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terça-feira, 29 de julho de 2014

Graça preciosa versus a graça barata


A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. 

A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quando tem; a pérola preciosa, a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens para adquiri-la; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, o qual, ao ouvi-lo, o discípulo larga as suas redes e o segue. 

A graça preciosa é o evangelho que há que se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. A graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, dar-lhe a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-la sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – “fostes comprados por preço” – e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós.

A graça preciosa é a encarnação de Deus. A graça preciosa é a graça considerada santuário de Deus, que tem que ser preservado do mundo, não lançado aos cães; e é graça como palavra viva, a palavra de Deus que ele próprio pronuncia de acordo com seu beneplácito. Chega até nós como gracioso chamado ao discipulado de Jesus; vem como palavra de perdão ao espírito angustiado e ao coração esmagado. A graça é preciosa por obrigar o indivíduo a sujeitar-se ao jugo do discipulado de Jesus Cristo. As palavras de Jesus: ‘O meu jugo é suave e o meu fardo é leve’ são expressão da graça [...] A graça e o discipulado permanecem indissoluvelmente ligados.


Dietrich Bonhoeffer

domingo, 24 de novembro de 2013

Sobre a Trindade

"A subsistência e as operações das três pessoas do Ser Divino são assinaladas por certa ordem definida. Há uma certa ordem na Trindade ontológica. Quanto à subsistência pessoal o Pai é a primeira pessoa, o Filho é a segunda, e o Espírito Santo é a terceira. Mal se precisa dizer que esta ordem não pertence a nenhuma prioridade de tempo ou de dignidade essencial, mas somente à ordem de derivação lógica. O Pai não é gerado por nenhuma das outras duas pessoas, nem delas procede; o Filho é eternamente gerado pelo Pai, e o Espírito procede do Pai e do Filho desde a eternidade. A geração e a processão ocorrem dentro do Ser Divino, e implicam certa subordinação quanto ao modo da subsistência pessoal, não porém subordinação no que se refere à posse da essência divina. Esta Trindade ontológica e sua ordem inerente constitui a base metafísica da Trindade econômica. Portanto, nada mais natural que a ordem existente na Trindade essencial se reflita nas opera ad extra (obras externas ao ser essencial) que se atribuem mais particularmente a cada uma das pessoas. A Escritura indica claramente esta ordem nas chamadas praepositiones distinctionales, ek, dia, e en, utilizadas para expressar a idéia de que todas as coisas provêm do Pai, mediante o Filho, e no Espírito Santo.

A igreja confessa que a Trindade é um ministério que transcende a compreensão do homem. A Trindade é um mistério, não somente no sentido bíblico de que se trata de uma verdade anteriormente oculta e depois revelada, mas também no sentido de que o homem não pode compreendê-la e não pode torná-la inteligível. É inteligível em algumas de suas relações e de seus modos de manifestação, mas é ininteligível em sua natureza essencial. Os numerosos esforços feitos para explicar o mistério foram especulativos, e não teológicos. Invariavelmente redundaram no desenvolvimento de conceitos triteístas ou modalistas de Deus, na negação ou da unidade da essência divina ou da realidade das distinções pessoais dentro da essência. A real dificuldade está na relação em que as pessoas da Divindade estão com a essência divina e uma com as outras; e esta é uma dificuldade que a igreja não é capaz de remover, podendo apenas tentar reduzi-la a suas apropriadas proporções mediante uma apropriada definição de termos. Ela jamais tentou explicar o mistério da Trindade, mas procurou somente formular a doutrina de modo que fossem evitados os erros que a ameaçam."



Berkhoff

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Aniversário


Os aniversários devem ser celebrados. Julgo que é mais importante celebrar um aniversário do que o sucesso de um exame, uma promoção ou uma vitória. Porque celebrar um aniversário significa dizer a alguém: “obrigado pelo que fez, ou disse, ou conseguiu”. Não, nós dizemos: “obrigado por ter nascido e por estar aqui conosco”.

Nos aniversários celebramos o tempo presente. Não nos queixamos do que aconteceu nem especulamos sobre o que acontecerá, mas encorajamos alguém e damos chance para que todos digam: “Eu te amo”.

Conheço um amigo que, no dia de seu aniversário, é agarrado pelo seus amigos, levado ao banheiro e lançado todo o vestido para a banheiro e lançado todo vestido para a banheira cheia de água. E todos esperam com ansiedade pelo seu dia de anos; inclusive ele próprio. Não faço ideia de onde terá vindo esta tradição, mas ser levantado e “rebatizado” parece uma ótima  maneira de celebrar a própria vida. Assim tomamos consciência de que, embora tendo que ter os pés bem firmes na terra, fomos criados para outros voos, e que, embora nos sujemos facilmente, podemos sempre lavar-nos e dar à nossa vida um novo começo. 

Celebrar um aniversário recorda-nos que a vida é bela e é neste espírito que devemos celebrar o dia de anos das pessoas todos os dias, demonstrado gratidão, compreensão, perdão, gentileza e afeto. Isto equivale a dizer: “É bom você estar vivo; é bom você fazer o mesmo caminho que eu, neste mundo. Alegremo-nos com isso. Este é o dia que o Senhor fez para existirmos e estarmos juntos”. 


NOUWEN, Henri.
Mosaicos do presente: Vida no Espírito. São Paulo: Paulinas, 1998.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

C.S. Lewis sobre o sexo


A castidade é a menos popular das virtudes cristãs. Porém, não existe escapatória. A regra cristã é clara: “Ou o casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou a abstinência total.” Isso é tão difícil de aceitar, e tão contrário a nossos instintos, que das duas, uma: ou o cristianismo está errado ou o nosso instinto sexual, tal como é hoje em dia, se encontra deturpado. E claro que, sendo cristão, penso que foi o instinto que se deturpou. (…)

Dizem que o sexo se tornou um problema grave porque não se falava sobre o assunto. Nos últimos vinte anos, não foi isso que aconteceu. Todo o dia se fala sobre o assunto, mas ele continua sendo um problema. Se o silêncio fosse a causa do problema, a conversa seria a solução. Mas não foi. Acho que é exatamente o contrário. Acredito que a raça humana só passou a tratar do tema com discrição porque ele já tinha se tornado um problema. Os modernos sempre dizem que “o sexo não é algo de que devemos nos envergonhar”. Com isso, podem estar querendo dizer duas coisas. Uma delas é que “não há nada de errado no fato de a raça humana se reproduzir de um determinado modo, nem no fato de esse modo gerar prazer”. Se é isso o que têm em mente, estão cobertos de razão. O cristianismo diz a mesma coisa. O problema não está nem na coisa em si, nem no prazer. Os velhos pregadores cristãos diziam que, se o homem não tivesse sofrido a queda, o prazer sexual não seria menor do que é hoje, mas maior. Bem sei que alguns cristãos de mente tacanha dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas intrinsecamente más. Mas estão errados. O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo — que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus tomou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os grandes poemas de amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente. Mas é claro que, quando as pessoas dizem “o sexo não é algo de que devemos nos envergonhar”, elas podem estar querendo dizer que “o estado em que se encontra nosso instinto sexual não é algo de que devemos sentir vergonha”.

Se é isso que querem dizer, penso que estão erradas. Penso que temos todos os motivos do mundo para sentir vergonha. Não há nada de vergonhoso em apreciar o alimento, mas deveríamos nos cobrir de vergonha se metade das pessoas fizesse do alimento o maior interesse de sua vida e passasse os dias a espiar figuras de pratos, com água na boca e estalando os lábios. Não digo que você ou eu sejamos individualmente responsáveis pela situação atual. Nossos ancestrais nos legaram organismos que, sob este aspecto, são pervertidos; e crescemos cercados de propaganda a favor da libertinagem. Existem pessoas que querem manter o nosso instinto sexual em chamas para lucrar com ele; afinal de contas, não há dúvida de que um homem obcecado é um homem com baixa resistência à publicidade. Deus conhece nossa situação; ele não nos julgará como se não tivéssemos dificuldades a superar. O que realmente importa é a sinceridade e a firma vontade de superá-las.

Para sermos curados, temos de querer ser curados. Todo aquele que pede socorro será atendido; porém, para o homem moderno, até mesmo esse desejo sincero é difícil de ter. E fácil pensar que queremos algo quando na verdade não o queremos. Um cristão famoso, de tempos antigos, disse que, quando era jovem, implorava constantemente pela castidade; anos depois, se deu conta de que, quando seus lábios pronunciavam “ó Senhor, fazei-me casto”, seu cotação acrescentava secretamente as palavras: “Mas, por favor, que não seja agora.” Isso também pode acontecer nas preces em que pedimos outras virtudes; mas há três motivos que tornam especialmente difícil desejar — quanto mais alcançar – a perfeita castidade.

Em primeiro lugar, nossa natureza pervertida, os demônios que nos tentam e a propaganda a favor da luxúria associam-se para nos fazer sentir que os desejos aos quais resistimos são tão “naturais”, “saudáveis” e razoáveis que essa resistência é quase uma perversidade e uma anomalia. Cartaz após cartaz, filme após filme, romance após romance associam a idéia da libertinagem sexual com as idéias de saúde, normalidade, juventude, franqueza e bom humor. Essa associação é uma mentira. Como toda mentira poderosa, é baseada numa verdade – a verdade reconhecida acima de que o sexo (à parte os excessos e as obsessões que cresceram ao seu redor) é em si “normal”, “saudável” etc. A mentira consiste em sugerir que qualquer ato sexual que você se sinta tentado a desempenhar a qualquer momento seja também saudável e normal. Isso é estapafúrdio sob qualquer ponto de vista concebível, mesmo sem levar em conta o cristianismo. A submissão a todos os nossos desejos obviamente leva à impotência, à doença, à inveja, à mentira, à dissimulação, a tudo, enfim, que é contrário à saúde, ao bom humor e à franqueza. Para qualquer tipo de felicidade, mesmo neste mundo, é necessário comedimento. Logo, a afirmação de que qualquer desejo é saudável e razoável só porque é forte não significa coisa alguma. Todo homem são e civilizado deve ter um conjunto de princípios pelos quais rejeita alguns desejos e admite outros. Um homem se baseia em princípios cristãos, outro se baseia em princípios de higiene, e outro, ainda, em princípios sociológicos. O verdadeiro conflito não é o do cristianismo contra a “natureza”, mas dos princípios cristãos contra outros princípios de controle da “natureza”. A “natureza” (no sentido de um desejo natural) terá de ser controlada de um jeito ou de outro, a não ser que queiramos arruinar nossa vida. E bem verdade que os princípios cristãos são mais rígidos que os outros; no entanto, acreditamos que, para obedecer-lhes, você poderá contar com uma ajuda que não terá para obedecer aos outros.

Em segundo lugar, muitas pessoas se sentem desencorajadas de tentar seriamente seguir a castidade cristã porque a consideram impossível (mesmo antes de tentar). (…) Podemos ter certeza de que a castidade perfeita — como a caridade perfeita — não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a necessária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levante-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo. Por mais importante que seja a castidade (ou a coragem, a veracidade ou qualquer outra virtude), esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprendemos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por outro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única atitude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.

Em terceiro lugar, as pessoas muitas vezes não entendem o que a psicologia quer dizer com “repressão”. Ela nos ensinou que o sexo “reprimido” é perigoso. Nesse caso, porém, “reprimido” é um termo técnico: não significa “suprimido” no sentido de “negado” ou “proibido”. Um desejo ou pensamento reprimido é o que foi jogado para o fundo do subconsciente (em geral na infância) e só pode surgir na mente de forma disfarçada ou irreconhecível. Ao paciente, a sexualidade reprimida não parece nem mesmo ter relação com a sexualidade. Quando um adolescente ou um adulto se empenha em resistir a um desejo consciente, não está lidando com a repressão nem corre o risco de a estar criando. Pelo contrário, os que tentam seriamente ser castos têm mais consciência de sua sexualidade e logo passam a conhecê-la melhor que qualquer outra pessoa. Acabam conhecendo seus desejos como Wellington conhecia Napoleão ou Sherlock Holmes conhecia Moriarty; como um apanhador de ratos conhece ratos ou como um encanador conhece um cano com vazamento. A virtude – mesmo o esforço para alcançá-la — traz a luz; a libertinagem traz apenas brumas.

Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito de sexo, quero deixar tão claro quanto possível que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que os cristãos consideram a falta de castidade o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. E por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta. É claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.


C.S. Lewis
retirado de Cristianismo Puro e Simples (Editora Martins Fontes)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Pequeno Príncipe, a Raposa e algumas lições

Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos homens.
- Bom dia, disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia, disseram as rosas.
O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? perguntou ele estupefato.
- Somos rosas, disseram as rosas.
- Ah! exclamou o principezinho...
E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
"Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto... Começaria a tossir, fingiria morrer, para escapar do ridículo. E eu então teria que fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande..." E, deitado na relva, ele chorou.
E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.


Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quando o Reino Vem

“Vinde a mim, todos que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”. Essas palavras dominaram a mensagem e a obra de Jesus por completo; elas contém o tema de tudo que ele ensinou e fez. Deixam também claro que em seu ensino Jesus deixou para trás, e muito, a mensagem de João Batista. João, embora tenha já entrado em conflito silencioso com os sacerdotes e os escribas, não chegou a se tornar um sinal definitivo de contradição.

“Os caídos e os ressurretos”, uma nova humanidade em contraste com os antigos homens de Deus – esses, Jesus Cristo foi o primeiro a criar. Ele entrou em imediata oposição com os líderes oficiais do povo, e neles com a natureza humana em sua manifestação usual. Eles pensavam em Deus como um déspota que guardava as observâncias cerimoniais de seu palácio; ele respirava na presença de Deus. Eles viam Deus somente na sua lei, que haviam convertido num labirinto de desfiladeiros escuros, becos sem saída e passagens secretas; ele o via e sentia em todo lugar. Eles tinham posse de milhares dos mandamentos divinos e achavam, por essa razão, que o conheciam; ele tinha apenas um, e o conhecia através dele. Eles haviam tornado essa religião num negócio mundano, e não havia coisa mais detestável; ele proclamava o Deus vivo e a nobreza da alma.

Se empreendermos uma visão geral do ensino de Jesus, veremos que ele pode ser agrupado sob três tópicos. Cada um é de tal natureza que é capaz de conter o ensino todo, que pode ser portanto exposto integralmente através de qualquer um deles.

Em primeiro lugar, o reino de Deus e sua vinda.

Em segundo lugar, Deus o Pai e o infinito valor da alma humana.

Terceiro, a supremacia ética do mandamento do amor.

Que a mensagem de Jesus seja tão singular e poderosa deve-se justamente ao fato de ser tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica. É simples a ponto de poder ser esgotada em cada um dos conceitos essenciais que ele proferia, e tão rica que cada um desses conceitos parece inesgotável, o completo significado dos aforismos e parábolas inteiramente fora de nosso alcance. Mas trata-se de ainda mais do que isso, porque ele mesmo é a credencial de tudo que disse. Suas palavras falam conosco, através dos séculos, com a vivacidade do momento presente. É aqui que fica comprovado o ditado profundo que diz: “Fala, para que eu possa te ver”.

A mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus percorre todas as formas e manifestações da profecia que, extraindo sua cor do Antigo Testamento, anuncia o dia do julgamento e o governo visível de Deus no futuro – até a ideia da chegada interior do reino, a começar da mensagem de Jesus e tendo ali o seu início. Sua mensagem abarca dois polos com diversos estágios intermediários, que fazem com que se mesclem um com o outro.

No primeiro polo a chegada do reino parece ser um evento puramente futuro, e o reino em si o governo visível e exterior de Deus; no segundo, parece ser algo interior, algo que já está presente mas faz sua entrada precisamente agora. Vê-se, portanto, que nenhum dos dois conceitos de reino de Deus, nem o modo como sua vinda é representada, são livres de ambiguidade.

Jesus extraiu a noção da vinda do reino das tradições religiosas da sua nação, onde ela já ocupava lugar de destaque. Ele incorporou os aspectos dela nos quais o conceito era ainda uma força viva, e acrescentou aspectos novos. As expectativas eudemonísticas de caráter mundano e político foi tudo que ele descartou.

Não deve haver dúvida de que a ideia dos dois reinos, um de Deus e outro do diabo e do conflito entre eles, e de que no conflito final em algum momento futuro o diabo, expulso há muito do céu, seria derrotado também na terra, era uma noção que Jesus simplesmente compartilhava com seus contemporâneos. Ele não a iniciou; ele cresceu nela e a reteve. A outra noção, no entanto, O próprio Deus é o reino.de que o reino de Deus “não vem com aparência exterior”, de que ele já está aqui entre nós, é somente dele.

É verdadeiramente difícil e de responsabilidade a tarefa do historiador de discernir entre o que é tradicional e o que é peculiar, entre cerne e casca, na mensagem de Jesus do reino de Deus. Quão longe devemos ir? Não queremos roubar sua mensagem de seus matiz e caráter originais; não queremos transformá-la num pálido sistema de ética. Por outro lado, não queremos perder de vista seu caráter e força peculiares, como fazem os que querem explicar toda a mensagem de Jesus a partir das ideias gerais que prevaleciam no seu tempo. A própria maneira com que Jesus fazia distinção entre os elementos tradicionais – ele não deixou de lado nenhum em que houvesse uma centelha de força moral, e não aceitou nenhum que encorajasse as expectativas egoístas da sua nação, – essa própria discriminação nos ensina que era a partir de um conhecimento mais profundo que ele falava e ensinava.

Nós porém possuímos testemunho de natureza muito mais extraordinária. Quem quer saber o que significava na mensagem de Jesus o reino de Deus e a sua vinda deve ler e estudar as suas parábolas. Verá então o que ele queria dizer: o reino de Deus vem quando vem ao indivíduo, entrando em sua alma e aferrando-se a ela. Por certo o reino de Deus é o governo de Deus, mas é o governo de Deus no coração de indivíduos: é o próprio Deus em seu poder. A partir deste ponto de vista, tudo que há de dramático no senso externo e histórico desaparece, desaparecendo também todas as esperanças para o futuro. Tome qualquer parábola que lhe ocorrer, a parábola do semeador, a da pérola de grande valor, a do tesouro enterrado no campo: a palavra de Deus, o próprio Deus, é o reino. Não é uma questão de anjos e demônios, tronos e principados, mas de Deus e da alma, da alma e de seu Deus.


Adolf Harnack
em O que é o cristianismo, Palestra III

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fraqueza de Deus

Boa parte do ateísmo contemporâneo baseia-se na objeção enunciada com muita força no passado por J. P. Sartre e retomada pelos seus discípulos: “Se Deus existe, eu não sou nada”.

Se existe um Deus onipotente, o que ainda sobra para mim? Essa presença ao meu lado do poder absoluto torna irrisórias todas as minhas ações. Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante. Há muitas maneiras de enunciar o argumento.

A objeção foi formulada desde a Idade Média, mas não conseguiu convencer. A resposta diz que Deus e o homem não se situam no mesmo plano, como duas liberdades em competição.

A resposta não convenceu porque durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana. Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa.

De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre.

A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã.

É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz perceptível, mas não impõe a sua presença.

A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa pára, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus.

Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana.

O hino de Filipenses 2.6-11, núcleo da cristologia paulina, expressa essa fraqueza de Deus. Pois o aniquilamento de Jesus incluía o aniquilamento do Pai: "Esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se a foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2.7-8).

Deus escondeu o seu poder até a ponto de as autoridades de Israel não o reconhecerem. É desta maneira que Deus se dirige às pessoas: sem intimidação, sem poder, na dependência de seres humanos, entregando a própria vida nas mãos de criminosos. Quem dirá que dessa maneira Deus faz violência às pessoas?

Como comentou Levinas, o outro é o desafio da liberdade, a provocação que a desperta. Diante do outro há duas atitudes: examiná-lo para ver em que lê me poderia ser útil ou qual é a ameaça que representa para mim, ou então, perguntar-me o que eu poderia fazer para ajudá-lo.

A liberdade de Deus autolimita-se. Diante da sua criatura, Deus limita sua presença. Deus preferiu antes deixar que crucificassem o seu Filho a intervir para impedir tal justiça. Trata-se de fraqueza voluntária.

É verdade que durante muitos séculos, sobretudo na pregação popular, os pregadores apresentaram uma concepção bem diferente de Deus. Usaram temas e comportamentos da religião popular tradicional: medo diante do trovão, medo da seca e de cataclismos naturais – entendidos como castigos divinos –, medo das doenças recebidas também como castigos e assim por diante.

Era fácil despertar o temor a partir de idéias puramente pagãs ou supersticiosas. Essa pregação de terrorismo religioso podia dar resultados imediatos, levando milhares de pessoas aos sacramentos. A longo prazo, porém, destruíram as bases da credibilidade da Igreja. Hoje a maioria das pessoas deixaram de ter medo do trovão, não sendo mais motivo para temer a Deus, como foi no passado. Naquele tempo achou-se válido o método do temor, todavia hoje recolhe-se os frutos dessa pastoral.

Pensou-se que os povos precisassem temer um Deus forte – e desprezariam um Deus fraco. Tais erros se pagam cedo ou tarde. Estamos pagando hoje esse preço.

Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?

Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.

A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).

Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.


José Comblin
(extraído de "Vocação para Liberdade" - Editora Paulus)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Igreja uma realidade conjuntiva

A igreja é uma realidade conjuntiva, não é suficiente em si mesma. É sempre uma comunidade “e...,” “com...,” “mas...” A igreja só existe enquanto for simultaneamente um ato que transgrida sua própria institucionalidade, mas que seja desta também parasita. Como diz Peter Berger: “A igreja, enquanto anuncia a vinda triunfal (e isto é de fato sua mensagem), ainda leva consigo as marcas da kenosis de Jesus. Onde haveríamos de buscar pela presença deste Jesus kenótico? Provavelmente não nas instituições seguras de si mesmas e triunfalistas que merecem ser chamadas de ‘igrejas vigorosas’. Penso que ele se encontre nos lugares ‘débeis’ onde as pessoas estão inseguras, buscando réstias de verdade às quais possam se ater...”

O que aqui postulo é uma visão de ministério que tenha a coragem de viver esta vulnerabilidade e ser igreja na rua com a audácia de proclamar o Reino que é seu próprio fim e consumação; e com afeto oferecer-se como santuário, como casa e como lar aos que neste mundo são excluídos, sem terra nem teto. Esta é a igreja que é o protesto dos profetas e a solidariedade dos comovidos.


(Fragmento de um artigo de Vítor Westhelle)

quarta-feira, 2 de março de 2011

A compravação da Arte

Esse “júbilo” [do final feliz] que selecionei como marca distintiva do verdadeiro conto de fadas, ou como o selo que o caracteriza, merece consideração adicional.

Provavelmente todo escritor que cria um mundo secundário, uma fantasia, todo subcriador1, deseja ser em alguma medida um verdadeiro criador, ou espera estar bebendo na fonte da realidade; espera que a qualidade peculiar deste mundo secundário (se não todos os detalhes) sejam derivados da Realidade, ou estejam fluindo em direção a ela. Se o autor de fato alcança uma qualidade que pode ser descrita pela definição do dicionário: “consistência interna de realidade”, é difícil compreender como possa ser assim se a obra não partilhar da realidade em alguma medida. A qualidade peculiar do “Júbilo” numa obra de fantasia bem sucedida pode dessa forma ser explicada como um lampejo repentino de uma realidade ou verdade subjacente. Não se trata de mera “consolação” para a tristeza deste mundo, mas de uma gratificação e uma resposta para a pergunta: “é mesmo verdade?” A primeira resposta que dei a essa pergunta foi (com acerto): “Se você construir bem o seu mundinho, sim; é verdade naquele mundo”. Isso é suficiente para o artista (ou para a parte artística do artista).

Mas na eucatástrofe vemos num breve relance que a resposta pode ser ainda mais elevada; pode ser que ela seja um lampejo distante ou eco do evangelho no mundo real. O uso dessa palavra já dá uma indicação da minha conclusão. Trata-se de questão séria e perigosa. Sou cristão, e assim mereceria pelo menos que não se suspeitasse de irreverência voluntária de minha parte. Conhecendo minha própria ignorância e obtusidade, talvez seja presunção da minha parte abordar um tema dessa natureza; mas se pela graça o que tenho a dizer tiver em algum sentido qualquer validade trata-se, naturalmente, de apenas uma faceta de uma realidade incalculavelmente rica: Na eucatástrofe vemos o que pode ser um lampejo distante ou eco do evangelho no mundo real.finita apenas porque a capacidade do homem em favor do qual foi feita é finito.

Eu ousaria dizer que analisando a Narrativa Cristã por esse prisma, tem sido há muito meu sentimento (jubiloso sentimento) que Deus redimiu as criaturas criadoras-de-corrupção, os homens, de um modo que incluiu também esse aspecto, tanto quanto os outros, de sua estranha natureza. Os evangelhos contém um conto de fadas, ou uma narrativa de natureza mais abrangente que abarca toda a essência dos contos de fadas. Eles contém muitas maravilhas, particularmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas” em sua significância perfeita e suficiente e ao mesmo tempo poderosamente simbólicas e alegóricas – e entre as maravilhas a maior e mais completa concebível é a eucatástrofe. O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história humana. A ressurreição é a eucatástrofe da narrativa da Encarnação. Essa história começa e termina com júbilo. Ela exibe de forma proeminente aquela “consistência interna de realidade”. Não há história jamais contada que os homens prefeririam que fosse verdadeira, e nenhuma que um maior número de homens céticos tenha aceitado como verdadeira por seus próprios méritos. Pois a sua Arte exibe o tom supremamente convincente da Arte Primeira, isto é, da Criação. Rejeitá-la conduz à loucura ou à ira.

Não é difícil imaginar a tremenda empolgação e alegria que se faria sentir se descobríssemos que algum conto de fadas particularmente belo se mostrasse “primariamente” verdadeiro, sua narrativa se provasse factualmente histórica, sem que ele ainda assim perdesse necessariamente a significância mítica e alegórica que possuía. Não é difícil, pois não se requer que nos esforcemos de modo a conceber algo de qualidade desconhecida. Esse júbilo teria exatamente a mesma qualidade, se não o mesmo grau, do júbilo que produz a “reviravolta” final num conto de fadas: um júbilo tal que exibe o sabor distinto de verdade primária (de outro modo não poderia ser chamada de Júbilo). Ele antecipa (ou reporta ao passado – a direção temporal não é nesse sentido importante) a Grande Eucatástrofe. O júbilo cristão, a Glória, é da mesma natureza; ele é porém proeminentemente (infinitamente, se nossa capacidade não fosse finita) elevado e regozijante. Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.

Mas no Reino de Deus a presença do maior não deprecia o menor. O homem redimido é ainda homem. Contos e fantasias persistem ainda, e devem persistir. O Evangelho não abrogou as lendas; ele as santificou, especialmente no que diz respeito ao seu “final feliz”. O cristão tem ainda de trabalhar, com sua mente e com seu corpo, para sofrer, esperar e morrer; porém ele agora percebe que suas inclinações e faculdades têm um propósito que pode ser redimido. Tamanha é a dádiva que lhe foi concedida que ele é capaz agora, talvez, de intuir que pela Fantasia ele pode de fato contribuir no processo de esfoliamento e variado enriquecimento da criação. Todos os contos podem tornar-se realidade; e ainda assim, ao final, depois de redimidos, eles podem se mostrar tão similares e distintos das formas que damos a eles quanto o homem, finalmente redimido, será similar e distinto ao caído que agora conhecemos.


J. R. R. Tolkien, em Sobre contos de fadas

NOTAS

1. “Viemos de Deus e, inevitavelmente, os mitos desenvolvidos por nós, embora cheios de erros, refletirão pequenos fragmentos da verdadeira luz, a verdade eterna que está com Deus. Na verdade, somente e através da criação de mitos, tornando-se um ‘subcriador’ e inventando histórias, pode o Homem aspirar ao estado de perfeição que ele conhecia antes da Queda. Nossos mitos podem ser desencaminhados, mas eles, de modo trôpego, terminam por nos levar ao verdadeiro porto” (Citado em J. R. R. Tolkien, de Humphrey Carpenter).

2. Tolkien concebeu o termo eucatástrofe depois de ouvir uma história verdadeira com um final feliz e inesperado: “Cunhei a palavra eucatástrofe: a repentina reviravolta feliz numa história, que atravessa o ouvinte com uma alegria que conduz às lágrimas (e produzir essa alegria, argumentei, é a mais elevada função dos contos de fadas). E fui assim levado a concluir que a eucatástrofe produz seu efeito peculiar porque é um um vislumbre repentino da Verdade.”

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Por que eu deveria derramar lágrimas

Não sou uma pessoa que chora com naturalidade e, em geral, consideram-me forte. Fui educado na Rugby School, uma daquelas famosas escolas “públicas” em que se aprende a filosofia da casca grossa, isto é, não se deve demonstrar qualquer emoção.

Porém, li os evangelhos e descobri neles o registro de que Jesus, nosso Senhor, chorou em público duas vezes: uma por causa da falta de arrependimento da cidade de Jerusalém (Lc 19.41) e outra por causa do sepultamento de Lázaro (Jo 11.35).

Deste modo, se Jesus chorou, seus discípulos presumivelmente poderiam fazê-lo. Mas por que eu deveria derramar lágrimas? Não estava diante da falta de arrependimento nem da morte. Estaria eu afundado na autocomiseração, sob a perspectiva de uma lenta recuperação? Estaria lamentando minha queda e fratura? Estaria vislumbrando ali o fim do meu ministério? Não, na verdade eu não tive tempo de colocar meus pensamentos em ordem.

Tive uma experiência semelhante de lamento com meu amigo John Wyatt, que é professor de ética e perinatologia no hospital-escola da Universidade de Londres, e que se tornou famoso por defender a inviolabilidade da vida humana em debates públicos sobre aborto e eutanásia. Quando ele me visitou no hospital, compartilhamos nossas experiências de fragilidade e dependência e ambos chegamos às lágrimas. Eis a forma como ele descreveu essa situação:

“Nos primeiros dias depois da cirurgia, John Stott foi acometido por episódios de desorientação e por distintas e alarmantes alucinações visuais. Além disso, havia a inevitável humilhação de receber os cuidados da enfermagem, e a preocupação com o futuro. Enquanto estávamos no hospital, conversando e compartilhando, lembrei-me da minha própria experiência de doença e caos, alguns anos antes. Lembro-me que estávamos em lágrimas, dominados por um poderoso sentimento comum de vulnerabilidade e debilidade humana. Foi uma experiência dolorosa, mas libertadora”.

A seguir a segunda e semelhante experiência, dessa vez com a contribuição de Sheila Moore, minha fisioterapeuta e amiga:

“Foi logo após o retorno para casa, depois de sua convalescença. Stott havia acabado de voltar para descansar em uma cadeira, quando, de repente, estremeceu e suspirou profundamente. Fui ver se ele se sentia mal e percebi que as lágrimas fluíam livremente. Ele estava vivenciando uma arrebatadora liberação de toda a carga emocional e dos desafios dos eventos recentes, que ele havia pacientemente suportado sendo “um paciente”. Não há palavras a serem ditas durante uma experiência tão profunda — somente uma empatia e uma confortante mão firme em seu ombro. Pouco a pouco, enquanto a emoção cedia, assegurei a ele que não se tratava de uma experiência incomum em tais circunstâncias, e que as lágrimas são um alívio e uma forma de cura muito valiosa”.

Essa experiência completamente “inusitada” aconteceu repentinamente; foi uma surpresa que causou certo choque e dor emocional. Racionalizar tais experiências talvez seja difícil, especialmente para homens, que tendem a vê-las como uma humilhação. Porém, se encaradas com honestidade, podem ser um alívio maravilhoso. É muito valioso encarar aqueles momentos como uma preparação dada por Deus para as mudanças que se encontrariam à frente, e como um presente especial da parte dele.


John Stott
Texto retirado, com permissão, de O discípulo Radical, de John Stott, lançamento da Editora Ultimato, em março de 2011.
fonte: www.ultimato.com.br

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O monastério é o mundo

Como se sabe, Weber argumentou que a Reforma Protestante abriu caminho para o capitalismo através de uma completa alteração das crenças e hábitos diários da vida. Weber mostrou-se particularmente interessado em Calvino e no calvinismo, pois encontrou neles o processo pelo qual as disciplinas monásticas – o dia ordenado de trabalho, a vida frugal, o ascetismo, a autonegação, o chamado para a vida religiosa, o individualismo, a predestinação, a dependência da graça por parte de seres humanos inteiramente incapazes de qualquer bem eles mesmos porém constantemente impelidos às boas obras em resposta à graça – deixaram os monastérios e alcançaram a população em geral.

Esses ritmos da vida diária mostraram-se cruciais na transição entre os padrões medievais e aqueles mais adequados ao capitalismo. Embora Lutero tenha tomado o primeiro passo na desconstrução do monasticismo medieval, a contribuição de Calvino foi fazer deste mundo um lugar de teste e de preparação para a vida em outro mundo que ainda não pode ser conhecido. A vida diária tornou-se cenário de uma racionalização sem precedentes, na qual cada momento estava sujeito a ordenação, escrutínio e prestação de contas.

O paradoxo aqui está em que Calvino não tornou a vida humana menos religiosa: ao contrário, a vida humana como um todo tornou-se um monastério. Porém foi precisamente essa ampla religionização que gerou tanto as possibilidades do capitalismo quanto o fim do protestantismo calvinista como tal. Porque, ao sacralizar a vida como um todo, Calvino também a racionalizou; ao colocar em andamento essa estirpe secular de ascetismo, deixou de haver qualquer necessidade para a perpetuação de algum conceito religioso. Um ascetismo puramente secular tornou-se o resultado lógico da teologia de Calvino, que pode então ser descartada, uma vez que já cumpriu sua missão. O calvinismo protestante funciona portanto como um agente catalisador que desaparece uma vez que tenha cumprido a sua tarefa.


Roland Boer,
em Political Grace: The Revolutionary Theology of John Calvi

sábado, 18 de setembro de 2010

Humanidade, perfeição e um caminho

Uma pessoa não se torna perfeita, quando pratica na sua vida um padrão uniforme de perfeição universal, mas quando responde à chamada e ao amor de Deus, realizada nas limitações e circunstâncias da sua vocação particular.

De facto, a nossa procura de Deus não é de modo algum uma questão de O encontrar através de certas técnicas ascéticas. É antes uma pacificação e ordenação de toda a nossa vida pela negação de si mesmo, pela oração e boas obras, para que o próprio Deus, que nos procura mais do que nós O procuramos, possa "encontrar-nos" e "tomar posse de nós.

"Ser perfeito" não é tanto uma questão de procurar Deus com ardor e generosidade, mas de ser procurado, amado e possuído por Deus, de tal modo que a sua acção em nós nos torna completamente generosos, e nos ajuda a transcender as nossas limitações e a reagir contra a nossa fraqueza.

Tornamo-nos santos, não por dominarmos violentamente a nossa fraqueza, mas por deixarmos que Deus nos dê a força e a pureza do Espírito, em troca da nossa fraqueza e miséria.

Não compliquemos as nossas vidas nem nos frustremos, fixando demasiado a atenção em nós mesmos, esquecendo assim o poder de Deus e ofendendo o Espírito Santo.

A nossa atitude espiritual, o nosso caminho de procura de paz e perfeição, dependem inteiramente do nosso conceito de Deus.

Se formos capazes de acreditar que Ele é verdadeiramente o nosso Pai amoroso, se conseguirmos realmente aceitar a verdade da sua infinita e compassiva preocupação por nós, se acreditarmos que Ele nos ama, não porque somos merecedores, mas porque precisamos do seu amor, podemos então avançar com confiança. Não seremos desencorajados pelas nossas inevitáveis fraquezas e fracassos. Podemos fazer tudo o que Ele nos pede.

Mas se acreditarmos que Ele é um austero e frio legislador, que não tem verdadeiro interesse por nós, um mero governante, um senhor, um juiz e não um pai, teremos grande dificuldade em viver a vida cristã.

Precisamos, por isso, de começar a acreditar que Deus é o nosso Pai; se assim não for, não conseguiremos enfrentar as dificuldades do caminho da perfeição cristã.

Sem fé, o "caminho estreito" é completamente impossível.


Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Verdadeiramente humanos

Enquanto não compreendermos que, antes de o homem se tornar santo tem de ser primeiro homem, com toda a humanidade e fragilidade da verdadeira condição humana, não seremos capazes de entender o significado da palavra "santo". (...)

Se devemos ser "perfeitos" como Cristo é perfeito, devemos lutar para sermos tão perfeitamente humanos como Ele, de modo que Ele possa unir-nos com o seu divino ser e partilhar connosco a sua filiação do Pai do céu. Assim, a santidade não é uma questão de ser menos humano, antes mais humano do que os outros homens. Isto implica uma maior capacidade de preocupação, sofrimento, compreensão, simpatia e também de humor, alegria e valorização das coisas boas e belas da vida.

Por conseguinte, um pretenso "caminho de perfeição", que simplesmente destrói ou frustra os valores humanos, precisamente porque são humanos, tendo como ideal a atingir a separação dos outros homens, está condenado a não ser mais do que uma caricatura. E tal caricatura de santidade é, sem dúvida, um pecado contra a fé na Incarnação. Evidencia desprezo pela humanidade, pela qual Cristo não hesitou em morrer na cruz.


Thomas Merton, em "Vida e Santidade"

O caminho da humildade

É na humildade que se encontra a maior liberdade.(...)

É só quando deixamos de prestar atenção aos nossos feitos, à nossa fama e à nossa superioridade, que estamos finalmente livres para servir Deus perfeitamente e por Ele só.

A pessoa que não está despojada, pobre e despida no íntimo da sua alma tenderá insconscientemente a realizar em seu proveito as obras que tem a fazer, mais do que para a glória de Deus. Será virtuosa não porque ame a vontade de Deus, mas porque deseja admirar as suas virtudes pessoais. Mas cada momento do dia irá trazer-lhe alguma frustração que a tornará ríspida e impaciente, e será descoberta na sua impaciência.

Planeou executar actos espectaculares. Não pode imaginar-se sem uma auréola. E, quando os acontecimentos da sua vida diária lhe vão recordando a sua insignificância e mediocridade, fica envergonhado e o orgulho impede-o de engolir uma verdade que não surpreenderia qualquer pessoa sensata.


Thomas Merton, em "Novas sementes de contemplação"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A palavra da aliança

Em primeiro lugar, ela fala de um Deus que, de forma exemplar para toda a humanidade, transforma uma união tribal humana em povo seu, agindo nela como sendo seu Deus, comunicando-se com ela e tratando-a como povo seu. Jahvé: “Eu sou o que serei”, ou, melhor, “Eu serei o que sou”, este é o nome deste Deus. E Israel: Lutador (não em favor, mas) contra Deus, este o nome do povo. A aliança é a união de Deus com este povo, dentro de sua história comum. Ela fala, de maneira estranhamente contraditória, mas inequívoca, do encontro jamais interrompido, do dialogo, da comunhão entre Deus santo e fiel e um povo que nem é santo e fiel. Assim ela fala simultaneamente da presença constante e fiel do parceiro divino, e do falhar do seu parceiro humano, destinado a ser-lhe conforme, a corresponder a sua santidade, a responder com fidelidade à sua fidelidade divina. Assim ela revela a plenitude divina da aliança, não a humana. Neste sentido ela deixa de apresentar a aliança em sua plenitude consumada. É assim que, transcendendo a si mesma, aponta para uma consumação que nela tende a realizar-se, que, no entanto, não chega a ser realidade.

Neste ponto intervém a história de Jesus Cristo, na qual o agir e o falar do Deus de Israel não terminam, mas na qual alcança sua finalidade. Em Cristo, a antiga e única aliança, feita com Abraão, proclamada por Moisés, confirmada a Davi, se transforma em aliança nova, contanto que agora o próprio santo e fiel Deus de Israel apresenta seu parceiro humano santo e fiel, fazendo encarnar-se um homem. Assim não deixa de ser a história de Deus com Israel, seu povo, e a de Israel com seu Deus, que se consuma na encarnação, na existência, na obre e na palavra de Jesus de Nazaré. Ela não chega a consumar-se, porém, atreves de uma simples continuidade histórica. Deus não faz surgir um novo Moisés, um novo profeta, um novo herói. A consumação se efetua através da ação do próprio Deus (evidentemente nada, além dele, seria suficiente para preencher o vácuo), que passa a habitar naquele homem, passa a agir e a falar através dele. É a própria história de Jesus Cristo que, ao fim da história de Israel, evidencia que o Deus de Israel assim passa a dar forma plena à aliança feita com seu povo. A história do Cristo, profundamente arraigada na história de Israel, e simultaneamente elevada (transcendendo-a), fala da unidade do povo de Deus, tornada evento, do Deus que se humilha, estabelecendo a comunhão com o homem, do Deus que se revela como sendo Deus da graça, do Deus que eleva o homem para sua comunhão, tendo-o como parceiro que com ele se comunica em gratidão e em liberdade. Assim “Deus era em Cristo”. Assim este Unigênito era e é o aguardado, dentro da aliança de Deus com Israel, o prometido, mas o que ainda haveria de vir. E assim a palavra de Deus era e é (na forma plena, que na história de Israel apenas se anuncia) a palavra que neste Unigênito se tornou carne.

A história de Jesus Cristo, em primeira linha, e antes de tudo, foi um evento a favor de Israel. Foi a história da aliança de Deus com Israel, que em Cristo chegou a seu alvo. E assim a palavra pronunciada na história de Jesus Cristo, a palavra de Deus que nele se tornou carne, em primeira linha, e antes de tudo, era e é a palavra definitiva, dirigida a Israel, fato que jamais deveríamos esquecer. Contudo, o sentido da aliança estabelecida com Israel era e continua sendo sua missão como mediador dos povos. E assim Deus subsistia e subsisti em Cristo, a reconciliar o mundo consigo mesmo, através do Cristo de Israel. Por conseguinte, a palavra de Deus, pronunciada através de sua ação em Israel e com Israel, nesta sua forma plena, era e continua sendo seu apelo confortante, dirigido a todos os irmãos do unigênito Filho de Deus, apelo, que conclama a conversão e à fé. É sua palavra benigna, que anuncia seu agir benigno, dentro e a favor do todo de sua criação, palavra dirigida a todos os povos, aos povos de todas as terras e de todos os tempos. Assim, teologia evangélica terá por tarefa ouvir essa palavra em sua plenitude tanto intensiva como extensiva, como sendo palavra da aliança da graça e da paz, de assim entende-la e interpreta-la: como sendo palavra de Deus tornada carne no Cristo de Israel, de modo particular, e justamente nele, como sendo salvador no mundo, dirigido a todos os homens, em âmbito universal.

É esta palavra em sua totalidade que eles terão de ouvir e à qual deverão responder: a palavra de Deus proclamada no relacionamento da história de Israel com a história de Jesus Cristo, e vice-versa, palavra da aliança de Deus com o homem que lhe virou as costas, mas que, graças ao engajamento de Deus por ele, chegou a voltar-lhe a face. [...]


Karl Barth
Trecho retirado da 2° Preleção do livro "Introdução a Teologia Evangélica"

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A arte de ser simples

As coisas simples são sempre as mais difíceis.

A arte de ser simples é a mais elevada, e do mesmo modo aceitar-se a si mesmo é a essência do problema moral e o cerne de toda uma visão de mundo. Que eu alimente um mendigo, que perdoe uma ofensa, que ame um inimigo em nome de Cristo, são todas sem dúvida grandes virtudes. Aquilo que faço ao menor de meus irmãos estou fazendo a Cristo.

Mas e se eu acabar descobrindo que o menor de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais acusado de todos os ofensores e o próprio grande adversário residem dentro de mim, e que eu mesmo careço de minha própria bondade? Que sou eu mesmo o inimigo que deve ser amado? E então?

Portanto, regra geral, toda a verdade do cristianismo é revertida, e não se aplica qualquer discurso de amor e longanimidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: “Raca!” e infligimos condenação e fúria sobre nós mesmos. Escondemos do mundo o irmão interior, negamos ter jamais conhecido esse menor dos menores dentro de nós, e se o próprio Deus se aproximasse de nós nessa forma desprezível – a nossa forma – teríamo-lo negado mil vezes antes que cantasse um único galo.


Carl Jung
em Psicoterapeutas ou o clero

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A revelação e a palavra

Palavra de Deus é a palavra que Deus falou, fala e haverá de falar em meio aos homens, a todos os homens, quer seja ouvido que não o seja. É a palavra de seu agir nos homens, a favor dos homens, com os homens. Este seu agir não nenhum agir mudo; é uma agir que fala por sua própria natureza. Sendo que só Deus é capaz de realizar o que realiza, só ele será capaz de dizer em seu agir o que diz. E, por seu agir não ser dúbio, mas sim, uno e inequívoco (e isso, em suas formas múltiplas, e dentro do seu movimento que parte da origem e visa o alvo), também sua palavra, em toda sua excitante riqueza, é una e inequívoca. Não é dúbia, é evidente. Não é obscura, é clara, portanto compreensível, tanto para o mais sábio quanto o mais estulto. Deus age, e agindo fala. Sua palavra acontece. [...] Falamos do Deus do Evangelho, no seu atuar como tal é sua linguagem, sua palavra. [...]

A Palavra de Deus, portanto, é evangelho, mensagem boa, porque é ação benigna de Deus que nela se expressa e que por ela se transforma em apelo pessoal. [...] É em sua palavra que Deus revela seu agir, no horizonte de sua aliança com o homem; e na historia de sua constituição, da manutenção, da realização e da conclusão dessa aliança é que ele se revela a si mesmo. Revela sua santidade, mas revela também sua misericórdia, misericórdia de pai, de irmão, de amigo. Revela seu poder e sua majestade, como sendo senhor e juiz do homem. Mas em sua palavra revela também o homem como sua criatura, como sendo seu devedor insolvente, criatura perdida sobre seu juízo. Revela-o como criatura mantida por sua graça, como homem salvo por Deus, posto a seu serviço. Revela o homem como sendo seu filho e servo, como sendo seu amado, segundo parceiro na aliança; em síntese: revela o homem como sendo homem de Deus. A aliança, é, portanto: Deus como o Deus do homem e o homem como homem de Deus, esta historia, esta obra tal como é idêntica ao testemunho da palavra de Deus, testemunho que a distingue de qualquer outra palavra. [...]


Karl Barth
Trecho retirado da 2° Preleção do livro "Introdução a Teologia Evangélica"

domingo, 8 de agosto de 2010

Uma beleza que revolta

Um belo dia abracei a religião cristã.

Para falar a verdade, eu não era bom naquilo. Religião não é pra mim, e por algum tempo fiquei me sentindo um completo fracasso. Alguns religiosos me condenaram (e ainda condenam) ao fogo eterno, mas com o tempo passei a ver meu fracasso religioso como uma tremenda benção.

Porque, quando perdi minha religião, encontrei uma linda revolução.

Isso talvez ofenda ou surpreenda você, mas Jesus não é o fundador da religião cristã. É verdade, séculos depois dele levantou-se uma religião chamada “cristã” – mas, como você vai descobrir neste livro, em muitos sentidos essa religião representava o oposto de tudo que Jesus representava. Na verdade, como você vai também descobrir neste livro, o próprio conceito de uma “religião cristã” tem muito de mito quando entendido à luz do que Jesus representava.

Porque a mensagem essencial de Jesus não tem nada a ver com ser religioso. Basta ler os evangelhos: ele festava com os maiores pecadores e ultrajava os religiosos, e por isso foi crucificado.

O que Jesus representava era o início de uma revolução, revolução à qual ele deu o nome de “reino de Deus”.

O centro dessa revolução não é fazer com que as pessoas acreditem em determinadas crenças religiosas e adotem determinados comportamentos religiosos, embora essas coisas possam ser importantes, genuínas e úteis. Essa revolução também não está centrada na tentativa de consertar o mundo pela defesa das causas políticas “certas” e pela promoção das políticas nacionais “certas”, embora essas coisas possam ser nobres, bem-intencionadas e eficazes.

Não: o reino de Deus estabelecido por Jesus está centrado em uma coisa e apenas nessa coisa: manifestar a beleza do caráter de Deus e, em conformidade com isso, revoltar-se contra tudo que é inconsistente com essa beleza. O reino está centrado na manifestação de uma beleza que revolta.

O reino é, em resumo, uma linda revolução.

Tudo em Jesus manifestava esse reino belo e “revoltante”; podemos vê-lo de forma mais profunda quando que Jesus deixou-se crucificar. No Calvário Jesus exibe a beleza da decisão de Deus de sofrer pelos seus inimigos – em vez de usar seu poder onipotente para derrotá-los de forma violenta. No Calvário vemos também a revolta divina contra nossa escravidão à violência e tudo que nos mantém alienados de Deus e uns dos outros. O próprio diabo é confrontado e vencido pela cruz de Jesus Cristo.

A morte de Jesus resume o tema de sua vida inteira. Cada aspecto de sua vida, seu ensino e ministério colocava em exibição a beleza do reino de Deus e revoltava-se contra algum aspecto da cultura que contradizia esse reino.

O chamado essencial de todos que entregam sua vida a Cristo é unir-se a essa linda revolução e, portanto, viver e amar dessa forma. “Quem diz viver nele”, afirma João, “deve viver como ele viveu” (1 João 2:6). Devemos manifestar a beleza de Deus amando sacrificialmente nossos inimigos, servindo os pobres, alimentando os famintos, libertando os oprimidos, acolhendo os excluídos, abraçando os maiores pecadores e curando os doentes, como Jesus fez. E não existe como fazer isso sem ao mesmo tempo nos revoltarmos contra tudo em nossa vida que nos mantém autocentrados, gananciosos e apáticos diante das necessidades dos outros. Também não há como fazer isso sem revoltar-se contra tudo na sociedade – e, como veremos, no âmbito espiritual – que mantém as pessoas oprimidas fisicamente, socialmente e espiritualmente.

Você então vê que o reino não tem nada a ver com religião – quer seja “cristã” ou não. Tem a ver com seguir o exemplo de Jesus, manifestando a beleza do reinado de Deus ao mesmo tempo em que nos revoltamos contra tudo que é feio.

É uma linda revolução a que somos todos convidados a aderir. Mas para fazer isso será preciso abrir mão da religião.


Gregory A. Boyd,
em The Myth of Christian Religion
(O mito da religião cristã)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A pobreza dos ricos

O Murray é banqueiro em Nova Iorque e conhece pessoalmente inúmeras pessoas de quem eu só ouvi falar na televisão ou nos jornais. Leu muitos dos meus livros e acha que o seu mundo precisa tanto da Palavra de Deus como o meu. Foi uma experiência de grande humildade ouvir um homem que conhece «este mundo e o outro» dizer:

- Dê-nos uma palavra de Deus, fale-nos de Jesus... não se afaste dos ricos que são tão pobres.

Jesus ama os pobres - mas a pobreza reveste-se de muitas formas. Esqueço-me desse facto com imensa facilidade, deixando os poderosos, os famosos e os bem sucedidos na vida, sem o alimento espiritual de que carecem. Mas, para oferecer esse alimento, tenho que ser eu próprio muito pobre - não curioso, não ambicioso, não pretencioso, não orgulhoso. É tão difícil deixarmo-nos deslumbrar pelo brilho mundano, seduzidos pelo seu aparente esplendor. E, contudo, o único lugar onde devo estar é o da pobreza, o ponto onde há solidão, raiva, confusão, depressão e sofrimento. Preciso de lá ir em nome de Jesus, mantendo-me junto do seu nome e oferecendo o seu amor.

Ó Senhor, ajuda-me a não me deixar dispersar pelo poder e pela riqueza;
ajuda-me a não me deixar impressionar com as estrelas e heróis deste mundo.
Abre os meus olhos aos corações sofredores do teu povo,
sejam quem forem,
e põe na minha boca a Palavra curativa e consoladora.
Amém.


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

O dom da unidade

A unidade entre as pessoas não é consequência do esforço humano mas sim um dom divino.

A unidade entre as pessoas é um reflexo da unidade de Deus.

Quando Jesus reza pela unidade (João 17, 21), Ele pede ao Pai que aqueles que crêem nele, que está em perfeita comunhão com o Pai, façam parte dessa unidade. Continuo a ver em mim próprio e nos outros como nos esforçamos por ser unidos, focando toda a nossa atenção uns nos outros e tentando descobrir o ponto onde nos possamos sentir unidos. Mas ficamos muitas vezes desiludidos, quando vemos que nenhum ser humano é capaz de nos oferecer o que mais desejamos. Esta desilusão pode tornar-nos facilmente amargos, cínicos, exigentes e até mesmo violentos.

Jesus chama-nos a procurar a nossa unidade com e através dele. Quando dirigimos primeiramente a nossa atenção interior não para os outros mas para Deus, a quem pertencemos, então sim, descobriremos que em Deus também pertencemos uns aos outros.
A amizade mais profunda é a que tem Deus como mediador; os mais fortes laços matrimoniais são os mediados por Deus.


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"
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