quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um Apólogo


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Machado de Assis 
Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Um pouco de Lewis

"Os cristãos pensam que Deus inventou e criou o universo como um homem que pinta um quadro ou compõe uma música. Um pintor não é o que ele pinta e nem vai morrer se o quadro for destruído. Quando dizemos que ele "infundiu sua alma na pintura", só queremos dizer que a beleza e o fascínio que o quadro desperta vieram da mente dele. A habilidade dele não está presente na tela da mesma forma que está presente em sua cabeça ou mesmo em suas mãos." (C.S. Lewis - Cristianismo Puro e Simples)

sábado, 9 de março de 2013

Sobre oração

"As vezes minha oração se resume a olhos que sorriem, noutras são olhos vestidos d'água."


Ricardo Augusto da Silva

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

De Todas as Tribos, Povos e Raças


“Aclamem a Deus, povos de toda a terra!” Salmo 66.1

Esta semana tive a oportunidade de, mais uma vez, vivenciar algo que sempre me toca: a percepção da grandiosidade do amor de Deus, que se expressa nas mais diversas culturas, povos e nações.

Na última sexta-feira, fiquei algumas horas conversando com duas simpáticas seminaristas norte-americanas que são intercambistas na universidade em que estudo. E, no último domingo, minha igreja recebeu a visita de dois pastores bolivianos que estão fazendo um curso na cidade de São Paulo. Nestas duas oportunidades, o mesmo pensamento veio ao meu coração: meu Deus, como o Senhor é grande; como o seu amor não tem fronteiras!

Não sei se você já parou pra pensar nisso mas, neste momento, ao redor do mundo, milhões, talvez bilhões de pessoas, estão adorando a Deus enquanto você lê este texto. Quantas pessoas estão orando, lendo a Bíblia, ajudando seu próximo, cultuando... Isso me lembra uma antiga música do Guilherme Kerr, que eu convido você a ouvir, caso possa, enquanto continua a leitura dessa reflexão: De Todas as Tribos.

Esta canção é um convite à adoração e nos lembra que em todas as tribos, povos e raças existem pessoas que buscam a Deus e são nossos irmãos e irmãs na fé em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador.

Nosso livro sagrado, a Bíblia, foi originalmente escrito apenas em três línguas: hebraico, aramaico e grego. Porém, nos dias atuais, eu nem me arrisco a contar quantas línguas são usadas para cultuar a Deus. Isso é manifestação, aos meus olhos, da grandiosidade da benevolência divina que se alegra em se manifestar às mais diversas culturas da Terra.

Frente a tão maravilhosa manifestação da graça, que atravessa toda e qualquer barreira étnica e social, respondo e chamo você a responder ao convite que esta música nos faz, em sua última estrofe:


"E a nós só nos cabe tudo dedicar
Oferta suave ao Senhor
Dons e talentos queremos consagrar
E a vida no Teu altar pra Teu louvor."


Quero ser um missionário em minha terra, ou em qualquer terra; que Deus me chamar a contribuir na missão que Ele mesmo tem feito. Quero ser parceiro de Deus em Seu propósito de salvar o mundo. Quero participar da Missio Dei. Quero consagrar meus dons, talentos, tempo e juventude para que Seu Santo Nome seja glorificado em todos os continentes. Talvez não seja Seu propósito me levar para muito longe de onde nasci, mas, mesmo não podendo ir a todos os povos, posso orar por todos eles, pedindo que nunca lhes falte pessoas com coragem, dedicação e amor para levarem até eles, através de vidas consagradas, o evangelho.

Hoje ainda não posso ver a concretização das palavras do apóstolo Paulo aos filipenses: “ao nome de Jesus se dobrará todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda a língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Fl 2.10,11), mas, a cada momento em que tenho a oportunidade de cultuar a Deus, compartilhar a fé e um pouco da vida com pessoas de outros lugares do mundo, lembro-me de que, um dia, todos ainda conhecerão a Jesus.

Até a próxima, na alegria e confiança de que Cristo Jesus está sempre aqui!

Lucas Ribeiro

LUCAS ANDRADE RIBEIRO

Nasci e cresci em Ipatinga/MG. Fiz filosofia na Unicamp; e, hoje, sou seminarista na FaTeo, mestrando em Ciências da Religião e atuo na Metodista do Ipiranga.





                                        JuveMetodista BLOG

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Feliz olhar novo


O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história.
O grande lance é viver cada momento como se a receita da felicidade fosse o AQUI e o AGORA.
Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais…
Mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia?
Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho? Quero viver bem.
O ano que passou foi um ano cheio.
Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal.
Às vezes se espera demais das pessoas. Normal.
A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor machucou. Normal.
O próximo ano não vai ser diferente.
Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança?
O que eu desejo para todos nós é sabedoria!
E que todos saibamos transformar tudo em uma boa experiência!
Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim…
Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou, passe-o para a categoria três, a dos colegas. Ou mude de classe, transforme-o em conhecido. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.
O nosso desejo não se realizou? Beleza, não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro: CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE).
Chorar de dor, de solidão, de tristeza faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.
Desejo para todo mundo esse olhar especial.
O próximo ano pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro.
O próximo ano pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular… ou…
Pode ser puro orgulho!
Depende de mim, de você!
Pode ser.
E que seja!!!Feliz olhar novo!!!


Carlos Drummond de Andrade
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...