O vento passou e deixou arrepio
Mas não digo que, Ele é passado,
Pois, da pele, me lembra cada fio
Que sua presença ainda se faz sentir.
Sou como pipa, guiado pelo vento
Com outras, fico colorindo o céu
Se não voar, a pipa deve virar réu,
Já que o papel da pipa é voar
E esse Sopro, esse Vento cálido,
Enche a terra com hálito de vida
Tolo, sem graça, é quem duvida
Morto, pois só respira o nada
Às vezes, quero amarrar o Vento,
Pois me angustia o parar de ventar
Todo tipo de cerimônia eu tento
Inútil, Ele "sopra onde quer"
Doce vento, bondoso e livre
Tenha piedade dessa pobre pipa
Guia-me, fazer-me voar Contigo
E da queda eterna me livre.
Flávio Américo
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terça-feira, 31 de dezembro de 2013
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Feliz olhar novo
O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história.
O grande lance é viver cada momento como se a receita da felicidade fosse o AQUI e o AGORA.
Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais…
Mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia?
Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho? Quero viver bem.
O ano que passou foi um ano cheio.
Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal.
Às vezes se espera demais das pessoas. Normal.
A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor machucou. Normal.
O próximo ano não vai ser diferente.
Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança?
O que eu desejo para todos nós é sabedoria!
E que todos saibamos transformar tudo em uma boa experiência!
Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim…
Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou, passe-o para a categoria três, a dos colegas. Ou mude de classe, transforme-o em conhecido. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.
O nosso desejo não se realizou? Beleza, não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro: CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE).
Chorar de dor, de solidão, de tristeza faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.
Desejo para todo mundo esse olhar especial.
O próximo ano pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro.
O próximo ano pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular… ou…
Pode ser puro orgulho!
Depende de mim, de você!
Pode ser.
E que seja!!!Feliz olhar novo!!!
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Deus é traiçoeiro
"E, outra coisa, o Diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro - dá gosto! A força dele, quando quer - moço ! - me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho - assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza."
Guimarães Rosa
sábado, 21 de julho de 2012
Escolhendo amigos
Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."
Oscar Wilde
domingo, 1 de julho de 2012
Há Momentos
Há momentos na vida em que sentimos tanto
a falta de alguém que o que mais queremos
é tirar esta pessoa de nossos sonhos
e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que se quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes
não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor
das oportunidades que aparecem
em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante
é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida
quando perdoar os erros
e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre.
Clarice Lispector
A CANCÃO
Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os mistérios noturnos da alma
E o dia não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e e nem te lembras,
De telas, de estatuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- as vezes -
No chão do rumoroso desertos em que pisas,
Brota o milagre da canção!
Mario Quintana
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Eu ainda acredito nos livros
Quando eu tinha 16 anos tinha uma professora que sempre nos dizia: “eu
acredito no poder dos livros”. E ela repetia essa frase em quase todas as
aulas. Muitas vezes interrompia a matéria para enfatizar tal pensamento.
Pena que eu nunca dava bola para o que ela dizia e acabei não lendo os
livros que ela pedia, bem como fiquei de exame. Eu dizia: maldita literatura!
Maldito José de Alencar! Maldito “a viuvinha”, Maldito “Iracema”, Maldito
“Macunaíma”, Maldito Machado de Assis, Maldito “A Senhora”, Maldito “Os
Lusíadas” e o Camões também! (Esse Camões era a paixão da minha professora,
depois do Antônio Fagundes).
Hoje, um pouco mais velho, (mas nem tanto) percebi a real influência dos
livros, como a professora sempre me dizia.
Os livros têm o poder de:
Abrir a nossa mente e tornar a nossa vida mais intensa e bela; aumentar a
nossa criatividade e aprender a lidar com histórias da nossa própria vida;
dialogar melhor com o passado; manter-nos acompanhados mesmo estando sozinhos;
embelezar a nossa angústia; decifrar a nossa história enquanto lemos o romance
do outro; viajar mundos sem mudar de endereço; tornar-nos pessoas mais
inteligíveis; ensinar-nos o valor de ser um inconformado com a injustiça;
treinar nossos pensamentos e educar nossas sensações.
Se os livros tem a força de abrir a nossa mente, quanto mais a Escritura
Sagrada o tem para transformar radicalmente a nossa história e o nosso mundo.
Como bem nos encorajou o escritor aos Hebreus 4.12: “a palavra de Deus é viva,
e eficaz, e mais cortando do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até
ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir
os pensamentos e propósitos do coração.”
Hoje eu acredito no poder da leitura, como um dia disse Bill Gates: “Meus
filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem
leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria
história.”
Jean Francesco,
Campinas, 13 de Junho de 2012
Jean Francesco,
Campinas, 13 de Junho de 2012
domingo, 13 de novembro de 2011
Outros
"Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas."
Clarice Lispector
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Olhando ao longe
![]() |
| Foto de Diego Formiga / Modelo Clara Figueiredo |
Olhar distante. Um gato passando pelo canto da casa. O sol se pondo lentamente. A vida passando com a leveza do respirar tranquilo. Realização e completude. Tudo perfeito, mas muito diferente de algum tempo atrás.
Naquela mesma cadeira confortável, ela chorava. Não conseguia entender porquê, mais uma vez, teve que abrir mão da companhia próxima de seus amigos e ir para longe. O mundo estava cinza. Um vazio tomava conta de sua alma. Não havia revolta nem protesto. Apenas a pergunta: Por quê?
Hoje, olhando ao longe, ela entende. O mundo não é mais tão assustador quanto antes. Os amigos são outros. Ela é outra. Uma brisa fria entra pela janela e a toca levemente. Já é noite. Antes de fechar a janela, ela olha a lua – ela sempre esteve lá. Lembrou-se de quando era criança e olhava para o céu com aquela curiosidade imensa – a lua nunca mudou.
Um dia, a menina que hoje sonha, será grande. Sentará na mesma cadeira e, pela mesma janela, verá a mesma lua. Muita coisa terá mudado, mas a lua ainda estará lá lembrando-a de que certas coisas nunca mudam, e isso nos conforta.
Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre. (Hebreus 13:8)
Wellington da Silva Gomes
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Roda viva
Mais uma do Chico.
"Tem dias que a gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa No nosso destino mandar Mas eis que chega a roda viva E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante Roda moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda viva E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante Roda moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata Não quer mais rodar não senhor Não posso fazer serenata A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa Viola na rua a cantar Mas eis que chega a roda viva E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante Roda moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira Que um dia a fogueira queimou Foi tudo ilusão passageira Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa Faz força pro tempo parar Mas eis que chega a roda viva E carrega a saudade prá lá ...
Roda mundo, roda gigante Roda moinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração..."
A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Um pouco de São Francisco de Assis
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa , que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...
Francisco de Assis
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
O Maracujá
[*Escrevi este poema enquanto tomava um sorvete de chocolate com cobertura de maracujá num sábado, noite fria e chuvosa na cidade de São Paulo.]
Mistério; essa é a melhor palavra.
O maracujá é um mistério, deve ser isso.
A cada interação com a nossa língua,
Ele é sutil e azedo.
Todavia, comemo-lo até o fim com prazer.
O maracujá é um dia frio, de chuva,
Mas consegue nos alegrar como um dia ensolarado.
Ele é como um susto: é ruim de tomar,
Mas sempre redunda em multidão de risos.
O maracujá é um arrepio de azedume,
Que por ser azedo é mais provocante e maravilhoso.
O maracujá deixa nossa garganta ácida,
Contudo perfuma o nosso hálito de um jeito inigualável.
Como os momentos ásperos da vida:
Uma azeda briga que enriquece nossa amizade;
Um choro amargo que acaba em abraço;
Uma ruim primeira impressão de alguém
Que virou a melhor das amizades.
Aquela distância cruel e cítrica
Que multiplicou nossas paixões.
Um sonho inatingível e amargoso
O qual rendeu-se em realidade.
Um agro destino certo
Que foi revertido pela esperança trazida do Céu.
Isso me remete a algo mais extraordinário:
A sabedoria dAquele que arquitetou o mistério do Maracujazeiro.
Jean Francesco
Jean Francesco
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O Medo da Eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
Clarice Lispector
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
O Milagre das Folhas

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante.
Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.
Clarice Lispector
sábado, 6 de agosto de 2011
Um solilóquio

Resisto. Me inquieto. Sei da necessidade de deflacionar delírios onipotentes.
Hércules mal resolvido, vejo a vida passar, o cenário mudar. Os anos desembestados apressam o passo. “Onde fui parar?” Resisto, estranhado. Quero guiar o tempo.
Adio mortes. Esqueço que elas são necessárias; a semente não pode ficar só, enterrada. Esperneio. Tenho dó de Narciso humilhado. Devo guardar o que Walter Benjamin ensinou porque careço não só de “liberdade para” (freedom to) mas a “liberdade de” (freedom from). Enquanto eu só for "livre para" instrumentalizarei minha liberdade. Quando apreender o significado de “livre de”, entenderei o sentido de desapegar de nome, de respeitos institucionais, de ostentação. E aí, só aí, poderei simplesmente Ser.
Quero enfrentar a deliciosa e vertiginosa aventura de viver sem o chumbo que eu mesmo agrilhoei ao tornozelo. Ordeno à alma que retire as mordaças que permiti amarrarem na boca. Exorcizo o cenho medonho que fantasiei, e que me humilha sem sequer existir.
Quero entender o significado de simplicidade e perceber que a verdadeira vida se esconde no momento despretencioso, despido de grandiloquência. Os nascidos do Espírito são livres, leves, transparentes. Que minha simplicidade seja como uma janela aberta para a aragem sutil que sopra a infinita e imperceptível presença do Divino.
Ricardo Gondim
retirado de www.ricardogondim.com.br
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Um pouco de Paulo Freire
Amizade

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.
Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. É delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí.
E me envergonho, porque essa minha prece é em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que não desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.
Vinícius de Morais
segunda-feira, 18 de julho de 2011
A força que me assalta
Acredito que o amanhã continuará com semelhante tempestade.
No vai e vem da vida tudo continuará se esvaindo em vaidade.
A lágrima continuará a escorrer na valeta do desdém.
O uivo dolorido da criança que se desmancha em diarreia,
continuará abafado no imenso sono da noite sem folia.
A muralha que isola o esfarrapado continuará sólida.
A estrela do general, lustrosa, brilhará em cada estreia.
O fadista continuará ébrio, preso à força do além.
Insisto em não desistir da sorte, fonte de agonia.
Não sei explicar a força que me assalta.
Sem noção, retomo à minha sina,
minha vocação, mesmo por padecer falta
volto ao vício, sandice de minha alma menina.
Ressinto aceitar o preço de ser parceiro
do padecer e nem sei se resisto ao aceno celeste.
Se desisto do sucesso, da sagração que a tantos fascina
confesso, sofro ao morrer para a ambição corriqueira.
Abandono a conquista do sonho já vencido.
Assim, sigo em assumir, assimilar, encarnar
a singela façanha de perseverar na Esperança.
Ricardo Gondim
retirado de www.ricardogondim.com.br
terça-feira, 8 de março de 2011
Sobre o meu samba ou Por quê não gosto de carnaval
2008, em idos tempos de Carnaval, compartilhei em meu blog pessoal breves e sinceros versos sobre o momento que se encerrava. Como agora, apesar das águas já serem de março.
Por isto, permitam-me compartilhar este texto, que relembrei com carinho nestes dias, iniciando desta maneira a minha empreitada neste espaço, com a qual nosso colega Ricardo Silva me honrou ao convidar-me.
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Foi-se o carnaval.
Por isto, permitam-me compartilhar este texto, que relembrei com carinho nestes dias, iniciando desta maneira a minha empreitada neste espaço, com a qual nosso colega Ricardo Silva me honrou ao convidar-me.
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Foi-se o carnaval.
E foi-se sem que eu ao menos o sentisse. Assim.
Por que o carnaval explode colorido na ausência da Luz. Constrói o samba na ilusão da festa. Tateia o desejo no prezo da ausência. Reduz à nada o jugo desigual.
Estampa-se a vivacidade das gentes mortas.
Todo carnaval tem seu fim. E finda-se sem que eu ao menos o sinta. Assim.
E sorrio.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Embora seja noite
Bem eu sei a fonte que mana e corre
Embora seja noite.
Aquela eterna fonte está escondida
mas sei bem d’onde é suprida
embora seja noite.
Sua origem desconheço, pois não a tem
mas sei que toda origem dela vem,
embora seja noite.
Sei que não pode haver coisa tão bela
e que céus e terra bebem dela,
embora seja noite.
Sei bem que fundo nela não se acha,
e que ninguém pode atravessá-la,
embora seja noite.
Sua claridade não é nunca escurecida
e sei que sua luz toda já é vinda,
embora seja noite.
Sei ser tão caudalosas suas correntes
que regam céus, infernos e as gentes,
embora seja noite.
A corrente que nasce desta fonte
sei que é forte e onipotente,
embora seja noite.
E das duas a corrente que procede
sei que nenhuma delas a precede,
embora seja noite.
E esta eterna fonte está escondida
neste vivo Pão pra dar-nos vida,
embora seja noite.
Aqui ela está chamando as criaturas
e se fartam desta água, ainda que às escuras
porque é de noite.
Esta viva fonte que desejo
neste Pão de vida a vejo,
embora seja noite.
São João da Cruz (1542-1591)
o frade espanhol que dizia que somos aquilo que amamos
Embora seja noite.
Aquela eterna fonte está escondida
mas sei bem d’onde é suprida
embora seja noite.
Sua origem desconheço, pois não a tem
mas sei que toda origem dela vem,
embora seja noite.
Sei que não pode haver coisa tão bela
e que céus e terra bebem dela,
embora seja noite.
Sei bem que fundo nela não se acha,
e que ninguém pode atravessá-la,
embora seja noite.
Sua claridade não é nunca escurecida
e sei que sua luz toda já é vinda,
embora seja noite.
Sei ser tão caudalosas suas correntes
que regam céus, infernos e as gentes,
embora seja noite.
A corrente que nasce desta fonte
sei que é forte e onipotente,
embora seja noite.
E das duas a corrente que procede
sei que nenhuma delas a precede,
embora seja noite.
E esta eterna fonte está escondida
neste vivo Pão pra dar-nos vida,
embora seja noite.
Aqui ela está chamando as criaturas
e se fartam desta água, ainda que às escuras
porque é de noite.
Esta viva fonte que desejo
neste Pão de vida a vejo,
embora seja noite.
São João da Cruz (1542-1591)
o frade espanhol que dizia que somos aquilo que amamos
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