terça-feira, 15 de março de 2011

Terremoto Teológico

O mundo foi surpreendido tristemente pelo terremoto, seguido de uma tsunami, que devastaram o norte do Japão na última sexta-feira, deixando centenas de mortos e e milhares de desaparecidos. E à partir disto, manifestações e discussões diversas surgiram na opinião pública a respeito do fenômeno.

Faço referência a uma delas, que tratou-se dos cristãos evangélicos discutindo o controle divino, ou não, deste episódio fatal. Infelizmente, muitas farpas foram soltas no meio deste debate. Afinal, tratar temas como a soberania de Deus sobre a história e a natureza é sempre uma discussão de viés extremamente complexo, e que na maioria das vezes não atingem conclusões importantes (e isto se não forem completamente estéreis).

Há pouco mais de um ano, quando ocorreu o terrível terremoto que arrasou o Haiti, ceifando centenas de milhares de vidas naquele país miserável e abandonado, um professor universitário, que se encontrava no país naquela ocasião, encaminhou um e-mail bastante sincero a seus colegas de trabalho, o qual iniciava com uma reclamação típica daqueles convictos da inexistência de Deus. Ora, dizia, que Deus é este que permite que uma tragédia como esta se faça? Como pode existir um Deus que aceite que ocorra barbaridade tamanha para gente tão sofrida?

Nestes últimos três dias, foi a vez dos cristãos se manifestarem com suas distintas posições. De um lado, em defesa de uma soberania divina plena sobre tudo e todos, cristãos defendiam a tese de que tais terremoto e maremoto, bem como todos os fenômenos sócio-históricos e naturais, jamais estariam fora do controle divino. O Deus onipresente, onisciente e onipotente jamais poderia ser soberano sem exercer a direção do mais microscópico fenômeno ao mais gigantesco, o que implica que a necessidade de seus fiéis é a de aceitar os fatos e buscar compreender o propósito presente no episódio.

Do outro, por compreenderem que Deus abdicou, por amor, de sua soberania, entendem que jamais aquele terremoto poderia ter acontecido mediante ordem divina. Abdicação esta que poderia signifcar, inclusive, a possibilidade de a história surpreender a Deus. Não se trata, desta maneira, de buscar o propósito por trás do fenômeno mortífero, mas exercer o ensinamento já enraizado no corações daqueles que crêem: orar e agir, inspirados pelo Pai e por seu amor, para consolar os que choram e sofrem.

À partir destas posições, diversos internautas, sejam teólogos e pastores ou simplesmente cristãos confessos, viveram um fogo cruzado de acusações. Teísmo aberto pra cá, fundamentalismo pra lá. Fariseus aqui, liberais ali. Houve inclusive quem alertasse um ao outro: isto é o que você pensa sobre deus. Mas Deus não é assim! Como se houvessem, profetas surgiram a rasgar o verbo na blogosfera cristã, gerando um debate infértil e inquisitório.

Considerando estas coisas, gostaria de fazer algumas pontuações.

Os dois extremos revelam a necessidade de se buscar um meio-termo, um equilíbrio. A dificuldade de sustentar qualquer destas posições mais radicais é evidente.

Vejamos: a argumentação que fala em nome da soberania absoluta de Deus mediante todos os fatos sociais e naturais corre o risco de assumir a ingrata afirmação de que o Deus que é a fonte de todo bem é também a fonte de todo mal. E por consequência, a fonte de todo pecado. Portanto, os terremotos no Japão e no Haiti, o genocídios em Ruanda, a queda das Torres Gêmeas, Auschwitz, etc, seriam fruto da suprema vontade divina para os propósito que bem Lhe entendem. Ora, não é preciso se estender longamente para mostrar que os relatos bíblicos evidenciam a constante desobediência do povo hebreu em relação a vontade de Javé. Mas fiquemos com um exemplo bem simples, o de Adão e Eva, que se alimentaram da árvore proibida por Deus (Gênesis 3). Aos que crêem em sua literalidade, o casal agiu em desobediência divina. Aos que a vêem de modo figurativo, a humanidade desafiou e optou por uma vida e uma história sem Deus. E óbviamente toda a criação lida com as consequências disto.

Já os que defendem que Deus abre mão de sua soberania, como se homem fosse, se arriscam em contrariar de maneira explícita passagens bíblicas a respeito do pleno conhecimento do Criador acerca de sua criação. Deus tem pleno conhecimento acerca da vida, do espaço, bem como do tempo passado e do tempo futuro, ou seja, todo o tempo: nada pode surpreender a Deus. O Salmo 139 é exemplar neste aspecto.

Mas então qual é a resposta possível a este problema? Esboço aqui minha visão.

Não se trata de não haver soberania. Esta é intrínseca a Deus, pois é o Criador cuidando de sua criação. A dimensão do tempo é distinta, posto que para Deus todo o tempo, o começo e o fim, são de sua alçada, e não apenas o presente, como é para a humanidade. É a clássica diferença entre Khronos e Kairós: o primeiro referente ao tempo humano e imediato, e o segundo, ao tempo de Deus. Se o tempo de Deus é o Kairós, significa que toda história está sob o olhar agudo do divino. Mas ter este olhar não significa controlar todos os fatos. A história vivida pela criação é a consequência de sua queda, portanto, de sua escolha de permanecer distante de Deus.

É isto que me leva a crer que nenhuma das três visões apresentadas aqui (incluindo a do nosso cético professor que testemunhou o terremoto haitiano) são justas. A soberania não tem a necessidade do controle total. Inclusive, controle este que, se quisesse, Deus poderia lançar mão (afinal, por ser o Criador, pode interferir da maneira como quiser no curso da história, como exemplifica Êxodo 7-12). Trata-se de compreender a permissão de Deus aos homens, o cuidar divino da humanidade sem amarras, para a qual Deus se humanizou mediante a vinda de Cristo, entregue em sacrifício por esta mesma humanidade, e vitorioso sobre a morte para proclamar: Eu Sou!

É justamente por esta reflexão sincera, ainda rabiscada, que creio que ela, a soberania, não deixa de existir, continuando como parte intrínseca da essência de Deus.

Resta-nos, assim, seguir a orientação de Nosso Senhor: orar pelos que sofrem e choram. Lutar pelos que sofrem e choram. Deixemo-nos inspirar pelo propósito divino, em nossos corações, para agirmos, em amor, pelas vidas sofridas atingidas por esta terrível catástrofe.

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Sydnei Melo

terça-feira, 8 de março de 2011

Sobre o meu samba ou Por quê não gosto de carnaval

2008, em idos tempos de Carnaval, compartilhei em meu blog pessoal breves e sinceros versos sobre o momento que se encerrava. Como agora, apesar das águas já serem de março.

Por isto, permitam-me compartilhar este texto, que relembrei com carinho nestes dias, iniciando desta maneira a minha empreitada neste espaço, com a qual nosso colega Ricardo Silva me honrou ao convidar-me.

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Foi-se o carnaval.

E foi-se sem que eu ao menos o sentisse. Assim.

Por que o carnaval explode colorido na ausência da Luz. Constrói o samba na ilusão da festa. Tateia o desejo no prezo da ausência. Reduz à nada o jugo desigual.

Estampa-se a vivacidade das gentes mortas.

Todo carnaval tem seu fim. E finda-se sem que eu ao menos o sinta. Assim.

E sorrio.

Por que o meu samba tem muita Luz.

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Sydnei Melo

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sentimentos opostos

Fico feliz, e quero agradecer ao Ricardo, por me convidar para participar desse "lugar" de discussão, reflexão e aprendisagem que é esse Blog. Espero poder trazer aqui assuntos que possam nos levar a uma reflexão sobre nossas vidas, e a partir dela, melhor olhar para esse mundo e esse século em que vivemos. Procurarei trazer sempre que possível tópicos que possam nos abrir os olhos para melhor entender esse mundo e como podemos viver e fazer com que todos, que aqui estão, possam melhor disfrutar dessa vida que Deus nos dá atráves de seu filho.

Por outro lado, fico triste por ser essa a semana, especificamente, que o Ricardo me convidou para participar desse Blog como autor. E esse é um dos motivos pelo qual eu busquei postar esse tópico aqui tão rapidamente.

Após ver o video que repercutiu fortemente na TV e, principalmente, na Web, do ocorrido no estado do Rio Grande do Sul essa semana. Não irei postar o video aqui, pois fiquei profundamente chocado ao vê-lo, e ele é o causador da minha tristesa e angustia essa semana. A calamidade ocorreu quando, em uma passeata de ciclistas, um carro acelerou e atropelou cerca de 20 ciclistas que participavam desse evento. Graças a Deus não houve nenhuma morte, mas várias pessoas feridas.

Quando vi a cena, comecei a me perguntar sobre o que pode fazer um ser humano agir desse modo, no cúmulo do egocentrismo. E essa foi, justamente, a palavra que me veio a mente EGOCENTRISMO. Com isso me lembrei de um outro video que assisti e até mesmo postei na minha página do Facebook. É um video feito pelo Ed René Kivitz e faz parte de uma série de videos (que indico fortemente a assistir todos) chamada Talmidim.

Esse video eu coloco aqui, e espero que não hajam interpretações erradas da minha intenção de coloca-lo aqui após o ocorrido na passeata.

O meu desejo é que o ser HUMANO (aindo acredito nessa qualidade do ser) que praticou esse ato possa encontrar o verdadeiro sentido e propósito da sua vida, ou mais corretamente, da sua e dos outros seres HUMANOS que conosco VIVEM.


Que nossas atitudes sejam sempre atitudes de VIDA.

Luciano P. Duarte Silva

quarta-feira, 2 de março de 2011

A compravação da Arte

Esse “júbilo” [do final feliz] que selecionei como marca distintiva do verdadeiro conto de fadas, ou como o selo que o caracteriza, merece consideração adicional.

Provavelmente todo escritor que cria um mundo secundário, uma fantasia, todo subcriador1, deseja ser em alguma medida um verdadeiro criador, ou espera estar bebendo na fonte da realidade; espera que a qualidade peculiar deste mundo secundário (se não todos os detalhes) sejam derivados da Realidade, ou estejam fluindo em direção a ela. Se o autor de fato alcança uma qualidade que pode ser descrita pela definição do dicionário: “consistência interna de realidade”, é difícil compreender como possa ser assim se a obra não partilhar da realidade em alguma medida. A qualidade peculiar do “Júbilo” numa obra de fantasia bem sucedida pode dessa forma ser explicada como um lampejo repentino de uma realidade ou verdade subjacente. Não se trata de mera “consolação” para a tristeza deste mundo, mas de uma gratificação e uma resposta para a pergunta: “é mesmo verdade?” A primeira resposta que dei a essa pergunta foi (com acerto): “Se você construir bem o seu mundinho, sim; é verdade naquele mundo”. Isso é suficiente para o artista (ou para a parte artística do artista).

Mas na eucatástrofe vemos num breve relance que a resposta pode ser ainda mais elevada; pode ser que ela seja um lampejo distante ou eco do evangelho no mundo real. O uso dessa palavra já dá uma indicação da minha conclusão. Trata-se de questão séria e perigosa. Sou cristão, e assim mereceria pelo menos que não se suspeitasse de irreverência voluntária de minha parte. Conhecendo minha própria ignorância e obtusidade, talvez seja presunção da minha parte abordar um tema dessa natureza; mas se pela graça o que tenho a dizer tiver em algum sentido qualquer validade trata-se, naturalmente, de apenas uma faceta de uma realidade incalculavelmente rica: Na eucatástrofe vemos o que pode ser um lampejo distante ou eco do evangelho no mundo real.finita apenas porque a capacidade do homem em favor do qual foi feita é finito.

Eu ousaria dizer que analisando a Narrativa Cristã por esse prisma, tem sido há muito meu sentimento (jubiloso sentimento) que Deus redimiu as criaturas criadoras-de-corrupção, os homens, de um modo que incluiu também esse aspecto, tanto quanto os outros, de sua estranha natureza. Os evangelhos contém um conto de fadas, ou uma narrativa de natureza mais abrangente que abarca toda a essência dos contos de fadas. Eles contém muitas maravilhas, particularmente artísticas, belas e emocionantes: “míticas” em sua significância perfeita e suficiente e ao mesmo tempo poderosamente simbólicas e alegóricas – e entre as maravilhas a maior e mais completa concebível é a eucatástrofe. O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história humana. A ressurreição é a eucatástrofe da narrativa da Encarnação. Essa história começa e termina com júbilo. Ela exibe de forma proeminente aquela “consistência interna de realidade”. Não há história jamais contada que os homens prefeririam que fosse verdadeira, e nenhuma que um maior número de homens céticos tenha aceitado como verdadeira por seus próprios méritos. Pois a sua Arte exibe o tom supremamente convincente da Arte Primeira, isto é, da Criação. Rejeitá-la conduz à loucura ou à ira.

Não é difícil imaginar a tremenda empolgação e alegria que se faria sentir se descobríssemos que algum conto de fadas particularmente belo se mostrasse “primariamente” verdadeiro, sua narrativa se provasse factualmente histórica, sem que ele ainda assim perdesse necessariamente a significância mítica e alegórica que possuía. Não é difícil, pois não se requer que nos esforcemos de modo a conceber algo de qualidade desconhecida. Esse júbilo teria exatamente a mesma qualidade, se não o mesmo grau, do júbilo que produz a “reviravolta” final num conto de fadas: um júbilo tal que exibe o sabor distinto de verdade primária (de outro modo não poderia ser chamada de Júbilo). Ele antecipa (ou reporta ao passado – a direção temporal não é nesse sentido importante) a Grande Eucatástrofe. O júbilo cristão, a Glória, é da mesma natureza; ele é porém proeminentemente (infinitamente, se nossa capacidade não fosse finita) elevado e regozijante. Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.

Mas no Reino de Deus a presença do maior não deprecia o menor. O homem redimido é ainda homem. Contos e fantasias persistem ainda, e devem persistir. O Evangelho não abrogou as lendas; ele as santificou, especialmente no que diz respeito ao seu “final feliz”. O cristão tem ainda de trabalhar, com sua mente e com seu corpo, para sofrer, esperar e morrer; porém ele agora percebe que suas inclinações e faculdades têm um propósito que pode ser redimido. Tamanha é a dádiva que lhe foi concedida que ele é capaz agora, talvez, de intuir que pela Fantasia ele pode de fato contribuir no processo de esfoliamento e variado enriquecimento da criação. Todos os contos podem tornar-se realidade; e ainda assim, ao final, depois de redimidos, eles podem se mostrar tão similares e distintos das formas que damos a eles quanto o homem, finalmente redimido, será similar e distinto ao caído que agora conhecemos.


J. R. R. Tolkien, em Sobre contos de fadas

NOTAS

1. “Viemos de Deus e, inevitavelmente, os mitos desenvolvidos por nós, embora cheios de erros, refletirão pequenos fragmentos da verdadeira luz, a verdade eterna que está com Deus. Na verdade, somente e através da criação de mitos, tornando-se um ‘subcriador’ e inventando histórias, pode o Homem aspirar ao estado de perfeição que ele conhecia antes da Queda. Nossos mitos podem ser desencaminhados, mas eles, de modo trôpego, terminam por nos levar ao verdadeiro porto” (Citado em J. R. R. Tolkien, de Humphrey Carpenter).

2. Tolkien concebeu o termo eucatástrofe depois de ouvir uma história verdadeira com um final feliz e inesperado: “Cunhei a palavra eucatástrofe: a repentina reviravolta feliz numa história, que atravessa o ouvinte com uma alegria que conduz às lágrimas (e produzir essa alegria, argumentei, é a mais elevada função dos contos de fadas). E fui assim levado a concluir que a eucatástrofe produz seu efeito peculiar porque é um um vislumbre repentino da Verdade.”

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Fim da Historia

Ao proclamar e viver dentro da memória subversiva do evangelho de Jesus, ao revelar a natureza triúna do Deus sofredor, ao testemunhar o reino de Deus e o senhorio de Jesus e ao anunciar o perdão dos pecados, a igreja profere um enfático “não” à declaração de Fukuyama de que a História terminou com a vitória do capitalismo de livre-mercado e com as democracias liberais ocidentais. Essa quádrupla proclamação está fundamentada numa escatologia cristã que declara que foram a crucificação e a ressurreição de Jesus que assinalaram o fim da História.

A História não terminou com a queda da União Soviética; ela terminou dois mil anos atrás quando um pequeno grupo de mulheres visitou a sepultura de um revolucionário tombado, e encontraram-na vazia. Foi uma voz angelical, não uma voz do Departamento de Estado norte-americano, a anunciar o fim da História. Foi um anjo a dizer: “Por que vocês buscam entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui: ele ressuscitou.” A igreja é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História.A História terminou quando Deus levantou Jesus dentre os mortos e revelou-o como o Senhor da História.

A igreja, portanto, é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História. Concluída a História, a igreja declara e encarna a nova criação de todas as coisas. Jesus é o verdadeiro fim da História, e a proclamação e a vida da igreja são a verdadeira chave da História. É este elemento externo do cristianismo que gente como Fukuyama é incapaz de compreender. Ele afirma:
Os homens provaram-se capazes de suportar as mais extremas adversidades materiais em nome de ideias que existem somente no domínio do espírito, quer seja a divindade de vacas ou a natureza da Trindade.
Quando a igreja ocidental voltar a encarnar fisicamente essa quádrupla proclamação, o poder do liberalismo de livre-mercado e das democracias liberais serão reveladas como o fogo de palha que são, e não como uma força monolítica capaz de levar a história a seu fim. A igreja, portanto, continuará a amar, a sofrer, a perdoar, a proclamar e a confrontar os poderes em meio a Babel até o retorno de seu Senhor – que trará o verdadeiro telos/fim e a consumação de toda criação e de toda a história.


Daniel Oudshoorn
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