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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Paixão: A possibilidade de passar pelo sofrimento sem sofrer

Jesus, o Cristo, passou por um sofrimento enorme e sem precedentes, desde que, antes da fundação do mundo, se esvaziou, assumindo a forma de servo (Fp 2.5-7), o que foi manifestado na cruz, por amor de nós (1Pe 1.18-20).

Jesus Cristo passou pelo sofrimento, mas, sem sofrer! Isto é, Jesus passou pelo sofrimento, mas, não conjugou o verbo sofrer.

Quando a gente conjuga o verbo sofrer, a gente traz o sofrimento para o espírito, a gente passa a se definir pelo sofrimento. A dor física e a tristeza, inerente ao sofrimento, passam a ser a identidade da gente. A vida passa a ser uma lamúria e a gente passa a se definir a partir do sofrimento por que passou ou passa, carregando-o para sempre como uma carteira que se mostra quando se quer falar de si.

Jesus nunca se permitiu a isso, diante da tristeza frente à truculência do sofrimento, e à traição e abandono dos seus alunos, ele continuava a afirmar que a sua vida ninguém tomava, ele a entregava para a reassumir (Jo 10.17,18). Era ele quem partia o pão e distribuía o cálice da nova aliança (1Co 11.23-26). Ele, e não o sofrimento a que se submeteu, é que estava como sujeito de sua história

Jesus, por causa desse protagonismo nunca negociado, pode dizer, no momento de dor e de abandono mais intensos: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lc 23.34) – a frase que sustenta o Universo.

Se Jesus tivesse conjugado o verbo sofrer, amaldiçoaria aos seus algozes e à toda a humanidade. A tentação de conjugar o verbo sofrer, de tornar o sofrimento na sua identidade foi vencida por Jesus o tempo todo; ele sempre manteve a sua identidade fundamentada em seu relacionamento com o Pai: “...sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela”(Jo 13.3,4)

Que boa notícia: a dor e a tristeza, inerentes ao sofrimento, não têm, necessariamente, de tomar o espírito e redefinir a identidade de quem passa pelo sofrimento! E, depois da queda, viver é passar pelo sofrimento, porque este foi, por nós (Gn3.17), tornado o ambiente onde toda a história se desenrola.

O mais triste, quando o sofrimento se torna a identidade da gente, é que tudo e todos passam a ser julgados ou analisados a partir do que se entende ter sofrido.

A reação da gente passa a ser, sempre, reação àquele sofrimento que sequestrou a identidade da gente, qualquer ser humano, o outro, desaparece, vira algoz ou salvador, mesmo nunca tendo participado do que sofremos, ou, mesmo que tenha sido instrumento de Deus na vida da gente algum dia, inclusive, nos ministrando ou socorrendo no momento do sofrimento. Nada mais isenta o próximo, todo mundo estará sob “júdice” , e, como disse o compositor: “Qualquer desatenção, pode ser a gota d’água.” A gente passa a gostar do martírio!

Na Paixão, Jesus, o Cristo, nos demonstra como passar pelo sofrimento mais atroz sem conjugar o verbo sofrer. Nos ensina como sofrimento algum pode nos roubar a identidade, nem tirar de nós o privilégio e a responsabilidade de ser o sujeito da nossa história. Aleluia!


Ariovaldo Ramos

sábado, 23 de abril de 2011

Pedro

Eu acho engraçado ver religiosos quererem posar de pessoas incrivelmente perfeitas, que não tem sombras, somente luzes. Todos nós somos feitos de sombras e luzes. Acho uma grande tolice insistir que a santidade consiste em nunca errar, nunca ser incoerente. Quem é absolutamente coerente?

Essa empáfia é desmascarada quando Jesus desafia aquele que não tem nenhum pecado a atirar a primeira pedra na mulher adúltera. Fico feliz que tenha sido naquele contexto, porque se Jesus fizesse a mesma pergunta hoje, em muitos lugares, tanto a mulher, quanto ele (Jesus) iriam levar muitas pedradas, porque o que não falta é gente achando que não tem pecado algum.

A Bíblia é um conjunto de livros que mostra o lado bom e o lado ruim de seus personagens. O que só traz mais autoridade a ela, porque não faz de seus personagens heróis sobre-humanos, ou super-humanos, mas mostra-os na plenitude de sua humanidade.

Pedro é um dos personagens mais interessantes dos Evangelhos, porque ele tem essa inconstância tão humana, essa incoerência que nos é muito próxima. Pedro tinha grandes virtudes, entretanto tinha também sérios desvios de caráter. Mas, no fim das contas, Pedro era um grande amigo de Jesus. E Jesus gostava dele mesmo sabendo quem ele era.

Pedro era um simples pescador com um desprendimento enorme, tanto que largou tudo e seguiu a Jesus assim que foi chamado. Tinha uma coragem incomum, do tipo que o fez caminhar sobre as águas ao comando do Mestre. Sua percepção sobre Jesus era clara, pois o reconhecia como o Cristo. Por outro lado, mostrou-se medroso várias vezes, intempestivo outras e, no pior momento de sua vida, de maneira covarde, negou que conhecesse Jesus.

Quem pode condenar Pedro? Também negamos a Jesus toda vez que nos recusamos a viver do modo como ele propôs. A negação acontece quando somos egoístas em vez de altruístas, avarentos em vez de generosos, quando mentidos em vez de dizer e viver a verdade. Nós O negamos quando nos recusamos a fazer algo para mudar esse mundo para melhor, quando em vez de amarmos as pessoas, usamo-las como coisas descartáveis. Negamos a Jesus quando deixamos de ser um vislumbre do Seu amor e do Seu Reino, quando não amamos as pessoas como a nós mesmos.

Pedro, mesmo depois de tudo o que viveu com Jesus, tinha seus problemas. Mesmo depois da experiência do pentecostes, ainda se viu envolto com sua dubiedade de caráter, sendo repreendido por Paulo por conta disso. Não houve uma transformação radical e repentina. A mudança é sempre gradual e fruto de uma caminhada, nunca algo que acontece com num passe de mágica.

Depois de tudo, ao redor de uma fogueira Jesus queria saber tão-somente do amor de Pedro, a santidade viria com o tempo. Jesus sabia das contradições de seu discípulo e de sua humanidade e mesmo assim o amava.

Se houve esperança para Pedro, também para mim, humano que sou, haverá.


Márcio Rosa da Silva

quinta-feira, 21 de abril de 2011

É cordeiro, não coelho!


A sociedade secularizou o natal. Tirou o foco de Jesus para Papai Noel e da paz de Deus aos homens por meio de Jesus em fraternidade. O aspecto vertical foi substituído pelo horizontal.

Sucedeu o mesmo com a páscoa. A páscoa judaica (sua instituição está em Êxodo 12) era uma profecia da obra de Jesus. Mas Jesus foi transformado em coelhinho, que ainda por cima bota ovos de chocolate. E negar isso é desmancha-prazeres! A ceia de Jesus com os discípulos, formatando a igreja como corpo e família, cede lugar a uma ceia com a família sanguínea. É a adaptação do evangelho pela sociedade secular, e a privatização da fé pelas pessoas.

Tudo depende da visão que temos da obra de Jesus. Sua missão é incompreendida! Para muitos, ele veio pregar amor. Ora, todo mundo prega amor. E ninguém é crucificado por isto. Para alguns, ele veio nos abençoar. “Venha buscar sua bênção”, é uma faixa que se tornou comum em muitas igrejas, na feroz disputa por clientes. É a distorção de Jesus para fins próprios.

Há a visão de que Jesus veio para nos fazer felizes. Vi uma faixa com esse dizer: “Você nasceu para ser feliz! Venha pra cá!”. Reflexo de uma sociedade fútil, vazia, que pensa apenas em felicidade, nunca em valores e ideais. O homem moderno colocou seu “eu” como Deus. Tudo existe em função dele. Esta cultura, que é demoníaca, migrou para a igreja. As pessoas não se vêem como instrumentos de Deus, mas vêem Deus como seu instrumento. Algo que elas podem usar na sua infantil busca de felicidade e de prazer.

O que é o evangelho de Jesus? Um passaporte para Shangrilá, a terra de prazeres? Uma passagem de primeira classe por este mundo? Um “vale bênção”? Que é o evangelho? A páscoa nos ajuda a entender o que ele é e quem é Jesus. Paulo expressou isto muito bem: “Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.1-4).

Isto é o evangelho. E é isto que comemoramos nesta semana: Cristo morreu pelos nossos pecados (não para nos dar bens ou felicidade) e ressuscitou. Ele não é um ideal, nem um Grande Doador de Coisas. E não comemoramos o Cristo morto, mas o Vivo, Ressuscitado, que virá em poder e glória: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!” (Ap 1.7).

Dê ovinho de chocolate, mas não faça do coelho o animal da festa. É o Cordeiro!


Por Isaltino Gomes Coelho Filho
Publicado inicialmente em Waveeo.
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