domingo, 5 de agosto de 2012

Sofrimento


O sofrimento pode ser o caminho através do qual chegamos às nossas verdades. A estrada pela qual chegamos à maturidade atravessa, necessariamente, a escuridão e a solidão. A escuridão, porque sofrer implica perder as referências, desdenhar das explicações, questionar os clichês e aventurar perguntas. A escuridão é o momento quando não caminhamos porque vemos, mas porque intuímos, recordamos e temos fé. Intuímos o rumo certo pelo tanto que já caminhamos, recordamos as experiências aprendidas em momentos semelhantes no passado e andamos por fé, que supera as trevas, prescinde de explicações e transcende as certezas.

A solidão é imprescindível na trilha do sofrimento. A dor pode ser compartilhada, mas jamais transferida. Pode ser percebida, mas não capturada. Pode até ser escondida, mas nunca suprimida. Quem sofre, sofre sempre em solidão. Não necessariamente porque lhe falta boa e providencial companhia, mas porque todo sofrimento pessoal, em sua dimensão mais profunda e essencial, é intransferível. O sofrimento tem sua realidade particular, e não pode ser diferente: cada um sofre por uma razão, é vitimado em áreas distintas, por motivos diversos e com respostas as mais variadas, num dégradé de resiliência que vai da meninice do chororô ao heroísmo quase estóico, incluído entre os tons das cores a grandeza da fé, resignada e esperançosa, e por isso engajada e mobilizadora.

O sofrimento desperta para o ético e o estético. Convoca virtudes adormecidas a que subam ao palco: coragem, perseverança, paciência, honradez, respeito à vida. Possibilita o lapidar do caráter, apara arestas, harmoniza as formas, faz irromper a beleza escondida na frieza do coração. O sofrimento quebranta orgulhosos, vaidosos e prepotentes, faz desmoronar intransigentes, legalistas e moralistas. Como o martelo do escultor, retira os excessos da pedra e dá à luz o belo, o sublime, o deslumbrante.

Quem sofre descobre seus limites, identifica verdadeiras amizades, vislumbra novos horizontes, abre a mente para novas verdades e o coração para novos amores. O sofrimento produz compaixão, evoca misericórdia, gera solidariedade. O sofrimento cria caminhos para arrependimentos e confissões, subverte juízos e sentenças, possibilita aproximações e reconciliações.

O sofrimento coloca homens, mulheres, velhos e crianças, de joelhos. Faz com que os olhos procurem os céus. Dilata a alma para o mistério, conclama o espírito para o inefável, inspira poesias e canções, faz surgir nos lábios o perfeito louvor. Quem sofre aprende a perdoar e pedir perdão. Ganha a oportunidade de colocar o rosto no chão, em clamor e oração. O sofredor jamais chora em vão. Deus habita também a sombra e a escuridão.

O sofrimento é o ônus do viver, o custo do amor, a paga pelo crescimento, o preço da maturidade. Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães. Amar é muito precioso. Crescer é muito doloroso. Amadurecer é muito custoso. Crer é coisa de teimoso. O sofrimento diminui o poder da morte, dissolve a crueldade da indiferença, envergonha a pequenez da alma, desmascara o mundo de mentirinha da ingênua infância, quebra a maldição da incredulidade. Aceitar a realidade e inevitabilidade do sofrimento é escolher a vida, decidir amar, optar pela plenitude, apostar na fé.


Ed René Kivitz

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Quem é Deus?



O famoso literato russo, Fiodor Dostoiévski, disse no auge de sua vida que “existe no homem um vazio do tamanho de Deus.” Santo Agostinho, o primeiro homem a escrever uma autobiografia da história, disse no prefácio das suas Confissões: “o nosso coração não encontra descanso até que descanse em Ti.” O que esses e outros personagens querem nos dizer é que sem Deus, o ser humano é nulo, vazio, não encontra o sentido para a vida e pior, jamais encontrará a si mesmo.
Seja sincero comigo: falta-nos algo. Falta-nos um encontro com algo que vá além de nós. Falta-nos sentido. Falta-nos a eternidade. O Eterno, tudo nos falta sem Ele; o grande Mistério do qual o ser humano se pergunta desde o início da história até os dias de hoje e continuará a se perguntar até o fechar das cortinas desta vida: Deus, o Autor da vida.
Mas quem é Ele? As Escrituras afirmam que tudo começa com Deus. “No princípio Deus...” é a primeira afirmação dos escritores bíblicos. Falar de Deus é difícil; é como tentar mesclar o tempo com a eternidade. Deus é ilimitado. Ele não é derivado de coisa alguma, nem é condicionado por coisa alguma: Ele simplesmente é. Pense um pouco no que acabei de afirmar: “Deus é.” A dimensão desta breve oração significa que Ele é a causa de todas as coisas, de toda a existência, todo ser tem sua origem nele. Ele está além de tudo.
Deus tem coisas que só Ele tem: é eterno, não muda, está em todo lugar, tem todo o poder, tem todo o saber, é perfeitamente belo, lindo e glorioso. É infinito, é espírito, é uma Trindade, isto é, um único Deus que existe em Três Pessoas (Pai, Filho, Espírito). E ao mesmo tempo Ele tem virtudes que de alguma forma “empresta” para nós: é bom, é fiel, é puro, é justíssimo, é verdadeiro, é misericordioso, e é titular de um inexplicável amor.
Como posso me aproximar dEle sendo tão diferente de mim? C.S. Lewis nos ajuda afirmando que “quando se trata de conhecer a Deus, toda a iniciativa depende dEle. Se Ele não se quiser revelar, nada do que façamos nos permitirá encontrá-lO.” A grande questão aqui é a seguinte: Deus está correndo atrás de nós. Ele nos quer para Ele, para um relacionamento. Ele quer ser o nosso sentido, esperança e realização.
Deus está a nossa procura. Ele não é uma energia, uma vibração positiva, uma força impessoal. Não! Deus é alguém que sabe tudo sobre nós, e nos quer para Ele por inteiro. Pois Ele sabe que o alvo de toda a nossa busca nesta vida, todos os nossos empenhos, é o de estarmos pessoalmente mais próximos dEle, o nosso Deus. O fim principal e supremo da existência humana é lançar toda a glória a Deus e se satisfazer nele eternamente.
Eu te desafio hoje a um encontro pessoal com Deus. Prove que Ele é bom, pois uma coisa é saber com a mente que Deus é bom, outra é experimentar na pele a sua doçura, alegria e incomparável graça! Faça isto por intermédio de Jesus Cristo, pois o Filho é “a expressão exata do Seu ser” (Heb. 1.3). Deus é uma fonte inesgotável. Saber quem Ele é, é demais para nós. Portanto, vamos viver tentando até o dia em que a eternidade chegar!
Jean Francesco

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Não goste da minha teologia, goste de mim! *


Há algumas semanas estava navegando pela net e uma entrevista me saltou aos olhos, seu título era: “Não ligo se gostam da música, quero que gostem de mim”. Essa frase foi dita por um cara bem famoso da nossa história recente, o músico mineiro Rogério Flausino da Banda Jota Quest.


Não tenho o hábito de ficar pensando muito no que leio em sites de notícia, afinal, toda hora que olho surge uma tonelada de novas informações, mas... essa entrevista me deixou pensativo, pois há muito tempo não lia algo tão simples e significativo pra falar de nosso próprio tempo! Não sei se o Flausino parou pra pensar nisso, mas acredito que boa parte do sucesso de sua banda tem a ver com essa pequena frase.

Deixa eu me explicar melhor. Tem algum tempo que tenho tentado entender minha geração, em como ser relevante para ela, como fazer algo significativo e, sei lá, como conseguir passar uma mensagem pra quem está perto de mim! Estudando a história de nosso pensamento ocidental percebi um negócio que muitas vezes tem sido negligenciado por nós, cristãos. E, negligenciar isso, tem nos feito perder muitas oportunidades de transmitir a mensagem do Evangelho.

Durante muito tempo, as coisas que dizem respeito ao mundo religioso estiveram no centro da vida das pessoas; palavras como Deus e Igreja estavam em alta. Nessa época, as lideranças religiosas tinham muito poder pra influenciar a sociedade, moldando suas opiniões sobre o que era verdade e como a vida deveria ser vivida.

Mas aí começaram a vir questionamentos de vários lados, e, aos poucos, as verdades ligadas à fé começaram a ser substituídas por verdades ligadas à ciência. Esse período, conhecido como modernidade, teve seu ápice com o pensador francês Auguste Comte. Ele era um dos defensores de que a ciência levaria a humanidade a um nível mais elevado em todos os aspectos da vida.

Porém, aconteceu algo que não estava no plano dos pensadores da modernidade: a ciência chegou ao lugar de destaque pelo qual eles tanto lutaram. Contudo, as pessoas continuaram a cometer atrocidades. Nos últimos 100 anos, por exemplo, tivemos duas Grandes Guerras, o Holocausto, ameaça de guerra nuclear e diversas outras coisas que não precisam ser lembradas.

Tudo isso gerou, nas últimas décadas, uma sociedade que tem muita dificuldade em acreditar em sistemas que se afirmam como absolutos. E, se eu não acredito 100% nem na fé, nem na ciência, no que vou acreditar?! Esse é o dilema da nossa geração! Nesse contexto, a verdade começou a ser relativizada, pois “cada um tem sua verdade”.

Talvez você esteja se perguntando, mas o que isso tem a ver comigo? Em que saber essas coisas me ajuda na minha vida como cristão ou cristã? Eu te respondo: pode ajudar em muita coisa!

Pois tenho percebido que, de forma geral, as igrejas, os cristãos, têm investido muito tempo em falar sobre o que é a verdade, de como ela se articula etc. Isso é muito bom, mas... acredito que isso não toca no coração da maioria das pessoas de nossa época. Então, o que fazer?!

Pra responder a essa pergunta, recorro ao Evangelho de João 14.6 que diz: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Nesse texto, e em muitos outros, vejo um Jesus que ensina aos primeiros discípulos uma fé que está presente na vida, no caminho que eles percorriam pelas poeirentas ruas da Palestina do séc. I.

Jesus está vivo! E Ele nos convida a partilharmos a Verdade que um dia nos alcançou com todas as pessoas que estão ao nosso redor. Vivamos no Caminho de Jesus, que gera a verdadeira Vida! Nossa geração está mais preocupada com nossa vida do que com nossas ideias. Um dia, pessoas seguiram ideias; hoje, pessoas seguem pessoas!

Em Cristo,


BIO: Sou Lucas Andrade Ribeiro, natural de Ipatinga/MG. Formado em Filosofia pela Unicamp e atualmente estudo Teologia na Fateo/Metodista.


* Texto publicado originalmente em http://www.juvemetodista.com.br

sábado, 28 de julho de 2012

O Tempo e a Jabuticaba


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.

Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.

As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.

Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.

Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”,onde “tiramos fatos a limpo”.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 
“as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena.


Rubem Alves

sábado, 21 de julho de 2012

Escolhendo amigos


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. 
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. 
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. 
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. 
Deles não quero resposta, quero meu avesso. 
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. 
Para isso, só sendo louco. 
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. 
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. 
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. 
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. 
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. 
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. 
Não quero amigos adultos nem chatos. 
Quero-os metade infância e outra metade velhice! 
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. 
Tenho amigos para saber quem eu sou. 
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."


Oscar Wilde
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...