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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Precisamos de uma Nova Reforma Protestante

Precisamos da Reforma Protestante hoje, é uma afirmativa que estou fazendo. Não precisamos de uma “nova reforma”, mas de nos apropriarmos, com sinceridade, com determinação, com convicção, com discernimento, com coragem, com atualização, da sua herança, tornando-a não somente autêntica, mas renovada, atual e relevante

Introdução

Falo essa noite a uma plateia de protestantes, e falo como protestante. Falo em um País onde as estatísticas referentes ao número de fiéis de igrejas que pretendem algum vínculo com o Protestantismo não para de crescer, Censo após Censo, quando começamos praticamente de zero, ao nos tornar uma nação independente em 1822. Um dos grandes debates entre sociólogos da religião e estatísticos é quando iremos parar de crescer, ou se iremos parar de crescer. O Protestantismo é um dado relevante não somente no Brasil, mas em toda a América Latina.

Por sua vez, o Congresso Lausanne III, realizado na Cidade do Cabo, África do Sul, em outubro do ano passado, reunindo clérigos e leigos da mais ampla diversidade denominacional, foi uma demonstração evidente de que o Cristianismo é uma religião que, finalmente, se tornou um fenômeno global, mas de que o Protestantismo é, em grande parte, o responsável para que o Evangelho esteja sendo pregado a quase todas as nações. O ímpeto missionário protestante não tem diminuído, mas se diversificado.

Dentro de seis anos, exatamente, em 31 de outubro de 2017, estaremos, em todo o mundo, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante do Século XVI. 500 Anos, cinco séculos, meio milênio, é um bocado de tempo. Algumas organizações eclesiásticas e intereclesiásticas internacionais já estão elaborando uma vasta programação, de celebração, de avaliação e de projeção. Essa Semana Teológica Água da Vida, de fato, vive um momento de pioneirismo, como que dando o pontapé inicial. E o fazemos na Baía da Guanabara, onde, ainda no século XVI, aportaram os pioneiros huguenotes, onde foi celebrada a primeira Santa Ceia protestante nas Américas, e onde foi elaborado o primeiro documento doutrinário reformado nesse Novo Mundo, a Confissão de Fé Fluminense.

Tornei-me, pessoalmente, um protestante, por convicção e opção, três anos após a minha conversão, ao professar a minha fé em uma Igreja Luterana, no Culto alusivo à Reforma, como um dos momentos culminantes de uma jornada espiritual, que continua até hoje. Escrevi, certa vez, em um jornal secular de grande circulação, considerar o 31 de outubro de 1517 a data mais importante da Igreja depois do Dia de Pentecostes. E continuo considerando.

Movida por Deus, mas realizada por homens, nas palavras de Martinho Lutero, “simultaneamente justificados e pecadores” (‘simul justus et pecator’) a Reforma foi responsável por grandes feitos e por grandes erros. A nós, hoje, em um constante processo de atualização, nos cabe a honra de reproduzir os grandes feitos, e corrigir e não repetir os grandes erros, nessa Reforma que está permanentemente se reformando, não em seu conteúdo, mas, exatamente, em suas formas, seus métodos, suas abordagens, suas ênfases, suas contextualizações, suas linguagens, suas polêmicas e suas apologéticas.

Repudio, com o máximo de veemência, os que a acham ultrapassada, vencida, uma página da História que está a ter as suas páginas viradas para sempre. Lamento aqueles – inclusive em nosso País – que dela passam a se envergonhar e a negar, quando, muitos desses, um dia vibraram com o seu legado e se orgulharam da sua identidade.

Precisamos da Reforma Protestante hoje, é uma afirmativa que estou fazendo. Não precisamos de uma “nova reforma”, mas de nos apropriarmos, com sinceridade, com determinação, com convicção, com discernimento, com coragem, com atualização, da sua herança, tornando-a não somente autêntica, mas renovada, atual e relevante.

I – Cenário Passado

A Igreja, como Povo da Nova e Eterna Aliança, Novo Israel, novo Povo de Deus de todos os povos e para todos os povos, foi criada no coração do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, como portadora das Boas Novas e sinal, primícia e vanguarda da Nova Humanidade, tendo sua inauguração no Dia de Pentecostes sob o poder do Espírito Santo, e tem estado presente de forma ininterrupta na História por dois mil anos, e assim estará, com Ele presente, até a consumação dos séculos.

Portanto, a História da Igreja não começa no Século XVI, mas no século I. Não começa com as 95 Teses de Lutero, mas com o discurso de Pedro. Não começa em Wittemberg, mas em Jerusalém. E, muito antes do Imperador Constantino, no quarto século, a Igreja já tinha se espalhado por todo o mundo civilizado de então; já tinha definido o Cânon do Novo Testamento e ratificado o Cânon judaico do Antigo Testamento; já tinha definido o conteúdo das doutrinas básicas emanadas dessas Escrituras: a Santíssima Trindade, as duas naturezas, o nascimento virginal, a morte vicária, a ressurreição, a natureza da Igreja, o Retorno do Senhor e o Juízo Final, o Novo Céu e a Nova Terra; já tinha definido os Sacramentos do Batismo e da Eucaristia; já tinha estabelecido ministérios de bispos, presbíteros e diáconos; já tinha estabelecido um padrão do governo e deliberação nos Concílios. E, tudo isso, sob a fórmula “pareceu-nos bem ao Espírito Santo e a nós”.

As bases fundamentais da Igreja nada têm a ver com Constantino, mas foram estabelecidas antes dele, nesse legado pensado, ensinado e transmitido pelos Apóstolos, pelos Pais Apostólicos e pelos Pais da Igreja. E era assim que os Reformadores Protestantes acreditavam. Eles nunca pretenderam criar uma nova igreja, fundar uma nova igreja, mas reformar a Igreja de sempre, Una, Santa, Católica e Apostólica. Eles repudiavam o romanismo, não o catolicismo, a fé universal histórica. Eles não traziam nada de novo senão a reafirmação do antigo e do eterno. Os Reformadores olhavam para o Oriente, onde estavam as Igrejas Bizantinas, as Igrejas Pré-Calcedônias (ou Jacobitas), as Igrejas Assírias (ou Nestorianas) e as Igrejas Uniatas (autônomas, mas vinculadas a Roma), e olhavam para o Ocidente, para a Igreja Romana ou Latina, e lamentavam e repudiavam os seus “erros, desvios e superstições” acumulados ao longo dos séculos, pretendendo questioná-los e expurgá-los, mas, unanimemente as consideravam como “ramos autênticos da única Igreja de Cristo”. E não era outra a sua visão em relação às manifestações proto-reformadas, como os valdenses e os hussitas ou moravianos.

Resgatar hoje a Reforma Protestante é resgatar essa visão dos Reformadores sobre o que acontecera antes deles, e, em decorrência, é repudiar, repito, repudiar, como uma terrível heresia, que nos trouxe danos incomensuráveis, a teoria que afirma uma suposta “apostasia geral da Igreja”, como se o Espírito Santo tivesse se ausentado da terra entre a morte de João e o nascimento de Lutero. Calvino, Lutero, Cranmer – todos eles – jamais pensaram assim, e condenariam quem pensasse assim, mas assumiam o passado e afirmavam a presença ininterrupta do Espírito Santo. Todos eles se referiam aos Concílios e aos Pais da Igreja. As Confissões de Fé da Reforma, por sua vez, reafirmam todos os artigos do Credo dos Apóstolos e do Credo Niceno, ampliando e aprofundando alguns temas, especialmente a autoridade das Sagradas Escrituras, a centralidade do sacrifício de Cristo e a salvação pela Graça mediante a Fé.

Uma questão central é: no que nos distanciamos hoje dos Reformadores?

Em primeiro lugar desse olhar positivo sobre todo o passado, desse assumir todo o passado, desse assumir toda a História, o que nos faz continuar críticos dos “desvios, erros e superstições”, mas que nos deveria fazer, também, respeitosos e abertos a aprender com as antigas Igrejas não-reformadas, e a dizer que, nos quinze séculos anteriores à Reforma, a cada domingo que se celebrava a Ressurreição e se recitava os Credos, ali estava – com todas as suas limitações – a Igreja de Cristo e não a apostasia do anti-cristo. Os embates travados nesse continente com a Igreja Romana, e os longos períodos de perseguição e discriminação, tornou a comunidade protestante mais vulnerável a aderir à heresia da “apostasia geral da Igreja”, e hoje, afirmando as nossas convicções protestantes, repudiamos essa heresia e reafirmamos o pensamento dos nossos antepassados na fé.

Em segundo lugar quando substituímos a autoridade das Sagradas Escrituras pelo racionalismo, de um lado, ou pelas revelações particulares e pelas experiências, do outro lado. Sola Scriptura, é uma Bíblia crida, aberta e exposta, como Palavra de Deus, nada ensinando ou requerendo que seja crido que por ela não se possa provar, quando substituímos a Sola Gratia pela Lei e pelas Obras, nas exigências legalistas e moralistas dos usos e costumes, quando substituímos a Sola Fide como dom de Deus que recebe a Graça, por um “pensamento positivo” que impõe ao céu a sua saúde e a sua prosperidade.

Começamos a Reforma com seis ramos do Cristianismo e a terminamos com uma dúzia apenas, pois o denominacionalismo não havia ainda surgido, e nem o termo “denominação” era sequer conhecido ou usado, porque, nem está na Bíblia, nem está nas Confissões de Fé Reformadas; nem está nos escritos dos Reformadores, porque eles repudiavam como pecados contra o Espírito Santo, tanto as heresias, que atentam contra a verdade, quanto os cismas, que atentam contra a unidade.

A Bíblia foi traduzida para um número cada vez maior de idiomas, escolas, universidades, hospitais foram espaços concretos do amor de Cristo às nações, o analfabetismo foi reduzido, vidas foram transformadas, culturas foram impactadas, o trabalho foi valorizado, a família afirmada, bem como a dignidade de toda a pessoa humana, em um vigoroso empreendimento missionário que, apesar dos seus inúmeros equívocos, teve uma inegável dimensão civilizatória. A Reforma Protestante, em seu conjunto, tornou o mundo melhor.

Expansão missionária que, por meio de missionários estrangeiros e pioneiros nacionais chegou até ao Brasil, sob fortes restrições legais e discriminações sociais, que varou os sertões ao lombo de burro, levando luzes onde havia escuridão da alma, e que nós hoje somente estamos aqui na esteira do seu ministério sacrificial. E, nessa noite, é nosso dever expressar a nossa gratidão e honrar a sua memória.

A Reforma deixou de ser algo longínquo, na Europa, ou na América do Norte, para ser algo vivo e atual no Brasil. Graças a Deus, por isso!

II – Cenário Atual

O avanço protestante foi originalmente obstaculado no Leste e no Sul da Europa, mas se desenvolveu no Centro e no Norte daquele continente, inclusive como religião oficial. Essa vinculação com o Estado não foi benéfica, e, rapidamente, deu lugar a uma imensa maioria de membros nominais e uma minoria de comprometidos, embora tenha tido um papel de plasmar marcas importantes da cultura e das instituições. Posteriormente, o avanço da Teologia Liberal – universalista quanto à salvação – acelerou o esvaziamento dos templos. Hoje, com a ideologia Secularista e a imigração de membros de outras religiões, particularmente do Islã, já se fala de uma Europa pós-cristã, onde, o que é mais grave, o Cristianismo vem sendo discriminado e perseguido pelo Estado e pela Sociedade secularizadas.

Quadro semelhante vai se dando também no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, e, em menor velocidade, mas não menos evidente, nos Estados Unidos da América. Philip Jenkins, essa sua obra agora clássica, A Próxima Cristandade, nos fala de um deslocamento, mais uma vez, do Cristianismo, do Norte e do Oeste para o Sul e o Leste do globo, notadamente para a África Sub-Saariana, para a América Latina e para algumas áreas da Ásia e da Oceania.

E aí vamos detectar alguns problemas internos enfrentados pelo Protestantismo, nas suas origens, com rebatimentos atuais.

O primeiro foi a sua preocupação com a Soteriologia à custa da Eclesiologia, resultando em uma débil doutrina sobre a Igreja, a partir de uma ruptura com o modelo histórico episcopal, e a criação do modelo presbiteriano e do modelo congregacional. A autoridade da Bíblia foi afirmada, mas não se elaborou instituições sólidas, que garantissem a manutenção desse princípio, fortemente atacado de fora pelo Racionalismo e de dentro do Liberalismo.

O segundo foi a distorção quanto ao princípio do “livre exame”, entendido originalmente como livre acesso, por uma visão posterior de uma “livre interpretação”, dentro do individualismo burguês decorrente do modo de produção capitalista e da urbanização, resultando em um caos doutrinário interminável.

O terceiro, a partir dos Estados Unidos nos últimos dois séculos, foi o surgimento do conceito de “denominação” e o fenômeno sócio-eclesiástico do “denominacionalismo”, com uma fragmentação institucional sem fim, e a eliminação do pecado do cisma.

Adicione-se as controvérsias polarizantes das primeiras décadas do século passado, outra vez tendo como epicentro os Estados Unidos, tais como: Liberalismo vs. Fundamentalismo; Evangelho Social vs. Evangelho Individual; Evolucionismo vs. Criacionismo, a atitude de apoio, indiferença ou oposição dos protestantes a Hitler e ao Nazismo, ao Racismo do Sul dos Estados Unidos, ao apartheid da África do Sul, a guerra civil de Ruanda, a um ou outro lado da ideologias em choque na chamada “Guerra Fria”, ou às ditaduras do Terceiro Mundo, inclusive da América Latina, além da falta de sensibilidade cultural de empreendimentos missionários, e teremos uma lista de aspectos negativos e danosos.

Os principais movimentos surgidos no interior do Protestantismo na primeira metade do século passado foram, sem dúvida, o Movimento Ecumênico, com uma necessária bandeira da unidade, mas que, depois, se perderia no caminho, sequestrado por uma elite teologicamente liberal; e o Movimento Pentecostal, que se, por um lado, teve um aspecto altamente positivo na atualização e na dinamização protestante, por outro lado foi negativamente marcado pelo sectarismo, pela alienação política e pelo antiintelectualismo. No século XXI o Movimento Pentecostal tem sido igualmente afetado por um doloroso processo de fragmentação, menos por questões doutrinárias do que por conflitos de personalidades e a prática de nepotismo.

Novas correntes, como a Teologia da Batalha Espiritual e a Teologia da Prosperidade apenas concorreram para esgarçar o já débil tecido unificador da comunidade protestante.

O velho Liberalismo Moderno Racionalista tem dado lugar, mais recentemente, ao Liberalismo Pós-Moderno Revisionista, no lugar da verdade pela razão, múltiplas verdades ou nenhuma verdade, o que incluiu um relativismo moral. Em várias tendências do protestantismo atual o passado é atacado e negado em seu valor, inclusive o conteúdo doutrinário, e tanto os racionalistas liberais, quanto conservadores valorizadores das revelações privadas causam imenso dano ao princípio reformado da Sola Scriptura.

Sem dúvida que a expressão mais dinâmica do Protestantismo, nos últimos dois séculos, tem sido o Evangelicalismo, com sua ênfase na Bíblia, na cruz, na conversão, na santificação e nas missões. Mas, como se pode claramente perceber no recente Congresso Lausanne III, na cidade do Cabo, África do Sul, a Igreja está se espalhando rapidamente por todo o mundo, e lideranças nacionais estão sendo treinadas, mas o controle financeiro, político e ideológico dessa corrente majoritária ainda está fortemente nas mãos das organizações sediadas nos espaço euro-ocidental e na cultura anglo-saxã.

Último em citação, mas não em importância, tem sido o avassalador fenômeno do chamado neo-pentecostalismo, também conhecido como iso ou pseudo-pentecostalismo, como seitas para-protestantes, pretendendo fazer parte dessa expressão do Cristianismo, mas sem com ele manter vínculos de qualquer natureza, seja histórico, seja teológico, seja doutrinário, trazendo danos à identidade e à imagem do Protestantismo.

Algo que deve ser ressaltado é que o Protestantismo Brasileiro, pela maior parte da sua história, conseguiu se manter ao largo de alguns fenômenos que atingiam negativamente os seus irmãos de outros continentes, chegando inclusive a ensaiar um nativismo e uma inculturação, uma caminhada autóctone, que hoje são apenas “gratas memórias”, porque também fomos atingidos pela fragmentação institucional e doutrinária, pela importação acrítica de ideias e métodos oriundos do centro do poder mundial, pela desvalorização e desconhecimento do passado ou das expressões não euro-ocidentais do Cristianismo, pela falta de ética e pelo coronelismo do poder pessoal de “donos” de igrejas e denominações, com seus caudilhos e sua fogueira de vaidade..

Uma das principais fontes de enfraquecimento da teologia reformada no protestantismo brasileiro se deu na área do louvor, do cântico, porque a Igreja crê no que ela canta, e canta o que ela crê. Devemos apoiar a composição de novos hinos, especialmente com ritmos nacionais, mas, ao abandonarmos os velhos hinários, abandonamos a riqueza e a profundidade da teologia reformada neles contida. A Igreja deixou de cantar a teologia reformada, para ir deixando a própria teologia. O que se canta hoje são genéricas odes à Divindade e a Paz Interior, que pode ser adotada por qualquer monoteísta, e quase nunca tem algo especificamente protestante ou evangélico.

Enfim, o Protestantismo no Brasil é uma força dinâmica, ainda em crescimento quantitativo, mas com sérios problemas originais ou importados, pela superficialidade, pela ausência de um projeto histórico, o que faz com que, apesar do aumento de igrejas e de membros, e de vidas individuais beneficiadas, pouco ou quase nada tem representado em impacto sócio-político-econômico-cultural e na redução dos problemas nacionais, seja a desigualdade social, seja a desonestidade política, seja a violência social.

Tida como uma “igreja adolescente”, ou como “um gigante de pés de barro”, temos o que celebrar; temos potenciais, mas temos muito com o que nos preocupar e, mantido o quadro atual, fica cada vez mais difícil se ser otimista quanto ao futuro. Temos um Protestantismo Brasileiro ou temos “protestantismos brasileiros”? Ou somos apenas um conjunto de indivíduos morenos que professam uma religião estrangeira ou estrangeirizante, incapaz de se enraizar e de amar e santificar a brasilidade, de pensar como nacionais? Por outro lado, uma pergunta que não cessa de nos inquietar: E o que resta do legado da Reforma entre nós?

III – Cenário Futuro

O cenário que se desenhava na primeira metade do século passado, com um número limitado de denominações históricas, de imigração ou de missão, e de denominações pentecostais sérias e éticas, aglutinadas em torno da Confederação Evangélica (1934-1964), em clima de respeito mútuo, e de mais convergências do que divergências, com todos se considerando parte de uma mesma comunidade, portadora de uma mesma herança, partilhando dos mesmos ideais, lamentavelmente se foi, e não parece possível de ser retornado, ao menos em um horizonte previsível.

O cenário que se desenhava por mais de um século, ainda presente na segunda metade do século passado, de um Protestantismo que tinha o Evangelicalismo como corrente hegemônica, em algo que parecia sólido e disseminado, está se esvaindo muito rapidamente nas últimas décadas, minado pelo Fundamentalismo, pelo Liberalismo e pelo Pseudo-Pentecostalismo. Ironicamente, quanto mais “evangélicos” o IBGE atesta em cada Censo, menos evangélicos esses “evangélicos” são…

O cenário que gerou o nacionalismo da Igreja Presbiteriana Independente ou do “Movimento Radical Batista”, os setores e departamentos da Confederação Evangélica, a participação brasileira no Congresso do Panamá (1916), nas CELAs e nos CLADEs, e a inquietação de jovens e de intelectuais na construção de um Evangelicalismo Latino, seja na Aliança Bíblica Universitária (ABU), seja na VINDE, seja na Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), seja nos Congressos Brasileiros e Nordestinos de Evangelização, hoje pouco mais é do que memoráveis páginas da nossa História, talvez peças de um museu de sonhos, afogados todos na importação de textos, pensadores, preletores e métodos dos centros do poder mundial, reestrangeirizados, com as “fábricas” substituídas por lojas de brinquedos não “Made in China”, mas “Made in USA” ou “Made in UK”…

Em uma época em que a globalização é apenas um sofisma para o neocolonialismo, somos, provavelmente, os mais colonizados de todos os brasileiros.

A Bíblia, cada vez mais vendida, em um sem número de traduções e de comentários domesticadores para todos os gostos, é cada vez menos lida e menos conhecida.

A História Geral e Nacional da Igreja é algo sobre o que não se tem interesse ou se tem um escasso conhecimento. E como teremos futuro, se não temos passado? E como iremos atualizar o que desconhecemos: a vida e a obra dos Reformadores, as Confissões de Fé, a Teologia, os Movimentos, enfim, o conteúdo mesmo da Reforma!

Antigamente, ou tínhamos membros comprometidos ou os chamados “desviados”. Hoje há o “crente de IBGE”, o “descendente de crente”, o “crente nominal”, o “membro de frequência ocasional”, “de vez em quando”, “quando me der na telha”, “bissextos”, os “buscadores de bênçãos”, os eternos migrantes denominacionais, no modelo “religião self-service”, onde se põe de tudo no prato, que se projeta em novas manifestações institucionais, como Assembleianos Calvinistas da Teologia da Prosperidade ou Batistas Renovados do Sétimo Dia, com as nomenclaturas as mais exóticas e as mais patológicas…

Se o poeta já dizia que “navegar é preciso”, não teríamos imagem bíblica mais adequada para o protestantismo brasileiro do que a Arca de Noé, na diversidade e algazarra dos bichos de todos os matizes.

Uma nota de tristeza e de lamento se dirige a uma expressiva fatia da nossa liderança, que foi evangélica no passado, mas que hoje, influenciada por outras correntes, abjura do seu passado, ridiculariza suas antigas convicções e confunde as novas gerações, na sua busca necessária de modelos e de heróis. A dubiedade de tantos diante de temas como o aborto e a agenda gay evidenciam que o Evangelicalismo brasileiro é menos sólido do que pensávamos ou desejávamos que fosse.

Para um futuro próximo não vislumbro grandes e radicais mudanças no presente quadro. Continuaremos a crescer quantitativamente, teremos uma mobilidade social com a nossa expressiva presença na chamada “nova classe média”, moralmente mais conservadora, e que os políticos já estão descobrindo, mesmo fragmentados e divergentes; vamos sendo empurrados pela História como atores sociais significativos, e não teremos uma face, mas várias faces, podendo a nascente Aliança Evangélica aglutinar setores éticos em torno da Teologia da Missão Integral da Igreja e de um Evangelicalismo teologicamente conservador e sócio-economicamente progressista. A criação de um bloco mais maduro passa pela consolidação de algo que já vem se dando há algum tempo: a aproximação entre os históricos que admitem a contemporaneidade dos dons espirituais e admiram o dinamismo dos pentecostais, e os pentecostais que valorizam o legado e o pensamento teológico dos históricos.

Na profusão de denominações, subdenominações, ministérios, jurisdições, comunidades, missões, há o desafio da convivência respeitosa, da busca de um mínimo de ética como testemunho e, com maior esforço, o estabelecimento de pontes de diálogos e de ações conjuntas, onde tanto a Aliança Evangélica, a Sociedade Bíblica e as Ordens e Conselhos de Pastores poderiam jogar um importante papel.

A busca de um diploma reconhecido pelo MEC, antes que o preparo de obreiros tende a fortalecer os cursos de Ciência da Religião à custa dos Cursos de Teologia e da própria produção teológica e da prática pastoral.

A reorganização da Igreja Romana em torno de um núcleo de seguidores mais comprometidos, o espaço dos cultos afro-ameríndios nas academias e na mídia, a indiferença religiosa das elites e o secularismo do Estado são desafios muito fortes, e que, muito provavelmente, forçarão um despertar, ao menos por espírito de sobrevivência.

Não precisamos de uma Nova Reforma, nem de novos Reformadores, mas de uma redescoberta no século XXI das mesmas verdades que foram redescobertas no século XVI, e de líderes que tenham a coragem de reafirmá-las dentro do novo contexto. Como já tenho dito, o futuro está no passado que permite construir o presente.

Creio, firmemente, que o Evangelicalismo representa o somatório de toda a herança reformada e é a sua melhor manifestação. Na diversidade de teologias no mercado, nos cabe lutar pela hegemonia do Evangelicalismo, como princípio e como núcleo condutor de uma reformação das igrejas descendentes da Reforma.

Humanamente, o quadro poderia nos levar a cair no pessimismo, já que o otimismo seria irrealista e inconsequente. Mas, a nossa crença na Providência Divina, no Senhorio de Deus sobre a História, e, em particular, sobre a Sua Igreja, nos permite um realismo otimista, passos de fé, que, em muitos momentos, são “saltos no escuro”, mas, assistidos pelo Espírito Santo, nutridos pela Palavra e pelos Sacramentos, nos resta, em obediência, avançar, certos de que Ele faz nova todas as coisas, pois, o nosso Deus é um Castelo Forte, e, em se tratando da Igreja de Jesus Cristo, “Ninguém detém. É obra santa!”.


Robison Cavalcanti
Niterói (RJ), 28 de maio de 2011,
Anno Domini.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Brasil: um protestantismo neoanabatista?

Samuel Escobar, um dos fundadores da Fraternidade Teológica Latino Americana (FTL), escreveu sobre a “anabatistização” do protestantismo do nosso continente, não importando a denominação. Não é só o fato de apenas aqui as igrejas evangélicas rebatizarem católicos romanos e ortodoxos orientais, contrariando os reformadores e sua prática em outros continentes. Trata-se do anabatismo como ideologia, formada a partir da Reforma Radical, com desdobramentos históricos. Vejamos suas marcas.

1. A “apostasia da igreja” como leitura histórica. Da morte de João ao nascimento de Lutero, tudo o que a igreja fez foi errado e a fez se afastar de sua “pureza” original. Isso se chocava com a Primeira Reforma (Lutero, Cranmer) e a Segunda (Calvino), que consideravam os velhos corpos cristãos não-reformados, a despeito de seus “erros, desvios e superstições”, autênticas expressões do Corpo de Cristo. Essa ideologia desqualifica quinze séculos de história e retira dela a presença do Espírito Santo.

2. O “restauracionismo” como princípio re-fundante. Se todo o passado foi de erros, o novo grupo vai “restaurar” a pureza da igreja, segundo entende (séculos depois) o que era a igreja primitiva. Temos tido ciclos de expressões restauracionistas, dentro do espectro da igreja, na fronteira (adventismo) e fora dela (Testemunhas de Jeová).

3. O “presentismo”. C. S. Lewis denuncia as gerações que, movidas por um sentimento anti-histórico, não levam em conta a tradição apostólica nem o consenso dos fiéis, e querem reinventar a roda, em sua superficialidade.

4. Uma eclesiologia dualista e minimalista. Um dualismo neoplatônico entre organismo (bom, de Deus) e instituição (má, dos homens), entre “igreja invisível” e “igreja visível” que, em uma concepção minimalista, é a “igreja local” (congregação), crendo em uma Igreja de Jerusalém regida pelas regras parlamentares de Westminster. Um conjunto dessas “igrejas locais”, com suas peculiaridades, forma uma “denominação” (conceito novo e extrabíblico), com a demonização das organizações históricas, a negação dos sacramentos e o desprezo pela hierarquia ministerial.

5. Iconoclastia. Rejeição de toda a arte sacra: arquitetura, escultura, pintura, símbolos, vestes, ritos. O inestético é o espiritual; a informalidade, a recuperação da pureza. A psicanálise tem estudado a relação entre neuroses e rejeição à arte, por repressão ao prazer. O “teológico” como fachada para o psicológico. A ideologia anabatista perpassou vários momentos na história da igreja, desde os “entusiastas”, encontrados (e combatidos) no luteranismo e no anglicanismo do século 16, ao menonismo de vários matizes (Amish, huteritas), o pietismo, os Quackers, os Irmãos Livres (Irmãos de Plymouth), o “Pequeno Rebanho” (Watchman Nee/Witness Lee) e suas “igrejas locais”, “igrejas sem nome”, “comunidades evangélicas”, “igrejas nos lares” (House Churches), igrejas emergentes e novas iniciativas. Algumas dessas expressões se pretendem pós-denominacionais, ou não-denominacionais (são apenas variações de igrejas batistas e/ou pentecostais), sem usar esse título, outras mantêm vínculos mínimos, ou estão “hospedadas” nas igrejas históricas ligadas a movimentos ou redes de ideologia de fundo anabatista, que poderíamos denominar de neoanabatismo. Algumas mantêm uma ênfase nas doutrinas históricas, outras afirmam que “as pessoas querem saber de vida e não de doutrinas”, havendo até quem negue o apóstolo Paulo e se resuma à pretensa radicalidade do reino, aos ensinos de Jesus. Uma das marcas do neoanabatismo contemporâneo foi herdada do liberalismo: tornar o evangelho palatável para o homem pós-moderno, como aqueles pretendiam fazer para o moderno. A cultura secular termina por impor a agenda da igreja, na linguagem, nos métodos, nas abordagens e no próprio conteúdo. “O homem pós-moderno não aceita essas coisas. Não faz sentido.” Um setor tem a preocupação em estabelecer “igrejas locais” para as tribos urbanas. E se esses jovens amadurecerem? Billy Graham, sem menosprezar a importância da comunicação transcultural, diz que atrás de qualquer “casca” está um pecador que necessita se arrepender e depositar a sua fé em Jesus Cristo, e que para todas as culturas há um eterno evangelho a ser anunciado. Será que as pessoas mais refinadas, artisticamente sensíveis, terão de ficar presas aos extremos da idolatria e da iconoclastia, sem lugar para uma igreja reformada valorizadora da história, do consenso dos fiéis, da reverência e da beleza na adoração, incluindo os símbolos e a liturgia? Quem rejeita a idolatria está condenado ao empobrecimento estético, à iconoclastia do presentismo informalista? O pretensamente “novo” não é apenas um “remake” de velhas iniciativas. O neoanabatismo é um fenômeno crescente, que atinge, mais ou menos, todas as denominações, como rolo compressor em nosso continente e nosso país. Os histórico-estéticos, porém, insistem em sua identidade. As outras expressões do protestantismo, histórico-estéticas, continuam a afirmar outras alternativas para a fé reformada.


Robinson Cavalcante
fonte: www.ultimato.com

sábado, 2 de outubro de 2010

Entre a Ficção e o Terror: o Papel dos Evangélicos nas Eleições

Quando os pioneiros do Protestantismo chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX a agenda política era muito clara: adquirir cidadania plena, pois sob a Constituição Imperial de 1824 apenas os homens brancos proprietários e católicos romanos detinham esse status. Não foi difícil para os protestantes defender a separação entre Igreja e Estado (Estado Laico), em uma “frente” com os liberais, os positivistas e os maçons, se envolver na defesa da Abolição da Escravatura e na implantação da República. Até porque eles aqui chegavam com uma ideologia de “destino manifesto”: trazer uma fé superior e o progresso, facilitada pela opção por uma escatologia pós-milenista ou a-milenista. Uma minoria com consciência de presença transformadora como “sal e luz”, o que se refletiu no papel pioneiro dos colégios (escola mista, escola profissionalizante, educação física, esportes), e o papel respeitável de nossos escassos parlamentares, tanto na Constituinte de 1934 e 1946, no movimento sindical (especialmente o rural no Nordeste) e em tantos outros episódios liderados por homens notáveis.

O Pentecostalismo “branco” optou por longos anos por um isolamento da esfera pública, apoiado pelo pessimismo histórico intrínseco à escatologia pré-milenista/pré-tribulacionista. O Golpe de 1964, a polarização da Guerra Fria, a presença do Fundamentalismo de origem norte-americana nos levou, nos anos 1970 ao terrível pensamento predominante: “Crente não se mete em política” ou “Política não é lugar para crente”. Todo o legado do passado foi esquecido, bem como o legado da história geral da Igreja, em termos de fatos e autores, fazendo surgir novas gerações desinformadas, sem conhecimento bíblico-teológico, histórico ou ético para o exercício de uma cidadania responsável e diferenciadora. A redemocratização do final dos anos 1980 trouxe os Pentecostais pela primeira vez para uma opção de participação, surgiram os neo-pentecostais, os históricos se retraíram e, sem nenhum conteúdo ou proposta diferenciadora os ex-alienados se “mundanizaram”, segundo as regras do jogo político brasileiro: corporativismo, clientelismo, o toma-lá-dá-cá, com o seu preço. Os resultados foram vergonhosos episódios de antitestemunho. Trocamos o “Crente não se mete em Política” pelo “Irmão Vota em Irmão” e as candidaturas oficiais.

Como corre solta a propina, o clientelismo, a troca de favores, a ética vai para o espaço, e o que importa é o “realismo” de quem pode trazer mais vantagens para as igrejas (canais de rádio e TV, terrenos, cargos), ao menosprezo dos partidos e com abertura para as alianças mais espúrias. Antes, matreiramente, se fazia o jogo do anticomunismo; hoje do perigo da perseguição religiosa, do secularismo, da agenda gay, etc. Uma coisa é travar uma batalha cultural com esses temas na academia, na imprensa, no aparelho de Estado (e temos que fazê-lo), outra coisa é cair de má fé em um maniqueísmo, e a opção por um candidato “salvador”, com quem se tem compromissos por debaixo dos panos, e instrumentalizar os crentes como massa de manobra.

Temos uma Constituição Federal, Constituições Estaduais e Leis Orgânicas Municipais que garantem o Estado Democrático de Direito; temos instituições cada vez mais sólidas, uma imprensa (empresa) relativamente livre, as candidaturas de coligação constroem programas que são um acordo sobre os pontos convergentes dos programas dos vários partidos que a compõem, os partidos têm correntes internas, enfim, o mundo político é algo bem complexo, que requer conhecimento para uma inserção competente e relevante. Não iremos muito longo na nossa influência sobre a sociedade, a cultura e o Estado brasileiro chutando santas ou demonizando (candidatas) pecadoras.

Enquanto os eleitores protestantes (a despeito da tentativa de controle e manipulação de alguns dos seus líderes) estarão pulverizados nos vários candidatos, refletindo a sociedade onde estão inseridos. E a conversa de “Irmão Vota em Irmão” não tem funcionado no caso de Marina Silva, membro da maior denominação evangélica do Brasil, com a sua estatura internacional, mas com ética de mais e possibilidade de troca de favores de menos, não tem recebido o apoio dos aguerridos pastores…

Que esse seja um tempo de reflexão e amadurecimento para o crescente contingente de eleitores evangélicos brasileiros, sem picaretagem, sem ingenuidade e sem paranoia.

Que Deus nos ajude!


Recife (PE), 10 de setembro de 2010,
Robinson Cavalcanti

terça-feira, 11 de maio de 2010

Arrependimento, além dos pecados individuais

Encerramos o “intervalo lúdico” brasileiro, que começou no Natal e terminou no Carnaval, começou com a fé cristã e terminou com a festa pagã, a revelar as contradições de uma cultura sem síntese e com sincretismo, em que a racionalidade moderna, as marcas do Cristianismo, o esoterismo, a superstição e a idolatria convivem com o bacanal (culto a Baco) de calendário.

Agora, depois do descanso de uns e dos excessos de outros, finalmente começamos o “Ano Brasileiro”. Para as Igrejas Históricas, encerramos a Quadra da Epifania, com a ênfase em um Messias que não veio apenas para Israel, e, sim, para as nações, e iniciamos a Quadra da Quaresma, centrada na vida, obra vicária e ressurreição de Jesus Cristo, na nossa consciência como pecadores, em um olhar sincero para o interior do nosso ser, e uma reafirmação das grandes verdades da fé.

Jesus foi para o deserto, para ser tentado, e saiu vencedor contra satanás, prefigurando os nossos desertos, as nossas lutas espirituais e as nossas vitórias. Temos, porém, de evitar o individualismo da perspectiva da cultura ocidental contemporânea, em que, por decorrência, a consciência de pecado se esgota nos pecados individuais de cada um, e recuperar o ensino bíblico do pecado coletivo, social, institucional: famílias, tribos, cidades, nações, também pecam como coletividades, e o ministério profético aponta também para os pecados coletivos e chama essas coletividades ao arrependimento.

Lamentamos que o ministério profético tem-se enfraquecido na missão da Igreja, em virtude das propostas de missão semi-integral importadas da América do Norte, onde o profetismo é rejeitado ideologicamente ou associado com uma conduta antipatriótica diante da idolatria nacional.

O mundo está pecando, as nações estão pecando, nossa nação está pecando. Teremos a coragem para exercer o ministério profético diante dos poderes e dos poderosos, chamando os pecados pelo nome e chamando os poderes e os poderosos ao arrependimento? Com que autoridade moral cumpriremos esse mandado do Senhor, se não tomamos consciência do pecado do divisionismo, dos cismas, das heresias, ou com os mesmos somos indulgentes ou fatalistas? Seremos capazes de assumir os pecados coletivos da Igreja, clamarmos por um arrependimento e por mudança?

Se ficarmos apenas nos pecados e no arrependimento individual estaremos sendo desobedientes, parcializando o conteúdo e a amplitude da nossa mensagem, e, no fundo, contribuindo para a permanência do mal.

Vivamos a Quaresma na leitura da Bíblia, na devoção pessoal, nos ritos da Igreja e no clamor profético diante do pecado da injustiça, da violência, da exploração, da desonestidade, da idolatria e da imoralidade do século e da pátria terrena. E no acerto de contas com a verdade, com a realidade do dilacerar do Corpo Místico de Cristo e com o ministério do filho do pai da mentira.

Quaresma é um novo tempo, e um tempo diferente. Que o espírito desse tempo faça uma diferença em nós e por meio de nós. Da Quarta-feira de Cinzas (com Cinzas) ao Domingo da Ressurreição, encetemos uma profunda peregrinação existencial nos mistérios da fé.

Que Ele abençoe a todos!


Robinson Cavalcanti

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mui Bíblica Missão Integral

Todos os seres e instituições existem com um propósito, construtivo ou destrutivo. Chamemos esse objetivo de missão. Muitas vezes, pessoas e instituições se afastam de seu objetivo original, ou o implementam por métodos inadequados ou ilegítimos. O pensador anglicano Michael Greene afirmou: “A Igreja ou é missionária, ou não é Igreja”.

Jesus Cristo, se esvaziou, encarnou em uma cultura e uma conjuntura, rompeu barreiras sociais, exortou, realizou sinais e prodígios. Ele é o exemplo para a Igreja: o Messias prometido, que transformou água em vinho e bebeu fel na cruz — da festa ao martírio. Foi ele quem disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21b).

A Palavra nos mostra o modelo da missão de Cristo, bem como da nossa: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4.23).

Para o comentarista da Bíblia de Genebra, “ensinar envolvia a comunicação da natureza e propósito do reino de Deus, como é visto no sermão do monte (caps. 4-7) e nas parábolas do reino (cap.13). Pregar era anunciar as boas novas de que o reino de Deus estava próximo, e que seus soberanos propósitos na história estavam sendo finalmente realizados. Curar, bem como ensinar e pregar, era sinal de que o reino já tinha vindo” (Mt 11.5).

Ele recrutou seus discípulos de diversos segmentos sociais e demonstrou que o reino de Deus não se identificava com nenhum dos partidos do seu tempo. O Messias era a Palavra viva, herdeira das palavras de Javé, libertando o seu povo da servidão do Egito, outorgando-lhe a Lei, falando pelos profetas.

Na sinagoga de Nazaré, assumiu o seu messiado e a realização da profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19).

Esse texto não deve ser “espiritualizado”, ou “materializado”, pois nos lembra o ideal de Deus para uma ética social superior, no Ano Sabático e no Ano do Jubileu, a realização plena escatológica (o “ainda não”) e as possibilidades de fazer avançar na história os valores do reino (o “já”).

A missão da Igreja deveria ultrapassar a tentação localista de uma mera seita judaica, e se expandir por todo o mundo. O cristianismo é intrinsecamente expansionista, porque o evangelho deve ser levado “até os confins da terra” (At 1.8). O Espírito Santo no Pentecostes foi derramamento de poder e outorga de dons, para tornar possível o cumprimento dessa missão, que não é opcional, mas imperativa: “Ide”.

Foi essa a obediência dos mártires, e a Igreja pagou um preço quando foi coerente, mas envergonhou o seu Senhor em tantos episódios pouco dignos, que, periodicamente, a chama para reforma e avivamento; para coerência e obediência.

Evangélicos, continuamos a crer que a prioridade da missão é a evangelização, entendida como “... a apresentação de Jesus Cristo no poder do Espírito Santo, de tal maneira que os homens possam conhecê-lo como Salvador e servi-lo como Senhor, na comunhão da Igreja e na vocação da vida comum”.

Na Idade Contemporânea, o malabarismo mental de teólogos liberais forjou um universalismo salvífico, que descolou o Jesus histórico do Cristo de Deus, e terminou vendo “a face escondida de Cristo atrás dos orixás...”.

No final do século 19 e início do século 20, nos Estados Unidos, a missão da Igreja foi dilacerada entre um “evangelho social” e um “evangelho individual”, unilaterais e parcializadores. A missão, tantas vezes atrelada a culturas, impérios e sistemas políticos ou econômicos, foi violentada e empobrecida.

Aos extremismos liberal e fundamentalista, o evangelicalismo — com toda a sua história de piedade engajada, de um Wilbeforce ou um Lord Shaftsbury, herdeiro da pré-reforma, da reforma, do puritanismo, do pietismo, do avivalismo e do movimento missionário, com seu conteúdo de uma teologia bíblica e histórica, foi capaz de, principalmente com o Congresso e o Pacto de Lausanne, devolver à Igreja a sua missão recomposta: “o Evangelho todo, para o homem todo e para todos os homens”.

É a missão integral, que, na resolução da Conferência de Lambeth, de 1988, dos bispos anglicanos, deve incluir e integrar as dimensões: a) proclamar as boas novas do reino; b) ensinar, batizar e instruir os convertidos; c) responder às necessidades humanas por serviço em amor; d) procurar transformar as estruturas iníquas da sociedade; e) defender a vida e a integridade da criação. Na América Latina destacamos o papel da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL).

Somente um grande desconhecimento histórico ou uma grande má-fé podem ser responsáveis por se procurar identificar a Teologia da Missão da Igreja, evangélica, com a Teologia da Libertação, de premissas e história liberais. No meio de antigas e novas distorções, reafirmemos a mui bíblica missão integral.


Robinson Cavalcanti, na revista Ultimato.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Proclamação do Reino de Deus

Se, é verdade, que toda a humanidade, genericamente, está sob o Reino de Deus, em seu sentido cósmico, terráqueo e histórico, não é verdade que toda a humanidade esteja vinculada ao Reino de Deus, em sua relação com o Messias, os seus valores e a esperança escatológica. Nem todos os cidadãos dos Estados terrenos possuem a cidadania celeste. A humanidade continua expulsa do Paraíso. Dentre seus componentes, muitos, inclusive, chegam a negar a própria existência do Rei e do Reino ou afirmam uma lealdade a uma profusão de pretensos reis e pretensos reinos, equivocados quanto ao seu estado atual e o seu estado futuro: ateus, agnósticos, materialistas, politeístas, idólatras, magos, adivinhos, supersticiosos, sincréticos.

Por mais que possa hoje ser considerado “politicamente incorreto”, houve um Pecado Original, uma Queda, muitos estão “mortos em seus delitos e pecados”, perdidos, carentes de salvação. Consciente, ou inconsciente, essas multidões estão vinculadas espiritualmente ao Principado das Trevas, e seus anti-valores, e, após a morte habitarão em sua capital: o Inferno. Isso pode parecer antiquado e atentatório aos direitos humanos, mas está no Diário Oficial do Reino de Deus, veículo de comunicação cada vez mais desacreditado pela mente pós-moderna.

Para o mundo desenvolvido e secularizado, a salvação equivale à civilização e a civilidade. Ninguém, os Estados Unidos, por exemplo, pensa em tentar converter uma pessoa branca, de nível superior, proprietária de uma casa e um automóvel, eleitora do Partido Republicano, defensora da pena de morte e do direito de portar armas, e que não tem condutas consideradas anti-sociais. Essa pessoa, no imaginário popular, já está “salva”, e o que se deve fazer é enviar missionários para a África.

Li há alguns anos o comentário de uma revista evangélica, elogiando o fato de que, após muitos anos, alguém havia pregado sobre o Inferno em um congresso missionário, e que esse orador “somente poderia ser um brasileiro”. Ouvi, recentemente, de um líder evangélico uma palavra de censura: “não devemos falar do Inferno para as audiências atuais. Isso não comunica. Além do mais as pessoas já vivem aqui os seus infernos particulares”.

O Rei é um Rei perfeito, e um Rei amoroso. Uma espada flamejante vedou à humanidade a porta de retorno ao Paraíso. Hoje há uma porta aberta, e no lugar da espada flamejante, há uma cruz sangrenta. A porta é o próprio Príncipe da Paz. A rejeição ao Messias, não é algo que acontece apenas com os de fora. Não faz muito que, na Catedral Nacional, em Washington, um pregador afirmou: “Foi uma coisa horrorosa o fato do evangelista ter colocado na boca de Jesus essa frase infeliz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vem ao Pai senão mim”. Essa frase é arrogante, imperialista e politicamente incorreta”.

Equivocam-se os universalistas quando pretendem que todo o Povo seja considerado Povo de Deus, ou que todos caminham de volta ao Paraíso, a despeito de suas crenças ou descrenças. Equivocam-se quando negam a realidade tanto do Pecado Original, quanto dos pecados atuais. Equivocam-se quanto negam o papel único de Jesus de Nazaré na economia da salvação. Equivocam-se quando negam a necessidade de mudança de vida, de santidade, de transformação. E o nome desse equívoco chama-se heresia, falso ensino, falsa doutrina, e isso deve ser dito, porque não dizê-lo seria trair a verdade, trair ao Rei, e demonstrar falta de amor para com os próprios equivocados, que necessitam de ser confrontados com a verdade, necessitam de uma chance para a reconciliação com o Rei e a vinculação ao Reino.

O Rei amoroso está chamando a todos de volta. O Filho do Rei estava vivo e morreu, para que os que estão mortos possam reviver.

E quem serão os mensageiros, os porta-vozes, os embaixadores, da mensagem do Reino? O Diário Oficial do Reino nos diz que serão os que integram a nova e eterna Aliança, a Igreja do Príncipe da Paz. Ele poderia enviar legiões de anjos, ao som de trombetas, assessorados pelos marqueteiros celestiais. Seria um show de comunicação. Bem mais rápido, bem menos trabalhoso, e, talvez, mais eficiente. Mas o Rei não quis assim. Aos chamados que escutaram a sua voz, aos que nasceram de novo, Ele os devolveu como seus mensageiros no meio do mundo; Ele nos devolveu à História. E isso é uma ordem, não uma sugestão. Assim como o Pai o enviou, Ele nos envia esvaziados, encarnados, revestidos de poder, na diversidade dos nossos dons e vocações. Não fazê-lo, mais do que acomodação, é desobediência e inautenticidade. Há dois mil anos que isso acontece, e geralmente se paga um preço.

A primeira e central tarefa da Igreja é o anúncio, é a proclamação das Boas Novas do Reino de Deus. O anúncio não esgota o conteúdo da missão, mas sem ele não haverá gente para realizar as outras tarefas: a de batizar e integrar os convertidos a uma comunidade de fé; a de ensinar todo o conselho de Deus; a de despertar no coração dos fiéis respostas de misericórdia às necessidades humanas; a de curar os enfermos do corpo, da mente e da alma; a de libertar as pessoas do poder do Príncipe das Trevas; a de defender a vida e a integridade da criação; a de denunciar as estruturas iníquas da sociedade e os males das culturas.

Tudo isso nos foi confiado. Tudo isso integra o conteúdo da Missão Integral da Igreja, mas a missão começa com o evangelismo, quando se procura persuadir os pecadores ao arrependimento e à fé na graça suficiente evidenciada na cruz e no túmulo vazio. Por todos os meios, métodos e abordagens, por palavras e por ações, não podemos dizer diferente do apóstolo Paulo: “Nada vos tornei conhecido, senão a Cristo, e a esse crucificado”.

Missão Integral que deve se acompanhada de uma Espiritualidade Integral, que inclui a Adoração, a Reflexão e o Serviço, evitando-se os unilateralismos do misticismo, do academicismo e do ativismo.

A tarefa de proclamação do Reino vive uma de suas crises mais graves. Nega-se a autoridade das Sagradas Escrituras, a unicidade de Jesus Cristo como Senhor e Salvador e a unidade da Igreja como agência especial do Reino. A Grande Comissão é condenada.

Um documento contemporâneo de um dos ramos do Cristianismo definiu a Igreja como: “Um ente social, cultural, afetivo e litúrgico, onde não há lugar para doutrinas, nem normas de comportamento”. Esse mesmo documento também definiu a Bíblia como um livro da tradição religiosa judaica: “útil para a devoção privada e para o uso litúrgico público, mas a quem não se deve buscar base para definir doutrinas ou normas de comportamento”. Outro texto institucional afirma que: “os ensinos morais contidos na Bíblia foram apenas válidos para o tempo dos seus autores, e que não se aplica a situações atuais, especialmente no tocante à Sexualidade Humana”.

Devemos reconhecer, por um lado, que vivemos hoje – como sempre – em um mundo hostil ao Rei. O Islã está em alta, há um ressurgimento das grandes religiões tradicionais, como o Bramanismo e o Budismo, há um crescimento do fanatismo violento, há uma disseminação do esoterismo, de cultos exóticos, de seitas várias, do sincretismo. O fim do materialismo sistemático não abriu, necessariamente, os corações ao Evangelho, nem trouxe de volta às Igrejas, as multidões nominais. Presenciamos um materialismo prático, consumista, e uma espiritualidade vaga e sincrética. Como no Areópago de Atenas, há uma profusão de deuses e um Deus desconhecido. O Ocidente, ao nível das instituições estatais e de setores da Sociedade Civil, vem conhecendo uma escalada da ideologia Secularista, anti-religiosa e, muito mais, anticristã, a empurrar a fé para o recôndito da alma e o interior dos lares e dos templos, vedada a sua manifestação na esfera pública, condenada à irrelevância.

Mas, por outro lado, há uma hostilidade ao Rei dentre os que se pretendem integrar o seu povo. Um ministro de uma Igreja cristã se pretendeu ser, ao mesmo tempo, cristão e islâmico, e isso poderia ser possível em sua cabeça, que nega todos os ensinos cristãos que são rejeitados pelos discípulos de Maomé. Outro ministro de uma Igreja cristã, em um culto dito macro-ecumênico, pediu públicas desculpas aos hinduístas, porque no passado os missionários tentaram convertê-los. Um líder mundial cristão afirmou quer as pretensões do Cristianismo são ofensivas aos seguidores do Islã. A agenda do setor dito Liberal pós-moderno da Igreja, inclui o universalismo, a defesa da agenda homossexual (GLSTB) e a promoção do macro-ecumenismo, multiculturalista, de braços dados, no caso brasileiro, com os “pais-de-santo”, quando essa não foi a atitude dos apóstolos com os sacerdotes de Diana. E a resposta a esse ceticismo e a esse relativismo não deve ser o fanatismo.

Os obstáculos ao anúncio do Reino de Deus não estão apenas fora, no que chamamos de “mundo”, mas dentro da própria Igreja, que, em muitos lugares está implodindo em suas negações. Testemunhamos, nessas conjunturas, o suicídio de uma religião.

O que fazia a Igreja Primitiva “cair na graça de todo o povo”? A sua unidade, o seu amor, a sua verdade, a sua mensagem, a coragem para assumir riscos. Hoje, podemos estar caindo na “desgraça de todo o povo”, por nossos próprios erros, pedras de tropeço na comunicação do Reino. Isso inclui a desonestidade da exploração das pessoas simples e crédulas, os escândalos financeiros, a ostentação, o mau exemplo ao ocupar funções no Estado.

Quando nos detemos na Oração Sacerdotal de Jesus, percebemos a sua ênfase na Unidade. Como Ele e o Pai eram um, a Igreja deveria ser uma com eles, e uma entre si, “para que o mundo creia”. Repito: “para que o mundo creia”. Jesus Cristo criou uma só Igreja, e pretendeu, no Final, se encontrar com uma noiva, e não com um harém. Chegamos depois de mil e seiscentos anos, à Reforma Protestante, com apenas quatro ramos de Cristianismo em todo o mundo: os Bizantinos, os Pré-Calcedônios (como os Coptas, os Sirianos e os Armênios), os Pré-Efesianos (Nestorianos) e os Romanos. Terminamos a Reforma com oito, com o acréscimo de Luteranos, Anglicanos, Calvinistas e Anabatistas. Chegamos ao século XVIII com algumas dúzias, e, daí em diante, deu a louca na zorra total. Estudiosos falam de 18.000 ou 38.000 denominações, sub-denominações, jurisdições e ministérios dentro do guarda-chuva da Cristandade, fora as seitas. E, ainda, queremos que o mundo creia?

A debilidade da Reforma em tratar da eclesiologia, levando em conta os dois mil anos da História da Igreja, levando em conta o consenso dos fiéis, deu no que deu: o denominacionalismo, como fenômeno descontrolado. Denominação não é um conceito teológico, mas sociológico, jurídico e administrativo. E essa idéia de se justificar um caos institucional, fruto do espírito capitalista da “livre empresa” e não dos ensinos bíblicos, ou da vontade de Deus, com o apelo para uma “unidade espiritual”, uma tal de “igreja invisível” (que deve ser formada por fantasmas), sejamos honestos, é um malabarismo mental, para fugir da pecaminosa realidade e da dor de consciência, e seu fundo é o platonismo. Nada pode justificar o denominacionalismo. Afirmar que “Deus me mandou criar uma denominação” é uma blasfêmia! O nome desse pecado é Cisma: o pecado contra a unidade, em nome de projetos pessoais ou de ridículas doutrinas secundárias como a temperatura da água do batismo, ou se esse deve ser ministrado por chuveiro, mangueira ou spray...

Mas, na Oração Sacerdotal, há outra preocupação: o envio do Espírito da Verdade, que nos conduziria a toda a verdade. Somos advertidos pelos apóstolos contra os falsos profetas e os falsos ensinos. E o pecado contra a Verdade chama-se Heresia. E um mal nunca justifica outro: a unidade com heresia é uma falsa unidade, porque a heresia é um cisma material, a ruptura da unidade essencial; a Verdade com uma Igreja dividida, o cisma formal, é uma negação da Verdade. E essa é a tragédia dos nossos tempos. E ainda queremos que o mundo creia? Onde está o Reino? Onde está a vontade do Rei. Que tipo de súditos somos nós que desobedecemos, escancaradamente, ao Rei? Que exemplo e que imagem estamos passando para os que ainda estão fora do Reino?

Uma questão mais central é: crêem ainda os cristãos na mensagem da cruz? Somos realmente convertidos? Fomos realmente alcançados? Porque, se o somos e o fomos, queremos, pelo poder do Espírito Santo, obedecer à Grande Comissão, ir até os confins geográficos, culturais e sócio-econômicos da terra. Essa dependência do Espírito Santo, porém, é reduzida pela dependência de métodos e macetes (geralmente importados), em suas ondas uniformizantes periódicas.

Outra questão central: a que Reino nós estamos anunciando e convocando? O Reino egoísta dos privilegiados “filhinhos do papai celestial”, sempre saudáveis, sempre prósperos e sempre nos cargos de mando, qual os antigos judeus que se vangloriavam de serem “filhos de Abraão”? Ou estamos anunciando a necessidade de arrependimento (que não é nem sentimento de culpa, nem remorso), de renúncia ao eu, de seguimento das pegadas do Mestre, compartilhando suas dores e sua cruz, descobrindo e exercitando dons no Corpo e vocações no mundo a quem somos enviados para amar e servir?

Além da revalorização da Palavra e da autenticidade da experiência, além da conversão e da obediência, necessitamos redescobrir e revalorizar a História da Igreja, toda ela. O que podemos apreender, pela imitação dos acertos e pela não imitação com os erros, com as gerações que nos precederam, tanto no mundo, quanto no próprio Brasil?

Em um século e meio, a geração dos Apóstolos, a geração seguinte dos Pais Apostólicos, e a geração seguinte dos primeiros Pais da Igreja, haviam estabelecido, segundo o princípio “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”, alguns pilares que sustentaram a Igreja e a sua missão por muitos séculos: o estabelecimento do Cânon do Novo Testamento e o fechamento do Cânon Bíblico; a afirmação dos Sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor; a definição das doutrinas centrais contidas no Credo Apostólico e no Credo Niceno, e a forma Episcopal de governo.

Ao longo dos séculos, sem negar esses pilares centrais, as Igrejas Pré-Reformadas do Oriente e do Ocidente acrescentaram, nas palavras dos Reformadores, “erros, desvios e superstições, sem, contudo, deixarem de ser ramos autênticos da Igreja de Cristo”. A Reforma (que vai se dividir em reformas) veio para corrigir esses “erros, desvios e superstições”, pretendendo um retorno à herança apostólica, mas acabou cometendo seus próprios equívocos, jogando o bebê junto com a bacia e a placenta, chegando hoje aonde eles nunca pretenderam chegar: às heresias, aos cismas e a novos “erros, desvios e superstições”, com alguns dos que se pretendem ligados à Reforma promovendo um retorno ao mundo pré-reformado, com sua magia, sua simonia e suas indulgências.

Em saco e cinza, em arrependimento pelo pecado de proclamarmos pessoas e organizações, de proclamarmos usos e costumes e não a Graça, afirmando que as utopias somente têm valor quando são antecipações possíveis que apontam para a Parousia, devolvamos o tema do Reino de Deus ao centro das preocupações e ensinos da Igreja, e proclamemos a todos que o Reino é chegado! E que um dia o Rei voltará para consumá-lo!


Robinson Cavalcanti

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O tempo ainda nos dá um tempo

2009 está chegando ao fim!

Mais um ano se vai, com o fiasco da Conferência de Copenhagen sobre o Clima. Em breve, os ursos polares precisarão usar protetor solar. O mundo continua a ser dominado por donos, com alguns mais donos do que os outros. A História, sempre em movimento, parece continuar fechada em termos de utopias, de alternativas para a presente (des)ordem de coisas.

Enquanto isso, a educação, a saúde e a segurança pública do nosso País é uma ficção de mau gosto. Milhões de compatriotas vivendo na miséria e na dependência do paternalismo governamental, quem tem uns trocados para comer é promovido a uma hipotética “classe média”, a corrupção – impune – atinge todos os ramos e níveis do Poder; a imprensa continuar a manipular, o mito do “super-líder”, turbinado por um filme meloso continuando pairando acima da vida concreta, com a oposição sem alternativas e todos sem um projeto nacional. O crack vai dizimando vidas, destruindo famílias, ameaçando o tecido nacional, nos fazendo ter saudades dos tempos que tínhamos apenas craques...

2009 deixa, para 2010, muitas pendências a resolver. Serão resolvidas?

E nossas vidas? Como peregrinos, vamos nos distanciando do nascimento e nos aproximando da morte, com a esperança e a possibilidade de, a cada ano, renascermos.

Mais do que uma convenção, uma mudança no calendário, o tempo é concreto em sua entropia: todos ficamos mais velhos, embora nem todos fiquemos mais maduros. Queremos avaliar, dar um balanço existencial, tomar decisões, mudar, crescer, amadurecer? Nem sempre. Pois isso sempre implica em um preço que poderemos não querer pagar.

“...deixando para trás as coisas que para trás ficam...”, nos aconselha o apóstolo das gentes: “...eis que tudo se faz novo...”, é a mensagem de esperança em Cristo Jesus, pelo poder do Espírito Santo, que é espírito de poder.

Fim de Ano é tempo de avaliação, é tempo de ação de graças, é tempo de estabelecer novas metas para o ano entrante.

Quão triste e enfadonha é a sucessão de dias sem significado!

Ninguém está aqui nessa terra e nesse tempo por um acaso. Estamos todos sob a Providência Divina e sob a Graça Comum, com um objetivo existencial proposto pelo céu e nem sempre aceito e vivenciado por nós. Para o Povo de Deus, sob o Pacto da Graça, há mais do que propósitos, há uma missão, com nossos dons e vocações.

2010 já é quase uma realidade, e será uma nova oportunidade que nos é dada por Deus. Seria tão bom não desperdiçá-la!

No dia 31, à meia noite, como faço há quase meio século, espero estar, como milhões de brasileiros de norte a sul, no santuário de uma das nossas Paróquias, cultuando ao Senhor, rededicando a vida. Posso convidá-lo(a) a fazer o mesmo, em sua cidade e em seu bairro?

Como pessoa, como bispo, como parte da família humana, de uma família biológica e da família da fé, tenho muito que agradecer por 2009, e a esperar por 2010.

Desejo a todos os meus amados amigos e irmãos na fé, da nossa Diocese e de outras confissões de fé, de todo o Brasil, um abençoado novo tempo em 2010. Que o Senhor do Universo, Senhor da Igreja e Senhor das nossas vidas os abençoe ricamente!


Robinson Cavalcanti
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