terça-feira, 29 de julho de 2014
Graça preciosa versus a graça barata
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Mais uma do Bonhoeffer
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Um pouco de Bonhoeffer
Dietrich Bonhoeffer em Resistência e Submissão
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Mais um pouco de Bonhoeffer
Ser discipulo
Bonhoeffer, Discipulado
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Uma do Bonhoeffer
Dietrich Bonhoeffer
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Prédica Dietrich Bonhoeffer
A igreja protestante celebra seu dia. É parte de seu dever protestar. Contra o que ela protesta, isto varia muito; mas protestar é preciso- por isso, desta vez, protestamos contra a secularização que se traveste de ateísmo e naturalmente também – e desta vez em especial – contra o catolicismo e seus perigos ( é claro que estamos pensando nos perigos políticos), protestamos contra todas as amarras, contra dogma e autoridade, protestamos em favor da liberdade de pensamento e de consciência, do indivíduo; protestamos contra a imoralidade e a descrença; protestamos contra todos que não estão na igreja e que não tomam conhecimento do nosso protesto. Hoje é o dia do protestantismo. Como é fácil protestar, com que autoconfiança conseguimos protestar, afinal temos um direito certificado para isso. Que dia lindo. “Nós protestamos” é a nossa palavra de ordem; Deus, porém, diz: Mas eu tenho ti... isto é, Deus protesta. Contra quem? Contra nós e o nosso protesto! Será que não ouvimos? Protestantismo não significa nosso protesto contra o mundo, mas o protesto de Deus contra nós. Mas eu tenho contra ti...
Na verdade nós estamos disfarçando. No fundo sabemos muito bem que, em nosso protesto, não se trata de castelo forte, nem do aqui estou. Sabemos do protesto de Deus contra nós; sabemos que justamente o Dia da Reforma é a grande ofensiva de Deus contra nós. Ocorre que nós não o queremos admitir diante de nós mesmo nem diante do mundo. Temos medo de não estar à altura dessa ofensiva; temos medo de passar vexame diante de Deus e diante do mundo se o admitirmos. Por isso fazemos tanto barulho em torno deste dia, por isso nós, no dia 31 de outubro, enfiamos nas cabeças de milhares de alunos coisas falsas, a saber, o respeito pela igreja, um respeito que há muito perdemos por Deus, tudo isso para não percebermos nossas fraquezas, ou melhor, para esquecê-las.
Não, já não nos resta mais tempo para essas celebrações festivas da igreja, nas quais nós apresentamos a nós mesmos. Vamos deixar de celebrar o Dia da Reforma assim! Deixemos o Lutero morto finalmente em paz e ouçamos o evangelho, leiamos sua Bíblia, ouçamos a palavra do próprio Deus. No dia do juízo final Deus seguramente não nos perguntará se celebramos dias da Reforma à altura, mas se ouvimos e guardamos sua palavra. Por isso deixemos que nos seja dito: Mas eu tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor.
Quisera dizer essa palavra de forma tal que ela nos doa. Ela deve doer, pois do contrário não seria palavra de Deus. Como vocês, porém, eu vejo que, como acontece com um romance ruim, lemos primeiro o final feliz, para não ficarmos irritados demais com o trecho anterior e para dizer a nós mesmos que no final vai dar tudo certo. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o primeiro amor. A diferença entre o que aqui se chama primeiro amor e tudo o que assim é chamado por aí afora é muito marcante: Na verdade, além desse amor, desse primeiro amor, existe somente ódio; abandonar esse amor significa nada mais que odiar Deus e o mundo. Eu, porém, tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor, ou seja, uma vez tudo foi diferente; também em você uma vez se fez um início! Também com você aconteceu alguma coisa. Você também teve - ou será que não? - algo a ver com Deus. Uma vez você orou a ele e lhe falou de sua maldade e de sua aflição, uma vez você o amou; uma vez você disse que queria tentar se relacionar com Deus. Naquela vez, acontecia alguma coisa ao seu redor, realmente acontecia. Você amou os outros, aquelas pessoas que o irritavam e que lhe davam tanto incômodo, porque, fazendo-o, você se lembrava do amor de Deus. Você já foi de opinião de que Deus deveria ser Senhor sobre a sua vida até no âmago, até o último recôndito; e ele de fato o foi quando você ia para o meio de seus irmãos tendo Jesus Cristo na mente e no coração. Eu, porém, tenho contra ti...
Olhemos a igreja como um todo. Onde está o tempo da primeira graça, o tempo no qual os primeiros cristãos confessavam Jesus Cristo como Senhor de suas vidas, saíam de suas casas para servir, quando a chama estava acesa e começou a arder; o tempo em que a vinda do reino de Deus era esperada com paixão ardente, tanto que esse reino se incorporava na esperançam concretizando-se em sinais inusitados? Onde está o tempo do qual se diz: “todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinha. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e Deus derramava muitas bênçãos sobre todos” (At. 4.32s.)? Onde está a comunidade que por saber do milagre de Deus, por saber da ressurreição dos mortos para a vida, tinha certeza de que, no poder da graça de Deus, no poder do amor de Deus, tudo era possível para aquele que crê, inclusive que um amasse o outro e que descesse até o sofrimento do outro para ajudá-lo? Onde está a comunidade do primeiro amor, que, semelhante a uma lâmpada, fala da luz de Deus no mundo?
De que adianta lembrar o passado! Ele se perdeu. Quem sabe alguém diga a si mesmo: Esse foi o meu primeiro amor, meu amor infantil, mas quando cresci, eu saí dessa. Sem dúvida, aquilo era lindo, mas era ilusão. Eu aprendi e descobri que o mundo é mau e que nem tudo é possível, que é necessário fazer conchavos e que precisamos ser mais modestos. Esse, afinal, é também o discurso da igreja. O que se pode responder a tudo isso? Acaso você acha que os primeiros cristãos, os reformadores e as primeiras comunidades não sabiam que o mundo é ruim? Será que aqueles que viram seu Senhor amado ser crucificado pelo mundo não o sabiam? Eles o sabiam milhares de vezes melhor do que nós todos juntos. Ouve a Bíblia, lê Lutero. Eles sabiam alguma coisa última a maia do que nós: Eles sabiam da raiz de toda a maldade do mundo, a saber, do ódio contra Deus e contra o semelhante e do amor do ser humano a si mesmo. No entanto, eles também ouviram e viram que Deus venceu esse ódio dentro do próprio mundo através de Jesus Cristo, de sua cruz e ressurreição. Eles criam o milagre do amor de Deus no mundo e por isso amavam Deus e o irmão.
Entretanto, não deixemos de olhar a cada um individualmente. Será que alguma vez você não cria e sabia que o ódio estava vencido e que o amor é que estava certo? Talvez naquele tempo tenha sido apenas ilusão, talvez tenha sido ilusão até o primeiro momento – quem quer se prender ao passado? -, mas deixe que lhe seja dito hoje; hoje não é ilusão, mas pura verdade, tanto que Deus empenha sua palavra: Tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor – abandonaste a mim.
“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te”. Não foi outra coisa do que esse chamado que levou Lutero à sua Reforma. Lembre-se de onde você caiu, arrependa-se, foi seu chamado à igreja católica. Você deveria arder, mas é fria; deveria vigiar e está preguiçosa; deveria ter fome, mas está saciada; deveria crer, mas tem medo; deveria ter esperança, mas lança mão do poder; deveria amar, mas não consegue livrar-se de si mesma; deveria deixar que Cristo fosse seu Senhor, mas o contradizes; em seu poder você deveria operar milagres, mas não é capaz de realizar as coisas mais cotidianas. Lembre-se de onde você caiu, arrependa-se.
A igreja da Reforma é a igreja daqueles que se expõem ao chamado à penitência, que deixam que Deus seja Deus, que sabe que aquele que está de pé cuide para que não cair e que não se vanglorie por estar de pé. Nossa igreja está de pé na palavra de Deus e na sua palavra nós somos os julgados. A igreja que está em penitência, a igreja que deixa que Deus seja Deus, esta é a igreja dos apóstolos e de Lutero.
“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras”. Este último é parte inseparável. Sem essa partezinha, todo o resto não faz sentido. Pode parecer inconveniente falar justamente das obras no Dia da Reforma; é, no entanto, um mal-entendido grosseiro do evangelho a gente pensar que fé e penitência são coisas para momentos piedosos matutinos e vespertinos. Fé e penitência significam deixar que Deus seja Deus naquilo que fazemos, e justamente naquilo que fazemos lhe sejamos obedientes. “Volta à prática das primeiras obras” – como é necessário que isso seja dito hoje. Ninguém que conhece a igreja atual poderá queixar-se de que a igreja não faz nada. A igreja faz muitas coisas, também com muito sacrifício e seriedade; mas todos nós fazemos tantas segundas e terceiras obras, e não as primeiras obras. E justamente por isso é que a igreja não faz o que é decisivo. Nós celebramos, nós representamos, nós buscamos ter influência, fazemos um movimento evangélico, praticamos o cuidado para com os jovens, fazemos caridade e assistência social, nos envolvemos em propaganda contra o ateísmo – mas será que praticamos as primeiras obras, das quais tudo depende? Amar Deus e o irmão com aquele primeiro amor apaixonado e ardente que põe tudo em jogo, só não o próprio Deus? Deixamos realmente que Deus seja Deus e lhe confiamos nossa igreja inteiramente? Se assim fosse, deveria ser diferente, alguma coisa deveria ter irrompido. Não nos deixemos levar pela tentação, porém, de nós mesmos fazer acontecer. Cabe a Deus provocar essa ruptura. Deus deverá fazê-lo. Cabe a nós nos colocar a seu serviço. Deixemos que ele seja Deus com aquele primeiro amor. Quem sabe volte a se tornar verdade o que lemos há pouco: Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.
E agora a coisa fica séria: “E, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candelabro, caso não te arrependas”. Aqui se fala com seriedade última. A hora da nossa igreja está próxima. Deus teve muita e longa paciência. Nós não conhecemos a hora. Ela pode irromper de repente e arrastar tudo consigo. Tudo já se move. Deus já lançou mão das mais incríveis ferramentas a serviço de sua obra destruidora. A história da destruição de Jerusalém pelos descrentes começa a ter um enorme significado para nós. Seja lá como for, é melhor que não usemos palavras eloquentes para destacar nossos atos heróicos em meio a tudo isso – que Deus seja Senhor!
O Senhor destruidor, diante do qual nos curvamos, é o Senhor da promessa. Somente ele conhece seu povo, ele está presente, talvez no meio de nós. Ele sim sabe a quem se dirigem as palavras: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”. Seremos nós, conseguiremos vencer, conseguiremos crer até o fim? O futuro nos amedronta. Mas a promessa nos consola. Bem-aventurado quem a ela é chamado.
E quando agora sairmos da igreja, não nos contentemos em avaliar se foi uma celebração da Reforma boa ou ruim, mas vamos e façamos com sobriedade as primeiras obras. Deus nos ajude. Amém.
Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 1906- Berlim, 9 de abril de 1945)
Prédica no dia da Reforma. In: BONHOEFFER, Dietrich. Prédicas e alocuções. tradução Harald Malschitzky. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007, p.45-50.
Texto traduzido do original: BONHOEFFER, Dietrich. Gesammelte Werke - Band IV. Chr. Kaiser Verlag: München, 1961.
domingo, 26 de outubro de 2008
Graça Barata
A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja… (…) Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. (…) A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. (…)
Bonhoeffer contrasta a graça barata com a graça preciosa, pela qual, segundo ele, devemos lutar:
A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem; a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue. A graça preciosa é o Evangelho que há que se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-lo sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho - fostes comprados por preço - e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus.
Desde a primeira leitura de Discipulado em 1986, Bonhoeffer se tornou meu teólogo favorito. Como ele, creio que existe a possibilidade de tornar algo tão precioso e belo como a graça de Deus em um conceito vazio, destituído de qualquer poder transformador, uma graça que justifica o pecado, e não o pecador.
Autor Desconhecido
Um pouco mais sobre Bonhoeffer
[Testemunho do médico do campo de concentração nazista Flossenburg, citado em D. Rance. Un siècle de temóins. Paris: Fayard-Le Sarment, 2000]
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Quem sou eu
Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que saí da confinação da minha cela
De modo calmo, alegre, firme,
Como um cavalheiro da sua mansão.
Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que falava com meus guardas
De modo livre, amistoso e claro
Como se fossem meus para comandar.
Quem sou eu? Dizem-me também
Que suportei os dias de infortúnio
De modo calmo, sorridente e alegre
Como quem está acostumado a vencer.
Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem?
Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo?
Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola,
Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta,
Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança
Conturbado na expectativa de grandes eventos,
Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita,
Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir,
Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isto?
Quem sou eu? Este, ou o outro?
Sou uma pessoa hoje, e outra amanhã?
Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado?
Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado,
Fugindo em debanda da vitória já alcançada?
Quem sou eu? Estas minhas perguntas zombam de mim na solidão.
Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!
Dietrich Bonhoeffer
Nossa relação com Deus
Não como nas religiões orientais, em figuras de animais, como o monstruoso, caótico, distante, terrível; mas tampouco nas figura conceptuais do absoluto, metafísico, infinito, etc.; mas do 'ser humano para os outros'! Por isso o crucificado
Dietrich Bonhoeffer
Citação do livro "Resistência e Submissão"
domingo, 14 de setembro de 2008
O cristão segundo Dietrich Bonhoeffer
Em Mateus 8.17 está muito claro que Cristo não ajuda em virtude da sua onipotência, mas da sua fraqueza, do seu sofrimento! Neste ponto reside a diferença decisiva em relação a todas as religiões. A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina [em 1942 Bonhoeffer também afirmou: 'Portanto, é bom aprender o quanto antes que sofrimento e Deus não constitui uma contradição, mas ao contrário, uma unidade necessária; para mim, a idéia de que Deus mesmo sofre sempre foi uma das doutrinas mais convincentes do cristianismo'].
A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus, somente o Deus sofredor pode ajudar. Neste sentido, pode-se dizer que o desenvolvimento que levou à maioridade do mundo, através do qual se acaba com uma concepção errônea de Deus, liberta o olhar para o Deus da Bíblia, que obtém poder e espaço no mundo por meio de sua impotência....
O poema ‘Cristãos e Pagãos’ contém uma idéia que irás reconhecer aqui. ‘Cristãos ficam ao lado de Deus na sua paixão’, é isto que distingue cristãos de pagãos. ‘Vocês não conseguem vigiar comigo nem por uma hora?’, pergunta Jesus no Getsêmani. Isto é uma inversão de tudo o que o ser humano religioso espera de Deus. O ser humano é conclamado a compartilhar o sofrimento de Deus por causa do mundo sem Deus. Portanto, ele realmente tem de viver no mundo sem Deus e não deve procurar encobrir ou idealizar em termos religiosos essa ausência de Deus; ele tem de viver de ‘forma mundana’ e justamente assim participa dos sofrimentos de Deus; ele pode viver ‘de forma mundana’, isto é, está liberto dos falsos vínculos e bloqueios religiosos.
Ser cristão não significa ser religioso de uma determinada maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano. Não é o ato religioso que produz o cristão, mas a participação no sofrimento de Deus na vida mundana.
Esta é a metanóia [arrependimento]: não pensar primeiro nas próprias necessidades ou aflições, perguntas pecados e medos, mas deixar-se arrastar para o caminho de Jesus, para dentro do evento messiânico do cumprimento de Isaías 53 agora.
Por isto: ‘creiam no evangelho’ ou em João a referência ao ‘Cordeiro de Deus que carrega os pecados do mundo’ (à parte: A. Jeremias afirmou recentemente que, no aramaico, ‘cordeiro’ também pode ser traduzido por ‘servo’. Muito bonito com vistas a Isaías 53!).
No NT, esse ser arrastado para dentro do sofrimento – messiânico – de Deus em Jesus Cristo ocorre das mais diversas formas: através da comunhão de mesa com os pecadores, através de ‘conversões’ no sentido mais estrito do termo (Zaqueu), através do ato da grande pecadora (que se realiza sem qualquer confissão de pecados) (Lucas 7), através da cura dos doentes (Mateus 8.17), através do acolhimento das crianças. Os pastores, assim como os sábios do Oriente, estão [junto à] manjedoura, não como ‘pecadores convertidos’, mas simplesmente porque, assim como são, são atraídos pela manjedoura (estrela).
O centurião de Cafarnaum, que não faz qualquer confissão de pecados, é apresentado como exemplo de fé (cf. Jairo). Jesus ‘ama’ o jovem rico. O camareiro (Atos 8) e Cornélio (Atos 10) são tudo menos existências à beira da ruína, Natanael é um ‘israelita sem falsidade’ (João 1.47); por fim, José de Arimatéia e as mulheres do túmulo. A única coisa que todos têm em comum é a participação no sofrimento de Deus em Cristo. Isto é a sua ‘fé’.
Nada de metodologia religiosa; o ‘ato religioso’ sempre é algo parcial, a ‘fé’ é algo inteiro, um ato de vida.
Jesus não conclama para uma nova religião, mas para a vida. Mas como se apresenta essa vida, essa vida de participação na impotência de Deus no mundo? Sobre isso escreverei na próxima vez, espero. Hoje só mais isto: se queremos falar de Deus de forma ‘não religiosa’, então teremos de fazê-lo de tal maneira que a impiedade do mundo não seja de algum modo encoberta, mas, antes, descoberta, e exatamente assim seja lançada uma luz surpreendente sobre o mundo. O mundo que chegou à maioridade é mais sem-Deus e, por isto mesmo, talvez esteja mais próximo de Deus do que o mundo menor de idade.
Dietrich Bonhoeffer