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sábado, 2 de outubro de 2010

Entre a Ficção e o Terror: o Papel dos Evangélicos nas Eleições

Quando os pioneiros do Protestantismo chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX a agenda política era muito clara: adquirir cidadania plena, pois sob a Constituição Imperial de 1824 apenas os homens brancos proprietários e católicos romanos detinham esse status. Não foi difícil para os protestantes defender a separação entre Igreja e Estado (Estado Laico), em uma “frente” com os liberais, os positivistas e os maçons, se envolver na defesa da Abolição da Escravatura e na implantação da República. Até porque eles aqui chegavam com uma ideologia de “destino manifesto”: trazer uma fé superior e o progresso, facilitada pela opção por uma escatologia pós-milenista ou a-milenista. Uma minoria com consciência de presença transformadora como “sal e luz”, o que se refletiu no papel pioneiro dos colégios (escola mista, escola profissionalizante, educação física, esportes), e o papel respeitável de nossos escassos parlamentares, tanto na Constituinte de 1934 e 1946, no movimento sindical (especialmente o rural no Nordeste) e em tantos outros episódios liderados por homens notáveis.

O Pentecostalismo “branco” optou por longos anos por um isolamento da esfera pública, apoiado pelo pessimismo histórico intrínseco à escatologia pré-milenista/pré-tribulacionista. O Golpe de 1964, a polarização da Guerra Fria, a presença do Fundamentalismo de origem norte-americana nos levou, nos anos 1970 ao terrível pensamento predominante: “Crente não se mete em política” ou “Política não é lugar para crente”. Todo o legado do passado foi esquecido, bem como o legado da história geral da Igreja, em termos de fatos e autores, fazendo surgir novas gerações desinformadas, sem conhecimento bíblico-teológico, histórico ou ético para o exercício de uma cidadania responsável e diferenciadora. A redemocratização do final dos anos 1980 trouxe os Pentecostais pela primeira vez para uma opção de participação, surgiram os neo-pentecostais, os históricos se retraíram e, sem nenhum conteúdo ou proposta diferenciadora os ex-alienados se “mundanizaram”, segundo as regras do jogo político brasileiro: corporativismo, clientelismo, o toma-lá-dá-cá, com o seu preço. Os resultados foram vergonhosos episódios de antitestemunho. Trocamos o “Crente não se mete em Política” pelo “Irmão Vota em Irmão” e as candidaturas oficiais.

Como corre solta a propina, o clientelismo, a troca de favores, a ética vai para o espaço, e o que importa é o “realismo” de quem pode trazer mais vantagens para as igrejas (canais de rádio e TV, terrenos, cargos), ao menosprezo dos partidos e com abertura para as alianças mais espúrias. Antes, matreiramente, se fazia o jogo do anticomunismo; hoje do perigo da perseguição religiosa, do secularismo, da agenda gay, etc. Uma coisa é travar uma batalha cultural com esses temas na academia, na imprensa, no aparelho de Estado (e temos que fazê-lo), outra coisa é cair de má fé em um maniqueísmo, e a opção por um candidato “salvador”, com quem se tem compromissos por debaixo dos panos, e instrumentalizar os crentes como massa de manobra.

Temos uma Constituição Federal, Constituições Estaduais e Leis Orgânicas Municipais que garantem o Estado Democrático de Direito; temos instituições cada vez mais sólidas, uma imprensa (empresa) relativamente livre, as candidaturas de coligação constroem programas que são um acordo sobre os pontos convergentes dos programas dos vários partidos que a compõem, os partidos têm correntes internas, enfim, o mundo político é algo bem complexo, que requer conhecimento para uma inserção competente e relevante. Não iremos muito longo na nossa influência sobre a sociedade, a cultura e o Estado brasileiro chutando santas ou demonizando (candidatas) pecadoras.

Enquanto os eleitores protestantes (a despeito da tentativa de controle e manipulação de alguns dos seus líderes) estarão pulverizados nos vários candidatos, refletindo a sociedade onde estão inseridos. E a conversa de “Irmão Vota em Irmão” não tem funcionado no caso de Marina Silva, membro da maior denominação evangélica do Brasil, com a sua estatura internacional, mas com ética de mais e possibilidade de troca de favores de menos, não tem recebido o apoio dos aguerridos pastores…

Que esse seja um tempo de reflexão e amadurecimento para o crescente contingente de eleitores evangélicos brasileiros, sem picaretagem, sem ingenuidade e sem paranoia.

Que Deus nos ajude!


Recife (PE), 10 de setembro de 2010,
Robinson Cavalcanti

terça-feira, 13 de abril de 2010

Vinde a eles as criancinhas?

As sucessivas denúncias de pedofilia e abuso sexual cometidos por sacerdotes e acobertados por bispos e cardeais envergonham a Igreja Católica e abalam a fé de inúmeros fiéis.

No caso da Irlanda, onde mais de 2 mil crianças entregues aos cuidados de internatos religiosos foram vítimas da prática criminosa de assédio sexual, o papa Bento XVI divulgou documento em que pede perdão em nome da Igreja, repudia como abominável o que ocorreu e exige indenização às vítimas.

Faltou ao pontífice determinar punições da Igreja aos culpados, ainda que tenha consentido em submetê-los às leis civis. O clamor das vítimas e de suas famílias exige que a Santa Sé aja com rigor: suspensão imediata do ministério sacerdotal, afastamento das atividades pastorais e sujeição às leis civis que punem tais práticas hediondas.

A crescente laicização da sociedade europeia reduz drasticamente o número de fiéis católicos e a freqüência à igreja. O catolicismo europeu, atrelado a uma espiritualidade moralista e a uma teologia acadêmica, afastado do mundo dos pobres e imbuído de um saudosismo ultramontano que o faz ignorar o Concilio Vaticano II, perde sempre mais o entusiasmo evangélico e a ousadia profética.

Dominado por movimentos fundamentalistas que cultivam a fé em Jesus, mas não a fé de Jesus, o catolicismo europeu cheira a heresia ao incensar a papolatria e encarar o mundo não mais como vale de lágrimas e sim como refém de um relativismo que corrói as noções de autoridade, pecado e culpa.

Ao olvidar a dimensão social do pecado, como a injustiça, a opressão, o latifúndio improdutivo ou a apologia da desigualdade, o catolicismo liberal centrou sua pregação na obsessão sexual. Como se Deus tivesse incorrido em erro ao tornar a sexualidade prazerosa.

Como o Espírito Santo se vale de vias transversas para renovar a Igreja, tomara que as denúncias de pedofilia eclesiástica sirvam para pôr fim ao celibato obrigatório do clero diocesano, permitir a ordenação sacerdotal de homens e mulheres casados e ultrapassar o princípio doutrinário, ainda vigente, de que, no matrimônio, as relações sexuais são admissíveis apenas quando visam à procriação.

Ora, tivesse Deus de acordo com tal princípio, não teria feito do gênero humano uma exceção na espécie animal e, portanto, destituiria o homem e a mulher da capacidade de amar e expressar o amor por meio de carícias e incutiria neles o cio próprio dos períodos procriatórios dos bichos, o que os faz se acasalar.

Jesus foi celibatário, mas é uma falácia deduzir que pretendeu impor sua opção aos apóstolos. Tanto que, segundo o evangelho de Marcos, curou a sogra de Pedro (1, 29-31). Ora, se tinha sogra, Pedro tinha mulher. E ainda foi escolhido como primeiro cabeça da Igreja.

Os evangelhos citam as mulheres que integravam o grupo de discípulos de Jesus: Suzana, Joana etc. (Lucas 8, 1-3). E deixam claro que a primeira pessoa a anunciar Jesus como Deus entre nós foi uma apóstola, a samaritana (João 4, 39).

Nos seminários e casas de formação do clero e de religiosos é preciso avaliar se o que se pretende é formar padres ou cristãos, uma casta sacerdotal ou evangelizadores, pessoas submissas ao figurino romano ou homens e mulheres dotados de profunda espiritualidade evangélica, afeitos à vida de oração e comprometidos com os direitos dos pobres.

No tempo de Jesus, as crianças eram desprezadas por sua ignorância e repudiadas pelos mestres espirituais. Jesus agiu na contramão dos preceitos vigentes ao permitir que as crianças dele se aproximassem e ao citá-las como exemplo de fidelidade a Deus. Porém, deixou claro que seria preferível amarrar uma pedra no pescoço e se atirar na água do que escandalizar uma delas (Marcos 9, 42).

As sequelas psíquicas e espirituais daqueles que confiaram em sacerdotes tarados são indeléveis e de alto custo no tratamento terapêutico prolongado. As vítimas fazem muito bem ao exigir indenização. Resta à Igreja punir os culpados e cuidar para que tais aberrações não se repitam.

Frei Betto, no Estado de Minas

terça-feira, 3 de novembro de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

Bono aos cristãos: “Não negligenciem a África”

Enquanto estava em Washington procurando apoio político para auxiliar à África, o cantor do U2, Bono Vox, fez uma clara confissão a respeito dos muitos evangélicos. “Ele disse, ‘Eu sou um crente e tenho fé em Jesus Cristo’”, recordou Richard Cizik, vice-diretor de assuntos governamentais da Associação Nacional de Evangélicos (EUA), que esteve presente no encontro realizado em Março na Capitol Hill. “Você não pode discordar que esse tipo de testemunho pessoal é uma maneira de abrir portas”.

Bono, um dos mais celebrados pop stars do mundo, tem se tornado um defensor internacional de projetos para a Aids, da absolvição da dívida financeira do Terceiro Mundo e do crescimento das transações comerciais. Ele incita os evangélicos a tomarem a frente na luta contra a Aids e a pobreza que tem desolado o continente Africano.

“Um terço da população da Terra está encarcerada pela pobreza”, Bono disse em entrevista a Cristianity Today. “Esse é, como ela mesma diz, o ímpeto da Escritura. Por quê esse não é o ímpeto das igrejas?”

Uma pesquisa realizada pelo Barna Research Group em 2001, à pedido da Visão Mundial, disse que os cristãos evangélicos são significantemente menos propensos a darem dinheiro para ajudar na educação e prevenção da Aids ao redor do mundo do que os não-cristãos. Apenas 3% dizem que planejam ajudar internacionalmente o combate a Aids, em comparação com 8% de não-cristãos e 8% de pessoas que disseram ter nascido de novo. Os evangélicos são também os menos propensos a ajudar crianças órfãs por causa da Aids.

O encontro de Bono ocorreu menos de um mês depois de Frnklin Graham ter conclamado os cristãos a participarem da Conferência Receita para Esperança, em Washington, para oferecerem aos pacientes de Aids mais amor e compaixão em vez de condenação. No evento, organizado pela organização de Graham Enfermeiro Samaritano, Jesse Helms disse estar “envergonhado por não fazer algo realmente significante” para combater o avanço da Aids.

Em seu orçamento de 2003, a Casa Branca estimou 200 milhões de dólares de contribuição ao Fundo Global para Aids, tuberculose e malária, e outras iniciativas da ONU. Existe também um desejo de aumentar de 435 para 540 milhões de dólares a ajuda aos programas de Aids/HIV – Bono e alguns Democratas disseram que isso é muito pouco.

Enquanto alguns participantes disseram que o apelo de Bono foi bem recebido, alguns desafiaram a noção de que o dinheiro do governo, mais do que o envolvimento do setor privado, poderia ser o veículo para resolver muitos problemas. Eles também enfatizaram que a ajuda deveria ir para países democráticos em vez de ir para ditaduras corruptas.

“Nós não deveríamos escrever cheques em branco para regimes opressivos, mas nós deveríamos apoiar governos que estão levando adiante a democracia e que não estão envolvidos com a corrupção”, disse Diane Knippers, presidente do Instituto sobre Religião e Democracia.

Os participantes, inclusive representantes de organizações evangélicas e grupos de advogados, disseram que ele apresentou os tópicos que ele irá falar no Congresso americano e na Casa Branca. Ele também fez uma conexão com uma comunidade que ele nunca conhecera antes, eles disseram.

Com os fundos da Fundação Bill e Melina Gates, Bono planeja abrir um escritório nos próximos meses, em Washington, para sua nova organização, a DATA (Debt, AIDS, and Trade for Africa) – em português, Dívida, Aids, e Movimento Comercial para a África.


Sheryl Henderson
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