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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Aniversário


Os aniversários devem ser celebrados. Julgo que é mais importante celebrar um aniversário do que o sucesso de um exame, uma promoção ou uma vitória. Porque celebrar um aniversário significa dizer a alguém: “obrigado pelo que fez, ou disse, ou conseguiu”. Não, nós dizemos: “obrigado por ter nascido e por estar aqui conosco”.

Nos aniversários celebramos o tempo presente. Não nos queixamos do que aconteceu nem especulamos sobre o que acontecerá, mas encorajamos alguém e damos chance para que todos digam: “Eu te amo”.

Conheço um amigo que, no dia de seu aniversário, é agarrado pelo seus amigos, levado ao banheiro e lançado todo o vestido para a banheiro e lançado todo vestido para a banheira cheia de água. E todos esperam com ansiedade pelo seu dia de anos; inclusive ele próprio. Não faço ideia de onde terá vindo esta tradição, mas ser levantado e “rebatizado” parece uma ótima  maneira de celebrar a própria vida. Assim tomamos consciência de que, embora tendo que ter os pés bem firmes na terra, fomos criados para outros voos, e que, embora nos sujemos facilmente, podemos sempre lavar-nos e dar à nossa vida um novo começo. 

Celebrar um aniversário recorda-nos que a vida é bela e é neste espírito que devemos celebrar o dia de anos das pessoas todos os dias, demonstrado gratidão, compreensão, perdão, gentileza e afeto. Isto equivale a dizer: “É bom você estar vivo; é bom você fazer o mesmo caminho que eu, neste mundo. Alegremo-nos com isso. Este é o dia que o Senhor fez para existirmos e estarmos juntos”. 


NOUWEN, Henri.
Mosaicos do presente: Vida no Espírito. São Paulo: Paulinas, 1998.

A Santa Ineficiência de Henri Nouwen


"Certa vez quando estava jantando com um grupo de escritores, a conversa começou a girar em torno da correspondência que recebemos de leitores. Richard Foster e Eugene Peterson mencionaram um jovem intenso que havia procurado direção espiritual tanto de um como do outro. Contaram que responderam da melhor maneira que sabiam, escrevendo cartas e recomendando livros sobre espiritualidade. Foster acabara de saber que o mesmo jovem na sua busca de respostas fizera contato com Henri Nouwen.
“Vocês não vão acreditar no que Nouwen fez,” ele disse. “Convidou este estranho a viver com ele por um mês a fim de poder aconselhá-lo pessoalmente.”
A maioria dos escritores protege com o máximo de zelo suas agendas e sua privacidade. Nouwen, que morreu de um ataque cardíaco em setembro de 1996, rompeu com tais barreiras de profissionalismo. Sua vida inteira, de fato, demonstrou uma “santa ineficiência”.
Treinado em Holanda como psicólogo e teólogo, Nouwen passou os primeiros anos da carreira correndo atrás de seus alvos, realizando e alcançando sucesso. Lecionou em Notre Dame, Yale, e Harvard, publicou em média mais de um livro por ano, e viajou extensamente como palestrante de conferências. Seu currículo era algo que parecia impossível de atingir — e era exatamente este o seu problema. Sua agenda apertada e a concorrência implacável estavam sufocando sua própria vida espiritual.
Nouwen foi para a América do Sul por seis meses, para investigar um novo papel como missionário ao terceiro mundo. Uma intensa agenda de palestras que o esperava quando voltou para os Estados Unidos só piorou as coisas. Finalmente, Nouwen caiu nos braços da comunidade L’Arche (da Arca) na França, que era um lar para pessoas com sérias incapacidades físicas. Lá se sentiu tão nutrido e apoiado que concordou em mudar para o lar da mesma comunidade em Toronto, no Canadá, chamado Daybreak (ou Amanhecer). Foi ali que Nouwen passou os últimos dez anos da sua vida, ainda escrevendo e viajando, mas sempre voltando ao seu abrigo.
Visitei Nouwen uma vez, e almocei com ele no seu pequeno quartinho. Só tinha uma cama, uma estante de livros, e algumas peças de mobília estilo Shaker (que originou na Inglaterra com um grupo cristão do século 18, e que se caracteriza pela simplicidade, praticidade, e ausência de ornamentação). As paredes não eram decoradas, com exceção de uma cópia de uma pintura de Van Gogh, e alguns símbolos religiosos. Um atendente da comunidade nos serviu com uma travessa de salada e pão. Não havia nenhum aparelho de fax, nenhum computador, nenhuma agenda na parede — neste quarto, pelo menos, Nouwen havia encontrado serenidade. A “indústria” da igreja parecia estar muito distante.
Depois do almoço, celebramos uma eucaristia especial para Adão, o jovem deficiente de quem Nouwen cuidava. Com solenidade, mas também com um brilho no seu olho, Nouwen dirigiu a liturgia em honra do vigésimo sexto aniversário de Adão. Incapaz de conversar, andar, ou vestir-se, profundamente retardado, Adão não dava nenhum sinal de compreensão. Parecia reconhecer, pelo menos, que sua família estava presente. Babou durante toda a cerimônia e grunhiu bem alto algumas vezes.
Mais tarde, Nouwen contou que levava quase duas horas para preparar Adão todos os dias. Dando banho nele, fazendo sua barba, escovando seus dentes, penteando seu cabelo, guiando sua mão para tomar o café da manhã— estes simples atos repetitivos se transformaram praticamente na sua hora de meditação.
Devo admitir que tive uma dúvida passageira se esta era a melhor maneira deste ministro atarefado usar seu tempo. Uma outra pessoa não poderia assumir estas tarefas manuais? Quando abri o assunto cautelosamente com o próprio Nouwen, ele me informou que eu estava entendendo tudo errado.
“Não estou sacrificando coisa alguma,” ele insistiu. “Sou eu, e não Adão, que está tirando o maior benefício da nossa amizade.”
Durante todo o restante do dia, Nouwen continuou a voltar para minha pergunta, mostrando várias maneiras em que havia se beneficiado do seu relacionamento com Adão. No princípio fora difícil, ele admitiu. O toque físico, o afeto, e a sujeira de cuidar de uma pessoa sem coordenação, não vieram facilmente. Mas aprendera a amar Adão, a realmente amá-lo. No processo, aprendeu como deve ser para Deus amar a nós — pessoas sem coordenação espiritual, retardadas, capazes de responder apenas com o que deve parecer a Deus como grunhidos e gemidos indistintos. De fato, trabalhar com Adão lhe ensinaram a humildade e o esvaziar-se que geralmente são alcançados somente por monges solitários depois de muita disciplina.
Nouwen disse que durante toda sua vida duas vozes competiam dentro de si. Uma o  encorajava a alcançar sucesso e realizações, enquanto a outra o chamava a simplesmente descansar no conforto de ser o “amado” de Deus. Somente na última década da sua vida foi que realmente ouviu àquela segunda voz.
No fim, Nouwen concluiu que “o alvo de educação e formação para o ministério é continuamente reconhecer a voz do Senhor, sua face, e seu toque em cada pessoa que encontramos”. Ao ler esta descrição no seu livro Gracias!, entendi por que ele não considerou perda de tempo convidar um estranho para morar consigo por um mês, ou dedicar duas horas por dia para cuidar manualmente de Adão.
Vou sentir falta de Henri Nouwen. Para alguns, seu legado consiste nos seus numerosos livros, para outros era seu papel como ponte entre católicos e protestantes, e para outros sua carreira distinta como professor nas universidades famosas do Ivy League (como Harvard, Princeton e Yale). Para mim, porém, uma única imagem capta melhor a sua pessoa: a do sacerdote enérgico, cabelos desarrumados, usando suas mãos inquietas para criar e modelar uma homília como se estivesse tirando do nada, celebrando uma eucaristia eloqüente para o aniversário de um homem infantil, incapaz de reagir, e tão deficiente que a maioria dos pais o teria abortado, se tivesse chance. Um símbolo melhor da Encarnação, seria difícil imaginar."

Philip Yancey - Revista Impacto, 29 de Novembro de 2011.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Uma mudança de coração

‎"A resposta de Jesus para nossas vidas cheias de preocupação é bem diferente. Ele pede de nós que substituamos nosso ponto de gravidade, relocalizemos o centro de nossa atenção, que mudemos as nossas prioridades. Jesus quer que deixemos as "muitas coisas" para a "única coisa necessária". É importante que compreendamos que Jesus não quer de forma alguma que deixemos nosso mundo de muitas facetas. Antes, quer que vivamos nele, mas firmemente arraigados no centro de todas as coisas. Jesus não fala sobre uma mudança de atividades, uma mudança de contatos, ou até uma mudança de ritmo. Ele fala sobre uma mudança de coração". 




Henri Nouwen

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Qual a minha vocação?

Não é fácil distinguir entre fazer aquilo para o qual fomos chamados e fazer aquilo que desejamos. Nossos muitos desejos podem facilmente desviar-nos do curso da nossa ação verdadeiramente necessária. A verdadeira ação leva-nos ao cumprimento de nossa vocação. Trabalhando em um escritório, viajando pelo mundo, escrevendo livros ou fazendo filmes, cuidando dos pobres, liderando pessoas ou cumprindo tarefas comuns, a pergunta não deve ser: "Qual é o meu maior desejo"?, mas sim: "Qual é a minha vocação?".

A posição de maior prestígio na sociedade pode ser uma expressão de obediência ao nosso chamado, ou de sua negação, uma recusa ao verdadeiro dever. E a posição de menor prestígio pode ser a resposta ao nosso chamado, ou uma forma de evitá-lo...

Quando estamos submetidos à vontade de Deus e não à nossa própria vontade, descobrimos que grande parte do que fazemos não precisa ser feito por nós. O que fomos chamados a fazer nos traz alegria e paz...

Ações que levam ao excesso de trabalho - à exaustão e à destruição - não podem louvar e glorificar a Deus. Aquilo para o que Deus nos chama, não só pode ser feito, como tratá satisfação. Ouvindo em silêncio a voz de Deus, e falando com nossos amigos, podemos saber, com confiança, o que fomos chamados a fazer; e o faremos com um coração agradecido.


"Meditações com Henri J.M Nouwen", Editorial Habacuc (2003, Rio de Janeiro).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A pobreza dos ricos

O Murray é banqueiro em Nova Iorque e conhece pessoalmente inúmeras pessoas de quem eu só ouvi falar na televisão ou nos jornais. Leu muitos dos meus livros e acha que o seu mundo precisa tanto da Palavra de Deus como o meu. Foi uma experiência de grande humildade ouvir um homem que conhece «este mundo e o outro» dizer:

- Dê-nos uma palavra de Deus, fale-nos de Jesus... não se afaste dos ricos que são tão pobres.

Jesus ama os pobres - mas a pobreza reveste-se de muitas formas. Esqueço-me desse facto com imensa facilidade, deixando os poderosos, os famosos e os bem sucedidos na vida, sem o alimento espiritual de que carecem. Mas, para oferecer esse alimento, tenho que ser eu próprio muito pobre - não curioso, não ambicioso, não pretencioso, não orgulhoso. É tão difícil deixarmo-nos deslumbrar pelo brilho mundano, seduzidos pelo seu aparente esplendor. E, contudo, o único lugar onde devo estar é o da pobreza, o ponto onde há solidão, raiva, confusão, depressão e sofrimento. Preciso de lá ir em nome de Jesus, mantendo-me junto do seu nome e oferecendo o seu amor.

Ó Senhor, ajuda-me a não me deixar dispersar pelo poder e pela riqueza;
ajuda-me a não me deixar impressionar com as estrelas e heróis deste mundo.
Abre os meus olhos aos corações sofredores do teu povo,
sejam quem forem,
e põe na minha boca a Palavra curativa e consoladora.
Amém.


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

O dom da unidade

A unidade entre as pessoas não é consequência do esforço humano mas sim um dom divino.

A unidade entre as pessoas é um reflexo da unidade de Deus.

Quando Jesus reza pela unidade (João 17, 21), Ele pede ao Pai que aqueles que crêem nele, que está em perfeita comunhão com o Pai, façam parte dessa unidade. Continuo a ver em mim próprio e nos outros como nos esforçamos por ser unidos, focando toda a nossa atenção uns nos outros e tentando descobrir o ponto onde nos possamos sentir unidos. Mas ficamos muitas vezes desiludidos, quando vemos que nenhum ser humano é capaz de nos oferecer o que mais desejamos. Esta desilusão pode tornar-nos facilmente amargos, cínicos, exigentes e até mesmo violentos.

Jesus chama-nos a procurar a nossa unidade com e através dele. Quando dirigimos primeiramente a nossa atenção interior não para os outros mas para Deus, a quem pertencemos, então sim, descobriremos que em Deus também pertencemos uns aos outros.
A amizade mais profunda é a que tem Deus como mediador; os mais fortes laços matrimoniais são os mediados por Deus.


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dar da sua pobreza

Jesus, levantando os olhos, viu os ricos deitarem as suas ofertas no cofre; viu também uma pobre viúva lançar ali dois leptos; e disse: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos; porque todos aqueles deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha para o seu sustento. (Lucas 21:1-4)

Dar, não da minha riqueza mas da minha pobreza, como a viúva de Jerusalém que deu a sua última moeda, esse é o grande desafio do Evangelho. Quando avalio criticamente a minha vida descubro que a minha generosidade surge sempre num contexto de abastança. Dou algum do meu dinheiro, algum do meu tempo, parte da minha energia e alguns dos meus pensamentos sobre Deus aos outros, mas guardo sempre para mim dinheiro, tempo, energia e pensamentos suficientes para a minha própria segurança. Assim nunca dou verdadeiramente a Deus a possibilidade de me demonstrar o Seu Amor sem limites.


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

Segue o teu chamamento mais profundo

Quando descobrires dentro de ti alguma coisa que é um dom de Deus deves apoderar-te dela e não deixar que te seja retirada. Por vezes as pessoas que não conhecem o teu coração nem se aperceberão da importância de algo que faz parte do teu ser mais profundo, precioso tanto aos teus olhos como aos de Deus. Talvez não te conheçam suficientemente bem para corresponder às tuas carências genuínas. É nesta altura que deves escutar o teu coração e seguir o teu chamamento mais profundo.

Uma parte de ti cede facilmente às exigências alheias. Assim que alguém questiona os teus motivos começas a duvidar de ti próprio. Acabas por concordar com o outro antes de teres consultado o teu próprio coração. Assim vais-te tornando cada vez mais passivo e assumes simplesmente que os outros é que sabem. Neste caso deves escutar com atenção o teu ser mais profundo. «Centrar-te» e «regressares a ti próprio» são expressões que indicam possuíres uma base interior sólida, a partir da qual podes falar e agir - sem desculpas - de forma humilde mas convincente.


Henri Nouwem em "A voz íntima do amor"

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Feridas e cura

Ninguém escapa de ser ferido. Somos todos pessoas feridas, física, emocional, mental ou espiritualmente. A questão principal não é "como podemos esconder nossas feridas", assim não temos de nos sentir envergonhados, mas "como podemos colocá-las a serviço de outros".

Quando nossas feridas deixam de ser uma fonte de vergonha e passam a uma fonte de cura, tornamo-nos pessoas feridas que curam.

Jesus é o enviado de Deus que, mesmo ferido, cura. Por meio de suas feridas somos curados. O sofrimento e a morte de Jesus trouxeram alegria e vida. Sua humilhação trouxe glória; sua rejeição, uma comunidade de amor.

Como seguidores de Jesus, também podemos permitir que nossa feridas tragam a cura aos outros.


Henri Nouwen, em "Pão para o caminho"

Mistério, Amor e Deus

O mistério do amor de Deus consiste em que os nossos corações ardentes e os nossos ouvidos e olhos receptivos possam descobrir que Aquele que encontrámos na intimidade do nosso ser continue a revelar-se a nós entre os pobres, os doentes, os famintos, os prisioneiros, os refugiados e todas as pessoas que vivem no medo.

Assim percebemos finalmente que a nossa missão não consiste apenas em ir falar do Senhor ressuscitado aos outros, mas também em receber esse testemunho daqueles a quem somos enviados.

Muitas vezes, a missão é vista exclusivamente em termos de dar, mas a verdadeira missão também é receber. Se é verdade que o Espírito de Jesus sopra onde quer, não há ninguém que não possa transmitir esse mesmo Espírito. A longo prazo, a missão só é possível na medida em que for tanto receber como dar, tanto ser amado como amar. Nós somos enviados aos doentes, aos moribundos, aos deficientes, aos prisioneiros e aos refugiados para lhes levar a boa nova da ressurreição do Senhor. Em breve, porém, ficaremos queimados, se não conseguirmos receber o Espírito do Senhor daqueles a quem somos enviados.

Esse Espírito, o Espírito de amor, está escondido na sua pobreza, fragilidade e dor. Foi por isso que Jesus disse: «Bem aventurados os pobres, os perseguidos, os que choram.» De cada vez que lhes estendermos a mão, eles, por sua vez – quer tenham consciência disso quer não – abençoar-nos-ão com o Espírito de Jesus, tornando-se assim nossos ministros.

Sem esta troca mútua de dar e receber, missão e ministério tornam-se facilmente manipuladores ou violentos. Quando só um é que dá e o outro recebe, quem dá, em breve, torna-se opressor e quem recebe torna-se vítima. No entanto, quando o que dá recebe e o que recebe dá, o círculo de amor, iniciado na comunidade dos discípulos, pode crescer até abarcar o mundo.


Henri Nouwen, em “Não nos ardia o coração?”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A dificuldade de perdoar

"Tenho dificuldade em perdoar quem me ofendeu verdadeiramente, principalmente quando acontece mais que uma vez. Começo a duvidar daquele que pede perdão pela segunda, terceira ou quarta vez. Mas Deus não faz contas. Deus aguarda simplesmente o nosso regresso, sem ressentimento ou desejo de vingança. Deus quer que regressemos a casa. 'O Amor do Senhor é para sempre.'

Talvez o motivo porque eu tenho tanta dificuldade em perdoar aos outros seja o de não acreditar ser inteiramente perdoado. Se eu fosse capaz de aceitar como verdade que sou perdoado e não tivesse que viver com culpa e vergonha, seria verdadeiramente livre. A minha liberdade permitir-me-ia perdoar aos outros setenta vezes sete.

Não perdoando, eu próprio me acorrento ao desejo de vingança, perdendo assim a liberdade. Quem é perdoado perdoa. É isto que proclamamos quando rezamos 'perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.'

Esta luta duma vida inteira é o centro da vida cristã."


Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak"

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Entre nós mesmos

A pessoa que entra num quarto silencioso não experimenta o silêncio interior. Quando não há ninguém com quem conversar, ninguém para ouvir, começa uma discussão interna que parece quase fora de controle. Os vários problemas sem solução exigem atenção, uma ansiedade se impõe sobre outra, uma queixa rivaliza com outra, tudo exige ser ouvido. Às vezes uma pessoa se sente impotente em face de sentimentos torcidos que ela não consegue desenredar. Isso nos faz perguntar se a distração que buscamos em muitas coisas fora de nós não é talvez uma tentativa d evitar o confronto com o que está dentro de nós.


Henri Nouwen

segunda-feira, 30 de março de 2009

Falando do Sol

A alegria e contagiante; exatamente como o é a tristeza. Eu tenho um amigo que irradia alegria, não porque sua vida seja fácil, mas porque habitualmente ele reconhece a presença de Deus no meio de todos os sofrimentos humanos, o seu e dos outros. Onde quer que vá, seja quem for que encontre, ele é sempre capaz de ver e ouvir algo de belo, algo de que dar graças. Ele não nega a grande tristeza que o envolve, nem é cego ou surdo aos sinais e sons de agonia dos seus companheiros de existência, mas o seu espírito gravita em direção à luz no meio da escuridão e das preces, em meios dos gritos de desespero. O seu olhar é gentil, a sua voz é calma. Não se trata de sentimentalismo. È uma pessoa realista, mas a sua fé profunda permiti-lhe descobrir que a esperança é mais real que o desespero, a fé mais real que a descrença e o amor mais real que o medo. É este realismo espiritual que faz dele um homem tão alegre.

Sempre que me encontro com ele, não resisto à tentação de lhe chamar a atenção para as guerras entre as nações, para a fome de milhares de crianças, para a corrupção na política e a falsidade entre as pessoas procurando impressiona-lo com os últimos fracassos do gênero humano. Mas, sempre que experimento fazer uma coisa destas, ele olha para mim com o seu olhar gentil e cheio de compaixão e diz: “Eu vi duas crianças partilharem o seu pão uma com a outra e ouvi uma mulher dizer ‘obrigada’ e sorrir quando alguém lhe ofereceu um cobertor. Essas pessoas simples e pobres deram-me nova coragem para continuar a viver”.

A alegria do meu amigo e contagiante. Quanto mais estou com ele tanto mais consigo captar raios de Sol a brilhar por entre as nuvens. Sim, eu sei que o Sol existe, mesmo quando os céus estão cobertos com nuvens. Enquanto meu amigo fala sempre do Sol, eu continuava a falar das nuvens; até que um dia cheguei a conclusão que era por causa do Sol que conseguia ver as nuvens.

Os que continuam a falar do Sol enquanto caminham sob o céu cheio de nuvens são mensageiros de esperança, os verdadeiros santos dos dias de hoje.


Henri Nouwen
Trecho do Livro "Mosaicos do Presente" da Editora Paulinas

sábado, 28 de março de 2009

Abraçando a Dor

No mundo a nossa volta, faz-se uma distinção radical entre alegria e tristeza. As pessoas têm a tendência a dizer: "Quando estamos alegres, não podemos estar tristes e, quando estamos tristes, não podemos estar alegres". De fato, a sociedade contemporânea faz todo o possível para separar a tristeza da alegria. Por isso, a tristeza e a dor devem ser evitadas a todo custo, porque são o oposto da alegria e do contentamento que desejamos.

A morte, a doença, as franquezas humanas, tudo deve ser escondido do nosso olhar, porque são coisas que nos afastam da alegria por que anelamos. São obstáculos no caminho de nossa meta de vida.

A perspectiva oferecida por Jesus está em contraste evidente com está visão mundana. Jesus demonstra, tanto nos seus ensinamentos quanto na sua vida, que a verdadeira alegria é freqüentemente encoberta pela nossa tristeza e que a dança da vida tem o seu início quando nos tocam as desgraças. Diz ele: "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morrer, produz muito fruto. Quem tem apego à sua vida, vai perdê-la, quem despreza sua vida nesse mundo, vai conservá-la para a vida eterna" (João 12.24). A dois de seus discípulos desiludidos depois da sua paixão e morte, Jesus diz: "Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo em que os profetas falaram! Será que o Messias não devia sofrer tudo isso, para entrar na sua glória?" (Lucas 24.25 e 26).

É-nos revelada aqui uma maneira completamente nova de se viver. É uma maneira segundo a qual a dor pode ser abraçada, não pelo desejo de sofrer, mas por saber que algo de novo nascerá da dor. Jesus chamas às nossas dores "dores de parto". Diz assim: "Quando à mulher está para dar a luz, sente angústia, porque chegou a sua hora. Mas quando a criança nasce, ele nem se lembra mais da aflição, porque fica alegre por ter posto um homem no mundo" (João 16.21).

A cruz tornou-se o mais poderoso símbolo desta nova visão. A cruz é um símbolo de morte e vida, de sofrimento e de alegria, de derrota e de vitória. É a cruz que nos indica o caminho.


Henri Nouwen
Trecho do Livro "Mosaicos do Presente" da Editora Paulinas

segunda-feira, 23 de março de 2009

Aprofundando nossa conversa com Deus

Na revista Cristianismo Hoje já há algum tempo atraz foi publicada uma entrevista com Richard Foster e Henri Nouwen, aconselho a quem puder ver a entrevista na integra no site da revista clicando aqui. Abaixo segue um pequeno trecho da entrevista:


"Em 21 de setembro de 1996, Henri Nouwen faleceu de um ataque cardíaco em Hilversum, Holanda. Nouwen foi um padre católico e psicólogo, melhor conhecido entre os pastores protestantes pelo livro O ferido que cura. Um dos temas de Nouwen era viver nosso quebrantamento debaixo da bênção de Deus. Em uma entrevista, Nouwen disse: “Muitas pessoas não acreditam que são amadas, protegidas e então, quando sofrem, encaram isto como uma afirmação do seu pouco valor. A questão do ministério e da vida espiritual é aprender a viver nosso quebrantamento debaixo da bênção de Deus e não de maldição”.

Em 1982, a revista Leadership publicou uma entrevista com Nouwen e Richard Foster sobre o que os líderes das igrejas precisavam fazer para conhecer a Deus. Fundador do movimento Renovare, Foster escreveu, entre outros livros, Oração e Celebração da disciplina. Após saber da morte de Nouwen, relemos a entrevista e ficamos tocados com sua sabedoria atemporal e atual acerca da vida espiritual. Oferecemos esta matéria novamente em memória do ferido que cura.

O que fez com que você acreditasse tão intensamente que precisava encontrar a Deus?

Foster: Desespero. Não tanto por mim no começo, mas pelas pessoas que eu enxergava que precisavam de ajuda. Depois comecei a sentir o quanto eu também precisava de Deus. Apesar do anseio profundo de passar tempo em solitude, muitos de nós nos sentimos encurralados pela demanda do ministério.

Nouwen: Sou como muitos pastores: comprometo-me com projetos e planos e depois penso sobre como conseguirei fazer tudo. Esta é a verdade do pastor, do professor, do administrador. É inerente à nossa cultura que nos diz: “Faça o máximo que você puder ou você nunca conseguirá se destacar”. Neste sentido, os pastores fazem parte do mundo. Descobri que não é possível lutar contra os demônios do nosso ativismo de forma direta. Não posso dizer sempre “não”, a não ser que existam coisas dez vezes mais atrativas para escolher. Dizer não para minha luxúria, minhas necessidades e os poderes do mundo, requer uma enorme quantidade de energia.

A única esperança que temos é encontrar algo tão obviamente real e atrativo ao qual eu possa dedicar todas as minhas energias e dizer sim. Desta forma não tenho tempo para dar atenção às minhas distrações. Uma das coisas para as quais eu posso dizer “sim” é quando entro em contato com o fato de que sou amado. Uma vez que percebo que mesmo estando totalmente quebrantado, ainda assim sou amado, torno-me livre da compulsão de fazer coisas para obter sucesso.

Foster: Após terminar meu doutorado, fui a uma pequena igreja na Califórnia. Uma igreja “marginal”, que seria considerada um fracasso para os índices de pontuação de resultados eclesiásticos. Trabalhei, planejei e organizei determinado a mudar o rumo daquela igreja. Mas as coisas pioraram. A raiva parecia permear em todas as pessoas: os conservadores estavam irritados com os liberais, os liberais bravos com os radicais e os radicais irritados com todos os outros. Eu odiava ir às conferências de pastores porque eu não tinha nenhuma história de sucesso. Eu trabalhava com toda a força, mas não era bom o suficiente. Então passei três dias com o meu orientador espiritual. Ao final daquele tempo ele disse: “Dick, você precisa decidir se vai ser um pastor desta igreja ou um pastor de Cristo”. Aquele foi o ponto crucial. Até lá eu havia permitido que as expectativas das pessoas manipulassem a mim e minhas próprias expectativas."


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva
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