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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Mais uma do Bonhoeffer

“A graça barata é a pregação do perdão sem exigir arrependimento, o batismo sem a disciplina da igreja, a Comunhão sem a confissão, a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado" 


D. Bonhoeffer

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O poder ilimitado

É a Onipotência do Calvário que revela a verdadeira natureza da Onipotência do ser infinito. A humildade do amor oferece a chave: é necessário pouco poder para se exibir, é necessário muito poder para apagar a si mesmo.

Deus é um poder ilimitado de apagamento de si. Deus é infinitamente rico. Mais rico em amor, não em haveres. [...] Riqueza em amor e pobreza são sinônimos.

Deus é soberanamente independente, portanto livre. Mas livre para ir até o fim do amor. O fim do amor é a renúncia à independência. No limite, é a morte.


François Varillon em l'Humilité de Dieu,
citado por Jean Delumeau em À Espera da Aurora, Ed. Loyola, p.111.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Áspero amor

Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado, lança das dores,
corola da cólera, por que caminhos
e como te dirigiste a minha alma?

Por que precipitaste teu fogo doloroso, de repente,
entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
que flor, que pedra, que fumaça
mostraram minha morada?

O certo é que tremeu noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com teu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,

enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas
e espinhos abriu no coração um caminho queimante.


Pablo Neruda

domingo, 4 de abril de 2010

Em clima de Páscoa

Uma dica do meu chará Ricardo Costa, rs. Ai vai!!!



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

sábado, 28 de março de 2009

Abraçando a Dor

No mundo a nossa volta, faz-se uma distinção radical entre alegria e tristeza. As pessoas têm a tendência a dizer: "Quando estamos alegres, não podemos estar tristes e, quando estamos tristes, não podemos estar alegres". De fato, a sociedade contemporânea faz todo o possível para separar a tristeza da alegria. Por isso, a tristeza e a dor devem ser evitadas a todo custo, porque são o oposto da alegria e do contentamento que desejamos.

A morte, a doença, as franquezas humanas, tudo deve ser escondido do nosso olhar, porque são coisas que nos afastam da alegria por que anelamos. São obstáculos no caminho de nossa meta de vida.

A perspectiva oferecida por Jesus está em contraste evidente com está visão mundana. Jesus demonstra, tanto nos seus ensinamentos quanto na sua vida, que a verdadeira alegria é freqüentemente encoberta pela nossa tristeza e que a dança da vida tem o seu início quando nos tocam as desgraças. Diz ele: "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morrer, produz muito fruto. Quem tem apego à sua vida, vai perdê-la, quem despreza sua vida nesse mundo, vai conservá-la para a vida eterna" (João 12.24). A dois de seus discípulos desiludidos depois da sua paixão e morte, Jesus diz: "Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo em que os profetas falaram! Será que o Messias não devia sofrer tudo isso, para entrar na sua glória?" (Lucas 24.25 e 26).

É-nos revelada aqui uma maneira completamente nova de se viver. É uma maneira segundo a qual a dor pode ser abraçada, não pelo desejo de sofrer, mas por saber que algo de novo nascerá da dor. Jesus chamas às nossas dores "dores de parto". Diz assim: "Quando à mulher está para dar a luz, sente angústia, porque chegou a sua hora. Mas quando a criança nasce, ele nem se lembra mais da aflição, porque fica alegre por ter posto um homem no mundo" (João 16.21).

A cruz tornou-se o mais poderoso símbolo desta nova visão. A cruz é um símbolo de morte e vida, de sofrimento e de alegria, de derrota e de vitória. É a cruz que nos indica o caminho.


Henri Nouwen
Trecho do Livro "Mosaicos do Presente" da Editora Paulinas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Minha vocação

12 de outubro de 1977,

Geralmente uso uma pequena cruz de estanho. Não conseguia encontrá-la quando estava me vestindo hoje de manhã e, então, gritei:

_ Linda, não consigo encontrar minha cruz.

Respondeu ela, com uma ponta de ironia:

_ Tenho certeza de que você vai encontrá-la.

Achei. Ela está comigo. Mas aqui, no meu quartinho na casa de hóspedes da Abadia Getsêmani, fico cismando sobre outra cruz, aquela que devo pegar para seguir a Cristo.

Não estou nada preparado para esse silêncio. Esperava ausência de som. Estou oprimido por uma presença concreta.

O folheto de instruções que me deram diz assim: "Os retiros são feitos de modo privado.". A solidão que sinto é uma coisa nova, totalmente diferente da solião das montanhas ou dos rios. É uma terivel confrontação com o barulho da minha própria mente e alma. Quero produzir um ruído, apresentarme àquele homem no fundo do corredor. Se eu pudesse falar de Deus, não teria de enfrentá-lo. Mas aqui nesse silêncio toda conversa é conduzida por Deus.

[...] A cruz que perdi estava me esperando nas Escrituras. "Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou quem vive, mas Cristo vive em mim." Agora, sentado diante desse caderno, descobrindo os meus pensamentos à medida que os escrevo, fico cismando. Terei a coragem de pegar essa cruz?

[...] O trabaho que devo realizar aqui, escrever sobre Thomas Merton, parece-me estranhamente sem importância nesse lugar. Ontem, minha sensação é de que u vinha aqui para me encontrar com Merton, de tando que identifica a Abadia Getsêmani com a vida dele. Hoje, ele está reduzido ao meu desejado anonimato, De repente, tomo consciência de que o único trabalho que vale a pena querer é o que Deus quer. Maravilhoso paradoxo! Trabalhar para receber a graça, para tornar-se uma pessoa em quem Deus fala com Deus.

Estou aqui sentado morrendo de frio, vestindo essa camisa de flanela e um suéter de lã, enquanto as fortes vozes masculinas dos monges enchem a igreja de louvor. À medida que a luz desaparece, a Luz continua presente. Minha imaginação é estimulada de um modo totalmente natural, mas algo mais do que a imaginação está agindo em mim.

Cristo está presente.

Deus em Cristo já fez tudo. Não preciso me preocupar em caminhar com Cristo, como se pudesse fazê-lo. Preciso apenas sentar-me à uz de sua graça, ficar quieto e ouvir. Que me dirá ele? A mesma coisa que disse a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Ele revelará a si mesmo, não coisas sobre si mesmo, e eu jamais querer abandonar o meu lugar.

Os 20 minutos de joelhos durante o ofício da noite são minutos em que o Atemporal habita o tempo. A eternidade é agora. Não tenho palavras. O Inefável as tomou de mim, assim como tomou o ruído que carreguei comigo durante toda minha vida ansiosa e agitada. "Você não temerá o pavor da noite, nem a flexa que voa do dia [...] e lhe mostrarei a minha salvação."

É possível viver em Cristo, na sua paz, na sua graça. É possivel ter consciência de que nele vivemos, nos movemos e existimos. E que nele, por meio de sua humanidade aperfeiçoada que se prolonga na sua igreja, estamos incluídos na vida da trindade.

Meu tempo aqui foi tempo de redenção. Meu conhecimento deste lugar tornou-se mais profundo, assim como o conhecimento de mim mesmo. Sinto-me atraído por imagens, tentando a ver através delas o Cristo que é o Criador de todas as imagens. Minha vocação é para o casamento, para viver na plenitude a metáfora da encarnação na realidade das minhas tarefaz diárias. Minha vocação é viver entre amigos, ensinar e ver nos meus alunos o Cristo que redime a todos. Não tenho vocação para o silêncio, mas sim para os silêncios entre as palavras que fazem os ritmos da poesia. Minha vocação é seguir a via da Afirmação.


John Leax
Trecho do diário do John Leax escrito durante sua estádia na Abadia Getesêmani publicado no livro "Muito Mais Que Palavras"

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A Velha e a Nova Cruz

Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos círculos evangélicos dos tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas é diferente; as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais.

Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito à vida cristã, e desta nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica – um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Este novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior.

A velha cruz não fazia aliança com o mundo. Para a carne orgulhosa de Adão ela significava o fim da jornada, executando a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; pelo contrário, é sua amiga íntima e, se compreendermos bem, considera-a uma fonte de divertimento e gozo inocente. Ela deixa Adão viver sem qualquer interferência. Sua motivação na vida não se modifica; ela continua vivendo para seu próprio prazer, só que agora se deleita em entoar coros e a assistir filmes religiosos em lugar de cantar canções obcenas e tomar bebidas fortes. A ênfase continua sendo o prazer, embora a diversão se situe agora num plano moral mais elevado, caso não o seja intelectualmente.

A nova cruz encoraja uma abordagem evangelística nova e por completo diferente. O evangelista não exige a renúncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele não prega contrastes mas semelhanças. Busca a chave para o interesse do público, mostranto que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; mas, pelo contário, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento é mostrado como sendo exatamente aquilo que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso é melhor.

A nova cruz não mata o pecador, mas dá-lhe nova direção. Ela o faz engrenar em um modo de vida mais limpo e agradável, resguardando o seu respeito próprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egoísta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca emoções, chama: "Venha e goze da emoção da fraternidade cristã". A mensagem de Cristo é manipulada na direção da moda corrente a fim de torná-la aceitável ao público.

A filosofia por trás disso pode ser sincera, mas na sua sinceridade não impede qe seja falsa. É falsa por ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.

A velha cruz é um símbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O homem, na época romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada já se despedira de seus amigos. Ele não mais voltaria. estava indo para seu fim. A cruz não fazia acordos, não modificava nem poupava nada; ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. Não tentava manter bons termos com sua vítima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem já não existia.

A raça de Adão está sob sentença de morte. Não existe comutação de pena nem fuga. Deus não pode aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que pareçam aos olhos humanos. Deus resgata o indivíduo, liquidando-o e depois ressucitando-o em novidade de vida.

O evangelismo que traça paralelos amigáveis entre os caminhos de Deus e os do homem é falso em relação à bíblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A fé manifestada por Cristo não tem paralelo humano, ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo não elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.

Nós, os que pregamos o evangelho, não devemos julgar-nos agentes ou relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. Não devemos imaginar que fomos comissionados para tornar Cristo aceitável aos homens de negócio, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem não é um acordo mas um ultimato.

Deus oferece vida, embora não se trate de um aperfeiçoamento da velha vida. A vida por Ele oferecida é um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possuí-la deve passar pelo castigo. É preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentença de Deus contra ele.

O que isto significa para o indivíduo, o homem condenado quer encontrar vida em Cristo Jesus? Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida? É muito simples, ele deve arrepender-se e crer. Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele não deve encobrir nada, defender nada, nem perdoar nada. Não deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabeça diante do golpe do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.

Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiança o salvador ressurreto e receber dEle vida, novo nascimento, purificação e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus põe agora um fim no pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.

Para quem quer que deseje fazer objeções a este conceito ou considerá-lo apenas como um aspecto estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovação sobre esta mensagem desde os dias de Paulo até hoje. Quer declarado ou não nessas exatas palavras, este foi o conteúdo de toda pregação que trouxe vida e poder ao mundo através dos séculos. Os místicos, os reformadores, os revivalistas, colocaram aí a sua ênfase, e sinais, prodígios e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho da operação divina.

Ousaremos nós, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos nós com nossos lápis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padrão que nos foi mostrado no Monte? Que Deus não permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.


A. W. Tozer
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