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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Uma pipa e o vento

O vento passou e deixou arrepio 
Mas não digo que, Ele é passado, 
Pois, da pele, me lembra cada fio
Que sua presença ainda se faz sentir.
Sou como pipa, guiado pelo vento
Com outras, fico colorindo o céu
Se não voar, a pipa deve virar réu,
Já que o papel da pipa é voar
E esse Sopro, esse Vento cálido,
Enche a terra com hálito de vida
Tolo, sem graça, é quem duvida
Morto, pois só respira o nada
Às vezes, quero amarrar o Vento,
Pois me angustia o parar de ventar
Todo tipo de cerimônia eu tento
Inútil, Ele "sopra onde quer"
Doce vento, bondoso e livre
Tenha piedade dessa pobre pipa
Guia-me, fazer-me voar Contigo
E da queda eterna me livre.



Flávio Américo

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Esperança e suas filhas

"A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las."

Santo Agostinho

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Nosso destino


"O convite para aceitar Jesus como Salvador, apenas como credencial para ir para o Céu, definitivamente não é a melhor convocação. A melhor convocação é o chamado para se tornar outra pessoa. A peregrinação espiritual cristã não é uma migração de um lugar para o outro, mas de um estado de ser para outro. Nosso destino não é o Céu. Nosso destino é Cristo."


Ed Rene Kivitz

domingo, 5 de agosto de 2012

Sofrimento


O sofrimento pode ser o caminho através do qual chegamos às nossas verdades. A estrada pela qual chegamos à maturidade atravessa, necessariamente, a escuridão e a solidão. A escuridão, porque sofrer implica perder as referências, desdenhar das explicações, questionar os clichês e aventurar perguntas. A escuridão é o momento quando não caminhamos porque vemos, mas porque intuímos, recordamos e temos fé. Intuímos o rumo certo pelo tanto que já caminhamos, recordamos as experiências aprendidas em momentos semelhantes no passado e andamos por fé, que supera as trevas, prescinde de explicações e transcende as certezas.

A solidão é imprescindível na trilha do sofrimento. A dor pode ser compartilhada, mas jamais transferida. Pode ser percebida, mas não capturada. Pode até ser escondida, mas nunca suprimida. Quem sofre, sofre sempre em solidão. Não necessariamente porque lhe falta boa e providencial companhia, mas porque todo sofrimento pessoal, em sua dimensão mais profunda e essencial, é intransferível. O sofrimento tem sua realidade particular, e não pode ser diferente: cada um sofre por uma razão, é vitimado em áreas distintas, por motivos diversos e com respostas as mais variadas, num dégradé de resiliência que vai da meninice do chororô ao heroísmo quase estóico, incluído entre os tons das cores a grandeza da fé, resignada e esperançosa, e por isso engajada e mobilizadora.

O sofrimento desperta para o ético e o estético. Convoca virtudes adormecidas a que subam ao palco: coragem, perseverança, paciência, honradez, respeito à vida. Possibilita o lapidar do caráter, apara arestas, harmoniza as formas, faz irromper a beleza escondida na frieza do coração. O sofrimento quebranta orgulhosos, vaidosos e prepotentes, faz desmoronar intransigentes, legalistas e moralistas. Como o martelo do escultor, retira os excessos da pedra e dá à luz o belo, o sublime, o deslumbrante.

Quem sofre descobre seus limites, identifica verdadeiras amizades, vislumbra novos horizontes, abre a mente para novas verdades e o coração para novos amores. O sofrimento produz compaixão, evoca misericórdia, gera solidariedade. O sofrimento cria caminhos para arrependimentos e confissões, subverte juízos e sentenças, possibilita aproximações e reconciliações.

O sofrimento coloca homens, mulheres, velhos e crianças, de joelhos. Faz com que os olhos procurem os céus. Dilata a alma para o mistério, conclama o espírito para o inefável, inspira poesias e canções, faz surgir nos lábios o perfeito louvor. Quem sofre aprende a perdoar e pedir perdão. Ganha a oportunidade de colocar o rosto no chão, em clamor e oração. O sofredor jamais chora em vão. Deus habita também a sombra e a escuridão.

O sofrimento é o ônus do viver, o custo do amor, a paga pelo crescimento, o preço da maturidade. Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães. Amar é muito precioso. Crescer é muito doloroso. Amadurecer é muito custoso. Crer é coisa de teimoso. O sofrimento diminui o poder da morte, dissolve a crueldade da indiferença, envergonha a pequenez da alma, desmascara o mundo de mentirinha da ingênua infância, quebra a maldição da incredulidade. Aceitar a realidade e inevitabilidade do sofrimento é escolher a vida, decidir amar, optar pela plenitude, apostar na fé.


Ed René Kivitz

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Natal

"Glória a Deus nas maiores alturas, paz na Terra e boa vontade entre os homens!"

Essa saudação angélica aos pastores, em Belém da Judéia, na madrugada em que nasceu Jesus de Nazaré, anunciava o cumprimento de várias profecias, e a consecução de uma promessa, o nascimento da criança prometida do jardim: o descendente da mulher, que esmagaria a cabeça do serpente, signo do adversário de nossas almas, fomentador da confusão que inviabiliza qualquer relacionamento, seja com o Deus, seja consigo mesmo, seja com o próximo.

O Deus Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), através do Filho, de quem a criança da manjedoura, nascida sob a sombra da cruz, e à luz da ressurreição, é a encarnação, oferecia a sua própria vida para que houvesse paz.

Nesse gesto, ao satisfazer o princípio de justiça, que permite o sustento do Universo, a Trindade eterna semeava o princípio da graça, o princípio do favor imerecido, que permite o perdão.

A Trindade eterna pode perdoar-nos por nossas ofensas. Perdoados, nos reencontramos com o Eterno, e, assim, conosco, pois a identidade de cada um de nós estava nos aguardando em Deus, e fica desvendada a razão de nossa existência: comungar com a Divindade Trina. E, conscientes e movidos pela graça, podemos oferecer ao outro o perdão, que é a condição para a paz, e a semeadura da justiça.

É Natal, Jesus nasceu! O Deus veio ao nosso encontro para que possamos nos achar na existência, e, então, encontrar o outro na vida, que, necessariamente, deve ser compartilhada entre todos, para que a dignidade, que impõe a satisfação das condições necessárias para um viver com a melhor qualidade, seja um bem universal.

Feliz Natal!
Ariovaldo Ramos

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sofrimento criativo

Algumas pessoas constantemente se preocupam se terão coragem de enfrentar determinadas situações quando envelhecerem: uma doença devastadora, incertezas ou a morte do cônjuge. Procuro sempre orientá-las que, enquanto a provação não está lá, a coragem também não estará.

Diversas vezes fiquei maravilhado com os recursos de coragem que pessoas ansiosas e preocupadas demonstram quando têm que enfrentar a provação real e não o fantasma da provação que habita seu imaginário. Ainda digo mais. Existe uma alegria extraordinária que irradia de muitos que sofrem sérias enfermidades, o que contrasta de forma surpreendente com a morosidade de tantas pessoas saudáveis que encontramos no ônibus. Qual é a explicação? Penso que isso ocorre devido ao fato de que suas vidas demandam coragem permanente, um constante expandir da coragem, e como a coragem pertence à economia espiritual, quanto mais a gastamos, mais a temos.

É como uma corrente que os atravessa e produz alegria, a alegria da vitória sobre seu destino. Esta alegria da vitória é algo que encontramos em todos aqueles que completam grandes tarefas, como quem escala até o topo de uma montanha, como os campeões nos esportes com lágrimas de exaustão no pódio. Além disso, para uma pessoa seriamente comprometida e privada de algo, não é a vitória de um dia e sim a vitória de todo dia. De onde vem o prazer em viver? O prazer tem origem nos desafios mais do que nas conquistas em si.

A primeira vez que falei sobre o tema da privação foi em um encontro voltado para mães solteiras. A audiência consistia de mulheres viúvas, divorciadas, solteiras ou abandonadas por seus maridos, todas responsáveis pela criação de seus filhos sem a presença dos pais. O que eu queria dizer a elas sobre órfãos poderia ser um encorajamento para a vida de cada uma. Mas não precisavam de encorajamento. Fiquei espantado com a alegria que reinava entre elas. Refleti que elas também precisavam ampliar a coragem em cada dia de suas vidas, dias difíceis, e o segredo da sua alegria impressionante era a corrente de energia espiritual que as atravessava. Mas também havia o fenômeno da comunicação desta coragem, passada de uma para outra, cada percepção da coragem na vida da outra e a contribuição da própria coragem para a vida das demais. Era como uma multiplicação de reflexos em uma sala de espelhos.

A pessoa mais encorajada fui eu. Saí daquele encontro cheio de alegria. Quando a organizadora do evento entregou flores para meu jardim eu senti que ela merecia mais do que eu. Era claro que nada nos inunda de coragem mais do que um homem, mulher ou criança que demonstra coragem exemplar na adversidade. É bem mais efetivo que uma exortação. Parece-me que o mais importante a enfatizar é esta contagiante qualidade de coragem. Vejo tantas pessoas boas que genuinamente tentam resistir a todos os tipos de tentação através da fé em seus ideais, mas que se sentem frágeis perante o contagiante medo do mal, da violência, da injustiça e das mentiras que atacam o mundo. O que podem fazer a respeito disto? Sua obediência diária é valiosa, mas não parece mais do que uma gota perdida em um oceano em meio à tempestade. A bondade contagiante não é tão óbvia. No entanto, uma coisa que não pode ser negligenciada é o efeito contagiante de uma obediência excepcionalmente corajosa.

Na realidade, não penso que devemos exortar pessoas para que sejam corajosas. Para ser frutífera, a coragem deve vir espontaneamente, em resposta a um chamado interior. Consigo enumerar diversas mulheres que tiveram a coragem de desistir da idéia do divórcio em circunstâncias em que o divórcio seria até justificável. Eu não teria o papel de encorajá-las porque eram elas e não eu, que enfrentavam o sofrimento imposto por sua decisão. Jesus nos exorta quanto a colocar sobre os outros, fardos que nós mesmos não carregaríamos (Lucas 11.46). Sempre observei que, quando é Deus quem nos chama para tomar este tipo de decisão, Ele também nos fortalece para suportar as conseqüências.


Paul Turnier

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Beija-Flor

Mais uma do Jorge.



"Nunca menospreze uma semente
Não despreze o impulso criador
Olhe, prove, ouça, cheire, tente
Como um curioso beija-flor

Não rejeite os tímidos começos
Eles também rumam aos finais
A deselegância dos tropeços
Move a contradança dos casais.."


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

domingo, 13 de novembro de 2011

Outros

"Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas."


Clarice Lispector

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Olhando ao longe

Foto de Diego Formiga / Modelo Clara Figueiredo


Olhar distante. Um gato passando pelo canto da casa. O sol se pondo lentamente. A vida passando com a leveza do respirar tranquilo. Realização e completude. Tudo perfeito, mas muito diferente de algum tempo atrás.
Naquela mesma cadeira confortável, ela chorava. Não conseguia entender porquê, mais uma vez, teve que abrir mão da companhia próxima de seus amigos e ir para longe. O mundo estava cinza. Um vazio tomava conta de sua alma. Não havia revolta nem protesto. Apenas a pergunta: Por quê?
Hoje, olhando ao longe, ela entende. O mundo não é mais tão assustador quanto antes. Os amigos são outros. Ela é outra. Uma brisa fria entra pela janela e a toca levemente. Já é noite. Antes de fechar a janela, ela olha a lua – ela sempre esteve lá. Lembrou-se de quando era criança e olhava para o céu com aquela curiosidade imensa – a lua nunca mudou.
Um dia, a menina que hoje sonha, será grande. Sentará na mesma cadeira e, pela mesma janela, verá a mesma lua. Muita coisa terá mudado, mas a lua ainda estará lá lembrando-a de que certas coisas nunca mudam, e isso nos conforta.

Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre. (Hebreus 13:8)

Wellington da Silva Gomes

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ainda no clima do Pearl Jam, Alive

Boa musica e boa a fala antes. Afinal assim é a vida sendo constantemente re-significada, aquilo que antes tratávamos como uma maldição agora ganha novo sentido, isso não devido nos mesmos, mas gracas aqueles que nos cercam.




A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

domingo, 6 de novembro de 2011

Vivemos esperando


"Vivemos esperando
Dias melhores
Dias de paz, dias a mais
Dias que não deixaremos
Para trás"


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Assim me vejo

"Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós.

Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos. Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados. Somos abatidos, mas não somos destruídos.

Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida.

Animados deste espírito de fé, conforme está escrito: Eu cri, por isto falei, também nós cremos, e por isso falamos. Pois sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, nos ressuscitará também a nós com Jesus e nos fará comparecer diante dele convosco.

E tudo isso se faz por vossa causa, para que a graça se torne copiosa entre muitos e redunde o sentimento de gratidão, para glória de Deus. É por isso que não desfalecemos. Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia.

A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem . Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas. "

2 Coríntios 4:7-18


"Mas em todas as coisas nos apresentamos como ministros de Deus, por uma grande constância nas tribulações, nas misérias, nas angústias,nos açoites, nos cárceres, nos tumultos populares, nos trabalhos, nas vigílias, nas privações; pela pureza, pela ciência, pela longanimidade, pela bondade, pelo Espírito Santo, por uma caridade sincera,pela palavra da verdade, pelo poder de Deus; pelas armas da justiça ofensivas e defensivas,através da honra e da desonra, da boa e da má fama.

Tidos por impostores, somos, no entanto, sinceros; por desconhecidos, somos bem conhecidos; por agonizantes, estamos com vida; por condenados e, no entanto, estamos livres da morte. Somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes; indigentes, porém enriquecendo a muitos; sem posses, nós que tudo possuímos! "

2 Coríntios 6:4-10


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Ter fé é também correr riscos

O que é fé, senão uma aposta? Para aquilo se tem certeza a fé não é necessária. Fé é para aquilo que não se vê, que não se pode tanger, pode-se tão somente esperar. Ter fé é arriscar-se. Acreditar num futuro diferente e melhor é ter fé. Por isso que em Deus temos fé. Não o vemos, não o tocamos, mas cremos. É uma aposta que fazemos.

Isso acontece também nos relacionamentos. O casamento, por exemplo, é uma aposta. Não há certeza que vai dar certo, não se consegue prever o futuro. Mas quem se casa, o faz apostando que vai dar certo.

Em tudo na vida é assim. Por mais planejamento que se tenha, por mais que se tenha calculado todas as probabilidades, há sempre uma dose de imprevisão.

Quem não quer correr riscos não pode empreender coisa alguma, nem se relacionar com ninguém, porque relacionar-se é correr riscos, inclusive de se decepcionar muito e gravemente. Mas se não arriscar como saber?

Se não quer correr o risco de se decepcionar com pessoas, nunca se envolva, não faça amigos, se isole completamente, assim você não corre o risco de se machucar e também não machucará ninguém. Mas isso não é vida. É preciso arriscar-se.

Se você só vai participar de uma igreja quando encontrar uma em que as pessoas sejam perfeitas, cheias de fé, plenas de amor, retas em justiça, prontas para o céu, então se isole, fique só em sua casa, nunca entre em uma igreja. Mas se você aceita se arriscar para caminhar ao lado de gente capenga, falha, finita, pecadora, com todos os vícios e todas as virtudes que qualquer ser humano tem, então arrisque-se, envolva-se, comprometa-se com uma comunidade de fé.

Se você acha que o mundo não tem jeito, que nada nunca vai mudar, que os injustos sempre vão se dar bem e que os bons sempre vão sofrer, que não há nada que você possa fazer para alterar o mundo em sua volta para melhor, então não faça nada, fique olhando as coisas acontecerem e seja absorvido pelo seu cinismo. Mas se acredita que alguma coisa pode ser diferente e que você pode colaborar para isso; se você aposta que alguma coisa pode ser alterada se você deixar o imobilismo e o comodismo, então arrisque-se. Dê um salto de fé.

Se você acha que a vida é uma droga. Se não consegue ver nada de belo na vida, se não é agradecido por nada, então tem mesmo que ficar sentado num “trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”, como já cantou Raul Seixas. Mas você pode se arriscar e fazer algo.

Se você acha que as palavras de Jesus são uma balela e que a proposta de amor ao próximo como lei maior não vale nada e não muda nada, então tudo bem, continue como está, vivendo uma religiosidade fria, sem vida e irrelevante. Se você vê a Deus como um Papai Noel bíblico que está pronto a dar a você os brinquedinhos que você tanto pede, se sua relação com o sagrado é infantil e baseada na troca, então continue se infantilizando.

Mas se você vê algo de transformador na mensagem de Cristo, algo revolucionário na proposta dos Evangelhos, então arrisque-se e comece a agir de modo a alterar para melhor o atual estado de coisas. Isso é fé.


Márcio Rosa da Silva

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

História em construção

Disseram-me que à medida que envelhecemos, melhor nos lembramos do passado. Não é verdade! Embora não esteja nem próximo da terceira idade, já posso constatar: muitos eventos se perderam irremediavelmente sob os escombros de um vento corrosivo chamado tempo.

Gostaria de lembrar o dia exato em que eu e meu pai saímos para colher cajus num matagal. Se eu cravasse essa data, seria meu feriado nacional. Elegeria como uma data mais importante que o natal ou a páscoa. Esse dia faz parte de minha memória mais remota. Não consigo registrar data mais antiga; e nela conquistei uma selva. Vivíamos em um bairro muito ermo com um nome peculiar: Cocorote. Só depois de adulto, numa conversa informal, aprendi seu significado; quando um brigadeiro da Força Aérea Brasileira nos divertia em um jantar em sua homenagem, contando peculiaridades do mundo da aeronáutica. Sei que ele nem percebeu a minha felicidade quando jocosamente explicou o nome do meu primeiro bairro. Inicialmente nos informou que os americanos usaram Fortaleza como pista de apoio e reabastecimento para poderem alcançar a costa da África na II Guerra Mundial. Como na cabeceira da pista de decolagem, corria o imponente rio Cocó, os aviões subiam na rota do Cocó – “The Coco Route”, em inglês. Anos depois, construíram algumas casas, entre cajueiros e denominaram aquelas redondezas de Cocorote – obviamente em “cearensês”. Foi ali, antes de nascer o bairro da Aerolândia, que armado de um bambu, derrubei infinitos cajus. Minha primeira bravura em um mundo selvagem.

Gostaria de lembrar uma história que ouvi da vovó Maria Cristina quando me punha para dormir. Ela embalava uma rede e me embriagava de sono com as travessuras de Pedro Malazarte, figura do folclore nordestino. Há pouco, bisbilhotando uma livraria, achei um Pequeno Dicionário de Lendas, Fábulas e Contos Populares Nordestinos. Havia uma seção todinha para o tal Pedro Malazarte, peralta imaginário, aprontador de estripulias e que sempre se safa com uma lição de moral. Li o livro inteiro e não consegui associar nenhum dos relatos aos resíduos que ainda guardo dessas histórias fabulosas de minha infância. Se me lembrasse, emolduraria em minha sala. Com elas, iniciei-me pelo mundo da ficção, do romance. Com a voz doce de minha avó, viajei por mundo imaginários onde os gatos falavam, as botas papavam léguas e o final sempre era feliz.

Gostaria muito de lembrar da primeira música que ouvi em um ambiente evangélico, nos corredores da Liga Evangélica de Assistência – que abriga pessoas idosas e é mantido pela igreja presbiteriana. A família que me evangelizou, visitava esse abrigo todas as tardes de domingo, realizando culto entre os velhinhos. Logo ouvi cantando acompanhado por uma sanfona um homem cego, negro e com uma deformidade na pele horrível. Horrorizei-me com sua aparência: as pontas do seu nariz e orelhas cresciam como cogumelos gigantes. Mas sua música me marcou profundamente.

Narrava a vida dos personagens bíblicos que muito padeceram; depois afirmava que mesmo não possuindo nada nesse mundo, tinham o amor de Deus: “E por isso eram mais que milionários”. Se pudesse me lembrar dessa música, pediria para nunca mais cantarem “Parabéns para você” no meu aniversário. Esse seria o hino de minha vida. Para nunca esquecer que comecei a minha carreira cristã num asilo de velhos; ouvindo um cego negro e doente cantar que era mais que milionário.

Gostaria muito de me lembrar dessas coisas para ser grato, ser para sempre grato; ser com o meu coração, com o espírito grato a Deus, ele que me traz em seu regaço desde as minhas origens e com mãos de joalheiro escreve a minha história.


Ricardo Gondim

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Como pintar de Deus


Quand l'oiseau arrive/ […] Observer le plus profond silence. Quando o pássaro chegar/ [...]/ observe o mais profundo silêncio. (Jacques Prévert)

[...] fez-se silêncio no céu [...]. (Apocalipse 8:1)

Comece apagando o título desse texto, ele não passa de propaganda enganosa. Em que tela poderíamos pintar tal Criador? Contente-se com algumas pinceladas, em vê-lo, como fez Moisés, passar de costas; aí, então, poderemos começar a ver alguma coisa. Também não tema estar cometendo o pecado da idolatria, pois o que ofende a Deus não é representá-lo, é colocar algo no lugar d’Ele.

Um pastor amigo quis por na sua comunidade, ao lado de João 3:16, o detalhe do rosto de Jesus deCristo Crucificado, de Velasquez. Há quem tenha dito que sairia de lá por causa disso, mas a mesma pessoa não se incomoda com desenhos do Senhor em revistas de escola dominical, nas lições dos pequeninos, em desenhos animados ou em peças (afinal, continua sendo uma representação). Aliás, tema o pecado da idolatria sim, é provável que você já o tenha cometido antes. Como saber que a imagem que você tem na cabeça de Deus não está no lugar dEle? Na verdade, dEUs está por trás de toda idolatria. No fundo dos olhos de quem ora, muitas vezes, se vê um espelho. Uma idéia errada de Deus, algo que nos impede de conhecê-lo de verdade, é tão idólatra quanto uma imagem de escultura.

Então, para começar a pincelar, ou seja, vê-lo como Ele é, quebre todos os ídolos, rasgue todas as telas, delete todos os arquivos. É necessário nascer de novo; se isso já aconteceu e você se gaba disso, é necessário nascer de novo. Faça isso quantas vezes for preciso, a idolatria é mestre na arte de enganar. Lembre-se que sempre que estivermos diante de Deus, não há espaço para arrogância, pois nossa vida acaba sendo quebrada como galho seco. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas que, diante da simples visão de um anjo ou algo do poder de Deus, ficaram apavoradas pensando que iriam morrer. Falo em “simples visão” porque estou comparando com Deus, pois para nós um anjo já é algo apavorante por causa do nosso pecado. Graças a Deus pelo “não temas”, pois sempre significa mensagem de aceitação, por não levar em conta a multidão das nossas dívidas.

Calvino afirma, na verdade ele estava citando Paulo, que, por sua vez, estava concordando com vários salmos, que é bom olhar para duas realidades. A primeira é a Criação, algo fora do homem. Para nossas pinceladas, dê uma olhadinha numa tempestade, ela nos lembra que nós somos nada (penso que Lutero aprendeu essa lição). Eu, particularmente, gosto de olhar árvores e pôr-do-sol; de sentir o cheiro de capim cortado e das flores; e ouvir o “louvorzão” dos passarinhos, pois sei que eles nem sabem que estou olhando. Já reparou no vento? Tanto faz ser a brisa ou o impetuoso, pois Ele sopra onde quer. Não se esqueça de olhar para as coisas boas da vida, elas também fazem parte da Criação: uma criança sorrindo, uma piada bem contada, o abraço da vovó, almoço de domingo, essas coisas que fazem tudo parecer o céu. Peça perdão e perdoe. Tenha um pai e uma mãe, não precisa ser os que te tiveram, mas, se forem eles, é melhor ainda. Tenha boas amizades, isso é muito importante, pois Deus nos deu uma dica para o quadro quando disse ser nosso amigo. Ame alguém e se deixe ser amado. Por ser noivo, mesmo não sendo dos melhores, entendo melhor, guardadas as infinitas proporções, porque Deus é amor.

Mas não pare aqui, de jeito nenhum, estamos apenas começando, não deixe que Pã (lembre de panteísmo) também te engane. A segunda coisa que Calvino, Paulo e os salmistas nos mandam olhar está dentro de você, atento leitor, isto é, sua própria consciência, os conceitos de certo e errado que você tem. Eles não foram aprendidos somente com a cultura, como nos lembra Lewis, pois muitos fazem parte do que o nosso amigo inglês chama de Lei Natural, Tao para os mais íntimos de A abolição do homem. Como ele nos mostrou, é natural as culturas não acharem muito legal alguém matar a mãe, não agir com caridade, não respeitar os mais velhos, pegar a mulher do outro etc. Alguns teimam em citar casos isolados como se fossem provas da não universalidade das idéias de certo e errado, ao invés de entenderem apenas como exceções à regra. Para piorar, citando mais uma vez Lewis (Cristianismo Puro e Simples), além de sabermos da existência da Lei Moral, não conseguimos praticar integralmente aquilo que achamos certo.

Mas que bom que o Senhor nos diz: “não temas”, pois, como nos ensinou Blaise Pascal, “o conhecimento de Deus sem o da própria miséria produz orgulho. O conhecimento da própria miséria sem o de Deus produz o desespero. [...] Jesus Cristo é um Deus do qual nos aproximamos sem orgulho e perante o qual nos humilhamos sem desespero”.

Por falar em Jesus, acho que nossas pinceladas estarão indo muito bem se olharmos para Ele, pois, segundo suas próprias palavras, quem o vê está diante do Pai. Mas, como cantaram os Vencedores por Cristo,“muito embora um só Jesus exista, nem todos sabem vê-lo como é”. Qual você prefere? O menino segurando um cordeiro do início do Cristianismo? O legionário romano matando um dragão quando o Império se tornou oficialmente cristão? O germânico alto, loiro e de olhos azuis do período dos reinos bárbaros? O das revistas de Escola Dominical? O de Velasquez? O Jesus filósofo-comunista-hippie-naturalista da galera de hoje? Ou você já criou o seu? Delete todos esses, comece de novo. Olhe para o Jesus que recebeu as crianças; que sabia que o fluxo da mulher tinha cessado, mas queria que o mesmo acontecesse com a sua humilhação; aquele que perdoou a adúltera, a prostituta, o corrupto, o fariseu (acredite, está na Bíblia) e que pode perdoar você, caso vá até Ele.

Como dar umas pinceladas de Deus, ou melhor, como ajudar os outros a verem o Pai? Mostre o Jesus das Escrituras, Aquele que fez a Eternidade caber dentro de uma barriga de mulher, dormir numa manjedoura, andar de jumentinho e levou todos os nossos pecados sobre Ele. O Cristo que desceu ao Hades, ressuscitou, foi aos céus, habita em nós por meio do Consolador e há de voltar para sua Noiva. Quem tem olhos para ver faça silêncio diante do Rei dos reis e veja; não deixe de ir até Ele, pois sua promessa é de que não rejeitará quem O procurar.

Flávio Américo
Aliança Bíblica Universitária do Brasil

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O medo: o maior gigante da alma

Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.

O medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é a mais forte e mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúdica pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.

E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido? E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos? "A mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


Fernando Teixeira Andrade
Uma dica de meu grande amigo Eric Oliveira (Valeu!!!)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre culpa, medo e liberdade

Culpa. Eis aí um elemento imprescindível para a manipulação religiosa. No mercado da fé, a culpa é um produto sempre em alta, não como mercadoria propriamente dita, mas como indutora do consumo. Se o consumidor tem culpa, compra qualquer produto que lhe for oferecido para se livrar dela. Na verdade para se livrar do medo. Esse é outro elemento indispensável para manter pessoas no cabresto.

É por isso que o medo é incompatível com o amor. Para ser amor de verdade tem de ser livre, e para ser livre não pode haver medo. Se para amar é necessário ameaçar com um castigo impiedoso, não haverá amor, mas uma submissão forçada. A mulher que permanece com o marido porque este lhe ameaça bater ou matar não o ama, apenas teme por sua vida. Ou, se não é isso, tem uma relação completamente doentia, porque quer ficar com alguém que lhe ameaça o tempo todo.

Já admirei a eloqüência da pregação “Pecadores nas mãos de um Deus irado” de Jonathan Edwards, mas hoje só consigo ver ali uma divindade com sangue nos olhos e babando de vontade fazer sofrer as pessoas, com uma ira represada que, quando irromper, devorará todos os ímpios. Esse Deus é bem diferente daquele que vejo na face de Jesus, que não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.

Jesus é a encarnação de Deus. Deus que tanto amou seus filhos que se fez gente e habitou entre eles. Ele é o amor substantivo concreto. Amor que foi levado às últimas consequências. Mas como os religiosos preferem uma ameaça concreta de punição em vez de uma proposta de salvação gratuita, trataram logo de assassinar o amor. Ainda bem que o amor vence afinal, ressurge e reparte sua vida com seus amigos, seus discípulos. Outra coisa que esse pessoal de sangue nos olhos não tolera é que Deus tenha amigos e não escravos tratados na base do chicote. Sim, Jesus quer amigos, sem medos, sem ameaças, sem retaliações.

Que valor teria a encarnação e toda essa extraordinária história de amor entre Deus e seus filhos se, na verdade, acorre-se a ele por medo da constante ameaça de ser fritado num caldeirão de azeite fervente por toda a eternidade?

O amor de Deus é incondicional. A graça é de graça mesmo. Amor e graça dão liberdade. Culpa e medo levam à escravidão. Um Deus que chama seus seguidores não de servos, mas de amigos, é o que dá a liberdade. Os que quiserem ficar com ele e desfrutarem de sua amizade serão amados. Os que quiserem ir embora, são livres para fazê-lo, continuarão amados. E continuarão sendo esperados de volta. A porta estará sempre aberta.

Quem de nós quer amigos que só ficam ao nosso lado por conveniência ou porque estão sendo chantageados? Se não queremos amigos assim, por que Deus usaria então a chantagem, a ameaça, para que permanecêssemos com ele? Deus não está irado, mas em paz conosco. Ele nos ama. Não há condicionantes para isso. Somos livres para sermos amigos dele, ou não.

Deus é amor e no amor não há medo!


Márcio Rosa da Silva

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Milagre das Folhas

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante.

Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.


Clarice Lispector
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