"A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las."
Santo Agostinho
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Um pouco de Santo Agostinho
quinta-feira, 22 de abril de 2010
As demarcações do Amor
Ma che cosa è questo amore, che fa tutti delirar?
Aria de Berta, Il Barbiere di Siviglia
Dizer, como a carta de João, que Deus é amor, aparentemente não basta.
Comentando o verso vinte e sete do décimo-sexto capítulo do evangelho de João – “porque o próprio Pai vos ama, visto que me tendes amado e tendes crido que eu vim da parte de Deus” – Agostinho (354-430) toma o cuidado de qualificar o mecanismo (e portanto os limites) do amor de Deus por nós. Na opinião de Agostinho, muitas vezes repetida depois dele, o amor divino pelas pessoas deve ser compreendido exclusivamente em termos do amor de Deus, interno à trindade, pelo Filho e pelo Espírito Santo.
“Não que Deus não nos ame,” esclarece o teólogo; “porém Deus nos ama como seremos, não como somos”. Segundo Agostinho, Deus, por um lado “nos ama, para que nos tornemos”, por outro “nos odeia pelo que somos, exortando e capacitando-nos a não desejarmos ser para sempre dessa forma1”.
“Deus nos ama como seremos, não como somos”.
Agostinho não duvida de que Deus nos ame, porém segundo ele Deus é incapaz de amar em nós mais do que o reflexo antecipado do seu Filho – a quem seremos, se tudo der certo, semelhantes um dia. Deus não nos ama e não pode nos amar “como somos”, simplesmente porque não há nada em nós que Deus possa amar sem contradizer e macular a sua singularidade. É por essa razão, argumenta o teólogo, que só podem beneficiar-se verdadeiramente do amor de Deus os que se aproximam o suficiente da pessoa de Jesus.
Simone Weil, em rigoroso contraste, crê que as pessoas devem ser amadas como são, do contrário “não serão as pessoas que estaremos amando, e o nosso amor será irreal”. Esta parece ter sido também, nos evangelhos segundo minha leitura, a disposição e o ensino geral do próprio Jesus.
O amor de Deus pelo que é indigno, incompatível e desprezível efetivamente macula, como queria Agostinho, a singularidade divina? Ou vem, ao contrário, reforçá-la e comprová-la? Se o que Jesus amava numa mulher adúltera, num agiota ou num endemoninhado não passava de um reflexo potencial e antecipado de sua própria pessoa, conhecerá Deus um amor que não seja narcisista? Haverá algo no amor de Deus que não seja referência interna? Haverá no universo outro objeto digno de amor?
Para complicar as coisas, quanto mais uso essa palavra menos claro fica para mim do que estou falando. No fim das contas, o amor atribui valor ao objeto amado, ou apenas reconhece esse valor? O amor precisa do amor? O amor precisa do objeto amado ou pode prescindir galantemente dele? Pode o amor ser despido, em alguma parcela, de amor-próprio? Posso condenar Deus por não amar pessoa alguma além dele mesmo? Com que freqüência consigo mais do que isso?
Pensando bem, é mais fácil pensar que o amor de Deus seja dessa forma auto-referencial e circular; seria pedir demais que eu aprendesse a amar como ele, para fora e não para dentro.
Santo Agostinho, em "Sobre a Trindade"
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Tudo é dom de Deus
Contudo, graças sejam dadas a ti, Senhor, Criador e ordenador do universo, ainda que me houvesses destinado a ser apenas criança. Pois já então eu existia, vivia, usava dos sentidos, cuidava da minha conservação, imagem da tua unidade misteriosa, fonte do meu ser; já então vigiava com o sentido interior, para a preservação de todos os meus sentidos, e, até nas reflexões modestas sobre pequenas coisas, eu me alegrava ao encontrar a verdade. Eu não aceitava ser enganado, tinha boa memória, tinha facilidade para falar, era sensível a amizade; fugia da dor, da humilhação, da ignorância. Que havia em tal criatura que não fosse digno de admiração e louvor? Mas tudo isso são dons do meu Deus. Não os recebi de mim mesmo; são coisas boas, e conjunto deles constitui meu eu.
Portanto, bom é aquele que me criou. Ele é o meu bem, e eu exulto em sua honra por todos os bens que constituem a minha experiência desde minha infância. Meu pecado era não procurar nele, e sim nas suas criaturas; isto é, em mim mesmo e nos outros; os prazeres, as honras e a verdade. Eu me precipitava assim na dor, na confusão e no erro. Graças a ti, ó minha doçura, minha glória, minha confiança, meu Deus, pelos dons que me deste. Conserva-os, pois. E assim me conservarás. Então crescerá e aperfeiçoara tudo que me deste. E eu mesmo viverei contigo, porque foste tu que me deste a possibilidade de existir.
Santo Agostinho
Trecho do Livro I das Confições, editora Paulos
Portanto, bom é aquele que me criou. Ele é o meu bem, e eu exulto em sua honra por todos os bens que constituem a minha experiência desde minha infância. Meu pecado era não procurar nele, e sim nas suas criaturas; isto é, em mim mesmo e nos outros; os prazeres, as honras e a verdade. Eu me precipitava assim na dor, na confusão e no erro. Graças a ti, ó minha doçura, minha glória, minha confiança, meu Deus, pelos dons que me deste. Conserva-os, pois. E assim me conservarás. Então crescerá e aperfeiçoara tudo que me deste. E eu mesmo viverei contigo, porque foste tu que me deste a possibilidade de existir.
Santo Agostinho
Trecho do Livro I das Confições, editora Paulos
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Um pouco mais de Agostinho
E como invocarei o meu Deus, ó meu Deus e meu Senhor? Pois, ao invocá-lo, eu o chamarei para dentro de mim. Que lugar haverá em mim, o Deus “que fez o céu e a terra”? Há, então, Senhor meu Deus, algo em mim que possa te conte? E o céu e a terra, os quais fizeste e nos quais me fizeste, eles são capazes de te conter? Ou então, visto quem sem ti nada existe daquilo que existe, será que tudo que existe te contem? Portanto, já que eu de fato existo, por que tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não existisses em mim? Eu ainda não estive nas profundezas da terra e, no entanto, tu aí também estás. Pois, “mesmo que desça as profundezas da terra, aí estás”. Pois eu não existiria, meu Deus, eu de forma alguma existiria, se não estivesses em mim. Ou melhor, eu não existiria se não existisse em ti, “de quem tudo, por quem tudo, em que todas as coisas existem”? É assim, Senhor, é assim mesmo. Para onde te chamo, se já estou em ti? De onde virias para estares em mim? Para onde me afastaria, fora do céu e da terra, para que daí viesse a mim o meu Deus, que disse: “o céu e a terra estão cheios da minha presença”?
Santo Agostinho
Trecho do Livro I das Confissões, editora Paulos
Santo Agostinho
Trecho do Livro I das Confissões, editora Paulos
Um pouco de Agostinho de Hipona
“Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em ti.”
“Quem me fará descansar em ti? Quem farás que venhas ao meu coração e o inebries a ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem? Que és para mim? Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares, e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar já não fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu Deus, o que és tu para mim? “Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.” Dize de forma que te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de ti, Senhor; abre-os e “dize a minha à minha alma: eu sou a tua salvação.” Correrei atrás dessas palavras e o segurarei. Não escondas de mim a tua face: que eu morra para contempla-lá e para não morrer. ”
Santo Agostinho
Citações do Livro I da Confissões, editora Paulos
“Quem me fará descansar em ti? Quem farás que venhas ao meu coração e o inebries a ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem? Que és para mim? Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares, e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar já não fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu Deus, o que és tu para mim? “Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.” Dize de forma que te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de ti, Senhor; abre-os e “dize a minha à minha alma: eu sou a tua salvação.” Correrei atrás dessas palavras e o segurarei. Não escondas de mim a tua face: que eu morra para contempla-lá e para não morrer. ”
Santo Agostinho
Citações do Livro I da Confissões, editora Paulos
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
O meu amor é o meu peso
O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não só tende para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas quando o encontram, ordenam-se e repousam.
O meu amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. O vosso Dom inflama-nos e arrebata-nos para o alto. Ardemos e partimos. Fazemos canções no coração e cantamos o "cântico dos degraus". É o vosso fogo, o vosso fogo benfazejo que nos consome enquanto vamos e subimos para a paz da Jerusalém celeste. "Regozijei-me com aquilo que me disseram: Iremos para a casa do Senhor". Lá nos colocará a "boa vontade", para que nada mais desejemos senão permanecer ali eternamente.
Santo Agostinho
O meu amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. O vosso Dom inflama-nos e arrebata-nos para o alto. Ardemos e partimos. Fazemos canções no coração e cantamos o "cântico dos degraus". É o vosso fogo, o vosso fogo benfazejo que nos consome enquanto vamos e subimos para a paz da Jerusalém celeste. "Regozijei-me com aquilo que me disseram: Iremos para a casa do Senhor". Lá nos colocará a "boa vontade", para que nada mais desejemos senão permanecer ali eternamente.
Santo Agostinho
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