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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O que há de errado com os evangélicos na política brasileira?

Antônio Flávio Pierucci, em um de seus últimos artigos, registrava a seguinte passagem: "Não lembro, e certamente ninguém há de lembrar, de uma campanha eleitoral em que a intromissão da religião tenha sido tão grande e ido tão longe como na eleição presidencial de 2010 para a sucessão de Lula. Ingerência tão intensa e tão extraordinariamente inflamada, pra quê? Para tentar deter no voto popular a escalada ao poder central da nação de uma mulher sem Deus, que por falta de religião e visão minimamente decente da criatura humana iria querer, se eleita presidente, legalizar o aborto e criminalizar a homofobia".

Para mim, cientista social, cristão protestante, esta frase gerou um tremendo impacto. Traduziu de modo claro e evidente toda a polêmica que me angustiava dia após dia, ao ver as quarteladas de emails que alcançavam minha caixa de entrada, os vídeos que os ardorosos moralistas publicavam em suas páginas pessoais e nas comunidades da internet, e todo medo vigoroso que se instalava nos templos, nos púlpitos, demandando suas correntes de oração no seio de uma batalha contra a "institucionalização da iniquidade" em nosso país. Em nome dos valores sagrados de Nosso Senhor, empenhava-se uma luta franca e aberta contra o perigo petista da "lei da mordaça" e da legalização do aborto.

As evidências são perceptíveis para todos, e especialmente os pastores, bispos e apóstolos não deixaram de notar: os cristãos evangélicos podem definir um eleição. Eles podem levar um pleito para o segundo turno. Com cerca de 21,6% do eleitorado brasileiro (ESEB 2010), nenhum "grande" candidato ousaria se distanciar desta fatia eleitoral. Nenhum partido com chances reais de vitória abriria mão de tentar um diálogo, mínimo que seja, com alguma liderança denominacional evangélica.

Mas ledo engano achar que os evangélicos são os simples alvo dos políticos de plantão. Pelo contrário, as igrejas desejam profundamente serem procuradas. E não apenas isto. As igrejas, por via de seus grandes líderes "iluminados", atuam na cena política de modo bastante interessado e articulado. Não é por caridade, nem por altruísmo: os evangélicos querem espaço na política brasileira. Querem o direito de barganhar com o Estado. E querem refletir seu moralismo nas leis e na constituição que rege o Brasil. Como já escrevi em um outro texto, os evangélicos pensam o Estado através de uma "mentalidade bipolar": "Ao mesmo tempo que o apostolado da moderna cristandade eletrônica rechaça qualquer interferência do Estado nos espaços eclesiásticos, age no sentido de estabelecer suas convicções religiosas, sem as depurações necessárias e proveninentes do debate público, como instrumentos de orientação e prática do Estado".

A história dos evangélicos na política brasileira das últimas duas décadas é marcada pelos valores fundamentalistas, pelo voto de cabresto em grandes denominações pentecostais e neopentecostais, pela ausência de debates programáticos que norteiem o voto do eleitorado evangélico (refletindo habitualmente na orientação do voto de acordo com a determinação da autoridade religiosa), por vários escândalos de corrupção de parlamentares evangélicos, e pelo crescimento eleitoral vertiginoso desta parcela religiosa tornada alvo das campanhas políticas. A despeito de notáveis exceções, que obviamente não capitularam a este tipo de prática, há uma mancha sobre os evangélicos cuja dificuldade de ser limpada é grande, muito grande.

Diante deste diagnóstico, o que há por fazer para reverter tal quadro? Esta é talvez uma das perguntas mais angustiantes, pois frente às dimensões assumidas por todas estas práticas no interior da parcela evangélica é muito difícil observar um caminho de transformação. Assim como, na verdade, é um horizonte estranho e assustador para os mais ardorosos revolucionários também. Se a bárbarie parece instalada nas mais finas camadas de sustentação do status quo da sociedade de classes, deixando os socialistas atordoados com o fascismo nosso de cada dia, de que modo reverter o modus operandi do "pensamento evangélico" para a política?

Na oportunidade em que falei aos meu colegas do CEU, pontuei duas críticas que deveriam ser levadas em consideração para uma reorientação da prática política dos evangélicos, e que eu entendo que seriam mais adequadas às perspectivas cristãs.

A primeira crítica vem no sentido de defender a autonomia dos cristãos evangélicos para defender suas escolhas eleitorais. Todo debate no interior da igreja deve ser bem-vindo, o que caminha justamente no contrário das atuais práticas políticas de orientação de voto feita por pastores, bispos e apóstolos em diversas denominações evangélicas do nosso país. O "voto de cajado", termo criado pelo FALE-RJ para designar o típico voto de cabresto no interior das igrejas, difundiu-se como praga, e seu funcionamento se tornou ainda mais complexo e estruturado na medida em que denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) passaram a aplicá-la, influenciando a reorganização de práticas políticas em todo campo religioso e político brasileiro. Registro aqui a citação de Flávio Conrado, da revista Novos Diálogos: "O voto de cajado apequena o legado ético do cristianismo, leiloa consciências individuais e perde uma grande oportunidade de educação política para uma projeto democrático-republicano de nação".

Com a segunda crítica, desejo apontar um novo norte de atuação política, que não vise a defesa do moralismo barato, mas a defesa dos oprimidos. No lamentável vídeo em que o pastor Paschoal Piragine Jr. registrou sua pregação contra o PT nas eleições de 2010, a voz feminina que ali narrava o perigo da institucionalização da iniquidade também indagava: "Cadê a igreja? Ela se fechou em seus problemas internos. Adormeceu, ficou passiva. Precisamos clamar pelo nosso país. Igreja brasileira, reaja!". Se eu concordasse com esta frase, simplesmente estaria imerso em contradição. A igreja não é apenas visível, como também age espalhafatosamente em defesa de seus próprios interesses. A igreja brasileira não precisa "reagir" pelo simples fato de que a igreja já está em ação! E para nossa vergonha, com as intenções mais equivocadas. O que esperamos da igreja não é uma reação, mas uma completa reorientação de sua própria prática política. E aqui defendo claramente: a igreja deve se comprometer com a defesa dos oprimidos. Deve questionar a desigualdade social. Deve repudiar a exploração de classe. Deve rejeitar toda violência por motivo de raça, gênero, orientação sexual ou religião. Deve afirmar a defesa dos direitos humanos. Reivindicar a garantia de direitos sociais à toda população, em especial aos mais necessitados. E rejeitar qualquer barganha de interesses religiosos ao Estado, em respeito ao caráter laico do mesmo.

A defesa dos valores cristãos passa necessariamente pelo questionamento da opressão e pelo respeito à diferença e à democracia. Nosso norte deve assumir a forma da luta contra todo terror imposto pelo homens (Sl. 10: 17-18), até que a justiça corra como um rio perene (Am. 5:24).


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Sydnei Melo


domingo, 12 de agosto de 2012

Uai! Existe gripe espiritual? *


Tenho que admitir uma coisa pra vocês: gosto de falar de coisas difíceis. Adoro discutir sobre temas complexos e tenho certo prazer quando vejo o desencadear lógico e formal dos argumentos.

Mas... sempre que leio os evangelhos fico um pouco em crise. Pois nele vejo Deus manifestado em carne - Jesus - fazendo justamente o contrário. Ao invés de partir das coisas complexas para chegar às simples, ele tem uma tendência interessante em falar de coisas super complexas e profundas com uma linguagem simples e acessível, utilizando-se de exemplos do cotidiano, da natureza, da vida.

Pois bem, acordei hoje com uma baita gripe. Minha cabeça dói, está difícil respirar e o ânimo para fazer qualquer coisa está lá em baixo. Todos os meus sentidos estão prejudicados; sinto como se estivesse meio lerdo pra fazer qualquer coisa.

Foi justamente neste contexto, que percebi que havia um tema que estava incomodando meu coração. E entendi que Deus estava me incentivando a compartilhar: será que não estamos “gripados espiritualmente”? O que seria, afinal de contas, “gripe espiritual”? Será que é quando nós não estamos animados a ir ao louvorzão ou estamos com preguiça de acordar para a Escola Dominical? Acredito que pode até ser; mas, hoje, gostaria de abordar outra dimensão da nossa “gripe espiritual”.

Para tal, vamos ler o texto de Tiago 1.27 que nos ajuda a pensarmos sobre este tema: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

Lendo este texto bíblico fico a pensar em quantos momentos vejo a injustiça e o sofrimento ao meu redor e nada faço para, pelo menos, tentar transformar ou amenizar aquela situação. Muitas vezes, estou tão confortável no culto de que participo, tão agradado pelas belas músicas e pregações interessantes que ouço, que nem me preocupado em ver quem está jogado nas ruas no meu caminho para a igreja. Às vezes, estou tão ocupado com minhas próprias preocupações e demandas que mal dá pra olhar quem está ao meu redor. Meus sentidos ficam prejudicados pela “gripe espiritual”.

Então lhe pergunto: será que você também não está sofrendo de alguma espécie de “gripe espiritual”?

Alguns sintomas podem te ajudar a percebê-la e vou abordar apenas um deles. Você ainda consegue perceber que as questões que envolvem a resolução e superação de injustiças fazem parte integrante do DNA de nossa fé? Logicamente, existem muitas outras coisas que poderiam ser citadas como reflexos de nosso estado de letargia. Mas gostaria de enfatizar esse tema porque observo que esta é uma das primeiras, se não a primeira mesmo, áreas que nós esquecemos na vivência de nossa fé cristã.

Precisamos restaurar em nossos “sentidos espirituais” a imagem de um Deus de amor, compaixão e justiça, que se importa com os detalhes da vida de toda a sua criação e não apenas com parte dela, que se reúne semanalmente nos templos.

Por fim, lembro-me de outro texto bíblico que me ajuda a pensar neste tema: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.1,2).

Que Deus nos ajude a vivermos uma vida na qual sejamos livres da “gripe espiritual”, para que possamos entender qual seja a vontade de Deus, buscando ajudar nosso próximo e vivendo de forma que o evangelho de Cristo Jesus seja personificado por meio de nossas ações, que são fruto da nossa fé em movimento.

Adoremos e busquemos a Deus por meio dos mais diversos momentos que a vida na igreja nos possibilita ter, vivamos de forma que a nossa fé leve outras pessoas a conhecerem a mensagem transformadora que há na cruz de Cristo, mensagem de salvação e libertação. Mas... nunca nos deixemos dominar pela “gripe espiritual” que não nos deixa mais perceber as situações e pessoas que estão ao nosso redor, clamando por ajuda e justiça.

Que Deus esteja conosco sempre! Amém.

Sou Lucas Andrade Ribeiro, natural de Ipatinga/MG. Formado em Filosofia pela Unicamp e atualmente estudo Teologia na Fateo/Metodista.

* Texto publicado originalmente em http://www.juvemetodista.com.br 

domingo, 21 de agosto de 2011

A fé atéia

Nesta semana tive acesso a um diálogo a respeito de Deus, fé, ciência, ceticismo, entre outros elementos que compõem a complexa discussão que tem sido travada, principalmente no mundo anglo-saxão, entre ateus e religosos. Refiro-me a um vídeo que nos mostra um debate entre o biólogo Richard Dawkins e o teólogo protestante Alister McGrath.

Dawkins é reconhecido em sua área de formação por conta de seus trabalhos sobre evolucionismo e genética, mas tem ganhado notoriedade tambem por suas reflexões que culminaram na escrita do polêmico Deus, um delírio (2006), uma entre tantas obras que compõem a recente onda de trabalhos desenvolvidos em defesa do ateísmo por intelectuais como Sam Harris e Christopher Hitchens; McGrath é um eminente teórico anglicano, com trabalhos a respeito da relação entre as ciências naturais e a fé cristã, e um dos teólogos mais lidos do mundo atual. Entre suas obras, há dois títulos voltados diretamente ao debate promovido pelo biólogo: O delírio de Dawkins (2007) e O Deus de Dawkins: genes, memes e o significado da vida (2008).

O diálogo promovido no vídeo não se trata, aparentemente, de uma tentativa de estabelecer diálogos e conexões entre a fé e os postulados científicos, mas sim de esclarecer e confrontar posicionamentos a respeito de categorias polêmicas. Trata-se de uma entrevista, produzida por iniciativa do próprio Dawkins, prontamente aceita por McGrath. Mais do que perguntas, McGrath está ali para oferecer respostas, imediatamente confrontadas por Dawkins. E neste diálogo pude perceber que, diferente do que Dawkins alega ter ouvido de outros religiosos com posições mais acirradas e fundamentalistas, McGrath articula de maneira muito interessante e sensata as aparentes divergências a respeito da forma e do desenvolvimento da natureza. Mas tambem, e acredito que seja o grande ganho deste debate, demonstra que a grande chave da cosmovisão cristã não é a forma do mundo natural, ou o significado de todos os episódios históricos, mas sim a ótica que o cristianismo concede para se olhar o mundo e, através desta ótica, agir na história, tendo como eixo a figura de Cristo: morto, crucificado e ressurreto, em uma demonstração de sacrifício realizada em favor e por amor aos homens. Talvez seja esta a figura que mais confunda os profundos críticos da religião, uma vez que parece inconcebível a imagem de um Deus que se encarna em um Filho, e é entregue por homens aos calvário por amor à própria humanidade. E é claríssimo como Dawkins demonstra, durante esta entrevista, que tal idéia seja profundamente absurda, mas através de argumentos tão esvaziados quanto as alegações dos mais agressivos religiosos fundamentalistas.

Mas gostaria de apontar um momento em específico desta entrevista que me deixou um tanto consternado.

Se valendo do exemplo dos homens-bombas, Dawkins alega uma profunda preocupação com o fato de que, diferente de sua perspectiva de conflito no qual espera que seja possível sentar-se e conversar de maneira democrática, um extremista jamais se colocaria em um diálogo aberto, mas explodiria a ele e a seu interlocutor. Por admitir que a fé é capaz de causar esta coragem para que alguém dê cabo de sua própria vida e destrua outras, o biólogo questiona McGrath se é realmente correto educar crianças em uma perspectiva religiosa. O teólogo anglicano aponta que a chave para entender esta questão não seria a fé por si mesma, uma vez que ela tanto pode ser benéfica como tambem bastante perigosa; mas que se deveria partir de idéia de natureza humana para compreender as raízes de uma violência que instrumentaliza tanto a religião quanto o ateísmo - e uma análise da história do ateísmo no século XX demonstraria isto. Dawkins afirma que McGrath provavelmente se refere à Stalin, e o teólogo complementa esta referência ao afirmar que, para Stálin, que se pautava pela ideologia marxista de cunho profundamente anti-religioso, a religião representava uma ameaça ao poder, sendo por isto duramente combatida. Finaliza afirmando que um problema principal seria o dogma, cujo poder seria intensamente destrutivo. Ora, para Dawkins há um ponto fora da curva: recusa-se a acatar a idéia de que o ateísmo pudesse fornecer bases para a violência stalinista ou hitleriana. Segundo Dawkins, o ateísmo de Stalin, ou de Hitler, é acidental (!). Em contrapartida, McGrath afirma que seria fácil compreender a crítica cética e humanista à religião no século XIX, considerando as inquisições como exemplos máximos; mas a história do século XX, que apresenta como um de seus episódios a violência perpetrada por um ateísmo institucional, conduziria à conclusão de que tais episódios não provam ou negam a existência de Deus, mas evidenciam que os homens devem ser responsáveis por suas ideologias e seus impactos nas formas como vivemos. Finalmente, Dawkins recusa-se a aceitar o termo ateísmo institucional, alegando mais uma vez que ideologias podem ser produtoras de fenômenos violentos, e que a fé pode ser acrescentada a esta lista, mas não o ateísmo. Este volta a ser tomado como um acidente no percurso de Hitler e Stalin.

É impossível não registrar que fiquei impressionado com a argumentação de Dawkins. Porque a crítica cética ao pensamento religioso é profundamente marcada pelos fatos históricos, e a recente onda neoateísta só foi possível devido à força que o fundamentalismo religioso tem exercido no cenário político internacional, bem como nos debates a respeito dos direitos civis. Isto é claramente observável. Porém, valho-me da surpresa ao perceber em um profundo crítico da religião uma perspectiva tão aguerrida de defesa do ateísmo como uma ideologia imaculada. E é provavelmente neste ponto que se encontram algumas das principais fraquezas dos argumentos de intelectuais como Dawkins e outros que constroem esta militância em prol do ateísmo. Como argumentar a fé como um elemento de necessária superação, se a própria defesa desta superação necessita de uma negação simplista dos exemplos históricos que a contrariam? Como requerer crédito à defesa de uma postura anti-religiosa, se esta mesma postura necessita de um dogma, uma fé, na qual se basear?

Acredito que as teses desenvolvidas por estes intelectuais pecam justamente naquilo que mais rechaçam. Invocam um extremismo tão semelhante ao dos fundamentalistas religiosos para requerer a eliminação total da religiosidade como o verdadeiro caminho à paz humana. Não consigo definir esta crença na plena bondade humana e na plenitude de paz promovida pela razão senão como uma profunda fé atéia. E tal como outras tantas perspectivas dogmáticas (religiosas ou não), demonstra-se infrutífera diante de qualquer possibilidade de conceber parâmetros políticos e culturais verdadeiramente democráticos.

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Sydnei Melo

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um laicismo equivocado

Iranianas choram por conta da decisão da FIFA pela preservação de um
espaço público laico e democrático

Foi com pesar que soube da notícia de que a seleção iraniana feminina de futebol havia sido desclassificada das eliminatórias para a próxima edição dos jogos olímpicos, que acontecerão em Londres, em 2012. E o mérito não é o futebol desta equipe, que nunca vi em campo. A eliminação é decorrente do fato de elas terem entrado em jogo, contra a seleção jordaniana, cobrindo suas cabeças com o véu (vestimenta mais do que conhecida, e comum na cultura dos países de maioria muçulmana).

A FIFA, entidade máxima do futebol mundial (a despeito de todos os casos de corrupção que a envolveram nestas últimas semanas), estabeleceu protocolo para que nos jogos de futebol sejam proibidas quaisquer manifestações de caráter ideológico, pessoal, comercial e, como se vê, religioso.

Discussão semelhante, a respeito de manifestações religiosas, surgiu na Copa de 2010, por conta de críticas a jogadores que, em suas entrevistas ou em comemorações de gols, faziam vistosas exibições de textos com referências a figura de Jesus Cristo, ou declarações em que enfatizavam seus agradecimentos a Deus.

Esta busca por um terreno laico para o exercício do esporte, como algumas autoridades do mundo da bola, principalmente europeus, tem procurado afirmar, parece estar em um âmbito bastante equivocado. Eu poderia dizer até, perigoso.

Sempre fui crítico deste tipo de política de contenção de manifestações. No primeiro momento em que surgiram as críticas aos jogadores cristãos a respeito de seus proselitismos dentro das quatro linhas, sempre concordei que qualquer exagero deveria ser discutido e trabalhado em outras esferas que não o da proibição pura e simples. O futebol, como principal esporte mundial, envolve diversas identidades culturais, inclusive religiosas. Portanto, sempre entendi que atitudes sensatas deveriam trabalhar o esporte como espaço democrático de manifestação de idéias e identidades, sob a égide da tolerância e do diálogo.

Agora, a proibição da seleção feminina iraniana de participar das próximas olímpiadas, por conta do uso do véu, é evidência maior de que, não apenas a FIFA não se dispõe à construção de um diálogo internacional a respeito das diferentes identidades culturais, como demonstra que sua decisão bebe da mesma fonte das políticas de intolerância secular que ascendem em um número significativo de países europeus, baseadas no discurso de que o espaço público laico deve ser preservado de qualquer interferência de fundo religioso, e que todos os cidadãos, a despeito de suas crenças e valores, deve submeter-se em última instância à tutela do Estado nacional e isento de valores religiosos.

É necessário observar, porém, que tais políticas inserem-se em um contexto agudo de emergência de uma nova direita nacionalista, temerosa com o ingresso de contingentes de imigrantes, sobretudo vindos de países de predominância muçulmana - os mesmos países que, em época anteriores, foram sugadas por estes Estados europeus, antigos impérios coloniais que interferiram (e até hoje interferem) na soberania destes povos.

Em tempos de debates acalorados sobre a inclusão de novos atores sociais na cena política, de um necessário revigoramento das discussões a respeito do multiculturalismo, e de um novo ascenso do movimentos democráticos (no mundo árabe, e que já bate à porta dos países europeus), a política de intolerância à identidade religiosa só possibilita afirmar que o laicismo, como eixo organizacional do Estado e da sociedade contemporânea, necessita assumir um novo significado, pelo qual não seja capaz de construir (e nem mesmo de tangenciar) discursos de exclusão de identidades culturais, sobretudo religiosas.

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Sydnei Melo

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Espiritualidade e Religião

Espiritualidade é a experiência humana do sagrado, transcendente, divino. Religião é a maneira como o ser humano organiza e vivencia sua experiência de transcendência. Espiritualidade é uma experiência humana universal. Religião é uma experiência humana condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade da mesma maneira. As religiões mais conhecidas no mundo são Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo. A espiritualidade é o que os seres humanos têm em comum. Por exemplo, tanto o Dalai Lama quanto o Papa Bento XVI embora adotem religiões diferentes, um é budista, o outro é cristão, têm em comum a espiritualidade.

Em termos simples, assim como o ser humano tem corporeidade (relação com o corpo) e racionalidade (relação com a mente), também tem espiritualidade (relação com as realidades espirituais). Religião é maneira como cada ser humano desenvolve e pratica sua espiritualidade. Espiritualidade tem a ver com os atributos do espírito humano: razão, emoção, volição, consciência e auto-consciência. Religião está relacionada ao mundo dos espíritos, supra humanos ou sobrenaturais. Espiritualidade é aquilo referente às virtudes do espírito: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça. Religião trata mais das regulações morais, objetivas: pode, não pode, em detrimento das virtudes subjetivas.

Dentro de cada religião existe um número variado de maneiras de vivenciar a espiritualidade. Por exemplo, no Cristianismo a espiritualidade pode ser vivida de uma forma Católica Romana e outra Protestante, e mesmo dentro do catolicismo e do protestantismo, existem ramificações variadas: uma coisa é a Canção Nova, outra as Ciomunidades Eclesiais de Base, um é o catolicismo carismático, outro o catolicismo da teologia da libertação. No protestantismo também, um é o cristianismo de Santo Agostinho, Tomás de Aquino e dos célebres reformadores Martinho Lutero e João Calvino, outro o cristianismo do pentecostalismo e do neo-pentecostalismo.

Observe também a variedade do judaísmo. Há o judaísmo ortodoxo rabínico, com seu foco na tradição da Torah, do Tanakh e do Talmud, e o judaísmo hassídico, com sua ênfase na mística, além da versão cabalista e das diferenciações resultantes da territorialidade: os sefardistas, da Península Ibérica, e os asquenazes, da Europa Central e Oriental. O mesmo acontece com o Islamismo, com seus ramos sunita, hegemônico e mais tradicional, os xiitas, a minoria radical considerada dissidente, e a versão mística do sufismo, que alguns muçulmanos nem mesmo consideram identificada como Islã.

O budismo possui também sua variedade, considerando aspectos doutrinais e populares e suas principais versões: indiana e tibetana. Embora seja considerada uma filosofia não teísta, que o teólogo alemão Karl Barth considerava “uma religião sem Deus”, o chamado budismo popular possui características mágicas de culto a divindades diversas. Assim como o Hinduísmo, que não tem um sistema unificado de crenças codificado numa declaração de fé ou um credo, e engloba a pluralidade de fenômenos religiosos relacionados às tradições vêdicas. O Hinduísmo costuma ser definido com mais frequência como uma tradição religiosa, a mais antiga e a mais diversa das religiões mundiais.

As generalizações religiosas servem como categorias sociológicas e ajudam a compreender as diferentes tradições, mas dizem muito pouco a respeito da espiritualidade de seus praticantes. Categorias religiosas não são suficientes para conter a grande diversidade das relações humanas com o sagrado e o divino. Dizer qual é a sua religião sugere alguma coisa, mas não diz muito a respeito de sua espiritualidade. É mais fácil encontrar uma pessoa religiosa, do que um espírito livre e capaz de amar.


Ed Rene Kivitz
retirado do blog www.edrenekivitz.com

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O monastério é o mundo

Como se sabe, Weber argumentou que a Reforma Protestante abriu caminho para o capitalismo através de uma completa alteração das crenças e hábitos diários da vida. Weber mostrou-se particularmente interessado em Calvino e no calvinismo, pois encontrou neles o processo pelo qual as disciplinas monásticas – o dia ordenado de trabalho, a vida frugal, o ascetismo, a autonegação, o chamado para a vida religiosa, o individualismo, a predestinação, a dependência da graça por parte de seres humanos inteiramente incapazes de qualquer bem eles mesmos porém constantemente impelidos às boas obras em resposta à graça – deixaram os monastérios e alcançaram a população em geral.

Esses ritmos da vida diária mostraram-se cruciais na transição entre os padrões medievais e aqueles mais adequados ao capitalismo. Embora Lutero tenha tomado o primeiro passo na desconstrução do monasticismo medieval, a contribuição de Calvino foi fazer deste mundo um lugar de teste e de preparação para a vida em outro mundo que ainda não pode ser conhecido. A vida diária tornou-se cenário de uma racionalização sem precedentes, na qual cada momento estava sujeito a ordenação, escrutínio e prestação de contas.

O paradoxo aqui está em que Calvino não tornou a vida humana menos religiosa: ao contrário, a vida humana como um todo tornou-se um monastério. Porém foi precisamente essa ampla religionização que gerou tanto as possibilidades do capitalismo quanto o fim do protestantismo calvinista como tal. Porque, ao sacralizar a vida como um todo, Calvino também a racionalizou; ao colocar em andamento essa estirpe secular de ascetismo, deixou de haver qualquer necessidade para a perpetuação de algum conceito religioso. Um ascetismo puramente secular tornou-se o resultado lógico da teologia de Calvino, que pode então ser descartada, uma vez que já cumpriu sua missão. O calvinismo protestante funciona portanto como um agente catalisador que desaparece uma vez que tenha cumprido a sua tarefa.


Roland Boer,
em Political Grace: The Revolutionary Theology of John Calvi

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As marcas da institucionalização da igreja

A igreja tem duas dimensões: organismo e organização, corpo místico de Cristo e instituição religiosa, que convivem e se misturam enquanto fenômeno histórico e social. O grande desafio é fazer a dimensão institucional diminuir para deixar o organismo espiritual crescer. O que se observa hoje, entretanto, é um movimento contrário, no qual muitas comunidades cristãs caminham a passos largos para a institucionalização, sem falar naquelas que estão com os dois pés fincados no terreno da religiosidade formal. Senão, observe o que eu chamo de marcas da institucionalização da igreja.

1. Liderança personalista. Quando a comunidade acredita que algumas pessoas são mais especiais do que outras, abre brecha para que alguém ocupe o lugar de Jesus Cristo e se torne alvo de devoção. Ocorre então uma idolatria sutil e, aos poucos, um ser humano vai ganhando ares de divindade. Líderes que confundem a fidelidade a Deus com a fidelidade a si mesmos se colocam em igualdade com Deus e, em pouco tempo, pelo menos na cabeça dos seus seguidores, passam a ocupar o lugar de Deus. Eis a síndrome de Lúcifer.

2. Ênfase na particularidade do ministério. Uma vez que o projeto institucional se torna preponderante, a ênfase não pode recair nos conteúdos comuns a todas as comunidades cristãs. A necessidade de se estabelecer como referência no mercado religioso conduz necessariamente à comunicação centrada nas razões pelas quais “você deve ser da minha igreja e não de qualquer outra”. Torna-se comum o orgulho disfarçado dos líderes que estimulam testemunhos do tipo “antes e depois de minha chegada nesta igreja”.

3. Ministração quase exclusiva à massa sem rosto. Ministérios institucionalizados estão voltados para o crescimento númerico e valorizam a ministração de massa, que se ocupa em levar uma mensagem abstrata a pessoas que, caso particularizadas e identificadas, trariam muito trabalho aos bastidores pastorais. Parece que os líderes se satisfazem em saber que “gente do Brasil inteiro nos escreve” e “pessoas do mundo todo nos assistem e nos ouvem”, como se transmitir conceitos fosse a única e mais elevada forma de dimensão da ministração espiritual. Na verdade, a proclamação verbal do evangelho é a mais superficial ministração, e deve ser acompanhada de, ou resultar em, relacionamentos concretos na comunhão do corpo de Cristo.

4. Busca de presença na mídia. Mostrar a “cara diferente”, principalmente com um discurso do tipo “nós não somos iguais os outros, venha para a nossa igreja”, é quase imperativo aos ministérios institucionalizados. A justificativa de que “todos precisam conhecer o verdadeiro evangelho”, com o tempo acaba se transformando em necessidade de encontrar uma vitrine onde a instituição se mostre como produto.

5. Projetos ministeriais impessoais. Ministérios institucionalizados medem seu êxito pela conquista de coisas que o dinheiro pode comprar. Pelo menos no discurso, seus desafios de fé não passam pelos frutos intangíveis nas vidas transformadas, mas em realizações e empreendimentos que demonstram o poder das coisas grandes. Os maiores frutos da missão da Igreja são a transformação das pessoas segundo a imagem de Jesus Cristo e da sociedade conforme os padrões do reino de Deus, e não a compra de uma rede de televisão ou a construção de uma catedral.

6. Exagerados apelos financeiros. Consequência de toda a estrutura necessária para sua viabilização, os ministérios institucionalizados precisam de dinheiro, muito dinheiro. As pessoas, aos poucos, deixam de ser rebanho e passam a ser mala-direta, mantenedores, parceiros de empreendimentos, associados.

7. Rede de relacionamentos funcionais. A mentalidade massa sem rosto somada ao apelo mantenedores-parceiros de empreendimentos faz com que as relações deixem de ser afetivas e se tornem burocráticas e estratégicas. As pessoas valorizadas são aquelas que podem de alguma forma contribuir para a expansão da instituição. Já não existe mais o José, apenas o tesoureiro; não mais o João, apenas o coordenador dos projetos Gideão, Neemias, Josué, ou qualquer outro nome que represente conquista, expansão e realizações.

8. Rotatividade de líderes. Não se admira que muitos líderes ao longo do tempo se sintam usados, explorados, mal amados, desconsiderados e negligenciados como pessoas. O desgaste de uns é logo mascarado pelo entusiasmo dos que chegam, atraídos pela aparência do sucesso e êxito ministerial. Assim a instituição se torna uma máquina de moer corações dedicados e esvaziar bolsos de gente apaixonada pelo reino de Deus. O movimento migratório dos líderes de uma igreja para outra é feito por caminhões de mudança carregados de mágoas, ressentimentos, decepções e culpas.

9. Uso e abuso de conteúdos simbólicos. A institucionalização é adensada pelos seus mitos (nosso líder recebeu essa visão diretamente de Jesus), ritos (nossos obreiros vão ungir as portas da sua empresa) e artefatos (coloque o copo de água sobre o aparelho de televisão), enfim, componentes de amarração psíquica e uniformidade da mentalidade, onde o grupo se sobrepõe ao indivíduo e a instituição esmaga identidades particulares. Os símbolos concretos (objetos, cerimônias repetitivas, palavras de ordem) afastam as pessoas do mundo das ideias. Quanto mais concretos os símbolos, mais amarrado e dependente o fiel.

10. Falta de liberdade às expressões individuais. Ministérios institucionalizados, personalistas, dependentes de fiéis para sua manutenção financeira e psicologicamente amarrados pelos conjuntos simbólicos não são ambientes para a criatividade e a diversidade. Todos brincam de tudo quanto seu mestre mandar, faremos todos e, inconscientemente, acabam se vestindo da mesma maneira, usando o mesmo vocabulário, gestos e linguagens não verbais. Seus rebanhos são compostos não apenas por massa sem rosto e mantenedores-parceiros de empreendimentos, mas também por soldadinhos uniformizados, o que aliás, é a mesma coisa.


Ed Rene Kivitz

domingo, 5 de setembro de 2010

O pão seco de uma religisiodade egoísta

Quando Jesus multiplicou o pão e alimentou uma multidão, ele olhava para além da fome física. Havia uma fome naquela multidão que só seria saciada com um outro tipo de pão. É uma fome que todos nós temos, mas não é apenas do pão que perece, não é apenas de comida, nem uma sede só de bebida. É mais. É como aquela saudade de tudo o que ainda não vi, como cantou Renato Russo. É como uma ânsia pelo transcendente que não se explica, apenas se sente. É como aquele sentimento tão bem poetizado por Agostinho, o Santo: “Fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti”.

A questão é: as pessoas querem realmente o pão que sacia essa fome? Ou será que buscam soluções que não passam de um arremedo formado por uma religiosidade medieval? Será que em vez de buscarem o Pão da Vida, querem mesmo é um naco de um pãozinho seco que é oferecido facilmente, mas que não alimenta a alma nem dá sentido a vida, apenas mata a fome por um instante e depois se quer mais.

Em outras palavras, será que as pessoas querem mesmo Jesus e sua mensagem, ou querem um deus que resolva seus problemas e as ajude a se darem bem sem muito esforço?

A parte mais visível, mais midiática, da igreja brasileira conseguiu vender um cristianismo medieval pré-reforma. Naquela época as pessoas pagavam para terem um lugar no céu, para conseguirem o favor divino, acreditavam em relíquias, etc. Pois hoje há uma multidão que lota auditórios disposta a pagar para conseguir um emprego sem muita dificuldade, para passar no concurso sem muito estudo, para ter uma doença curada sem nenhum tratamento. Estão dispostos a pagar o que for necessário para serem considerados filhos preferidos de Deus.

Não querem saber do Deus de amor, mas querem muito saber do deus de milagres, ainda que se tenha que pagar por eles. Mercantilizaram a fé. O produto maior desse comércio diabólico é deus. Não Deus, o Deus de Jesus, o Deus dos Evangelhos, mas um deus, um deusinho caprichoso, que aceita suborno para abençoar seus filhos. O Deus de Jesus não aceita suborno!

Deus não tem filhos preferidos. Deus nos ama a todos igualmente, com a mesma intensidade, com o mesmo amor. Porque vou exigir que Ele dê mais atenção para mim, então? Oração não é convencer a Deus do que é o melhor a fazer. Oração é derramar-se diante de Deus, para ser transformado por Ele, e não para transformá-lo. Oração é uma conversa entre um filho e um Pai, de maneira desinteressada, em que o filho se contenta em simplesmente ter a presença discreta do Pai.

A proposta de vida que Jesus traz não é a de uma religiosidade mágica que livrará as pessoas das agruras a todos impostas. Ele reprova aqueles que o seguem por causa do pão. Fica insatisfeito com isso. Seu discurso é que se alimentem do Pão da Vida que desceu do céu. Que tenham comunhão com ele e com sua mensagem, que tenham o seu caráter, o caráter de Cristo. Isso seria se alimentar do Pão da Vida.

Infelizmente é grande a multidão que, em vez do Pão da Vida, prefere o pão seco de uma religiosidade egoísta, que de cristã só tem o nome.


Marcio Rosa

domingo, 8 de agosto de 2010

Uma beleza que revolta

Um belo dia abracei a religião cristã.

Para falar a verdade, eu não era bom naquilo. Religião não é pra mim, e por algum tempo fiquei me sentindo um completo fracasso. Alguns religiosos me condenaram (e ainda condenam) ao fogo eterno, mas com o tempo passei a ver meu fracasso religioso como uma tremenda benção.

Porque, quando perdi minha religião, encontrei uma linda revolução.

Isso talvez ofenda ou surpreenda você, mas Jesus não é o fundador da religião cristã. É verdade, séculos depois dele levantou-se uma religião chamada “cristã” – mas, como você vai descobrir neste livro, em muitos sentidos essa religião representava o oposto de tudo que Jesus representava. Na verdade, como você vai também descobrir neste livro, o próprio conceito de uma “religião cristã” tem muito de mito quando entendido à luz do que Jesus representava.

Porque a mensagem essencial de Jesus não tem nada a ver com ser religioso. Basta ler os evangelhos: ele festava com os maiores pecadores e ultrajava os religiosos, e por isso foi crucificado.

O que Jesus representava era o início de uma revolução, revolução à qual ele deu o nome de “reino de Deus”.

O centro dessa revolução não é fazer com que as pessoas acreditem em determinadas crenças religiosas e adotem determinados comportamentos religiosos, embora essas coisas possam ser importantes, genuínas e úteis. Essa revolução também não está centrada na tentativa de consertar o mundo pela defesa das causas políticas “certas” e pela promoção das políticas nacionais “certas”, embora essas coisas possam ser nobres, bem-intencionadas e eficazes.

Não: o reino de Deus estabelecido por Jesus está centrado em uma coisa e apenas nessa coisa: manifestar a beleza do caráter de Deus e, em conformidade com isso, revoltar-se contra tudo que é inconsistente com essa beleza. O reino está centrado na manifestação de uma beleza que revolta.

O reino é, em resumo, uma linda revolução.

Tudo em Jesus manifestava esse reino belo e “revoltante”; podemos vê-lo de forma mais profunda quando que Jesus deixou-se crucificar. No Calvário Jesus exibe a beleza da decisão de Deus de sofrer pelos seus inimigos – em vez de usar seu poder onipotente para derrotá-los de forma violenta. No Calvário vemos também a revolta divina contra nossa escravidão à violência e tudo que nos mantém alienados de Deus e uns dos outros. O próprio diabo é confrontado e vencido pela cruz de Jesus Cristo.

A morte de Jesus resume o tema de sua vida inteira. Cada aspecto de sua vida, seu ensino e ministério colocava em exibição a beleza do reino de Deus e revoltava-se contra algum aspecto da cultura que contradizia esse reino.

O chamado essencial de todos que entregam sua vida a Cristo é unir-se a essa linda revolução e, portanto, viver e amar dessa forma. “Quem diz viver nele”, afirma João, “deve viver como ele viveu” (1 João 2:6). Devemos manifestar a beleza de Deus amando sacrificialmente nossos inimigos, servindo os pobres, alimentando os famintos, libertando os oprimidos, acolhendo os excluídos, abraçando os maiores pecadores e curando os doentes, como Jesus fez. E não existe como fazer isso sem ao mesmo tempo nos revoltarmos contra tudo em nossa vida que nos mantém autocentrados, gananciosos e apáticos diante das necessidades dos outros. Também não há como fazer isso sem revoltar-se contra tudo na sociedade – e, como veremos, no âmbito espiritual – que mantém as pessoas oprimidas fisicamente, socialmente e espiritualmente.

Você então vê que o reino não tem nada a ver com religião – quer seja “cristã” ou não. Tem a ver com seguir o exemplo de Jesus, manifestando a beleza do reinado de Deus ao mesmo tempo em que nos revoltamos contra tudo que é feio.

É uma linda revolução a que somos todos convidados a aderir. Mas para fazer isso será preciso abrir mão da religião.


Gregory A. Boyd,
em The Myth of Christian Religion
(O mito da religião cristã)

sábado, 22 de maio de 2010

Por que escrevo sobre religião

UMA LEITORA ME perguntou: “Por que é que você, professor universitário, escritor, gasta tanto tempo com essas coisas da religião?” Ela pensava que eu, havendo lido Marx, Freud e Feuerbach, deveria dar um uso mais científico ao meu tempo e ao meu pensamento.

Minha resposta é simples: gasto o meu tempo com os sonhos das religiões porque, como disse Shakespeare, nós somos feitos de sonhos. A história é feita com sonhos. Todas as coisas materiais que fazem a vida da civilização são feitas com sonhos. Escrevo sobre a religião num esforço para acordar os que dormem.

Lembro-me da propaganda de um carro que vi, faz muitos anos, numa revista americana: era um conversível vermelho, sem capota, parado num bosque. Não há ninguém no carro, e as duas portas estão abertas.

A sedução – o motivo comercial para seduzir o leitor a comprar - se encontra precisamente naquilo que não se encontra na cena, mas apenas na imaginação. Se as duas portas estivessem fechadas, a mensagem seria simplesmente o carro vermelho sem capota. Se só a porta do motorista estivesse aberta, a imaginação completaria a cena: ele deve estar atrás de uma árvore fazendo xixi.

Mas as duas portas foram deixadas abertas. As pessoas que ocupavam o carro estavam com pressa. A imaginação não tem alternativas, as imagens se impõem: um homem e uma mulher. Onde estarão eles? Fazendo o que? Bem dizia Bachelard que aquilo que se vê não pode se comparar com aquilo que não se vê. Quem bolou essa propaganda genial sabia que a alma é feita de sonhos.

Veblen, economista, também conhecia a alma humana e por isso declarou que não compramos “utilidades”, coisas práticas, materiais. Compramos símbolos.

Isso que vou contar aconteceu no tempo em que a televisão fazia propaganda de cigarros. Cena silenciosa, sem uma única palavra: um bosque de pinheiros… Eu amo a natureza, amo os pinheiros, o perfume da sua resina. Os pinheiros cedem lugar a um regato de águas frias e cristalinas que corre sobre pedras. Eu também amo os regatos de águas frias e cristalinas. Uma campina verde florida.

Minha imaginação sugeriu logo que deveria ser capim gordura com o seu perfume único o que me levou para a minha infância em Minas. Cavalos selvagens em galope, pelo negro brilhante. Estava certo o presidente João Batista Figueiredo quando disse que o cheiro dos cavalos suados era melhor que o cheiro de gente suada. Leonardo da Vinci declarou que os cavalos são os animais mais belos depois dos homens. Cheguei a imaginar que seria possível produzir um perfume másculo extraído do suor dos cavalos. Nenhuma mulher o resistiria!

Aí entra o rosto de um vaqueiro, maxilar de noventa graus, barba de um dia por fazer -homem que é homem não se barbeia todo dia, isso é coisa de executivo-, com um cigarro entre os dedos, estilo Humphrey Bogart e as palavras, as únicas palavras: “Venha para o mundo de Marlboro!” Não, ninguém está falando em fumar! Está se falando de um mundo de pinheiros, regatos, campinas, cavalos -tudo isso faz parte do sonho que mora nas espirais de fumaça da imaginação…

O conversível vermelho com as duas portas abertas e o mundo de Marlboro pertencem ao mundo das fantasias religiosas. São sacramentos. Porque sacramentos são todas as coisas feitas com uma mistura de matéria e símbolos.

Você entende agora porque eu penso e escrevo sobre religião?


Rubem Alves
Mais uma dica do Pavablog.

sábado, 15 de maio de 2010

A religião desconectada da vida é irrelevante

A religião contemporânea responde aos atuais questionamentos das pessoas? O cristianismo dos dias de hoje oferece respostas razoáveis? A igreja cristã, em especial a evangélica, tem respostas relevantes para a vida das pessoas?

Faço esses questionamentos porque tenho a impressão de que a igreja tem sim várias respostas e, pretensamente, para quase tudo, mas temo que tais respostas não se encaixem nas perguntas que as pessoas estão fazendo no mundo de hoje. O mundo mudou e as inquietações também. O mundo continua inquieto, as pessoas continuam querendo obter respostas, mas é preciso tentar discernir quais são essas inquietações.

Corre-se o risco de a religião e a igreja ficarem desconectadas da vida, totalmente irrelevantes para o cotidiano das pessoas, sem nenhum impacto positivo no mundo. Um discurso vazio de significado, distante mesmo das mais profundas necessidades humanas. Algo que já não causa mais nenhum estranhamento ou encantamento, nenhum conforto ou desconforto existencial.

A mensagem apresentada por Jesus não passava despercebida por ninguém que a ouvia, porque a quem ela não encantava, ela escandalizava. Trazia conforto para os marginalizados e excluídos, mas também desconforto para todos, porque os fustigava a romper antigos paradigmas e ter uma nova visão do mundo e da vida. Jesus desvelou a hipocrisia dos donos da religião de sua época e denunciou sua irrelevância. Pior, além de irrelevante, Jesus ainda mostra que em vez de produzir vida, a religião estava encalacrada em processos de morte, em vez de libertar as pessoas, estava submetendo-as a um horroroso tipo de escravidão em nome de Deus.

Então fico muito preocupado que isso esteja se reproduzindo na atualidade, bem diante de nossos olhos. Instituições e discursos religiosos que em vez de produzir vida, anula a vida das pessoas, uma vez que proíbe qualquer possibilidade de prazer e contentamento. Em vez de libertar, aprisiona, agrilhoa com ameaças, medo, pavor do castigo da divindade. Proíbe-se até mesmo de pensar. Só se pode reproduzir o pensamento do clero ou dos líderes, mas não se pode pensar livremente.

Será esse o papel da religião? Será essa a boa notícia anunciado por Cristo? Acredito que não. A mensagem evangélica, genuinamente cristã, deve produzir vida, liberdade, e é essencialmente uma mensagem de amor. Qualquer religiosidade que não seja promotora de vida, justiça, amor e liberdade não pode ser considerada cristã e deve ser repensada e reformulada.

Que tenhamos a sensibilidade de ouvir mais o mundo, reformular nossa teologia a partir da proposta de Cristo e, de maneira conectada com a vida, oferecer não respostas definitivas e verdades absolutas, mas pistas para uma vida com significado relevante, para uma caminhada bonita de promoção de justiça, liberdade, solidariedade e amor. Assim nos ajude Deus.


Marcio Rosa

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Religião e Repressão

O discurso acadêmico de Rubem Alves sobre "protestantismo" e "repressão": algumas observações 30 anos depois. Artigo escrito por Leonildo Silveira Campos para o periódico Religião & Sociedade. Clique aqui para visualizar o artigo.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva
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