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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Por que sou cristão de tradição reformada calvinista?

Longe de tentar fazer um estudo robusto demonstrando ponto a ponto as razões do porque sou cristão (de tradição calvinista), vou tentar fazer apenas uma leve pontuação das coisas que me são aparentes ao observar os vários sistemas de pensamento dentro do gueto cristão. Ao longo da trajetória cristã tenho observado através dos perfis cristãos, as nuances de vários sistemas ou linhas de pensamento e as implicações dessas visões em suas vidas. Assim, não pretendo aqui elucidar as questões profundas relacionadas ao tema, mas apenas demonstrar minhas impressões após uma série de observações da vida e do cotidiano. 
Uma das profundas questões que me levaram a essa tradição foram as questões relacionadas a vida cotidiana e a reflexão de ordem psicológica. O cristianismo (reformado calvinista) surgiu para mim como um sistema que emerge numa suave vontade que equilibra o fazer e o esperar. Ao longo da vida somos desafiados para um grande número de empreitadas que nos trazem ansiedade, frustação, desconforto, tristeza e grande quantidade de estresse. Dentro desse contexto, o sistemareformado tem em si um potencial terapêutico bastante efetivo mediante a essas questões, visto que a escritura aponta que somos responsáveis por selar o cavalo, se preparar para a guerra e ir ao ponto de confronto, mas a escritura afirma que somente Deus decidirá quem será o vencedor do confronto, ou seja, há uma forte relação que pode aparentar paradoxal, mas que suavemente demonstra a responsabilidade em trabalhar com afinco e atenção no projeto proposto, mas que tem como pano de fundo o Deus soberano regendo todas as coisas do universo, mesmo os menores processos, pois seu governo se estende a todas as áreas da vida humana e do cosmos, e isso inclui nossa incapacidade de decidir quem ganhará a batalha. 
Dessa forma ser cristão reformado implica necessariamente em uma vida de calma, de trabalho, mas de um trabalho não desesperador. A melhor figura para isso é o pecuarista que lidava na antiguidade com ovelhas. Lidar com ovelhas em tempos remotos era uma tarefa bastante peculiar e de total entrega a Deus, visto que o pastor tinha que levar as ovelhas para comer as gramíneas, beber água e cuidar dos animais ferozes e salteadores que existiam naquelas regiões. A tarefa de ser um pastor de ovelhas remetia a uma total atitude de dependência da vontade dos deuses no mundo antigo. Pois não se poderia operar máquinas para arar a terra a fim de cultivar gramíneas, não existiam sistemas de controle de irrigação efetivo, sistema meteorológico ou qualquer controle automotiva para adubar a terra. Assim, o pastor estava sujeito as variações ambientais e a fisiologia das ovelhas para otimizarem a ingestão de alimento, produção de lã, produção de leite e de carne. O trabalho de um pastor remete a uma visão cristã da vida, aonde o trabalho está imerso nesse ambiente de imprevisibilidade e aonde o sossego e conforto só se sustentam quando o indivíduo entende que Deus controla todas as coisas tanto as boas quantos as más e que nada na terra ocorre sem a sua vontade e governo.
Uma outra perspectiva que me fez adentrar ao sistema reformado de pensamento foi o silêncio. Vivemos em um mundo barulhento, aonde se falam muito, cada um cria seu próprio sistema de pensamento ancorado em um padrão global de consumo e exigências. Essas questões são de ordem muito profundas e acabaram desestruturalizando as categorias do pensar a vida e a si mesmo. Com a divisão da reflexão filosófica (filosofia) e da análise racional (ciência), a partir de Descartes, o homem passou a querer analisar tudo por seu prisma lógico separando racionalidade e irracionalidade, criando a autonomia da razão que não é algo novo, mas que remetem a ecos das histórias do aurorescer da consciência humana já descrito dentro do imaginário judaico-cristão no Éden. 

Assim, o silêncio que a fé reformada proporciona é libertador, ao que o homem se despi de todas as suas elucubrações e passa a simplesmente ouvir a voz de Deus em seu silêncio da vida, na música, na arte, nas flores ou na escura capela. Pois a visão calvinista parte de um referencial Téo-referente, ou seja, a vida e todas as dimensionalidades dela passam pelo prisma desse ser pessoal que cuida a todo momento da sua criação, mesmo que haja terremotos, crises globais, doenças, competição e caça, a vida segue seu pulsar em segurança porque o Deus eterno cuida de todos, a despeito das crises e mortes que fazem parte da condição desse planeta em pecado e de uma humanidade que tomou a decisão de romper com Deus em épocas passadas. Mesmo assim, a bíblia garante que esse mesmo Deus ainda mantem o sistema sobre total controle e cuidado. 

O silêncio é uma parte imprescindível da fé cristã, pois é no silêncio do quarto que as mudanças reais acontecem, é no silêncio da prece que a vida muda, é no silêncio da renúncia que se faz a vontade de Deus, sem holofotes, sem grandes shows, apenas você e Deus, não estou aqui dizendo para se ter uma espiritualidade sem as outras pessoas, até porque isso não é espiritualidade sadia, o que estou realmente dizendo é que o cristianismo (reformado) proporciona ou propõe uma relação em que você abre espaço para Deus falar em meio ao tumulto da vida sem grandes euforismos ou liturgias shows, apenas na tranquilidade da vida, Deus fala e o servo houve e somente os servos ouvirão e somente as ovelhas escutarão a voz do pastor. 

Uma outra característica que me chamou para adentrar ao sistema, foi o realismo que se o sistema está construído. O sistema reformado te coloca consciente no mundo. Ele remove os contos de fadas, ele remove a fantasia, isso não quer dizer que não mais existe beleza no mundo, não estou querendo dizer isso. O que de fato quero dizer é que a perspectiva reformada te coloca consciente de suas responsabilidades como cristão e como ser humano moral no mundo. Assim, não há espaço para preguiça, para letargia, para infantilidade. A fé cristã te amadurece para conseguir ficar dentro da espaçonave igreja, por exemplo, ou para você lidar com você mesmo, que também está dentro da espaçonave. A saber, a igreja sempre será assim, falha, imperfeita, hipócrita, mas essa “merda” parafraseando João Alexandre tem o efeito poderoso no mundo ao ser disperso em doses menores ao redor do globo. Assim, a fé reformada coloca a importância do culto formal, da liturgia formal e da necessidade de se viver em um ambiente eclesiástico que antes de ser divino é humano. E na humanidade que Deus resolveu trabalhar, são com os vasos de barro que Deus resolveu fazer sua obra. 

Os vasos de barro também demonstram claramente como a visão reformada da vida pode lhe fornecer uma atitude de desprendimento e de abertura do seu próprio jeito de pensar e de ser. A saber, o vasos de barros estão nas mãos do oleiro, o vaso está nas mãos do oleiro que modifica, quebra, aquece, esfrega ou o refaz e diz que tipo cada vaso deve ser. Assim, a perspectiva de vaso te reduz, te diminui, te fragiliza, pois como disse um pregador uma vez “Deus gosta de lidar com o frágil e até se tornou um”. A atitude cristã reformada de pensamento nos coloca com situação de total dependência de Deus em todas as áreas da vida, para que sejamos como uma pena, leve, solta, nas mãos do vento que é o Espirito. Aqui não cabe mais infantilidade, crise de insatisfação, rebeldia com a tradição e com os costumes que a escritura apresenta como reflexo do caráter de Deus, a saber a lei moral é o resplendor do caráter de Deus.

Que o desafio cristão entendido por uma perspectiva reformada calvinista da vida possa encontrar espaço em meio a um mundo de apostasia e ateísmo prático cristão dos dias atuais. 

Soli Deo Gloria 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Menos ortodoxia e mais ortopraxia

É inútil insistir em arrazoamentos teológicos e filosóficos, se na prática não forem revertidos em mudanças visíveis e reais. No final, de que serve o muito conhecimento se minhas atitudes e reações para com meus semelhantes distam impressionantemente dos meus livros favoritos, do meu discurso eloquente, da beleza e bondade ideal da minha pregação? Não quero obviamente desmerecer o tesouro intelectual aglomerado por grandes famosos e também por aqueles não tão famosos estudiosos e pensadores ao longo da história, apenas me espanto com o paradoxo que muitas vezes encontro entre o muito saber e o pouco fazer. E às vezes me encanto com a bondade, humildade, generosidade, sabedoria e mansidão que algumas pessoas tão simples oferecem no trato com àqueles ao seu redor. Chego a me perguntar de que vale tanto conhecimento, tanto senso crítico, se aos poucos me percebo cada vez mais intolerante, insensível e distante do meu próximo, e, quem sabe, de Deus? Se a graça que tanto estudo e prego não se manifestar em pequenas atitudes práticas em favor daqueles que me estão mais próximos, dificilmente deixarei um legado capaz de impactar e mudar suas vidas. Às vezes sinto saudade da simplicidade sincera que me permitia amar o meu irmão, livre dos obstáculos do preconceito e do intelectualismo sofisticado e vazio. O Evangelho de Cristo é prático, é simples. Sua Graça é palpável... São nas pequenas atitudes cotidianas de Graça e amor, e não em discussões sobre a “teologia mais correta”, que glorificamos o nome de Cristo na Terra. Platão que me perdoe, mas cansei do “mundo das ideias”. Que Deus me ajude a viver a simplicidade do Seu Evangelho a cada dia, que a minha busca pelo conhecimento seja acompanhada pela busca de mudança de atitude e de coração, que o meu falar não se distancie do meu agir, e que o amor supere o muito saber. Dá-me Graça Deus para que assim seja em mim. Menos ortodoxia e mais "ortopraxia", por favor!


Thalita Ubiali

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Nosso destino


"O convite para aceitar Jesus como Salvador, apenas como credencial para ir para o Céu, definitivamente não é a melhor convocação. A melhor convocação é o chamado para se tornar outra pessoa. A peregrinação espiritual cristã não é uma migração de um lugar para o outro, mas de um estado de ser para outro. Nosso destino não é o Céu. Nosso destino é Cristo."


Ed Rene Kivitz

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O valor da perola e o preço da Graça

Em Mateus 13:44-46 está registrado que Jesus assim descreveu o reino do céu:

O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.

[...] Quando leio essas parábolas penso com frequência num jovem que tive o privilégio de conhecer. Sua “pérola de grande valor” era uma mistura de cocaína e heroína. Por isso ele sacrificou todo o resto – sua saúde, sua família, um teto e um lugar para dormir, todas as suas possessões mundanas, – até não ter nada além da roupa do corpo e um violão. Ele amava aquele violão: viva dizendo que era a sua alma. Mas um dia penhorou o violão: “penhorei a alma”.

Tendo só a roupa do corpo e o dinheiro que recebeu pelo violão, tudo que ele conseguiu comprar foi uma “vírgula” de heroína (um décimo de grama, apenas o suficiente para deixá-lo alto uma única vez). Tendo vendido finalmente sua “alma”, essa era sua pérola de grande valor.

É aqui que a parábola termina, mas na continuação da história do meu amigo algo inacreditável acontece. Tendo descolado a sua heroína ele entra num beco para transar a droga, e ali depara-se com outro amigo que também é usuário de heroína mas não tem dinheiro, nem drogas, nem nada valioso para vender. O que faz meu amigo com sua pérola? Ele a compartilha. Ele a divide – o tesouro pelo qual sacrificou todo o resto – e dá metade a seu amigo, sem qualquer esperança de retribuição. Ali, num beco da zona leste do centro de Vancouver, meu amigo engajou-se num ato de generosidade e de sacrifício pessoal superior em escala a qualquer outro ato de generosidade ou sacrifício pessoal que eu jamais tenha visto praticado – quer por parte de cristãos ou de quaisquer outros. Pense o que quiser sobre o uso de drogas: o valor da pérola para meu amigo e a extensão de seu sacrifício suplantam em muito qualquer outro ato de bondade jamais praticado por mim.

E a verdade é que a atitude de meu amigo não é exceção. Em comunidades de usuários de drogas e outras comunidades de gente pobre não é incomum uma estirpe de economia fundamentada na graça, em que se dá sem se esperar receber de volta.


Daniel Oudshoorn

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meu irmão Kierkegaard

QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.

O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.

Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.

O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.

Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer.

Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática.

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.

Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:

“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.


Luis Felipe Pondê
Folha de S.Paulo, Ilustrada, 13 de junho de 2011

sábado, 4 de junho de 2011

Alimentando a sede

Por Caio Marçal

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Isaías 55:1

 

No sermão do monte, o bom Mestre nos diz que aqueles que têm sede de justiça são bem-aventurados. Parece paradoxal, mas quando encontramos a fonte da vida e da existência, sentimos sede. Sede de Justiça!

Ao encontrarmos verdadeiramente com o Senhor, somos contaminados por seus valores e instigados a vivê-los, pois cada vez que envolvemos com Deus, mais nos tornamos parecidos com Ele. Adoração verdadeira desemboca necessariamente em amar mais e promover o Reino e sua Justiça. Aliás, se adoração não tem levado nossas comunidades religiosas a promover defesa de direitos, desconfio que todas as nossas cerimônias são inúteis e reprováveis aos olhos de Deus - "Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue." Isaías 1:15

Infelizmente, um dos grandes problemas de ativistas cristãos talvez seja como alimentamos nossos anseios por transformação. Como afirma Henri Nouwen "Uma das características mais óbvias das nossas vidas diárias é que estamos atarefados. Na nossa vida os dias são cheios de coisas para fazer, pessoas para encontrar, projetos para terminar, cartas para escrever, telefonemas para completar, e compromissos para guardar". Suamos a camisa vivendo freneticamente nossa militância, que quase não temos tempo para mais nada em nossas agendas. Piora mais ainda quando Deus é esquecido ou quando usamos o Seu nome para instrumentalizar para discursos cheios de chavões sem vida.

Estamos na maior parte de nosso tempo tão engajados em permear a sociedade com valores como justiça e equidade, que esquecemos a Fonte que jorra toda a excelência da Justiça. Quanto mais nos afastamos de Deus, nos enfraquecemos na caminhada e por vezes perdendo o foco e objetivo principal do que fazemos, empobrecendo nosso testemunho. Quantas vezes desanimamos ante as duras lutas e somos tentados a desistir dos sonhos do Reino de Deus?

Espiritualidade engajada começa sempre no quarto fechado e desemboca em testemunho público relevante. Ao falar de Jeremias, Eugene Peterson nos diz "Foram as suas orações, em segredo, porém constantes, que o levaram a desenvolver a integridade humana e a sensibilidade espiritual que tanto almejamos. O que fazemos em segredo determina a integridade do que somos em público. A oração é o ato secreto que desenvolve uma vida que é, ao mesmo tempo, totalmente autêntica e profundamente humana".

Quer alimentar sua sede de mudança? Beba da Fonte da Justiça.

Oração: Senhor, nos perdoa por nosso ativismo estéril, afastando-nos de Ti. Que nossa adoração desemboque em Justiça e retidão. Aceita-nos na tua presença amorosa, fortalece nossos pés, encharca nossos olhos, revigora nosso amor, reacende nossa devoção. Examina nossas motivações, reaviva nossas esperanças no Teu Reino. Suplicamos no nome de Jesus, nosso Libertador. Amém

Caio Marçal é Sec. de Mobilização da Rede FALE e Missionário da Igreja de Cristo de Frecheirinha – www.fale.org.br

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Precisamos de uma Nova Reforma Protestante

Precisamos da Reforma Protestante hoje, é uma afirmativa que estou fazendo. Não precisamos de uma “nova reforma”, mas de nos apropriarmos, com sinceridade, com determinação, com convicção, com discernimento, com coragem, com atualização, da sua herança, tornando-a não somente autêntica, mas renovada, atual e relevante

Introdução

Falo essa noite a uma plateia de protestantes, e falo como protestante. Falo em um País onde as estatísticas referentes ao número de fiéis de igrejas que pretendem algum vínculo com o Protestantismo não para de crescer, Censo após Censo, quando começamos praticamente de zero, ao nos tornar uma nação independente em 1822. Um dos grandes debates entre sociólogos da religião e estatísticos é quando iremos parar de crescer, ou se iremos parar de crescer. O Protestantismo é um dado relevante não somente no Brasil, mas em toda a América Latina.

Por sua vez, o Congresso Lausanne III, realizado na Cidade do Cabo, África do Sul, em outubro do ano passado, reunindo clérigos e leigos da mais ampla diversidade denominacional, foi uma demonstração evidente de que o Cristianismo é uma religião que, finalmente, se tornou um fenômeno global, mas de que o Protestantismo é, em grande parte, o responsável para que o Evangelho esteja sendo pregado a quase todas as nações. O ímpeto missionário protestante não tem diminuído, mas se diversificado.

Dentro de seis anos, exatamente, em 31 de outubro de 2017, estaremos, em todo o mundo, comemorando os 500 anos da Reforma Protestante do Século XVI. 500 Anos, cinco séculos, meio milênio, é um bocado de tempo. Algumas organizações eclesiásticas e intereclesiásticas internacionais já estão elaborando uma vasta programação, de celebração, de avaliação e de projeção. Essa Semana Teológica Água da Vida, de fato, vive um momento de pioneirismo, como que dando o pontapé inicial. E o fazemos na Baía da Guanabara, onde, ainda no século XVI, aportaram os pioneiros huguenotes, onde foi celebrada a primeira Santa Ceia protestante nas Américas, e onde foi elaborado o primeiro documento doutrinário reformado nesse Novo Mundo, a Confissão de Fé Fluminense.

Tornei-me, pessoalmente, um protestante, por convicção e opção, três anos após a minha conversão, ao professar a minha fé em uma Igreja Luterana, no Culto alusivo à Reforma, como um dos momentos culminantes de uma jornada espiritual, que continua até hoje. Escrevi, certa vez, em um jornal secular de grande circulação, considerar o 31 de outubro de 1517 a data mais importante da Igreja depois do Dia de Pentecostes. E continuo considerando.

Movida por Deus, mas realizada por homens, nas palavras de Martinho Lutero, “simultaneamente justificados e pecadores” (‘simul justus et pecator’) a Reforma foi responsável por grandes feitos e por grandes erros. A nós, hoje, em um constante processo de atualização, nos cabe a honra de reproduzir os grandes feitos, e corrigir e não repetir os grandes erros, nessa Reforma que está permanentemente se reformando, não em seu conteúdo, mas, exatamente, em suas formas, seus métodos, suas abordagens, suas ênfases, suas contextualizações, suas linguagens, suas polêmicas e suas apologéticas.

Repudio, com o máximo de veemência, os que a acham ultrapassada, vencida, uma página da História que está a ter as suas páginas viradas para sempre. Lamento aqueles – inclusive em nosso País – que dela passam a se envergonhar e a negar, quando, muitos desses, um dia vibraram com o seu legado e se orgulharam da sua identidade.

Precisamos da Reforma Protestante hoje, é uma afirmativa que estou fazendo. Não precisamos de uma “nova reforma”, mas de nos apropriarmos, com sinceridade, com determinação, com convicção, com discernimento, com coragem, com atualização, da sua herança, tornando-a não somente autêntica, mas renovada, atual e relevante.

I – Cenário Passado

A Igreja, como Povo da Nova e Eterna Aliança, Novo Israel, novo Povo de Deus de todos os povos e para todos os povos, foi criada no coração do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, como portadora das Boas Novas e sinal, primícia e vanguarda da Nova Humanidade, tendo sua inauguração no Dia de Pentecostes sob o poder do Espírito Santo, e tem estado presente de forma ininterrupta na História por dois mil anos, e assim estará, com Ele presente, até a consumação dos séculos.

Portanto, a História da Igreja não começa no Século XVI, mas no século I. Não começa com as 95 Teses de Lutero, mas com o discurso de Pedro. Não começa em Wittemberg, mas em Jerusalém. E, muito antes do Imperador Constantino, no quarto século, a Igreja já tinha se espalhado por todo o mundo civilizado de então; já tinha definido o Cânon do Novo Testamento e ratificado o Cânon judaico do Antigo Testamento; já tinha definido o conteúdo das doutrinas básicas emanadas dessas Escrituras: a Santíssima Trindade, as duas naturezas, o nascimento virginal, a morte vicária, a ressurreição, a natureza da Igreja, o Retorno do Senhor e o Juízo Final, o Novo Céu e a Nova Terra; já tinha definido os Sacramentos do Batismo e da Eucaristia; já tinha estabelecido ministérios de bispos, presbíteros e diáconos; já tinha estabelecido um padrão do governo e deliberação nos Concílios. E, tudo isso, sob a fórmula “pareceu-nos bem ao Espírito Santo e a nós”.

As bases fundamentais da Igreja nada têm a ver com Constantino, mas foram estabelecidas antes dele, nesse legado pensado, ensinado e transmitido pelos Apóstolos, pelos Pais Apostólicos e pelos Pais da Igreja. E era assim que os Reformadores Protestantes acreditavam. Eles nunca pretenderam criar uma nova igreja, fundar uma nova igreja, mas reformar a Igreja de sempre, Una, Santa, Católica e Apostólica. Eles repudiavam o romanismo, não o catolicismo, a fé universal histórica. Eles não traziam nada de novo senão a reafirmação do antigo e do eterno. Os Reformadores olhavam para o Oriente, onde estavam as Igrejas Bizantinas, as Igrejas Pré-Calcedônias (ou Jacobitas), as Igrejas Assírias (ou Nestorianas) e as Igrejas Uniatas (autônomas, mas vinculadas a Roma), e olhavam para o Ocidente, para a Igreja Romana ou Latina, e lamentavam e repudiavam os seus “erros, desvios e superstições” acumulados ao longo dos séculos, pretendendo questioná-los e expurgá-los, mas, unanimemente as consideravam como “ramos autênticos da única Igreja de Cristo”. E não era outra a sua visão em relação às manifestações proto-reformadas, como os valdenses e os hussitas ou moravianos.

Resgatar hoje a Reforma Protestante é resgatar essa visão dos Reformadores sobre o que acontecera antes deles, e, em decorrência, é repudiar, repito, repudiar, como uma terrível heresia, que nos trouxe danos incomensuráveis, a teoria que afirma uma suposta “apostasia geral da Igreja”, como se o Espírito Santo tivesse se ausentado da terra entre a morte de João e o nascimento de Lutero. Calvino, Lutero, Cranmer – todos eles – jamais pensaram assim, e condenariam quem pensasse assim, mas assumiam o passado e afirmavam a presença ininterrupta do Espírito Santo. Todos eles se referiam aos Concílios e aos Pais da Igreja. As Confissões de Fé da Reforma, por sua vez, reafirmam todos os artigos do Credo dos Apóstolos e do Credo Niceno, ampliando e aprofundando alguns temas, especialmente a autoridade das Sagradas Escrituras, a centralidade do sacrifício de Cristo e a salvação pela Graça mediante a Fé.

Uma questão central é: no que nos distanciamos hoje dos Reformadores?

Em primeiro lugar desse olhar positivo sobre todo o passado, desse assumir todo o passado, desse assumir toda a História, o que nos faz continuar críticos dos “desvios, erros e superstições”, mas que nos deveria fazer, também, respeitosos e abertos a aprender com as antigas Igrejas não-reformadas, e a dizer que, nos quinze séculos anteriores à Reforma, a cada domingo que se celebrava a Ressurreição e se recitava os Credos, ali estava – com todas as suas limitações – a Igreja de Cristo e não a apostasia do anti-cristo. Os embates travados nesse continente com a Igreja Romana, e os longos períodos de perseguição e discriminação, tornou a comunidade protestante mais vulnerável a aderir à heresia da “apostasia geral da Igreja”, e hoje, afirmando as nossas convicções protestantes, repudiamos essa heresia e reafirmamos o pensamento dos nossos antepassados na fé.

Em segundo lugar quando substituímos a autoridade das Sagradas Escrituras pelo racionalismo, de um lado, ou pelas revelações particulares e pelas experiências, do outro lado. Sola Scriptura, é uma Bíblia crida, aberta e exposta, como Palavra de Deus, nada ensinando ou requerendo que seja crido que por ela não se possa provar, quando substituímos a Sola Gratia pela Lei e pelas Obras, nas exigências legalistas e moralistas dos usos e costumes, quando substituímos a Sola Fide como dom de Deus que recebe a Graça, por um “pensamento positivo” que impõe ao céu a sua saúde e a sua prosperidade.

Começamos a Reforma com seis ramos do Cristianismo e a terminamos com uma dúzia apenas, pois o denominacionalismo não havia ainda surgido, e nem o termo “denominação” era sequer conhecido ou usado, porque, nem está na Bíblia, nem está nas Confissões de Fé Reformadas; nem está nos escritos dos Reformadores, porque eles repudiavam como pecados contra o Espírito Santo, tanto as heresias, que atentam contra a verdade, quanto os cismas, que atentam contra a unidade.

A Bíblia foi traduzida para um número cada vez maior de idiomas, escolas, universidades, hospitais foram espaços concretos do amor de Cristo às nações, o analfabetismo foi reduzido, vidas foram transformadas, culturas foram impactadas, o trabalho foi valorizado, a família afirmada, bem como a dignidade de toda a pessoa humana, em um vigoroso empreendimento missionário que, apesar dos seus inúmeros equívocos, teve uma inegável dimensão civilizatória. A Reforma Protestante, em seu conjunto, tornou o mundo melhor.

Expansão missionária que, por meio de missionários estrangeiros e pioneiros nacionais chegou até ao Brasil, sob fortes restrições legais e discriminações sociais, que varou os sertões ao lombo de burro, levando luzes onde havia escuridão da alma, e que nós hoje somente estamos aqui na esteira do seu ministério sacrificial. E, nessa noite, é nosso dever expressar a nossa gratidão e honrar a sua memória.

A Reforma deixou de ser algo longínquo, na Europa, ou na América do Norte, para ser algo vivo e atual no Brasil. Graças a Deus, por isso!

II – Cenário Atual

O avanço protestante foi originalmente obstaculado no Leste e no Sul da Europa, mas se desenvolveu no Centro e no Norte daquele continente, inclusive como religião oficial. Essa vinculação com o Estado não foi benéfica, e, rapidamente, deu lugar a uma imensa maioria de membros nominais e uma minoria de comprometidos, embora tenha tido um papel de plasmar marcas importantes da cultura e das instituições. Posteriormente, o avanço da Teologia Liberal – universalista quanto à salvação – acelerou o esvaziamento dos templos. Hoje, com a ideologia Secularista e a imigração de membros de outras religiões, particularmente do Islã, já se fala de uma Europa pós-cristã, onde, o que é mais grave, o Cristianismo vem sendo discriminado e perseguido pelo Estado e pela Sociedade secularizadas.

Quadro semelhante vai se dando também no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, e, em menor velocidade, mas não menos evidente, nos Estados Unidos da América. Philip Jenkins, essa sua obra agora clássica, A Próxima Cristandade, nos fala de um deslocamento, mais uma vez, do Cristianismo, do Norte e do Oeste para o Sul e o Leste do globo, notadamente para a África Sub-Saariana, para a América Latina e para algumas áreas da Ásia e da Oceania.

E aí vamos detectar alguns problemas internos enfrentados pelo Protestantismo, nas suas origens, com rebatimentos atuais.

O primeiro foi a sua preocupação com a Soteriologia à custa da Eclesiologia, resultando em uma débil doutrina sobre a Igreja, a partir de uma ruptura com o modelo histórico episcopal, e a criação do modelo presbiteriano e do modelo congregacional. A autoridade da Bíblia foi afirmada, mas não se elaborou instituições sólidas, que garantissem a manutenção desse princípio, fortemente atacado de fora pelo Racionalismo e de dentro do Liberalismo.

O segundo foi a distorção quanto ao princípio do “livre exame”, entendido originalmente como livre acesso, por uma visão posterior de uma “livre interpretação”, dentro do individualismo burguês decorrente do modo de produção capitalista e da urbanização, resultando em um caos doutrinário interminável.

O terceiro, a partir dos Estados Unidos nos últimos dois séculos, foi o surgimento do conceito de “denominação” e o fenômeno sócio-eclesiástico do “denominacionalismo”, com uma fragmentação institucional sem fim, e a eliminação do pecado do cisma.

Adicione-se as controvérsias polarizantes das primeiras décadas do século passado, outra vez tendo como epicentro os Estados Unidos, tais como: Liberalismo vs. Fundamentalismo; Evangelho Social vs. Evangelho Individual; Evolucionismo vs. Criacionismo, a atitude de apoio, indiferença ou oposição dos protestantes a Hitler e ao Nazismo, ao Racismo do Sul dos Estados Unidos, ao apartheid da África do Sul, a guerra civil de Ruanda, a um ou outro lado da ideologias em choque na chamada “Guerra Fria”, ou às ditaduras do Terceiro Mundo, inclusive da América Latina, além da falta de sensibilidade cultural de empreendimentos missionários, e teremos uma lista de aspectos negativos e danosos.

Os principais movimentos surgidos no interior do Protestantismo na primeira metade do século passado foram, sem dúvida, o Movimento Ecumênico, com uma necessária bandeira da unidade, mas que, depois, se perderia no caminho, sequestrado por uma elite teologicamente liberal; e o Movimento Pentecostal, que se, por um lado, teve um aspecto altamente positivo na atualização e na dinamização protestante, por outro lado foi negativamente marcado pelo sectarismo, pela alienação política e pelo antiintelectualismo. No século XXI o Movimento Pentecostal tem sido igualmente afetado por um doloroso processo de fragmentação, menos por questões doutrinárias do que por conflitos de personalidades e a prática de nepotismo.

Novas correntes, como a Teologia da Batalha Espiritual e a Teologia da Prosperidade apenas concorreram para esgarçar o já débil tecido unificador da comunidade protestante.

O velho Liberalismo Moderno Racionalista tem dado lugar, mais recentemente, ao Liberalismo Pós-Moderno Revisionista, no lugar da verdade pela razão, múltiplas verdades ou nenhuma verdade, o que incluiu um relativismo moral. Em várias tendências do protestantismo atual o passado é atacado e negado em seu valor, inclusive o conteúdo doutrinário, e tanto os racionalistas liberais, quanto conservadores valorizadores das revelações privadas causam imenso dano ao princípio reformado da Sola Scriptura.

Sem dúvida que a expressão mais dinâmica do Protestantismo, nos últimos dois séculos, tem sido o Evangelicalismo, com sua ênfase na Bíblia, na cruz, na conversão, na santificação e nas missões. Mas, como se pode claramente perceber no recente Congresso Lausanne III, na cidade do Cabo, África do Sul, a Igreja está se espalhando rapidamente por todo o mundo, e lideranças nacionais estão sendo treinadas, mas o controle financeiro, político e ideológico dessa corrente majoritária ainda está fortemente nas mãos das organizações sediadas nos espaço euro-ocidental e na cultura anglo-saxã.

Último em citação, mas não em importância, tem sido o avassalador fenômeno do chamado neo-pentecostalismo, também conhecido como iso ou pseudo-pentecostalismo, como seitas para-protestantes, pretendendo fazer parte dessa expressão do Cristianismo, mas sem com ele manter vínculos de qualquer natureza, seja histórico, seja teológico, seja doutrinário, trazendo danos à identidade e à imagem do Protestantismo.

Algo que deve ser ressaltado é que o Protestantismo Brasileiro, pela maior parte da sua história, conseguiu se manter ao largo de alguns fenômenos que atingiam negativamente os seus irmãos de outros continentes, chegando inclusive a ensaiar um nativismo e uma inculturação, uma caminhada autóctone, que hoje são apenas “gratas memórias”, porque também fomos atingidos pela fragmentação institucional e doutrinária, pela importação acrítica de ideias e métodos oriundos do centro do poder mundial, pela desvalorização e desconhecimento do passado ou das expressões não euro-ocidentais do Cristianismo, pela falta de ética e pelo coronelismo do poder pessoal de “donos” de igrejas e denominações, com seus caudilhos e sua fogueira de vaidade..

Uma das principais fontes de enfraquecimento da teologia reformada no protestantismo brasileiro se deu na área do louvor, do cântico, porque a Igreja crê no que ela canta, e canta o que ela crê. Devemos apoiar a composição de novos hinos, especialmente com ritmos nacionais, mas, ao abandonarmos os velhos hinários, abandonamos a riqueza e a profundidade da teologia reformada neles contida. A Igreja deixou de cantar a teologia reformada, para ir deixando a própria teologia. O que se canta hoje são genéricas odes à Divindade e a Paz Interior, que pode ser adotada por qualquer monoteísta, e quase nunca tem algo especificamente protestante ou evangélico.

Enfim, o Protestantismo no Brasil é uma força dinâmica, ainda em crescimento quantitativo, mas com sérios problemas originais ou importados, pela superficialidade, pela ausência de um projeto histórico, o que faz com que, apesar do aumento de igrejas e de membros, e de vidas individuais beneficiadas, pouco ou quase nada tem representado em impacto sócio-político-econômico-cultural e na redução dos problemas nacionais, seja a desigualdade social, seja a desonestidade política, seja a violência social.

Tida como uma “igreja adolescente”, ou como “um gigante de pés de barro”, temos o que celebrar; temos potenciais, mas temos muito com o que nos preocupar e, mantido o quadro atual, fica cada vez mais difícil se ser otimista quanto ao futuro. Temos um Protestantismo Brasileiro ou temos “protestantismos brasileiros”? Ou somos apenas um conjunto de indivíduos morenos que professam uma religião estrangeira ou estrangeirizante, incapaz de se enraizar e de amar e santificar a brasilidade, de pensar como nacionais? Por outro lado, uma pergunta que não cessa de nos inquietar: E o que resta do legado da Reforma entre nós?

III – Cenário Futuro

O cenário que se desenhava na primeira metade do século passado, com um número limitado de denominações históricas, de imigração ou de missão, e de denominações pentecostais sérias e éticas, aglutinadas em torno da Confederação Evangélica (1934-1964), em clima de respeito mútuo, e de mais convergências do que divergências, com todos se considerando parte de uma mesma comunidade, portadora de uma mesma herança, partilhando dos mesmos ideais, lamentavelmente se foi, e não parece possível de ser retornado, ao menos em um horizonte previsível.

O cenário que se desenhava por mais de um século, ainda presente na segunda metade do século passado, de um Protestantismo que tinha o Evangelicalismo como corrente hegemônica, em algo que parecia sólido e disseminado, está se esvaindo muito rapidamente nas últimas décadas, minado pelo Fundamentalismo, pelo Liberalismo e pelo Pseudo-Pentecostalismo. Ironicamente, quanto mais “evangélicos” o IBGE atesta em cada Censo, menos evangélicos esses “evangélicos” são…

O cenário que gerou o nacionalismo da Igreja Presbiteriana Independente ou do “Movimento Radical Batista”, os setores e departamentos da Confederação Evangélica, a participação brasileira no Congresso do Panamá (1916), nas CELAs e nos CLADEs, e a inquietação de jovens e de intelectuais na construção de um Evangelicalismo Latino, seja na Aliança Bíblica Universitária (ABU), seja na VINDE, seja na Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), seja nos Congressos Brasileiros e Nordestinos de Evangelização, hoje pouco mais é do que memoráveis páginas da nossa História, talvez peças de um museu de sonhos, afogados todos na importação de textos, pensadores, preletores e métodos dos centros do poder mundial, reestrangeirizados, com as “fábricas” substituídas por lojas de brinquedos não “Made in China”, mas “Made in USA” ou “Made in UK”…

Em uma época em que a globalização é apenas um sofisma para o neocolonialismo, somos, provavelmente, os mais colonizados de todos os brasileiros.

A Bíblia, cada vez mais vendida, em um sem número de traduções e de comentários domesticadores para todos os gostos, é cada vez menos lida e menos conhecida.

A História Geral e Nacional da Igreja é algo sobre o que não se tem interesse ou se tem um escasso conhecimento. E como teremos futuro, se não temos passado? E como iremos atualizar o que desconhecemos: a vida e a obra dos Reformadores, as Confissões de Fé, a Teologia, os Movimentos, enfim, o conteúdo mesmo da Reforma!

Antigamente, ou tínhamos membros comprometidos ou os chamados “desviados”. Hoje há o “crente de IBGE”, o “descendente de crente”, o “crente nominal”, o “membro de frequência ocasional”, “de vez em quando”, “quando me der na telha”, “bissextos”, os “buscadores de bênçãos”, os eternos migrantes denominacionais, no modelo “religião self-service”, onde se põe de tudo no prato, que se projeta em novas manifestações institucionais, como Assembleianos Calvinistas da Teologia da Prosperidade ou Batistas Renovados do Sétimo Dia, com as nomenclaturas as mais exóticas e as mais patológicas…

Se o poeta já dizia que “navegar é preciso”, não teríamos imagem bíblica mais adequada para o protestantismo brasileiro do que a Arca de Noé, na diversidade e algazarra dos bichos de todos os matizes.

Uma nota de tristeza e de lamento se dirige a uma expressiva fatia da nossa liderança, que foi evangélica no passado, mas que hoje, influenciada por outras correntes, abjura do seu passado, ridiculariza suas antigas convicções e confunde as novas gerações, na sua busca necessária de modelos e de heróis. A dubiedade de tantos diante de temas como o aborto e a agenda gay evidenciam que o Evangelicalismo brasileiro é menos sólido do que pensávamos ou desejávamos que fosse.

Para um futuro próximo não vislumbro grandes e radicais mudanças no presente quadro. Continuaremos a crescer quantitativamente, teremos uma mobilidade social com a nossa expressiva presença na chamada “nova classe média”, moralmente mais conservadora, e que os políticos já estão descobrindo, mesmo fragmentados e divergentes; vamos sendo empurrados pela História como atores sociais significativos, e não teremos uma face, mas várias faces, podendo a nascente Aliança Evangélica aglutinar setores éticos em torno da Teologia da Missão Integral da Igreja e de um Evangelicalismo teologicamente conservador e sócio-economicamente progressista. A criação de um bloco mais maduro passa pela consolidação de algo que já vem se dando há algum tempo: a aproximação entre os históricos que admitem a contemporaneidade dos dons espirituais e admiram o dinamismo dos pentecostais, e os pentecostais que valorizam o legado e o pensamento teológico dos históricos.

Na profusão de denominações, subdenominações, ministérios, jurisdições, comunidades, missões, há o desafio da convivência respeitosa, da busca de um mínimo de ética como testemunho e, com maior esforço, o estabelecimento de pontes de diálogos e de ações conjuntas, onde tanto a Aliança Evangélica, a Sociedade Bíblica e as Ordens e Conselhos de Pastores poderiam jogar um importante papel.

A busca de um diploma reconhecido pelo MEC, antes que o preparo de obreiros tende a fortalecer os cursos de Ciência da Religião à custa dos Cursos de Teologia e da própria produção teológica e da prática pastoral.

A reorganização da Igreja Romana em torno de um núcleo de seguidores mais comprometidos, o espaço dos cultos afro-ameríndios nas academias e na mídia, a indiferença religiosa das elites e o secularismo do Estado são desafios muito fortes, e que, muito provavelmente, forçarão um despertar, ao menos por espírito de sobrevivência.

Não precisamos de uma Nova Reforma, nem de novos Reformadores, mas de uma redescoberta no século XXI das mesmas verdades que foram redescobertas no século XVI, e de líderes que tenham a coragem de reafirmá-las dentro do novo contexto. Como já tenho dito, o futuro está no passado que permite construir o presente.

Creio, firmemente, que o Evangelicalismo representa o somatório de toda a herança reformada e é a sua melhor manifestação. Na diversidade de teologias no mercado, nos cabe lutar pela hegemonia do Evangelicalismo, como princípio e como núcleo condutor de uma reformação das igrejas descendentes da Reforma.

Humanamente, o quadro poderia nos levar a cair no pessimismo, já que o otimismo seria irrealista e inconsequente. Mas, a nossa crença na Providência Divina, no Senhorio de Deus sobre a História, e, em particular, sobre a Sua Igreja, nos permite um realismo otimista, passos de fé, que, em muitos momentos, são “saltos no escuro”, mas, assistidos pelo Espírito Santo, nutridos pela Palavra e pelos Sacramentos, nos resta, em obediência, avançar, certos de que Ele faz nova todas as coisas, pois, o nosso Deus é um Castelo Forte, e, em se tratando da Igreja de Jesus Cristo, “Ninguém detém. É obra santa!”.


Robison Cavalcanti
Niterói (RJ), 28 de maio de 2011,
Anno Domini.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O ateísmo lúcido de Lovecraft

Meu professor de redação H. P. Lovecraft, de quem herdei o vício de abusar de adjetivos, era um ateu convicto, ocasionalmente militante. A mesma convicção materialista que o fez eliminar dos seus contos de terror qualquer traço do sobrenatural levou-o a duvidar de todas as manifestações tradicionais de religião. Sua histórias não são povoadas por vampiros, fantasmas ou assombrações, e pelo mesmo motivo no seu universo não há espaço para Deus ou para intervenções sobrenaturais1. Tudo no cosmos é gerado pelo acaso, e este domado apenas pelas leis cegas da física. No grande contexto do universo, a vida orgânica na terra não passa de “um acidente minúsculo e temporário”, sendo a própria humanidade “um acidente ainda menor e mais temporário”.

Essas convicções, mais ou menos populares hoje em dia, estavam longe de serem comuns na década de 1930, a última do autor. Acho particularmente notável, no entanto, que a grande reserva que Lovecraft encontrou para apresentar contra o cristianismo não foi o fato de a fé cristã pressupor um universo sobrenatural que contrariava sua visão de mundo materialista. Sua indignação era ao mesmo tempo mais profunda e mais lúcida2:

O cristianismo não tem como ser levado a sério. É ingênuo e anticientífico culpar o mundo por não se conformar a ele – visto que se trata de uma ilusão quimérica e poética totalmente alienígena à natureza humana. [O cristianismo] é absurdo, porque nenhuma raça ou nação poderia (ou deveria) jamais chegar a conformar-se a ele.

E basta este trecho para Lovecraft se mostrar mais agudo e inclemente do que Richard Dawkins ou qualquer outro ateu militante da nova geração. Em particular, Lovecraft enxerga que o cristianismo é uma ameaça para o conceito de raças e nações justamente por propor um ideal elevado demais, um sonho de fraternidade aparentemente impraticável e “totalmente alienígena à natureza humana”.

Ao contrário dos ateus militantes contemporâneos, ele sabe avaliar o verdadeiro peso do seu adversário. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça à civilização por ser uma religião como as outras; para Lovecraft, é uma ameaça justamente por não ser uma religião, já que as religiões tendem a apoiar e legitimar o estado de coisas. Para Dawkins o cristianismo é um risco perene porque recusa-se a reconhecer a natureza última da realidade; para Lovecraft, ele é um risco porque sonha teimosamente poder alterá-la. Para Dawkins, o cristianismo é uma ameaça por patrocinar a injustiça; para Lovecraft, é uma ameaça por sonhar uma justiça excessiva: por ser uma intransigente ingenuidade e uma declarada insensatez, uma poesia que pode transtornar o mundo se raças e nações não resistirem ao apelo evangélico de conformarem-se a ela. Para Dawkins o escândalo está em, diante de todas as evidências, o cristianismo recusar-se a reconhecer que não há céu; para Lovecraft está em, diante de todas as improbabilidades, o cristianismo insistir em implantá-lo na terra.

Dos dois, só Lovecraft sabe do que está falando.


Paulo Brabo
retirado da Bacia das Almas

sábado, 23 de abril de 2011

Pedro

Eu acho engraçado ver religiosos quererem posar de pessoas incrivelmente perfeitas, que não tem sombras, somente luzes. Todos nós somos feitos de sombras e luzes. Acho uma grande tolice insistir que a santidade consiste em nunca errar, nunca ser incoerente. Quem é absolutamente coerente?

Essa empáfia é desmascarada quando Jesus desafia aquele que não tem nenhum pecado a atirar a primeira pedra na mulher adúltera. Fico feliz que tenha sido naquele contexto, porque se Jesus fizesse a mesma pergunta hoje, em muitos lugares, tanto a mulher, quanto ele (Jesus) iriam levar muitas pedradas, porque o que não falta é gente achando que não tem pecado algum.

A Bíblia é um conjunto de livros que mostra o lado bom e o lado ruim de seus personagens. O que só traz mais autoridade a ela, porque não faz de seus personagens heróis sobre-humanos, ou super-humanos, mas mostra-os na plenitude de sua humanidade.

Pedro é um dos personagens mais interessantes dos Evangelhos, porque ele tem essa inconstância tão humana, essa incoerência que nos é muito próxima. Pedro tinha grandes virtudes, entretanto tinha também sérios desvios de caráter. Mas, no fim das contas, Pedro era um grande amigo de Jesus. E Jesus gostava dele mesmo sabendo quem ele era.

Pedro era um simples pescador com um desprendimento enorme, tanto que largou tudo e seguiu a Jesus assim que foi chamado. Tinha uma coragem incomum, do tipo que o fez caminhar sobre as águas ao comando do Mestre. Sua percepção sobre Jesus era clara, pois o reconhecia como o Cristo. Por outro lado, mostrou-se medroso várias vezes, intempestivo outras e, no pior momento de sua vida, de maneira covarde, negou que conhecesse Jesus.

Quem pode condenar Pedro? Também negamos a Jesus toda vez que nos recusamos a viver do modo como ele propôs. A negação acontece quando somos egoístas em vez de altruístas, avarentos em vez de generosos, quando mentidos em vez de dizer e viver a verdade. Nós O negamos quando nos recusamos a fazer algo para mudar esse mundo para melhor, quando em vez de amarmos as pessoas, usamo-las como coisas descartáveis. Negamos a Jesus quando deixamos de ser um vislumbre do Seu amor e do Seu Reino, quando não amamos as pessoas como a nós mesmos.

Pedro, mesmo depois de tudo o que viveu com Jesus, tinha seus problemas. Mesmo depois da experiência do pentecostes, ainda se viu envolto com sua dubiedade de caráter, sendo repreendido por Paulo por conta disso. Não houve uma transformação radical e repentina. A mudança é sempre gradual e fruto de uma caminhada, nunca algo que acontece com num passe de mágica.

Depois de tudo, ao redor de uma fogueira Jesus queria saber tão-somente do amor de Pedro, a santidade viria com o tempo. Jesus sabia das contradições de seu discípulo e de sua humanidade e mesmo assim o amava.

Se houve esperança para Pedro, também para mim, humano que sou, haverá.


Márcio Rosa da Silva

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Fraqueza de Deus

Boa parte do ateísmo contemporâneo baseia-se na objeção enunciada com muita força no passado por J. P. Sartre e retomada pelos seus discípulos: “Se Deus existe, eu não sou nada”.

Se existe um Deus onipotente, o que ainda sobra para mim? Essa presença ao meu lado do poder absoluto torna irrisórias todas as minhas ações. Diante do infinito, todo o finito torna-se irrelevante. Há muitas maneiras de enunciar o argumento.

A objeção foi formulada desde a Idade Média, mas não conseguiu convencer. A resposta diz que Deus e o homem não se situam no mesmo plano, como duas liberdades em competição.

A resposta não convenceu porque durante séculos os teólogos debateram a questão da predestinação, isto é, da compatibilidade entre a liberdade de Deus todo-poderoso e a liberdade humana. Assim fazendo, situaram no mesmo plano as duas liberdades. Se os teólogos – tomistas, dominicanos e jesuítas – tomaram essa posição durantes séculos, não é estranho que filósofos façam a mesma coisa.

De qualquer maneira, a pessoa sente tantas vezes o conflito entre a sua vontade, o seu desejo e o que diz que é a vontade de Deus, que a reação parece inevitável. Os sartreanos sustentam que, para ser livre, é necessário negar a existência de Deus. Infelizmente para eles, Deus não depende das negações ou das afirmações de Sartre.

A verdadeira resposta está na fraqueza de Deus. O nosso Deus é um Deus “escondido” – tema constante da tradição espiritual cristã.

É um Deus que se manifesta no meio da nuvem, que se faz perceptível, mas não impõe a sua presença.

A liberdade consiste justamente nisto: diante do outro, a pessoa pára, reconhece e aceita que exista. Abre espaço, acolhe. Longe de dominar, escuta e permite que o outro fale primeiro. Assim Deus suspende o poder de Deus.

Nenhuma evidência, nenhuma ameaça, nenhum constrangimento força nem obriga. Deus permite e deixa fazer. Deus respeita o outro na sua alteridade e permite, até mesmo, que o outro se destrua sem intervir. A liberdade de Deus consiste em permitir e ajudar a liberdade do menor dos seres humanos. A liberdade de Deus reprime o poder. Torna-se fraca para que possa manifestar-se a força humana.

O hino de Filipenses 2.6-11, núcleo da cristologia paulina, expressa essa fraqueza de Deus. Pois o aniquilamento de Jesus incluía o aniquilamento do Pai: "Esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo, tomando a semelhança humana. E, achado em figura de homem, humilhou-se a foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2.7-8).

Deus escondeu o seu poder até a ponto de as autoridades de Israel não o reconhecerem. É desta maneira que Deus se dirige às pessoas: sem intimidação, sem poder, na dependência de seres humanos, entregando a própria vida nas mãos de criminosos. Quem dirá que dessa maneira Deus faz violência às pessoas?

Como comentou Levinas, o outro é o desafio da liberdade, a provocação que a desperta. Diante do outro há duas atitudes: examiná-lo para ver em que lê me poderia ser útil ou qual é a ameaça que representa para mim, ou então, perguntar-me o que eu poderia fazer para ajudá-lo.

A liberdade de Deus autolimita-se. Diante da sua criatura, Deus limita sua presença. Deus preferiu antes deixar que crucificassem o seu Filho a intervir para impedir tal justiça. Trata-se de fraqueza voluntária.

É verdade que durante muitos séculos, sobretudo na pregação popular, os pregadores apresentaram uma concepção bem diferente de Deus. Usaram temas e comportamentos da religião popular tradicional: medo diante do trovão, medo da seca e de cataclismos naturais – entendidos como castigos divinos –, medo das doenças recebidas também como castigos e assim por diante.

Era fácil despertar o temor a partir de idéias puramente pagãs ou supersticiosas. Essa pregação de terrorismo religioso podia dar resultados imediatos, levando milhares de pessoas aos sacramentos. A longo prazo, porém, destruíram as bases da credibilidade da Igreja. Hoje a maioria das pessoas deixaram de ter medo do trovão, não sendo mais motivo para temer a Deus, como foi no passado. Naquele tempo achou-se válido o método do temor, todavia hoje recolhe-se os frutos dessa pastoral.

Pensou-se que os povos precisassem temer um Deus forte – e desprezariam um Deus fraco. Tais erros se pagam cedo ou tarde. Estamos pagando hoje esse preço.

Deus torna-se fraco porque ama. Quem mais ama é sempre mais fraco. Não será essa a grande característica das mulheres? Quase sempre amam mais, e, por isso, sofrem mais. Porém, nessa fraqueza consentida não estará a maior liberdade?

Nessa fraqueza a pessoa vence todo o egoísmo, todo o desejo de prevalecer, toda a preguiça de aceitar maiores desafios. Exige mais de si própria, vai mais longe, além das suas forças. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João 15.13). Aí está também a expressão suprema da liberdade.

A fraqueza de Deus vai até a ponto de se tornar suplicante. O versículo predileto do saudoso teólogo latino-americano Juan Luís Segundo diz; “Eis que estou batendo na porta: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Apocalipse 3.20).

Deus bate na porta e aguarda. Se não é atendido, afasta-se e continua o caminho. Somente entra se é convidado. Depende do convite da pessoa. Deus torna-se pedinte, suplicante.


José Comblin
(extraído de "Vocação para Liberdade" - Editora Paulus)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Deus conosco

Será uma grande era de reconciliação, de um Salvador que, como verdadeiro gênio em sua própria casa, em meio aos homens, será apenas crido e não visto. Ele será vísivel àquele que crê de inúmeras formas: consumido como pão e vinho, abraçado como a pessoa amada, respirado como o ar, ouvido como palavra e canção, e acolhido como a morte no coração do corpo que se apaga, com volúpia celeste e as dores mais agudas do amor.


Novalis,
em A cristandade, ou a Europa (1799)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

José Comblin: profeta da liberdade

No dia 28 de março, morreu um dos maiores teólogos que a América Latina conheceu, o padre belga José Comblin. Tendo vivido grande parte da sua vida no Nordeste (desde 1958), Comblin foi assessor de D. Hélder Câmara e teve papel destacado na Teologia da Libertação e na Teologia da Enxada. Fiel ao seu espírito aberto, participou nos últimos anos de diferentes eventos promovidos por evangélicos no Nordeste como o Fórum Popular de Reflexão Teológica de Bultrins e consultas do Núcleo Nordeste da Fraternidade Teológica Latino-Americana.

Paulo César Pereira, um dos pastores da Igreja Batista de Bultrins, desenvolveu uma amizade pessoal com Pe José Comblin e estuda sua obra no mestrado em Ciências da Religião, na Universidade Católica de Pernambuco. Desejando homenageá-lo, a revista Novos Diálogos consultou Paulo César sobre a disponibilização de uma longa entrevista realizada no contexto de sua pesquisa. Gentilmente, Paulo César nos enviou alguns trechos da conversa que teve em diferentes ocasiões com Pe. Comblin.

Pe. José, é comum se observar que alguns autores, a medida que vão envelhecendo na vida, também vão escrevendo mais, se especializando e se aprofundando sobre algum tema especifico. Seria correta a observação de que o senhor anda no sentido contrário, escrevendo muito mais sobre uma diversidade maior de temas?
Bom, é que o tema é o mundo; é o cristianismo no mundo, e isso tem vários prolongamentos e várias dimensões, sempre e cada vez mais numa perspectiva do Espírito.

Algum de seus livros encontrou uma forte oposição da cúpula da Igreja Católica a ponto de tentarem impedir a publicação?

Ah, não. Mas nunca houve reações fortes. Nunca recebi uma carta mostrando indignação. Sempre soube que tinha muita gente que não gostava, mas não se manifestavam. Eu sempre soube que Roma não gosta de mim, mas nunca escreveram nada, nunca falaram nada. Então acho que não tem nada que eles considerem que seja heresia. Leonardo Boff foi repreendido e condenado porque em seu livro sobre a Igreja diz que o Papa era o último ditador que havia.

Em Igreja, carisma e poder?
É, Igreja, carisma e poder. Tocar no Papa não pode, isso aí não pode. Pode tocar em Jesus, mas não no Papa. Na América Latina e no Brasil, sobretudo, isso é uma coisa sagrada; até os ateus tem respeito pelo Papa, como Fernando Henrique.

Depois de mais de cinquenta anos de ministério vocacional caminhando e participando das lutas com os pobres na América Latina, em algum momento o senhor perdeu a esperança de que podemos ter um mundo mais justo?

Ah, podemos ter esperança de que seja mais justo, agora, totalmente justo, aí... Mas, tem que lutar para que seja o melhor possível. Agora, claro, se se considera a situação política, econômica geral, precisa ter muita esperança.

O senhor já se sentiu pessoalmente desanimado nessa caminhada?
Não, tem que continuar como se tudo pudesse acontecer. Agora, é claro, se anuncia que em 2030 a China terá superado a economia de metade do mundo. Depois de 2030, vai ser o líder mundial. Será que a liderança mundial da China será melhor do que a dos Estados Unidos? Pelo que se vê na China, a maneira como trata os operários, como trata a mão de obra, é bem provável que não. Lá o numero de cristãos está aumentando, porque a fé no marxismo está diminuindo. Então, buscam uma alternativa, uma outra coisa.

Aumentar o numero de cristãos não significa mais justiça, não é verdade?

Ah, não, imagina. Se os Estados Unidos, em nome de Jesus, faz a guerra em toda parte do mundo... fizeram em Honduras, estão preparando uma guerra entre Colômbia e Venezuela, e são quase todos cristãos.

Grande parte protestantes, não é?

No tempo do Bush, era o único governo no mundo que começava toda reunião de governo com uma oração. Criam que qualquer deliberação política começa com uma oração. Isso nem no Brasil acontece. Então isso não basta.

Na sua maneira de pensar, padre, que elementos são essenciais, para o estabelecimento de uma Pastoral Urbana, para que seja eficaz e eficiente?

Bom, eu teria uma distinção a fazer: uma pastoral urbana genérica pelo fato de estar na cidade e depois vem a pastoral mais popular, que vive a cidade de maneira bem diferente. Tem várias maneiras de viver a cidade. Por exemplo, quem tem carro e quem não tem carro. Ali o tipo de relação social é bem diferente. Então, tem que levar em conta essas diferenças. Alguns fizeram inquérito sobre o comportamento escolar na periferia de São Paulo e na periferia de Paris e viram que é a mesma coisa, os mesmos problemas, as mesmas dificuldades, os dois mundos: o mundo que participa das vantagens das cidades, comunicação fácil, multiplicidade de contato, multiplicidade de encontros culturais e etc; e depois tem a massa de pobres que leva horas de ônibus para chegar ao trabalho, em pé, se de metrô é a mesma coisa; então, ali eles perdem 3 a 4 horas do dia só nisso. O cansaço do trabalho, a tensão do trabalho, a competição permanente, qualquer um pode perder o trabalho. Quer dizer, cria um modo de comportamento bem diferente.

Para a massa popular, ali, o problema principal é despertar esperança de uma vida melhor, de uma vida mais tranquila, mais pacífica, mais harmoniosa, porque aí desperta as energias para, de fato, fazer alguma coisa para transformar isso em realidade. Nenhum dos grandes deste mundo vai resolver isso, não se pode contar. Quer dizer, em certos momentos, nas vésperas das eleições, pode contar. O candidato dará colchões, outro dará tijolos, mas isso são esperanças minúsculas, muito temporárias, que também é uma forma de comércio, porque ele me dá isso e eu dou o meu voto. Então, não transforma a condição da pessoa e é por isso, então, que a esperança vem de Deus, vem de Jesus.

Agora, de modo geral, Jesus age dentro da pessoa, justamente despertando energias novas e com isso consegue realizar. Pensa que é um milagre. Agora não deve mais porque foi Jesus que fez esse milagre. Na verdade, foi ele, porque, de repente, teve uma convicção, uma esperança. Então é a mensagem de esperança numa situação humana que leva justamente ao desânimo [...] faz parte da consciência da vida, da dureza da vida, toda essa dureza psicológica. Tem o problema de falta de alimento; mas, enfim, o mais difícil é o problema psicológico, sentir-se impotente, incapaz, pressionado, empurrado, não ter liberdade de fazer sua vida; isso é mais doloroso, mais sentido.

Nem todos na Igreja estão se importando...
Isso nos leva a outro setor: àqueles que têm todas as vantagens da vida acomodada, com todos os privilégios. Ali, o problema é que podem participar de uma igreja mas não conhecem o evangelho. Não sabem, ouviram algumas passagens na igreja, no culto, algumas citações; mas, citações que, geralmente, passam ao lado dos trechos mais importantes, mais decisivos e então ignoram. Ali, qual é o apelo? O que é que Jesus quer? Deus não quer oração, não quer cantos, não quer sacrifícios, não quer homenagens, não quer. O que ele quer é justiça e compaixão. Todos os profetas já disseram: “Para que todo esse sacrifício? Ele tem horror a isso”. Mas todas as igrejas têm orações, sacrifícios, cultos, pensando que isso é agradável a Deus. Ali, então, tem que fazer uma transformação. O que é agradável a Deus? O que é vontade de Deus? Então, até rezam: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”. Na realidade, dizem isso e pensam: “Faça-se minha vontade no céu como na terra”.

Estamos vivendo um universo religioso bastante complexo...
Sim, no mundo religioso é assim: Se projeta nos deuses todos os vícios humanos e ali, como são deuses: “Ah! Tem que respeitar”. Tem que respeitar aquilo, assim como a teologia de Santo Anselmo, que a maioria dos reformadores aceitou, de que Jesus morreu porque tinha que oferecer uma reparação pelo pecado do mundo, pelo pecado de Adão. Deus ficou muito ofendido, e então queria uma reparação e uma reparação que fosse igual à ofensa. A ofensa foi infinita porque ofendeu o infinito. Então, só o infinito mesmo pode dar uma compensação. A compensação foi que Ele tem que morrer. Aí se diz: “Uma pessoa vai exigir que alguém morra para perdoar o seu filho?”. Que satisfação pode ter nisso?

No mínimo é estranho, não é verdade? Exigir a morte de um filho para perdoar o outro...
Pois é... então, se projeta uma figura monstruosa de Deus. É um monstro. Perdoa, mas alguém tem que morrer. Claro que isso vem das mitologias antigas. Nas mitologias é assim, é claro, mas que isso entre ali numa teologia cristã!? E ainda é muito real, ainda está nos livros, ainda é doutrina oficial. É doutrina oficial, onde que tem isso no evangelho?

[...] Mas, ali, entraram tantas mitologias e o povo aceita isso porque, no fundo, as religiões têm um medo: “Está vendo como Jesus é exigente? Então, cuidado, tenho que me comportar bem, porque Ele é exigente, é duro”. Então, quer sofrimentos em compensação como castigo.

O meio protestante fala assim: ou vem pelo amor ou vem pela dor. Afirma que Deus dá, às vezes, a dor para que a pessoa possa vir para Ele.
Pois é. Essas coisas são mitologias que não estão no evangelho.

Agora, é isso que justifica a teologia política dos Estados Unidos: por que os pobres são miseráveis? Porque são pecadores, é o castigo, é o castigo de Deus. Ali, ajudar aos pobres? “Não, tem que sofrer. Deus quer que estejam sofrendo”. E isso se repete, se repete indefinidamente nos Estados Unidos, e é por isso que a política social é tão fraca. 20% da população dos Estados Unidos não tem cobertura de saúde, nada; os que têm doenças podem morrer que nenhum hospital vai aceitar.

Pois bem, ali para a população da cidade descobrir o evangelho é mais difícil. Eu aprendi sempre que para agradar a Deus tem que ser bem obediente, bem comportado, bem limpo, respeitoso com as autoridades.

E a vida nas paróquias, como está?
Você vê que na paróquia o que predomina são aqueles que têm melhor posição social. Se você começa a falar dos pobres, da expectativa, da falta de esperança em questão, que precisa dar esperança para eles, os paroquianos não vão aceitar esse discurso. Agora, se você diz: “Ah! Vamos rezar mais, vamos cantar, aprender melhores cantos”. Aí sim, fica todo mundo entusiasmado. Então a questão é essa, o mais fácil é naturalmente o “vamos fazer orações mais bonitas, melhores”, “vamos fazer um culto mais bonito, com músicas mais bonitas, com instrumentos musicais”. É uma diversão como outra; não tem nada de mal nisso, mas não tem nada a ver com a pastoral, nada a ver com o cristianismo. Mas temos uma herança terrível, que é justamente da cristandade, a integração do Império Romano e de ter aceito esse papel de ser a religião oficial.

Quer dizer, a religião dos grandes, dos imperiosos, é a religião cuja finalidade é aumentar o poder dos poderosos, que tenham mais vitórias, que tenham mais dinheiro, que tenham mais êxito. Se tem um concurso para uma promoção na empresa, por exemplo, aí muitos vão dizer: “Vamos rezar para ser o vencedor do concurso”. E se, de fato, é vencedor vai pensar: “Ah! Graças a Deus, foi Deus que me deu”. Imagine se Deus estava interessado em que ele pudesse ganhar mais? Se o Deus dos evangelhos, o pai de Jesus, estava interessado nisso?

Mas, então, essa religião agrada porque dá razão. Se Deus me deu essa vitória no concurso é que eu tinha razão de buscar mais, de ser mais rico. Então isso se confirma na sua condição. Essa religião só serve para consolidar o sistema estabelecido.

Agora, se você for falar isso para uma assembleia episcopal, alguns vão sentir que é isso mesmo, mas vão dizer: “É, se eu for falar assim, aí vai criar dificuldades”. Então, quero fundar uma obra nova, mas para isso preciso ter o consenso do prefeito. Se eu começar a falar assim, o prefeito vai dizer: “Tem muita coisa que não posso dizer por que o governador não vai gostar”. Então suprime os subsídios. É por isso que tem muita gente boa que, no fundo, sente que deveria ser assim, mas... E, se é católico, ali, logo vai dizer, em Roma não vão gostar disso, quem sabe se até castigam por ter sido imprudente. Por que sempre é assim, a imprudência. É imprudente arriscar qualquer conflito com os poderosos; então, em nome da prudência ali se aceita esse tipo de coisa.

Tem receio de agirem e não serem compreendidos?
Sim. É claro que, a maioria das pessoas quer uma religião, mas que não seja essa. Aí que está o antagonismo: querem uma religião, querem a sua igreja, mas dizem: “Esse pastor não entende bem o espírito da igreja; ele perturba, cria problema, vem com ideias esquisitas”. Aí é um problema. Então a gente tem uma mensagem, mas aqueles que estão na igreja não querem essa mensagem. Agora, por que eles estão na igreja? É o resultado de uma tradição, o mundo ocidental foi cristianizado. Mas de que jeito? De que jeito? Como se fez a cristianização da Europa? Converteram os reis, os reis bárbaros, godos, francos e outros e, quando o rei adota uma religião nova impõe a todos, de um dia para outro, todos os membros da tribo, todos os membros do reino já são cristãos, mas não entendem. E como que vão entender? Se integram aos gestos exteriores, às coisas mais compreensíveis, ao culto, às orações. E então se criou todo um ambiente. Todo mundo é cristão e se cria ali uma pressão social. Se todo mundo é cristão, ninguém se arrisca a não ser.

Sempre houve muitos ateus, inclusive nas igrejas, mas não se atreviam a dizer que eram ateus; então vão ao culto, faz de tudo para não criar problema, porque se é ateu: “Ah, é ateu? É filho do demônio”. Então, ali tem que atacar, tem que rejeitar. Mas tudo isso é mais a pressão social e ainda existe no mundo ocidental uma pressão social. Está diminuindo no mundo intelectual na medida em que aprendem uma crítica intelectual. Aí começam a aplicar essa crítica também às instituições religiosas e começam a discutir e a questionar e se não encontram um pastor inteligente, que possa acompanhar essa evolução, no fim, também decidem: “Eu não quero mais religião”. É interessante.

O que fazer então, Padre Comblin?
Há muito culto, cada um faz seu culto, mas a prioridade não é essa. O que estamos fazendo neste mundo? O que acontece neste mundo? Qual é a nossa contribuição? Que tipo de esperança estamos ali realizando? É isso que seria a prioridade, segundo o evangelho. Mas o evangelho é objeto do culto.

[...] Ser cristão é entrar nos problemas humanos que estão aí e despertar a esperança das pessoas, transformar. Agora, se depois disso você é presbiteriano, batista, é secundário, mas o principal é que o mundo esteja mudando, a cidade esteja mudando.


Retirado do site Novos Dialogos

quarta-feira, 30 de março de 2011

Tarefas do Cristianismo de Libertação (I): crítica da idolatria

Em um artigo recente, eu escrevi que uma das questões fundamentais do nosso tempo é que "o Império global de hoje domina por sedução”. Diferentemente de todos os impérios anteriores, o atual sistema capitalista global não tem no poder e força militar o seu principal instrumento de expansão e dominação. Usa sedução e fascinação, a ostentação do seu modo de vida (na verdade da sua elite) como sua arma de conquista.

Pessoas e povos que se sentem fascinação pelo modo de viver de um grupo assume este modo como o seu modelo de vida, deseja ser incorporado neste mundo e não deseja nada diferente e, por isso, crê que não há alternativas. E o seu medo é não ser reconhecido pela elite do mundo e ser expulso do "banquete do mundo”.

Fascinação, medo e ausência de alternativa são características do "sagrado”. E os ideólogos do Império sabem exploram muito bem essa aura religiosa em que está envolto o sistema capitalista atual e reforçam esse processo de sacralização do Império. Em um mundo assim, as palavras do jovem Marx se tornam atuais novamente: "A crítica da religião é a condição preliminar de toda crítica”. Sem a crítica da religião, não é possível ou eficaz as críticas políticas e econômicas, pois o que é visto como sagrado não pode ser criticado.

É claro que a crítica imprescindível da religião hoje não é a da cristandade da época de Marx, mas o capitalismo como a "religião da vida cotidiana”. Esta consciência do caráter religioso, sagrado, do capitalismo não é apenas de Marx ou de alguns teólogos da libertação que desenvolveram a crítica da idolatria do mercado ou do capitalismo como a tarefa teológica principal – ao invés da justificação da fé ou do sagrado para um mundo aparentemente não-religioso –, mas também encontramos em autores como Max Weber e W. Benjamim. Permita-me fazer uma longa citação de Weber: "[Hoje] Tudo se passa, portanto, exatamente como se passava no mundo antigo [...]. Os gregos ofereciam sacrifícios a deus das cidades; nós continuamos a proceder de maneira semelhante, embora nosso comportamento haja rompido o encanto e se haja despojado do mito que ainda vive em nós. [...] A religião tornou-se, em nosso tempo, ‘rotina quotidiana’. Os deuses antigos abandonam suas tumbas e, sob a forma de poderes impessoais, porque desencantados, esforçam-se por ganhar poder sobre nossas vidas, reiniciando suas lutas eternas.”

Os sacrifícios religiosos continuam sendo oferecidos aos deuses, só que o deus de hoje é uma força impessoal (o sistema de mercado global) que domina as nossas vidas cotidianas e demanda sacrifícios de vidas humanas, as dos mais pobres. Como vivemos em uma sociedade "ilustrada” e desencantada, as linguagens e os sacrifícios não são mais explicitamente religiosos, mas –como diz Weber– tudo se passa como no mundo Antigo. Não perceber isso e pensar que a tarefa dos cristianismos e teologias da libertação é apresentar e justificar o sagrado ou deus no mundo de hoje é –penso eu– perder a criticidade teológica e a perspectiva profética do cristianismo.

Diante desta realidade, há uma tarefa que o cristianismo de libertação e, em particular, a teologia da libertação precisam assumir como uma tarefa fundamental: a crítica da idolatria, a crítica prática e teórica da religião dominante, do sagrado que gera fascinação, medo e senso de absoluto em torno do capitalismo global. É uma crítica que, se os setores religiosos e teologias não fizerem, ficará uma lacuna na luta por um por outro mundo, e outra globalização.

Teologias de libertação críticas de idolatrias não são necessárias e importantes porque alguns teólogos querem manter a relevância social das teologias, mas sim porque podem contribuir de modo substancial no desmascaramento da fascinação e absolutização do atual sistema de dominação e opressão em escala global.

Se o que foi dito tem algum sentido, a pergunta que se segue é:em que consiste a crítica prática e teórica da idolatria do mercado? (a continuar)


Jung Mo Sung
Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo, autor de livros como "Sujeito e Sociedades Complexas" publicado pela editora Vozes, entre outros e também co-autor, com Hugo Assmann, do livro "Deus em nós: o reinado que acontece no amor solidário aos pobres” da editora Paulus.

Texto publicado originalmente: www.adital.com.br

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Fim da Historia

Ao proclamar e viver dentro da memória subversiva do evangelho de Jesus, ao revelar a natureza triúna do Deus sofredor, ao testemunhar o reino de Deus e o senhorio de Jesus e ao anunciar o perdão dos pecados, a igreja profere um enfático “não” à declaração de Fukuyama de que a História terminou com a vitória do capitalismo de livre-mercado e com as democracias liberais ocidentais. Essa quádrupla proclamação está fundamentada numa escatologia cristã que declara que foram a crucificação e a ressurreição de Jesus que assinalaram o fim da História.

A História não terminou com a queda da União Soviética; ela terminou dois mil anos atrás quando um pequeno grupo de mulheres visitou a sepultura de um revolucionário tombado, e encontraram-na vazia. Foi uma voz angelical, não uma voz do Departamento de Estado norte-americano, a anunciar o fim da História. Foi um anjo a dizer: “Por que vocês buscam entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui: ele ressuscitou.” A igreja é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História.A História terminou quando Deus levantou Jesus dentre os mortos e revelou-o como o Senhor da História.

A igreja, portanto, é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História. Concluída a História, a igreja declara e encarna a nova criação de todas as coisas. Jesus é o verdadeiro fim da História, e a proclamação e a vida da igreja são a verdadeira chave da História. É este elemento externo do cristianismo que gente como Fukuyama é incapaz de compreender. Ele afirma:
Os homens provaram-se capazes de suportar as mais extremas adversidades materiais em nome de ideias que existem somente no domínio do espírito, quer seja a divindade de vacas ou a natureza da Trindade.
Quando a igreja ocidental voltar a encarnar fisicamente essa quádrupla proclamação, o poder do liberalismo de livre-mercado e das democracias liberais serão reveladas como o fogo de palha que são, e não como uma força monolítica capaz de levar a história a seu fim. A igreja, portanto, continuará a amar, a sofrer, a perdoar, a proclamar e a confrontar os poderes em meio a Babel até o retorno de seu Senhor – que trará o verdadeiro telos/fim e a consumação de toda criação e de toda a história.


Daniel Oudshoorn

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Deus libertador

O que a Bíblia revela em primeiro lugar não é o Deus criador e sim o Deus libertador. O que está no núcleo da Bíblia é o Êxodo, o mistério da libertação de Israel.

E o que está no âmago da nossa fé cristã é o acesso que temos à própria liberdade de Deus, ao que chamamos de nossa divinização, com a frase-chave que repito: estamos na terra para vir a ser por participação o que Deus é por natureza.

Na Bíblia, não ouvimos Deus dizer ao povo hebreu: "Fui eu quem te criou", mas: "Fui eu quem te libertou, fui eu quem te fez sair da escravidão da casa do Egito".


François Varillon
em "Crer para Viver" - Edições Loyola - página 154

terça-feira, 29 de junho de 2010

A subversão do cristianismo

As mudanças radicais no mundo ocidental tem levado muita gente a reexaminar o modo como a igreja existia dentro da cristandade. Muitos tem prestado crescente atenção às vozes que vem das margens, tanto dentro quanto fora do mundo ocidental. Essas vozes (juntamente com Rahner, Hauerwas e Willimon) apontam que a igreja da cristandade havia se tornado uma igreja profundamente comprometida. Aqui três dessas vozes serão brevemente analisadas.

A primeira nasceu na América Latina e encontra sua expressão nas obras dos teólogos da libertação. A teologia da libertação sustenta que a igreja da cristandade ocidental (bem como o modelo de “Nova Cristandade” de Jacques Maritain na América Latina) é uma igreja maculada pelo sangue dos oprimidos. Ao associar-se aos detentores do poder, a própria igreja tornou-se um dos opressores, recusando-se de modo ativo ou passivo a engajar-se em determinadas atividades ou diálogos. O fato de que muitos cristãos ocidentais se mostrem incapazes de ver o elo entre libertação e fé revela o quanto domesticaram o evangelho que começou como “boas novas” para os pobres. Uma das consequências disso é que muitos revolucionários sociais e guerreiros da liberdade acabaram abandonando a igreja, pois “não encontraram na instituição qualquer possibilidade de concretizarem o seu comprometimento, vendo-se muitas vezes obrigados a assumir uma postura de oposição à igreja como sociedade”.

A segunda voz ergue-se da comunidade Sojourners/Residentes temporários, e encontra expressão na obra de Jim Wallis. Em sua crítica do cristianismo cultural, Wallis argumenta que a igreja da cristandade é essencialmente falha devido a suas alianças com a mídia e com as estruturas de poder político. Isso produz um nacionalismo evangélico que simplesmente perpetua a teologia do império. Por ter aceitado as grandes questões do império, todas as vezes que toma alguma posição a igreja o faz de modo equivocado. Isso gera uma igreja impotente que “salva” as pessoas ao mesmo tempo em que deixa de transformar a sociedade.

Essa, afirma Wallis, é uma completa traição do cristianismo. Na cristandade ocidental:

…essa inversão é tão completa, a cegueira tão total, que hoje em dia interesses ricos e poderosos chegam a usar a evangelização a fim de enfocar a atenção das pessoas nos seus pecados pessoais, de modo a distraí-los da realidade da exploração e da opressão.

Em vista disso Jacques Ellul, a terceira voz profética, argumenta que o cristianismo tem sido totalmente subvertido pelo estado e pelos poderes. A igreja triunfante do cristianismo, que batizou a sociedade e fez de todos os seus membros cristãos, representa o rigoroso oposto do cerne da fé cristã. Pois o cristianismo, como revelado no Novo Testamento, não pode fazer milhões de convertidos nem tem como gerar entradas de milhões de dólares. Como o cristianismo existe em conflito com a sociedade e o estado, a igreja tende a cansar-se dessa tensão. Então “toma lugar a subversão, não porque a sociedade é perversa, mas porque a revelação é intolerável”. Porém, como as pessoas dentro da cristandade não querem dar a impressão de que rejeitam o cristianismo, ele é pervertido e subvertido. Dentro desse cristianismo subvertido as forças do estado, do dinheiro, do poder, do engano, da acusação, da divisão e da destruição passam a reinar. Esses poderes só se mostram incapazes de se tornarem soberanos por causa do trabalho do Espírito Santo. O sucesso dos poderes dentro do cristianismo, sua “vitória explosiva”, só pode ser compreendido como a bem-sucedida subversão do cristianismo.

À luz do declínio da cristandade é especialmente importante ouvir essas vozes, para que não aconteça que a igreja limite-se a buscar um simples retorno à era da cristandade. Ao invés de retornar à cristandade, a igreja missional deve voltar a uma compreensão mais genuína da sua fé, uma que dê ouvidos às vozes proféticas e desconfie das alianças com poderes sócio-políticos. Como afirma Rahner, “deveríamos ficar surpresos de quão raramente a igreja entra em conflito com os detentores do poder. Isso por si só deveria fazer com que nos tornássemos profundamente desconfiados de nós mesmos”.


Daniel Oudshoorn
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