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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quando o Reino Vem

“Vinde a mim, todos que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”. Essas palavras dominaram a mensagem e a obra de Jesus por completo; elas contém o tema de tudo que ele ensinou e fez. Deixam também claro que em seu ensino Jesus deixou para trás, e muito, a mensagem de João Batista. João, embora tenha já entrado em conflito silencioso com os sacerdotes e os escribas, não chegou a se tornar um sinal definitivo de contradição.

“Os caídos e os ressurretos”, uma nova humanidade em contraste com os antigos homens de Deus – esses, Jesus Cristo foi o primeiro a criar. Ele entrou em imediata oposição com os líderes oficiais do povo, e neles com a natureza humana em sua manifestação usual. Eles pensavam em Deus como um déspota que guardava as observâncias cerimoniais de seu palácio; ele respirava na presença de Deus. Eles viam Deus somente na sua lei, que haviam convertido num labirinto de desfiladeiros escuros, becos sem saída e passagens secretas; ele o via e sentia em todo lugar. Eles tinham posse de milhares dos mandamentos divinos e achavam, por essa razão, que o conheciam; ele tinha apenas um, e o conhecia através dele. Eles haviam tornado essa religião num negócio mundano, e não havia coisa mais detestável; ele proclamava o Deus vivo e a nobreza da alma.

Se empreendermos uma visão geral do ensino de Jesus, veremos que ele pode ser agrupado sob três tópicos. Cada um é de tal natureza que é capaz de conter o ensino todo, que pode ser portanto exposto integralmente através de qualquer um deles.

Em primeiro lugar, o reino de Deus e sua vinda.

Em segundo lugar, Deus o Pai e o infinito valor da alma humana.

Terceiro, a supremacia ética do mandamento do amor.

Que a mensagem de Jesus seja tão singular e poderosa deve-se justamente ao fato de ser tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica. É simples a ponto de poder ser esgotada em cada um dos conceitos essenciais que ele proferia, e tão rica que cada um desses conceitos parece inesgotável, o completo significado dos aforismos e parábolas inteiramente fora de nosso alcance. Mas trata-se de ainda mais do que isso, porque ele mesmo é a credencial de tudo que disse. Suas palavras falam conosco, através dos séculos, com a vivacidade do momento presente. É aqui que fica comprovado o ditado profundo que diz: “Fala, para que eu possa te ver”.

A mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus percorre todas as formas e manifestações da profecia que, extraindo sua cor do Antigo Testamento, anuncia o dia do julgamento e o governo visível de Deus no futuro – até a ideia da chegada interior do reino, a começar da mensagem de Jesus e tendo ali o seu início. Sua mensagem abarca dois polos com diversos estágios intermediários, que fazem com que se mesclem um com o outro.

No primeiro polo a chegada do reino parece ser um evento puramente futuro, e o reino em si o governo visível e exterior de Deus; no segundo, parece ser algo interior, algo que já está presente mas faz sua entrada precisamente agora. Vê-se, portanto, que nenhum dos dois conceitos de reino de Deus, nem o modo como sua vinda é representada, são livres de ambiguidade.

Jesus extraiu a noção da vinda do reino das tradições religiosas da sua nação, onde ela já ocupava lugar de destaque. Ele incorporou os aspectos dela nos quais o conceito era ainda uma força viva, e acrescentou aspectos novos. As expectativas eudemonísticas de caráter mundano e político foi tudo que ele descartou.

Não deve haver dúvida de que a ideia dos dois reinos, um de Deus e outro do diabo e do conflito entre eles, e de que no conflito final em algum momento futuro o diabo, expulso há muito do céu, seria derrotado também na terra, era uma noção que Jesus simplesmente compartilhava com seus contemporâneos. Ele não a iniciou; ele cresceu nela e a reteve. A outra noção, no entanto, O próprio Deus é o reino.de que o reino de Deus “não vem com aparência exterior”, de que ele já está aqui entre nós, é somente dele.

É verdadeiramente difícil e de responsabilidade a tarefa do historiador de discernir entre o que é tradicional e o que é peculiar, entre cerne e casca, na mensagem de Jesus do reino de Deus. Quão longe devemos ir? Não queremos roubar sua mensagem de seus matiz e caráter originais; não queremos transformá-la num pálido sistema de ética. Por outro lado, não queremos perder de vista seu caráter e força peculiares, como fazem os que querem explicar toda a mensagem de Jesus a partir das ideias gerais que prevaleciam no seu tempo. A própria maneira com que Jesus fazia distinção entre os elementos tradicionais – ele não deixou de lado nenhum em que houvesse uma centelha de força moral, e não aceitou nenhum que encorajasse as expectativas egoístas da sua nação, – essa própria discriminação nos ensina que era a partir de um conhecimento mais profundo que ele falava e ensinava.

Nós porém possuímos testemunho de natureza muito mais extraordinária. Quem quer saber o que significava na mensagem de Jesus o reino de Deus e a sua vinda deve ler e estudar as suas parábolas. Verá então o que ele queria dizer: o reino de Deus vem quando vem ao indivíduo, entrando em sua alma e aferrando-se a ela. Por certo o reino de Deus é o governo de Deus, mas é o governo de Deus no coração de indivíduos: é o próprio Deus em seu poder. A partir deste ponto de vista, tudo que há de dramático no senso externo e histórico desaparece, desaparecendo também todas as esperanças para o futuro. Tome qualquer parábola que lhe ocorrer, a parábola do semeador, a da pérola de grande valor, a do tesouro enterrado no campo: a palavra de Deus, o próprio Deus, é o reino. Não é uma questão de anjos e demônios, tronos e principados, mas de Deus e da alma, da alma e de seu Deus.


Adolf Harnack
em O que é o cristianismo, Palestra III

domingo, 18 de julho de 2010

A morte da moralidade

A moralidade dos fariseus ainda prospera entre nós. Dentre os líderes intelectuais do nosso povo muitos sentem-se horrorizados diante da noção de que uma pessoa é capaz de fazer o que é bom apenas se sua vontade estiver direcionada à busca da verdade da forma como ela mesmo a percebe. Afirmam que, ao contrário, carecemos de mandamentos “objetivos” que nos digam exatamente o que fazer.

Se com isso eles quisessem dizer que coisas como lei, tradição e autoridade pessoal são em geral necessárias, estariam certos. A verdadeira opinião desses líderes do nosso povo, no entanto, é que obedecer a essas autoridades é em si mesmo fazer o que é bom e – pior ainda – que chegamos ao conhecimento do que é bom deduzindo-o a partir das leis impressas sobre nós pela natureza e pela história. Agindo assim esses guias cegos de cegos declaram não ter olhos para verem eles mesmos o que é bom, embora estejam cheios de honesto zelo, de uma natureza não muito diversa do zelo os fariseus, seus protótipos.

É apenas observando como Jesus vai à raiz da insinceridade e da indolência dessa concepção de moralidade que veremos claramente o significado de suas idéias morais em sua influência sobre nós mesmos.
Os preceitos relacionados ao ritual e ao culto assumem sempre a precedência sobre os que dizem respeito à nossa conduta para com os outros.

No curso de sua incansável guerra contra o auto-engano dos homens virtuosos ao redor de si, Jesus revela que somos capazes de querer uma única coisa de cada vez. Por mais que nos esforcemos, não conseguimos servir a dois senhores. Da mesma forma que o olho deve ser “simples” para dar ao organismo a luz necessária, o homem interior estará na escuridão a não ser que concentre cada impulso seu numa única direção, na busca de um único alvo.

Será que Jesus considerou que sua missão consistia em revelar aos homens qual deveria ser esse alvo? De modo algum. Ele sabia que a essência da lei era conhecida em todo Israel, os mandamentos de amarmos a Deus e ao próximo. Sabia também que não era difícil fazer cada pessoa reconhecer quem é o seu próximo, de modo a perceber que quando está sendo cruel com o outro está condenando simultaneamente a si mesma. O objetivo de Jesus era outro, demonstrar que por nenhuma palavra externa somos capazes de chegar ao conhecimento do que é bom.

Jesus certamente viveu de maneira única a noção de Deus como expressão última de todas as coisas, como nosso único e necessário bem. Pois para ele o Reino de Deus significava apenas aquele futuro de bem-aventurança cuja condição necessária é que apenas Deus reine dentro de nós. Todas as coisas boas que não exatamente nos levam mais para perto de Deus preparam a nossa destruição. Verdadeira integridade é amor a Deus.

Porém, a partir dessas noções fundamentais a respeito da devoção os homens concluíram que nosso dever supremo é obedecer a vontade tradicional de Deus – conduta pela qual somos expostos a um perigo terrível, visto que conduz a uma forma de devoção fatal a qualquer clareza moral. Pois, dentre os mandamentos transmitidos a nós como expressão da vontade de Deus, haverá sempre em nós a tendência de considerarmos superiores aqueles que deixam claro qual seja nosso dever imediato para com Deus. Conseqüentemente, os preceitos relacionados ao ritual e ao culto assumem sempre a precedência sobre os que dizem respeito à nossa conduta para com os outros.

Isso Jesus encontrou nos defensores da virtude ao redor de si, gente que lutava com grande cuidado a fim de desenvolver e aprimorar as regras transmitidas a eles para o serviço de Deus. Porém aos olhos de Jesus a virtude aparente desse método de servir a Deus transformava em impossibilidade um serviço vivo e vital; ele via nesse método a carcaça ao redor da qual reuniam-se os abutres.

Jesus não dará ouvidos às nossas alegações de que uma obrigação relacionada ao culto nos desobriga de suprir as necessidades de qualquer pessoa pela qual sejamos responsáveis num dado momento. Os profetas já haviam dito que misericórdia é melhor do que sacrifício, mas no tempo de Jesus do zelo dos escribas havia nascido e prosperado um religião cuja vitalidade envolvia a morte da moralidade.


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

sábado, 17 de julho de 2010

A obra inconclusa

Em terceiro lugar, o escopo do amor é ilimitado; sua obra jamais termina. Qualquer dever que possamos esperar concluir e dar por terminado não é um dever moral. Aquele cujo único conhecimento consiste de tarefas finitas não alcançou ainda a vida interior e a liberdade de uma mentalidade moral. A realização de qualquer coisa que o amor entenda ser seu dever conduz a novas obrigaçőes, maiores que as anteriores.

Se alguém, buscando comunhão com aqueles entre os quais foi colocado, imagina poder estabelecer quaisquer limites para os seus esforços, sua vontade não possui ainda uma natureza moral. Se a comunhão genuína com outros for realmente o único objeto da nossa vontade, não nos contentaremos com menos do que uma infinita capacidade para o serviço. Estaremos então preparados para a possibilidade de termos de desconsiderar todas as fronteiras que delimitam nossos direitos, se for para sermos capazes de cumprir nosso propósito de servir a comunidade.

Se for nosso o verdadeiro amor, estaremos prontos para qualquer sacrifício que possa estabelecer um elo comum de afinidade entre nós mesmos e aqueles ao nosso redor. É essa a autonegação para a qual somos chamados por Jesus: não um abandono sem sentido dos nossos poderes individuais, mas o exercício máximo deles, a disposição de entregá-los todos a uma grande causa. O que se ergue desse fundamento não é mera “disposição de espírito construída como um castelo de cartas” – pois, onde o serviço é dessa natureza, o indivíduo é construído sobre um reconhecimento aberto de necessidade. Se for cristã, essa pessoa se alegrará na promessa de que seu sacrifício é a chave para as riquezas do mundo que despertam o coração do homem para suas riqueza mais profundas.

A mente que está viva em Jesus, a mente que ele requer de nós, está enraizada e fundamentada no conhecimento de que uma única coisa é boa, uma vontade direcionada à comunhão de seres conscientes de si mesmos – em outras palavras, amor. Essa mente, de acordo com a explicação que Jesus fornece do amor, é vontade uniforme, independente e inesgotável. Seu ponto culminante é a percepção de que esta vontade é poder sobre todas as coisas: é Deus.


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O que lhes faltava

Podemos ganhar uma idéia mais clara a respeito da mente de Jesus e da sua pessoa observando a natureza da diferença moral entre ele e os outros ao seu redor. Estaria essa diferença no princípio de que a integridade não é questão de ação exterior mas de disposição interior? Seria essa a natureza da “justiça superior” [à dos fariseus] na direção da qual ele procurava impulsionar os seus discípulos?

Porém, para gente familiarizada com as palavras dos profetas “Este povo honra-me com seus lábios, mas o seu coração está distante de mim” e com a oração “Cria em mim, ó Deus, um coração puro”, essa distinção certamente não pareceria novidade. Com respeito a isso a diferença entre Jesus e os justos da sua nação só poderia ter consistido no grau de precisão com o qual ele aplicava esse princípio, e teria sido essa diligência que lhe dera o direito de chamá-los de hipócritas.

Se, porém, pararmos por aqui, estaremos longe de compreender Jesus na força e na totalidade da sua mente. O que é peculiar no pensamento moral de Jesus é que ele leva esse princípio ainda mais longe, e assim exibe pela primeira vez a sua força completa.

Ele tem profusa satisfação em, como os profetas, atacar a hipocrisia no sentido da deliberada discrepância entre o que se é e o que se aparenta ser; ele também expõe a natureza radical dessa discrepância. Porém Jesus sem dúvida sabia que, no sentido usual do termo, os fariseus não eram hipócritas, prontos como estavam a enfrentar a morte nas mãos dos romanos sempre que a inviolabilidade da lei estava em risco.

No sentido usual do termo, os fariseus não eram hipócritas.

Ele no entanto decidiu claramente que a medonha corrupção da natureza espiritual deles fazia-os merecedores do julgamento do inferno. Ele denunciava-os por prescreverem, deixando de colocar em prática, e por não cumprirem as exigências que eles mesmos haviam imposto sobre os outros. Porém não era por falta de atividade, como comumente se pensa, que os fariseus deixavam quaisquer deveres por cumprir; ao contrário, eram zelosos até o último grau.

O que lhes faltava era aos olhos deles mesmos de pouca importância – algo para o que não tinham tempo, devido à supremamente importante preocupação de cumprir a lei com a maior exatidão possível. Para eles, portanto, não era objeto de preocupação que sua vontade pessoal fosse sincera e íntegra com relação a si mesma, consciente de seu direito eterno. Eles, de fato, buscavam cumprir a lei, mas apenas a fim de se provarem justos, e portanto a fim de obterem algo completamente diferente.

Eles queriam servir a dois senhores – feito que, segundo Jesus, é impossível de realizar por causa da natureza da vontade. Buscando compreender no mais ínfimo detalhe um número enorme de preceitos isolados, os fariseus negligenciavam a questão essencial da lei, a demanda por justiça, misericórdia e fidelidade como meio para uma irmandade genuína.

Não estavam fundamentados na verdade, porque negligenciavam a autenticidade que deve ser capaz de enxergar por si mesma o significado e a justa demanda da lei, descobrindo dessa forma como cumpri-la. Tornavam a lei um fardo terrível de se levar, mas não sentiam eles mesmos o seu peso, porque era fácil para eles satisfazer exigências incompreensíveis, e porque viam que é perfeitamente possível desempenhar e livrar-se de tarefas cujo significado não se compreende. Imaginavam que cumpriam adequadamente a lei, e consideravam-se servos valiosos; enquanto isso, impediam que os conceitos morais da lei entrassem em vigor, por acharem que não valia à pena investigar a verdade que havia neles.


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O amor é mais severo que a justiça

Em segundo lugar, o amor distingue-se da justiça pela natureza dos seus motivos. A obediência legal é sempre induzida por estatutos definidos; o amor não. Uma vontade que dependa de um impulso externo como esse não compartilha da natureza do amor. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo. O fato de que outros estabeleçam como nosso alvo a verdadeira comunhão interpessoal não determinará que conduzamos uma vida cheia de amor; esse alvo, permanecendo para sempre em pé por seus próprios méritos, só pode ser compreendido por quem está cheio de amor, e que por livre escolha adota-o para si mesmo.

Além disso, como o amor é o reconhecimento, de dentro, de um alvo eterno, ele é guiado passo a passo por seu próprio caminho autodeterminado. O que por si mesmo julga ser, em suas próprias circunstâncias particulares, o melhor meio de alcançar o alvo eterno, regerá sempre a sua conduta; ele não conhece outro caminho. Caso se submetesse a quaisquer outras leis sua livre confiança seria dominada pelo medo, ou sua energia afundaria em indolência.

O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo.

Mesmo que, como os heróicos fariseus, um homem sofra o martírio por sua fé, isto é, por obediência à lei, se não tiver em si mesmo algo dessa sinceridade e dessa independência do amor, de acordo com o apóstolo Paulo ele nada será.

A verdade é que, no que diz respeito ao tempo, o amor começa em todos os casos apenas quando uma pessoa experimenta o amor. Daí os esforços incessantes de Jesus no sentido de despertar nas pessoas um senso do amor inesgotável que na realidade experimentam. Uma vez que essa consciência nascente produza sua obra dinamizante, a pessoa possuíra vida em si mesma. Sua atividade não estará mais fundamentada, como se fosse mera transação, no interesse próprio, já que vantagens podem ser obtidas promovendo-se o bem-estar de outros; não será despertada por estímulos à simpatia, surgindo a partir de uma comunhão já estabelecida.

Uma vez que o amor venha à existência, sua operação será inteiramente autodeterminada. Não poderá aceitar leis vindas de fora, mas a partir de sua consciência interior outorgará a lei para si mesmo. Deixará de depender de um objeto digno de amor, como acontecia quando foi inicialmente despertado, mas, como o sol de Deus, distribuirá livremente e abundantemente, em todas as direções, suas riquezas peculiares.

A esse amor pertence a tranqüilidade sublime do poder criativo. Sua natureza e sua força são divinas. Jesus ensina que é assim, e diz ainda que o amor, e apenas o amor, é requerido de todo homem. O fato de que Jesus seja capaz de exigi-lo, por saber que será desperto esse livre a ativo poder do amor naqueles reunidos ao redor de si, em cujas vidas resplandece agora mesmo a luz pela sua manifestação de si mesmo – é isso o que a redenção representa para nós.


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Além da submissão

Lutero não superou o mau uso das instruções morais de Jesus, que na Igreja de Roma demonstrara sua força completa e letal. Ele também tomava por certo que o cristão é obrigado, pelo menos, a obedecer cada palavra de Jesus que chegou até nós e não foi expressamente endereçada a um indivíduo em particular, sem considerar se a exigência que ela contém diz realmente respeito a ele mesmo em sua presente circunstância.

Uma obediência dessa natureza é, no entanto, um monstruoso mau uso das palavras de Jesus, e para um cristianismo cujo alvo é habitar o mundo, ela acaba não deixando qualquer escolha além da divisão entre clérigos e leigos, para detrimento moral de ambas as partes. Porém, mesmo que o resultado desse uso das suas palavras fosse a mencionada divisão, não teríamos direito de chamá-lo de abuso se o próprio Jesus demonstrasse tencionar que todos os homens obedecessem cegamente as suas palavras, mesmo sem apreender a verdade que elas contém.

Se tratadas meramente como padrões a serem copiados, as palavras de Jesus separam os homens da verdade, e portanto de Cristo.

Sem dúvida Jesus fez exigências para as quais ele esperava, de todos os seus discípulos, obediência incondicional. Porém ele jamais exigiu que alguém cumprisse suas palavras cegamente e precipitadamente, sem compreendê-las. Em cada caso ele pedia mais do que isso; não meramente submissão, mas a obediência interior de um agente livre. Suas palavras aplicam-se aos que realmente as aceitam, e essa verdadeira aceitação elas conquistam estimulando a tendência à independência que é inerente à vontade.

No coração de cristãos individuais o poder espiritual de Jesus há muito tem suprido o que faltou na ação de Lutero sobre a igreja – isto é, o discernimento moral de que podemos reconhecer Jesus como nosso líder e ao mesmo tempo perceber a iluminadora verdade de palavras que, se tratadas como padrões a serem copiados pefeitamente, separam os homens da verdade, e portanto de Cristo. Uma única palavra de Cristo é capaz de despertar essa compreensão; porém nenhuma palavra específica, nem a soma de todas as suas palavras, é capaz de nos fazer perceber a verdade que há nelas. Isso só pode acontecer se buscamos o próprio Jesus – e por isso não estou querendo dizer nada fantasioso, mas a simples tentativa de compreender a mente da qual procediam essas palavras maravilhosas e terríveis, porém graciosas.

As palavras de Jesus podem ser tabuladas, mas não suas idéias morais; essas só podem ser apreendidas quando as reconhecemos como o resultado de uma Vontade que nada tem de arbitrário, mas é uma mente em paz com a eternidade. Leia +


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

O amor não conhece outro caminho

Em segundo lugar, o amor distingue-se da justiça pela natureza dos seus motivos. A obediência legal é sempre induzida por estatutos definidos; o amor não. Uma vontade que dependa de um impulso externo como esse não compartilha da natureza do amor. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo. O fato de que outros estabeleçam como nosso alvo a verdadeira comunhão interpessoal não determinará que conduzamos uma vida cheia de amor; esse alvo, permanecendo para sempre em pé por seus próprios méritos, só pode ser compreendido por quem está cheio de amor, e que por livre escolha adota-o para si mesmo.

Além disso, como o amor é o reconhecimento, de dentro, de um alvo eterno, ele é guiado passo a passo por seu próprio caminho autodeterminado. O que por si mesmo julga ser, em suas próprias circunstâncias particulares, o melhor meio de alcançar o alvo eterno, regerá sempre a sua conduta; ele não conhece outro caminho. Caso se submetesse a quaisquer outras leis sua livre confiança seria dominada pelo medo, ou sua energia afundaria em indolência. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo.

Mesmo que, como os heróicos fariseus, um homem sofra o martírio por sua fé, isto é, por obediência à lei, se não tiver em si mesmo algo dessa sinceridade e dessa independência do amor, de acordo com o apóstolo Paulo ele nada será.

A verdade é que, no que diz respeito ao tempo, o amor começa em todos os casos apenas quando uma pessoa experimenta o amor. Daí os esforços incessantes de Jesus no sentido de despertar nas pessoas um senso do amor inesgotável que na realidade experimentam. Uma vez que essa consciência nascente produza sua obra dinamizante, a pessoa possuíra vida em si mesma. Sua atividade não estará mais fundamentada, como se fosse mera transação, no interesse próprio, já que vantagens podem ser obtidas promovendo-se o bem-estar de outros; não será despertada por estímulos à simpatia, surgindo a partir de uma comunhão já estabelecida.

Uma vez que o amor venha à existência, sua operação será inteiramente autodeterminada. Não poderá aceitar leis vindas de fora, mas a partir de sua consciência interior outorgará a lei para si mesmo. Deixará de depender de um objeto digno de amor, como acontecia quando foi inicialmente despertado, mas, como o sol de Deus, distribuirá livremente e abundantemente, em todas as direções, suas riquezas peculiares.

A esse amor pertence a tranqüilidade sublime do poder criativo. Sua natureza e sua força são divinas. Jesus ensina que é assim, e diz ainda que o amor, e apenas o amor, é requerido de todo homem. O fato de que Jesus seja capaz de exigi-lo, por saber que será desperto esse livre a ativo poder do amor naqueles reunidos ao redor de si, em cujas vidas resplandece agora mesmo a luz pela sua manifestação de si mesmo – é isso o que a redenção representa para nós. Leia +


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)
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