quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Um pouco de Legião Urbana

Espero q gostem, mas independente disso, eu gosto.


"Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do iní­cio ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos, obrigado.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui."


A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Oração da fraqueza

Sozinho no meu quarto, venho a ti, meu Senhor, celebrar minha fraqueza.

Sim, eu a celebro! É nela que descubro que careço de Ti e que todo espírito de autossuficiência é tolice de quem é incapaz de amar e aprender com o outro.

Diante de Ti reconheço que não sou um super-herói, que não tenho todas as respostas, que não sei a solução de tudo, que sinto cansaço e preciso de ajuda. Farto de ver tanta injustiça, miséria e corrupção, clamo por Teu socorro!

Diante de Ti, vejo quem sou: pequeno, temeroso, vacilante e errante. Um pecador! Por vezes incrédulo, descrente, em estado de falência. Sozinho na tua presença, lanço fora minhas máscaras e retiro minhas maquiagens religiosas que estupidamente uso para disfarçar minhas imperfeições, carências e medos.

Agora está minha alma nua. Desnudo, é possível ver minha cobiça por poder, meus desejos camuflados e interesses mais mesquinhos. Também percebo a falsa necessidade de ser o centro das atenções, de manipular os outros, de tirar proveito das situações.

É impossível esconder-me de tua presença e tapeá-lo, Meu Senhor! Por mais que tente apresentar uma versão editada de mim, és o supremo Mestre. Tu sabes tudo, sabes quem sou.

Salva-me de mim mesmo! Perdoa-me, mas não tires de mim a minha humanidade. Torna-me mais sensível, mais gente! Deus, livrai-me do mal de projetos religiosos megalomaníacos de tornar pessoas em anjos... Agradeço-te porque na medida em que te revelas a mim em oração, mais tenho consciência da minha natureza.

Faz-me lembrar sempre que sou um ser humano enraizado no chão desse mundo. Desejo ser vaso de barro em tuas mãos e que em minha fraqueza, operes teu poder. Só assim posso promover teu Reino e Justiça, lutar pela vida e me derramar em favor dos pobres e esquecidos desse mundo mau.

Tu conheces minha estrutura e assim como um Pai se compadece de seus filhos, me amas com amor paciente. É o teu amor que me dá dignidade e que rompe os grilhões da baixa estima. Obrigado por não me lançares fora.

Ajuda-me a olhar para meu próximo com a mesma misericórdia que tens por mim. Ao experimentar a tua graça, que eu seja mais gracioso. Tu perdoaste os meus pecados, que eu viva como um perdoador.

Deus, que eu nunca esqueça que sou feito do pó dessa terra. Que eu proclame o tesouro da graça que depositaste em mim!

Peço-te em nome Daquele que se fez fraco abrindo mão de seu trono, porém venceu até a morte, para trazer abundância de vida. Amém!


Caio Marçal
Devocional da Rede FALE

domingo, 21 de agosto de 2011

A fé atéia

Nesta semana tive acesso a um diálogo a respeito de Deus, fé, ciência, ceticismo, entre outros elementos que compõem a complexa discussão que tem sido travada, principalmente no mundo anglo-saxão, entre ateus e religosos. Refiro-me a um vídeo que nos mostra um debate entre o biólogo Richard Dawkins e o teólogo protestante Alister McGrath.

Dawkins é reconhecido em sua área de formação por conta de seus trabalhos sobre evolucionismo e genética, mas tem ganhado notoriedade tambem por suas reflexões que culminaram na escrita do polêmico Deus, um delírio (2006), uma entre tantas obras que compõem a recente onda de trabalhos desenvolvidos em defesa do ateísmo por intelectuais como Sam Harris e Christopher Hitchens; McGrath é um eminente teórico anglicano, com trabalhos a respeito da relação entre as ciências naturais e a fé cristã, e um dos teólogos mais lidos do mundo atual. Entre suas obras, há dois títulos voltados diretamente ao debate promovido pelo biólogo: O delírio de Dawkins (2007) e O Deus de Dawkins: genes, memes e o significado da vida (2008).

O diálogo promovido no vídeo não se trata, aparentemente, de uma tentativa de estabelecer diálogos e conexões entre a fé e os postulados científicos, mas sim de esclarecer e confrontar posicionamentos a respeito de categorias polêmicas. Trata-se de uma entrevista, produzida por iniciativa do próprio Dawkins, prontamente aceita por McGrath. Mais do que perguntas, McGrath está ali para oferecer respostas, imediatamente confrontadas por Dawkins. E neste diálogo pude perceber que, diferente do que Dawkins alega ter ouvido de outros religiosos com posições mais acirradas e fundamentalistas, McGrath articula de maneira muito interessante e sensata as aparentes divergências a respeito da forma e do desenvolvimento da natureza. Mas tambem, e acredito que seja o grande ganho deste debate, demonstra que a grande chave da cosmovisão cristã não é a forma do mundo natural, ou o significado de todos os episódios históricos, mas sim a ótica que o cristianismo concede para se olhar o mundo e, através desta ótica, agir na história, tendo como eixo a figura de Cristo: morto, crucificado e ressurreto, em uma demonstração de sacrifício realizada em favor e por amor aos homens. Talvez seja esta a figura que mais confunda os profundos críticos da religião, uma vez que parece inconcebível a imagem de um Deus que se encarna em um Filho, e é entregue por homens aos calvário por amor à própria humanidade. E é claríssimo como Dawkins demonstra, durante esta entrevista, que tal idéia seja profundamente absurda, mas através de argumentos tão esvaziados quanto as alegações dos mais agressivos religiosos fundamentalistas.

Mas gostaria de apontar um momento em específico desta entrevista que me deixou um tanto consternado.

Se valendo do exemplo dos homens-bombas, Dawkins alega uma profunda preocupação com o fato de que, diferente de sua perspectiva de conflito no qual espera que seja possível sentar-se e conversar de maneira democrática, um extremista jamais se colocaria em um diálogo aberto, mas explodiria a ele e a seu interlocutor. Por admitir que a fé é capaz de causar esta coragem para que alguém dê cabo de sua própria vida e destrua outras, o biólogo questiona McGrath se é realmente correto educar crianças em uma perspectiva religiosa. O teólogo anglicano aponta que a chave para entender esta questão não seria a fé por si mesma, uma vez que ela tanto pode ser benéfica como tambem bastante perigosa; mas que se deveria partir de idéia de natureza humana para compreender as raízes de uma violência que instrumentaliza tanto a religião quanto o ateísmo - e uma análise da história do ateísmo no século XX demonstraria isto. Dawkins afirma que McGrath provavelmente se refere à Stalin, e o teólogo complementa esta referência ao afirmar que, para Stálin, que se pautava pela ideologia marxista de cunho profundamente anti-religioso, a religião representava uma ameaça ao poder, sendo por isto duramente combatida. Finaliza afirmando que um problema principal seria o dogma, cujo poder seria intensamente destrutivo. Ora, para Dawkins há um ponto fora da curva: recusa-se a acatar a idéia de que o ateísmo pudesse fornecer bases para a violência stalinista ou hitleriana. Segundo Dawkins, o ateísmo de Stalin, ou de Hitler, é acidental (!). Em contrapartida, McGrath afirma que seria fácil compreender a crítica cética e humanista à religião no século XIX, considerando as inquisições como exemplos máximos; mas a história do século XX, que apresenta como um de seus episódios a violência perpetrada por um ateísmo institucional, conduziria à conclusão de que tais episódios não provam ou negam a existência de Deus, mas evidenciam que os homens devem ser responsáveis por suas ideologias e seus impactos nas formas como vivemos. Finalmente, Dawkins recusa-se a aceitar o termo ateísmo institucional, alegando mais uma vez que ideologias podem ser produtoras de fenômenos violentos, e que a fé pode ser acrescentada a esta lista, mas não o ateísmo. Este volta a ser tomado como um acidente no percurso de Hitler e Stalin.

É impossível não registrar que fiquei impressionado com a argumentação de Dawkins. Porque a crítica cética ao pensamento religioso é profundamente marcada pelos fatos históricos, e a recente onda neoateísta só foi possível devido à força que o fundamentalismo religioso tem exercido no cenário político internacional, bem como nos debates a respeito dos direitos civis. Isto é claramente observável. Porém, valho-me da surpresa ao perceber em um profundo crítico da religião uma perspectiva tão aguerrida de defesa do ateísmo como uma ideologia imaculada. E é provavelmente neste ponto que se encontram algumas das principais fraquezas dos argumentos de intelectuais como Dawkins e outros que constroem esta militância em prol do ateísmo. Como argumentar a fé como um elemento de necessária superação, se a própria defesa desta superação necessita de uma negação simplista dos exemplos históricos que a contrariam? Como requerer crédito à defesa de uma postura anti-religiosa, se esta mesma postura necessita de um dogma, uma fé, na qual se basear?

Acredito que as teses desenvolvidas por estes intelectuais pecam justamente naquilo que mais rechaçam. Invocam um extremismo tão semelhante ao dos fundamentalistas religiosos para requerer a eliminação total da religiosidade como o verdadeiro caminho à paz humana. Não consigo definir esta crença na plena bondade humana e na plenitude de paz promovida pela razão senão como uma profunda fé atéia. E tal como outras tantas perspectivas dogmáticas (religiosas ou não), demonstra-se infrutífera diante de qualquer possibilidade de conceber parâmetros políticos e culturais verdadeiramente democráticos.

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Sydnei Melo

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre culpa, medo e liberdade

Culpa. Eis aí um elemento imprescindível para a manipulação religiosa. No mercado da fé, a culpa é um produto sempre em alta, não como mercadoria propriamente dita, mas como indutora do consumo. Se o consumidor tem culpa, compra qualquer produto que lhe for oferecido para se livrar dela. Na verdade para se livrar do medo. Esse é outro elemento indispensável para manter pessoas no cabresto.

É por isso que o medo é incompatível com o amor. Para ser amor de verdade tem de ser livre, e para ser livre não pode haver medo. Se para amar é necessário ameaçar com um castigo impiedoso, não haverá amor, mas uma submissão forçada. A mulher que permanece com o marido porque este lhe ameaça bater ou matar não o ama, apenas teme por sua vida. Ou, se não é isso, tem uma relação completamente doentia, porque quer ficar com alguém que lhe ameaça o tempo todo.

Já admirei a eloqüência da pregação “Pecadores nas mãos de um Deus irado” de Jonathan Edwards, mas hoje só consigo ver ali uma divindade com sangue nos olhos e babando de vontade fazer sofrer as pessoas, com uma ira represada que, quando irromper, devorará todos os ímpios. Esse Deus é bem diferente daquele que vejo na face de Jesus, que não veio para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.

Jesus é a encarnação de Deus. Deus que tanto amou seus filhos que se fez gente e habitou entre eles. Ele é o amor substantivo concreto. Amor que foi levado às últimas consequências. Mas como os religiosos preferem uma ameaça concreta de punição em vez de uma proposta de salvação gratuita, trataram logo de assassinar o amor. Ainda bem que o amor vence afinal, ressurge e reparte sua vida com seus amigos, seus discípulos. Outra coisa que esse pessoal de sangue nos olhos não tolera é que Deus tenha amigos e não escravos tratados na base do chicote. Sim, Jesus quer amigos, sem medos, sem ameaças, sem retaliações.

Que valor teria a encarnação e toda essa extraordinária história de amor entre Deus e seus filhos se, na verdade, acorre-se a ele por medo da constante ameaça de ser fritado num caldeirão de azeite fervente por toda a eternidade?

O amor de Deus é incondicional. A graça é de graça mesmo. Amor e graça dão liberdade. Culpa e medo levam à escravidão. Um Deus que chama seus seguidores não de servos, mas de amigos, é o que dá a liberdade. Os que quiserem ficar com ele e desfrutarem de sua amizade serão amados. Os que quiserem ir embora, são livres para fazê-lo, continuarão amados. E continuarão sendo esperados de volta. A porta estará sempre aberta.

Quem de nós quer amigos que só ficam ao nosso lado por conveniência ou porque estão sendo chantageados? Se não queremos amigos assim, por que Deus usaria então a chantagem, a ameaça, para que permanecêssemos com ele? Deus não está irado, mas em paz conosco. Ele nos ama. Não há condicionantes para isso. Somos livres para sermos amigos dele, ou não.

Deus é amor e no amor não há medo!


Márcio Rosa da Silva
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