terça-feira, 2 de outubro de 2012
Ser discipulo
Bonhoeffer, Discipulado
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Sobre discipulado
sexta-feira, 8 de maio de 2009
A Grande Omissão
Ricardo A. da Silva
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
O novo paradigma da missão
Até o conceito de missão da Igreja associado à grande comissão pode ser questionado. Discordo dos que afirmam que essa missão é de fazer discípulos. Primeiro, porque a declaração de Jesus registrada em Mateus 28.18-20 nos permite apenas deduzir a missão da Igreja, e segundo, por considerar reducionista a equivalência da tarefa de fazer discípulos com a missão da Igreja.
As referências bíblicas utilizadas para deduzir a missão da Igreja são diversas, sendo as mais utilizadas as dos evangelistas. É fácil perceber que cada um de seus textos possibilita um resultado diferente para o enunciado definidor do que seria aquela missão. O registro de Mateus 28.18-20 possibilita a fórmula “fazer discípulos”, implicando necessariamente o ensino detalhado de todas as ordens de Jesus. Marcos indica a proclamação do Evangelho como tarefa essencial, assim como Lucas (24.46-48), que também sublinha a proclamação, mas com conteúdo menos abrangente, restrito à convocação ao arrependimento para perdão dos pecados. Já o evangelho de João abre um leque extraordinário quando afirma que a missão da Igreja deve ser derivada da missão de Jesus – “assim como”, o que remete a declarações do tipo: “Porque o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10.45); ou ainda: “Veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19.10), de onde poderíamos deduzir que a missão da Igreja se sustentaria em três ações concomitantes: buscar, servir e salvar. Por fim, em Atos 1.8, o evangelista Lucas aponta na direção do testemunho a respeito da pessoa e obra de Jesus como aspecto essencial da missão.
Uma leitura mais ampla da Bíblia Sagrada, disposta inclusive a buscar as referências do Antigo Testamento como elementos constitutivos da missão do Messias transferida para sua Igreja, nos levaria necessariamente a concluir duas coisas: a primeira é que existem outras tantas narrativas negligenciadas pelo senso comum dos que querem definir a missão; e a segunda é que, incluídas e consideradas estas outras peças do quebra-cabeças, o resultado final será não apenas diferente, como também – e principalmente – muito mais abrangente do que a mera declaração “fazer discípulos”.
Na narrativa de Mateus sobre o Sermão do Monte, Jesus identifica seus discípulos como sal da terra e luz do mundo. Ali, o Senhor amplia o horizonte de compreensão da missão, incluindo a necessária transformação – ou, no mínimo, uma afetação da realidade conjuntural – da terra e do mundo, mediante a presença de seus discípulos. Já Lucas 4.17-21 identifica na ação e presença messiânicas a liberdade dos cativos e oprimidos, conforme Isaías profetizou –.o que inclui, para muitos, as dimensões sociais, econômicas e políticas
Ainda que exista certa divergência nos limites implicados, está claro que a presença e atuação de Jesus e de sua Igreja no mundo extrapolam a relação pessoal do indivíduo com Deus. É reducionista a definição da missão da Igreja que se esgota no esforço de chamar pessoas ao arrependimento para remissão dos pecados. Nesta interpretação, “fazer discípulos” seria apenas ensinar aos que crerem todas as coisas que Jesus mandou. Da mesma forma, parece equivocado dissociar a missão da Igreja da atuação dos cristãos na sociedade. Tal raciocínio mantém a dicotomia entre evangelização e responsabilidade social, dando primazia ao testemunho verbal do conteúdo do kerigma sobre os atos de justiça. Nessa perspectiva, a Igreja é vista como uma comunidade diaconal, mas o serviço cristão se presta a autenticar a pregação do Evangelho.
As expressões “fazer discípulos” e “missão da Igreja” apontam realidades distintas e não podem ser consideradas sinônimas. Estamos, portanto, diante de pelo menos dois paradigmas; um que resume a missão da Igreja na conquista de novos seguidores de Cristo, e outro que a considera em termos mais abrangentes. No primeiro – o da grande comissão – a salvação se resume à conversão pessoal e individual. Salvo é todo aquele que crê na mensagem do Evangelho, se arrepende para a remissão de seus pecados e passa a viver integrado na comunidade cristã, sob os imperativos éticos da Palavra de Deus e o compromisso de propagar e difundir a mensagem de salvação.
Já o outro paradigma, o da missio Dei, descarta a idéia de missão restrita ao discipulado individual e supera o reducionismo da salvação como livramento dos indivíduos das penas eternas. A Igreja não é para o mundo, nem mesmo espaço de fuga do mundo, mas o próprio movimento de Deus para dentro dele, e nesse sentido, da Igreja com o mundo. A missio Dei se relaciona com a missão da Igreja fazendo desta última a comunidade solidária com o Cristo encarnado e crucificado, bem como ressurreto e exaltado. Em Missão transformadora (Editora Sinodal), David Bosch conclui que o propósito da missão da Igreja não pode ser simplesmente a implantação de igrejas e a salvação de almas. “Pelo contrario, deverá ser representar a Deus diante do mundo (...) Em sua missão, a Igreja é testemunha da plenitude da promessa do Reino de Deus e é partícipe da batalha contínua entre esse reinado e os poderes das trevas e do mal”.
Ed Rene Kivitz
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Multidão e Discipulos
Em Mateus 16, do verso 13 ao 20, Jesus, enquanto caminhava para Cesaréia, aldeia ao norte da Galiléia, administrada por Filipe, perguntou aos seus discípulos sobre o que o povo pensava dele. Queria saber que identidade lhe atribuiam.
A gente sempre se relaciona com o outro a partir da identidade que lhe atribuimos, independente dessa identidade atribuída corresponder ou não com a identidade assumida pelo outro.
O povo atribuiu ao Senhor a identidade de profeta. É verdade que o compararam aos profetas mais contundentes que Israel já conheceu: Elias, Jeremias e João Batista. Mas profeta.
O povo errou, entretanto, Jesus não fez nenhum comentário.
O povo não sabia quem era Jesus, mas não se importava muito com isso, porque buscava o que Cristo lhes pudesse fazer, não, necessariamente, o que tivesse a lhes dizer. Tanto que Jesus teve de orientar os discípulos a ter sempre um barquinho à mão caso ele fosse comprimido pelo povo (Mc 3.9,10). Porque, como o povo percebera que bastava tocar em Jesus para ser curado, muitos arrojavam-se sobre ele para o tocar. Iam ao encontro de Jesus para buscar uma benção. De fato, ao invés de irem ao encontro de Jesus, iam-lhe de encontro. Jesus, então, foi obrigado a se proteger do povo que queria abraçar.
Acho que podemos chamar a esse ajuntamento de A Igreja da Multidão. A igreja que não sabe quem é Jesus, só sabe e só se importa em saber o que Jesus lhe pode fazer, como lhe pode ser útil.
Hoje, cada vez mais, há igrejas que parecem ter o mesmo perfil da multidão: sua mensagem acaba por incentivar um relacionamento utilitário com Jesus.
Em contrapartida há a Igreja dos Discípulos.
Pedro, à mesma pergunta, respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Resposta perfeita, porque diz que Jesus era o Messias esperado, mas era mais do que se esperava, pois aguardava-se o maior de todos os profetas (era o que criam os mestres de Israel na época), entretando, Deus mesmo veio em carne e osso para salvar a humanidade.
Essa Igreja sabe quem Jesus é. E o sabe porque o próprio Pai o revelou, como afirmou Jesus a Pedro. A Igreja dos Discípulos é a Igreja que o Pai deu para o Filho, porque pertence a ela aqueles a quem Jesus, pelo Pai, foi apresentado (Jo 6.44).
A Igreja dos Discípulos sabe que a única maneira de relacionar-se corretamente com Jesus é através da adoração. A um líder a gente segue; a um chefe a gente obedece; a um profeta a gente ouve; de um mestre a gente aprende; a Deus a gente adora. Essa é a Igreja que o Filho edifica, porque esta fica sobre a Pedra, que é Jesus reconhecido como Deus que veio em carne e osso para nos salvar.
E como nos ensinou o apóstolo Paulo, adorar a Jesus é imitá-lo (1Co 11.1). E isso é fruto do desejo de ser igual a Jesus, e quanto mais a gente anda em direção a esse desejo, mais o Espírito Santo o torna realidade em nossas vidas (2 Co 3.18).
A Igreja da Multidão está à cata das bençãos. Do tipo que até o adversário pode dar.
A Igreja dos Discípulos está à cata das palavras de vida eterna; essas que só Jesus tem (Jo 6.68).
A Igreja da Multidão busca crescer a todo custo, e para isso lança mão de todo e qualquer esquema.
A Igreja dos Discípulos vai buscar as ovelhas de Cristo, as que reconhecerão a sua voz, para que haja um só rebanho e um só pastor (Jo 10.16); e, para isso insiste na exposição da verdade que liberta.
A Igreja da Multidão promete o fim do sofrimento e bençãos materiais.
A Igreja dos Discípulos promete a vida abundante e a ressurreição.
A Igreja da Multidão convoca indivíduos a serem individualistas: a terem tudo o que, pela fé, possam conseguir.
A Igreja dos Discípulos convoca indivíduos a serem pessoas comunitárias: a doarem tudo o que a fé, que liberta das posses, permite doar.
A Igreja da Multidão exorta as pessoas a desfrutarem o mundo.
A Igreja dos Discípulos exorta as pessoas a, irmanadas, transformarem o mundo.
A igreja dos Discipulos está querendo mais da vida de Jesus para, na vida, ser cada vez mais como Jesus.
Cada pessoa que se diz seguidora de Cristo; cada pessoa que se considera pregadora do evangelho; cada comunidade que se diz cristã precisa se submeter a esse gabarito, para descobrir de que referencial faz parte, ou de qual se aproxima mais: da Igreja da Multidão ou da Igreja dos Discípulos.
Todos seremos tentados a buscar o que busca a Igreja da Multidão, mas não nos esqueçamos: o tesouro é Cristo e, com ele, vem tudo o que precisamos para ser como ele: gente como gente deve ser.
No Reino de Deus Jesus é tudo em todos os súditos; e tudo o que os súditos do Reino querem ser é todo Jesus.
Ariovaldo Ramos