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domingo, 23 de dezembro de 2012

O futuro é uma criança



Mais um Natal se aproxima, a tradicional recordação do nascimento do menino Jesus, Deus encarnado em um ser infante. História de milagre, de humildade, de pobreza e de esperança. Talvez estejamos muito longe de considerar todos estes aspectos simbólicos trazidos com a celebração do Natal. Em grande parte, provavelmente, devido à secularização e mercantilização não apenas desta data, como também de outros feriados religiosos, como a Páscoa.

Mas para mim o Natal sempre traz a lembrança do Advento: tempo de reflexão, arrependimento e nutrição da esperança. Resgata à mente a importância de meus queridos, amigos e, especialmente, familiares, com os quais já não compartilho minha rotina, mas com os quais tenho podido compartilhar deste momento especial.

Mas mais do que isto, o Natal traz também à mente o pensamento de um desejo, um futuro novo.

E o futuro é uma criança.

É engraçado como uma ideia como esta pode soar estranha, mesmo que hoje vivamos em uma civilização cujos símbolos e referências culturais e valorativas se pautem por esta matriz milenar que é o cristianismo. Nos acostumamos a pensar Deus como Pai, Senhor, Ser supremo. Obviamente não se nega isto (entre os cristãos, é claro). Mas ressalto que mesmo no dias mais comuns, pouco lembramos deste aspecto infantil da vida de Cristo (e do próprio Deus). Fala-se sempre, com bons juízos ou preceitos equivocados, do aspecto grandioso e universal, gigantesco e atemorizador, dominante e indestrutível que seria constituinte da figura de Yahweh. Mas pouco se diz da figura frágil representada pela criança chorosa, carente e dependente, deitada naquela manjedoura – a não ser, é claro, no período do Advento. O aspecto humano pelo qual Jesus foi apresentado ao mundo não podia ser mais confuso. Poderia dizer também: não podia ser mais genial.

A história daquela criança me conduz a um olhar sobre as nossas crianças. Jesus, já em sua fase adulta, demonstrava um carinho especial para com os pequeninos. Exortava seus pares de que aqueles que recebessem uma destas crianças, estariam O recebendo. E dizia: “Cuidado para não desprezarem nem um só destes pequeninos! Pois eu lhes digo que os anjos deles nos céus estão sempre vendo a face de meu Pai celeste” (Mt. 18: 5, 10). Se estamos falando do nascimento de uma criança, o Natal nos permite falar dela, mas também de outras crianças como ela, e do futuro delas. E o tempo que vem, será que tempo para nossas crianças?

Há pouco tempo assisti ao vídeo, até então desconhecido para mim, de Happy Xmas, composta por John Lennon e Yoko Ono. A música tem um subtítulo: War is over. O vídeo em questão é recheado de duras e tenebrosas imagens, que atestam uma realidade à qual não damos a devida importância: crianças sem futuro. Crianças em zonas de guerra, passando fome, abandonadas, machucadas, doentes, sem sequer saberem o que pode significar a palavra esperança.

Nossa lembrança deve se voltar a elas. Mais do que celebrar o nascimento de nosso Salvador, creio que o desejo presente no coração de Deus se coloca a nós com este propósito: não despreze nenhum destes pequeninos. A frágil criança naquela manjedoura deve nos trazer a lembrança daquelas meninas e meninos que padecem onde se ausenta o amor, a igualdade e a justiça. Mais do que recordar aquilo que a Palavra nos diz sobre o nascimento do menino Deus, eu desejo profundamente que você possa encontrar Deus no olhar destas crianças. E que você possa compreender o sofrimento presente no coração de Deus a partir da observação da angústia destas crianças. E, principalmente, que você possa ansiar o futuro. Sonhar com o novo, com as mesmas cores desafiadoras que constituem o sonho das crianças. Para que elas não deixem de ser o futuro.

Feliz Natal.




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Sydnei Melo

sábado, 31 de dezembro de 2011

Natal Encarnado

Gosto também de entender que o famoso versículo joanino “e o verbo se fez carne” também pode significar “e os pensamentos de Deus se tornaram agora conhecidos por nós”.

No livro X das Confissões, Agostinho fala de dois tipos de verbo. Um ele chama de verbo interior (ou verbo mental); o outro ele chama de verbo exterior (ou verbo carnal). Com essa distinção, o Bispo de Hipona ensina que nós, seres humanos, obedecemos a uma dinâmica de linguagem, cujas palavras proferidas (verbo exterior ou carnal) são necessárias para compreendermos os pensamentos de nossos semelhantes (verbo interior ou mental).

Deus nos trancou em nós mesmos. Isso significa que tudo o que pensamos e não expressamos jamais pode ser conhecido por outro ser humano também trancado em si mesmo. Ou seja, “pensamentos” para serem conhecidos precisam ser expressos ou — para usar um termo bastante teológico — “pensamentos” precisam ser “encarnados” para serem compreendidos. Uma vez que estamos trancados em nós mesmos não podemos nos dar ao luxo de apenas pensar. É preciso também falar, expressar, jogar para fora o que está dentro, jogar para fora o que se pensa. Caso contrário, o nosso semelhante não saberá o que estamos pensando.

Mas veja que coisa interessante: o que se joga para fora não é o “puro pensamento”, mas o “pensamento encarnado”. Apenas o pensamento encarnado pode ser conhecido pelo semelhante. Já o puro pensamento só pode ser conhecido por uma pessoa. Em outras palavras, só Deus pode conhecer nossos pensamentos enquanto pensamentos. E isso tem muitas implicações, como, por exemplo, o fato de não ser necessário encarnar nosso pensamento para torná-lo conhecível para Deus. Ora, Deus já conhece o que pensamos mesmo quando o que pensamos não chegou ainda a nossa boca (Sl 139.4). Portanto, não precisamos encarnar nossos pensamentos para Deus saber o que pensamos.

Assim, se encarnamos nossos pensamentos para falar com Deus — e o nome disso é “oração” —, não é para que Deus conheça nossos pensamentos, mas para que nós mesmos conheçamos nossos próprios pensamentos. Enfim, para que sejamos confrontados pelo coração. Com outras palavras, estou dizendo que o fato de sabermos que Deus não precisa da encarnação do verbo para ter ciência do que pensamos deve ser suficiente para nos constranger diante da verdade, deve ser suficiente para fazer com que oremos buscando expressar o que de fato o coração está dizendo. Saber que Deus conhece o coração é o passo mais importante para descobrir que o coração é mais enganoso do que qualquer coisa deste mundo (Jr 17.9). A prova de fogo do coração é a oração.

Bom, tudo isso revela a nossa insuperável inferioridade em relação a Deus. Ele conhece nossos pensamentos muito antes de encarnarmos nossos pensamentos. Em contrapartida, só conhecemos os pensamentos de Deus se ele encarnar seus pensamentos. Acontece que Deus encarnou seus pensamentos, mas de uma maneira muito diferente da nossa. Veja, nosso ser é uma coisa (homem) e o nosso pensamento encarnado é outra bem diferente (verbo, palavra). Em contraste, o verbo, a palavra, o pensamento de Deus é o próprio Deus (Jo 1.1). Isso não é pouca coisa! Isso significa que aquilo que Deus tornou conhecido através da encarnação não foi apenas um pensamento ou um verbo, mas o próprio Deus. E este é o mistério que repousa sobre o menino Jesus, que hoje deve ser celebrado não como um mero pensamento ou uma mera mensagem de paz dada por Deus aos homens, mas, pelo contrário, o menino Jesus deve ser celebrado como Deus dado aos homens (Mt 1.23). Ou seja, o menino Jesus não deve ser apenas lembrado, mas adorado hoje e sempre. Eis o motivo pelo qual gosto de entender que o famoso versículo joanino “e o verbo se fez carne” também pode significar “e os pensamentos de Deus se tornaram agora conhecidos por nós”.


Feliz Natal!
Jonas Madureira

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O Natal das coisas simples

Ouvi uma reportagem pelo rádio, em que a entrevistadora perguntava onde e como as pessoas passariam o Natal. Todas responderam que iam passar com a família. Algumas variações: “vou à igreja depois vou ficar com minha família”, ou “vou para uma festa, mas antes vou ficar com minha família”. Também ouvi um dizer que ia passar sozinho, porque estava longe da família, mas o coração dele estaria com a família. Ainda há os amigos, uma família fraterna, que se escolhe, mas igualmente ligada pelo afeto.

Natal é essa festa em que as pessoas se lembram da família, dos amigos, dos mais necessitados, fazem gestos de solidariedade. E isso é bom, ainda que de modo sazonal, ainda que pequenos, esses gestos são válidos. Bom seria que se repetissem durante todo o ano, mas se acontecem agora, já é alguma coisa. Há sempre uma esperança de que esse sentimento que acontece nessa época do ano se perpetue, ou, pelo menos, seja reavivado em algum momento do ano seguinte.

É claro que, como sempre, muitos de nós cometemos o erro de procurar o “espírito do Natal” nos lugares errados. Ou talvez fique melhor colocar a essência do Natal, o significado dele. Procuramos em shoppings, ou nas ruas comerciais apinhadas de gente aflita por conseguir comprar algo, ou nas celebrações grandiosas e majestosas que o mundo do entretenimento faz. Mas não o encontraremos nesses lugares. Esse foi o erro que os magos do oriente cometeram quando foram procurar Jesus. Foram direto para o palácio de Herodes, mas ele não estava lá. Depois de corrigirem o caminho, encontraram-no envolvido em panos, numa manjedoura (um cocho), numa estrebaria (um curral). Lugar improvável para o Filho de Deus.

Natal é a lembrança de que Deus não somente se fez homem e habitou entre nós, mas de que Ele se fez menino, uma criancinha, frágil, dependente, pequeno. Deus, de tão grande, se fez pequeno. Deus se batizou de humanidade, imergiu em nossa realidade de sangue, suor e lágrimas. E escolheu as coisas simples desse mundo para as quais conferiu importância.

Era desprezível o local onde o menino Jesus nasceu, mas o importante ali era o afeto que recebia de seus pais, afeto que se revelou em cuidado, carinho. Talvez por isso esse clima tão favorável à busca por um lugar cheio de afetos nessa época.

Ali nascia a esperança de dias melhores. Deus não abandonou seus filhos à própria sorte, mas veio até eles, tornou-se um deles, mergulhou no seu cotidiano, foi dependente de uma família, depois, quando adulto, experimentou toda complexidade das relações humanas, do que há de bom e do que há de mais perverso. Da solidariedade à traição.

Mas depois daquela noite, nada mais foi como era antes. Deus está conosco para sempre, imerso em nossa humanidade, presente em nossa caminhada e nos convidando a sermos como ele: humano, simples e pleno de amor e solidariedade.

Na noite de Natal, quando for levantar um brinde, seja em que ambiente for, num palácio ou numa casa simples, celebre a esperança contida no nascimento daquele que é Deus conosco para sempre. Isso é Natal. E é simples.


Márcio Rosa da Silva

Natal

"Glória a Deus nas maiores alturas, paz na Terra e boa vontade entre os homens!"

Essa saudação angélica aos pastores, em Belém da Judéia, na madrugada em que nasceu Jesus de Nazaré, anunciava o cumprimento de várias profecias, e a consecução de uma promessa, o nascimento da criança prometida do jardim: o descendente da mulher, que esmagaria a cabeça do serpente, signo do adversário de nossas almas, fomentador da confusão que inviabiliza qualquer relacionamento, seja com o Deus, seja consigo mesmo, seja com o próximo.

O Deus Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), através do Filho, de quem a criança da manjedoura, nascida sob a sombra da cruz, e à luz da ressurreição, é a encarnação, oferecia a sua própria vida para que houvesse paz.

Nesse gesto, ao satisfazer o princípio de justiça, que permite o sustento do Universo, a Trindade eterna semeava o princípio da graça, o princípio do favor imerecido, que permite o perdão.

A Trindade eterna pode perdoar-nos por nossas ofensas. Perdoados, nos reencontramos com o Eterno, e, assim, conosco, pois a identidade de cada um de nós estava nos aguardando em Deus, e fica desvendada a razão de nossa existência: comungar com a Divindade Trina. E, conscientes e movidos pela graça, podemos oferecer ao outro o perdão, que é a condição para a paz, e a semeadura da justiça.

É Natal, Jesus nasceu! O Deus veio ao nosso encontro para que possamos nos achar na existência, e, então, encontrar o outro na vida, que, necessariamente, deve ser compartilhada entre todos, para que a dignidade, que impõe a satisfação das condições necessárias para um viver com a melhor qualidade, seja um bem universal.

Feliz Natal!
Ariovaldo Ramos

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O rosto de Deus

Rafael, Michelangelo e vários outros pintores tentaram retratar o rosto de Deus. Foram infelizes. Como mostrar na tela quem nunca foi visto? Com a proximidade do Natal, mais artistas procuram esboçar o que imaginam ser o rosto de Deus.

Ele se parece com uma criança? É o frágil bebê das manjedouras? Talvez; o reino do céu pertence aos pequeninos, aos que mamam. Ao tentar desenhar o mistério, o artista termina com um ídolo.

O rosto de Deus, entretanto, pode ser experimentado nos sem-teto que perambulam pelas ruas e dormem nos viadutos das grandes cidades. Quando Jesus nasceu, a família estava sem moradia certa, não possuía recursos para pagar uma hospedaria e viu-se obrigada a refugiar-se em um estábulo.

O rosto de Deus pode ser percebido em vítimas de preconceito e em injustiçados. Sobre o menino que nasceu em Belém pairou uma dúvida: ele era de fato filho de José? O casal não inventara aquela história toda para se safar de um rolo?

O rosto de Deus se revela nos desprezíveis, nos que foram condenados à margem da história. Quando o menino nasceu, ninguém notou ou escutou o alarido dos anjos. A trombeta que anunciou paz na terra pela boa vontade de Deus passou desapercebida da grande maioria. Apenas um punhado de pastores foi sensível para presenciar o momento mais importante da história.

Qual o rosto de Deus? Ele não se parece com os cartões postais ou com o menino de barro das lapinhas. Deus é igualzinho a Jesus. E Jesus é bem parecido com o vizinho do lado, com a mulher que pede socorro na delegacia do bairro e com a família que chora a morte do filho no corredor do ambulatório.

Não é preciso muito para encontrar Deus, basta um coração de carne, humano.


Ricardo Gondim

Deus repousava na manjedoura

Há algum tempo, intrigado, comecei a questionar porque Jesus Cristo escandalizou fariseus, saduceus e doutores da lei. Nenhuma novidade me ocorreu: há séculos os judeus aguardavam o Messias. Eles viviam na expectativa política de que um Ungido se levantaria em nome de Deus. Nos setores mais politizados, o Messias viria como o grande libertador – uma encarnação melhorada e glorificada de Moisés; um Dom Sebastião dos tempos antigos. Para segmentos religiosos ortodoxos, o Messias chegaria para renovar os princípios da Torá. O cumprimento da Lei representaria uma renovação espiritual que resgataria o povo para um novo tempo.

Mas além dessa grande espera, Paulo também diz que Jesus foi loucura para os gregos. O Nazareno se revelou um retumbante fracasso porque nunca deixou colar nele as expectativas judaicas e depois, nem as gregas, sobre as ações da divindade. Via-se claramente que em Jesus Deus não se parecia com o Movedor Imóvel de Aristóteles. Ele colocava teologia e filosofia de ponta cabeça.

Se o Deus dos fariseus zelava pelo cumprimento estrito da lei, Jesus a tornava flexível pela misericórdia. Quando perdoou a mulher apanhada no próprio ato do adultério, deixou claro que o poder do amor dobra a rigidez da lei: “Onde estão os teus acusadores. Eu não te condeno, vá em paz e não peques mais”. Nos casos da siro-fenícia, do centurião romano, da “impura” devido a uma menstruação crônica, do endemoninhado gadareno, do cego da calçada, fica claro que qualquer um pode aproximar-se de Deus sem exigências ou protocolos religiosos. Quando Jesus estava por perto, esvaziava-se a ideia de “não-eleito”.

Jesus não comparou Deus a um fiscal punitivo, mas a um pai machucado. No alpendre, enquanto espera a volta do filho perdido, os olhos úmidos do pai eram os olhos de Deus. Sim, mesmo desolado, o velho corre ao encontro do filho sujo, mal cheiroso e o cobre de beijos.

Ricardo Peter intuiu corretamente o porquê do ódio dos fariseus contra Jesus:

Os fariseus começaram a perceber que Jesus estava mudando radicalmente a maneira de entender quem é Deus. Este Deus teria podido provocar confusão e dispersão entre as pessoas religiosas. O comportamento do Deus anunciado por Jesus, do Deus que demonstra um amor incondicionado pelos pecadores, começava a colocar o Deus dos fariseus na sombra. Tinha início uma luta de ‘Deus contra Deus.

A religião judaica antecipara um Deus mais forte que os antigos baalins, que causaram tanto problema. Jesus andou na contramão, ele tomou sobre si a fragilidade dos serviçais. Os conteúdos de sua causa não lidavam com poder, mas com serviço. Os tempos exigiam um líder que convocasse exércitos com a força letal superior às legiões romanas. Mas o Galileu preferia colocar uma criança no colo e dizer: “Dos tais é o Reino de Deus”.

A ambição era posicionar Israel como nação líder. O messias, certamente, vingaria séculos de opressão impostos por egípcios, persas, gregos e romanos. Mas eis que ele abriu o rolo da lei numa sinagoga e leu: “O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para pregar boas notícias aos pobres”. Se um homem assim, radicalmente humano, comprometido com a escória do mundo, se dizia a expressa imagem de Deus, tal homem precisava ser assassinado. Um Deus fraco não servia aos interesses da religião – como ainda não serve.

Além desta enorme decepção entre os semitas, os gregos também se horrorizaram. Se Deus encarnou assim, como sustentar as ideias de Aristóteles? Jesus não se assemelhava em nada com o conceito de Deus como “Ato Puro” ou como “Motor Imóvel”. O Rabi de Cafarnaum se movia de “viscerais afetos” por uma viúva a caminho de enterrar o filho, chorava diante da sepultura do amigo (a dor de homens e de mulheres dói em Deus; Isaías é enfático- 63.9 -: “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado”.), irritava-se quando a religião oprimia e se deixava molhar pelas lágrimas de uma prostituta. Deus não se mostrara apático.

Volto a Ricardo Peter com sua intuição sobre a revelação de Deus que Jesus brindou o mundo:

O Deus de Jesus assume o humano a tal ponto que liberta o homem da exigência de ser como Deus. Deus contém em si, agora o máximo de humanidade. Deus encontra-se imerso no humano. O ‘Reino’ de Jesus não requer seres excepcionais, melhores que o ‘resto dos homens’, que se preocupam em ser por eles contaminados.

Mas, o que verdadeiramente escandalizou no Deus que Jesus revelava foi sua tremenda inconsistência. Como assim, Deus inconstante? Misericórdia é sempre uma tremenda inconstância. A inconsistência de Deus em reverter sentenças, em anular destinos, em refazer histórias, em anular tragédias, foi a marca mais exuberante da vida de Cristo. Até o fato de seu ensino ser vazio de dogmatismos, desestabilizava qualquer teologia. E talvez tenha sido este o pingo que entornou a taça da ira dos fariseus: o Deus inabalável, rigoroso e severo do Antigo Testamento estava ausente nas palavras, gestos e atitudes do filho de Maria.

Ainda hoje, os que distinguem entre o Deus dos fariseus e o Deus de Jesus acharão boas razões para decretar sua morte. O reino que ele inaugurou entre os homens não encontra paralelo com os reinos deste mundo. Seus ensinos não são codificáveis.

Portanto, o Deus que nasceu em uma manjedoura continuará despercebido dos poderosos. Ele só será notado nas realidades singelas e pequenas: grãos de mostarda, meninos e meninas, ovelhas indefesas, desempregados em calçadas, servos inúteis, indignos, filhos pródigos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, estrangeiros, soldados e exorcistas informais.

Deus poderia escolher muitas maneiras para mostrar-se real, mas preferiu nascer em uma periferia esquecida; optou viver de um jeito que pode ser, poeticamente, comparado ao de um cordeiro.

Depois de séculos, ainda vale a pena celebrar um natal desses.


Ricardo Gondim

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Natal não é um só

O Natal não é um só: um é o Natal do egoísmo e da tirania, outro é o Natal da abnegação e da diaconia; um é o Natal do ódio e do ressentimento, outro é o Natal do perdão e da reconciliação; um é o Natal da inveja e da competição, outro é o Natal da partilha e da comunhão; um é o Natal da mansão, outro é o Natal do casebre; um é o Natal do prazer e do amor, outro é o Natal do abuso e da infidelidade; um é o Natal no templo com orquestra e coral, outro é o Natal das prisões e dos hospitais; um é o Natal do shopping e do papai noel, outro é o Natal do presépio e do menino Jesus.

O Natal não é um só: um é o Natal de José, outro é o Natal de Maria; um é o Natal de Herodes, outro é o Natal de Simeão; um é o Natal dos reis magos, outro é o Natal dos pastores no campo; um é o Natal do anjo mensageiro, outro é o Natal dos anjos que cantam no céu; um é o Natal do menino Jesus, outro é o Natal do pai dele.

O Natal de José é o instante sublime quando toma no colo o Messias. A partir daquela primeira noite jamais conseguiria dormir em paz. Sob seus olhos e sua responsabilidade cresceria aquele de quem falaram a Lei e os profetas. Era de José a tarefa de ensinar ao menino a respeito de sua verdadeira identidade. Enquanto recitava o profeta Isaías: “Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. Mas julgará com justiça aos pobres, e repreenderá com eqüidade aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio, e a justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade o cinto dos seus rins”, dizia ao garoto, “esse aí é você, meu filho”.

O Natal de Maria é um canto de redenção: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”. O Magnificat anuncia a redenção de geração em geração, obra das mãos do Deus que visita e abençoa os humildes e pobres, mas humilha e despede de mãos vazias os poderosos e prepotentes. Uma redenção que transborda a subjetividade do foro íntimo e se esparrama pelo chão das sociedades injustas, atravessando o tempo e fazendo livres nossos filhos e os filhos dos nossos filhos.

O Natal do anjo mensageiro é proclamação de boas notícias a todos: José, Maria, pastores no campo e todos os que inclinarem seu ouvido e coração para ouvir. Menos para o menino Jesus. A boa notícia de Deus aos homens a quem quer bem, é também vaticínio de morte para o menino na manjedoura. Ao divulgar que na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor, o anjo mensageiro desperta a ira de Roma, seus governantes e imperadores. Somente César é Salvador, filho de Deus e Senhor. Mas de agora em diante estaria presente no mundo aquele cujo reino jamais terá fim. A pedra profetizada por Daniel, solta pela mão de Deus para esmagar todos os reinos deste mundo já rolava na história, e atendia pelo nome de Jesus. As espadas romanas derramaram sangue inocente (os impérios deste mundo sempre derramam sangue inocente), mas o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, sobreviveu para desfazer a grande mentira: a Pax nunca foi romana.

O Natal dos anjos cantores definiu que Deus somente é glorificado nos céus quando há paz na terra entre os homens. Desde então, Natal é necessariamente compromisso com a justiça, convocação para a reconciliação, outorga de perdão. Os pastores no campo deixaram seus rebanhos, que guardavam do mal, movidos pelo ímpeto da curiosidade e pelo impulso do maravilhamento, e quem sabe, guiados pela intuição de que naquela noite em Belém o mal estava acuado, reforçando as frágeis trancas das portas de seus territórios, sabendo já que seus dias eram contados. Havia irrompido o tempo quando o lobo e o cordeiro dormiriam juntos, e nenhum espírito tenebroso ousaria ferir a noite do nascimento do príncipe da Paz.

E o Natal dos três reis Magos? O Natal dos três (que não eram necessariamente três) reis (que não eram reis) magos (que não eram magos) foi tempo de adoração. Estudiosos dos corpos celestiais, viram a estrela no Oriente, e foram em busca do rei dos judeus, para o adorar. Trouxeram consigo ouro, incenso e mirra, pois sabiam que adorar é servir, doar, presentear. O menino que recebeu presentes enquanto na manjedoura distribuiu entre os pobres as suas riquezas e nos ensinou: quem deseja me dar um presente que o faça a um dos meus pequeninos. Assim, até hoje, os adoradores de Jesus se espalham no mundo distribuindo riquezas, abençoando os que sofrem, suprindo os pobres, promovendo a justiça e sinalizando a paz.

O Natal não é um só. O menino Jesus também teve seu Natal. E assim o explicou: Eu vim para que tenham vida; eu vim buscar e salvar o que se havia perdido; eu não vim para ser servido, mas para servir e dar a minha vida em resgate de muitos. O Jesus do primeiro Natal até hoje segue seu caminho batendo em todas as portas e dizendo “quem ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei com ele, e ele comigo”.


Ed René Kivitz

A espiritualidade do Ocidente brigão, ou o fruto do Natal

O Ocidente é brigão, brigamos contra a escravidão, contra ditaduras, por justiça, por liberdade religiosa, por república, por democracia, por direitos humanos... Enfim, estamos sempre engajados numa luta qualquer, por “n” meios: bélicos ou choque de ideias ou similares. Estamos sempre indignados, protestando, furando cercos, como o Wikileaks, por exemplo.

No Oriente a gente não vê tanto disso, os reis até brigam por poder, as religiões brigam por hegemonia, não por liberdade religiosa, mas, o povo é mais cordato. Os da chamada classe nobre, ou os da elite vivem com maior tranquilidade, enquanto que no Ocidente, os da elite parecem estar sempre sob júdice, sempre sob alguma injunção de ordem moral, sempre vistos como portadores de algum tipo de culpa.

Certo! Tem as tomadas de poder no Oriente Médio, mas é troca entre elites, ou pretendentes ao posto de nova elite. Houve Ghandi e Mao Tse Tung, mas eles importaram conceitos e brigas do Ocidente. Aliás, quanto mais próximos do Ocidente, mais tendentes ao espírito revolucionário.

Por que a diferença? Por causa da distinção que há, entre Ocidente e Oriente, na espiritualidade!

Espiritualidade como a busca de significado para a vida! O que, até recentemente, era fornecido, quase que exclusivamente, pela religião.

O corte religioso predominante no Oriente é de enfase cármica ou determinista. Crenças que ordenam a vida numa relação de causa e efeito, principalmente, de ordem espiritual, onde a vida e a consequente ordenação social são custos cobrados pela história de existências passadas, ou desígnios de um ser todo-poderoso, que escreveu a história de cada um ao seu bel prazer. Crenças, tais, que favorecem a um comportamento de maior acomodação ao, aparentemente, estabelecido na vida.

Já o Ocidente se desenvolveu sob a crença num ser que, embora todo-poderoso, foi desobedecido, logo, não se impôs, e que busca conquistar o ser humano pelo amor. Um ser que pagou um alto preço para ser aceito de modo voluntário. Um ser que abandonou a sua glória para buscar a quem havia perdido, identificando-se com a sua criação no que ela tem de mais frágil, a mortalidade. Que, ao invés de cobrar indenização, paga o custo da quebra do princípio de justiça. Que conclama à fé e à consequente mudança de vida pela submissão voluntária. Que, ao arcar com todos os custos, torna o ser humano protagonista de sua história e responsável pelo desfecho da mesma.

A oração (conhecida como Pai Nosso) ensinada por Jesus de Nazaré, que se apresenta como o ser todo-poderoso em estado de fragilidade extrema, munido apenas de fé exemplar, é a síntese dessa espiritualidade.

Orar é falar com a divindade: nessa atividade fica definido o ser divino, o fiel, a comunidade, o relacionamento com a divindade, o relacionamento com os demais membros da comunidade, o relacionamento com a história e o relacionamento com a existência.

A divindade é apresentada como pai, logo é um ser relacional, porque paternidade é relacionamento. E é pai por decisão pessoal, porque não está moralmente obrigado a isso, então, a humanidade tem como pai, alguém que sempre quis essa paternidade. Isso torna todo o ser humano digno pelo simples fato de existir. O divino o quis para o ter como filho.

Como o enunciado é “pai nosso”, os seres humanos são todos irmãos, todos iguais em dignidade. Qualquer noção de elite fica sob suspeição. Como a divindade está nos céus, logo, é diferente de seus filhos, o que torna impossível a qualquer de seus filhos pleitear uma posição divina entre os irmãos, porque só a divindade pode ser distinta.

A divindade tem um projeto: “o reino” que é apresentado como uma realidade onde, na dimensão da história humana, só a sua vontade é feita; mas, na oração, é um pedido, logo, um desejo nascido da vontade de todos os que assumiram esse nível de relacionamento com a divindade. O assumir o projeto da divindade, como aspiração para a humanidade, condena toda aspiração, de qualquer ser humano, de tornar hegemônico um poder, uma pessoa ou uma ideia, mesmo em nome da divindade.

A divindade é quem sustenta a todos, porém, não a cada um, de modo que o pão (nosso) é de todos, e todos são responsáveis para que cada um tenha acesso ao que é para todos. Qualquer movimento diferente é apropriação indébita.

Nada pode diminuir um ser humano perante o outro, nem mesmo os seus erros, por isso todo ser humano deve ser perdoado, o que não significa que aquele (a) que errou não responderá por seu erro, significa que nenhum ser humano pode se vingar, o atingido pelo erro do outro não pode se ver como alguém especial em relação ao outro, o deve perdoar, de modo que do errado seja cobrado apenas a satisfação da justiça, nunca a indenização do sentimento do ofendido. Como a divindade só sustenta o universo por ter perdoado à humanidade a ofensa que esta lhe fez, todo membro da humanidade tem de perdoar a qualquer ser humano por qualquer ofensa que faça a si, ou à raça humana. A oração é para que a divindade ratifique a todos o perdão original, mediante o fato da humanidade o ter como parâmetro para o perdão cotidiano.

A humanidade é responsável por escolher o bem. A divindade está pronta para nos ajudar, mas não decidirá por nós.

E, na oração, fica estabelecido que só a divindade tem direito inquestionável ao governo; e ao exercício do poder, em seu próprio nome; e que só à divindade pode ser dado tratamento especial.

Tal espiritualidade, desenvolvida a partir de tais parâmetros, fará só ter significado a vida que não se conformar com qualquer coisa diferente, uma vez que viver passa a ser definido como uma busca pela consolidação de tais valores. É uma espiritualidade aguerrida! É uma espiritualidade na história e para a história; é uma espiritualidade do direito.

Espiritualidade passa a ser a busca por um relacionamento com a vida que produza dignidade, igualdade, isonomia, solidariedade, justiça e responsabilidade para com a história comum.

Jesus de Nazaré disse que deixava a paz, mas não que traria a paz. (Jo 14.27; Mt 10.34)

Jesus de Nazaré se propõe a levar todo o ser humano a viver em paz, por saber quem é e pelo que deve viver, mas, não na paz, porque todo o ser humano se torna responsável por denunciar e resistir a tudo que não for justo.


Ariovaldo Ramos

(Des) Mobilidade ou Feliz Natal!

Houve tempo em que os seres humanos se comunicavam pelo som dos tambores e por sinais de fumaça, e havia que se contar com a contribuição do meio ambiente e com um sem número de imponderáveis para que as mensagens fossem recebidas.

Hoje todos são encontrados a qualquer hora e em qualquer lugar. E, mais, tudo está à mão, de tal maneira que um ser humano pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. Transmissões “on time” ou em “real time”, todos “on line”. Tudo “on” em todo o tempo.

“Facebook”; “twitter”; “orkut”; “buzz”; “ios4”; “android”; “google”; “yahoo” e assemelhados por todo o mundo: todos disputam a preferência humana e, cada vez mais, com cada vez menos aparelhos, muito mais tarefas são deflagradas, monitoradas, concretizadas. E vem muito mais por aí, mais “gadgets” e maior mobilidade.

Cada vez mais falamos com e através de máquinas, e já tem gente prometendo, para 2045, robôs que decidem por si; mas, infelizmente, essa explosão de relações não é tão verdade quanto ao relacionamento entre humanos.

As pessoas estão cada vez mais distantes entre si, os relacionamentos estão desmoronando, os casamentos não resistem à menor crise, o individualismo ganha proporção geométrica, embora, a privacidade esteja se tornando impossível: como demonstrou o site “wikileaks”, nem os sistemas mais seguros conseguem garantir o privado.

É a época do paradoxo: sem privacidade, mas, com cada vez menos amizade!

Aliás, as personalidades públicas parecem já ter se dado conta de que a privacidade se perdeu, e, então, via “reality shows”, tentam controlar o nível de exposição pessoal.

Em meio a tudo isso é Natal! Data em que se comemora o maior ato relacional de todos os tempos: Deus se fez homem para que os homens pudessem entendê-lo. Em que, também, se comemora, a maior perda de mobilidade em todos os tempos, Deus, que tudo pode, passou a poder apenas no nível do humano, ainda que repleto de fé; Deus que em todos os lugares está, passou a estar, limitado pela física, num só lugar de cada vez. Tudo para se relacionar.

Nesse tempo em que nos comunicamos cada vez mais, para nos relacionarmos cada vez menos, é tempo de pensar no Personagem máximo do Natal, e de lembrar a importância que uma vez foi dada ao relacionamento com e entre os seres humanos.

É Natal para que “twits”, “e-mails” e SMS, não deletem apertos de mão, abraços e beijos. Feliz Natal


Ariovaldo Ramos

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Decretos de Natal

Fica decretado que, neste Natal, em vez de dar presentes, nos faremos presentes junto aos famintos, carentes e excluídos. Papai Noel será malhado como Judas e, lacradas as chaminés, abriremos corações e portas à chegada salvífica do Menino Jesus.

Por trazer a muitos mais constrangimentos que alegrias, fica decretado que o Natal não mais nos travestirá no que não somos: neste verão escaldante, arrancaremos da árvore de Natal todos os algodões de falsas neves; trocaremos nozes e castanhas por frutas tropicais; renas e trenós por carroças repletas de alimentos não perecíveis; e se algum Papai Noel sobrar por aí, que apareça de bermuda e chinelas.

Fica decretado que cartas de crianças só as endereçadas ao Menino Jesus, como a do Lucas, que escreveu convencido de que Caim e Abel não teriam brigado se dormissem em quartos separados; propôs ao Criador ninguém mais nascer nem morrer, e todos nós vivermos para sempre; e, ao ver o presépio, prometeu enviar seu agasalho ao filho desnudo de Maria e José.

Fica decretado que as crianças, em vez de brinquedos e bolas, pedirão bênçãos e graças, abrindo seus corações para destinar aos pobres todo o supérfluo que entulha armários e gavetas. A sobra de um é a necessidade de outro, e quem reparte bens partilha Deus.

Fica decretado que, pelo menos um dia, desligaremos toda a parafernália eletrônica, inclusive o telefone e, recolhidos à solidão, faremos uma viagem ao interior de nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a nossa verdadeira identidade. Entregues à meditação, fecharemos os olhos para ver melhor.

Fica decretado que, despidas de pudores, as famílias farão ao menos um momento de oração, lerão um texto bíblico, agradecendo ao Pai de Amor o dom da vida, as alegrias do ano que finda, e até dores que exacerbam a emoção sem que se possa entender com a razão. Finita, a vida é um rio que sabe ter o mar como destino, mas jamais quantas curvas, cachoeiras e pedras haverá de encontrar em seu percurso.

Fica decretado que arrancaremos a espada das mãos de Herodes e nenhuma criança será mais condenada ao trabalho precoce, violentada, surrada ou humilhada. Todas terão direito à ternura e à alegria, à saúde e à escola, ao pão e à paz, ao sonho e à beleza.

Fica decretado que, nos locais de trabalho, as festas de fim de ano terão o dobro de seus custos convertido em cestas básicas a famílias carentes. E será considerado grave pecado abrir uma bebida de valor superior ao salário mensal do empregado que a serve.

Como Deus não tem religião, fica decretado que nenhum fiel considerará a sua mais perfeita que a do outro, nem fará rastejar a sua língua, qual serpente venenosa, nas trilhas da injúria e da perfídia. O Menino do presépio veio para todos, indistintamente, e não há como professar o “Pai Nosso” se o pão também não for nosso, mas privilégio da minoria abastada.

Fica decretado que toda dieta se reverterá em benefício do prato vazio de quem tem fome, e que ninguém dará ao outro um presente embrulhado em bajulação ou escusas intenções. O tempo gasto em fazer laços seja muito inferior ao dedicado a dar abraços.

Fica decretado que as mesas de Natal estarão cobertas de afeto e, dispostos a renascer com o Menino, trataremos de sepultar iras e invejas, amarguras e ambições desmedidas, para que o nosso coração seja acolhedor como a manjedoura de Belém.

Fica decretado que, como os reis magos, todos daremos um voto de confiança à estrela, para que ela conduza este país a dias melhores. Não buscaremos o nosso próprio interesse, mas o da maioria, sobretudo dos que, à semelhança de José e Maria, foram excluídos da cidade e, como uma família sem-terra, obrigados a ocupar um pasto, onde brilhou a esperança.


Frei Betto

Natal, o ópio do povo

Uma vez ouvi um pastor dizer que duas classes de pessoas não podem sorrir muito, médicos plantonistas e pastores. Elas convivem constantemente com a dor das pessoas. Na verdade todos convivemos. Entretanto pastores e médicos são (ou deveriam ser) mais sensíveis que os outros, conhecem a fundo a alma e o corpo, têm nisso seu objeto de trabalho, não se familiarizam com a doença, não se acostumam com a dor, investem suas vidas na melhoria das dos outros.

Tenho percebido ultimamente um sentimento constante em meu coração. Não sei explicar direito. Choro com mais facilidade, presto atenção nas conversas de quem se senta ao meu lado em qualquer lugar, observo as pessoas com mais atenção, penso em minha família o tempo todo. Não sei o que está acontecendo mas tenho “gostado” de tal sentimento. Ele me aproxima mais da verdadeira realidade, das pessoas e de Deus. Realmente tenho sorrido um pouco menos.

Sempre fui e ainda sou muito alegre. Gosto de celebrar, de estar entre amigos. Mas rir, festejar e se alegrar todo o tempo é, no mínimo, fugir da realidade em que vivemos. É fugir dos outros, de seus problemas, de suas dores, de suas lágrimas e de nossas próprias. É por isso que não gosto tanto do Natal. Gostava quando era criança. Não gosto mais. É uma época de muitos sorrisos, mas de pouca realidade.

Se Karl Marx fosse vivo, diria: “O Natal é o ópio do povo”. Ele anestesia o cotidiano e traveste nossa realidade vexatória com uma fantasia de fraternidade e alegria plenas.

Alguns poucos vão revelar amigos secretos em meio a uma farta ceia de tipicidades, vão esperar a meia noite para dar o abraço contido e desejar “um feliz natal” sem saber o que isso significa e, quando chegarem em casa, seus filhos correrão ansiosos para procurar o presente deixado pelo “Papai Noel” em algum lugar da casa.

Um amigo de muitas posses tem feito, nos últimos três anos, um jantar de Natal muito especial. Ele aluga alguns ônibus e na noite de 24 de dezembro, sai recolhendo pessoas pelas ruas e em bairros pobres de nossa cidade. Reúnem-se num salão e lá, ele e uma equipe servem um belo “jantar de natal”. Sabemos que isso não resolverá o problema da fome nem da pobreza locais. Entretanto é nesse ambiente tão compensador que percebo que estamos mais próximos do que é a vida real. No último jantar perceberam uma senhora saindo com alguns copos cheios de comida do salão. Perguntaram o que ela iria fazer com aquilo e ela disse: “vou levar para minha filha que não pôde vir comigo”, emendou em seguida: “moço, esse foi o melhor natal da minha vida”. O melhor natal da vida dessa senhora que já havia passado por tantos deles. Não deu para conter as lágrimas. Em toda a ilusão desse dia a realidade falou e sempre falará mais alto.

Acabei de voltar de meu almoço. Almoço todos os dias. Tenho ido muito ao centro da cidade, onde, despercebidamente, posso ouvir histórias e observar pessoas. Cheguei ao local de praxe e meu lugar de costume estava ocupado. Era uma jovem, estética “assembleiana”, muito simples, mal vestida, já com alguns filhos. Olhei com reservas, afinal ela ocupava o “meu” lugar. Era um balcão e sentei-me dois bancos depois. Percebi que a dona do estabelecimento, uma japonesa sempre austera e carrancuda, estava, para meu espanto, carinhosamente insistindo para que ela e sua filha pequena comessem algo. Continuei a observar e ouvir. “E como vai a quimioterapia?”, perguntou a dona da lanchonete colocando, em seguida, uma sacola cheia de comida e um guardanapo com dinheiro nas mãos da jovem. Pensei: “Não é justo, Senhor!!!”. Uma jovem já com tantos filhos, com tanta dificuldade e na iminência de deixá-los órfãos por causa de um câncer. E como será o Natal dessas crianças. E como será o Natal dessa mulher?

Não interessa né?! Afinal o nosso lugar de praxe está garantido.

Ah é !?! Não sou médico, sou pastor.


Fabricio Cunha

O Papai Noel dos deputados

“Pior que tá não fica, vote Tiririca!” E não é que o deputado federal mais votado do país tem toda razão! Em pleno apagar das luzes da atual legislatura, deputados federais e senadores decidiram se dar um generoso presente de Papai Noel: aumento salarial de 62%.

A partir de fevereiro, os membros do Congresso passam a ganhar, por mês, R$ 26,7 mil. Hoje, ganham R$ 16,5.

Tudo aprovado em regime de urgência, com o desacordo de apenas 35 deputados federais, entre os quais a bancada do PSOL e Luiza Erundina, do PSB.

E vem aí o efeito cascata. A Constituição prevê que deputados estaduais podem ter remuneração de até 75% do valor dos vencimentos dos federais. E os vereadores não ficarão atrás. O aumento terá impacto de R$ 2 bilhões por ano nas contas públicas. E nós, contribuintes, pagaremos toda essa farra.

Não pense o leitor que o assalto aos cofres públicos se reduz a este aumento. Cada um dos 513 parlamentares da Câmara dos Deputados recebe, todo mês, além do salário, R$ 60 mil como verba de gabinete; verba indenizatória (hospedagem, combustível e consultoria) de R$ 12 mil; R$ 3 mil de auxílio-moradia; R$ 4,2 mil para telefone e correspondência; além de cota para passagens aéreas, cujo valor varia de R$ 6 mil a R$ 16,5 mil, dependendo do estado de origem.

Em resumo: um deputado federal custa por mês, ao nosso bolso, R$ 119.378,87, no mínimo, podendo este valor chegar a R$ 130.378,87.

E, com frequência, deputados enfiam no próprio bolso, através de “laranjas” e empresas-fantasmas, dinheiro de emendas parlamentares.

Tiririca, por concidência, visitou pela primeira vez o Congresso na última quarta-feira, dia em que os parlamentares se deram o valioso presente de Papai Noel. Não se conteve e declarou: “Cheguei na hora certa.” Tem razão.


Frei Betto

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal: Jesus ou Papai Noel

Aproxima-se o Natal. Curioso como, numa sociedade tão laicizada como a nossa, na qual predomina a tendência de escantear a religião para a esfera privada, uma festa religiosa ainda possa constituir um marco no calendário dos países do Ocidente.

Há nisso uma questão de fundo: o ser humano é, por natureza, lúdico e sociável, o que o induz a ritualizar seus mais atávicos gestos, como alimentar-se ou se relacionar sexualmente. Além de elaborar, condimentar e enfeitar sua comida, o que nenhum outro animal faz, o ser humano exige mesa e protocolo, como talheres e a sequência prato forte e sobremesa.

No sexo, não se restringe ao acasalamento associado à procriação. Faz dele expressão de amor e o reveste de erotismo e liturgia, embora o pratique também como degradação (prostituição, pornografia e pedofilia) e violência (jogo de poder entre parceiros).

O Carnaval, como o Natal, era originariamente uma festa religiosa. Nos três dias que antecedem a Quaresma, período de jejum e abstinência recomendados pela Igreja, os cristãos se fartavam de carnes – daí o termo Carnaval, festival da carne. Resume-se, hoje, a uma festa meramente profana, onde a carne predomina em outro sentido...

Essa transmutação ocorre também com o Natal. Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica e religiosamente plural a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes.

Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração?

Longe de mim pretender restaurar a religiosidade repressiva do passado. Mas se há algo tão inerente à condição humana, como a manutenção (comer) e a procriação (sexo) da vida, é a espiritualidade. Ela existe há cerca de um milhão de anos, desde que o símio deu o salto para o homo sapiens. As religiões são recentes, surgiram há menos de dez mil anos.

Se a espiritualidade não é fomentada na linha da interiorização subjetiva e da expressão de conexão com o Transcendente, ela corre o sério risco de, apropriada e redirecionada pelo sistema, cair na idolatria de bens materiais (patrimônio) e de bens simbólicos (prestígio, poder, estética pessoal etc). Talvez isso explique por que a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas similares a catedrais pós-modernas...

Já não são princípios religiosos que norteiam a nossa vida. Desestimulados ao altruísmo e à solidariedade, centramos a existência no próprio umbigo – o que certamente explica, na expressão de Freud, “o mal-estar da civilização”, hoje acrescido desse vazio interior que gera tanta angústia, ansiedade e depressão.

Com certeza o Natal é ocasião propícia para, como propôs Jesus a Nicodemos, nascer de novo...


Frei Betto

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

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