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segunda-feira, 29 de março de 2010

A quem devemos temer

Nunca devemos ter medo de ladrões ou assassinos. São perigos externos e os menores que existem. Temamos a nós mesmos.Os preconceitos é que são os ladrões; os vícios é que são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importância tem aquele que ameaça a nossa vida ou a nossa fortuna? Preocupemo-nos com o que põe em perigo a nossa alma.


Victor Hugo em "Os Miseráveis"

terça-feira, 30 de junho de 2009

O crime não compensa

“Meu rapaz, você, por preguiça, entra na mais trabalhosa das existências. Você se diz vagabundo! Prepare-se para trabalhar.

Já viu uma máquina perigosa que se chama laminador? É preciso cuidado com ela, porque é sorrateira e terrível; se consegue prender-lhe a barra do casaco, arrasta-o por inteiro. Essa máquina é a ociosidade. Pare enquanto ainda é tempo; ponha-se a salvo! Se não, tudo está acabado; daqui a pouco você será tragado pela engrenagem.

Uma vez preso, não espere mais nada. Trabalhe, preguiçoso! Nada de descansar! A mão de ferro do trabalho implacável o agarrou. Você não quer ganhar a vida, ter uma ocupação, cumprir um dever! Ser como os outros o aborrece! Pois bem: com você vai ser diferente. O trabalho é a lei; quem o rejeita, tê-lo-á como suplício. Você não quer ser operário, então será escravo.

O trabalho só o deixa de um lado para prendê-lo do outro; não quer ser seu amigo, então será seu escravo. Você não quer o cansaço honesto dos homens, terá então o suor dos condenados. Enquanto os outros cantam, você há de agonizar, vendo de longe, de baixo, os outros homens dedicados ao trabalho, que parecerão descansar.

O agricultor, o ceifeiro, o marinheiro, o ferreiro, aparecerão rodeados de luz como os bem-aventurados do paraíso. Que esplendor nas bigornas! Conduzir a charrua, enfeixar as espigas, aí está a alegria. A barca em liberdade ao sopro dos ventos, que festa!

E você, preguiçoso, se cansa, se arrasta, soluça, caminha! Puxe o cabresto, e ei-lo transformado em animal de carga entre as parelhas do inferno! Nada fazer é seu desejo. Pois bem, não haverá uma semana, um único dia, uma só hora, sem cansaço. Você não poderá levantar nada sem angústia. Todos os minutos que se sucederem farão estalar-lhe os músculos. O que para os outros é uma pena, para você será uma rocha. As coisas mais simples se tornarão difíceis. A vida se transformará em monstro ao seu redor.

Ir, vir, respirar, que trabalhos terríveis! Os pulmões far-lhe-ão o efeito de um peso de cem libras. Andar por aqui e não por ali já será um problema a se resolver. Qualquer um, quando quer sair, empurra a porta, e ei-lo fora. Você se quiser sair, terá que furar as paredes. Para ir à rua, que é que todos fazem? Descem a escada. Você terá que rasgar os lençóis da cama, fazer, fio a fio, uma corda, amarrá-la à janela, suspender-se por esse fio sobre o um abismo; será noite, haverá tempestade, vendo, chuva e, se a corda for muito curta, não haverá senão um meio para descer: cair. Cair de olhos fechados, ao acaso, num sorvedouro, que qualquer altura. Em cima de quê? Do que estiver por baixo, do desconhecido.

Ou então subir pelo tubo de uma chaminé, com perigo de se queimar, ou pelos canos do esgoto, com perigo de se afogar.

Nem falo dos buracos que precisam ser cobertos, das pedras que devem ser tiradas e recolocadas vinte vezes por dia, da caliça que é preciso esconder dentro do colchão...

Que precipícios são a preguiça e o prazer! Nada fazer é uma lúgubre resolução. Viver ocioso da substância social! Ser inútil, isto é, nocivo! Isso leva diretamente para a mais horrível miséria. Desgraçado de quem quer ser parasita; será sempre um verme.

Ah! trabalhar o aborrece? Você não pensa senão em beber bem, comer bem, dormir bem, mas terá que beber água, comer pão negro, dormir em cima de tábuas com uma corrente presa aos membros, sentindo durante a noite o seu frio sobre a carne. Você então quebra essa corrente e foge. Muito bem. Terá de se arrastar sobre o ventre debaixo das moitas, comendo erva como os animais selvagens.

Depois, será novamente agarrado. Então, terá de passar anos e anos num subterrâneo, preso a um muro, tateando para ir beber à bilha de água, mordendo um pão nojento que os próprios cães rejeitariam, mastigando favas que os vermes terão roído antes de você.

Você será um bicho-de-conta num buraco. Ah! Tenha piedade de si mesmo, pobre criança, tão jovem, que há vinte anos ainda sugava o leite da ama, e que, sem dúvida, ainda tem mãe.

Eu peço encarecidamente que me ouça. Você quer ter belos casacos pretos, sapatos de verniz, quer frisar os cabelos, untá-los com óleo perfumado, agradar às mulheres, ser bonito. Você terá a cabeça raspada e terá de se vestir com um macacão vermelho e calçar tamancos.

Você quer um anel no dedo, mas terá a gargalheira no pescoço. Se olhar para uma mulher, receberá uma bastonada.

Você entrará lá com vinte anos e sairá com cinqüenta! Entrará jovem, sadio, corado, com olhos brilhantes, com todos os dentes brancos, bela cabeleira de adolescente, e sairá alquebrado, recurvado, enrugado, sem dentes, horrível, de cabelos brancos!

Ah! pobre criança, você está no caminho errado, a ociosidade o aconselha mal, o mais rude dos trabalhos é o roubo. Creia-me; não prossiga nesse esforço para se tornar um preguiçoso. Transformar-se num vadio não é nada cômodo.

É muito menos penoso ser homem honesto. Agora vá, e pense no que eu lhe disse”.


Jean Valjean conversando com Montparnasse um jovem ladrão
em "Os Miseraveis" de Victor Hugo

segunda-feira, 25 de maio de 2009

E falando em dom

Acredito que expressão de Lewis, gotas de graça se encaixa bem nesse video.




A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O mais lindo nome

Ó Vós que sois!

O Eclesiástico vos chama de Onipotência; os Macabeus, de Criador; a Epístola aos Efésios, de Liberdade; Baruc, de Imensidade; os Salmos, de Sabedoria e Verdade; João, de Luz; os Reis, vos chamam de Senhor; o Êxodo, de Providência; o Levítico, de Santidade; Esdras, de Justiça; a criação vos chama de Deus; o homem, de Pai; mas Salomão diz que sois Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes.


Victor Hugo
Citação do livro "Os Miseráveis"

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Esmagados pela graça

Li “Os Miseráveis” e me assombrei com a genialidade de Victor Hugo. O personagem central da narrativa é Jean Valjean, um egresso das galés. Impressionei-me como Victor Hugo construiu a história desse homem bom que lutou contra circunstâncias difíceis e gente perversa.

Livre há quatro dias, Jean Valjean não encontrava quem o acolhesse devido ao seu passado. Sua fama o prejudicava. Cansado, com frio e faminto, precisava descansar. Sabendo que o prenúncio de chuva o mataria, Valjean procurou um albergue. Em vão. Até os cachorros o enxotavam. Desesperado, encontrou uma pessoa que lhe indicou a casa do bispo da cidade, D. Bienvenu. A anônima samaritana disse que o santo homem de Deus lhe daria hospedagem.

Quando bateu na porta da casa do bispo, Jean Valjean não escondeu sua vida pregressa. Mesmo assim, D. Bienvenu o hospedou, convidou para dividir a ceia e ainda lhe forneceu bons lençóis para a noite de sono. O ex-presidiário, entretanto, ainda padecia os efeitos de uma vida marcada pelo estigma do crime. Valjean ainda estava assustado com o mundo; era como um animal encurralado que precisava se defender.

Valjean então resolveu fugir da casa do bispo pela madrugada, roubando os talheres de prata. Contudo, não conseguiu ir muito longe. Logo os guardas o pegaram, reconheceram as insígnias do bispo na prataria e o conduziram até a casa que lhe acolhera para ser reconhecido antes de ser devolvido ao cárcere.

Surpreendentemente, D. Bienvenu não só o perdoou como o liberou. Tratou-o com deferência e lhe fez uma pergunta desconcertante: “Estimo tornar a vê-lo. Mas eu não lhe dei também os castiçais? São de prata como os talheres e poderão render-lhe bem duzentos francos. Por que não os levou também”?

Diante do gesto nobre de não levar em conta o roubo e ainda oferecer castiçais, Jean Valjean “arregalou os olhos e contemplou o venerando Bispo com tal expressão que nenhuma língua humana poderia descrever”.

O perdão e o amor gratuito de D. Bienvenu impactou Valjean de tal maneira que sua vida mudou para sempre. O bispo o livrara da acusação da lei, mas o tornava, daí em diante, escravo da bondade. A gentileza, ou a graça, esmagou Jean Valjean. Ele nunca mais pôde ser igual. Ao liberá-lo, o bispo o fez servo de um gesto de grandeza.

Paulo afirmou em Romanos que Deus conduz as pessoas ao arrependimento por sua bondade. “Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?” (Romanos 2.4).

Portanto, Victor Hugo acertou quando fez de um pastor de almas a encarnação da graça de Deus. Só o amor tem o poder de transformar a vida de qualquer pessoa. Ninguém muda com ameaças; os arrazoamentos doutrinários são impotentes para convencer do que é certo. Jesus ensinou que seus discípulos seriam conhecidos pelo amor e não por uma teologia correta. “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.35).

Mesmo quando busca arrependimento, Deus não deprecia seus filhos; quando quer humilhar, prefere exaltar; quando deseja constranger, deixa de lado o rigor da lei e opta pelo elogio. Ao invés de ralhar, Deus simplesmente recebe o pecador com festa e aposta no seu futuro. Foi assim que Jesus descreveu o amor do Pai pelo Pródigo. O filho voltava para casa ainda sujo, sem sequer mostrar obras dignas de arrependimento, mas o pai apressado o abraçou, colocou anel no dedo, calçou os pés e o agasalhou com uma capa. O rapaz havia ensaiado um pequeno parágrafo pedindo para ser recebido como “um dos empregados” da casa, mas o velho o interrompeu e deu ordens para que preparassem a festa do bezerro cevado. A partir daquele dia, o filho se tornou escravo da bondade. A generosidade com que foi recebido, mesmo depois de ter se comportado com rebeldia causou um impacto tão grande que o rapaz nunca mais poderia voltar a ser o mesmo.

O mundo está cansado e parece ir de mal a pior. Fomes, guerras, pestes inundam o dia a dia e as pessoas precisam sentir-se amadas. O Evangelho traz a mais alvissareira notícia: "Deus não fecha portas, mas continua a receber os pecadores para restabelecer-lhes a dignidade, sem ameaçar com castigo. Deus gosta de acolher e honrar; dignificar e libertar; desobrigar e gerar compromisso.


Ricardo Gondim
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