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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Os "se(s)" das Bodas de Caná

Foi num casamento em Caná, um lugar da Galiléia, que devia ser muito parecida com as favelas de hoje, que Jesus fez o primeiro milagre registrado, e, cujo único propósito foi fazer um casal feliz. E, para isso, muitas lacunas tiveram de ser preenchidas, lacunas que chamo de os “ses” do casamento em Caná.

E se no casamento em Caná…
Jesus não tivesse sido convidado?

A vida transcorreria, mas restrita ao plano (a), sem lugar para alternativas, porque a lei da impossibilidade só pode ser vencida pelo milagre!

E se no casamento em Caná…
Jesus nao tivesse aceito ao convite?

A festa teria acabado mais cedo e em tom de frustração.

Jesus ter aceito o convite foi o que tornou a festa especial, porque onde Jesus está tudo pode recomeçar, e é a vida e não a morte que passa a dar a palavra final. Que bom que Jesus aceita convite para ir a casamentos, mesmo que já tenham sido celebrados, ele vai, e a alegria é retomada. Que bom que há convites que Jesus aceita! Aliás, a gente só deveria participar de situações e locais, em que Jesus pudesse ser convidado a participar.

E se no casamento em Caná…
Maria não fosse até Jesus?

Jesus, provavelmente, só o saberia quando todos o soubessem e, ainda que interferisse, não poderia fazer muito em relação ao vexame a que os noivos seriam expostos. O ato de Maria poupou os noivos da provável exposição pública, intercessão tem de ser assim, para abençoar e não para expor.

E se no casamento em Caná…
Jesus não fosse movido pela graça?

Ainda não era o tempo de Jesus se expor ao seu povo, e nem era tempo de Maria ver o seu sacrifício explicado. Mas Jesus levou em conta a angústia dos noivos, e o que Jesus não podia fazer por meio da lei o pode por meio da graça. Tudo deve ser levado a Jesus, porque ele conta com as infindas possibilidades da graça.

E se no casamento em Caná…
Jesus nao achasse festa importante?

Jesus fez um milagre para a festa não acabar, e para poupar os noivos do vexame; ainda bem que o bem estar dos noivos era precioso para o Cristo, ainda bem que a glória do Deus passa pela realização humana, porque o bom criador se alegra com a alegria de suas criaturas.

E se no casamento em Caná…
Maria não fosse respeitada pelos vizinhos?

José, pai adotivo de Jesus cuidou muito bem de Maria, de modo que ao invés de permanecer sob o estigma de pecadora, por ter engravidado antes do casamento, ainda que por milagre de Deus, tornou-se respeitada pelos vizinhos, o que lhe deu autoridade para orientar os garçons. Que papel admirável José desempenhou! A gente protege alguém quando faz a sua dignidade ser preservada.

E se no casamento em Caná…
Maria não soubesse de Jesus?

Maria só pode dizer o que disse aos garçons, 1º porque sabia do poder dado a Jesus, talvez, já o tivesse visto em ação, e, também, porque sabia do amor de Jesus pelas pessoas. Saber do Cristo é saber de suas possibilidades por causa da bondade de seu caráter. por isso vale a pena orar!

E se no casamento em Caná… 
Os garçons não atendessem a Jesus?

A obediência dos garçons ofereceu a matéria prima para o milagre. O que Jesus lhes pediu era sem sentido, as pessoas já tinham lavado as mãos para comer, não havia mais necessidade de água. Eles, certamente, não compreendiam a razão para encher as talhas, mas Jesus sabia que milagre estava realizando. Atender a Jesus é sempre participar de um milagre, para além da nossa compreensão.

E se no casamento em Caná…
Jesus não tivesse agido como salvador?

Jesus poderia ter feito qualquer gesto para transformar a água em vinho, mas não o fez, se o fizesse teria exposto aos noivos, mas Jesus não veio para esmagar a cana quebrada, mas para restaurá-la. O importante para Jesus não era que as pessoas soubessem do seu poder, mas que os noivos soubessem do seu amor – colocou os noivos antes do ministério, ele estava ali para beneficiá-los, não para beneficiar-se de sua situação e carência; e assim devem ser os seu seguidores: gente que faz tudo para salvar, curar, abençoar e proteger o outro.

E se no casamento em Caná…
O mestre sala nao tivesse feito o comentário sobre o vinho?

Talvez, mesmo que viéssemos a saber do milagre, não saberíamos da sua intensidade, demonstrada pela qualidade do vinho – que nos dá conta de que Jesus vai muito além de nossa capacidade de pedir ou de pensar – essa é a função do testemunho – transmitir o resultado do amor de Deus.

Que bom que João, o evangelista registrou esse milagre, para sabermos quantas pessoas e trabalho o Deus mobilizou para, tão somente, fazer um casal feliz. Joao está certo: Deus é amor.


Ariovaldo Ramos
(Grifos por Ricardo A. da Silva)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O medo: o maior gigante da alma

Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha a ameaçar nossa ilusão de segurança e certeza.

O medo, já dizia Mira Y Lopes, é o grande gigante da alma, é a mais forte e mais atávica das nossas emoções. Somos educados para o medo, para o não-ousar e, no entanto, os grandes saltos que demos, no tempo e no espaço, na ciência e na arte, na vida e no amor, foram transgressões, e somente a coragem lúdica pode trazer o novo, e a paisagem vasta que se descortina além dos muros que erguemos dentro e fora de nós mesmos.

E se Cristo não tivesse ousado saber-se o Messias Prometido? E se Galileu Galilei tivesse se acovardado, diante das evidências que hoje aceitamos naturalmente? E se Freud tivesse se acovardado diante das profundezas do inconsciente? E se Picasso não tivesse se atrevido a distorcer as formas e a olhar como quem tivesse mil olhos? "A mente apavora o que não é mesmo velho", canta o poeta, expressando o choque do novo, o estranhamento do desconhecido.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.


Fernando Teixeira Andrade
Uma dica de meu grande amigo Eric Oliveira (Valeu!!!)

sábado, 4 de junho de 2011

Alimentando a sede

Por Caio Marçal

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Isaías 55:1

 

No sermão do monte, o bom Mestre nos diz que aqueles que têm sede de justiça são bem-aventurados. Parece paradoxal, mas quando encontramos a fonte da vida e da existência, sentimos sede. Sede de Justiça!

Ao encontrarmos verdadeiramente com o Senhor, somos contaminados por seus valores e instigados a vivê-los, pois cada vez que envolvemos com Deus, mais nos tornamos parecidos com Ele. Adoração verdadeira desemboca necessariamente em amar mais e promover o Reino e sua Justiça. Aliás, se adoração não tem levado nossas comunidades religiosas a promover defesa de direitos, desconfio que todas as nossas cerimônias são inúteis e reprováveis aos olhos de Deus - "Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue." Isaías 1:15

Infelizmente, um dos grandes problemas de ativistas cristãos talvez seja como alimentamos nossos anseios por transformação. Como afirma Henri Nouwen "Uma das características mais óbvias das nossas vidas diárias é que estamos atarefados. Na nossa vida os dias são cheios de coisas para fazer, pessoas para encontrar, projetos para terminar, cartas para escrever, telefonemas para completar, e compromissos para guardar". Suamos a camisa vivendo freneticamente nossa militância, que quase não temos tempo para mais nada em nossas agendas. Piora mais ainda quando Deus é esquecido ou quando usamos o Seu nome para instrumentalizar para discursos cheios de chavões sem vida.

Estamos na maior parte de nosso tempo tão engajados em permear a sociedade com valores como justiça e equidade, que esquecemos a Fonte que jorra toda a excelência da Justiça. Quanto mais nos afastamos de Deus, nos enfraquecemos na caminhada e por vezes perdendo o foco e objetivo principal do que fazemos, empobrecendo nosso testemunho. Quantas vezes desanimamos ante as duras lutas e somos tentados a desistir dos sonhos do Reino de Deus?

Espiritualidade engajada começa sempre no quarto fechado e desemboca em testemunho público relevante. Ao falar de Jeremias, Eugene Peterson nos diz "Foram as suas orações, em segredo, porém constantes, que o levaram a desenvolver a integridade humana e a sensibilidade espiritual que tanto almejamos. O que fazemos em segredo determina a integridade do que somos em público. A oração é o ato secreto que desenvolve uma vida que é, ao mesmo tempo, totalmente autêntica e profundamente humana".

Quer alimentar sua sede de mudança? Beba da Fonte da Justiça.

Oração: Senhor, nos perdoa por nosso ativismo estéril, afastando-nos de Ti. Que nossa adoração desemboque em Justiça e retidão. Aceita-nos na tua presença amorosa, fortalece nossos pés, encharca nossos olhos, revigora nosso amor, reacende nossa devoção. Examina nossas motivações, reaviva nossas esperanças no Teu Reino. Suplicamos no nome de Jesus, nosso Libertador. Amém

Caio Marçal é Sec. de Mobilização da Rede FALE e Missionário da Igreja de Cristo de Frecheirinha – www.fale.org.br

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Porque ainda me empolgo

Por que, nos tempos em que vivemos, a mensagem daquele homem que andou por aqui há uns dois mil anos, chamado Jesus de Nazaré, ainda é relevante? Por que, depois de tanto tempo ainda é empolgante? Simples: ela continua revolucionária. Naquela época sua mensagem foi considerada uma loucura, um escândalo. Tão vanguardistas eram suas ponderações que logo tiveram que eliminá-lo, para calar sua voz. Mas a mensagem, fascinante e libertadora, continuava a arder nos corações de um punhado de discípulos e discípulas. Que conteúdos eram aqueles que não passavam despercebidos e que, ainda hoje, guardam seu caráter revolucionário? Vejamos.

A escravidão era institucionalizada e mesmo os mais piedosos servos de Deus não viam problema algum nisso. Era da “vontade de Deus”. Alguns nasciam abençoados, outros não, mas tudo era fruto dos decretos divinos. Daí vem esse cara lá de uma aldeia obscura chamada Nazaré, com um discurso de que não há diferença entre escravo e livre, pobre ou rico, homem ou mulher. Todos são iguais. Não há hierarquia, tanto que seus seguidores serão chamados de amigos, não de escravos ou servos. Isso para os escravos, pobres e para as mulheres (se hoje ainda são consideradas inferiores por muitos – há grupos não permitem que elas integrem o sacerdócio, por exemplo – imagine naquela época) era uma boa notícia (verdadeiro evangelho, que significa, literalmente, boa nova). Mas para os senhores de escravos, para os ricos e para os homens que não consideravam as mulheres tão dignas quanto eles, era algo perigoso, era ofensivo. Será que muitos ainda não consideram perigosa a idéia de que todas as pessoas tem a mesma importância?

Deus era monopólio da religião institucionalizada. Alguém que não cumprisse os ritos e as ordens emanadas do clero judaico estava condenado à danação eterna. Daí, o tal Jesus apresenta a possibilidade de relacionar-se com Deus sem a intermediação de uma religião institucional. Através dele, Jesus, e não através de uma religião é que se chega a Deus. A fúria dos donos da religião era inevitável. Aquela mensagem era uma ameaça aos seus negócios. Hoje, quase dois mil anos depois, ainda há quem imagine que sua religião tenha o monopólio de Cristo e que qualquer pessoa que não esteja de acordo com suas percepções está condenada ao fogo do inferno. Elas precisam ser avisadas de que Deus não tem religião, não é membro de nenhuma instituição registrada em cartório e não pode ser considerado propriedade de nenhuma igreja. Mas isso é demais para alguns que se acham portadores da verdade final sobre Deus. Aliás, é uma ameaça aos seus negócios. Entretanto, é revolucionário e libertador.

Num mundo em que não conseguimos lidar com nossas diferenças, em que muitos ricos e poderosos se acham mais importantes que os demais e que ainda tem gente que acredita ter o monopólio sobre Deus, a mensagem de Cristo continua absolutamente revolucionária. E empolgante!


Márcio Rosa da Silva

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Missão e adoração


“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” (JO 4:23)

Adoração é expressão de quem vive a missão. Só Adora quem faz e compreende a Missão. Só quem vive a missão de ser representante de Deus nesse mundo, quem O louva. Missão é ação de quem adora. Adoração é expressão daquele que entende o chamado de Deus.

Louvar não é cantar. Louvar não é ajoelhar. Louvar não é levantar as mãos. Louvar não pode ser definido por um gesto, louvar não pode ser comparado a um ritual. Posso cantar e não louvar. Posso pular, berrar, gemer, espernear, sapatear, uivar, tocar, ajoelhar, correr, gritar e até chorar e mesmo assim não estar adorando.

Alguns pensam que Deus está preocupado com a pompa ou com o que chamamos de “formas para agradar ao Senhor”. Esquecemos que não por causa de nós mesmos que alcançamos a Deus, mas por causa de sua maravilhosa graça nós temos acesso a Sua Presença. João está certo em dizer que não é por mérito: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”(JO 1:13).

Posso ser do coral ou do grupo de louvor da igreja, cantor evangélico, pastor, e mesmo assim estar longe de louvar a Deus. Podemos levantar as mãos, multiplicar minhas orações e apenas farei Deus esconder os Seus olhos com atos que causam náuseas por conta de minha religiosidade hipócrita, que é incapaz de se solidarizar com os oprimidos ( Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue – Isaías 1:15). Adoração deve nos levar a promover os valores do Reino De Deus, como justiça, paz e amor no mundo, senão nossos encontros e festas religiosas não apenas serão estéreis, mas também causaram nojo ao Senhor.

Louvar não é entrar em transe, repetir palavras mágicas, usar um meio ou fórmula mirabolante. Não é sentir frio na espinha ou buscar uma mera emoção que nos faz “flutuar”. Não é ir a simplesmente a igreja ou qualquer outra geografia delimitada pela religião, pois o templo próprio para a adoração está no infinito que mora em nós, e Deus pode e deve ser adorado onde estivermos.

Não louvo ao Senhor por que quero agradá-lo para depois Ele me dar um carro ou um emprego bacana, como é tão comum se ver hoje em certos grupos ditos cristãos. Não louvo a Deus por que “se eu não louvar eu não vou ter uma mansão no Céu”. Não o louvo por que eu tenho medo que ele me jogue dentro de um caldeirão fervente cheio de demônios que fariam arrepiar o maior de todos os lutadores de boxe. Momentos de louvor não podem ser transformados em comércio barato onde eu faço algo para convencer Deus de ficar do meu lado, achando que Deus é algum “gênio da Lâmpada” que tem que fazer todos os meus caprichos.

Louvar não é comprar cd’s de música gospel e colocar no volume mais alto no som de nossas casas. Louvar não é ir para a apresentação de nenhum “astro gospel”. Aliás, não é nada louvável alimentar essa indústria que usa o nome de Deus para ganhar dinheiro, onde muitos se comportam mais como vendilhões do templo no qual Jesus expulsou com chibatadas.

O que é um verdadeiro Adorador? Adorador é aquele cuja vida é culto. Tudo que ele faz aponta para Glória do Senhor. Aliás, culto não termina quando acabam nossas reuniões, pois Deus não é somente Deus no templo, mas também no trabalho, em casa, na rua. Portanto, tudo que fazemos deve ser para honra Dele. Lutero afirma que “é tão santo ordenar o culto quanto ordenhar uma vaca”. Aquele que de fato entende o sentido de ser adorador, sabe bem que onde ele vai ou onde estiver, ele pode louvar, não depende de templos. Quem depende de templos são religiosos. Adoradores são Templos de Deus. Adoradores não precisam de palavras(religiosos sim), porque manifestam sua devoção com atitudes de amor, misericórdia e obediência.


Caio Marçal é Missionário e secretário de Moblização da Rede FALE
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Texto postado originalmente em Missão Total's

terça-feira, 17 de março de 2009

Salvos da Perfeição

DEUS DE TÃO PERFEITO conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.


Elienai Cabral Jr

quinta-feira, 12 de março de 2009

E Jesus diz: "Vem"

Já faz algum tempo tenho passado várias horas meditando e meditando na passagem de Mateus 14 onde diz que Jesus anda por sobre as águas, e com certeza meu pensamento sobre esse texto mudou muito radicalmente de alguns anos para cá.

Sempre achei desconcertante o fato de Jesus mandar seus discípulos sozinhos atravessar o mar, que na verdade não era mar, mas só uma lagoa bem grande sabendo que eles no meio da viagem passariam por grandes dificuldades a ponto de suas próprias vidas em risco. Mas até ai tudo bem, sei que a vida assim mesmo e que tormentas, problemas, dificuldades, lutas seja qual for o nome que seja lá dado a isso acontece e sem dúvidas muitas vezes inevitavelmente.

Mas como esse fato já havia superado há algum tempo, o outro que me deixava meio perplexo ou no mínimo sem resposta. Afinal de contas por que Jesus demorou tanto para ir de encontro a seus discípulos em apuros. Já ouvi tantas repostas, pressupostos, sei lá que iam desde que Jesus estava a testar seus discípulos (diga de passagem essa foi a que ouvi a maioria das vezes) e outros bem “viajadas” no mínimo, mas nenhuma delas ela suficiente para me explicar esse estranho fato. Mas tudo bem hoje isso não importa mais, reconheço que o tempo de Deus é bem diferente do nosso e também já estou desistindo de entender como sua mente funciona, mas prefiro assim mesmo, afinal assim Deus continua a me surpreender com suas infinitas e criativas formas de aparecer e de me traz paz ao meu tormento.

Mas o que há anos atrás me deixava realmente confuso era quanto Jesus chega junto as seus discípulos no meio da tempestade, e o Pedrão (acho que meio sem pensar) diz: “Jesus se é você mesmo, me manda ir sobre as águas para junto de você”. E é nesse momento que vem a loucura, Jesus diz: “Vem”. Deixem-me tentar esclarecer meu pensamento aqui, mas imaginem só Pedro e os outros onze estão num barco no meio de uma tempestade, e mesmo que o barco esteja a ponto de a pique na minha opinião ainda é o lugar mais seguro, e ai Jesus diz: “Pedro vem”, ou seja, sai do barco seu relativo lugar segura e chama ele para o meio da tempestade. Há anos atrás ficaria em uma situação como essa periferia que Jesus disse-se: “Calma Pedro, irei fazer melhor acalmar a tempestade apenas com um levantar de mãos”, ou ainda quem sabe leva-los como em um passe de mágica apenas leva-los em segurança para a outra margem do mar, mas não Jesus diz: “Vem”.

Loucura não? Antigamente periferia um deus assim que acabasse como meus problemas, e se possível a minha maneira e no meu tempo. Mas hoje cada vez mais me apaixono por esse Jesus que me chama para foro do meu pequeno barquinho e de encontro as grandes ondas, independente da loucura que isso pareça, ainda mais porque mesmo se eu venha a falhar em meus primeiros passos foro do barco em meio a tempestade, sei que Ele estará lá para me salvar com suas doces e gentis mãos, e ainda me lembra e relembra quantas vezes for necessário, dizendo: “Por que dúvida? Lembre-se não foi fosse que meu escolheu mas eu que te escolhi”, ou melhor “escolhi vocês”.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

domingo, 1 de março de 2009

Por que o amor de Deus nos contrange

Já faz um tempo que tenho parado para pensar sobre o amor de Deus. Fico imaginado João escrevendo seu evangelho e chegando num ponto onde dizia “Porque Deus nos amou...” e ai então ele para por um tempo, fico imaginando ele procurando por algum adjetivo alguma palavra que pudesse expressão como era, ou melhor, como é esse amor e depois de alguns minutos sem muito sucesso nesse seu pequeno caça palavras e completa o verso da seguinte maneira “...de tal maneira”. Penso que João fez bem ao usar essa expressão, pois realmente não encontro palavra nenhum, nenhum adjetivo que chegue ao menos perto de expressar a intensidade do amor de Deus.

Também me lembro do que o apostolo Paulo escreveu em sua carta aos efésios, dizendo que orava para que aquela igreja pudesse conhecer a largura, a altura, a profundidade do amor de Deus, em outras palavras Paulo orava para que eles pudessem começar a compreender a dimensão do amor de Deus, mesmo que eles não chegassem a compreender totalmente esse amor devido a sua própria dimensão ser infinita e inimaginável.

João fala do amor de Deus por nos a ponto de entregar seu único filho para que um dia pudéssemos novamente estar reconciliados com Ele. Já Paulo na carta aos romanos fala da prova do amor Deus pelo fato de que Jesus se entregar e morrer em uma cruz enquanto ai nós estamos em meio ao pecado.

Os evangelhos estão repletos de afirmações como “e Jesus vendo as multidões se compadeceu delas”, ou ainda “e Jesus moveu de intima compaixão” e ainda muitas outras expressões que nos dão um vislumbre do amor de Deus, e várias outras passagens que Jesus sem mesmo dizer nada demonstrava seu amor. E também no restante do novo testamento também continuar por inúmeras vezes falando desse amor.

Como penso que aconteceu a João acontece comigo, faltam-me palavras para descrever quão grande, maravilhoso, surpreendente é o amor de Deus. E como Paulo também oro para que tanto eu quanto outros possam a cada dia que se passar compreenderem um pouco mais desse amor, amor que como Paulo expressa na primeira carta aos corintios nos constrange. Pelo menos deveria.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Para que a poeira de nosso Rabino nos cubra...

Bom proveito pessoal, e graças a Deus não estou só em meus pensamentos (ou viagens melhor dizendo).




A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A exemplo de Jesus

O video baixo faz parte de uma série de produções do Pr Rob Bell (escritor do livro Repintando A Igreja, publicado pela editora Vida) chamada Nooma, infelismente apenas alguns desses videos (diga-se de passagem muito bem produzidos) estão disponiveis no youtube com legendas em português. E sinceramente espero que o video abaixo por ser algo de Deus para sua vida e mais a frente quem sabe mais videos dessa série não acabem parando nesse blog.




A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Siva

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Thomas Merton e Entrega

Nada que nós consideremos ser um mal pode ser oferecido a Deus em sacrifício. Nós lhe damos o melhor do que temos a fim de declarar que Ele é infinitamente melhor. Damos-lhe tudo aquilo que apreciamos a fim de assegurar-les que ele é para nós mais que o nosso 'tudo'.


Thomas Merton
Citação do livro "Homem Algum é uma Ilha".

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Envia-me Senhor

Marcos 5.7-13; Lucas 9.1-6.

Chamando seus doze discípulos, deu-lhes autoridade para expulsar espíritos imundos e curar todas as doenças e enfermidades. Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, que o traiu. Jesus enviou os doze com as seguintes instruções:

"Não se dirijam aos gentios, nem entrem em cidade alguma dos samaritanos. Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel. Por onde forem, preguem esta mensagem: 'O Reino dos céus está próximo'. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; dêem também de graça. Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento.

Na cidade ou povoado em que entrarem, procurem alguém digno de recebê-los, e fiquem em sua casa até partirem. Ao entrarem na casa, saúdem-na. Se a casa for digna, que a paz de vocês repouse sobre ela; se não for, que a paz retorne para vocês. Se alguém não os receber nem ouvir suas palavras, sacudam a poeira dos pés quando saírem daquela casa ou cidade. Eu lhes digo a verdade: No dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.

Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios. Mas quando os prenderem, não se preocupem quanto ao que dizer, ou como dizê-lo. Naquela hora lhes será dado o que dizer, pois não serão vocês que estarão falando, mas o Espírito do Pai de vocês falará por intermédio de vocês.

O irmão entregará à morte o seu irmão, e o pai, o seu filho; filhos se rebelarão contra seus pais e os matarão. Todos odiarão vocês por minha causa, mas aquele que perseverar até o fim será salvo. Quando forem perseguidos num lugar, fujam para outro. (...)

Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais! Quem, pois, me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus. Mas aquele que me negar diante dos homens, eu também o negarei diante do meu Pai que está nos céus.

Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que 'o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família'.

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.

Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará. (...)

Que ouçamos este chamado de Deus para novidade e mudança, entrega e renúncia, confiança e desafios...


Robson Eudes Duarte

(Essa reflexão foi retirada de um email enviado à mim por esse meu grande amigo, que já há um bom tempo tem me suportado e caminhado comigo em bons e outros não tão bons momentos da minha vida)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sede...

"Como suspira a corça pelas correntes de água, assim, por ti, ó Deus suspira minha alma" Salmos 42.1

É simples aquele que está com sede busca por água, acredito que ninguém encontrará objeções ou achará estranha essa afirmação, afinal esse é o sentido normal, onde o sedento é quem vai em busca da água.

Mas quando usamos essa afirmação nos referindo a Cristo ai a coisa muda de figura, não é mais o sendento que busca água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

E eu continuo andando...

“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” Salmos 23.4a

Um, dois, três ...e não sei mais quantos passos serão necessários para terminar minha jornada, e mesmo sem saber eu continuo andando, e a medida que essa caminhada se desenvolvi percebo que o que me preocupa mais não e o fato de não saber o numero de passos restantes, mas sim o fato de não saber aonde esses mesmos se darão.

Vejo que andar por lugares novos não me dá medo algum, pelo contrário, a expectativa de que meus passos se dêem por esses novos lugares traz sempre um renovar de sonhos e o cumprir de uma promessa que um dia chegará.

Também andar pelos lugares já conhecidos também não trazem medo, mas também pouquíssimas expectativas, e mesmo que a caminhada por esses lugares às vezes traga monotonia a idéia de que conheço os percalços e possíveis buracos traz certa sensação de segurança, mesmo que esse venha se mostrar falsa depois alguns passos.

Porém quando o andar é em meio a desertos e a vales, ou ainda como o salmista diria em meio ao vale da sombra da morte, ai os sentimentos e conclusões sobre a caminhada às vezes se tornam meio confusas e outras vezes o sentimento do medo vem e bate a porta.

E ai quando em meio as dificuldades a relevância de quantos passos ainda é necessária para que o cenário se transforme de tempestade para bonança muda radicalmente, a não perspectiva do fim de um problema muitas vezes cansa e desanima.

Mas sempre independente das circunstâncias da minha caminha, ou de onde os passos se dão lembro que não ando sozinho, estou sempre acompanhado. Posso então afirmar junto com o salmista que não temerei mal nenhum porque Deus está comigo.

Essa certeza me dá forças para continuar andando sempre, mesmo que em meio ao vale da sombra da morte. Um, dois, três ...e eu continuo andando ...afinal Ele sempre está comigo.


A Deus Somente A Gloria
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Quem sou eu

Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que saí da confinação da minha cela
De modo calmo, alegre, firme,
Como um cavalheiro da sua mansão.

Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que falava com meus guardas
De modo livre, amistoso e claro
Como se fossem meus para comandar.
Quem sou eu? Dizem-me também
Que suportei os dias de infortúnio
De modo calmo, sorridente e alegre
Como quem está acostumado a vencer.

Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem?
Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo?
Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola,
Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta,
Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança
Conturbado na expectativa de grandes eventos,
Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita,
Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir,
Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isto?

Quem sou eu? Este, ou o outro?
Sou uma pessoa hoje, e outra amanhã?
Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado?
Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado,
Fugindo em debanda da vitória já alcançada?

Quem sou eu? Estas minhas perguntas zombam de mim na solidão.
Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!


Dietrich Bonhoeffer

domingo, 14 de setembro de 2008

O cristão segundo Dietrich Bonhoeffer

Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Marcos 15.34). Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, e somente assim, ele está conosco e nos ajuda.

Em Mateus 8.17 está muito claro que Cristo não ajuda em virtude da sua onipotência, mas da sua fraqueza, do seu sofrimento! Neste ponto reside a diferença decisiva em relação a todas as religiões. A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina [em 1942 Bonhoeffer também afirmou: 'Portanto, é bom aprender o quanto antes que sofrimento e Deus não constitui uma contradição, mas ao contrário, uma unidade necessária; para mim, a idéia de que Deus mesmo sofre sempre foi uma das doutrinas mais convincentes do cristianismo'].

A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus, somente o Deus sofredor pode ajudar. Neste sentido, pode-se dizer que o desenvolvimento que levou à maioridade do mundo, através do qual se acaba com uma concepção errônea de Deus, liberta o olhar para o Deus da Bíblia, que obtém poder e espaço no mundo por meio de sua impotência....

O poema ‘Cristãos e Pagãos’ contém uma idéia que irás reconhecer aqui. ‘Cristãos ficam ao lado de Deus na sua paixão’, é isto que distingue cristãos de pagãos. ‘Vocês não conseguem vigiar comigo nem por uma hora?’, pergunta Jesus no Getsêmani. Isto é uma inversão de tudo o que o ser humano religioso espera de Deus. O ser humano é conclamado a compartilhar o sofrimento de Deus por causa do mundo sem Deus. Portanto, ele realmente tem de viver no mundo sem Deus e não deve procurar encobrir ou idealizar em termos religiosos essa ausência de Deus; ele tem de viver de ‘forma mundana’ e justamente assim participa dos sofrimentos de Deus; ele pode viver ‘de forma mundana’, isto é, está liberto dos falsos vínculos e bloqueios religiosos.

Ser cristão não significa ser religioso de uma determinada maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano. Não é o ato religioso que produz o cristão, mas a participação no sofrimento de Deus na vida mundana.

Esta é a metanóia [arrependimento]: não pensar primeiro nas próprias necessidades ou aflições, perguntas pecados e medos, mas deixar-se arrastar para o caminho de Jesus, para dentro do evento messiânico do cumprimento de Isaías 53 agora.

Por isto: ‘creiam no evangelho’ ou em João a referência ao ‘Cordeiro de Deus que carrega os pecados do mundo’ (à parte: A. Jeremias afirmou recentemente que, no aramaico, ‘cordeiro’ também pode ser traduzido por ‘servo’. Muito bonito com vistas a Isaías 53!).

No NT, esse ser arrastado para dentro do sofrimento – messiânico – de Deus em Jesus Cristo ocorre das mais diversas formas: através da comunhão de mesa com os pecadores, através de ‘conversões’ no sentido mais estrito do termo (Zaqueu), através do ato da grande pecadora (que se realiza sem qualquer confissão de pecados) (Lucas 7), através da cura dos doentes (Mateus 8.17), através do acolhimento das crianças. Os pastores, assim como os sábios do Oriente, estão [junto à] manjedoura, não como ‘pecadores convertidos’, mas simplesmente porque, assim como são, são atraídos pela manjedoura (estrela).

O centurião de Cafarnaum, que não faz qualquer confissão de pecados, é apresentado como exemplo de fé (cf. Jairo). Jesus ‘ama’ o jovem rico. O camareiro (Atos 8) e Cornélio (Atos 10) são tudo menos existências à beira da ruína, Natanael é um ‘israelita sem falsidade’ (João 1.47); por fim, José de Arimatéia e as mulheres do túmulo. A única coisa que todos têm em comum é a participação no sofrimento de Deus em Cristo. Isto é a sua ‘fé’.

Nada de metodologia religiosa; o ‘ato religioso’ sempre é algo parcial, a ‘fé’ é algo inteiro, um ato de vida.

Jesus não conclama para uma nova religião, mas para a vida. Mas como se apresenta essa vida, essa vida de participação na impotência de Deus no mundo? Sobre isso escreverei na próxima vez, espero. Hoje só mais isto: se queremos falar de Deus de forma ‘não religiosa’, então teremos de fazê-lo de tal maneira que a impiedade do mundo não seja de algum modo encoberta, mas, antes, descoberta, e exatamente assim seja lançada uma luz surpreendente sobre o mundo. O mundo que chegou à maioridade é mais sem-Deus e, por isto mesmo, talvez esteja mais próximo de Deus do que o mundo menor de idade.


Dietrich Bonhoeffer

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O meu amor é o meu peso

O corpo, devido ao peso, tende para o lugar que lhe é próprio, porque o peso não só tende para baixo, mas também para o lugar que lhe é próprio. Assim o fogo encaminha-se para cima, e a pedra para baixo. O azeite derramado sobre a água aflora à superfície; a água vertida sobre o azeite submerge-se debaixo deste: movem-se segundo o seu peso e dirigem-se para o lugar que lhes compete. As coisas que não estão no próprio lugar agitam-se, mas quando o encontram, ordenam-se e repousam.

O meu amor é o meu peso. Para qualquer parte que vá, é ele quem me leva. O vosso Dom inflama-nos e arrebata-nos para o alto. Ardemos e partimos. Fazemos canções no coração e cantamos o "cântico dos degraus". É o vosso fogo, o vosso fogo benfazejo que nos consome enquanto vamos e subimos para a paz da Jerusalém celeste. "Regozijei-me com aquilo que me disseram: Iremos para a casa do Senhor". Lá nos colocará a "boa vontade", para que nada mais desejemos senão permanecer ali eternamente.


Santo Agostinho

Pelos motivos certos

Que ao lermos à bíblia possamos não ficar a procurar por respostas prontas para nosso sofrimento e não tão somente por métodos para conseguirmos algo, mas que possamos nos atentar a doce e singular voz daquele que tanto nos ama.

Que ao orarmos não vejamos a oração como um meio de se fazer inúmeros pedidos ou queixas visando a nossa própria satisfação, mas sim como um meio de comunicação onde podemos como filhos amados conversar de maneira singular e pessoal com nosso Abba.

Que ao O adoramos não seja simplesmente por aquilo que Ele faz e pode fazer, mas sim por quem Ele é.

Que nossa relação com Deus não seja baseada no intesse ou na satisfação pessoal, mas sim no amor, amor que vem em resposta Aquele que nos amou primeiro.


A Deus Somente A Gloria
Ricardo A. da Silva
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