Mostrando postagens com marcador Daniel Oudshoorn. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniel Oudshoorn. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O valor da perola e o preço da Graça

Em Mateus 13:44-46 está registrado que Jesus assim descreveu o reino do céu:

O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.

[...] Quando leio essas parábolas penso com frequência num jovem que tive o privilégio de conhecer. Sua “pérola de grande valor” era uma mistura de cocaína e heroína. Por isso ele sacrificou todo o resto – sua saúde, sua família, um teto e um lugar para dormir, todas as suas possessões mundanas, – até não ter nada além da roupa do corpo e um violão. Ele amava aquele violão: viva dizendo que era a sua alma. Mas um dia penhorou o violão: “penhorei a alma”.

Tendo só a roupa do corpo e o dinheiro que recebeu pelo violão, tudo que ele conseguiu comprar foi uma “vírgula” de heroína (um décimo de grama, apenas o suficiente para deixá-lo alto uma única vez). Tendo vendido finalmente sua “alma”, essa era sua pérola de grande valor.

É aqui que a parábola termina, mas na continuação da história do meu amigo algo inacreditável acontece. Tendo descolado a sua heroína ele entra num beco para transar a droga, e ali depara-se com outro amigo que também é usuário de heroína mas não tem dinheiro, nem drogas, nem nada valioso para vender. O que faz meu amigo com sua pérola? Ele a compartilha. Ele a divide – o tesouro pelo qual sacrificou todo o resto – e dá metade a seu amigo, sem qualquer esperança de retribuição. Ali, num beco da zona leste do centro de Vancouver, meu amigo engajou-se num ato de generosidade e de sacrifício pessoal superior em escala a qualquer outro ato de generosidade ou sacrifício pessoal que eu jamais tenha visto praticado – quer por parte de cristãos ou de quaisquer outros. Pense o que quiser sobre o uso de drogas: o valor da pérola para meu amigo e a extensão de seu sacrifício suplantam em muito qualquer outro ato de bondade jamais praticado por mim.

E a verdade é que a atitude de meu amigo não é exceção. Em comunidades de usuários de drogas e outras comunidades de gente pobre não é incomum uma estirpe de economia fundamentada na graça, em que se dá sem se esperar receber de volta.


Daniel Oudshoorn

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Fim da Historia

Ao proclamar e viver dentro da memória subversiva do evangelho de Jesus, ao revelar a natureza triúna do Deus sofredor, ao testemunhar o reino de Deus e o senhorio de Jesus e ao anunciar o perdão dos pecados, a igreja profere um enfático “não” à declaração de Fukuyama de que a História terminou com a vitória do capitalismo de livre-mercado e com as democracias liberais ocidentais. Essa quádrupla proclamação está fundamentada numa escatologia cristã que declara que foram a crucificação e a ressurreição de Jesus que assinalaram o fim da História.

A História não terminou com a queda da União Soviética; ela terminou dois mil anos atrás quando um pequeno grupo de mulheres visitou a sepultura de um revolucionário tombado, e encontraram-na vazia. Foi uma voz angelical, não uma voz do Departamento de Estado norte-americano, a anunciar o fim da História. Foi um anjo a dizer: “Por que vocês buscam entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui: ele ressuscitou.” A igreja é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História.A História terminou quando Deus levantou Jesus dentre os mortos e revelou-o como o Senhor da História.

A igreja, portanto, é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História. Concluída a História, a igreja declara e encarna a nova criação de todas as coisas. Jesus é o verdadeiro fim da História, e a proclamação e a vida da igreja são a verdadeira chave da História. É este elemento externo do cristianismo que gente como Fukuyama é incapaz de compreender. Ele afirma:
Os homens provaram-se capazes de suportar as mais extremas adversidades materiais em nome de ideias que existem somente no domínio do espírito, quer seja a divindade de vacas ou a natureza da Trindade.
Quando a igreja ocidental voltar a encarnar fisicamente essa quádrupla proclamação, o poder do liberalismo de livre-mercado e das democracias liberais serão reveladas como o fogo de palha que são, e não como uma força monolítica capaz de levar a história a seu fim. A igreja, portanto, continuará a amar, a sofrer, a perdoar, a proclamar e a confrontar os poderes em meio a Babel até o retorno de seu Senhor – que trará o verdadeiro telos/fim e a consumação de toda criação e de toda a história.


Daniel Oudshoorn

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Proclamando o Reino de Deus: Jesus é Senhor

O cerne da mensagem e do ministério de Jesus residia na proclamação do reino de Deus. Do mesmo modo, o reino deveria ocupar posição central na proclamação e na natureza da igreja contemporânea. “Proclamar o evangelho da aurora do reino é o primeiro e mais importante elemento na missão de Jesus, na missão do Espírito e na missão da igreja”.

Grande parte da teologia que tem exercido maior influência sobre a igreja ocidental tem negligenciado a centralidade da mensagem do reino. Isso é resultado de uma leitura das cartas de Paulo que as remove de seu contexto histórico e as separa do evangelho de Jesus. A igreja segue Jesus, não os líderes do estado nacional. Quando entendida de forma adequada, a linguagem de Paulo, embora diferente da linguagem de Jesus, está firmemente enraizada na perspectiva do reino, e não faz sentido fora dela. Jesus proclamou o reino, e Paula proclama Jesus – isso porque Jesus é, ele mesmo, o rei. A igreja que proclama o reino de Deus é a igreja que proclama o senhorio de Jesus. Paulo, em conformidade com o restante do Novo Testamento, afirma enfaticamente que Jesus, e não César, é Senhor.

A proclamação do senhorio de Jesus por parte da igreja, no entanto, só fará sentido quando a igreja se recusar a reconhecer quaisquer outros senhores. Isso quer dizer que o senhorio de Jesus será revelado ao mundo quando os cristãos se desapegarem dos ídolos do consumismo, dos ídolos da cultura e dos ídolos das democracias liberais ocidentais. A igreja segue Jesus, não os líderes do estado nacional. A igreja adora Jesus, não os ídolos do capitalismo. A igreja proclama o senhorio de Jesus abandonando os modelos culturais de segurança e passando a viver pela fé. A igreja proclama o senhorio de Jesus doando em vez de arrecadar. A igreja proclama o senhorio de Jesus recusando-se a perpetuar os ciclos de pecado e de morte e rompendo os ciclos de pobreza, de força, de alienação e de abandono.

Porque Jesus, e só Jesus, é Senhor, a igreja deve viver uma relacionalidade aberta definida por prodigalidade, promoção da paz, irmandade e intimidade. Do mesmo modo, como Jesus é declarado Senhor de todos, Senhor do universo, a proclamação cristã do senhorio de Jesus deve levar a sério a relação entre a humanidade e o resto da criação. Preocupações ambientais e ecológicas estão por essa razão intimamente ligadas ao evangelho do reino. A proclamação do reino interrompe os ciclos de poluição que tratam a terra como propriedade da humanidade, e leva os cristãos a viverem uma relação simbiótica com a terra – que não pertence à humanidade, mas a Jesus.


Daniel Oudshoorn

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Proclamando o perdão dos pecados

Com demasiada frequência a igreja contemporânea, em vez de anunciar o perdão, tem proclamado uma mensagem de julgamento e condenação. A ironia está em que, ao engajar-se nessa proclamação e ao abandonar o chamado cristão à proclamação do perdão, a própria igreja experimenta a ira e o julgamento de Deus. A igreja ocidental tem anunciado o julgamento, e fazendo assim tem se postado debaixo do julgamento de Deus.

Porém todas essas, a proclamação da narrativa do evangelho, a proclamação da trindade e a proclamação do reino de Deus encontram sua expressão mais completa na proclamação do perdão dos pecados. A declaração “seus pecados estão perdoados” faz pouco sentido na situação contemporânea. A recusa a deixar de sofrer é o coração do perdão cristão.Tanto pecado quanto perdão são conceitos alienígenas. Porém, mais do que nunca, a igreja é convocada a proclamar o perdão dos pecados. É o perdão dos pecados que revela o reino, que revela que o exílio terminou, que Deus em Jesus Cristo e em seu Espírito veio para perto de nós.

A igreja revela o significado dessa proclamação vivendo como comunidade perdoadora e perdoada. Aqui, como com todas as outras proclamações, é a existência de uma igreja que vive e crê nessa proclamação que age como única explicação (hermeneutic) do que está sendo proclamado. Essa proclamação é essencialmente anti-pragmática. A igreja das estratégias missionais centradas no crescimento e das estratégias sociais centradas na erradicação de todo o sofrimento não consegue enxergar isso. Ao anunciar o perdão dos pecados a igreja adentra o sofrimento do mundo, tomando sobre si os pecados do mundo a fim de levá-los para longe. Essa recusa a deixar de sofrer é o coração do perdão cristão.

Em última instância, é essa proclamação do perdão dos pecados que não permite que a igreja seja subvertida por forças externas. A abertura ao sofrimento, a comunidade de amor radical e a pessoa e o senhorio de Jesus são todos revelados nessa proclamação. É por essa razão que a igreja que proclama o perdão dos pecados sofrerá perseguição. É essa proclamação que se mostrará sempre impalatável para todos os poderes, que irão por essa razão buscar corrompê-la ou aboli-la. O quanto a igreja permanece fiel a essa proclamação representa o teste definitivo do quanto ela permanece fiel à sua linguagem e à sua narrativa.


Daniel Oudshoorn

domingo, 19 de setembro de 2010

11 de Setembro

Um dos modos mais poderosos de se perpetuar e fortalecer uma ideologia é obtendo-se controle sobre o calendário e sobre o modo como as pessoas marcam a passagem do tempo, recordam eventos passados e celebram momentos sagrados. Desse modo, por exemplo, a cristandade tomou posse dos dias santos do paganismo e converteu-os em festivais cristãos (Natal, Páscoa e assim por diante). Então, em nossa própria época, o capitalismo global tomou posse dos dias santos do cristianismo e converteu-os em festivais de consumo e de acumulação de débito (fazendo o mesmo com os dias santos da nação-estado).

Em qualquer dia marcado como santo – ou designado como momento de se recordar um evento passado – vale lembrar que algumas coisas estão sendo lembradas, enquanto outras estão sendo esquecidas. Certas facções da sociedade têm sempre um interesse velado em moldar nossa memória desta forma, e acontece de serem as mesmas facções que têm o poder de impor sua própria versão da história sobre nós.

Pegue hoje, 11 de setembro. 11/9. Que evento momentoso aconteceu no dia de hoje?

A verdade é que mais de um evento momentoso aconteceu neste dia no curso da história. Em 11 de setembro de 1973 o golpe de Pinochet derrubou no Chile o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Durante os anos subsequentes de seu governo, entre 9.000 e 30.000 pessoas foram assassinadas ou “desapareceram”, dezenas de milhares mais foram torturadas ou aprisionadas, e centenas de milhares experimentaram “situações de trauma extremo”.

Levando-se em conta a maciça perda emocional colocada em andamento pelos eventos de 11 de setembro de 1973, poderia ter ocorrido a alguém marcar cada 11 de setembro com alguma espécie de memorial. Isso, no entanto, não aconteceu, e tampouco a data será lembrada dessa forma. Por quê? Porque o golpe de Pinochet contou com o apoio da CIA, seu domínio foi sustentado pelo governo americano, seus torturadores foram treinados por oficiais americanos e sua economia implacável (que triturou o povo de seu país de modo a vender seus recursos a corporações externas) foi dirigida por economistas americanos (Milton Friedman comunicava-se pessoalmente com Pinochet, encorajando-o a manter-se fiel ao capitalismo de livre-mercado sem deixar-se distrair pelos sofrimentos do povo chileno).

Por essa razão, aqueles com o poder e os recursos para conduzir as narrativas públicas e as versões da história a que somos submetidos – aqueles que criam os dias especiais que marcam nossos calendários – tomaram providências para que o 11 de setembro permaneça um dia em que esse evento é apagado da história. Ao invés de ser um dia de se lembrar, é um dia de se esquecer. Esqueçamos Allende. Esqueçamos Pinochet. Esqueçamos a destruição da democracia na América Latina. Esqueçamos os modos injetores-de-morte com os quais os Estados Unidos e o resto do Ocidente têm tratado o resto do mundo. Deus sabe que a lembrança dessas coisas poderia inspirar alguns sujeitos a bater com aviões em prédios (embora, pode ser necessário notar, estou convicto de que estariam agindo errado se o fizessem).

Há nove anos, no entanto, alguns caras de fato pilotaram aviões de modo a que colidissem com prédios, e é isso que somos ordenados a lembrar no dia de hoje. É uma opção sem dúvida superior, porque nela nasce a América como vítima inocente – uma vítima que, renascendo das cinzas, permanece ainda disposta a oferecer-se em sacrifício de modo a levar gratuitamente a liberdade e a sabedoria (McDonald’s e Coca-Cola) ao resto do mundo. América, o herói longânimo. América, nosso próprio Cavaleiro das Trevas.

O interessante é que o ano em que tudo isso aconteceu é normalmente removido do vocabulário. As pessoas se referem ao “11 de setembro” ou a “11/9″; não se fala em “11 de setembro de 2001″ ou “11/09/2001″. Desse modo os eventos daquele dia adquirem uma espécie de atemporalidade e adentram um processo de recorrência eterna. A remoção do ano traz o episódio para perto de nós e faz com que pareça que tudo aconteceu um minuto atrás. Isso não apenas acentua a manipulação emocional produzida por espetáculos memoriais, mas também nos ajuda, de modo muito conveniente, a esquecer tudo que aconteceu desde então. Deste modo, lembramos os americanos que sofreram e morreram injustamente. Lembramos o heroísmo dos bombeiros de Nova Iorque.

O que não lembramos são os 100.000 civis que morreram mortes violentas no Iraque desde a invasão americana. Também não lembramos os civis (entre 14.000 e 35.000) que morreram até agora no Afeganistão (isso sem falar no incalculável número daqueles deixados feridos, incapacitados, sem filhos, órfãos ou traumatizados nesses dois países). O que não lembramos é o número incontável de inocentes raptados e torturados por soldados americanos desde 11/9 – em Abu Ghraib e Guatanamo, de Bush, e na prisão “super-Guatamano” de Obama na base da Força Aérea em Bagram.

O que não lembramos é que o governo americano investiu 1.078.552.000.000 de dólares (e contando) nessas guerras. É dinheiro dos contribuintes, mas não lembramos o quanto essas guerras estão contribuindo para a crise econômica nos Estados Unidos, aos cortes orçamentários relacionados a casas populares, escolas públicas, rodovias, iluminação pública e serviços sociais. O que não lembramos é que Bush mentiu ao começar essas guerras e que a administração de Obama mentiu quanto a dar um fim a elas.

Portanto, hoje seremos lembrados a “nunca esquecer” os eventos que ocorreram nove anos atrás. Porém o mandato de lembrarmos determinados eventos de determinadas formas, com a exclusão de todo o restante, é na verdade um modo muito poderoso de se produzir o esquecimento em massa.


Daniel Oudshoorn

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Mantendo cristã a proclamação cristã

Tudo isso leva ao que Jurgen Moltmann chama de “dilema entre identidade e envolvimento”. A igreja cristã está enfrentando uma crise de identidade e uma crise de relevância. Quanto mais busca abraçar uma identidade distintamente cristã, menos relevante ela se torna. Quanto mais busca ser relevante, mais perde sua distintiva identidade cristã. Um ocasiona a deterioração através de assimilação indiscriminada, São as atitudes da comunidade cristã que servem de intérprete para a mensagem cristã. o outro ocasiona a deterioração através de um recolhimento sectário.

Na busca para resolver esse dilema, este artigo propõe que a igreja se recuse a comprometer ou adulterar o evangelho. Em meio a Babel, a igreja deve continuar a proclamar uma mensagem que seja distintivamente cristã. Convicções cristãs devem ser expressas em linguagem cristã. A igreja, no entanto, deve também habitar a narrativa cristã. É essa habitação e incorporação da narrativa cristã que a torna compreensível (e talvez até mesmo atraente) para a sociedade. São as atitudes da comunidade cristã que servem de intérprete para a mensagem cristã. Dizer que os cristãos acreditam em Deus se manterá “verdadeiro mas pouco interessante” até que a comunidade assuma uma forma que revele o caráter do Deus cristão. A igreja, portanto, deve continuar a falar a linguagem do cristianismo. Fundamentando-se na história bíblica e na tradição cristã, a igreja será capaz de engajar-se numa conversação genuína e de dar continuidade à narrativa cristã, pois o cristianismo não é uma série de dogmas, mas uma história a ser finalizada.

Histórias é que são particularmente eficazes na tarefa de subverter ou modificar outras histórias. Como escreve Tom Wright, “diga a uma pessoa para fazer alguma coisa e você muda a vida dela por um dia; conte a essa pessoa uma história, e você muda a vida dela por completo”. Portanto, proferir linguagem cristã e incorporar a narrativa cristã deve ser a resposta da igreja para a presente situação. Ao manter-se um corpo gerador de histórias ela ganhará liberdade do torvelinho de narrativas que saturam a sociedade. Os profetas hebreus, de Moisés a Jesus, entendiam o poder único da linguagem e das narrativas. A cultura de Babel procura destruir a linguagem porque entende também que as realidades sociais podem ser renovadas pelo poder da palavra. Ao proferir a Palavra que é Cristo e ao encarnar a Palavra vivendo em Cristo, a igreja faz mais do que meramente reformar Babel, e começa a demoli-la por completo. Por essa razão a igreja que vive de modo profético permanece “intensamente preocupada com questões linguísticas e epistemológicas”.

Há quatro elementos dessa linguagem e modo de vida cristãos que merecem ser examinados em maior detalhe. O primeiro é a pessoa de Jesus; conhecer a narrativa de Jesus deve ser o primeiro passo para qualquer coisa que seja genuinamente cristã. O segundo é a compreensão única de Deus revelada pela teologia trinitariana. O terceiro é o coração do cristianismo missional, encontrado no Reino de Deus, e o quarto é a anunciação do perdão dos pecados. Essa proclamação com quatro aspectos apresenta os elementos particularmente cristãos e teológicos que são rapidamente abandonados quando a igreja tenta falar a linguagem da cultura, passando a colocá-los numa posição central – de onde não deveriam ter saído.


Daniel Oudshoorn

terça-feira, 13 de julho de 2010

O retorno a Babel

A decrescente influência (e tamanho) da igreja tem levado muitos a tentar reembalar a mensagem cristã de um modo mais compreensível e atraente para as audiências contemporâneas. Abundam igrejas sensíveis aos sedentos por espiritualidade, e o evangelho vem sendo reembalado no idioma da pós-modernidade. Essas estratégias, no entanto, embora gerem crescimento de igreja em alguns lugares, têm se mostrado em grande parte incapazes de criar qualquer transformação significativa. Isso acontece por duas razões. Em primeiro lugar, conforme sugerido acima, muitos dos que buscam reevangelizar o ocidente não reconhecem quão profundamente a igreja permanece envolvida dentro das estruturas de poder. Em segundo lugar, são poucos os estrategistas missionais que têm levado em conta o papel desempenhado pela linguagem. A crença de que alterar as palavras basta para reembalar a mensagem deve ser reexaminada, especialmente à luz da presente situação.

Poderosas mudanças dentro da cultura ocidental resultaram numa visão de mundo em que as palavras são entendidas como estritamente formais. As palavras não são mais capazes de reter conteúdo significativo, podendo ser usadas para designar absolutamente qualquer coisa.

A sociedade ocidental experimenta o que vem sendo chamado de a “morte da palavra”: cada vez mais a linguagem só se mostra funcional no domínio do lugar-comum. Ela é útil para atividades como encomendar comida pronta ou planejar um encontro, mas é cada vez mais vista como inadequada para qualquer coisa além disso. Essa morte da palavra é exibida em (e perpetuada por) três áreas: na ambivalência do discurso político, no marketing do sagrado e do simbólico e na transição de uma cultura tipográfica para uma cultura visual.

Noam Chomsky, professor de linguística do Instituto de Tecnologia de Massachussets, ganhou notoriedade ao revelar a ambivalência contraditória do discurso de políticos e organizações de mídia norte-americanos. Chomsky demonstra, em cuidadosos estudo caso-a-caso, de que forma atos de agressão e de terror são descritos como “defesa da democracia e dos direitos humanos”. Dessa forma, os inimigos das corporações americanas são vistos como “terroristas”, “comunistas” ou até mesmo “inimigos da civilização”, enquanto a frase “terrorismo norte-americano” é vista como contradição em termos, algo como um “clamoroso silêncio”. Nesse domínio da linguagem livre de conteúdo, o atual presidente dos Estados Unidos sente-se à vontade para dizer “só quero que vocês saibam que quando estou falando de guerra, estou na verdade falando de paz”. Declarações como essa seguem relativamente incontestadas, revelando o modo pelo qual os políticos tratam a linguagem e as palavras como formas que podem ser preenchidas com qualquer conteúdo que desejem.

Embora se mostre talvez pouco consciente do grau em que a democracia liberal ocidental está amarrada aos interesses de empreendimentos capitalistas privados, a população em geral tem adotado a postura de que os políticos não são dignos de confiança. As pessoas podem não ter certeza de em quê têm sido enganadas, mas não têm dúvidas de que os políticos vêm mentindo para elas. Uma linguagem política significativa tem sido perdida numa glutonaria de grandiloquência e na proliferação de termos untuosos.

O consumismo e as atuais campanhas de marketing têm também ocasionado uma desvalorização da linguagem, especialmente no que diz respeito ao sagrado e ao simbólico. Linguagem religiosa e ideológica tem sido adotada por empreendimentos comerciais. Nesse contexto, a declaração de Summer Redstone, de que “a MTV está associada às forças da liberdade e da democracia ao redor do mundo”, não atinge o público como particularmente questionável. De fato, as campanhas de marketing são mais eficazes quando são irracionais, explorando os poderes mágicos e poéticos da linguagem e dos símbolos. O marketing corporativo de diferenciação vende mercadorias que se tornam “uma filosofia de modo de vida”. Produtos deixam de ser bens e tornam-se conceitos. A linguagem e os símbolos são aplicados indiscriminadamente: um clube de golfe passa a representar o perdão, uma peça de mobília passa a representar a democracia, e os símbolos e todos os antigos deuses são drenados de suas conotações sérias e sagradas. A repetição e a aplicação indiscriminada transforma a linguagem em ruídos sem significado. O consumismo, como o Deus da Bíblia, exige: “não terás outros deuses diante de mim”.

Finalmente, a transição de uma cultura tipográfica para uma cultura visual é expressão do declínio da linguagem, e é em si mesma uma contribuição para a morte da palavra. A forma que uma conversação assume acaba tendo poderosa influência sobre quais ideias podem ser expressas. A transição de mídia-metáfora de uma cultura tipográfica para uma cultura visual tem reduzido a maior parte da linguagem a completo contra-senso. Como afirma Neil Postman, “uma imagem pode valer mil palavras, mas mil imagens, especialmente de uma mesma coisa, podem não valer coisa alguma”. Foi precisamente contra isso que advertiu a assembléia do Vaticano II. Antes de adotar a mídia devemos compreender o modo que a mídia impacta e transforma a mensagem. Uma dependência da imagem destrói o discurso genuíno, porque discurso requer continuidade. Uma cultura visual e, em especial, uma cultura de consumo, menospreza a continuidade em favor do eterno agora.

Dentro de uma cultura de ambivalência, de consumismo e de imagens, a linguagem tem se tornado cada vez mais o que cada pessoa escolhe que seja. Numa cultura sem história, sem continuidade, em que palavras são aplicadas indiscriminadamente a uma variedade de contextos, não pode haver conversação genuína. A cultura ocidental fez o trajeto de volta a Babel.

É esse retorno a Babel que aqueles que reembalam a mensagem cristã tem deixado de levar a sério. Ao tentar apresentar o evangelho de uma maneira que seja compreensível para a cultura, a igreja contemporânea corre o risco de repetir os erros cometidos pela igreja na modernidade. Desde o Iluminismo e da ascensão do estado secular os cristãos vem tentando traduzir o cristianismo em termos que sejam significativos e convincentes para aqueles que não compartilham das crenças particularistas do cristianismo. Quanto mais sucesso tiveram esses cristãos, no entanto, mais as particularidades e o teológico perderam sua significância. O que começou como uma retirada estratégica logo tornou-se uma derrota. A mudança de linguagem mostrou-se incapaz de manter-se fiel à mensagem original em sua totalidade, pelo que o evangelho acabou sendo inevitavelmente distorcido. Quando os cristãos contemporâneos tentam apresentar o cristianismo como uma religião de “paz”, “amor” e “direitos humanos universais”, são as definições culturais dessas palavras que acabam sequestrando o sentido particular que o cristianismo tem delas. O resultado são ideias abstraídas da pessoa concreta de Jesus, gerando uma filosofia que procura existir fora da história. Uma igreja que se propaga falando a língua da cultura é, inevitavelmente, uma igreja cultural e não uma igreja cristã.

Se resta alguma dúvida quanto a isso, bastará examinar o modo como o capitalismo de livre-mercado e as democracias liberais ocidentais tem subvertido os movimentos contemporâneos de contra-cultura. Vozes de dissensão são rapidamente sequestradas e tornam-se “a grande tendência do momento”, ou são então absorvidas. Muita gente no ocidente, por exemplo, tende a pensar que as mulheres alcançaram status igualitário em relação aos homens – mas essa crença contradiz as estatísticas de que as violências sexuais e atos de violência contra as mulheres tem na realidade aumentado. O que começa como uma voz radical falando nas margens logo torna-se uma marca e é vendido como a moda mais recente. Isso é verdade mesmo para os movimentos que se opõem aos próprios fundamentos do capitalismo. Logo depois do nascimento dos movimentos anticorporativistas o marketing das corporações passou a absorver e usar em seu favor os símbolos e a linguagem da ação anticorporativista. Sendo assim, o feminismo e “a força da mulher” são alcovitadas pelas indústrias de música e de moda, a GAP coloca pichações de “Revolução!” nas suas vitrines, e a Benetton associa o ato de comprar suas roupas a lutar contra o racismo. Do mesmo modo, a igreja que procura existir como contra-cultura, mas escolhe falar a linguagem da cultura, é inevitavelmente absorvida e tornada em mercadoria.


Daniel Oudshoorn

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O papel das narrativas: descartando os absolutos

À medida em que o ocidente continua a afastar-se da cristandade, a igreja não pode esperar apelar a absolutos metafísicos ou morais a fim de dar suporte à sua proclamação enquanto se engaja com a sociedade. Dentro de uma sociedade pluralista esse tipo de realidade universal simplesmente não existe. Isso é assim porque a narrativa cristã deixou de funcionar como a metanarrativa social. Os cristãos não podem simplesmente recomendar a ética cristã àqueles fora da narrativa cristã, porque não existe um código moral universal. Noções como “amor”, “paz” e “justiça” não são realidades universalmente compreendidas, mas derivam seu significado e inteligibilidade de uma narrativa construidora.

Nesse sentido é importante entender que toda vida humana está fundamentada em narrativas. Narrativas não são substitutos para fatos ou verdades abstratas; antes, são um sistema de referência para a compreensão do mundo, e não podem ser reduzidas a máximas. O estado caótico moral do mundo ocidental reflete uma sociedade que parece ter perdido qualquer forma de narrativa estruturadora. Uma sociedade como essa subsiste apenas com “os fragmentos de um esquema conceitual, partes que agora carecem dos contextos dos quais sua significância era derivada”. A erosão dos símbolos e de uma linguagem de significado, aliada ao foco no eterno como agora e à desvalorização da tradição e da história, resultaram numa perda de narrativa. Cada pessoa abraça uma narrativa de sua própria escolha, ou abraça um modo de vida definido pela crise – em que não resta tempo de se perceber, ou de ater-se ao fato de que, está faltando uma narrativa estruturadora. A igreja não pode mais apelar para quaisquer absolutos dentro do modo de agir, pensar e sentir da sociedade pluralista contemporânea.


Daniel Oudshoorn

terça-feira, 29 de junho de 2010

A subversão do cristianismo

As mudanças radicais no mundo ocidental tem levado muita gente a reexaminar o modo como a igreja existia dentro da cristandade. Muitos tem prestado crescente atenção às vozes que vem das margens, tanto dentro quanto fora do mundo ocidental. Essas vozes (juntamente com Rahner, Hauerwas e Willimon) apontam que a igreja da cristandade havia se tornado uma igreja profundamente comprometida. Aqui três dessas vozes serão brevemente analisadas.

A primeira nasceu na América Latina e encontra sua expressão nas obras dos teólogos da libertação. A teologia da libertação sustenta que a igreja da cristandade ocidental (bem como o modelo de “Nova Cristandade” de Jacques Maritain na América Latina) é uma igreja maculada pelo sangue dos oprimidos. Ao associar-se aos detentores do poder, a própria igreja tornou-se um dos opressores, recusando-se de modo ativo ou passivo a engajar-se em determinadas atividades ou diálogos. O fato de que muitos cristãos ocidentais se mostrem incapazes de ver o elo entre libertação e fé revela o quanto domesticaram o evangelho que começou como “boas novas” para os pobres. Uma das consequências disso é que muitos revolucionários sociais e guerreiros da liberdade acabaram abandonando a igreja, pois “não encontraram na instituição qualquer possibilidade de concretizarem o seu comprometimento, vendo-se muitas vezes obrigados a assumir uma postura de oposição à igreja como sociedade”.

A segunda voz ergue-se da comunidade Sojourners/Residentes temporários, e encontra expressão na obra de Jim Wallis. Em sua crítica do cristianismo cultural, Wallis argumenta que a igreja da cristandade é essencialmente falha devido a suas alianças com a mídia e com as estruturas de poder político. Isso produz um nacionalismo evangélico que simplesmente perpetua a teologia do império. Por ter aceitado as grandes questões do império, todas as vezes que toma alguma posição a igreja o faz de modo equivocado. Isso gera uma igreja impotente que “salva” as pessoas ao mesmo tempo em que deixa de transformar a sociedade.

Essa, afirma Wallis, é uma completa traição do cristianismo. Na cristandade ocidental:

…essa inversão é tão completa, a cegueira tão total, que hoje em dia interesses ricos e poderosos chegam a usar a evangelização a fim de enfocar a atenção das pessoas nos seus pecados pessoais, de modo a distraí-los da realidade da exploração e da opressão.

Em vista disso Jacques Ellul, a terceira voz profética, argumenta que o cristianismo tem sido totalmente subvertido pelo estado e pelos poderes. A igreja triunfante do cristianismo, que batizou a sociedade e fez de todos os seus membros cristãos, representa o rigoroso oposto do cerne da fé cristã. Pois o cristianismo, como revelado no Novo Testamento, não pode fazer milhões de convertidos nem tem como gerar entradas de milhões de dólares. Como o cristianismo existe em conflito com a sociedade e o estado, a igreja tende a cansar-se dessa tensão. Então “toma lugar a subversão, não porque a sociedade é perversa, mas porque a revelação é intolerável”. Porém, como as pessoas dentro da cristandade não querem dar a impressão de que rejeitam o cristianismo, ele é pervertido e subvertido. Dentro desse cristianismo subvertido as forças do estado, do dinheiro, do poder, do engano, da acusação, da divisão e da destruição passam a reinar. Esses poderes só se mostram incapazes de se tornarem soberanos por causa do trabalho do Espírito Santo. O sucesso dos poderes dentro do cristianismo, sua “vitória explosiva”, só pode ser compreendido como a bem-sucedida subversão do cristianismo.

À luz do declínio da cristandade é especialmente importante ouvir essas vozes, para que não aconteça que a igreja limite-se a buscar um simples retorno à era da cristandade. Ao invés de retornar à cristandade, a igreja missional deve voltar a uma compreensão mais genuína da sua fé, uma que dê ouvidos às vozes proféticas e desconfie das alianças com poderes sócio-políticos. Como afirma Rahner, “deveríamos ficar surpresos de quão raramente a igreja entra em conflito com os detentores do poder. Isso por si só deveria fazer com que nos tornássemos profundamente desconfiados de nós mesmos”.


Daniel Oudshoorn

domingo, 20 de junho de 2010

Em meio a Babel

Na igreja ocidental contemporânea o discurso sobre missões é com frequência dominado pelo desenvolvimento de estratégias. A igreja, impelida por um pragmatismo que é, ele mesmo, definitivo da cultura ocidental, vive buscando aquela estratégia que irá ocasionar a conversão das massas. Se a estratégia certa, se as palavras certas forem encontradas, o reavivamento irá ocorrer. A igreja deve proclamar a mensagem em sua forma original, deixando que seu modo de vida interprete a mensagem.Segundo esse modo de pensar, a boa nova deve ser traduzida para a linguagem da cultura para que se torne acessível, a fim de que as fileiras de uma igreja moribunda sejam engrossadas.

Este artigo procurará demonstrar que estratégias missionais que apresentam o evangelho numa linguagem compreensível para a cultura ocidental estão fadadas ao fracasso. Quando a igreja usa a linguagem da cultura ocidental para proclamar a boa nova, as definições culturais sequestram o significado cristão, sendo que o único resultado possível é um cristianismo cultural. Além disso, a própria noção de linguagem tem perdido significativamente o seu valor na sociedade contemporânea; as tentativas cristãs de pronunciar-se culturalmente representam mera capitulação às estruturas de Babel e sua participação nelas. Portanto, se a igreja ocidental deseja tornar-se missionária, deve aprender a pronunciar-se cristãmente em meio a Babel. Em vez de alterar a mensagem do evangelho, a igreja deve proclamar a mensagem em sua forma original, deixando que seu modo de vida interprete a mensagem.

A mensagem cristã não deve e não pode ser empregada simplesmente a fim de prover aprovação cultural para o modo de vida cristão. Ao contrário, é o modo de vida cristão, aliado à fé no Espírito Santo, que deve prover conteúdo e significado à mensagem cristã. Quando o cristianismo for proclamado dessa forma a igreja estará equipada para revelar um modo de vida novo e radical à cultura ocidental dominada pelos ídolos do capitalismo de livre-mercado e da democracia liberal.


Daniel Oudshoorn

terça-feira, 1 de junho de 2010

Uma nova Reforma: re-formando desejo e imaginação

A fim de resgatar a Igreja como polis será necessário resgatar a Igreja como comunidade disciplinada. Este porém tem sido o aspecto da Igreja mais atacado pelo neoliberalismo, pois a igreja local tem se integrado por completo ao mercado de consumo; ao invés de frequentar uma igreja que disciplina nosso desejo e imaginação, é mais provável que frequentemos uma igreja que dá livres rédeas ao desejo que já possuímos1. Isso quer dizer que será necessário aprender a nos relacionarmos com a Igreja como comunidade que nos provê das disciplinas de que carecemos a fim de viver o cristianismo.

Como afirma Hauerwas: “Não quero ser ‘aceito’ ou ‘compreendido’. Quero fazer parte de uma comunidade com os hábitos e práticas que me levem a fazer aquilo que de outra forma eu não faria, para aprender a gostar de fazer aquilo que fui forçado a fazer”2. Em particular, a igreja deve praticar disciplinas que se contraponham às disciplinas impostas pelo neoliberalismo, a fim de liberar o corpo da repressão imposta pela alma3. Isso implica em incitar uma nova reforma – a reforma do desejo e da imaginação.

A igreja deve começar reformando o desejo, e restaurando-o a seu verdadeiro lugar e sua verdadeira finalidade4. Isso quer dizer que, enquanto o neoliberalismo disciplina o desejo fundamentando-o em carência e ganância, e alinhando-o a direito adquirido, a Igreja deve libertar o desejo, fundamentando-o em produtividade, paixão e criatividade agradecida.

Em vez de ver o desejo como função de carência, os cristãos devem entender o desejo como força produtiva, como abundante transbordar que traz continuamente novas possibilidades à existência5. Ao invés de ver o desejo como forma autocentrada de ganância, os cristãos devem entender o desejo como expressão de uma paixão pelo outro e, em particular, de uma paixão por Deus6. A igreja deve ocupar-se não do que é realista, mas do que é imaginável.

Entendido dessas maneiras, ao invés de se manter alinhado a um senso de merecimento, o desejo passa a se alinhar a uma participação grata e criativa no processo de nos apoderarmos do reino de Deus.

Além disso, enquanto o neoliberalismo disciplina a imaginação através de medo e desespero, a Igreja deve libertar a imaginação através de esperança. A imaginação, ao invés de ser utilizada para produzir fantasias que nos distraiam de nosso medo e desespero, pode ser tratada como “pensamento-em-tornar-se”, uma sorte de pensamento que transforma o mundo em vez de prover um escape do mundo7. De fato, substituir as doutrinas teológicas do neoliberalismo com as doutrinas teológicas do cristianismo é precisamente a forma de exercício que libera a imaginação a fim de transformar a ordem socio-política e econômica8.

Consequentemente, a verdadeira pergunta que a igreja deve fazer quando confrontada com o mundo do neoliberalismo não é “o que é realista, prático ou viável” mas o que é imaginável.9. Que os cristãos são capazes de imaginar completamente sem restrições fica evidente na esperança fundamentada nas promessas de Deus e na história do engajamento de Deus com o mundo. Como argumenta Moltmann10:
A esperança nada mais é do que a expectativa daquelas coisas que a fé crê terem sido genuinamente prometidas por Deus… É por isso que a fé, sempre que se desenvolve em esperança, causa não descanso mas desconforto… Os que esperam em Cristo deixam de ser capazes de suportar a realidade como ela é: começam a sofrer sob ela e a contradizê-la.

Tendo isso em vista os cristãos devem tornar-se “profissionais da esperança”, tendo suas imaginações unicamente disciplinadas pela recordação do que Deus fez e pela lembrança das promessas do que Deus está por fazer.


Daniel Oudshoorn
Uma dica do Pavablog.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...