhal da traição rasgar as minhas vísceras. Fui golpeado por suspeitas e boatos. Com o nome jogado em pocilgas, minha vida foi chafurdada como lavagem de porco. Senti o ardor do inferno quando tomei conhecimento da trama que visava implodir o trabalho que consumiu meus melhores anos. E eu não sabia como reagir.

Portanto, quando me perguntam se acredito no inferno, respondo que não, não acredito. Eu o conheço! Sei que existe. Eu o vejo ao meu redor. Inferno é a sorte de crianças que vivem nos lixões brasileiros. Inferno é o corredor do hospital público na periferia do Rio de Janeiro. Inferno é o campo de exilados em Darfur. Inferno é a vida de meninas que os pais venderam para a prostituição. Inferno é o asilo nos Estados Unidos, que não passa de um depósito onde os velhos esperam a morte.

Um dia, aceitei a vocação de lutar contra esses infernos que me rodeiam, assustam e afrontam. Ensinei e continuo a ensinar que Deus interpela homens e mulheres para que lutem contra suas labaredas. E passados tantos anos, a minha resposta continua a mesma: “Eis-me aqui, envia-me a mim”.

Acordo todos os dias pensando em acabar com os infernos. Gasto a minha vida para devolver esperança aos culpados; oferecer o ombro aos que tentam se reconstruir; usar o dom da oratória para que os discriminados se considerem dignos. Luto para transformar a minha escrita em semente que germina bondade em pessoas gripadas de ódio. Dedico-me ao estudo porque quero invocar o testemunho da história e mostrar aos mansos que só eles herdarão a terra onde paz e justiça se beijarão.


Ricardo Gondim

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O mistério de nossa humanidade

Como idealizei as pessoas que participaram de minha vida! Quando eu era criança, papai parecia inabalável. Eu o via grande; suas mãos eram fortes, seus passos, decididos.

Mais tarde, elegi ícones nos esportes. Depois, na religião. Mas um dia meu velho estava bastante doente, alquebrado pela Síndrome de Alzheimer, e eu precisei descê-lo dentro de uma lona de quatro alças pelas escadas do seu apartamento. Do Eródoto José Rodrigues sobrava muito pouco. Enquanto descíamos, vi seu corpo balançando, decrépito e magro. A rede empunhada por quatro homens o jogava de um lado para outro; a valsa era macabra. Lembrei de quando segurava sua mão e me sentia amparado. A decadência física de meu pai escancarava quão efêmeros nós somos. Daquele dia em diante passei a repetir: ninguém é inabalável em sua subjetividade emocional; as mais sólidas convicções intelectuais sofrem abalos; nenhuma pretensão moral é de aço inoxidável.

Não existem monstros ou santos. Todos somos flamas oscilantes. Carregamos sombras na alma. Não passamos da combinação ingênua de noviços, ineptos em abraçar o bem, e de bandoleiros, hesitantes na prática do mal.

Viver consiste no desafio de alargar o coração e deixar que réstias de luz iluminem as nossas sombras. Não permitamos que trevas se alastrem dentro da gente. Demônios tenebrosos se multiplicam em ambientes lúgubres. No alto da colina da ilha chamada vida, sejamos lanterneiros, sempre a projetar nosso farol na direção de algum viajante perdido. Não esqueçamos: só se credencia a morar no céu quem, na terra, não abandonou o mandato de ser luz.

Fujamos do ar viciado do negativismo. Aprendamos a talhar nossa história sem nos deixar destruir pela perversidade do mundo. Perseveremos em fazer o bem. Os cínicos desistem da lida; os pessimistas ajudam a empurrar a história para o desespero; e os neofundamentalistas tentam fazer nascer, a fórcipes, um mundo desde as suas verdades. Forjemos a nossa humanidade com a constatação de que somos limitados. Esvaziemos a arrogância de ter toda a verdade. A verdade reside na democrática convivência dos povos.

Reconheçamos que cada indivíduo é um universo; suas relações sociais são infinitas. Não tentemos imobilizar a dinâmica da cultura ou da ética. Bem e mal se transformam velozmente. A tarefa de joeirar virtude e vício é complexa. Não há códigos suficientes que abarquem todas as nuanças da vida. Crescemos quando nos abrimos para uma coexistência inclusiva, sem preconceitos e sem ódios. Viver é amadurecer a arte do diálogo. Ao caminharmos na senda do amor, reconheceremos Deus no rosto do próximo.

Os que almejam humanidade fazem escolhas responsáveis; só eles discernem que o futuro jaz, latente, nos grãos plantados hoje. Só germinarão fraternidade e paz quando justiça for semeada. As máquinas de guerra devem ser desmontadas para que, logo, o arado substitua a espada e o cordeiro não tema pastar ao lado do leão.

Humanidade é obra que só pertence a nós, os humanos. Então, que se abandone a ideia de que o bem ressurgirá da ganância, do consumismo, do individualismo e da soberba.

Ergamos a nossa humanidade sempre cientes de nossa pequenez. Sem a soberba dos falsos campeões, celebremos cada encontro. Valorizemos quem amamos. Acolhamos os discriminados, os deficientes, os esquecidos. Contemplemos a história como artesãos que limam o ouro. Defendamos o direito, demos as mãos ao pobre e aguardemos: breve brilhará o sol da justiça, trazendo cura sob suas asas.


Ricardo Gondim

terça-feira, 8 de junho de 2010

Solilóquios espirituais

Resisto, inquieto com a necessidade de esvaziar-me. Não tolero ver a vida se arrastando, o cenário mudando e eu sem fôlego, a correr sem me perceber.

Os pontapés da vida desnudaram a verdade de que os processos de esvaziamento são doloridos. Processos que significaram perder a onipotência que veio a reboque da minha religião e que herdei de minha insegurança juvenil. Há mortes que não estou disposto a morrer, há privações que procuro dispersar, há dores que não quero experimentar.

Quero ter o controle do tempo inclemente. Não suporto ouvir que sou responsável por quem sequer conheço. Não me imagino preso a compromissos alheios. Careço de ócio criativo, sou natural dos sábados. Anseio por conversas calmas, nasci de um amor calado. Debulho os instantes para sonhar com a eternidade. Choro a dor do mundo porque sei de meu egoísmo.

Fotografo o orgulho que se disfarça e sutilmente se esconde em meu coração. Tenho uma empáfia que se traveste de piedade e habilmente me faz sentir puro. Há uma arrogância embutida em mim, que me espreita de soslaio e, transparente, infecta tudo o que faço. Continuo dono de rompantes rebeldes, já enraizados na medula dos ossos.

Sei que devo aprender a ser apenas gente. Grito para dentro, meu grito é mudo: "Ainda hei de seguir a senda despretensiosa dos santos".


Ricardo Gondim

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Eu? Metáfora absurda

Eu? Pés que falam, ouvidos querendo ver, gosto com jeito de aconchego, toque melodioso, ruga expressiva, vontade solitária, desejo alado, alma ambiciosa e coração torcido.

Eu? Teimoso que, mesmo trôpego, insiste na trilha estreita. Poeta inebriado de sonhos que mal se dá conta do sal que corrói a face - A estrada é íngreme!

Eu? Filho da noite comprida, das horas que se arrastam, dos dias velozes. Aventureiro irrequieto em busca do pergaminho prateado com a Palavra Encantada. Um enigma: “Menino na estepe, felicidade no vale, vida no além”.


Ricardo Gondim

domingo, 6 de junho de 2010

Eu, bordadeira

Quando escrevo encarno o espírito das bordadeiras. Minha pena é agulha que fere o papel para transformar toda a consternação em beleza. Quando eu era criança, sofri por ter nascido canhoto. “Menino desastrado”, ouvi um sem número de vezes. Amedrontado, fugia; eu só queria desenhar. Hoje, bordo, talho, desenho, com palavras. Palavras que podem até revelar o quão desajeitado sempre fui, e ainda sou, mas que me salvam da autocomiseração.

A insignificância que me rondou na adolescência enfeita a minha prosa. A falta de coordenação que não me deixava dançar, dá ritmo aos meus dedos. Com o passar dos anos, substitui timidez juvenil por essa sanha de escrever. Quando me ponho a escrever, arranco lirismo da tristeza e contorno as fronteiras da lucidez para enfeitiçar o texto.

Já não estranho a solitude. Acolho a quietude outonal - já que inaugurei a última metade dos cinquenta. Caio de amores pelo anoitecer. Quando des-iludido, não deixo de encantar-me com a alvorada que anuncia o sempre novo.

Todos os dias, trombo com levas de anônimos. Porém, nunca esqueço que cada um sussurra o nome de alguém que ama. Nós nos distinguimos no meio da multidão porque nos lembramos que, em algum lugar, alguém também sussurra o nosso nome.

Não temo a morte, mas ela me angustia. Ansioso, procuro adiar o dia em que vou ter que me despedir do cheiro do meu travesseiro, dos pensamentos acelerados que roubam o meu sono, da vermelhidão apetitosa da siriguela, da saudade que tenho dos meus pais, da água quente do chuveiro em dia frio, do sorriso de meus netos. Não, não estou preparado para enfrentar o corredor estreito que me roubará o derradeiro fôlego.

Fatigado, confesso a minha humanidade, mas o meu cansaço não significa desistência. Vivo perenemente grávido do futuro. Sinto-me sempre perto de parir sonhos, ideias, divagações. Animado pela luta, só falo da estafa como denúncia. Mesmo quando grito, "não aguento mais", a minha alma continua encharcada de eternidades – assim mesmo, no plural.

Encaro as minhas inadequações sob o teto da graça. Não me dissolvo em falsas culpas. Nunca vou ser rejeitado por enfrentar-me. Prossigo não por teimosia, mas constrangido pelo amor. Amor, que muitas vezes tem gosto de cocada, cheiro de alfazema ou quentura de lágrima. Certamente, bondade e misericórdia me acompanham.

Continuarei bordando tapetes para que outros pisem, esta é minha sina.


Ricardo Gondim

domingo, 25 de abril de 2010

O trágico e o lúdico

Rir e chorar dependem do lado para que se olha. Ali na frente, poças lodocentas deslustram a alma. Aqui perto, o vôo irreverente dos pardais desenrugam os lábios para que se abra um largo sorriso. Basta ver a sorte inclemente dos miseráveis para perder o sono. Não é fácil conviver com a desigualdade social que rouba sonhos, tormenta, mata. Mas alegria explode no vértice do sofrimento; bastam o abraço despretensioso do neto, a alegria do casal que adotou, o zelo resiliente da mãe do filho com paralisia cerebral e o trabalho anônimo do voluntário.

Rir e chorar dependem do caminho que se escolheu na esquina deserta. Estradas largas levam ao calabouço. Atalhos despencam em abismos. Avenidas não passam de passarelas para o inferno. Trilhas inóspitas, virgens, são fascinantes. Quanta alegria na aventura de desbravar fronteiras. A felicidade mora alguns centímetros depois da linha do horizonte. Arriscar é tonificante. Fracassar, triunfar, instigar e suplantar-se transformam o tédio em disposição.

Rir e chorar dependem das expectativas que enlaçam a alma. Ilusões implausíveis exaurem, fatigam, esfolam. Promessas irreais, mentirosas, entorpecem como morfina. Ufanismos terminam em ressaca. Coragem de encarar a existência sem quimera, sem negação, sem fuga, produz um júbilo diferente.

Rir e chorar são duas faces no baralho da vida.

Rio e choro sem culpa, a vida é ao mesmo tempo trágica e lúdica.


Ricardo Gondim

sábado, 3 de abril de 2010

Espiritualidade

No comecinho de 1990, fui convidado para participar da organização da Aliança Evangélica Brasileira (AEVB). Reunimo-nos em Teresópolis para esboçar os primeiros momentos, mas não lembro nada do planejamento. Ficaram apenas as devocionais lideradas pelo Osmar Ludovico, que me marcaram de forma indelével. O Osmar falou sobre oração contemplativa, "Lectio Divina", meditação. Porém eu vinha de uma tradição pentecostal e nada sabia sobre esses e outros exercícios espirituais. No segundo dia, houve um quebrantamento e eu me derreti em lágrimas. O Espírito de Deus nos moveu de uma forma única.

A prática de orar em silêncio, de aquietar a alma para meditar na Palavra e de escrever ressonâncias depois que alguém compartilha percepções espirituais, me deixou boquiaberto. Eu acreditava em preces barulhentas. Achava que Deus gostava de decibéis exagerados. Aliás, preciso confessar, eu mesmo já insuflei auditórios com a clara intenção de produzir frenesi para "mostrar" categoricamente que Deus "operava em nosso meio". Mas o Osmar Ludovico me conduzia por um novo e fascinante portal. Ao seu lado, eu subia escadas que tocavam o céu. Osmar tem uma voz suave, que, ao pronunciar o nome de Deus, ainda me comove. Ali começou um novo ciclo em minha devocional.

Passei a desejar uma espiritualidade de afetos. Abandonei o esforço de fazer de minhas orações uma técnica de colocar Deus em movimento. Destruí o altar que eu erguera para acionar o divino. Reaprendi que orar é inspirar ausências. Sem muitos barulhos, colocar a alma numa quietude parecida com a que o sumo sacerdote experimentava ao entrar no Santo dos Santos. Noto que os cultos, as missas, se tornaram agitados. Pergunto-me se o ritmo alucinante das músicas e das danças não são fugas. Na agitação, evita-se o confronto com a interioridade e, consequentemente, com Deus. Agora, só agora, começo a intuir o significado de orar no quarto fechado, em secreto.

Uma oração que não inclua o mundo inteiro apequena Deus e mostra o grau de individualismo de quem ora. Não consigo mais entender Deus como um deus tribal que faz chover e não deixa que gafanhotos destruam plantações. O mundo geme e entendo que as preces precisam ser situadas em relação a todos, inclusive africanos exilados, haitianos sem teto, europeus desiludidos com o materialismo e brasileiros inundados em periferias urbanas. Deus não dispensa suas bênçãos prioritariamente sobre os quem têm olhos azuis. Ele não começa seus castigos pelos mais miseráveis; não abandona milhões à míngua para vitalizar ajuntamentos que enriquecem evangelistas ávidos por fama e riqueza.

Desde aquela iniciação com o Osmar Ludovico, reaprendi a ler a Bíblia sem o exclusivismo das ferramentas frias da exegese. Por anos fui um gramático, pavimentei a estrada da minha fé com argumentações, mas comecei a ler as Escrituras com o coração. As novas lentes de leitura eram o amor e a paternidade de Deus. Desisti da pretensão de chegar à verdade dissecando textos. Eu queria perceber o recado de Deus nas entrelinhas, sem as vendas espirituais que me impedem de me sentir abraçado por ele. Sei da importância de não desvirtuar o sentido do texto com interpretações fantasiosas. Mas sei também que não é com análises sintáticas que a linda poesia do Espírito chegará ao meu coração. Se a letra mata e o Espírito vivifica, quero perceber o imperceptível; quero o que os olhos naturais não captam.

Desejo vivenciar a minha espiritualidade em atos devocionais. Pretendo transformar-me em um adorador que faz do “seguimento” de Jesus a melhor expressão de sua piedade. Liturgias centradas em emocionalismos desmerecem a tradição profética dos dois Testamentos. O melhor culto é defender a justiça. Deus não gosta de ajuntamentos com liturgias autocentradas, que só buscam canalizar o seu favor. O verdadeiro culto disponibiliza pessoas para cuidar de órfãos e de viúvas -- esta é a verdadeira religião, segundo Tiago. Qualquer verticalização do louvor só tem sentido se promover a verticalização do serviço. Espiritualidade é reconhecer Deus no rosto do pobre, do nu, do faminto e do desterrado; tudo o mais é individualismo travestido de piedade.

Anseio por reuniões que celebrem a graça, sem paranoias espirituais, sem alguém tentando infundir culpa para descansar no inescrutável amor de Deus. Quero participar de comunidades leves, sem as afetações próprias do glamour do mundo, onde os sorrisos sejam gratos e os abraços, sinceros. O caminhar de Jesus não combina com lugares espetaculosos. Viver os valores do seu reino prescinde de holofotes.

Muito obrigado, Osmar. Naquela tarde edifiquei um memorial; altar que me lembra o desafio de vivenciar o vasto amor do Pai.


Ricardo Gondim

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Morte, e algumas reflexões acerca dela

Ai vai mais um do Gondim na Série Sagrado, com direito até a Carpe Diem, rs.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Lições que nascem da dor

Eu e João corremos juntos um dia. Como tinha 25 anos de idade e era magro, não precisava esforçar-se para manter o meu ritmo. De repente, falou-me que se sentia deprimido. Perguntei-lhe se identificava uma causa para sua depressão. “Medo de fracassar”, retrucou, sem hesitação. Pelo restante do percurso, procurei mostrar que Deus ama sem cobrar desempenhos e que, mesmo nunca alcançando êxito, continuamos queridos; falei que Deus não desiste dos malsucedidos. Porém, duas semanas depois, chorei: João se suicidou.

Sua morte me abateu. Eu o amava. João temia o futuro e, por mais que se esforçasse, não conseguia reverter seu pessimismo. Meus conselhos, orações e cuidado de outros cristãos não ajudaram. Nada, absolutamente nada, reverteu sua morbidez, e ele se puniu com a mais desastrosa decisão – castigando todos nós.

Angústia e depressão fazem parte da nossa existência. Vários personagens históricos e bíblicos tentaram fugir para cavernas escuras em momentos semelhantes; abatidos, mal cogitavam achar forças que lhes devolvessem esperança. Essa apatia não lhes tirava apenas o sono. Acordados, tinham de conviver com um pessimismo infinitamente triste.

Nessa tragédia, aprendi que a maioria das pessoas não teme morrer, mas se apavora em não saber viver. A inevitabilidade da morte não as assusta; elas só querem evitar a insignificância, que é a noção de que existimos, mas sumiremos sem importância. Milan Kundera afirmou: “Todo mundo tem dificuldade de aceitar o fato de que desaparecerá, desconhecido e despercebido, num universo indiferente”. Isso explica porque algumas pessoas se esforçam tanto para realizar alguma coisa extraordinária – até comete algum crime. Elas querem é ser valorizadas em vida e lembradas depois de mortas.

Meses depois, me contaram que João se angustiava com o desejo de agradar a seu pai, dizendo para si mesmo que nunca conseguiria satisfazê-lo. Ainda criança, jogava tênis olhando para a arquibancada, na esperança de ganhar um sorriso de aprovação. Ele se formou em engenharia, envergonhado por não alcançar nota máxima em todas as matérias. Assim, ao projetar sua vida futura sofria imaginando não galgar os píncaros da glória e riqueza.

Preocupa-me que o mundo religioso venha ressaltando apenas as exigências rigorosas de uma divindade muito complicada de ser agradada. A maioria dos crentes brasileiros não concordaria com Gilberto Gil quando canta: “Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que aceitar a dor/Tenho que comer o pão/Que o diabo amassou/Tenho que virar um cão/ Tenho que lamber o chão”. Contudo, o comportamento da maioria confirma o conteúdo dessa música. Existe uma espiritualidade que se difunde e que oprime as pessoas com fardo excessivo. São igrejas que não deixam ninguém esquecer suas dívidas com uma lei duríssima. Nessas religiões, culpam-se as inadequações humanas pelos revezes da vida, e todo contratempo é visto como fruto de pecado u de eventuais “brechas” por onde o diabo entra.

As pessoas lotam essas igrejas com o desejo de agradar a um Deus complicadíssimo. Desse modo, se esperam afetos ou compaixão da parte dele. Se alguém almeja “conquistar” o amor divino, precisará sempre fazer sacrifício.

As pessoas não precisam desse tipo de religião, elas carecem de uma mensagem diferente. Oxalá, mais pregadores anunciem: “Deus não desistirá de amar, mesmo quando seus filhos não merecem Seu amor é leal. Nada diminuirá seu compromisso de oferecer o melhor de si para que seus filhos cresçam”. Na parábola do Pródigo, o pai disse ao filho mais velho: “Tudo o que tenho é seu”. Essa frase precisa ressoar na mente de todos os cristãos, pois, nela está a promessa bíblica de que somos co-herdeiros com Cristo. Ninguém é estimado por cumprir mandamentos ou alcançar níveis excelentes de santidade. Deus ama de graça.

Chorei com a morte do João, mas aprendi a mais linda verdade: Deus quer bem aos seus filhos sem esperar desempenho. Ele não abandona os malogrados. E já que ninguém precisa fazer jus ao seu amor, todos podem festejar seu amor e se colocar no fantástico projeto de ser transformado na imagem de Jesus Cristo.

Eu e João corremos juntos um dia. Como tinha 25 anos de idade e era magro, não precisava esforçar-se para manter o meu ritmo. De repente, falou-me que se sentia deprimido. Perguntei-lhe se identificava uma causa para sua depressão. “Medo de fracassar”, retrucou, sem hesitação. Pelo restante do percurso, procurei mostrar que Deus ama sem cobrar desempenhos e que, mesmo nunca alcançando êxito, continuamos queridos; falei que Deus não desiste dos malsucedidos. Porém, duas semanas depois, chorei: João se suicidou.

Sua morte me abateu. Eu o amava. João temia o futuro e, por mais que se esforçasse, não conseguia reverter seu pessimismo. Meus conselhos, orações e cuidado de outros cristãos não ajudaram. Nada, absolutamente nada, reverteu sua morbidez, e ele se puniu com a mais desastrosa decisão – castigando todos nós.

Angústia e depressão fazem parte da nossa existência. Vários personagens históricos e bíblicos tentaram fugir para cavernas escuras em momentos semelhantes; abatidos, mal cogitavam achar forças que lhes devolvessem esperança. Essa apatia não lhes tirava apenas o sono. Acordados, tinham de conviver com um pessimismo infinitamente triste.

Nessa tragédia, aprendi que a maioria das pessoas não teme morrer, mas se apavora em não saber viver. A inevitabilidade da morte não as assusta; elas só querem evitar a insignificância, que é a noção de que existimos, mas sumiremos sem importância. Milan Kundera afirmou: “Todo mundo tem dificuldade de aceitar o fato de que desaparecerá, desconhecido e despercebido, num universo indiferente”. Isso explica porque algumas pessoas se esforçam tanto para realizar alguma coisa extraordinária – até comete algum crime. Elas querem é ser valorizadas em vida e lembradas depois de mortas.

Meses depois, me contaram que João se angustiava com o desejo de agradar a seu pai, dizendo para si mesmo que nunca conseguiria satisfazê-lo. Ainda criança, jogava tênis olhando para a arquibancada, na esperança de ganhar um sorriso de aprovação. Ele se formou em engenharia, envergonhado por não alcançar nota máxima em todas as matérias. Assim, ao projetar sua vida futura sofria imaginando não galgar os píncaros da glória e riqueza.

Preocupa-me que o mundo religioso venha ressaltando apenas as exigências rigorosas de uma divindade muito complicada de ser agradada. A maioria dos crentes brasileiros não concordaria com Gilberto Gil quando canta: “Se eu quiser falar com Deus/ Tenho que aceitar a dor/Tenho que comer o pão/Que o diabo amassou/Tenho que virar um cão/ Tenho que lamber o chão”. Contudo, o comportamento da maioria confirma o conteúdo dessa música. Existe uma espiritualidade que se difunde e que oprime as pessoas com fardo excessivo. São igrejas que não deixam ninguém esquecer suas dívidas com uma lei duríssima. Nessas religiões, culpam-se as inadequações humanas pelos revezes da vida, e todo contratempo é visto como fruto de pecado u de eventuais “brechas” por onde o diabo entra.

As pessoas lotam essas igrejas com o desejo de agradar a um Deus complicadíssimo. Desse modo, se esperam afetos ou compaixão da parte dele. Se alguém almeja “conquistar” o amor divino, precisará sempre fazer sacrifício.

As pessoas não precisam desse tipo de religião, elas carecem de uma mensagem diferente. Oxalá, mais pregadores anunciem: “Deus não desistirá de amar, mesmo quando seus filhos não merecem Seu amor é leal. Nada diminuirá seu compromisso de oferecer o melhor de si para que seus filhos cresçam”. Na parábola do Pródigo, o pai disse ao filho mais velho: “Tudo o que tenho é seu”. Essa frase precisa ressoar na mente de todos os cristãos, pois, nela está a promessa bíblica de que somos co-herdeiros com Cristo. Ninguém é estimado por cumprir mandamentos ou alcançar níveis excelentes de santidade. Deus ama de graça.

Chorei com a morte do João, mas aprendi a mais linda verdade: Deus quer bem aos seus filhos sem esperar desempenho. Ele não abandona os malogrados. E já que ninguém precisa fazer jus ao seu amor, todos podem festejar seu amor e se colocar no fantástico projeto de ser transformado na imagem de Jesus Cristo.


Ricardo Gondim

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...