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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Longe de um jardim

Como eu ia dizendo, tudo é irrecuperável. Tudo se perde. Talvez nem tudo seja inevitável, mas sem qualquer dúvida tudo é irreversível. Esta é a maldição deste universo, e também sua mais desconcertante fonte de beleza.

Há uma visão a respeito de Deus que poupa a divindade precisamente desse constrangimento – poupa-o da irreversibilidade que caracteriza a essência da experiência humana e da realidade. Essa é provavelmente a visão mais popular a respeito de Deus, talvez por dar a impressão que, tornando tudo no universo recuperável para Deus, está fazendo um grande favor à reputação da grandeza divina.

Segundo essa visão, Deus é onipotente no sentido em que é capaz de, em cada momento da história e até o fim, reverter qualquer injustiça, reparar qualquer erro, anular qualquer deslize, ressuscitar qualquer personagem, engendrar qualquer final feliz. Para os que abraçam essa visão, Deus pode se quiser apagar os horrores do nazismo e cancelar o embaraço das cruzadas e das inquisições. Pode apagar toda a história que nos separa da Queda ou do Caos (a mesma história que nos une a eles). Pode apagar todos os traços do constrangedor experimento que é o nosso universo e deixar a lousa imaculadamente limpa para outra tentativa. Se não o faz permanece sendo questão da inegociável autonomia divina; porém devemos entender como magnífico consolo saber ou acreditar que, caso quisesse, ele poderia.

Esse Deus fora do tempo e segurado contra terceiros é uma curiosidade filosófica e existe inteiramente à margem do testemunho apaixonado da narrativa bíblica. O Deus da Bíblia conhece plenamente e sabe lamentar pungentemente o peso do que é irreversível; ele conhece a vastidão da sepultura, a assolação das omissões, o abismo profundo das ausências, a cicatriz sem consolo das violências, o terror sagrado das traições. E em Jesus, para quem acredita nele, Deus experimenta na própria carne cada uma dessas desolações.

O Deus da Bíblia é um marido traumatizado pela deslealdade da esposa, um homem marcado pelo abandono dos amigos, um visionário ultrajado pelo fogo da traição e da incompreensão; é um ressuscitado com cicatrizes muito visíveis, um idealista que não desconhece a amargura, um leão vivo que é também um cordeiro que conheceu a morte. Se não deixa em momento algum de amar, não é por ter o conforto de poder restaurar a qualquer momento o que foi perdido, mas por saber que tudo no universo e na história que não foi redimido pelo amor é para sempre irrecuperável.

Como tudo é irrecuperável, segue-se que tudo é santo, mesmo aquilo que a experiência humana tem de mais abominável e aterrador. Santo, numa palavra, quer dizer singular. Cada momento é santo porque é singularíssimo e irrecuperável, cada injustiça é santa porque reside num momento que poderia ter sido vivido de outra forma e nunca será. Nunca mais.

Talvez seja esse o sentido e a necessidade do lago de fogo postulado pelo Apocalipse, o lago de enxofre que arde dia e noite para todo sempre, paralelamente aos esplendores do paraíso e quem sabe ajudando a iluminá-los. Os momentos abomináveis da história humana – os momentos abomináveis da minha história – são irreversíveis e a justiça ausente deles é para sempre irrecuperável. O lago de fogo existe para que sejam eternamente lamentados, isto é, eternamente celebrados, e esse incansável ranger de dentes talvez seja o mais próximo que esses momentos chegarão da redenção.

Seria ao mesmo tempo injusto e inconcebível que o Paraíso prescindisse dessa eterna dor, da qual brota a flor mais imaculada e cegante da sua beleza. As folhas da árvore da vida curam as nações, mas não mudam a história de suas enfermidades. A ressurreição injeta vida no que era inerte e estéril, mas não apaga as cicatrizes da violência e as reminiscências da morte.


Paulo Brabo
retirado do site www.baciadasalmas.com

quarta-feira, 4 de maio de 2011

De "mar a mar"

Os “quatro cantos do mundo” ou Terra é mais que matéria, é criação, algo feito, arquitetado, do grego “poiema” (poema), obra de um Artista.

É o lugar onde nossos pés pisam e se firmam. É o fascinante ambiente em que nos momentos de calmaria nós mergulhamos. É o infinito de alegria pelo qual rolamos. É o palco onde as coisas mais belas da vida voam e até nós de relance alçamos voo. É um sítio incomensurável que observamos e babamos de inveja. É neste arraial que nos encantamos de maravilha; renovando-nos de prazer; redescobrindo o mistério venturoso do Criador.

Ela aponta para o Céu; ela é coisa boa e bela; ela é uma placa numa estrada nebulosa dizendo: Alguém me fez para embelezar o Dono. Ela foi criada como um espelho para refletir uma Magnitude maior do que ela mesma o é. Por isso somos seus zeladores; aqueles que anseiam ver seu espelho sempre nítido apontando para além de si mesma, o que em seguida nos oferece dignidade e qualidade de vida.

Ela precisa ser defendida por ser obra do Designer e também por ser digna de respeito. Ela existe por amizade e não por autonomia, pelo riso e não para o luxo, para o descanso e não para ser mutilada, para soprar e não para tossir.

Infelizmente ela anda asmática pois nós ainda a vemos como uma máquina, fonte de matérias-primas e um meio para o lucro. No entanto, ela geme e está em processo de parto, ela certamente dará a luz. Contudo não cremos em um fim catastrófico (como muitos pensam, outros até gostariam), mas na esperança segura de renovação. A percepção cristã do universo vê o futuro com os olhos da ressurreição, não apenas de indivíduos, muito menos de almas, mas de tudo: espaço (nova terra); tempo (eternidade); indivíduo (imagem do Cristo); povo (família).

O que cremos a respeito do futuro naturalmente deve mudar o que cremos a respeito do presente. Enquanto ando de bicicleta, ou a pé; limpando as fezes do meu cão tão fofinho (mais tão porco); pregando um estilo de vida mais simples; informando-me no que posso e também votando naqueles que vigiam com a vida o estrado dos nossos pés.

Afinal, existe simbolismo entre a criação e criaturas. A missão da humanidade (isso inclui cristãos!) é neste mundo; ao som do hino: “teu formoso céu, risonho e límpido”, o “som do mar e à luz do céu profundo”. Marina Silva salienta a esse respeito: “como cristãos, acreditamos que a ciência descobre a engenhosa graça da inteligência de Deus”.

Como cidadãos e como cristãos carecemos de olhos para enxergar a engenhosidade de Deus "de mar a mar". Engenhosidade manchada pela vaidade, mas que terá o Grand Finale da ressurreição do cosmos quando nosso Rei volver para instaurar seu reino, como rotineiramente temos orado: “Venha o Teu Reino”. Finalmente, quando Deus pensou o mundo a primeira coisa que veio a mente do Altíssimo não foi uma cidade povoada de arranha-céus, foi um jardim.


Jean Francesco

segunda-feira, 28 de março de 2011

Terra e Humanidade: uma comunidade de destino

Temos que começar o ano com esperança pois urge fazer frente ao clima de revolta e de frustração que significou a COP 15 de Copenhague. Seguramente o aquecimento global comporta graves conseqüências. No entanto, numa perspectiva mais filosofante, ele não se destinaria a destruir o projeto planetário humano mas obriga-lo a elevar-se a um patamar mais alto para que seja realmente planetário. Urge passar do local ao global e do nacional ao planetário.

Se olharmos para trás, para o processo da antropogênese, podemos seguramente dizer: a crise atual, como as anteriores, não nos levará à morte mas à uma integração necessária da Terra com a Humanidade. Será a geosociedade. Neste caso, estaríamos então, face a um sol nascente e não a um sol poente.

Tal fato objetivo comporta um dado subjetivo: a irrupção da consciência planetária com a percepção de que formamos uma única espécie, ocupando uma casa comum com a qual formamos uma comunidade de destino. Isso nunca ocorreu antes e constitui o novo da atual fase histórica.

Inegavelmente há um processo em curso que já tem bilhões de anos: a ascensão rumo à consciência. A partir de geosfera (Terra) surgiu a hidrosfera (água), em seguida a litosfera (continentes), posteriormente a biosfera (vida), a antropofesfera (ser humano) e para os cristãos a cristosfera (Cristo). Agora estaríamos na iminência de outro salto na evolução: a irrupção da noosfera que supõe o encontro de todos os povos num único lugar, vale dizer, no planeta Terra e com a consciência planetária comum. Noosfera como a palavra sugere (nous em grego significa mente e inteligência), expressa a convergência de mentes e de corações dando origem a uma unidade mais alta e complexa.

O que, entretanto, nos falta é uma Declaração Universal do Bem Comum da Terra e da Humanidade que coordene as consciências e faça convergir as diferentes políticas. Até agora nos limitávamos a pensar no bem comum de cada pais. Alargamos o horizonte ao propor uma Carta dos Direitos Humanos. Esta foi a grande luta cultural do século XX. Mas agora emerge a preocupação pela Humanidade como um todo e pela Terra, entendida não como algo inerte, mas como um superorganismo vivo do qual nós humanos somos sua expressão consciente. Como garantir os direitos da Terra junto com os da Humanidade? A Carta da Terra surgida nos inícios do século XXI procura atender a esta demanda.

A crise global nos está exigindo uma governança global para coordenar soluções globais para problemas globais. Oxalá não surjam centros totalitários de comando mas uma rede de centros multidimensionais de observação, de análise, de pensamento e de direção visando o bem viver geral.

Trata-se apenas do começo de uma nova etapa da história, a etapa da Terra unida com a Humanidade (que é a expressão consciente da Terra). Ou a etapa da Humanidade (parte da Terra) unida à própria Terra, constituindo juntas uma única entidade una e diversa chamada de Gaia ou de Grande Mãe.

Estamos vivendo agora a idade de ferro da noosfera, cheia de contradições. Mas mesmo assim, cremos que todas as forças do universo conspiram para que ela se firme. Para ela está marchando nosso sistema solar, quem sabe a inteira galáxia e até este tipo de universo, pois, segundo a teoria das cordas, pode haver outros, paralelos. Ela é frágil e vulnerável mas carregada de novas energias, capazes de moldar um novo futuro. Talvez a noosfera seja agora somente uma chama tremulante. Mas ela representa o que deve ser. E o que deve ser tem força. Tende a se realizar.


Leonardo Boff

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento

“Sim, vamos começar a reconstrução. E se encheram de coragem.” (Ne 2.18)

Há certos assuntos do cotidiano que estão sempre presentes em nossas conversas: filhos, saúde, comida, contas a pagar etc. E na caminhada de fé não é diferente. Há assuntos que sempre voltam à tona. Um deles, que tem sido discutido nesta coluna*, é a nossa atuação como cidadãos. Devemos nos preocupar com as coisas terrenas ou só com as eternas? A vida pode ser “dividida” dessa maneira? Qual é, de fato, a nossa vocação?

Imagino que certos leitores, ao lerem esta série sobre os Objetivos do Milênio, fiquem se perguntando se Ultimato não estaria equivocada ao dar prioridade a estas coisas. Por que falar de fome, educação, mortalidade infantil, meio ambiente, se está em jogo o destino eterno das pessoas?

Na verdade, a eternidade não é algo desvinculado dos temas da vida, nem é uma mera questão de futuro. A eternidade passa a ser realidade a partir do momento em que o senhorio de Jesus Cristo e os sinais do reino de Deus se tornam presentes na nossa vida pessoal e comunitária. Quando Jesus libertou o geraseno dos demônios que o atormentavam (Lc 8.26-39), ele não estava apenas devolvendo a um homem o seu futuro, mas também o seu presente. O gesto de Jesus não teve um caráter meramente pessoal, mas também comunitário. No momento em que este homem é liberto, seu presente se torna absolutamente diferente, e ele é devolvido à sociedade como uma pessoa transformada. Ele já não é um risco para a sociedade, mas passa a ser um agente de promoção de vida em seu meio. Jesus lhe diz: “Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez”.

Nos Evangelhos, a vivência integral de Jesus nos convida e desafia para a vivência inteira do evangelho, na qual fazer o paralítico andar é tão importante quanto que ele não peque mais (Jo 5.1-14). E assim deve acontecer com os seguidores de Jesus. Não somos chamados apenas a “povoar os céus”, como diz uma expressão antiga, mas também a construir uma cidadania que busque o estabelecimento de sociedades mais justas, mais amorosas e mais felizes.

É por isso que nos aliamos às Nações Unidas na declaração dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio e celebramos quando eles são alcançados. Quando uma mãe dá a luz um filho e ambos sobrevivem, Jesus se alegra. Quando as crianças conseguem ter acesso à escola e continuar estudando no decorrer dos seus anos de crescimento, Deus sorri. Quando as mulheres são melhor tratadas por seus maridos e a violência doméstica diminui, o Espírito Santo sopra com alegria. Quando uma pessoa angustiada é encontrada pelo evangelho da graça, os anjos festejam; e quando o anúncio do evangelho promove o arrependimento e o encontro de nova vida, a igreja dança ao ritmo da dança da própria Trindade. Deus se alegra em ver as pessoas inteiras e satisfeitas -- seja hoje ou amanhã, mas de preferência hoje; seja como indivíduos ou como comunidade, mas quanto mais gente, melhor.

Um dos belos exemplos bíblicos em que vemos uma mudança fundamental de vida pessoal e coletiva tornar-se realidade está no livro de Neemias. Ali encontramos um homem que abraça o chamado para reconstruir os muros de uma cidade empobrecida e explorada. Um homem vocacionado para guiar o povo de Israel a uma profunda renovação da sua relação com Deus e assim estabelecer as bases para uma sociedade mais justa, mais humana e mais reverente ao próprio Deus. E tudo isso ele faz em conjunto com o povo, desafiando inimigos externos e com um compromisso de vida pessoal que modela integridade, entrega e resposta ao chamado de Deus.

Neemias viveu num tempo de muita dor, pobreza e exploração do seu próprio povo. Mesmo vivendo em situação muito privilegiada como copeiro do rei da Pérsia, não se esqueceu do seu próprio povo. Quando surgiu a oportunidade, procurou informar-se sobre ele e, ao deparar-se com a realidade, não ficou indiferente: “Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus” (Ne 1.4). Neemias ouviu a Deus e lhe obedeceu, na sua geração e no seu contexto.

A nossa geração de cristãos, no Brasil de hoje, é chamada a fazer o mesmo. Orar com fervor e se dispor a servir a Deus com inteireza e vigor. Engajar-se na sociedade, exercitando uma cidadania que honre o Senhor, que expresse uma igreja viva e atuante e busque a construção de uma sociedade onde as crianças já não precisem viver apenas poucos dias (cf. Is 65.20).

Quando, em 2015, as Nações Unidas procederem a uma avaliação dos objetivos que se pretendia alcançar até lá, os resultados certamente serão disformes. Enquanto alguns países terão alcançado estes objetivos com alguma folga, outros continuaram a mostrar índices que espelham muito sofrimento, dor e injustiça. Mas seria muito bom se nas Nações Unidas se pudesse dizer também que significativos setores da Igreja, nestas últimas décadas, viveram uma cidadania que fez diferença na qualidade de vida das pessoas, especialmente dos mais pobres. E isso nós fazemos para glória de Deus.


Valdir Steuernagel

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