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quinta-feira, 8 de março de 2012

FALE SP promove ação em favor do Pinheirinho


O desocupação do Pinheirinho causou a 9000 pessoas, que foram desalojadas de suas moradias e colocadas em situação de rua e tiveram suas casas demolidas com todos os seus pertences dentro delas. Foi verdadeiro massacre que não tirou a vida das vítimas, mas, que não respeitou o direito à dignidade no viver.
Ariovaldo Ramos, membro do conselho da Rede FALE, afirmou que “O motivo alegado para a prática do massacre, foi a reintegração de posse do terreno ocupado por essas 9000 pessoas a, pelo menos, 8 anos. Posse duvidosa, diga-se de passagem, porque este terreno foi propriedade de uma família que não deixou herdeiros, passando a posse do terreno, por justiça, essa, sim, legislada, para o Estado, portanto, para benefício do povo”.
A Rede FALE São Paulo, comovida com os relatos de abuso de poder do estado de São Paulo,  decidiu se mobilizar para orar pelas pessoas atingidas por essa barbárie para conseguir donativos para esses pequeninos e promover momentos de oração.
Caso você queira nos ajudar articulando sua igreja ou movimento para orar e/ou ajudar o Pinheirinho, envie um e-mail para redefalesp@gmail.com
Para saber mais, leia – Reagindo ao Massacre

terça-feira, 6 de março de 2012

Oração do Pinheirinho


"Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra”!
Isaías 5:8
Oh, Deus, criador desse planeta vasto e Pai nosso! Grande é a Tua misericórdia e por ela clama nosso coração!
Misericórdia, Senhor, pela nossa ignorância, que desconhece a função social da terra, pela omissão daqueles que dizem ser teus, pelo silêncio de nossa covardia, pela maldade que campeia esse grande latifúndio de desigualdades chamado Brasil.
Misericórdia, oh Deus, pois somos uma nação tão grande, com tanta terra, mas mesmo assim somos um país dos sem teto e dos sem chão, dos descamisados e da exploração dos especuladores.
Misericórdia, Senhor, porque a lógica que manda em nosso Brasil é a dos poderosos que acumulam e da falsa justiça, que mantém privilégios dos abastados enquanto trata os despossuídos, filhos também dessa terra, como bastardos.
Perdoai-nos, Senhor, por que a nossa Justiça não é justa para os injustiçados.
Misericórdia, Senhor, porque usamos os órgãos de segurança pública para espezinhar, bater e violentar os que nada tem, com a desculpa de trazer “ordem”... Perdoa-nos, por que agora, lá em São José dos Campos, crianças, homens e mulheres estão literalmente entulhados porque os nossos governantes fizeram das casas desses pequeninos entulho. Oh, Deus, cortaram o Pinheirinho para crucificar os pobres!
Senhor, que a tua Misericórdia nos inspire a sermos misericordiosos e nos levante para trazer dignidade para aqueles que sofrem na pele as misérias de nosso país.
Te pedimos em nome de Cristo, nosso Senhor,
Amém
Caio Marçal – Sec. de Mobilização da Rede FALE


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O plantador de igrejas

Lembrei desse video que assisti pela primeira vez devido uma dica do meu amigo Daniel Franzolin.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Uma igreja criativa ou evangelização criativa?

Você já percebeu que em nome da “evangelização” se pode quase tudo? Comecei reparar isso faz um bom tempo.

Na maioria das igrejas ainda a dança não é bem vinda, não a vemos nos cultos e nem nos ambientes eclesiásticos como festas e confraternização dos crentes. Mas é só marcar um evangelismo em alguma escola, que montam, ou pior, convidam, uma equipe de dança para fazer uma apresentação e chamar a turma para ver que não somos diferentes dos outros a não ser na mensagem.

Fazemos isso também com o teatro, vemos de forma rara teatro na igreja, tirando, é claro, a sala de criança (ai que inveja delas), mas é só marcar um evangelismo em uma praça que ensaiamos uma peça, usamos roupas e até maquiagem para mostrar que a criatividade e a arte podem apontar para Cristo.

E assim várias outras formas de arte e costumes são “justificadas” com a evangelização: Os palhaços com muito humor, música “secular” para falar de um assunto, filmes, contadores de histórias, poemas, sk8, pintura, um grupo tocando tambores, já ouvi até tatuagens sendo justificadas por que uma pessoa viu a cruz e perguntou o que era e o tatuado pode testemunhar de Cristo.

Se a sua igreja não deixa você fazer algo, tente justificar que é pra evangelismo que você vai ver que da certo, quase sempre relevam.

Parece que algumas regras, métodos e formas criadas para a igreja não se aplicam a evangelização, assim cria-se uma “brecha” para poder ter ministérios paralelos à igreja, mesmo sendo, no fundo, da igreja.

Este tipo de regras é incoerente, mas quero dar outro foco agora e não nas regras. Preciso fazer duas ressalvas: 1- Eu discordando da maioria dessas regras de uso e costume e acredito que são opiniões de pessoas que estão na liderança. 2-Acredito que se a pessoa decidiu congregar em uma igreja, ela tem que respeitar a liderança local e suas regras.

Quero falar sobre esse Evangelismo Criativo.

Por muito tempo estudei e corri atrás de um evangelismo criativo, pois queríamos atrair o maior número de pessoas possíveis para ouvir o que tínhamos para falar e mostrar que podíamos ser descolados também.

Foi quando percebi que corremos o risco de estar fazendo uma “propaganda enganosa” para os que não conhecem a igreja, pois cara que fosse atraído com aquela apresentação e mensagem, quando chegasse na igreja pensaria: “essa igreja não é a mesma que eu vi lá na minha conversão”.

Mesmo o Cristo sendo o mesmo, aprendemos a ter uma forma para evangelizar e outra como vida em igreja.

Não acredito mais em Evangelismo Criativo, acho que pode ser um tiro no pé, acredito em igreja criativa, que vive as multifaces de Deus em sua vida diária e em seus cultos.

Um lugar em que todos possam demostrar seus dons, um lugar onde a gente é surpreendido a cada momento com o que Deus esta fazendo, um lugar com liberdade para a arte aparecer e apontar para o verdadeiro artista, o Criador.

Dessa forma, não vamos mais precisar de um evangelismo diferente do que vivemos, pois é só mostrarmos quem nós somos diariamente: Filhos à imagem e semelhança do verdadeiro Artista, do Criador.


Marcos Botelho

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Reino e o Reinado

Vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia dai-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Pois vosso é o reino o poder e a glória para sempre, amém!

A palavra reino aparece duas vezes na oração. Na segunda frase: "Pois vosso é o reino…" Reino tem a conotação de tudo o que existe, isto é, de tudo o que é sustentado pelo DEUS . E o DEUS a tudo sustenta, pois só Ele (a TRINDADE) existe, tudo o mais subsiste nele.

Na primeira frase: "Venha a nós o vosso reino…" Reino traz o conceito de Reinado. É o pedido para que o reinado da TRINDADE seja estabelecido na terra.

É um pedido! O que pressupõe o desejo voluntário de quem pede!

Por que, a um ser todo-poderoso, se deve pedir, na realidade que Ele mesmo sustenta, a feitura de sua vontade?

O DEUS, que, por definição, tudo pode, concedeu, temporariamente, a possibilidade da rebelião, e, em o permitindo, sustenta a existência dos rebelados.

O DEUS, de toda a criação, possui todo o poder, mas, não é possuído pelo poder, daí cede espaço para a existência de consciências arbitrárias.

O DEUS decidiu que reinaria sobre os que desejassem estar sob o seu reinado.

Nesse tempo, que chamamos de hoje, o DEUS está a recrutar os que querem sobre si o reinado da TRINDADE.

Oram, conforme essa oração, os que voltaram do estado de rebelião para o estado de adoração, que é a maneira adequada de relacionar-se com o DEUS do Universo.

Não há, entretanto, nessa fase da história, boas notícias para os que fizeram essa opção.

O novo testamento começa com o DEUS sendo expulso do templo, e termina com Jesus do lado de fora da igreja.

No início do relato da nova aliança, João, o Batista, que é sacerdote da família de Arão (Lc 1.5,13), e que, portanto, se tudo estivesse sob o reinado do DEUS, estaria como sumo-sacerdote, está no ermo, dizendo ser a voz daquele que fala do deserto (Jo 1.23): o DEUS que sofreu a defenestração com a assunção do sumo-sacerdócio pelos lacaios dos romanos (Lc 3.1,2 - Hendriksen - Ed Cultura Cristã - comentários a Lucas 3.1 e João 11.49-52; 18.13, 19-28)

No final do NT, na carta à Igreja em Laodicéia, Jesus, o Cristo, está, do lado de fora, a bater à porta, na expectativa de ser ouvido. Além disso, o próprio Cristo levantou a questão de se ele, em sua vinda, em glória, acharia fé na terra (Lc 18.8). Ele falava dos seus, uma vez que fé é dom de Deus (Ef 2.8).

Pedir o reinado do Pai é submeter-se ao doloroso trabalho de transformação, protagonizado pelo Espirito Santo, que se utiliza, inclusive, das lutas diárias: Jo 15.2; Rm 5.3-5; 8.29; 2Co 3.18; Col 1.11,12; 2Tm 3.10-13; Hb 10.36, 12.1-11; 1Pe 4.12-19.

Sujeitar-se ao reinado do Pai é passar pelo sofrimento resultante da rebelião, que se manifesta na história e nos enfrentamentos espirituais: Mt 5.11,12, 10.16-39; Mc 10.29, 30; Jo 15.20; 2Co 12.10; 2Tes 1.4, 5; 2Tm 3.12; Ef 6.10-13; 1Pe 4.12-19.

Submeter-se ao reinado do Pai é perseverar frente ao engano dos falsos profetas, discernindo os seus desvios, e diante do esfriamento do amor em quase todos, dos que se definiam como seguidores do Cordeiro (Mt 24.11-13).

O Israel, no Antigo Testamento, tinha uma missão na história para o bem da humanidade; o Israel, no Novo Testamento, a Igreja (Rm 11.17), tem uma missão na humanidade para o bem da história.

O objetivo do DEUS, ao formar Israel, era trazer a criança prometida no Jardim (Gn 3.15, 12.1-3; Gl 3.16). O Israel, no AT, a deveria trazer para a história. As recompensas, nessa fase do Israel, eram históricas, o DEUS lhe prometeu que se cooperasse com Ele, nessa tarefa, comeria do melhor da terra. O Israel, no AT, tinha de chegar à terra prometida e lá ficar, porque a criança tinha lugar certo para nascer (Miq 5.2).

O papel do Israel, no NT, é anunciar a criança para todas as famílias da Terra, assim, ao contrário do que perseguia, no AT, uma terra em que mana o leite e o mel, nessa fase, Israel tem que, o tempo todo, sair de qualquer terra para ir à toda a Terra.

A amplitude e recompensa do Israel, no NT, aqui, é uma comunidade solidária e planetária (Mc 10.29,30; 1Pe 5.9) e uma história de glória na eternidade (Mt 5.12). O Israel, no NT, não pode prender-se à história, como a vivemos, para que a história da humanidade se torne bem-aventurada na dimensão da eternidade.

O Israel, no NT, a Igreja, como comunidade sob o reinado do DEUS, vive nesta história, nela sinaliza o reinado do DEUS, que já está presente em si, e influencia a sociedade para que, na medida possível, experimente os padrões do reinado, implantando a justiça onde o conseguir, e o faz para que mais da humanidade sobreviva, pelo debelamento da pobreza e de toda a sorte de opressão do homem pelo homem, mas, jamais perde o foco na eternidade, porque hoje é tempo de arrependimento, pois, toda a rebelião será debelada, e o reinado do DEUS será estabelecido, e só os arrependidos nele viverão.

Ora "venha o vosso reino", quem se arrependeu de estar em estado de rebelião; quem entende que a sociedade, também, deve se arrepender pelo estado de rebelião, que se manifesta no pecado estrutural; quem crê que Jesus, é Deus e Cristo (Mt 16.16); quem crê que virá o reinado eterno do DEUS (Mc 1.14,15); quem reconheceu ser um privilégio estar em comunidade sob o reinado; quem reconhece que só há comunidade onde há justiça; quem sabe que só pela eficácia do sacrifício do Deus Filho, manifesto na cruz (1Pe 1.18-20) e na sua ressurreição, é possível participar no reinado; quem entende que a dor da Cruz é pequena frente à vida abundante da Ressurreição, que, boa notícia, já é possível desfrutar desde agora, como indivíduo e sociedade!


Ariovaldo Ramos

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Uma igreja para quem não gosta de igreja


Já reparou que a gente costuma sentar no mesmo local todos os domingos na igreja? Sem pensar, quando entramos, já vamos direto para lá e pior, às vezes “achamos” que o lugar é nosso.

A maioria das pessoas não gosta de mudanças e é por isso que elas incomodam. Gostamos de ficar nos nosso conforto, mas crescimento requer mudanças.

Vira e mexe alguém me pergunta por que esta geração não se contenta com o que está na igreja, por que sempre estamos querendo mudar as coisas.

Não somos estátuas e nem somos feitos em séries, estamos o tempo todo em movimento, gerando novas culturas, novas necessidades e novos questionamentos.

Sinto que às vezes a igreja está dando respostas para uma pergunta que fizemos há 15 anos. O problema é que não nos lembramos mais dela porque já fizemos centenas de outras perguntas depois.

Há uns 10 anos fui em uma igreja na Califórnia que não tinha templo, eles se reuniam em escolas, já que aos domingos as escolas estão fechadas. Ao entrar, vi lá na frente uma faixa: “Uma igreja para quem não gosta de igreja”. Fiquei abismado com a proposta na hora, mas hoje eu entendo.

Fomos fazer uma série com Liturgia 2.0 (procurar em outros textos) para pessoas que não gostam de igreja, e uma das pessoas que estavam construindo essa série comigo me perguntou: “Não seria melhor a gente investir naqueles que gostam de igreja?”

Pensei: “Não é isso que fazemos todos os domingos?”.

Hoje eu sei o porquê busco mudar e continuar reformando a nossa igreja: porque eu seria um daqueles que gostaria muito de Jesus e do evangelho, mas não me adaptaria com a igreja.

Andy Stanley certa vez falou que “devemos casar com nossa missão e namorar a metodologia”.

O problema é que fazemos o contrário, casamos com a “forma”, porque não gostamos de mudanças, e acabamos enfraquecendo os nossos laços com a missão da igreja.

Eu diria que devemos casar com a missão e ficar com a forma, só usá-la e, quando ela não estiver sendo mais útil para a missão, devemos jogá-la fora.

O que não muda é a missão, é o nosso Deus. A forma tem que estar em mudança o tempo todo. Assim, as pessoas não vão recusar a essência (Deus) em detrimento da forma (liturgia).

Acho que é por isso sou um cara incomodado que as vezes incomoda, porque fico sempre pensando: “quantos Marcos Botelhos, Andrés, Ricardos estão aí fora sem ter experimentado o que é a igreja na essência, a vida no corpo de Cristo, e estão batendo cabeça sozinhos?”


Marcos Botelho

domingo, 5 de junho de 2011

Um novo paradigma de missão

“A filosofia do bufão é a filosofia que, em cada época, denuncia como duvidoso aquilo que parece ser inabalável. Declaramo-nos a favor da filosofia do bufão – aquela atitude de vigilância negativa frente a qualquer absoluto.”

Creio que vim de fábrica com o chip da filosofia do bufão. Antes mesmo de conhecer este pensamento do filósofo polonês Leszek Kolakowski sempre desconfiei do senso comum. Para quem porventura se preocupa comigo, advirto estar em boa companhia – também estou alinhado com o apóstolo Paulo: “examine tudo e retenha o que é bom”, pois “contra a verdade nada pode senão a verdade”.

Desta vez questiono o conceito de missão da igreja associado à grande comissão. Discordo dos que afirmam que a missão da igreja é apenas fazer discípulos. Primeiro porque a declaração de Jesus registrada em Mateus 28.18-20 é apenas uma das diversas referências bíblicas de onde podemos deduzir a missão da Igreja. Segundo, porque acredito que a teologia é a síntese das diversas referências bíblicas a respeito de um tema. E finalmente por considerar reducionista a equivalência da tarefa de fazer discípulos com a missão da igreja.


As referências bíblicas utilizadas para deduzir a missão da igreja são diversas, sendo as mais utilizadas as dos evangelistas, como por exemplo Mateus 28.18-20; Marcos 16.15; Lucas 24.46-48; João 20.21; Atos 1.8.

É fácil perceber que cada um destes textos possibilita um resultado diferente para o enunciado definidor da missão da igreja. O registro de Mateus possibilita a fórmula “fazer discípulos”, implicando necessariamente o ensino detalhado de todas as ordens de Jesus. Marcos indica a proclamação do evangelho como tarefa essencial, e nesse caso o conteúdo do kerigma é a boa notícia da chegada do reino de Deus. Lucas também sublinha a proclamação, mas o conteúdo do kerigma é menos abrangente, restrito à convocação ao arrependimento para perdão dos pecados. João abre um leque extraordinário quando afirma que a missão da igreja deve ser derivada da missão de Jesus – “assim como”, o que remete a declarações do tipo: “Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10.45), ou ainda: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19.10), de onde poderíamos deduzir que a missão da igreja se sustentaria em três ações concomitantes: buscar, servir e salvar. Por fim, em Atos (1.8) o evangelista Lucas aponta na direção do testemunho a respeito da pessoa e obra de Jesus como aspecto essencial da missão.

Alguém poderia afirmar que em essência a missão da igreja é fazer discípulos, e para tanto deve buscar e servir o perdido, anunciando a boa notícia da chegada do reino de Deus, convocando ao arrependimento para a remissão dos pecados, testemunhando em todo lugar a respeito de Jesus, visando a salvação de todo o que crê. Esta compreensão, entretanto, é bem mais complexa do que a mera declaração “fazer discípulos”. A sugestão de que as variantes presentes nas diversas narrativas contém ou explicam o significado completo do “fazer discípulos” é em si uma interpretação do conjunto de referências de onde se pode deduzir a missão da igreja. Isto é, dizer que “fazer discípulos” significa de fato isso e aquilo é elaborar teologicamente juntando, como peças de um quebra-cabeça, citações daqui e dali, amarrando um conceito no outro de maneira a buscar um sentido mais completo a partir da soma das partes afins. Duas perguntas surgem subjacentes a esse exercício. A primeira quer saber quantas e quais são as peças do quebra-cabeça, isto é, quais referencias bíblicas devem ser coligidas. A segunda interroga a respeito do resultado final do quadro a ser montado, isto é, questiona se o nome do quadro é mesmo “fazer discípulos” ou se haveria possibilidade de organizar as peças de maneira a chegarmos em outro enunciado definidor da missão da igreja.

Uma leitura mais ampla da Bíblia Sagrada, disposta inclusive a buscar as referências do Antigo Testamento como elementos constitutivos da missão do Messias transferida para a igreja, nos levaria necessariamente a concluir duas coisas: a primeira é que existem outras tantas narrativas negligenciadas pelo senso comum dos que definem a missão da igreja, e a segunda é que incluídas e consideradas estas outras peças do quebra-cabeça o resultado final será não apenas diferente como também e principalmente muito mais abrangente do que a mera declaração “fazer discípulos”.

Consideremos, por exemplo, apenas mais três referências bíblicas: Mateus 5.13-16; Lucas 4.17-21 [Isaías 61.1-4]; e Efésios 1.16-22.

Estas três referências apenas já são suficientes para ampliar completamente a perspectiva de compreensão da missão da igreja. A narrativa do Sermão do Monte, onde Jesus identifica seus discípulos como sal da terra e luz do mundo, deduzindo estas funções da identidade dos discípulos descritas nas bem-aventuranças, amplia o horizonte de compreensão da missão, incluindo a necessária transformação ou no mínimo afetação da realidade conjuntural – a terra e o mundo – onde os discípulos estão presentes. A narrativa de Lucas, quando Jesus aplica para si mesmo a profecia de Isaías, inclui na ação e presença messiânica a liberdade dos cativos e oprimidos, dando margens a interpretações diversas, desde os que espiritualizam os termos para que se refiram apenas à escravidão e opressão espirituais, até os que compreendem esta escravidão e opressão como incluindo as dimensões sociais, econômicas e políticas [a mesma discussão ocorre na hora de interpretar aqueles que Mateus chama de “pobres de espírito” e Lucas apenas de “pobres” (Mateus 5.3; Lucas 6.20)].

O texto de Efésios mais se parece como uma elaboração que o apóstolo Paulo faz da narrativa de João: “assim como Pai me enviou eu também vos envio”, pois vincula o propósito de Deus para Jesus com a relação entre Jesus e a Igreja. O apóstolo afirma que o propósito final de Deus é fazer Jesus Senhor sobre todas as coisas, “acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro”, e para tanto não apenas “sujeitou todas as coisas a seus pés”, como também “constituiu Jesus como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos”. A igreja é o instrumento através do qual Jesus exerce sua autoridade sobre todas as coisas.

Ainda que exista certa divergência nos limites implicados, está claro que a presença e atuação de Jesus e sua Igreja no mundo extrapolam a relação pessoal do indivíduo com Deus. Considero reducionista a definição da missão da igreja que se esgota no esforço de chamar pessoas ao arrependimento para remissão dos pecados e ensinar a elas todas as coisas que Jesus mandou, que resume a fórmula “fazer discípulos”.

É verdade que alguns missiólogos se defendem dessa pecha de reducionistas. Utilizam basicamente dois argumentos. O primeiro popularizado na máxima “converta-se o homem e a sociedade se endireitará”, sugerindo que as implicações sociais, econômicas e políticas do evangelho não dizem respeito à missão da igreja, mas à atuação dos cristãos na sociedade. A igreja se preocupa em cumprir sua missão: “fazer discípulos”, e os discípulos se ocupam em transformar, na medida do possível, a sociedade.

O segundo argumento utilizado contra a acusação do reducionismo se baseia no princípio da evangelização por presença, que preconiza o testemunho silencioso, através da vida íntegra e do serviço, como necessários à conquista do direito de falar e fator facilitador do anúncio do evangelho. Este raciocínio mantém a dicotomia entre evangelização e responsabilidade social, dando primazia ao testemunho verbal do conteúdo do kerigma sobre os atos de justiça. Nessa perspectiva a igreja é vista como uma comunidade diaconal, mas o serviço cristão se presta a oportunizar e autenticar a pregação (verbal) do evangelho.

Mais uma vez fica patente que a mera citação de textos bíblicos é insuficiente para a definição da missão da igreja, sendo necessária uma elaboração teológica que promova o sentido unívoco das diversas narrativas. Nesse caso, teologia por teologia, opto por descartar aquela que conclui que a missão da igreja se resume a fazer discípulos que viverão na sociedade de modo digno para que o anúncio do evangelho seja possível e credibilizado.

Considero que as expressões “fazer discípulos” e missão da igreja apontam realidades distintas e não podem ser consideradas sinônimas. Estamos, portanto, diante de pelo menos dois paradigmas, um que resume a missão da igreja na expressão “fazer discípulos” (paradigma da Grande Comissão) e outro que considera a missão da igreja em termos mais abrangentes (paradigma da Missio Dei).

O paradigma da Grande Comissão segue mais ou menos o seguinte esquema: (1) testemunho de presença (vida íntegra e de serviço) como pré-evangelização; (2) testemunho verbal do “plano da salvação”; (3) batismo: integração dos convertidos à igreja; (4) discipulado; (5) envio do discípulo para testemunho de presença (vida íntegra e de serviço) como pré-evangelização e testemunho verbal do “plano da salvação”.

Nesse paradigma, a salvação é eclesiocêntrica e se resume à conversão pessoal e individual: salvo é todo aquele que crê na mensagem do evangelho, se arrepende para a remissão de seus pecados, e passa a viver integrado na comunidade cristã, sob os imperativos éticos do evangelho e o compromisso de propagar e difundir a mensagem de salvação. Uma derivação deste paradigma ocorre quando se acrescenta o conceito de plantar igrejas, mas ainda assim o conceito de missão fica atrelado à igreja e sua expansão.

O paradigma da Grande Comissão é uma teologia da missão baseada em conceitos como: salvar almas, aceitar Jesus como Salvador pessoal, evangelismo pessoal, testemunho verbal, primazia da evangelização (compreendida como anúncio verbal) sobre a responsabilidade social, plantar igrejas, expansão missionária,e crescimento da igreja.

O paradigma da missio Dei tem origem em Karl Barth, na Conferencia Missionária de Brandemburgo em 1932. A influência do seu pensamento atingiu o auge na Conferência do Conselho Missionário Internacional ocorrida em Willingen (1952). De acordo com David Bosch (Missão transformadora. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002), “foi lá que a idéia (não o termo) da missio Dei emergiu, pela primeira vez, de maneira clara. Compreendeu-se a missão como derivada da própria natureza de Deus. Ela foi colocada, pois no contexto da doutrina da Trindade, não da eclesiologia nem da soteriologia. A doutrina clássica da missio Dei como Deus, o Pai, enviando o Filho, e Deus o Pai e o Filho, enviando o Espírito foi expandida no sentido de incluir ainda outro ‘movimento’: Pai, Filho e Espírito Santo enviando a igreja para dentro do mundo”.

O novo paradigma da missio Dei descarta a idéia de missão restrita ao discipulado individual e supera o reducionismo da salvação como livramento dos indivíduos das penas eternas. A igreja não é para o mundo, nem mesmo espaço de fuga do mundo, mas o próprio movimento de Deus para dentro do mundo, e nesse sentido, igreja com o mundo. A missio Dei se relaciona com a missão da igreja fazendo desta última a comunidade solidária com o Cristo encarnado e crucificado, bem como ressurreto e exaltado: igreja como plenitude da humanidade e epifania. Bosch conclui que “o propósito primeiro das missiones ecclesiae não pode, por conseqüência, ser simplesmente a implantação de igrejas e a salvação de almas; pelo contrario, ele deverá ser o serviço à missio Dei, representar a Deus no e diante do mundo (…) Em sua missão, a igreja é testemunha da plenitude da promessa do reino de Deus e é partícipe da batalha contínua entre esse reinado e os poderes das trevas e do mal”.

Desenvolvendo e dando contornos práticos ao conceito da missio Dei, Wesley Ariarajah, do Sri Lanka, acredita que não podemos “compreender a missão simplesmente como uma mensagem que trazemos ou atividades que fazemos no mundo, mas como participação com Deus e todos os outros ao trazer cura e integralidade, justiça e paz, reconciliação e renovação no mundo” (Hope S. Antone. Rumo a um novo paradigma nos conceitos de missão. Theologies and Cultures, vol V, no.2, December, 2008). Ariajarah sugere quatro aspectos da missão: os agentes e o objetivo da missão, a natureza da comunidade da fé em missão, e o conteúdo da missão. Antone acrescenta um quinto aspecto: o espírito da missão.

O paradigma da missio Dei implica a afirmação de que “cristãos estão em missão porque Deus é “de antemão presente e ativo no mundo, atraindo-o a si mesmo”, conforme Ariarajah. Deus é o principal agente da missão, e a executa através de muitas maneiras, não necessariamente exclusivamente debaixo do guarda-chuva da igreja. A participação de Deus no sofrimento humano extrapola a ação dos cristãos e “coloca esta amorosa, cuidadora, julgadora e apaixonante presença e missão de Deus no coração de todos os afazeres humanos, independentemente de suas ambigüidades”, diz Ariajarah. Deus age através da igreja, com a igreja, além da igreja, apesar da igreja, e, de quando em vez, contra a igreja.

Caminhando um pouco mais, compreendemos também que o objetivo da missão não pode se restringir a “ganhar almas e plantar igrejas”, pois o conceito de conversão deve ser ampliado da mera adesão a uma outra religião, passando a ser considerada como profunda transformação que exige o engajamento do convertido na missio Dei, afim de promover salvação, libertação, reconciliação e restauração de toda a criação, e não apenas de pessoas/indivíduos. “O novo paradigma de missão vê a conversão como a atividade transformadora do Espírito nas vidas de indivíduos e comunidades, para uma vida orientada para Deus e o próximo, comenta Hope S. Antone.

Um terceiro aspecto do novo paradigma diz respeito à natureza da comunidade de fé em missão. O paradigma tradicional, que objetiva a conversão de pessoas está baseado na sugestão de que os cristãos devem ser maioria para que mudanças no mundo sejam percebidas. Esta noção pode receber pelo menos três senões: confunde tamanho com força, acredita no ultrapassado princípio positivista do progresso – mudar o mundo, e desconsidera as imagens bíblicas para a igreja.

O êxito da missão não deve ser avaliado a partir do “aumento do número de conversões, batismos ou igrejas construídas como medidas para determinar o sucesso – mas sim o quão bem-sucedidos temos sido ao mostrar o abrangente amor de Deus de tal modo que a comunidade e o mundo em que vivemos possam se tornar muito mais amorosos e justos, como foi o planejado por Deus”, acredita Antone.

O conteúdo da missão deve transpor a barreira “de assuntos meramente doutrinários para abordagens espiritualmente profundas”. Ariarajah acredita que “a missão que é baseada nos usuais apelos cristãos de exclusividade ou superioridade e absoluta posse da verdade não tem futuro”, pois “na realidade, tal posição apenas cria mais rivalidade e animosidade entre os adeptos de diferentes religiões”.

A igreja não é apenas portadora de uma mensagem, mas advento de um novo tempo. A igreja é sinal histórico do reino de Deus. Sua presença no mundo deve ser uma expressão clara de que o reino de Deus chegou. Por trás do “clamor por uma justiça econômica, paz e reconciliação genuínas, liberdade da violência e opressão e por condutas justas nas relações internacionais, está uma busca espiritual profunda”, diz Ariajarah, e justamente por isso a igreja oferece não apenas uma nova mensagem, mas a si mesma como sinal de um novo mundo (a se consumar na eternidade).

Antone sugere ainda que há necessidade uma outra mudança na forma de compreender a missão. A respeito do espírito presente por trás da metodologia ou prática de missão, defende a solidariedade genuína com as pessoas em suas necessidades humanas reais, em detrimento da mera ação proselitista.

É urgente a troca do verbo “converter” para “servir”. Os cristão não fomos chamados a convencer pessoas a respeito da vida e obra de Jesus através de argumentos persuasivos, mas a demonstrar Jesus com nosso estilo de vida. O Cristianismo não é um conjunto de ideias – uma ideologia que se espalha pelo discurso, mas uma pessoa, que se expressa através do amor e do serviço dos seus seguidores.

À luz dessas reflexões e influenciado pelo movimento de Lausanne e a chamada teologia da missão integral, creio que a igreja – compreendida inclusive e principalmente como comunidade local, está a serviço do Deus em missão, e deve ser um sinal histórico do reino de Deus, levando o evangelho todo para o homem todo, promovendo e protagonizando os frutos do ministério terreno de Jesus: salvação, libertação e restauração integrais, no poder do Espírito Santo, para a glória de Deus.


Ed Rene Kivitz
texto retirado do site: www.edrenekivitz.com

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Precisamos de uma Nova Reforma Protestante

Precisamos da Reforma Protestante hoje, é uma afirmativa que estou fazendo. Não precisamos de uma “nova reforma”, mas de nos apropriarmos, com sinceridade, com determinação, com convicção, com discernimento, com coragem, com atualização, da sua herança, tornando-a não somente autêntica, mas renovada, atual e relevante

Introdução

Falo essa noite a uma plateia de protestantes, e falo como protestante. Falo em um País onde as estatísticas referentes ao número de fiéis de igrejas que pretendem algum vínculo com o Protestantismo não para de crescer, Censo após Censo, quando começamos praticamente de zero, ao nos tornar uma nação independente em 1822. Um dos grandes debates entre sociólogos da religião e estatísticos é quando iremos parar de crescer, ou se iremos parar de crescer. O Protestantismo é um dado relevante não somente no Brasil, mas em toda a América Latina.

Por sua vez, o Congresso Lausanne III, realizado na Cidade do Cabo, África do Sul, em outubro do ano passado, reunindo clérigos e leigos da mais ampla diversidade denominacional, foi uma demonstração evidente de que o Cristianismo é uma religião que, finalmente, se tornou um fenômeno global, mas de que o Protestantismo é, em grande parte, o responsável para que o Evangelho esteja sendo pregado a quase todas as nações. O ímpeto missionário protestante não tem diminuído, mas se diversificado.

Dentro de seis anos, exatamente, em 31 de outubro de 2017, estaremos, em todo o mundo, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante do Século XVI. 500 Anos, cinco séculos, meio milênio, é um bocado de tempo. Algumas organizações eclesiásticas e intereclesiásticas internacionais já estão elaborando uma vasta programação, de celebração, de avaliação e de projeção. Essa Semana Teológica Água da Vida, de fato, vive um momento de pioneirismo, como que dando o pontapé inicial. E o fazemos na Baía da Guanabara, onde, ainda no século XVI, aportaram os pioneiros huguenotes, onde foi celebrada a primeira Santa Ceia protestante nas Américas, e onde foi elaborado o primeiro documento doutrinário reformado nesse Novo Mundo, a Confissão de Fé Fluminense.

Tornei-me, pessoalmente, um protestante, por convicção e opção, três anos após a minha conversão, ao professar a minha fé em uma Igreja Luterana, no Culto alusivo à Reforma, como um dos momentos culminantes de uma jornada espiritual, que continua até hoje. Escrevi, certa vez, em um jornal secular de grande circulação, considerar o 31 de outubro de 1517 a data mais importante da Igreja depois do Dia de Pentecostes. E continuo considerando.

Movida por Deus, mas realizada por homens, nas palavras de Martinho Lutero, “simultaneamente justificados e pecadores” (‘simul justus et pecator’) a Reforma foi responsável por grandes feitos e por grandes erros. A nós, hoje, em um constante processo de atualização, nos cabe a honra de reproduzir os grandes feitos, e corrigir e não repetir os grandes erros, nessa Reforma que está permanentemente se reformando, não em seu conteúdo, mas, exatamente, em suas formas, seus métodos, suas abordagens, suas ênfases, suas contextualizações, suas linguagens, suas polêmicas e suas apologéticas.

Repudio, com o máximo de veemência, os que a acham ultrapassada, vencida, uma página da História que está a ter as suas páginas viradas para sempre. Lamento aqueles – inclusive em nosso País – que dela passam a se envergonhar e a negar, quando, muitos desses, um dia vibraram com o seu legado e se orgulharam da sua identidade.

Precisamos da Reforma Protestante hoje, é uma afirmativa que estou fazendo. Não precisamos de uma “nova reforma”, mas de nos apropriarmos, com sinceridade, com determinação, com convicção, com discernimento, com coragem, com atualização, da sua herança, tornando-a não somente autêntica, mas renovada, atual e relevante.

I – Cenário Passado

A Igreja, como Povo da Nova e Eterna Aliança, Novo Israel, novo Povo de Deus de todos os povos e para todos os povos, foi criada no coração do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, como portadora das Boas Novas e sinal, primícia e vanguarda da Nova Humanidade, tendo sua inauguração no Dia de Pentecostes sob o poder do Espírito Santo, e tem estado presente de forma ininterrupta na História por dois mil anos, e assim estará, com Ele presente, até a consumação dos séculos.

Portanto, a História da Igreja não começa no Século XVI, mas no século I. Não começa com as 95 Teses de Lutero, mas com o discurso de Pedro. Não começa em Wittemberg, mas em Jerusalém. E, muito antes do Imperador Constantino, no quarto século, a Igreja já tinha se espalhado por todo o mundo civilizado de então; já tinha definido o Cânon do Novo Testamento e ratificado o Cânon judaico do Antigo Testamento; já tinha definido o conteúdo das doutrinas básicas emanadas dessas Escrituras: a Santíssima Trindade, as duas naturezas, o nascimento virginal, a morte vicária, a ressurreição, a natureza da Igreja, o Retorno do Senhor e o Juízo Final, o Novo Céu e a Nova Terra; já tinha definido os Sacramentos do Batismo e da Eucaristia; já tinha estabelecido ministérios de bispos, presbíteros e diáconos; já tinha estabelecido um padrão do governo e deliberação nos Concílios. E, tudo isso, sob a fórmula “pareceu-nos bem ao Espírito Santo e a nós”.

As bases fundamentais da Igreja nada têm a ver com Constantino, mas foram estabelecidas antes dele, nesse legado pensado, ensinado e transmitido pelos Apóstolos, pelos Pais Apostólicos e pelos Pais da Igreja. E era assim que os Reformadores Protestantes acreditavam. Eles nunca pretenderam criar uma nova igreja, fundar uma nova igreja, mas reformar a Igreja de sempre, Una, Santa, Católica e Apostólica. Eles repudiavam o romanismo, não o catolicismo, a fé universal histórica. Eles não traziam nada de novo senão a reafirmação do antigo e do eterno. Os Reformadores olhavam para o Oriente, onde estavam as Igrejas Bizantinas, as Igrejas Pré-Calcedônias (ou Jacobitas), as Igrejas Assírias (ou Nestorianas) e as Igrejas Uniatas (autônomas, mas vinculadas a Roma), e olhavam para o Ocidente, para a Igreja Romana ou Latina, e lamentavam e repudiavam os seus “erros, desvios e superstições” acumulados ao longo dos séculos, pretendendo questioná-los e expurgá-los, mas, unanimemente as consideravam como “ramos autênticos da única Igreja de Cristo”. E não era outra a sua visão em relação às manifestações proto-reformadas, como os valdenses e os hussitas ou moravianos.

Resgatar hoje a Reforma Protestante é resgatar essa visão dos Reformadores sobre o que acontecera antes deles, e, em decorrência, é repudiar, repito, repudiar, como uma terrível heresia, que nos trouxe danos incomensuráveis, a teoria que afirma uma suposta “apostasia geral da Igreja”, como se o Espírito Santo tivesse se ausentado da terra entre a morte de João e o nascimento de Lutero. Calvino, Lutero, Cranmer – todos eles – jamais pensaram assim, e condenariam quem pensasse assim, mas assumiam o passado e afirmavam a presença ininterrupta do Espírito Santo. Todos eles se referiam aos Concílios e aos Pais da Igreja. As Confissões de Fé da Reforma, por sua vez, reafirmam todos os artigos do Credo dos Apóstolos e do Credo Niceno, ampliando e aprofundando alguns temas, especialmente a autoridade das Sagradas Escrituras, a centralidade do sacrifício de Cristo e a salvação pela Graça mediante a Fé.

Uma questão central é: no que nos distanciamos hoje dos Reformadores?

Em primeiro lugar desse olhar positivo sobre todo o passado, desse assumir todo o passado, desse assumir toda a História, o que nos faz continuar críticos dos “desvios, erros e superstições”, mas que nos deveria fazer, também, respeitosos e abertos a aprender com as antigas Igrejas não-reformadas, e a dizer que, nos quinze séculos anteriores à Reforma, a cada domingo que se celebrava a Ressurreição e se recitava os Credos, ali estava – com todas as suas limitações – a Igreja de Cristo e não a apostasia do anti-cristo. Os embates travados nesse continente com a Igreja Romana, e os longos períodos de perseguição e discriminação, tornou a comunidade protestante mais vulnerável a aderir à heresia da “apostasia geral da Igreja”, e hoje, afirmando as nossas convicções protestantes, repudiamos essa heresia e reafirmamos o pensamento dos nossos antepassados na fé.

Em segundo lugar quando substituímos a autoridade das Sagradas Escrituras pelo racionalismo, de um lado, ou pelas revelações particulares e pelas experiências, do outro lado. Sola Scriptura, é uma Bíblia crida, aberta e exposta, como Palavra de Deus, nada ensinando ou requerendo que seja crido que por ela não se possa provar, quando substituímos a Sola Gratia pela Lei e pelas Obras, nas exigências legalistas e moralistas dos usos e costumes, quando substituímos a Sola Fide como dom de Deus que recebe a Graça, por um “pensamento positivo” que impõe ao céu a sua saúde e a sua prosperidade.

Começamos a Reforma com seis ramos do Cristianismo e a terminamos com uma dúzia apenas, pois o denominacionalismo não havia ainda surgido, e nem o termo “denominação” era sequer conhecido ou usado, porque, nem está na Bíblia, nem está nas Confissões de Fé Reformadas; nem está nos escritos dos Reformadores, porque eles repudiavam como pecados contra o Espírito Santo, tanto as heresias, que atentam contra a verdade, quanto os cismas, que atentam contra a unidade.

A Bíblia foi traduzida para um número cada vez maior de idiomas, escolas, universidades, hospitais foram espaços concretos do amor de Cristo às nações, o analfabetismo foi reduzido, vidas foram transformadas, culturas foram impactadas, o trabalho foi valorizado, a família afirmada, bem como a dignidade de toda a pessoa humana, em um vigoroso empreendimento missionário que, apesar dos seus inúmeros equívocos, teve uma inegável dimensão civilizatória. A Reforma Protestante, em seu conjunto, tornou o mundo melhor.

Expansão missionária que, por meio de missionários estrangeiros e pioneiros nacionais chegou até ao Brasil, sob fortes restrições legais e discriminações sociais, que varou os sertões ao lombo de burro, levando luzes onde havia escuridão da alma, e que nós hoje somente estamos aqui na esteira do seu ministério sacrificial. E, nessa noite, é nosso dever expressar a nossa gratidão e honrar a sua memória.

A Reforma deixou de ser algo longínquo, na Europa, ou na América do Norte, para ser algo vivo e atual no Brasil. Graças a Deus, por isso!

II – Cenário Atual

O avanço protestante foi originalmente obstaculado no Leste e no Sul da Europa, mas se desenvolveu no Centro e no Norte daquele continente, inclusive como religião oficial. Essa vinculação com o Estado não foi benéfica, e, rapidamente, deu lugar a uma imensa maioria de membros nominais e uma minoria de comprometidos, embora tenha tido um papel de plasmar marcas importantes da cultura e das instituições. Posteriormente, o avanço da Teologia Liberal – universalista quanto à salvação – acelerou o esvaziamento dos templos. Hoje, com a ideologia Secularista e a imigração de membros de outras religiões, particularmente do Islã, já se fala de uma Europa pós-cristã, onde, o que é mais grave, o Cristianismo vem sendo discriminado e perseguido pelo Estado e pela Sociedade secularizadas.

Quadro semelhante vai se dando também no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, e, em menor velocidade, mas não menos evidente, nos Estados Unidos da América. Philip Jenkins, essa sua obra agora clássica, A Próxima Cristandade, nos fala de um deslocamento, mais uma vez, do Cristianismo, do Norte e do Oeste para o Sul e o Leste do globo, notadamente para a África Sub-Saariana, para a América Latina e para algumas áreas da Ásia e da Oceania.

E aí vamos detectar alguns problemas internos enfrentados pelo Protestantismo, nas suas origens, com rebatimentos atuais.

O primeiro foi a sua preocupação com a Soteriologia à custa da Eclesiologia, resultando em uma débil doutrina sobre a Igreja, a partir de uma ruptura com o modelo histórico episcopal, e a criação do modelo presbiteriano e do modelo congregacional. A autoridade da Bíblia foi afirmada, mas não se elaborou instituições sólidas, que garantissem a manutenção desse princípio, fortemente atacado de fora pelo Racionalismo e de dentro do Liberalismo.

O segundo foi a distorção quanto ao princípio do “livre exame”, entendido originalmente como livre acesso, por uma visão posterior de uma “livre interpretação”, dentro do individualismo burguês decorrente do modo de produção capitalista e da urbanização, resultando em um caos doutrinário interminável.

O terceiro, a partir dos Estados Unidos nos últimos dois séculos, foi o surgimento do conceito de “denominação” e o fenômeno sócio-eclesiástico do “denominacionalismo”, com uma fragmentação institucional sem fim, e a eliminação do pecado do cisma.

Adicione-se as controvérsias polarizantes das primeiras décadas do século passado, outra vez tendo como epicentro os Estados Unidos, tais como: Liberalismo vs. Fundamentalismo; Evangelho Social vs. Evangelho Individual; Evolucionismo vs. Criacionismo, a atitude de apoio, indiferença ou oposição dos protestantes a Hitler e ao Nazismo, ao Racismo do Sul dos Estados Unidos, ao apartheid da África do Sul, a guerra civil de Ruanda, a um ou outro lado da ideologias em choque na chamada “Guerra Fria”, ou às ditaduras do Terceiro Mundo, inclusive da América Latina, além da falta de sensibilidade cultural de empreendimentos missionários, e teremos uma lista de aspectos negativos e danosos.

Os principais movimentos surgidos no interior do Protestantismo na primeira metade do século passado foram, sem dúvida, o Movimento Ecumênico, com uma necessária bandeira da unidade, mas que, depois, se perderia no caminho, sequestrado por uma elite teologicamente liberal; e o Movimento Pentecostal, que se, por um lado, teve um aspecto altamente positivo na atualização e na dinamização protestante, por outro lado foi negativamente marcado pelo sectarismo, pela alienação política e pelo antiintelectualismo. No século XXI o Movimento Pentecostal tem sido igualmente afetado por um doloroso processo de fragmentação, menos por questões doutrinárias do que por conflitos de personalidades e a prática de nepotismo.

Novas correntes, como a Teologia da Batalha Espiritual e a Teologia da Prosperidade apenas concorreram para esgarçar o já débil tecido unificador da comunidade protestante.

O velho Liberalismo Moderno Racionalista tem dado lugar, mais recentemente, ao Liberalismo Pós-Moderno Revisionista, no lugar da verdade pela razão, múltiplas verdades ou nenhuma verdade, o que incluiu um relativismo moral. Em várias tendências do protestantismo atual o passado é atacado e negado em seu valor, inclusive o conteúdo doutrinário, e tanto os racionalistas liberais, quanto conservadores valorizadores das revelações privadas causam imenso dano ao princípio reformado da Sola Scriptura.

Sem dúvida que a expressão mais dinâmica do Protestantismo, nos últimos dois séculos, tem sido o Evangelicalismo, com sua ênfase na Bíblia, na cruz, na conversão, na santificação e nas missões. Mas, como se pode claramente perceber no recente Congresso Lausanne III, na cidade do Cabo, África do Sul, a Igreja está se espalhando rapidamente por todo o mundo, e lideranças nacionais estão sendo treinadas, mas o controle financeiro, político e ideológico dessa corrente majoritária ainda está fortemente nas mãos das organizações sediadas nos espaço euro-ocidental e na cultura anglo-saxã.

Último em citação, mas não em importância, tem sido o avassalador fenômeno do chamado neo-pentecostalismo, também conhecido como iso ou pseudo-pentecostalismo, como seitas para-protestantes, pretendendo fazer parte dessa expressão do Cristianismo, mas sem com ele manter vínculos de qualquer natureza, seja histórico, seja teológico, seja doutrinário, trazendo danos à identidade e à imagem do Protestantismo.

Algo que deve ser ressaltado é que o Protestantismo Brasileiro, pela maior parte da sua história, conseguiu se manter ao largo de alguns fenômenos que atingiam negativamente os seus irmãos de outros continentes, chegando inclusive a ensaiar um nativismo e uma inculturação, uma caminhada autóctone, que hoje são apenas “gratas memórias”, porque também fomos atingidos pela fragmentação institucional e doutrinária, pela importação acrítica de ideias e métodos oriundos do centro do poder mundial, pela desvalorização e desconhecimento do passado ou das expressões não euro-ocidentais do Cristianismo, pela falta de ética e pelo coronelismo do poder pessoal de “donos” de igrejas e denominações, com seus caudilhos e sua fogueira de vaidade..

Uma das principais fontes de enfraquecimento da teologia reformada no protestantismo brasileiro se deu na área do louvor, do cântico, porque a Igreja crê no que ela canta, e canta o que ela crê. Devemos apoiar a composição de novos hinos, especialmente com ritmos nacionais, mas, ao abandonarmos os velhos hinários, abandonamos a riqueza e a profundidade da teologia reformada neles contida. A Igreja deixou de cantar a teologia reformada, para ir deixando a própria teologia. O que se canta hoje são genéricas odes à Divindade e a Paz Interior, que pode ser adotada por qualquer monoteísta, e quase nunca tem algo especificamente protestante ou evangélico.

Enfim, o Protestantismo no Brasil é uma força dinâmica, ainda em crescimento quantitativo, mas com sérios problemas originais ou importados, pela superficialidade, pela ausência de um projeto histórico, o que faz com que, apesar do aumento de igrejas e de membros, e de vidas individuais beneficiadas, pouco ou quase nada tem representado em impacto sócio-político-econômico-cultural e na redução dos problemas nacionais, seja a desigualdade social, seja a desonestidade política, seja a violência social.

Tida como uma “igreja adolescente”, ou como “um gigante de pés de barro”, temos o que celebrar; temos potenciais, mas temos muito com o que nos preocupar e, mantido o quadro atual, fica cada vez mais difícil se ser otimista quanto ao futuro. Temos um Protestantismo Brasileiro ou temos “protestantismos brasileiros”? Ou somos apenas um conjunto de indivíduos morenos que professam uma religião estrangeira ou estrangeirizante, incapaz de se enraizar e de amar e santificar a brasilidade, de pensar como nacionais? Por outro lado, uma pergunta que não cessa de nos inquietar: E o que resta do legado da Reforma entre nós?

III – Cenário Futuro

O cenário que se desenhava na primeira metade do século passado, com um número limitado de denominações históricas, de imigração ou de missão, e de denominações pentecostais sérias e éticas, aglutinadas em torno da Confederação Evangélica (1934-1964), em clima de respeito mútuo, e de mais convergências do que divergências, com todos se considerando parte de uma mesma comunidade, portadora de uma mesma herança, partilhando dos mesmos ideais, lamentavelmente se foi, e não parece possível de ser retornado, ao menos em um horizonte previsível.

O cenário que se desenhava por mais de um século, ainda presente na segunda metade do século passado, de um Protestantismo que tinha o Evangelicalismo como corrente hegemônica, em algo que parecia sólido e disseminado, está se esvaindo muito rapidamente nas últimas décadas, minado pelo Fundamentalismo, pelo Liberalismo e pelo Pseudo-Pentecostalismo. Ironicamente, quanto mais “evangélicos” o IBGE atesta em cada Censo, menos evangélicos esses “evangélicos” são…

O cenário que gerou o nacionalismo da Igreja Presbiteriana Independente ou do “Movimento Radical Batista”, os setores e departamentos da Confederação Evangélica, a participação brasileira no Congresso do Panamá (1916), nas CELAs e nos CLADEs, e a inquietação de jovens e de intelectuais na construção de um Evangelicalismo Latino, seja na Aliança Bíblica Universitária (ABU), seja na VINDE, seja na Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), seja nos Congressos Brasileiros e Nordestinos de Evangelização, hoje pouco mais é do que memoráveis páginas da nossa História, talvez peças de um museu de sonhos, afogados todos na importação de textos, pensadores, preletores e métodos dos centros do poder mundial, reestrangeirizados, com as “fábricas” substituídas por lojas de brinquedos não “Made in China”, mas “Made in USA” ou “Made in UK”…

Em uma época em que a globalização é apenas um sofisma para o neocolonialismo, somos, provavelmente, os mais colonizados de todos os brasileiros.

A Bíblia, cada vez mais vendida, em um sem número de traduções e de comentários domesticadores para todos os gostos, é cada vez menos lida e menos conhecida.

A História Geral e Nacional da Igreja é algo sobre o que não se tem interesse ou se tem um escasso conhecimento. E como teremos futuro, se não temos passado? E como iremos atualizar o que desconhecemos: a vida e a obra dos Reformadores, as Confissões de Fé, a Teologia, os Movimentos, enfim, o conteúdo mesmo da Reforma!

Antigamente, ou tínhamos membros comprometidos ou os chamados “desviados”. Hoje há o “crente de IBGE”, o “descendente de crente”, o “crente nominal”, o “membro de frequência ocasional”, “de vez em quando”, “quando me der na telha”, “bissextos”, os “buscadores de bênçãos”, os eternos migrantes denominacionais, no modelo “religião self-service”, onde se põe de tudo no prato, que se projeta em novas manifestações institucionais, como Assembleianos Calvinistas da Teologia da Prosperidade ou Batistas Renovados do Sétimo Dia, com as nomenclaturas as mais exóticas e as mais patológicas…

Se o poeta já dizia que “navegar é preciso”, não teríamos imagem bíblica mais adequada para o protestantismo brasileiro do que a Arca de Noé, na diversidade e algazarra dos bichos de todos os matizes.

Uma nota de tristeza e de lamento se dirige a uma expressiva fatia da nossa liderança, que foi evangélica no passado, mas que hoje, influenciada por outras correntes, abjura do seu passado, ridiculariza suas antigas convicções e confunde as novas gerações, na sua busca necessária de modelos e de heróis. A dubiedade de tantos diante de temas como o aborto e a agenda gay evidenciam que o Evangelicalismo brasileiro é menos sólido do que pensávamos ou desejávamos que fosse.

Para um futuro próximo não vislumbro grandes e radicais mudanças no presente quadro. Continuaremos a crescer quantitativamente, teremos uma mobilidade social com a nossa expressiva presença na chamada “nova classe média”, moralmente mais conservadora, e que os políticos já estão descobrindo, mesmo fragmentados e divergentes; vamos sendo empurrados pela História como atores sociais significativos, e não teremos uma face, mas várias faces, podendo a nascente Aliança Evangélica aglutinar setores éticos em torno da Teologia da Missão Integral da Igreja e de um Evangelicalismo teologicamente conservador e sócio-economicamente progressista. A criação de um bloco mais maduro passa pela consolidação de algo que já vem se dando há algum tempo: a aproximação entre os históricos que admitem a contemporaneidade dos dons espirituais e admiram o dinamismo dos pentecostais, e os pentecostais que valorizam o legado e o pensamento teológico dos históricos.

Na profusão de denominações, subdenominações, ministérios, jurisdições, comunidades, missões, há o desafio da convivência respeitosa, da busca de um mínimo de ética como testemunho e, com maior esforço, o estabelecimento de pontes de diálogos e de ações conjuntas, onde tanto a Aliança Evangélica, a Sociedade Bíblica e as Ordens e Conselhos de Pastores poderiam jogar um importante papel.

A busca de um diploma reconhecido pelo MEC, antes que o preparo de obreiros tende a fortalecer os cursos de Ciência da Religião à custa dos Cursos de Teologia e da própria produção teológica e da prática pastoral.

A reorganização da Igreja Romana em torno de um núcleo de seguidores mais comprometidos, o espaço dos cultos afro-ameríndios nas academias e na mídia, a indiferença religiosa das elites e o secularismo do Estado são desafios muito fortes, e que, muito provavelmente, forçarão um despertar, ao menos por espírito de sobrevivência.

Não precisamos de uma Nova Reforma, nem de novos Reformadores, mas de uma redescoberta no século XXI das mesmas verdades que foram redescobertas no século XVI, e de líderes que tenham a coragem de reafirmá-las dentro do novo contexto. Como já tenho dito, o futuro está no passado que permite construir o presente.

Creio, firmemente, que o Evangelicalismo representa o somatório de toda a herança reformada e é a sua melhor manifestação. Na diversidade de teologias no mercado, nos cabe lutar pela hegemonia do Evangelicalismo, como princípio e como núcleo condutor de uma reformação das igrejas descendentes da Reforma.

Humanamente, o quadro poderia nos levar a cair no pessimismo, já que o otimismo seria irrealista e inconsequente. Mas, a nossa crença na Providência Divina, no Senhorio de Deus sobre a História, e, em particular, sobre a Sua Igreja, nos permite um realismo otimista, passos de fé, que, em muitos momentos, são “saltos no escuro”, mas, assistidos pelo Espírito Santo, nutridos pela Palavra e pelos Sacramentos, nos resta, em obediência, avançar, certos de que Ele faz nova todas as coisas, pois, o nosso Deus é um Castelo Forte, e, em se tratando da Igreja de Jesus Cristo, “Ninguém detém. É obra santa!”.


Robison Cavalcanti
Niterói (RJ), 28 de maio de 2011,
Anno Domini.

sábado, 28 de maio de 2011

Insights iniciais para um projeto de juventude

Inicialmente, eu faria um curriculum que ensinasse o jovem a ser gente. Um curriculum que contemple várias disciplinas e temas que formem o caráter humano do jovem, de forma que ele consiga aplicar tais conhecimentos em seu dia-a-dia para que “vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus”.

Concentramos muito de nossos esforços em ensinar o jovem a ser “crente”. A como deve falar enquanto crente, como deve se portar, o que deve ouvir ou ler, o que não deve fazer, onde deve frequentar, tudo baseado na equação pode/não pode. Ensinamos o jovem o “ethos” evangélico, vivido especialmente no domingo, mas não o ensinamos a se portar socialmente, se inserir no mundo, desenvolver sua vida e vocação de forma integral.

Vivemos num contexto urbano, acelerado, sem tempo, com agendas cheias. Nossa juventude sofre muito cedo a pressão desta “roda viva”. Têm que decidir o que farão, o que serão, com quem se relacionarão, sem que tenham base emocional ou lastro de maturidade para tal. Por conta disso fazem o que fazem, são o que são e convivem com quem convivem sem saber os porquês. Corremos o risco, em suma, de passarmos pela história como uma geração irrelevante.

Proponho apresentarmos o jeito cristão de se viver a vida de forma integral, encorajando o jovem a um compromisso pessoal e comunitário com Cristo e a ter na missão de seu Reino sua proposta de vida e o alicerce de suas decisões e ações.

Deveríamos usar os sábados para trabalharmos temas tais como “Ciência e Fé”, “Introdução à Missão Integral”, “Arte como Expressão de um Deus Criativo”, “Ano do Planeta”, “Sexualidade”, “Espiritualidade do Jovem no Meio do Caos”, “Por falta de utopia o jovem se corrompe”, temas multidisciplinares, com preletores ligados às áreas, de forma que o jovem tenha a possibilidade de responder quatro perguntas fundamentais em sua vida:

Que Deus eu sirvo? (Espiritualidade)
O que eu nasci para fazer/ser? (Vocação)
Com quem vou me relacionar familiar, afetiva e fraternalmente? (Relacionamentos)
Que tipo de gente estou me tornando? (Caráter)

Além disso, desenvolver projetos que os levem a uma vivência do tema, com o objetivo de oferecer ao jovem a oportunidade de ver, sentir e agir numa nova perspectiva de vida à partir dos conceitos aprendidos, vivenciados e praticados.

Isso sim, além de apresentar uma proposta de um viver integral, ajuda o jovem em sua formação não só como crente, mas como gente, afinal foi para o exercício de nossa humanidade que fomos reconciliados e redimidos.


Fabricio Cunha
retirado do seu blog pessoal: www.fabriciocunha.com.br

sexta-feira, 27 de maio de 2011

As transgressões do céu

Para os demais evangelistas João aparece no deserto, adulto e com uma missão, como que do nada. É apenas Lucas – este mesmo Lucas de Atos – que oferece ao homem adulto uma história de origem e portanto uma premonição.

João é filho de um sacerdote, Zacarias, e de sua esposa Isabel, ambos avançados em idade e sem filhos, como Abraão e Sara; seu nascimento é anunciado por um anjo, como o de Ismael, como o de Sansão, como o de Jesus.

Sobre menino o anjo explica que “muitos se alegrarão com o seu nascimento”, porque ele será “cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, e converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, o Deus deles”. Sua posturá servirá para cumprir a última profecia proferida no Antigo Testamento (Malaquias 5:6), pela qual Deus promete finalmente “converter os corações dos pais aos filhos”, isso (descobrimos agora) a fim de “providenciar um povo preparado para o Senhor”. Zacarias, ele mesmo cheio da lucidez do Espírito Santo, enxerga que seu filho “será chamado profeta do Altíssimo, pois irá adiante do Senhor, preparando o caminho para ele”, porque, graças à misericórdia de Deus, “a aurora virá lá do alto nos visitar”.

Esse menino, sobre o qual descerá pela última vez a Palavra do Senhor, salta “de alegria” ainda no ventre de sua mãe ao pressentir na saudação de Maria a estarrecedora proximidade do reino.

Essa tensão entre o antigo e o novo, entre o que foi prometido e o que virá, entre as velhas profecias e a nova luz, marcará a posição e o papel de João no Novo Testamento. Para Lucas, ainda mais do que para os demais evangelistas, João é a divisa simbólica entre dois mundos, representando ao mesmo tempo ponte de ligação e muralha de separação entre a Lei e as boas novas.

“A lei e os profetas vigoraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus (Lucas 16:16)”.

Então, antes que Jesus apareça nas cidades, o que acontece é que João aparece no deserto. O primo de Jesus vive como um outsider, inteiramente à margem da cultura reinante, mas usa essa sua postura marginal como credencial para sua posição de agente transformador. João é, afinal de contas, “a voz que clama no deserto” – e gritar no deserto, onde ninguém pode ouvir, é um contrasenso mas é também manifestação artística, ato de resistência e de contracultura, e portanto ato divino. Desde o tempo de Moisés, desde a sarça ardente que o fogo não consome e dos caminhos circulares debaixo do maná (e mesmo antes, nas peregrinações de Abraão e seus filhos que são como grãos de areia), Deus é aquele que sustenta a vida no deserto.

E logo no deserto há multidões, porque as pessoas escoam da Judéia e da Galiléia e de Jerusalém e de destinos ainda mais improváveis para desembocar nas margens do Jordão, onde João está apregoando uma nova e desconcertante mensagem, “o batismo de arrependimento para remissão dos pecados”.

“Arrependam-se”, João diz aos que recorrem a ele (precisamente como Pedro dirá quando estiver na sua posição – e podemos supor que os ouvintes de Pedro interpretarão sua injunção pelo que sabiam da mensagem de João), “porque o reino de Deus está próximo”.

Embora nunca se estenda sobre a natureza exata do reino de Deus ou sobre a natureza de sua proximidade (estará próximo no tempo? no espaço?), João está absolutamente convencido que o arrependimento é a única postura adequada diante da iminência de uma Pessoa (alguém “maior e mais poderoso do que eu”, que está para se manifestar e pode muito bem ser o Messias das profecias), pessoa que por sua vez precipitará um terrível Evento (que pode muito bem ser o juízo final, visto que “o machado já está posto junto à raiz das árvores; toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada no fogo”).

Por associar sua mensagem a essa expectativa de transformação iminente e possivelmente definitiva, a onda de João é frequentemente catalogada entre os movimentos “apocalípticos” ou “escatológicos” – isto é, definidos pela sua preocupação com as últimas coisas e com as derradeiras medidas a serem tomadas antes do fim – dos quais houve muitos antes dele e permanecem tão frequentes que não conhecemos ainda o último.

O que todas as tradições concordam é que João representou uma novidade desconcertante e uma onda irresistível. Para o embaraço da religião institucionalizada do Templo e dos fariseus, “multidões” de judeus de todas as origens e de todos os matizes [1] iam até João, [2] confessavam os seus pecados e [3] eram batizados por ele no rio Jordão [4] para o perdão dos pecados”.

O embaraçoso estava em que nada havia de ortodoxo em qualquer uma dessas práticas.

Nada na Lei, na história ou na tradição prescrevia que adoradores afluíssem a um profeta errante e confessassem os seus pecados, e nada sugeria que poderiam beneficiar-se em alguma medida com isso. Como acabamos de ver, embora a Lei prescrevesse uma série de imersões rituais, eram todas realizadas sem assistência pelo próprio adorador; o novo método de João, que batizava ele mesmo os que vinham até ele, não tinha precedentes que o redimissem. Outra diferença fundamental: as imersões previstas na Lei estavam invariavelmente ligadas à pureza cerimonial, e deviam ser repetidas todas as vezes que o judeu devoto se visse embaraçado pela impureza ritual. Em contrapartida, o batismo de João, com seus requerimentos e benefícios, era oferecido uma única vez e de uma vez por todas diante da emergência e da urgência do Reino.

O mais severamente não-ortodoxo e escandaloso no batismo de João, no entanto, estava em sua sua aspiração a propiciar o perdão dos pecados. Nem a mais liberal interpretação da Lei poderia sugerir que alguma outra prática, que não os sacrifícios apresentados no Templo, pudesse prover a remissão de pecados – e eis aqui o profeta cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe, batizando gente, ouvindo suas confissões públicas e apresentando o batismo de arrependimento “tendo em vista a remissão dos pecados”.

Propor e promover um rito alternativo que mediasse o perdão divino era sustentar uma espécie muito grave de desobediência civil ou, neste caso, religiosa. Usar o ofício divino de profeta para contornar o serviço do Templo e suas minuciosas exigências não equivalia apenas a criticá-lo (como faziam, por exemplo, os essênios); era questionar por completo a sua legitimidade.

Não é à toa que essa postura tenha despertado a indignação de fariseus e saduceus, judeus particularmente comprometidos com a ortodoxia e com os escrúpulos do Templo, que foram sondar as obras do Batizador no Jordão e acabaram saudados por ele como “ninhada de víboras” – gente que, segundo João, usava sua religiosidade como manobra evasiva, na ilusão de poder “escapar da ira vindoura”.

O que resta portanto no batismo de João está em que, embora tivesse suas raízes fixas em expectativas e procedimentos anteriores, diferia desses ao ponto do escândalo e da transgressão. Lembrava os procedimentos prescritos para a limpeza ritual, mas separava-se deles porque a purificação que oferecia era interior e não exterior. Evocava as imersões previstas na lei e na tradição, mas se distinguia delas por seu caráter não-repetitivo e por ser administrado por um mediador. Era realizado no Jordão, que ecoava com a libertação do Êxodo e a posse da Terra, mas oferecia o perdão dos pecados fora de Jerusalém e longe do Templo. E, embora fosse administrado por João e seus discípulos, apontava para um grande e outro Mediador que estava ainda para chegar.

Tudo na mensagem de João existia no fio da navalha, na finíssima divisão entre continuidade e descontinuidade.

O problema para a religião institucionalizada de Jerusalém estava em que muita gente na massa inculta, não devidamente esclarecida nas necessidades e clarezas da ortodoxia, via esse novo e incômodo profeta como especialmente autorizado por Deus. E quem é Deus para autorizar novidades? Pelo contrário, é natural concluir que basta alguém oferecer liberdades em nome de Deus para demonstrar sua própria desqualificação.

Isso fariseus e saduceus enxergavam com clareza, mas a multidão se deixa desviar com tanta facilidade. Chegarão a seguir outro transgressor, um galileu que tentará justificar as novidades de João Batista com o absurdo argumento de que eram transgressões endossadas pelo céu (Mateus 21:25).

Como que para irritá-los, esse novo transgressor anunciará precisamente a mesma “boa nova” do “arrependam-se, porque o reino de Deus está próximo” que tanto incomodou-os no Batizador. E chegará ao extremo de sugerir que saduceus e doutores da Lei rejeitaram o propósito de Deus para suas vidas (como se isso fosse possível!) quando recusaram-se a submeter-se ao batismo de João (Lucas 7:29-30).

E, como que deliberadamente, como que para manchar logo de início a sua reputação e deixar muito claro a que veio, a primeira coisa que o novo transgressor fará em sua vida pública será identificar-se com a mensagem de João, sendo batizado por ele no rio Jordão, que àquela altura já se maculara com as impurezas de tantos.


Paulo Brabo

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quando o Reino Vem

“Vinde a mim, todos que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”. Essas palavras dominaram a mensagem e a obra de Jesus por completo; elas contém o tema de tudo que ele ensinou e fez. Deixam também claro que em seu ensino Jesus deixou para trás, e muito, a mensagem de João Batista. João, embora tenha já entrado em conflito silencioso com os sacerdotes e os escribas, não chegou a se tornar um sinal definitivo de contradição.

“Os caídos e os ressurretos”, uma nova humanidade em contraste com os antigos homens de Deus – esses, Jesus Cristo foi o primeiro a criar. Ele entrou em imediata oposição com os líderes oficiais do povo, e neles com a natureza humana em sua manifestação usual. Eles pensavam em Deus como um déspota que guardava as observâncias cerimoniais de seu palácio; ele respirava na presença de Deus. Eles viam Deus somente na sua lei, que haviam convertido num labirinto de desfiladeiros escuros, becos sem saída e passagens secretas; ele o via e sentia em todo lugar. Eles tinham posse de milhares dos mandamentos divinos e achavam, por essa razão, que o conheciam; ele tinha apenas um, e o conhecia através dele. Eles haviam tornado essa religião num negócio mundano, e não havia coisa mais detestável; ele proclamava o Deus vivo e a nobreza da alma.

Se empreendermos uma visão geral do ensino de Jesus, veremos que ele pode ser agrupado sob três tópicos. Cada um é de tal natureza que é capaz de conter o ensino todo, que pode ser portanto exposto integralmente através de qualquer um deles.

Em primeiro lugar, o reino de Deus e sua vinda.

Em segundo lugar, Deus o Pai e o infinito valor da alma humana.

Terceiro, a supremacia ética do mandamento do amor.

Que a mensagem de Jesus seja tão singular e poderosa deve-se justamente ao fato de ser tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica. É simples a ponto de poder ser esgotada em cada um dos conceitos essenciais que ele proferia, e tão rica que cada um desses conceitos parece inesgotável, o completo significado dos aforismos e parábolas inteiramente fora de nosso alcance. Mas trata-se de ainda mais do que isso, porque ele mesmo é a credencial de tudo que disse. Suas palavras falam conosco, através dos séculos, com a vivacidade do momento presente. É aqui que fica comprovado o ditado profundo que diz: “Fala, para que eu possa te ver”.

A mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus percorre todas as formas e manifestações da profecia que, extraindo sua cor do Antigo Testamento, anuncia o dia do julgamento e o governo visível de Deus no futuro – até a ideia da chegada interior do reino, a começar da mensagem de Jesus e tendo ali o seu início. Sua mensagem abarca dois polos com diversos estágios intermediários, que fazem com que se mesclem um com o outro.

No primeiro polo a chegada do reino parece ser um evento puramente futuro, e o reino em si o governo visível e exterior de Deus; no segundo, parece ser algo interior, algo que já está presente mas faz sua entrada precisamente agora. Vê-se, portanto, que nenhum dos dois conceitos de reino de Deus, nem o modo como sua vinda é representada, são livres de ambiguidade.

Jesus extraiu a noção da vinda do reino das tradições religiosas da sua nação, onde ela já ocupava lugar de destaque. Ele incorporou os aspectos dela nos quais o conceito era ainda uma força viva, e acrescentou aspectos novos. As expectativas eudemonísticas de caráter mundano e político foi tudo que ele descartou.

Não deve haver dúvida de que a ideia dos dois reinos, um de Deus e outro do diabo e do conflito entre eles, e de que no conflito final em algum momento futuro o diabo, expulso há muito do céu, seria derrotado também na terra, era uma noção que Jesus simplesmente compartilhava com seus contemporâneos. Ele não a iniciou; ele cresceu nela e a reteve. A outra noção, no entanto, O próprio Deus é o reino.de que o reino de Deus “não vem com aparência exterior”, de que ele já está aqui entre nós, é somente dele.

É verdadeiramente difícil e de responsabilidade a tarefa do historiador de discernir entre o que é tradicional e o que é peculiar, entre cerne e casca, na mensagem de Jesus do reino de Deus. Quão longe devemos ir? Não queremos roubar sua mensagem de seus matiz e caráter originais; não queremos transformá-la num pálido sistema de ética. Por outro lado, não queremos perder de vista seu caráter e força peculiares, como fazem os que querem explicar toda a mensagem de Jesus a partir das ideias gerais que prevaleciam no seu tempo. A própria maneira com que Jesus fazia distinção entre os elementos tradicionais – ele não deixou de lado nenhum em que houvesse uma centelha de força moral, e não aceitou nenhum que encorajasse as expectativas egoístas da sua nação, – essa própria discriminação nos ensina que era a partir de um conhecimento mais profundo que ele falava e ensinava.

Nós porém possuímos testemunho de natureza muito mais extraordinária. Quem quer saber o que significava na mensagem de Jesus o reino de Deus e a sua vinda deve ler e estudar as suas parábolas. Verá então o que ele queria dizer: o reino de Deus vem quando vem ao indivíduo, entrando em sua alma e aferrando-se a ela. Por certo o reino de Deus é o governo de Deus, mas é o governo de Deus no coração de indivíduos: é o próprio Deus em seu poder. A partir deste ponto de vista, tudo que há de dramático no senso externo e histórico desaparece, desaparecendo também todas as esperanças para o futuro. Tome qualquer parábola que lhe ocorrer, a parábola do semeador, a da pérola de grande valor, a do tesouro enterrado no campo: a palavra de Deus, o próprio Deus, é o reino. Não é uma questão de anjos e demônios, tronos e principados, mas de Deus e da alma, da alma e de seu Deus.


Adolf Harnack
em O que é o cristianismo, Palestra III
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