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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Conversando com Brian McLaren

Segue entrevista feita pelo meu amigo Victor Fontana com Brian McLaren que aconteceu no começo desse ano. Voce pode encontrar a entrevista na integra aqui: Saindo de Pauta. Ah, o blog anda desatualizado pois como ele me contou nesse sabado no Passion São Paulo, as próxima entrevistas além de terem que sairem de pauta também precisam sair do papel, rs.


Saindo da Pauta: Brian, quando se fala em igreja emergente, seu nome é um dos primeiros a aparecer na cabeça de muitos. Fale do seu papel na formação das conversas emergentes.

Brian McLaren: No começo dos anos 1990′s nos EUA, muitos líderes de igrejas começaram a reconhecer uma tendência: jovens adultos estavam abandonando a igreja – e não apenas aquelas “fora da moda” ou tradicionais, mas também as igrejas mais “contemporâneas” pautadas pelo movimento carismático e desenvolvimentos similares entre os anos 1960 e 1990. Num primeiro momento, identificaram o problema como uma questão de gerações: “A Geração X é diferente dos Baby Boomers”, alegavam. E houve uma série de conferências e livros escritos sobre o ministério com a Geração X. Mas as próprias pessoas da Geração X foram além: “Não, isto é mais profundo do que um conflito de gerações. Trata-se da transição de um mundo moderno para o pós-moderno, assim como a Reforma Protestante foi a transição de um cristianismo medieval para uma fé cristã moderna.”

Eu me sensibilizei com estas questões no final dos anos 1970, quando estava pesquisando para meu mestrado em literatura, porque a filosofia pós-moderna veio ao mundo intelectual norte-americano em grande parte por meio da crítica literária. Eu percebi que as pessoas estavam levantando um novo leque de questões e críticas, e o tipo de apologética que levara pessoas à fé nas décadas de 1960 e 1970 estava começando a criar nas pessoas aversão à fé. Eu ajudei a plantar uma igreja nos anos 1980 e, no início da década de 1990, já estava claro que o ethos pós-moderno que eu encontrara na universidade já havia descido às ruas. Então, fiquei maravilhado quando encontrei outros cristãos que entendiam a mudança profunda pela qual passávamos, e iniciamos o nosso diálogo.

SdP: No ápice disto, você lançou seu primeiro livro The Church on the Other Side: Doing Ministry in the Postmodern Matrix. Houve mudanças significativas na Igreja desde então? Os cristãos estão começando a pensar na pós-modernidade?

Brian: É difícil de acreditar que faz apenas 11 anos que este livro foi lançado. Eu nunca iria imaginar que uma década depois haveria tanta gente de tantas denominações cristãs dispostas a pensar o evangelho e a missão em novas perspectivas. Claro, o oposto era mais previsível. Ou seja, que mais pessoas teriam medo destes novos desafios e os veriam como pura ameaça e perigo, com poucas chances de aprender e crescer com eles. Essa, claro, é a maneira como a mudança sempre chegou à igreja e a qualquer comunidade: algumas pessoas a abraçam e promovem, algumas resistem e repudiam, enquanto muitas, talvez a maioria, nem percebem que a mudança está acontecendo.

SdP: No fundo, parte da resistência aconteceu porque a discussão extrapolou as questões de eclesiologia.

Brian: As conversas começaram basicamente falando de igreja – adoração e estilos de pregação, evangelismo, este tipo de coisa. Em pouco tempo percebemos que a coisa não era tão simples. Não era traduzir o evangelho que aprendemos para um contexto pós-moderno. Precisávamos encarar o fato de que o evangelho que herdamos já havia tomado a forma da cultura moderna – um contexto caracterizado pelo racionalismo, individualismo, consumo e, talvez mais do que tudo, colonialismo. Assim, ele já estava distorcido em algum nível. Assim, não tínhamos que pensar apenas em eclesiologia e missiologia. Tínhamos trabalho teológico e filosófico pela frente. Isto deu vazão a uma década inteira de conversações que ainda estão em fase embrionária, penso eu. Eu me empolgo e tenho esperanças hoje, ainda que no começo fosse intimidador e, às vezes até assustador.

SdP: Nos primeiros capítulos de Uma Ortodoxia Generosa (Editora Palavra), você apresenta diferentes entendimentos sobre Jesus. Entender Jesus e sua missão de maneira superficial ou equivocada implica em eclesiologia e missiologia incompletas ou equivocadas?

Brian: Eu penso que tudo começa com o nosso entendimento a respeito de Jesus. Se tentarmos colocar Jesus dentro de um ideário colonialista, ou consumista, ou religioso, ou racionalista, teremos um entendimento distorcido ou reducionista a respeito de Jesus. E se acreditamos que ele é a “plenitude de Deus encarnada” e “a imagem do Deus invisível”. Então um entendimento desequilibrado de Jesus distorcerá nosso entendimento de Deus, o que nos lançará ao mundo com um corpo de ideias perigosamente equivocado. Foi assim que, olhando para trás, cristãos europeus chegaram à América Latina como conquistadores, e como eles colonizaram a América do Norte como assassinos do povo nativo e opressores dos escravos africanos, tudo “em nome de Jesus.” É de dar medo pensar que coisas assim puderam acontecer, mas foi assim, e precisamos encarar os fatos se quisermos que não se repita no futuro.

SdP: Neste sentido, quais questões você sente que o cristianismo tem negligenciado e deveriam ser mais discutidos? O que está fora da pauta?

Brian: Bom, certamente isto varia de um lugar para outro. No meu país (EUA), são questões como: imperialismo, militarismo, racismo, distribuição de renda e cuidado com o meio ambiente. Ao redor do mundo, em diferentes níveis, cristãos precisam pensar na maneira como eles se relacionam com pessoas de outras religiões e que não querem se tornar cristãos. Eu nunca estive no Brasil, então fico inseguro em falar sobre o que precisa ser discutido, mas pelas minhas viagens para a América Latina, sei que os cristãos precisam de uma resposta mais robusta à pobreza do que a famosa teologia da prosperidade.

SdP: Você vê o movimento de Lausanne com olhos otimistas em relação a essas questões?

Brian: Sim, bastante. Eu não sei exatamente em que estágio o movimento de Lausanne se encontra hoje, mas lembro de ter ficado extático, nos anos 1970, em ouvir que alguns líderes evangélicos estavam discutindo justiça social. No meu próximo livro, que deve ser lançado ainda em 2010, sugiro que o que precisamos neste momento é menos uma lista de afirmações ou teses e mais uma lista de perguntas… Perguntas sobre as quais nós possamos nos comprometer a ter uma sábia, vagarosa e respeitosa conversa. Eu penso que o Pacto de Lausanne tocou em algumas dessas questões trinta anos atrás.

SdP: Um dos principais pontos no pensamento emergente é convidar mais pessoas para a conversa. Como fazemos isso com conceitos tão complexos, especialmente na América Latina, onde muitos nem sequer têm acesso a alfabetização? Você não teme que a conversa emergente se torne um diálogo de elites?

Brian: Penso que esta é uma excelente pergunta. A Igreja existe em muitos níveis diferentes. Existem acadêmicos e intelectuais brilhantes na igreja. Há pessoas desesperadamente necessitadas e iletradas na igreja. E há muitas pessoas em muitos níveis educacionais no meio destes extremos. Eu tive o privilégio de participar de conversas com os mais cultos e também os menos e, embora cada grupo interaja com diferentes vocabulários, diferentes ideias, e diferentes desafios, nós todos vivemos no mesmo mundo, e precisamos encarar os mesmos problemas. Obviamente, algumas dimensões deste diálogo aconteceram em meio e pessoas letradas, que têm acesso a livros e Internet, mas a conversa também está acontecendo em meio a pessoas menos educadas… Só que é o tipo de diálogo que acontece em pessoa, ao redor de um fogão, ou ao longo de uma estrada empoeirada, ou dentro de um ônibus, e então ficam escondidos do resto do mundo. Não são publicados num livro, postados num blog ou gravados em documentário – pelo menos não ainda.

Então, no ultimo mês de janeiro eu estava numa pequena vila nas montanhas na Costa Rica onde a espetacular “La Red del Camino” trazia pastores para o diálogo, muitos deles pobres, com pouca educação quando comparados a nós e sem acesso a uma editora que os publicasse. Fiquei muito impressionado com a inteligência e sabedoria presente naquelas conversas. Eu vi o mesmo acontecer no Burundi, Ruanda, Quênia, África do Sul, na República Dominicana e em muitos outros lugares. Será muito importante para aqueles de nós com muita educação parar para ouvir e aprender do outro lado das conversações ao redor do mundo, porque embora os muito educados tenham muito a oferecer para aqueles que vivem em pobreza, aqueles que vivem na miséria têm ainda mais, eu acredito, que podemos aprender se tivermos ouvidos para ouvir e olhos para ver. Riqueza traz muitas desvantagens… Como Jesus disse com tanta frequência.

SdP: Em todas estas conversas, quais têm sido os desafios que você tem identificado para comunicar o Evangelho numa cultura pós-moderna?

Brian: O primeiro e maior desafio não está propriamente ligado ao mundo pós-moderno, mas com a modernidade: nós que somos comissionados a carregar o Evangelho com frequência não temos uma visão clara sobre o que ele é! Como resultado, nem nossas palavras, nem nossos atos levam o evangelho que Jesus ensinou da maneira como Jesus ensinou. Ao invés do radical evangelho do Reino que transforma o mundo, proposto por Cristo – e que Jesus disse que está disponível agora, e que nos chama a um arrependimento profundo e a uma necessidade de sermos crianças para aprender de uma nova maneira – ensinamos um evangelho de escapismo, ou de mística e prosperidade, ou de realização pessoal, ou de medo, ou de bênçãos exclusivas para uma pequena elite. Esse é o problema mais significativo na minha cabeça: que antes de chegarmos ao momento pós-moderno, nós já cortamos e editamos o evangelho para que ele coubesse em moldes medievais e depois modernos e coloniais.

Mas num contexto pós-moderno nós temos, de fato, desafios adicionais. Para a maioria das pessoas pós-modernas, a fé cristã parece ser uma religião falida. Eles enxergam os cristãos como pessoas sem respostas para os próprios problemas e que se preocupam em jogar a culpa disto nos outros. Então precisamos estar no mundo a divulgar as boas novas – não o cristianismo, mas Jesus. E precisamos fazer isso não aos berros e nervosos, mas humildemente, sabedores das nossas falhas como cristãos.

SdP: Para acabar, quais pensadores cristão mais te influenciaram?

Brian: Curiosamente, um dos teólogos, que mais me influenciou nos últimos anos é brasileiro. Leonardo Boff. Seu livro Grito da Terra, Grito dos Pobres é, na minha opinião, uma obra-prima, e me ajudou a escrever o meu livro “Everything Must Change”. Também fui profundamente influenciado por outro teólogo latino-americano, Rene Padilla. Os missiólogos David Bosch, Lesslie Newbigin, e Vincent Donovan também me influenciaram nos últimos 20 anos. Na minha juventude, Francis Schaeffer e C. S. Lewis foram tremendos, além do católico Walker Percy. Hoje, Eu percebo que Schaeffer, especificamente, trabalhava num contexto muito limitado, mas estava comprometido com grandes questões, e eu serei sempre grato por isso. Indo mais longe na história, fui muito influenciado pelos poetas do romantismo, Martinho Lutero, por São Francisco, pelos Celtas, por Gregório de Nissa. Claro, muitos outros também, porque adoro ler e fico mais curioso conforme estou ficando mais velho. É só por isso que espero ter uma longa vida – porque o mundo criado por Deus é tão fascinante e há tanta coisa para aprender e para pensar, procurar, descobrir. Todo dia é uma grande nova oportunidade para abrirmos nossos olhos e corações para a verdade que o Espírito de Deus pode nos ensinar.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Não existe uma igreja assim

Meu amigo Tony Campolo [...] se encontrava em um local que tinha um fuso horário bem diferente e não conseguia dormir. Então, bem depois da meia-noite saiu perambulando até chegar a uma confeitaria. Algumas prostitutas locais também ali entraram no meio da madrugada, depois de suas atividades habituais. Lá ele não pôde evitar de ouvir uma conversa entre duas delas. Uma, chamada Agnes, disse à outra: “Sabe de uma coisa? Amanhã é meu aniversário. Vou fazer 39 anos. [...] Nunca tive uma festa de aniversário em toda minha vida [...].

Quando saíram, Tony teve uma idéia. Perguntou ao proprietário da confeitaria se Agnes ia lá todas as noites, e, quando ele disse que sim, convidou-o a participar de uma conspiração para organizar uma festa surpresa. Até a esposa do proprietário se envolveu. Juntos, arrumaram um bolo, velas de aniversário e decoração para que festejassem com Agnes, que para Tony não passava de uma completa estranha. Na noite seguinte, quando ela entrou, todos gritaram: “Surpresa! Surpresa!” – e Agnes não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo. Os fregueses da confeitaria cantaram e ela começou a chorar tanto que mal conseguiu soprar as velinhas. [...] Em seguida, ela saiu carregando seu bolo como se fosse um tesouro.

Tony conduziu os convidados em um momento de oração por Agnes e o proprietário da loja disse que não fazia a menor idéia de que Tony fosse um pregador e pastor. E então perguntou a Tony de que tipo de igreja ele era. Tony respondeu que era de uma igreja em que se dão festas de aniversário para prostitutas às 3:30 horas da madrugada. O homem não podia acreditar. “Não, isso não é possível. Não existe uma igreja assim. Se existisse, eu me juntaria a ela. É, com certeza eu faria parte de uma igreja desse tipo”.


Brian McLaren,
em "A Mensagem secreta de Jesus"

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Esses cristãos Reflexivos

A diferença sempre foi vista com curiosidade ou estranheza. A cor de sua pele, por exemplo, pode tornar você um estranho em alguns cenários. Já seu poder aquisitivo ou sua educação têm a capacidade de fazer com que se destaque em determinados ambientes. Até mesmo seu estilo de adoração, a linha teológica que você adota ou sua preferência por algum partido político podem colocá-lo à margem – ou para além dela – em certos casos. A verdade é que ser, pensar, olhar ou agir de modo diferente da maioria pode empurrar determinado indivíduo para fora dos círculos sociais e religiosos.

Fato é que, nas nossas igrejas, sempre há uma pessoa, ou um grupo, que na maioria das vezes se sente diferente da maioria – e gente assim quase sempre é marginalizada. Dan Taylor, em The Myth of Certainty [O mito da certeza], chama essas pessoas de “cristãos reflexivos”. Os menos solidários classificam-nas como questionadoras da fé; e, muitas vezes, suas atitudes de inconformismo fazem com que se tornem desrespeitados em suas comunidades.

Como quase todos os protestantes sabem, no século 16 a Igreja Católica Apostólica Romana estava empolgada acerca da emissão das famigeradas indulgências. Elas eram alardeadas pelo clero como maneiras de reduzir o tempo das pessoas no purgatório através da doação de dinheiro ou bens à Igreja. Mas apesar da generalização de tal prática, muitas pessoas não se contiveram e questionaram o programa de indulgência proposto pelas autoridades eclesiásticas. Elas duvidaram do que a instituição sustentava com tamanha convicção, simplesmente porque aquilo não fazia sentido para esses cristãos questionadores. Se permanecessem em silêncio, iriam se sentir desonestos e frustrados; contudo, se levantassem suas questões, seriam vistos com desconfiança. Alguns desses questionadores, como Martinho Lutero se manifestaram e descobriram que cristãos reflexivos, já àquela altura, não tinham futuro na Igreja.

Aproximadamente cem anos mais tarde, Galileu Galilei olhou através de um telescópio certa noite e viu luas posicionadas como bailarinas em órbita de Júpiter. Logo percebeu que a Igreja estava errada ao sustentar a visão de mundo tradicional, geocêntrica, que havia herdado de Aristóteles e Ptolomeu. Infelizmente, quando passou a questionar abertamente a corrente majoritária, ele descobriu aquilo que Martinho Lutero já sentira na pele: cristãos reflexivos não eram bem-vindos à Igreja.

Uma história semelhante poderia ser contada acerca do célebre evangelista John Wesley, que duvidava daquilo que todos sabiam: que atividades sagradas, como a pregação, precisavam ser desenvolvidas em espaços sagrados, como púlpitos. Por discordar disso, ele foi à porta das minas de carvão do Reino Unido anunciar a salvação em Jesus a trabalhadores que não freqüentavam os templos. Poderíamos falar ainda de crentes reflexivos como Phineas Bresee, fundador dos Nazarenos, que duvidou que pessoas pobres devessem ser evitadas por cristãos honrados. E o que dizer de Menno Simons, o líder dos anabatistas, que discordava da voz corrente de que cristãos deveriam matar outros cristãos em nome de Cristo?

Questionadores contemporâneos, como o pastor Martin Luther King Jr e o bispo Desmond Tutu, duvidaram que a raça fosse um fator de comunhão, e enfrentaram forte oposição por isso. Já líderes como Bill Hybels ou Rick Warren, com suas propostas de uma nova eclesiologia, ou talvez você, com suas idéias ainda não devidamente expostas, também tendem a provocar certo desconforto devido a suas posturas… Os heróis que estudamos na história da Igreja começaram como cristãos reflexivos que duvidaram daquilo que todos consideravam ser o óbvio. Como conseqüência foram, em quase todos os casos, marginalizados. Quando comunidades habitualmente marginalizam ou excluem seus membros mais reflexivos – aqueles que fazem perguntas difíceis sobre coisas que são completamente basilares para a maioria –, é claro que os que são estigmatizados acabam feridos.

A comunidade que exclui, no entanto, também é ferida, porque ao agir assim corta da própria pele recursos de crescimento e de renovação. Além disso, constrói resistências exatamente para aquilo que em breve será necessário, o que deixa no ar uma pergunta urgente: quem são os cristãos reflexivos, que talvez sintam que já estão com a camada de gelo bem fina nas margens, ou seja, prestes a serem marginalizados por completo? E o que seria necessário para dizer-lhes que eles são queridos, necessários e respeitados, que a sua diferença não é um problema a ser resolvido por meio da pressão para que se amoldem, mas que sua atitude questionadora é um recurso?

Aqui vai uma sugestão: que esses cristãos reflexivos sejam ouvidos! Tentemos entender suas perguntas, frustrações e novas idéias, mesmo que não concordemos com suas inquietações. Sejamos atenciosos, dando-lhes espaço para serem quem são, mesmo se pensam diferente da maioria. Às vezes, talvez seja preciso se posicionar entre eles e seus críticos mais contundentes a fim de defendê-los das forças que mantêm as fronteiras e promovem a exclusão. Um coração bondoso e um ouvido disposto a escutar podem manter os cristãos reflexivos dentro da comunidade – e, se a renovação vier das margens, como quase sempre parece ser o caso, então, ao amputarmos essas nossas margens, fazemos aquilo que os chefes dos sacerdotes e escribas fizeram quando uma voz necessária apareceu às margens de sua comunidade. Será que estamos escutando seu clamor?


Brian McLaren

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Um novo tipo de cristão antigo

Eu deveria saber que estava pedindo para ter problemas quando dei a meu quarto livro o título de A New Kind of Christian (Um novo tipo de cristão). Os críticos ironizaram: “Não precisamos de um novo tipo de cristão; precisamos do antigo tipo de cristão”.

Um crítico em particular reforçou este ponto louvando a virtuosa falta de originalidade de C. S. Lewis e Soren Kierkegaard – contrastando estes grandes mestres com “reformadores pós-modernos” como eu, os quais, segundo ele sugere, buscam a novidade e a inovação como um fim em si mesmos. Em uma coisa, no entanto, estamos de acordo: ninguém parece estar muito feliz com o cristão contemporâneo. Mas vale perguntar: encontraremos uma melhor alternativa se olharmos para trás ou para frente? E se olharmos em ambas as direções?

Eu simpatizo com o menosprezo do meu crítico amigo em relação às mais recentes novidades. A última incrível inovação sempre promete mais do que dá conta de cumprir e o preço de expectativas repetidamente frustradas não é barato, levando ao cinismo, à apatia, e à desilusão. O fenômeno do “esgotamento”, pelo qual os lugares de avivamento de ontem se tornam lugares de persistente dureza espiritual de hoje, demonstra que os ganhos de curta duração decorrentes do abalo produzido pelo novo, acabam dando lugar a profundas perdas de longa duração. Nossa nação inteira talvez ainda chegue algum dia a este estado de melancolia e esgotamento.

Outro crítico amigo recentemente citou a frase do “antigo tipo de cristão” para mim. Sentindo-me bastante espirituoso, retruquei: “Que tipo de antigo cristão você recomenda? O judeu convertido do ano 33 A.D.? O grego do século 4? O alemão do século 16? Ou o holandês do século 17?”. Sua fascinante resposta foi que os Celtas, São Francisco e William Wilberforce exemplificavam o tipo de cristãos que esperava ver hoje em dia. “Eu nunca vi ninguém juntar estes três nomes numa mesma sentença antes”, respondi, “mas eu até que gosto da imagem de um Wilberforce franciscano e celta. Ocorre-me que um cristão antigo resultante desta combinação seria, na realidade, algo bastante novo, bastante inovador”. Mas esta afirmação não foi muito bem recebida...

Len Sweet usa a imagem de um balanço para descrever o tipo de movimento que precisamos. Como toda criança sabe muito bem – ainda que não seja capaz de explicar em palavras – o prazer de brincar no balanço advém de uma combinação paradoxal de movimentos: inclina-se o corpo para frente enquanto as pernas são jogadas para trás – joga-se as pernas para frente enquanto inclina-se o corpo para trás. Uma combinação semelhante será exigida de nós se quisermos avançar em direção ao futuro. Daí que meus críticos tenham razão de reclamar de “um novo tipo de cristão novo” embora não tenham tanta razão ao defender o ideal de “um antigo tipo de cristão antigo”. Pois não basta ser “novo/novo” nem “antigo/antigo”. Pois é a combinação novo-antigo que nos vai ajudar a voar. Jesus exemplificou isto assim como o fizeram os Celtas, São Francisco, Wilberforce e também Kierkegaard e C. S. Lewis.

Num mundo em mudança, é impossível não mudar. Resistir ou temer as mudanças pode transformar você em alguém resistente ou temeroso. Afinal, também é possível mudar para pior. Nossa escolha então não consiste em mudar ou não mudar, mas em mudar de maneira sábia ou tola. Penso que não deveríamos ser tão duros uns com os outros. Aqueles entre nós que se sentem chamados à inovação e à originalidade não deveriam usar uma linguagem tão dura em relação aos nossos irmãos mais cautelosos. Tampouco deveriam estes nos julgar por aquilo que fazemos ou somos.

Considere isto: uma árvore tem um tronco e muitas raízes que mudam lentamente. Elas geralmente são rígidas como devem ser. Contudo, por causa do vento que sempre sopra, os galhos necessitam de alguma flexibilidade, e as folhas precisam ser maleáveis e flexíveis. Os galhos mantêm as folhas presas e, como a linha de uma pipa, não permite que elas se soltem. Sem o tronco e as raízes, as folhas morrerão. O reverso é igualmente verdadeiro, se bem que menos óbvio.

Outra imagem: as colônias inglesas originais dos EUA no Atlântico durante o tempo da expansão norte-americana para o Oeste. Os pioneiros sentiram-se chamados para as montanhas e pradarias, e para lá eles foram a pé, a cavalo, e em carroças para abrirem caminho onde nenhum caminho havia ainda sido aberto. Eles eram uma minoria. A maior parte das pessoas ficou nos territórios civilizados com vínculos mais estreitos com a parte mais antiga do país. Se todos tivessem deixado as colônias pelos novos territórios de uma só vez, o resultado teria sido desastroso. Por outro lado, se ninguém tivesse se aventurado, que triste não teria sido!

Nós vivemos na fronteira de uma cultura emergente onde não existem ainda caminhos abertos e conhecidos. Por isto nem todos deveriam dirigir-se para as montanhas. Mas alguns deveriam. Eles serão criticados; algumas vezes criticarão aqueles tidos como demasiadamente tímidos para participar da aventura. Ao invés disto, porém, eu quero ter a esperança de que os inovadores respeitarão seus primos nas colônias e vice-versa. Pois ambos tem uma tarefa a cumprir. Nós precisamos de raízes e folhas, colonos e pioneiros. Para voarmos, precisamos nos inclinar para trás e tomar impulso para frente, balançando entre o novo e antigo com alegria e, quem sabe até, sorrindo como uma criança.


Brian McLaren

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

É tudo a respeito de quem? Jesus?

Se um marciano visitasse a terra e observasse alguns terráqueos num culto contemporâneo ou não-tradicional, o que ele informaria ao seu planeta de origem? (Um exercício similar pode ser imaginado para igrejas mais tradicionais, se bem que os resultados seriam diferentes). Meu amigo John, que é professor de música e não um extraterrestre, notou algo que pouquíssimos terráqueos perceberam até agora (veja seu artigo completo em inglês em www.anewkindofchristian.com).

Uma parcela demasiadamente grande das nossas músicas de adoração tem o foco mais sobre nós mesmos do que sobre Deus. É bem verdade que usamos as palavras “adoração, gratidão, louvor a Deus”, mas, na maioria das vezes, referimo-nos a quê? A seus gloriosos atributos e maravilhosos mistérios? A seu agir na história e seus julgamentos cósmicos? Ao fato de que resgata a viúva e o órfão, e torna livre o cativo? À maneira como humilha os arrogantes e dispersa o rico deixando-o com fome? Ao modo como faz orbitar as galáxias e embeleza as estrelas com sua luz gloriosa? Ah, não. Ao invés disso, adoramos a Deus por nos manter próximos a ele, por nos proteger, por fazer com que nos sintamos amados, abençoados, perdoados, acolhidos e aquecidos sob o cobertor elétrico de sua segurança eternal. Nós o parabenizamos por suprir nossas necessidades de modo satisfatório. Muitas vezes quando dizemos a Deus “Você é um Deus tão bom!”, parece mesmo que estamos dirigindo palavras carinhosas a um animalzinho de estimação. Não me causa nenhuma alegria dizer estas coisas, mas acredito que elas precisam ser ditas. Pois, em geral, quando não estamos louvando a Deus pelo quanto somos bem cuidados por ele, estamos entoando canções que nos parabenizam pela maneira tão positiva como respondemos à sua graça. Você já se deu conta do quanto nós cantamos sobre o quão apaixonadamente nós cantamos? Também falamos muito a respeito do que nós vamos fazer - geralmente no singular: “eu adorarei, eu darei louvor, eu me prostrarei etc e etc”.

Uma bela e bem-intencionada canção chega a afirmar que Deus pensa “em mim acima de tudo”. Como diria meu amigo professor de música: “Perdoe-me, mas a única pessoa que pensa em mim acima de tudo... sou eu mesmo”. Quando o problema não está no que cantamos, está no que pregamos. Sejam os sermões contemporâneos do tipo “satisfaça-as-minhas-necessidades” ou os sermões estilo “fogo e enxofre” típicos da escola mais antiga, o foco parece não abandonar o ideal de que nossas boas almas serão finalmente levadas ao céu, enquanto neste entretempo, nossas circunstâncias aqui na terra seguirão melhorando pouco a pouco. Sim, talvez eu esteja exagerando. Mas me pergunto, será que estou mesmo? Um visitante marciano poderia julgar então, que por amor aos pobres, aos esquecidos, aos alienados, à viúva, ao órfão e ao oprimido, Deus não é um grande sucesso por aqui. Nem por amor a ele mesmo Deus seria popular entre nós, a não ser por aquilo que ele faz em nosso favor - o que com grande freqüência revela quem é a verdadeira estrela do espetáculo. Falando em espetáculo, o filme protagonizado por Jim Carrey, O Show de Truman (The Truman Show), me vem à mente junto com uma inquietante indagação: se nos mantivéssemos sensatos, como Truman ao final do filme, e nos encontrássemos diante da oportunidade de sair de nossa redoma deixando para trás o seguro e previsível mundo onde somos as estrelas e onde tudo gira ao nosso redor... será que teríamos a coragem de dar este passo?

Em minhas viagens (reais e virtuais), tenho o privilégio de conhecer centenas de pastores e líderes cristãos, muitos deles jovens e muitos já mais velhos do que eu, que estão saindo de suas redomas, renunciando ao estrelato espiritual e abandonando os pequenos aquários onde vivem em segurança e privilégio para partirem rumo a um mundo muito maior e mais desafiador. Estes pastores e líderes têm abraçado a difícil tarefa de re-examinar seus sistemas teológicos centrados em si mesmos (e na igreja), mesmo sabendo que este processo pode fazê-los parecer estranhos, perigosos e até mesmo heréticos aos olhos de alguns amigos.

Eles têm assumido este risco porque, dentre outras coisas, estão cansados das músicas que adoram nossa bela e apaixonante sinceridade, e incluem a Deus entre os vários acessórios que contribuem para nossa riqueza material, emocional e espiritual. Estes pastores e líderes recusam-se a limitar o foco de suas pregações às “necessidades” dos salvos e eleitos, mas ao invés disso, buscam manter vivo nos ouvidos de sua audiência, o clamor dos menos favorecidos, dos marginalizados e também dos perdidos. Eles estão escrevendo novas canções e pregando novos sermões sobre justiça e compaixão, missão e esperança, amor divino e amor humano (orientado para o próximo). Novos cânticos e novos sermões sobre a glória de um Deus que ama não apenas a “mim, mim, mim”, mas a todo o mundo - gente vermelha, amarela, negra e branca, como diz a antiga canção. Este exercício tem deslocado o foco de um evangelho centrado sobre o “eu” para um evangelho capaz de abençoar o mundo inteiro. Sem dúvida, muito do que se tem discutido sobre a “igreja emergente” encaixa-se na categoria de uma nova configuração demográfica carente de um novo arranjo onde tudo esteja ajustado a seus caprichos e gostos não-convencionais. Afinal, tudo gira ainda em torno de mim, tudo ainda diz respeito a mim. A diferença, no entanto, é que este “mim” provém de outro setor do mercado. É como se estivéssemos solicitando que o cenário do filme O Show de Truman fosse redesenhado para um novo e mais exigente Truman, um “hiper-Truman”.

Mas se existe ao menos uma faísca de alguma coisa a mais na conversa emergente, apenas uma centelha de esperança de que o Deus real possa ser encontrado fora da redoma de uma religião consumista e narcisista, e de que este Deus, na verdade, seja tão maravilhoso que nós desejemos por algum tempo cantar e pregar sobre ele, mais do que sobre nós mesmos, então devemos alimentar esta pequena chama. Isto daria aos marcianos uma boa notícia para levar de volta a seu planeta de origem. E seria também uma boa notícia por aqui.


Brian McLaren
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