terça-feira, 30 de setembro de 2008

Esse é o Corpo, esse é o Sangue...

Segue esse video com a musica Communion do grupo Third Day, essa é apenas uma das diversas musicas desse grupo que tem abençoado tanto minha vida.


video


A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

Igreja

A Igreja concentra em si todas as vocações que Deus suscita entre seus filhos e se configura, ela mesma, como um luminoso reflexo da Santíssima Trindade. Como 'povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo', ela traz em si o mistério do Pai que chama todos a santificar o seu nome e a fazer a sua vontade; guarda o mistério do Filho que, mandado pelo Pai a anunciar o Reino de Deus, convida todos ao seu seguimento; é depositária do mistério do Espírito Santo, que consagra para a missão aqueles que o Pai escolheu mediante seu Filho Jesus Cristo.


Papa João Paulo II
Citação da mensagem para o
Dia Mundial de Oração pelas Vocações em 2002

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Prossigamos

A Complacência do cristão é o escândalo do cristianismo. O tempo é curto, e a eternidade é longa. O fim de todas as coisas está próximo. O homem provou que é moralmente incapaz em lidar com o mundo onde foi colocado pela bondade do Onipotente. Ilidiu-se, chegou a beira da cratera, e não pode retroceder. Dominado pelo terrível medo, segura o fôlego, até o pavoroso momento em que será lançado as profundezas do inferno.


Nesse ínterim, existe na terra um grupo de pessoas que alegam ter as respostas para todas as questões importantes da vida. Alegam que acharam o caminho de volta para Deus, a libertação do jugo dos seus pecados, a vida eterna e uma segura garantia do céu no mundo vindouro.


São os cristãos. Estes declaram que Jesus Cristo é o verdadeiro Deus do Deus verdadeiro, feito carne para habitar entre nós. Insistem em que ele é o caminho, a verdade e vida. Testificam que, para eles, ele é sabedoria, justiça, santificação e redenção, como também afirmam, de maneira resoluta, que ele será para eles a ressurreição e a vida pela eternidade por vir.


Esses cristãos sabem, e quando pressionados admitirão, que seu coração finito explora apenas uma parte lamentavelmente pequena das infinitas riquezas que eles têm em Cristo Jesus. Eles lêem à vida dos grandes santos, cujo ardoroso anelo por Deus os levou muito além das montanhas, rumo à perfeição espiritual; e, por um breve momento, podem aspirar a ser semelhantes a esses santos ardorosos, cuja luz e fragrância ainda se demoram no mundo em que outrora viveram e serviram. Mas a aspiração logo passa. O mundo está muito próximo deles, e os clamores de sua vida terrena são por demais insistentes; assim, eles se dispõem de novo a viver sua vida habitual e aceitam o costumeiro como o normal. Depois de algum tempo, procuram conseguir algum tipo de contentamento interior, e esta é a última coisa que ouvimos deles.


Esse contentamento com o progresso inadequado e imperfeito na vida de santidade é, repito, um escândalo na Igreja do Primogênito. Todo o peso da escritura é contra isso. O Espírito Santo procura, de forma constante, sacudir o complacente: “Prossigamos”, é a palavra do Espírito. O apostolo Paulo encarna isso em seu nobre testemunho registrado em sua epistola aos Filipenses: “Mas o que para mim era lucro, isso considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor: por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo [...], para o conhecer e o poder da sua ressurreição , [...] mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.


Se aceitarmos isso como à sincera expressão do cristão, não vejo como justificar nossa indiferença para com as coisas espirituais. [...] Temos todas as razões para prosseguir em nossa vida cristã, e nenhuma razão para não o fazer. Prossigamos.



A. W. Tozer

domingo, 28 de setembro de 2008

Seguindo a Deus de Perto

“A minha alma apega-se a ti; a tua destra me ampara“. Sl 64. 8

Procuramos a Deus porque, e somente porque, Ele primeiramente colocou em nós o anseio que nos lança nessa busca. “Ninguém pode vir a mim”, disse o Senhor Jesus, “se o Pai que me enviou não o trouxer a mim” (Jo 6:44), e é justamente através desse trazer proveniente, que Deus tira de nós todo vestígio de mérito pelo ato de nos achegar-mos a Ele. O impulso de buscar a Deus origina-se em Deus, mas a realização do impulso depende de O seguirmos de todo o coração. E durante todo o tempo em que O buscarmos, já estamos em Sua mão: “… o Senhor o segura pela mão” (Sl 37:24).

A doutrina da justificação pela fé - uma verdade bíblica, e uma bênção que nos liberta do legalismo estéril e de um inútil esforço próprio - em nosso tempo tem-se degenerado bastante, e muitos lhe dão uma interpretação que acaba se constituindo um obstáculo para que o homem chegue a um conhecimento verdadeiro de Deus.

O milagre do novo nascimento está sendo entendido como um processo mecânico e sem vida. Parece que o exercício da fé já não abala a estrutura moral do homem, nem modifica a sua velha natureza.

É como se ele pudesse aceitar a Cristo sem que, em seu coração, surgisse um genuíno amor pelo Salvador. Contudo, o homem que não tem fome nem sede de Deus pode estar salvo? No entanto, é exatamente nesse sentido que ele é orientado: conformar-se com uma transformação apenas superficial.

É uma tragédia que, nesta época de trevas, deixemos só para os pastores e líderes a busca de uma comunhão mais íntima com Deus.

Agora, tudo se resume num ato inicial de “aceitar” a Cristo (a propósito, esta palavra não é encontrada na Bíblia), e daí por diante não se espera que o convertido almeje qualquer outra revelação de Deus para a sua alma. Estamos sendo confundidos por uma lógica espúria que argumenta que, se já encontramos o Senhor, não temos mais necessidade de buscá-lo.

Quando o Senhor dividiu a terra de Canaã entre as tribos de Israel, a de Levi não recebeu partilha alguma. Deus disse-lhe simplesmente: “Eu sou a tua porção e a tua herança no meio dos filhos de Israel” (Nm 18:20), e com essas palavras tornou-a a mais rica que todas as suas tribos irmãs, mais rica que todos os reis e rajás que já viveram neste mundo. E em tudo isto transparece um principio espiritual, um principio que continua em vigor para todo sacerdote do Deus Altíssimo.

O homem, cujo tesouro é o Senhor, tem todas as coisas concentradas nEle. Outros tesouros comuns talvez lhe sejam negados, mas mesmo que lhe seja permitido desfrutar deles, o usufruto de tais coisas será tão diluído que nunca é necessário à sua felicidade. E se lhe acontecer de vê-los desaparecer, um por um, provavelmente não experimentará sensação de perda, pois conta com a fonte, com a origem de todas as coisas, em Deus, em quem encontra toda satisfação, todo prazer e todo deleite. Não se importa com a perda, já que, em realidade nada perdeu, e possui tudo em uma pessoa - Deus de maneira pura, legítima e eterna.


A. W. Tozer

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Simplesmente concordo

Simplesmente posso dizer que concordo, tentei em vão escrever um texto expondo minha idignações com a atual situação do evangelho em nosso meio. Tentei escrever sobre aquilo que tem me enojado e me deixado cada vez mais inconformado com o que tem acontecido, e também como tenho saudades de várias coisas que tem se tornado cada vez mais raras.

Simplesmente posso dizer que concordo com a exposição do Pr Ricardo Gondim, nos dois últimos textos que postei. Então caso queiram saber como tenho me sentido nesses ultimos dias com aquilo que alguns tem feito do evangelho, por favor, leiam os dois textos do Gondim.

Então acredito que também simplesmente concordarão. Afinal, do jeito que tá não dá!!!


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

domingo, 21 de setembro de 2008

Estou no meu limite

Sei que existem pessoas sérias entre os evangélicos. Estou consciente de que mais de sete mil profetas ainda não se dobraram a Baal. Não esqueço o nobre testemunho dos que me precederam na militância da fé. Mas sinceramente, não dá...

Não dá para ver o avanço de vigaristas e charlatões prometendo cura divina, prosperidade financeira, solução de problemas conjugais, em troca de ofertas. Não suporto assistir a três minutos de programa de rádio ou de televisão. Sinto náusea com a postura arrogante de falsos profetas que oscilam entre camelôs religiosos e doces professores de Bíblia.

Não dá para lidar com a falta de responsabilidade humana dos fundamentalistas que celebram desastres naturais como sinais inequívocos do pecado ou do fim do mundo. Não tenho mais estômago para ouvir professores de teologia, forjados em seminários de segunda linha, criticando livros que nunca leram ou teólogos que não conseguem citar duas obras. Tenho medo quando discursam na defesa da “reta doutrina”.

Não dá para lidar com a inveja de sacerdotes que voam como abutres à espera de que alguém tropece. O mundo evangélico está repleto de líderes que jamais conseguiriam sobreviver no mundo empresarial, mas vivem de condenar os outros. Preguiçosos e despreparados, adoram praticar tiro ao alvo. Incompetentes, carregam a marca de Caim. Os piores, mimetizam comportamentos moralistas, copiam afirmações heterodoxas e se especializam na defesa das tradições denominacionais.

Não dá para lidar com o ufanismo das falsas onipotências. Na corrida pelos primeiros lugares no Olimpo dos ungidos, sobram narcisistas. Não agüento as empreitadas mundiais, os projetos, as campanhas, que “vão mudar o mundo”. Esses falsos heróis instumentalizam o povo em nome de suas megalomanias. Usam e abusam da boa-fé de quem quer fazer alguma coisa pela humanidade. Só que os recursos doados com sacrifício acabam diluídos na máquina, sugados pela volúpia de poder e investidos em mais propaganda para alardear como são especiais.

Não dá para lidar com a repetição enfadonha de chavões. Cansam as frases prontas, os conceitos batidos e repetidos, que já não transmitem valor algum. A grande maioria dos púlpitos evangélicos é de uma mesmice estupidificante. Os hinos reciclam poesias gastas; os sermões começam e terminam com a promessa de bênção.

Já escrevi que andava cansado com o meio. Já pedi para não ser classificado como “evangélico”. Agora não sei mais o que dizer. Talvez precise continuar batendo na mesma tecla, não dá, não dá, não dá...


Ricardo Gondim

sábado, 20 de setembro de 2008

Estou cansado

Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensina que Deus restaura as forças do que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista. Contudo, não consigo dissimular: eu me acho exausto.

Não, não me afadiguei com Deus ou com minha vocação. Continuo entusiasmado pelo que faço; amo o meu Deus, bem como minha família e amigos. Permaneço esperançoso. Minha fadiga nasce de outras fontes.

Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Cansei com os programas de rádio em que os pastores não anunciam mais os conteúdos do evangelho; gastam o tempo alardeando as virtudes de suas próprias instituições. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas.

Canso com a leitura simplista que algumas correntes evangélicas fazem da realidade. Sinto-me triste quando percebo que a injustiça social é vista como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Não consideram os séculos de preconceitos nem que existe uma economia perversa privilegiando as elites há séculos. Não agüento mais cultos de amarrar demônios ou de desfazer as maldições que pairam sobre o Brasil e o mundo.

Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças.

Canso com os estereótipos pentecostais. Como é doloroso observá-los: sem uma visitação nova do Espírito Santo, buscam criar ambientes espirituais com gritos e manifestações emocionais. Não há nada mais desolador que um culto pentecostal com uma coreografia preservada, mas sem vitalidade espiritual. Cansei, inclusive, de ouvir piadas contadas pelos próprios pentecostais sobre os dons espirituais.

Cansei de ouvir relatos sobre evangelistas estrangeiros que vêm ao Brasil para soprar sobre as multidões. Fico abatido com eles porque sei que provocam que as pessoas “caiam sob o poder de Deus” para tirar fotografias ou gravar os acontecimentos e depois levantar fortunas em seus países de origem.

Canso com as perguntas que me fazem sobre a conduta cristã e o legalismo. Recebo todos os dias várias mensagens eletrônicas de gente me perguntando se pode beber vinho, usar “piercing”, fazer tatuagem, se tratar com acupuntura etc., etc. A lista é enorme e parece inexaurível. Canso com essa mentalidade pequena, que não sai das questiúnculas, que não concebe um exercício religioso mais nobre; que não pensa em grandes temas. Canso com gente que precisa de cabrestos, que não sabe ser livre e não consegue caminhar com princípios. Acho intolerável conviver com aqueles que se acomodam com uma existência sob o domínio da lei e não do amor.

Canso com os livros evangélicos traduzidos para o português. Não tanto pelas traduções mal feitas, tampouco pelos exemplos tirados do golfe ou do basebol, que nada têm a ver com a nossa realidade. Canso com os pacotes prontos e com o pragmatismo. Já não agüento mais livros com dez leis ou vinte e um passos para qualquer coisa. Não consigo entender como uma igreja tão vibrante como a brasileira precisa copiar os exemplos lá do norte, onde a abundância é tanta que os profetas denunciam o pecado da complacência entre os crentes. Cansei de ter de opinar se concordo ou não com um novo modelo de crescimento de igreja copiado e que vem sendo adotado no Brasil.

Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza.

Canso de explicar que nem todos os pastores são gananciosos e que as igrejas não existem para enriquecer sua liderança. Cansei de ter de dar satisfações todas as vezes que faço qualquer negócio em nome da igreja. Tenho de provar que nossa igreja não tem título protestado em cartório, que não é rica, e que vivemos com um orçamento apertado. Não há nada mais desgastante do que ser obrigado a explanar para parentes ou amigos não evangélicos que aquele último escândalo do jornal não representa a grande maioria dos pastores que vivem dignamente.

Canso com as vaidades religiosas. É fatigante observar os líderes que adoram cargos, posições e títulos. Desdenho os conchavos políticos que possibilitam eleições para os altos escalões denominacionais. Cansei com as vaidades acadêmicas e com os mestrados e doutorados que apenas enriquecem os currículos e geram uma soberba tola. Não suporto ouvir que mais um se auto-intitulou apóstolo.

Sei que estou cansado, entretanto, não permitirei que o meu cansaço me torne um cínico. Decidi lutar para não atrofiar o meu coração.

Por isso, opto por não participar de uma máquina religiosa que fabrica ícones. Não brigarei pelos primeiros lugares nas festas solenes patrocinadas por gente importante. Jamais oferecerei meu nome para compor a lista dos preletores de qualquer conferência. Abro mão de querer adornar meu nome com títulos de qualquer espécie. Não desejo ganhar aplausos de auditórios famosos.

Buscarei o convívio dos pequenos grupos, priorizarei fazer minhas refeições com os amigos mais queridos. Meu refúgio será ao lado de pessoas simples, pois quero aprender a valorizar os momentos despretensiosos da vida. Lerei mais poesia para entender a alma humana, mais romances para continuar sonhando e muita boa música para tornar a vida mais bonita. Desejo meditar outras vezes diante do pôr-do-sol para, em silêncio, agradecer a Deus por sua fidelidade. Quero voltar a orar no secreto do meu quarto e a ler as Escrituras como uma carta de amor de meu Pai.

Pode ser que outros estejam tão cansados quanto eu. Se é o seu caso, convido-o então a mudar a sua agenda; romper com as estruturas religiosas que sugam suas energias; voltar ao primeiro amor. Jesus afirmou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma. Ainda há tempo de salvar a nossa.


Ricardo Gondim

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Um remédio para a exaustão interior

Ao longo de minha vida, algumas vezes me deparei com um estranho sentimento de exaustão interior. Nestes momentos, fui tomado pela consciência de minha completa incapacidade em corresponder às expectativas das pessoas em relação a mim. Sinto-me sem condições de atender às necessidades dos que freqüentam minha igreja; às demandas daqueles que esperam que eu possa falar numa conferência ou escrever um artigo; às cobranças dos amigos que me ligam chateados porque esqueci a data de um aniversário – sem falar, claro, das pressões geradas numa família com dois filhos adolescentes e uma pré-adolescente. Então, sou tomado pelo desânimo em relação aos desafios que me cercam e pelo desejo de não ter tantos compromissos diante de outros.

Quando esta exaustão interior me assalta, minha vontade é de jogar tudo para cima. Fico sonhando com a possibilidade de abrir mão de todas as responsabilidades, procurar um chalé numa região bem distante e viver ali por algum tempo. Minha única vontade é a de voltar-me para o cuidado do meu próprio coração, lidando com as minhas próprias demandas interiores – coisa singelas, como o silêncio, a solitude, a leitura e a oração. Sei que muitos pensam que um cristão não deveria sentir-se assim e um pastor não poderia falar assim. No entanto, tenho que decepcionar os crentes-ETs de plantão lembrando que, se Papai Noel realmente não existe, também não é menos verdade que pastores honestos e cristãos sinceros enfrentam, sim, seus dias de exaustão. E esses sintomas em muito se assemelham à própria depressão.

Diante desta tal exaustão interior e da impossibilidade de jogar tudo para cima, acabo caminhando alguns dias em reflexão e oração, os quais me levam a uma conclusão. O problema, antes de residir nas expectativas daqueles que me cercam ou nas pressões delas decorrentes, são, geralmente, fruto ou de meu descuido em viver, dia após dia, dependendo da minha própria potencialidade, ou de um equívoco – o de colocar minha confiança de realização em projetos e relacionamentos que jamais poderão me oferecer o que somente Deus tem para me dar.

Bernardo de Claraval, monge francês que viveu entre os séculos XI e XII, disse que tudo o que somos e fazemos deve ser fruto não de nossas próprias reservas, mas do transbordar da água viva que Jesus derrama em nossas vidas. Podemos, assim, dedicar-nos a algo sem nos exaurirmos; dar-nos sem nos esgotarmos; cuidarmos de outros sem cometer o equívoco de não cuidarmos de nós mesmos. Se, contudo, abandonamos esta relação constante com a pessoa de Cristo, fechamo-nos para a fonte que abastace o nosso reservatório interior e deixamos de receber a água viva que emana do Pai. No entanto, a falta de conexão com a fonte primária da água viva nos conduzirá, mais cedo ou mais tarde, à sequidão.

Essa dimensão de vazio interior foi comparada por Jesus, quando do memorável diálogo com a mulher de Samaria, com a sensação humana da sede. Ela não sabia, mas tinha diante de seus olhos aquele capaz de saciar a sede existencial que existe dentro dos corações de homens e mulheres. Sede de sentido para vida, sede de sentir-se valorizado ou amado por alguém. Um de nossos grandes erros, humanos que somos, é o de tentar lidar com o sentimento de vazio interior que insiste em nos acompanhar ao longo da vida através de conquistas. Queremos acumular coisas, ser amados pelos outros, atingir grandes realizações; enfim, queremos ser felizes com a vida.

O profeta Jeremias registrou a contenda de Deus contra seu povo Israel apontando os mesmos equívocos nos quais hoje ainda incorremos: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água” (Jeremias 2.3). Logo, quando colocamos nossa esperança ou buscamos a realização em qualquer outra fonte que não seja o próprio Pai, corremos o risco de buscar a água onde ela simplesmente não existe. Conhecedor do coração humano, Jesus nos convida, de forma simples e prática, a uma solução: “Quem tem sede, venha a mim e beba”. Ele próprio se apresenta como a única fonte capaz de saciar nossa sede existencial. Neste caso, estamos falando da importância de estarmos constantemente na presença do Senhor, bebendo da água viva que somente Cristo pode nos oferecer. Somente assim, seremos reservatórios que, repletos de água, transbordam a ponto de irrigar a vida daqueles que nos cercam.

Assim, termino com uma confissão. Muitas vezes, a exaustão interior que me assalta é decorrente do meu descuido de viver a partir de mim mesmo, ou do equívoco de buscar nos projetos e nos relacionamentos o que somente em Jesus posso ter. Por isso, quando tomado pelo sentimento de cansaço, me aquieto na sua presença e volto a escutar o convite amoroso e paciente para beber da água que somente Ele pode me oferecer. É esta água viva que nos capacita a renovar nossas forças físicas e emocionais, bem como a nos libertar das buscas infindáveis que drenam nossas energias e nos fazem reféns de nossos próprios anseios. Somente assim, como diz a Escritura, fluirão rios de nosso interior. Rios da mais pura água – a água da vida.


Ricardo Agreste

Sede...

"Como suspira a corça pelas correntes de água, assim, por ti, ó Deus suspira minha alma" Salmos 42.1

É simples aquele que está com sede busca por água, acredito que ninguém encontrará objeções ou achará estranha essa afirmação, afinal esse é o sentido normal, onde o sedento é quem vai em busca da água.

Mas quando usamos essa afirmação nos referindo a Cristo ai a coisa muda de figura, não é mais o sendento que busca água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

E eu continuo andando...

“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo” Salmos 23.4a

Um, dois, três ...e não sei mais quantos passos serão necessários para terminar minha jornada, e mesmo sem saber eu continuo andando, e a medida que essa caminhada se desenvolvi percebo que o que me preocupa mais não e o fato de não saber o numero de passos restantes, mas sim o fato de não saber aonde esses mesmos se darão.

Vejo que andar por lugares novos não me dá medo algum, pelo contrário, a expectativa de que meus passos se dêem por esses novos lugares traz sempre um renovar de sonhos e o cumprir de uma promessa que um dia chegará.

Também andar pelos lugares já conhecidos também não trazem medo, mas também pouquíssimas expectativas, e mesmo que a caminhada por esses lugares às vezes traga monotonia a idéia de que conheço os percalços e possíveis buracos traz certa sensação de segurança, mesmo que esse venha se mostrar falsa depois alguns passos.

Porém quando o andar é em meio a desertos e a vales, ou ainda como o salmista diria em meio ao vale da sombra da morte, ai os sentimentos e conclusões sobre a caminhada às vezes se tornam meio confusas e outras vezes o sentimento do medo vem e bate a porta.

E ai quando em meio as dificuldades a relevância de quantos passos ainda é necessária para que o cenário se transforme de tempestade para bonança muda radicalmente, a não perspectiva do fim de um problema muitas vezes cansa e desanima.

Mas sempre independente das circunstâncias da minha caminha, ou de onde os passos se dão lembro que não ando sozinho, estou sempre acompanhado. Posso então afirmar junto com o salmista que não temerei mal nenhum porque Deus está comigo.

Essa certeza me dá forças para continuar andando sempre, mesmo que em meio ao vale da sombra da morte. Um, dois, três ...e eu continuo andando ...afinal Ele sempre está comigo.


A Deus Somente A Gloria
Ricardo A. da Silva

E a vida ensina...

Amor não se implora, não se pede não se espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...


Arthur da Távola

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Quem sou eu

Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que saí da confinação da minha cela
De modo calmo, alegre, firme,
Como um cavalheiro da sua mansão.

Quem sou eu? Freqüentemente me dizem
Que falava com meus guardas
De modo livre, amistoso e claro
Como se fossem meus para comandar.
Quem sou eu? Dizem-me também
Que suportei os dias de infortúnio
De modo calmo, sorridente e alegre
Como quem está acostumado a vencer.

Sou, então, realmente tudo aquilo que os outros me dizem?
Ou sou apenas aquilo que sei acerca de mim mesmo?
Inquieto e saudoso e doente, como ave na gaiola,
Lutando pelo fôlego, como se houvesse mãos apertando minha garganta,
Ansiando por cores, por flores, pelas vozes das aves,
Sedento por palavras de bondade, de boa vizinhança
Conturbado na expectativa de grandes eventos,
Tremendo, impotente, por amigos a uma distância infinita,
Cansado e vazio ao orar, ao pensar, ao agir,
Desmaiando, e pronto para dizer adeus a tudo isto?

Quem sou eu? Este, ou o outro?
Sou uma pessoa hoje, e outra amanhã?
Sou as duas ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
E diante de mim, um fraco, desprezivelmente angustiado?
Ou há alguma coisa ainda em mim como exército derrotado,
Fugindo em debanda da vitória já alcançada?

Quem sou eu? Estas minhas perguntas zombam de mim na solidão.
Seja quem for eu, Tu sabes, ó Deus, que sou Teu!


Dietrich Bonhoeffer

Nossa relação com Deus

Nossa relação com Deus não é uma relação 'religiosa' com o ser mais elevado, mais poderoso, melhor do que se possa imaginar - isto não é transcendência genuína - mas nossa relação com Deus é uma nova vida na 'existência para os outros', na participação no ser de Jesus. O transcendente não são as tarefas infinitas, inatingíveis, mas é o respectivo próximo que está ao alcance. Deus na figura humana!

Não como nas religiões orientais, em figuras de animais, como o monstruoso, caótico, distante, terrível; mas tampouco nas figura conceptuais do absoluto, metafísico, infinito, etc.; mas do 'ser humano para os outros'! Por isso o crucificado


Dietrich Bonhoeffer
Citação do livro "Resistência e Submissão"

domingo, 14 de setembro de 2008

O cristão segundo Dietrich Bonhoeffer

Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Marcos 15.34). Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, e somente assim, ele está conosco e nos ajuda.

Em Mateus 8.17 está muito claro que Cristo não ajuda em virtude da sua onipotência, mas da sua fraqueza, do seu sofrimento! Neste ponto reside a diferença decisiva em relação a todas as religiões. A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina [em 1942 Bonhoeffer também afirmou: 'Portanto, é bom aprender o quanto antes que sofrimento e Deus não constitui uma contradição, mas ao contrário, uma unidade necessária; para mim, a idéia de que Deus mesmo sofre sempre foi uma das doutrinas mais convincentes do cristianismo'].

A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus, somente o Deus sofredor pode ajudar. Neste sentido, pode-se dizer que o desenvolvimento que levou à maioridade do mundo, através do qual se acaba com uma concepção errônea de Deus, liberta o olhar para o Deus da Bíblia, que obtém poder e espaço no mundo por meio de sua impotência....

O poema ‘Cristãos e Pagãos’ contém uma idéia que irás reconhecer aqui. ‘Cristãos ficam ao lado de Deus na sua paixão’, é isto que distingue cristãos de pagãos. ‘Vocês não conseguem vigiar comigo nem por uma hora?’, pergunta Jesus no Getsêmani. Isto é uma inversão de tudo o que o ser humano religioso espera de Deus. O ser humano é conclamado a compartilhar o sofrimento de Deus por causa do mundo sem Deus. Portanto, ele realmente tem de viver no mundo sem Deus e não deve procurar encobrir ou idealizar em termos religiosos essa ausência de Deus; ele tem de viver de ‘forma mundana’ e justamente assim participa dos sofrimentos de Deus; ele pode viver ‘de forma mundana’, isto é, está liberto dos falsos vínculos e bloqueios religiosos.

Ser cristão não significa ser religioso de uma determinada maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano. Não é o ato religioso que produz o cristão, mas a participação no sofrimento de Deus na vida mundana.

Esta é a metanóia [arrependimento]: não pensar primeiro nas próprias necessidades ou aflições, perguntas pecados e medos, mas deixar-se arrastar para o caminho de Jesus, para dentro do evento messiânico do cumprimento de Isaías 53 agora.

Por isto: ‘creiam no evangelho’ ou em João a referência ao ‘Cordeiro de Deus que carrega os pecados do mundo’ (à parte: A. Jeremias afirmou recentemente que, no aramaico, ‘cordeiro’ também pode ser traduzido por ‘servo’. Muito bonito com vistas a Isaías 53!).

No NT, esse ser arrastado para dentro do sofrimento – messiânico – de Deus em Jesus Cristo ocorre das mais diversas formas: através da comunhão de mesa com os pecadores, através de ‘conversões’ no sentido mais estrito do termo (Zaqueu), através do ato da grande pecadora (que se realiza sem qualquer confissão de pecados) (Lucas 7), através da cura dos doentes (Mateus 8.17), através do acolhimento das crianças. Os pastores, assim como os sábios do Oriente, estão [junto à] manjedoura, não como ‘pecadores convertidos’, mas simplesmente porque, assim como são, são atraídos pela manjedoura (estrela).

O centurião de Cafarnaum, que não faz qualquer confissão de pecados, é apresentado como exemplo de fé (cf. Jairo). Jesus ‘ama’ o jovem rico. O camareiro (Atos 8) e Cornélio (Atos 10) são tudo menos existências à beira da ruína, Natanael é um ‘israelita sem falsidade’ (João 1.47); por fim, José de Arimatéia e as mulheres do túmulo. A única coisa que todos têm em comum é a participação no sofrimento de Deus em Cristo. Isto é a sua ‘fé’.

Nada de metodologia religiosa; o ‘ato religioso’ sempre é algo parcial, a ‘fé’ é algo inteiro, um ato de vida.

Jesus não conclama para uma nova religião, mas para a vida. Mas como se apresenta essa vida, essa vida de participação na impotência de Deus no mundo? Sobre isso escreverei na próxima vez, espero. Hoje só mais isto: se queremos falar de Deus de forma ‘não religiosa’, então teremos de fazê-lo de tal maneira que a impiedade do mundo não seja de algum modo encoberta, mas, antes, descoberta, e exatamente assim seja lançada uma luz surpreendente sobre o mundo. O mundo que chegou à maioridade é mais sem-Deus e, por isto mesmo, talvez esteja mais próximo de Deus do que o mundo menor de idade.


Dietrich Bonhoeffer

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Pedindo a Deus que seja mais fácil

Meu Deus: quero lhe fazer uma crítica, talvez até por eu não ser capaz de alcançar os seus desígnios: você podia ser mais fácil! O mistério da sua existência deveria prescindir da teologia, da fé ou da graça e fluir claro, natural e nítido como as coisas da natureza. Você deveria ser manifesto; apreensível sem apreensão. Verdade e não necessidade.

Aprendo na teologia que é preciso ter não a teoria de Deus nem a práxis de Deus, mas a experiência de Deus. Ex quer dizer para fora, na direção de, Peri significa em torno, em volta de, o mesmo radical de perímetro, périplo, etc., Encia é conhecimento, saber, o mesmo radical de ci-ência.

A experiência de Deus é, portanto, algo que o vive em várias e muitas de suas infinitas dimensões e de seus incontáveis lados. Não é a teoria de Deus. Não é a prática de Deus (o mundo construído, em construção e a construir). Não é a reapresentação de Deus, em torno da qual, durante tantos séculos, girou, equivocadamente, a teologia. É a experiência de Deus.

A ex-peri-ência de Deus, ensina-me o grande teólogo Leonardo Boff, é a vivência ampla e multiforme de Deus, tanto no plano imanente à nossa condição de homens como no plano transcendente. Ele me ensina o conceito de trans-parência. Como é impossível aprisionar Deus, ou explicá-lo por nossa limitada razão, só através da transparência, ou seja, algo que torna diáfana a realidade de Deus manifestada nas coisas e seres do mundo. Ele se manifestaria através. A transparência nos permitiria experimentá-lo através das coisas do Universo, que o proclamam. Assim me ensinou o sábio teólogo num livrinho precioso: A Atualidade da Experiência de Deus.

Eu sei, meu Deus, que precisamos sabê-lo mais do que conhecê-lo. Eu sei que é necessário viver fundamente a experiência da sua Ex-istência e In-sistência em nós e na vida. Eu sei, também, como Bérgson, que se você não dotou a nossa razão da capacidade de conhecê-lo ou defini-lo e se você fez o nosso coração vacilante, ora aceitando-o, ora negando-o, você nos permitiu a percepção da sua existência através da intuição, fagulha de conhecimento que pode alcançar, mesmo sem definir, a pré-existência de uma realidade maior, a força geradora do universo, do cosmos, e do espaço sem fim.

Tudo isso eu sei!

Do zero do meu conhecimento, da pequenez da minha condição de areiazinha cósmica, fico daqui a apreciar a grandeza da sua condição. Eu sei que por vezes fui tocado por sua luz, mas, tão logo me dava conta do milagre da sua iluminação, você desaparecia, de novo você se escondia escapando célere de minha mente, coração e nervos talvez porque aquela fagulha da verdade tivesse que ser compartida com outros que estavam no mesmo desespero da sua procura, no idêntico cansaço da sua busca.

É por isso que eu lhe digo, meus Deus, blasfemo talvez (quanto já mataram em seu nome!) que há horas em que me canso de o procurar. Canso-me de esperar a sua resposta. Irrito-me ao perceber que você mergulhou o mundo no mistério e de que jamais será dado ao ser humano conhecer o todo, o destino do mundo e do universo ou conceber tudo o que está (se é que há algo) fora da finitude descomunal de seu pobre e tolo conhecimento. Palavras como ‘nunca’, ‘sempre’, ‘jamais’, nestas horas doem muito, implodem angústia metafísica. Por quê? Será mesmo que este é um planeta de provação? Aqui estamos só para seguir um inevitável ciclo biológico evolutivo de aprendizagem? Haverá então, uma espécie de Estado-Maior do universo que traça planos fora do nosso alcance? Mas por que, então, nos foi dada uma inteligência capaz de se dar conta da existência daquilo que ela não pode saber? Por que nos foi dado sofrer tal limitação, tal humilhação cósmica?

Por que, diga, meu Deus, é necessário sofrer tanto a dor de procurá-lo?

Por que é assim dilacerante a idéia de infinito, de morte e de desaparecimento total, após termos sido dotados de tanta sensibilidade para sentir a vida, e intuir o acima de nós, mas dele não saber, apenas perguntar? Por que?

Por que uma vida inteira de indagações e perguntas, quando mais fácil seria aceitá-lo magicamente, ou acalmar-me diante de uma crença sem contraditas? Mas, se só as crianças e os puros de coração o alcançam, porque, então, você nos dotou de uma razão inquieta, abelhuda, perguntadora, afirmadora e negadora de tudo quanto vê e descobre?

Por que, meu Deus, o que chamam de sua evidência é tão raro e difícil? Por que se torna você passível de explicação e descoberta? Por que não é óbvio? Por que precisamos de você?

Por que, sem você, a vida é (pelo menos) um absurdo cósmico?

Por que, diante do seu mistério, diante da vida, diante do cosmos, diante do universo, diante do infinito, temos que permanecer eternas crianças metafisicamente chatas na idade do porquê?

Se você me é possível, mas difícil, perdão, a culpa é sua. O onipotente é você e não eu. E, se é pra tudo ficar em mistério, por que dotar-nos da possibilidade de o defrontarmos, de o intuirmos como mistério e nada mais?

Ah, meu Deus, há horas em que me canso de tê-lo como esperança, há horas em que desesperadamente eu precisava tê-lo como certeza! Já estou grande demais para ser tratado como criança que não pode entrar em conversa de adulto! Já estou grande demais para ficar chorando por dentro e a dor do cansaço de procurá-lo e este pavor do desconhecido que se mistura à mais deslumbrante das sensações, a do novo que está em você, a do além e adiante que são você, a da surpresa que é você, a do encontro afinal liberador com a paz da sua transparência e com a luz de sua transcendência.

Dê-me, pelo menos, força e energia para procurá-lo. E esperança para disfarçar o medo de nunca o encontrar, na certeza de que você está exatamente onde se esconde. De que você se manifesta através da nossa necessidade. De que você está além do conhecimento, lá onde mora, além de nós, a Verdade.


Arthur da Távola

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Fragmentos dostoiewskianos

“Em vez de dominar a consciência, vieste aprofundá-la ainda mais; em vez de cercear a liberdade dos homens, vieste alargar-lhes ainda o horizonte... Teu desejo era libertar os homens para o amor. Livre deve ele seguir-te, sentir-se atraído e preso por Ti. Em vez de obedecer às duras leis do passado, deve o homem a partir de agora, com o coração livre, decidir diante de si o que é bom e o que é mau, tendo o Teu exemplo diante dos olhos.”

“Às vezes Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Este credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha nele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade.”


Fiódor
Dostoievski
Citações do livro "Crime e Castigo"

Sobre Jesus Cristo

Como são insignificantes os livros dos filósofos, como toda sua pompa, quando comparados aos evangelhos! Será que escritos, ao mesmo tempo tão sublimes e tão simples, podem ser obras de homens? Será que Cristo, cuja vida eles contam, poderia ser nada além de um mero homem? [...] Onde está o homem, onde está o sábio que sabe como agir, sofrer e morrer sem fraqueza e sem fazer disso uma exibição? Meu amigo, homens não inventam coisas assim; e os fatos que atestam Sócrates, sem dúvida, não são tão bem atestados quanto os fatos sobre Jesus Cristo. Esses judeus nunca poderiam ter chegado a tal tom em seu pensamento sobre a moralidade, e os evangelhos têm características de veracidade tão grandiosas, tão notáveis, tão perfeitamente inimitáveis, que seus inventores seriam ainda mais maravilhosos do que aquele que descrevem. Sim, a morte de Sócrates é a de um sábio, a vida e a morte de Jesus são a de um Deus.


Jean-Jacques Rousseau

O mais lindo nome

Ó Vós que sois!

O Eclesiástico vos chama de Onipotência; os Macabeus, de Criador; a Epístola aos Efésios, de Liberdade; Baruc, de Imensidade; os Salmos, de Sabedoria e Verdade; João, de Luz; os Reis, vos chamam de Senhor; o Êxodo, de Providência; o Levítico, de Santidade; Esdras, de Justiça; a criação vos chama de Deus; o homem, de Pai; mas Salomão diz que sois Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes.


Victor Hugo
Citação do livro "Os Miseráveis"

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Esmagados pela graça

Li “Os Miseráveis” e me assombrei com a genialidade de Victor Hugo. O personagem central da narrativa é Jean Valjean, um egresso das galés. Impressionei-me como Victor Hugo construiu a história desse homem bom que lutou contra circunstâncias difíceis e gente perversa.

Livre há quatro dias, Jean Valjean não encontrava quem o acolhesse devido ao seu passado. Sua fama o prejudicava. Cansado, com frio e faminto, precisava descansar. Sabendo que o prenúncio de chuva o mataria, Valjean procurou um albergue. Em vão. Até os cachorros o enxotavam. Desesperado, encontrou uma pessoa que lhe indicou a casa do bispo da cidade, D. Bienvenu. A anônima samaritana disse que o santo homem de Deus lhe daria hospedagem.

Quando bateu na porta da casa do bispo, Jean Valjean não escondeu sua vida pregressa. Mesmo assim, D. Bienvenu o hospedou, convidou para dividir a ceia e ainda lhe forneceu bons lençóis para a noite de sono. O ex-presidiário, entretanto, ainda padecia os efeitos de uma vida marcada pelo estigma do crime. Valjean ainda estava assustado com o mundo; era como um animal encurralado que precisava se defender.

Valjean então resolveu fugir da casa do bispo pela madrugada, roubando os talheres de prata. Contudo, não conseguiu ir muito longe. Logo os guardas o pegaram, reconheceram as insígnias do bispo na prataria e o conduziram até a casa que lhe acolhera para ser reconhecido antes de ser devolvido ao cárcere.

Surpreendentemente, D. Bienvenu não só o perdoou como o liberou. Tratou-o com deferência e lhe fez uma pergunta desconcertante: “Estimo tornar a vê-lo. Mas eu não lhe dei também os castiçais? São de prata como os talheres e poderão render-lhe bem duzentos francos. Por que não os levou também”?

Diante do gesto nobre de não levar em conta o roubo e ainda oferecer castiçais, Jean Valjean “arregalou os olhos e contemplou o venerando Bispo com tal expressão que nenhuma língua humana poderia descrever”.

O perdão e o amor gratuito de D. Bienvenu impactou Valjean de tal maneira que sua vida mudou para sempre. O bispo o livrara da acusação da lei, mas o tornava, daí em diante, escravo da bondade. A gentileza, ou a graça, esmagou Jean Valjean. Ele nunca mais pôde ser igual. Ao liberá-lo, o bispo o fez servo de um gesto de grandeza.

Paulo afirmou em Romanos que Deus conduz as pessoas ao arrependimento por sua bondade. “Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?” (Romanos 2.4).

Portanto, Victor Hugo acertou quando fez de um pastor de almas a encarnação da graça de Deus. Só o amor tem o poder de transformar a vida de qualquer pessoa. Ninguém muda com ameaças; os arrazoamentos doutrinários são impotentes para convencer do que é certo. Jesus ensinou que seus discípulos seriam conhecidos pelo amor e não por uma teologia correta. “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13.35).

Mesmo quando busca arrependimento, Deus não deprecia seus filhos; quando quer humilhar, prefere exaltar; quando deseja constranger, deixa de lado o rigor da lei e opta pelo elogio. Ao invés de ralhar, Deus simplesmente recebe o pecador com festa e aposta no seu futuro. Foi assim que Jesus descreveu o amor do Pai pelo Pródigo. O filho voltava para casa ainda sujo, sem sequer mostrar obras dignas de arrependimento, mas o pai apressado o abraçou, colocou anel no dedo, calçou os pés e o agasalhou com uma capa. O rapaz havia ensaiado um pequeno parágrafo pedindo para ser recebido como “um dos empregados” da casa, mas o velho o interrompeu e deu ordens para que preparassem a festa do bezerro cevado. A partir daquele dia, o filho se tornou escravo da bondade. A generosidade com que foi recebido, mesmo depois de ter se comportado com rebeldia causou um impacto tão grande que o rapaz nunca mais poderia voltar a ser o mesmo.

O mundo está cansado e parece ir de mal a pior. Fomes, guerras, pestes inundam o dia a dia e as pessoas precisam sentir-se amadas. O Evangelho traz a mais alvissareira notícia: "Deus não fecha portas, mas continua a receber os pecadores para restabelecer-lhes a dignidade, sem ameaçar com castigo. Deus gosta de acolher e honrar; dignificar e libertar; desobrigar e gerar compromisso.


Ricardo Gondim

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Evangélicos, evangelicais e fundamentalistas

A origem e desenvolvimento do protestantismo brasileiro pode ser compreendida a partir de dois termos que voltam a ocupar a pauta de discussões relevantes na chamada Igreja Evangélica brasileira: evangelicalismo e fundamentalismo. O termo “evangelical” é um anglicanismo que originalmente equivaleria à totalidade dos cristãos que se identificaram com a Reforma Protestante do Século XVI. Por esta razão, muitas igrejas acrescentam ao seu nome o adjetivo “evangélico” como oposição a “católico”. Com o passar do tempo, o termo “evangelical” foi se distinguindo de “evangélico” – até o ponto em que se pode afirmar que todos os evangelicais são evangélicos, mas nem todos os evangélicos são evangelicais.

Já o termo fundamentalismo tem raiz histórica na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Americana, realizada em 1910 em resposta ao liberalismo teológico europeu. Dali, saiu uma declaração de cinco fundamentos considerados inegociáveis à fé evangélica: os milagres, o nascimento virginal, a morte expiatória, a ressurreição de Cristo e a autoridade das Escrituras. Estes cinco pontos foram desdobrados em uma série de 12 livretos chamados de Os Fundamentos. A respeito dos fundamentalistas, também se pode dizer que todos eles são evangélicos, mas nem todos os evangélicos são fundamentalistas.

O período evangelical contemporâneo, isto é, a existência do evangelicalismo como movimento nascido dentro do segmento evangélico, tem início no Congresso Mundial de Evangelização, realizado em Berlim, na Alemanha, em 1966 – evento convocado, dirigido e patrocinado pela revista Christianity Today. Outro marco do movimento evangelical foi o Congresso Mundial de Evangelização, na cidade suíça de Lausanne, em 1974. Seu documento principal foi o Pacto de Lausanne, cujo relator foi o teólogo britânico John Stott, mas teve a contribuição significativa de teólogos latino-americanos como Orlando Costas, Samuel Escobar e René Padilla. Desde então, o movimento evangelical está associado ao chamado “espírito de Lausanne”.

Na verdade, o Pacto de Lausanne resulta de um processo de aproximadamente três anos, cheio de conflitos internos, especialmente entre os evangelicais e os fundamentalistas norte-americanos, ligados à Escola de Crescimento da Igreja de Donald McGavran e Peter Wagner, que consideraram o Pacto progressista. De fato, os evangelicais criticaram o movimento fundamentalista em termos teológicos, ideológicos e estratégicos. René Padilla, em sua palestra A evangelização e o mundo, proferida em Lausanne, fez severas críticas ao imperialismo norte-americano e sua abordagem pragmática dos métodos de evangelização. Entre os contundentes questionamentos de Padilla estavam a rejeição do “princípio de unidades homogêneas” como base para a estratégia missionária da Igreja, considerado por ele mundano, pois impulsiona os seres humanos a serem cristãos sem cruzarem as barreiras que os separam; a condenação à identificação do cristianismo com o american way of life; a simplificação da conversão como mudança de religião, em detrimento da mensagem que exige uma completa reorientação da vida em relação a Deus ao próximo e à criação; e a afirmação da imprescindível relação entre evangelização e responsabilidade social.

Desde Berlim, o movimento evangelical se desenvolveu na América Latina especialmente através dos quatro Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados entre 1969 e 2000 na Colômbia, no Peru e no Equador. No Brasil, o evangelicalismo ganhou força nas duas edições do Congressos Brasileiros de Evangelização (CBE), em 1983 e 2003, e no Congresso Nordestino de Evangelização, 1988. A atuação de instituições como a Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), a Aliança Bíblica Universitária (ABU), o Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais (Cebep), a Sociedade dos Estudantes de Teologia Evangélica (Sete), o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), a Visão Nacional de Evangelização (Vinde), a Visão Mundial e a Associação Evangélica Brasileira (AEVB) também foi determinante para a consolidação do movimento evangelical no país.

Os aspectos relevantes que distinguem o movimento evangelical do movimento fundamentalista podem ser classificados como teológicos, ideológicos e estratégicos. O fundamentalismo se articula com ênfase no discurso apologético dogmático, mais preocupado com a defesa da fé bíblica, notadamente a partir de uma leitura literalista, moralista e filosoficamente racionalista das Escrituras Sagradas. Isso acaba gerando uma postura inquisitorial, uma vez que sua identidade implica o combate violento a tudo e todos que compreende como inimigos da sã doutrina e da moral e dos bons costumes. O fundamentalismo é vítima da prepotência ocidental, que confunde Cristianismo com positivismo e evangelização com colonização, e pretende fazer com que a fé cristã seja equivalente à cultura do homem branco imperialista.

Já o movimento evangelical se articula prioritariamente a partir da realidade do Reino de Deus e busca compreender e vivenciar todas as implicações do Evangelho todo para o homem todo, proclamando a redenção integral do homem e suas circunstâncias – isto é, sua realidade social, política, cultural e espiritual, respeitando a pluralidade ética e cultural do Cristianismo histórico, desenvolvendo uma estratégia missionária com base na Bíblia como um documento ao mesmo tempo divino e humano, portanto carente de constante contextualização e releitura para cada geração. Isso ajuda a compreender porque o movimento evangelical é também identificado como movimento da missão integral da Igreja.

A partir disso, podemos identificar pelo menos duas agendas para a chamada Igreja Evangélica brasileira. A agenda fundamentalista está preocupada em descobrir métodos e metodologias capazes de apresentar uma mensagem e promover a adesão de pessoas às igrejas. Trata-se, sobretudo, de divulgar uma verdade conceitual que funcione como instrumento para tirar pessoas do mundo e levá-las para dentro das igrejas, que sobrevivem de eventos, programas e projetos voltados para o público interno, bem doutrinado e bem comportado, à espera do céu. Por outro lado, a agenda evangelical está ocupada em sinalizar historicamente a realidade do Reino de Deus, buscando identificar-se com o próximo em sua complexidade, visando à transformação da sociedade – ou, como preconizou Lausanne, levar “o Evangelho todo para o homem todo, para todos os homens”, através do serviço e da proclamação.

A primeira agenda é avaliada pela capacidade de produzir igrejas de sucesso; a segunda, parafraseando Robinson Cavalcanti, comprometida em manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus que será consumado ali e além, de modo a oferecer ao mundo um anúncio profético do novo céu e da nova terra.


Ed Rene Kivitz

O Evangelho da Graça

Passava das 23h30 quando entrei naquele táxi forrado de adesivos com mensagens bíblicas. Após orientar a respeito do meu destino, perguntei: “Onde o irmão congrega?” Feitos os esclarecimentos iniciais, logo percebi que estava sendo evangelizado pelo motorista, entusiasmado com sua doutrina. Sua declaração de fé era muito simples e, aliás, muito bem articulada em três frases curtas: “Deus abençoa quem se sacrifica; Deus honra quem persevera; e Deus abomina quem retrocede”.

Fiquei impressionado, e logo me aventurei a perguntar como aquilo funcionava no dia-a-dia. As respostas estavam na ponta da língua: “Quando o ser quer receber uma graça de Deus tem de dar alguma coisa em troca”. Imaginei que isso explica a primeira parte, Deus abençoa quem se sacrifica. Fui esclarecido de que o tamanho da benção depende do tamanho do sacrifício. Onde aparece “sacrifício”, leia-se “oferta financeira na corrente de fé”, que dura quarenta noites, o mesmo tempo que Jesus passou no deserto.

“Agora, se o senhor não receber a graça durante o tempo da corrente, não deve desanimar”. Está é a aplicação da segunda parte, Deus honra quem persevera, pensei. “Mas, olha, o senhor não pode faltar nenhuma noite, nem desistir no meio da corrente, senão tem de começar tudo de novo.” Isso completa a declaração de fé: Deus abomina quem retrocede.

Antes de descer do táxi, convicto de que o Espírito de Deus é o único capaz de guiar a toda a verdade (João 16.13), resumi o Evangelho da Graça de Deus em duas noticias, uma boa e outra ruim. Contei primeiro a pior das noticias: o pecado faz separação entre Deus e os homens, e ninguém pode fazer nada para conquistar o favor de Deus, Em seguida apresentei a boa noticia, a melhor delas: o sacrifício de Jesus na cruz é suficiente para que Deus nos abençoe com todas as bênçãos espirituais, pois se Deus não poupou nem mesmo seu próprio Filho, como não nos dará também com eles todas a coisas? (Romanos 8.31, 32).

Fiquei olhando o táxi sumir na escuridão da noite, imaginando o que a Palavra Viva faria no coração e na mente daquele homem durante a madrugada. Naquele noite me lembrei da história de Simão, um mágico muito respeitado que vivia na cidade de Samaria na época em que Filipe passou por lá pregando o Evangelho do Reino de Deus. Simão ficou impressionado, abraçou a fé e “foi batizado, e seguia por toda parte, observando maravilhado com os grandes sinais e milagres que eram realizados” (Atos 8.9 -13).

Simão podia facilmente ser confundido com um cristão: creu, foi batizado, foi discipulado e conviveu no ambiente das manifestações poderosas de Deus. Aliais, para quem olha de relance, Simão é cristão. Mas a história não termina aí. Lucas, o evangelista, conta que, quando Pedro e João chegaram a Samaria para verificar se o Evangelho pregado por Filipe era o mesmo que os apóstolos pregavam em Jerusalém, impuseram as mãos sobre os convertidos e todos receberam o Espírito Santo (Atos 8.14 -17).

Simão que já estava impressionado com Filipe, foi ao delírio com a demonstração de poder pelas mãos de Pedro e João. Imediatamente ofereceu dinheiro para que Pedro e João lhe dessem daquele poder extraordinário. Naquela hora, o apóstolo Pedro foi enfático: “O teu dinheiro seja contigo para a perdição, pois julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus” (Atos 8.18 -20). Simão não entenderá o fundamental: as bênçãos divinas são concedidas em razão da graça de Deus, e jamais pela conquista humana, pois não há nada que o homem possa fazer para merecer o favor de Deus.

A Bíblia conta a história de outros homens que também creram em Jesus, mas nem por isso se tornaram cristãos. Quando Jesus estava “em Jerusalém, na festa da Páscoa, muitos viram os sinais miraculosos que ele estava realizando e creram em seu nome. Mas Jesus não se confiava a eles, pois conhecia a todos” (João 2.23, 24). Em outras palavras, crer no poder e na autoridade do nome de Jesus não faz de ninguém cristão.

Receio que este mesmo fenômeno esteja acontecendo hoje na cristandade. As pessoas estão descobrindo que Jesus é maior do que os exus, tranca-ruas e outros bichos, e saem por aí declarando, com toda razão, que Jesus Cristo é Senhor. Mas acontece que querem se relacionar com Jesus como se relacionavam com os demônios ou santos de devoção, isto é, pela via das promessas, penitências, sacrifícios e ofertas. Acreditam que Deus abençoa a quem sacrifica, honra quem persevera e abomina quem retrocede. Julgam que poder comprar o dom de Deus e caminha para a perdição, a exemplo do pseudocrístão chamado Simão.

Seja sobre nós o Espírito de toda a verdade, e faça triunfar no Brasil o Evangelho da Graça de Deus.


Ed Rene Kivitz

domingo, 7 de setembro de 2008

Tempo de quietude

Eu estava de saída para uma viagem a Santiago do Chile, a fim de participar de uma conferência com pastores e líderes locais. Ainda no aeroporto, aguardando o vôo, conversava com Deus sobre o meu momento de vida. Dentre muitas coisas, pedia ao Senhor sabedoria e orientação diante do cenário que me envolvia. Semanalmente, novas oportunidades surgiam diante de mim; novas demandas emergiam em minha agenda e novas conversas aqueciam meu coração para projetos aparentemente fascinantes.

Estava preocupado diante de tudo aquilo que acontecia. Sei que uma das razões que fazem com que homens e mulheres de Deus acabem por se perder, mesmo que bem intencionados em suas motivações iniciais, é a falta de uma clara percepção acerca do mover de Deus em suas vidas. Muitos passam a entender que toda oportunidade que surge é uma porta aberta pelo Senhor, ou que toda demanda que emerge é um desafio lançado pelo Espírito Santo. Há também aqueles para quem qualquer conversa que lhes aqueça o coração é uma visão de Deus que precisa ser assumida.

Para os que enxergam a vida nesta perspectiva, o mover de Deus acaba se confundindo com o empreendedorismo de nossos tempos ou com o anseio insaciável de nossas almas por sermos tidos como pessoas relevantes diante do mundo. Para gente assim, o mover de Deus sempre as convida para um tempo de ir, correr e vencer. Não existe a possibilidade de o Senhor chamá-las a um tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se. Por isso mesmo, querendo conquistar o mundo, acabam, infelizmente, perdendo a própria alma. Em meio às muitas oportunidades, demandas e desafios, confundem a ação do Senhor com as expectativas do meio ou com os anseios de seus próprios corações.

Na vida do rei Davi, os desertos se tornaram o convite de Deus para um tempo de contemplação e reflexão. Ele era um homem movido por desafios e com constante ímpeto para a ação – por isso, parece que somente em meio às adversidades ele encontrava tempo para redimensionar seu próprio coração. Assim, quando lemos as orações de Davi no livro de Salmos, percebemos um homem sondando sua própria alma e procurando perceber a ação de Deus em sua vida. Em situações de adversidades, dores e aflições, Davi se convencia de que seu Deus não o convidava constantemente a ir, correr e vencer; mas, em algumas ocasiões, o impelia a ficar onde estava, aquietar o coração e renovar sua alma.

Maria, irmã da superativa e dinâmica Marta, viveu uma situação diferente. Em sua vida, o tempo de ficar, aquietar-se e renovar-se não é fruto de uma situação criada por Deus, mas de opções que precisava fazer. Cercada por gente constantemente voltada para a ação, que enxergava cada oportunidade como porta aberta pelo Senhor, cada demanda como um desafio do Espírito e cada conversa como visão de Deus, torna-se normalmente mais difícil encontrar espaço para aquela reflexão espiritual. Mas Maria rompe com seu ambiente, resiste às expectativas que as pessoas à sua volta tinham acerca de si e resolve sentar-se aos pés de Jesus para ouvi-lo. Jesus, por sua vez, encoraja a opção feita por Maria, demonstrando que na caminhada cristã há, sim, tempo de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se.

Mas o maior exemplo de que Deus nos convida a esses momentos encontra-se na própria vida de Jesus. Em seu curto ministério terreno, Cristo tinha um enorme desafio diante de si. As demandas eram inúmeras; as necessidades, infindas, e as frentes de trabalho, imensas. No entanto, vemos nos Evangelhos episódios em que o Filho de Deus sobe montes ou procura lugares desertos a fim de simplesmente ficar, aquietar-se e renovar-se na presença do Pai. Apesar da pressão das multidões, ele afastava-se em submissão ao mover de Deus para um tempo de silêncio e descanso. No entanto, este não era um tempo de contraponto à sua missão – mas sim, um espaço integrante e essencial na mesma.

Durante uma manhã livre naquela viagem a Santiago, um querido e antigo amigo me levou para subir as cordilheiras até um lugar chamado Vale Nevado. Fomos e voltamos conversando sobre muitas coisas. Há muito tempo não tinhamos oportunidade de nos falar. No entanto, em meio às muitas palavras e diante de paisagens fantásticas, deparei-me com uma cena que me chamou a atenção. Do local, podiamos contemplar um enorme e fantástico monte coberto de neve. Seu aspecto era imponente e fascinante. Era impossível passar por ali sem admirá-lo. Mas ainda no mesmo foco de visão, bem mais próximo de nós, na margem da estrada, inúmeras árvores com seus galhos completamente secos contrastavam a imponência e fascínio da montanha branca.

Minha atenção ficou dividida entre as duas cenas contrastantes. Foi então que meu amigo, olhando para aquelas árvores, disse: “Interessante, não? Elas parecem mortas. Quem olha pensa que não resistiram ao inverno. No entanto, estão assim porque, percebendo o rigor da estação fria, concentram suas forças e energias no caule. As folhas caíram e os galhos secaram, mas toda a sua vitalidade encontra-se concentrada no caule. Para elas, agora não é o tempo de florescer, mas de resguardar-se para, no tempo certo, voltar a produzir folhas, flores e frutos. Este é o ciclo da vida.”

Ouvindo aquelas palavras e tendo os meus olhos fixos naquelas árvores, ouvi a resposta de Deus para a oração que havia feito antes de partir do Brasil. Nem sempre é hora de ir, correr e vencer. Existem tempos em que o Senhor nos convida a ficar em sua presença, e ali aquietar nossa mente e renovar nossa alma. Em meio a tantas coisas e situações que nos envolvem, precisamos ter a sensibilidade para perceber que o Senhor, por vezes, não deseja que façamos tudo ou aceitemos todos os desafios. Existe também o tempo em que seu mover nos convida a concentrarmos nossas forças e energias no que é essencial e imprescindível: a nossa relação com ele.

Às vezes, como acontecia na vida de Davi, Deus precisa criar desertos em nossa história para nos convencer desta verdade. Noutras situações, assim como o fez Maria, podemos exercitar nosso poder de decisão contra o meio que nos impele a constante atividade, optando por simplesmente quedar-nos aos pés de Cristo. Mas também podemos olhar para Jesus e perceber o convite para vivermos em maturidade, integrando este tempo como parte essencial e imprescindível da missão de Deus para as nossas vidas.


Ricardo Agreste

sábado, 6 de setembro de 2008

Amor e Graça

"Todos os descendentes do meu avô nada mereciam do meu Senhor e rei, senão a morte. Entretanto, deste a este teu servo um lugar entre os que comem à tua mesa. Que direito tenho eu, de te pedir qualquer outro favor?" 2 Samuel 19. 28


Mefibosete, era neto de Saul e filho de Jônatas. Deficiente físico devido a um acidente em sua infância, ele era um marginalizado. Entretanto, seu pai e o rei Davi fizeram um pacto de amizade e Davi, agora rei, queria honrar esse pacto. Ao acolher Mefibosete, demonstrou claramente o conceito da graça. Graça é amar gratuitamente. Quando éramos ainda pecadores e merecedores da morte, Deus escolheu nos querer bem se que haja qualquer relação de necessidade. Não apenas somos queridos como honrados e exaltados por Deus. Não é preciso fazer nada para ganhar o amor de Deus, ele nos é oferecido espontaneamente. Paulo, pasmo, disse que é assim que ele prova o seu amor para conosco: nos amando quando ainda éramos pecadores.


Ricardo Gondim

A teologia da ternura

O Deus da revelação cristã... rende quase invisível sua transcendência: se revela ocultando-se, e se oferece como um Deus de piedade e dileção, em uma forma tão humana a ponto de assumir em si a 'carne' do mundo.


Belém e Nazaré representam, deste ponto de vista, uma novidade absoluta na história do auto-revelar-se de Deus à humanidade. Um evento de graça cuja única razão é o amor de benevolência.


Da sua parte, a cruz proclama que a última palavra de Deus não é uma palavra de condenação, mas de 'com-paixão', de amor gratuito que salva; é esta a palavra que inaugura o tempo da Igreja e expressa sua forma; é dessa que brota a ternura dos cristãos, a qual os transforma - por graça - 'memória inquieta' e 'profecia viva' de um modo novo de conceber a vida, liberando-os das lógicas do poder e do domínio e colocando-os naquelas da gratuidade e do serviço.


Se fiéis 'ao escândalo da cruz' (Gl 5.11), os cristãos são como 'estrangeiros' e 'sem-terra' entre os povos. Sua identidade não é compreensível senão como configuração ao seu Senhor crucificado e como testemunha viva da ternura de Deus para com os últimos, os abandonados e os excluídos.


Carlos Roccochetta

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Essência da Adoração

Hoje não consigo mais imaginar adoração como apenas um pequeno tempo no meio do culto onde cantamos. Não consigo mais ver adoração apenas dentro do ministerios de louvores ou qualquer outra coisa do tipo.

Hoje consigo compreender um pouco mais oque Jesus queria dizer com adorares que O adorem em Espirito e Verdade, isso porque Deus não está simplesmente a procura de adoração mas sim de adoradores, de homens e mulheres que compreendam que podem fazer de todos os instantes de sua vida uma expressão do amor e do carater de Deus, e assim o adorar em todo tempo, que quer comendo ou bebendo podem fazer tudo para a gloria do nome de Jesus.

Esses mesmos são aqueles que entendem que isso so é possivel por causa da essência da adoração, daquilo qe está em nossos corações e extravasa de tal maneira que tudo oque fazemos e principalmente tudo que somos é dEle para Ele e por causa dEle. Jesus é a essência.


video


A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

Para nos ajustar o foco

Estou certo que todos os que estão lendo esse texto já ouviram um milhão de definições diferentes de adoração. Porém, creio que é sempre bom colocar um novo foco em nossa forma de pensar para nos mantermos afiados. Já que estamos no início de um novo ano, talvez seja uma boa hora de reconsiderarmos o que a adoração é para nós.

No passado, meu conceito sobre adoração era totalmente centralizado em música. Adoração, para mim, era sempre a música antes da pregação ou as músicas lentas depois do "louvor". Pensava que adoração era um tempo de cantar, tocar instrumentos e erguer minhas mãos ao Senhor. Esse tempo gasto em Sua presença era grandioso. Não posso negar que Ele realmente habitasse nesses louvores. Porém, quando a música terminava e o período de adoração acabava, era hora de ofertar, ouvir a palavra e viver o resto da semana. Para a maioria de nós, a adoração tem esse espaço em nossas vidas. Se foi devido à nossas agendas cheias, hábitos formados ou falta de ensino apropriado que isso aconteceu eu não sei, mas a adoração foi compartimentada e definida como algo que não corresponde a realidade. Adoração não é apenas uma canção. Não é somente dança. Não é apenas uma preparação para a pregação. Não é um mandamento. Adoração é uma resposta. O dicionário online webster oferece três grandes definições de adoração: (1) o ato de adorar, especialmente reverentemente; (2) considerar com grande temor e devoção e (3) sentir um amor profundamente dedicado.

A adoração é uma resposta ao amor. Se amamos alguém, isso afeta nossos pensamentos, nossas ações, e nossos corações. Atos de adoração são uma resposta a esses efeitos. Se nós realmente adoramos reverentemente ao Senhor, isso afeta muito mais que cantarmos ou a forma com que cantamos. Esse amor enche nossa vida até ao ponto que em que tudo se torna uma expressão desse amor. Podemos adorar ao Senhor com músicas, em dança, ao ofertar, em como nos conduzimos nos nossos empregos, em como tratamos outras pessoas, e em como vivemos nossas vidas. Romanos 12:1 ensina-nos que oferecer nossos corpos como sacrifícios vivos, santos e agradáveis a Deus é nosso ato espiritual de adoração. Nossa vida inteira deve ser um ato de adoração que renda louvor a Ele. E como a Palavra promete, Deus habita em meio aos louvores de Seu povo. Eu estou preparado para Deus habitar continuamente em minha vida.


Jeremiah Bowser

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Adoração que transforma

“E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.”

(2 Co 3:18)


Deus a gente adora, isso é certo, mas como é que se adora a Deus? Proponho que nesse texto, Paulo nos aponta um caminho. Ele diz que, diferente de Moisés, a gente não precisa usar o véu sobre o rosto (2 Co 3:13), Moisés decidiu usá-lo porque o brilho da glória foi desaparecendo, e ele não queria que o povo o percebesse, isso porque o brilho dependia da exposição de Moisés à glória de Deus, o que aconteceu no Sinai, uma vez que ele não estava mais exposto, porque teve de descer do monte, teve de voltar para o meio do povo, o brilho foi, naturalmente, desaparecendo.


E, por que a gente não precisa usar esse véu? Não é porque nosso brilho é de melhor qualidade e dura mais tempo, mas, porque a gente está sempre diante da glória do Senhor, a gente não precisa ir a nenhum lugar especial para ficar exposto à glória do Senhor, a gente pode e deve estar o tempo todo diante da glória do Senhor, logo, depende só da gente, só não fica exposto à glória do Senhor quem não quiser.


E como a gente faz para expor-se e manter-se exposto? A gente já está exposta, portanto, a primeira coisa que devemos desenvolver é essa consciência, estamos sempre diante da glória do Senhor, tudo o que a gente pensa, fala e faz é diante dele. Em segundo lugar, temos de transformar tudo que pensamos ou fazemos num culto ao Senhor, conscientes de que pensando ou agindo estamos sempre diante dele, daí a gente tem de se portar de modo digno de quem está na presença do Senhor, logo, certos pensamentos e sentimentos têm de ser rechaçados de cara (Ef 4:31; Cl 3:5 a 9), porque não são dignos de quem está na presença da glória do Senhor, e tudo que a gente fizer tem de ser do jeito que Deus gosta (Cl 3:23).


O que é a glória do Senhor? É a forma como o Senhor se mostra a nós. A gente contempla a glória do Senhor e é transformado à imagem do Senhor. Porém, a gente está olhando a glória do Senhor como quem se olha no espelho e a gente se olha no espelho para se acertar, logo, contemplar a glória do Senhor é olhar para a imagem com a qual ele se nos apresenta de modo a nos acertarmos a partir dessa imagem, para ser cada vez mais parecido com a imagem que estamos vendo.


De que forma o Senhor se apresenta a nós? Segundo Apocalipse 5:6, como cordeiro, uma vez que o ancião que se aproximou de João para dizer-lhe que não precisava mais chorar, disse-lhe que o Leão da tribo de Judá havia vencido e estava apto para tomar o livro e abrir-lhe os selos, porém, quando João se levantou para ver o leão, viu o Cordeiro. Jesus, para o céu, é o Leão, mas, para nós é o Cordeiro, aliás, em Apocalipse Jesus é citado como leão uma vez e, como Cordeiro, 31 vezes. Jesus se apresenta a nós a partir de sua humilhação e apresenta a sua humilhação como modelo de vida para nós, como disse Paulo em Filipenses 2:5 a 8. Jesus sempre se apresenta a nós como Cordeiro e demanda que a gente viva, também, como cordeiro. E viver assim é que é adorar ao Senhor, e quanto mais a gente vai nessa direção mais o Espírito Santo nos transforma em gente assim, de modo que vai ficando cada vez mais natural.


E quanto mais nós, porque isso é comunitário, vamos sendo transformados à imagem do Cordeiro mais vamos sendo edificados.


Ariovaldo Ramos

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Multidão e Discipulos

Em Mateus 16, do verso 13 ao 20, Jesus, enquanto caminhava para Cesaréia, aldeia ao norte da Galiléia, administrada por Filipe, perguntou aos seus discípulos sobre o que o povo pensava dele. Queria saber que identidade lhe atribuiam.

A gente sempre se relaciona com o outro a partir da identidade que lhe atribuimos, independente dessa identidade atribuída corresponder ou não com a identidade assumida pelo outro.

O povo atribuiu ao Senhor a identidade de profeta. É verdade que o compararam aos profetas mais contundentes que Israel já conheceu: Elias, Jeremias e João Batista. Mas profeta.

O povo errou, entretanto, Jesus não fez nenhum comentário.

O povo não sabia quem era Jesus, mas não se importava muito com isso, porque buscava o que Cristo lhes pudesse fazer, não, necessariamente, o que tivesse a lhes dizer. Tanto que Jesus teve de orientar os discípulos a ter sempre um barquinho à mão caso ele fosse comprimido pelo povo (Mc 3.9,10). Porque, como o povo percebera que bastava tocar em Jesus para ser curado, muitos arrojavam-se sobre ele para o tocar. Iam ao encontro de Jesus para buscar uma benção. De fato, ao invés de irem ao encontro de Jesus, iam-lhe de encontro. Jesus, então, foi obrigado a se proteger do povo que queria abraçar.

Acho que podemos chamar a esse ajuntamento de A Igreja da Multidão. A igreja que não sabe quem é Jesus, só sabe e só se importa em saber o que Jesus lhe pode fazer, como lhe pode ser útil.

Hoje, cada vez mais, há igrejas que parecem ter o mesmo perfil da multidão: sua mensagem acaba por incentivar um relacionamento utilitário com Jesus.

Em contrapartida há a Igreja dos Discípulos.

Pedro, à mesma pergunta, respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Resposta perfeita, porque diz que Jesus era o Messias esperado, mas era mais do que se esperava, pois aguardava-se o maior de todos os profetas (era o que criam os mestres de Israel na época), entretando, Deus mesmo veio em carne e osso para salvar a humanidade.

Essa Igreja sabe quem Jesus é. E o sabe porque o próprio Pai o revelou, como afirmou Jesus a Pedro. A Igreja dos Discípulos é a Igreja que o Pai deu para o Filho, porque pertence a ela aqueles a quem Jesus, pelo Pai, foi apresentado (Jo 6.44).

A Igreja dos Discípulos sabe que a única maneira de relacionar-se corretamente com Jesus é através da adoração. A um líder a gente segue; a um chefe a gente obedece; a um profeta a gente ouve; de um mestre a gente aprende; a Deus a gente adora. Essa é a Igreja que o Filho edifica, porque esta fica sobre a Pedra, que é Jesus reconhecido como Deus que veio em carne e osso para nos salvar.

E como nos ensinou o apóstolo Paulo, adorar a Jesus é imitá-lo (1Co 11.1). E isso é fruto do desejo de ser igual a Jesus, e quanto mais a gente anda em direção a esse desejo, mais o Espírito Santo o torna realidade em nossas vidas (2 Co 3.18).

A Igreja da Multidão está à cata das bençãos. Do tipo que até o adversário pode dar.

A Igreja dos Discípulos está à cata das palavras de vida eterna; essas que só Jesus tem (Jo 6.68).

A Igreja da Multidão busca crescer a todo custo, e para isso lança mão de todo e qualquer esquema.

A Igreja dos Discípulos vai buscar as ovelhas de Cristo, as que reconhecerão a sua voz, para que haja um só rebanho e um só pastor (Jo 10.16); e, para isso insiste na exposição da verdade que liberta.

A Igreja da Multidão promete o fim do sofrimento e bençãos materiais.

A Igreja dos Discípulos promete a vida abundante e a ressurreição.

A Igreja da Multidão convoca indivíduos a serem individualistas: a terem tudo o que, pela fé, possam conseguir.

A Igreja dos Discípulos convoca indivíduos a serem pessoas comunitárias: a doarem tudo o que a fé, que liberta das posses, permite doar.

A Igreja da Multidão exorta as pessoas a desfrutarem o mundo.

A Igreja dos Discípulos exorta as pessoas a, irmanadas, transformarem o mundo.

A igreja dos Discipulos está querendo mais da vida de Jesus para, na vida, ser cada vez mais como Jesus.

Cada pessoa que se diz seguidora de Cristo; cada pessoa que se considera pregadora do evangelho; cada comunidade que se diz cristã precisa se submeter a esse gabarito, para descobrir de que referencial faz parte, ou de qual se aproxima mais: da Igreja da Multidão ou da Igreja dos Discípulos.

Todos seremos tentados a buscar o que busca a Igreja da Multidão, mas não nos esqueçamos: o tesouro é Cristo e, com ele, vem tudo o que precisamos para ser como ele: gente como gente deve ser.

No Reino de Deus Jesus é tudo em todos os súditos; e tudo o que os súditos do Reino querem ser é todo Jesus.


Ariovaldo Ramos

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Aquilo Que Jesus Não É

Deus deu à espécie humana aquilo que eu chamo bons sonhos: quero dizer, histórias piegas espalhadas pelas religiões pagãs acerca de um deus que morre e regressa à vida e, pela sua morte, de algum modo, dá vida nova ao homem. Ele também escolheu um povo particular e gastou vários séculos a martelar nas suas cabeças o tipo de Deus que Ele era - que Ele era Um e que Ele se preocupava com a boa conduta. Essa gente eram os Judeus e o Velho Testamento dá-nos conta do processo da martelada.

É aí que entra o verdadeiro choque. Entre estes Judeus, de repente há um homem que começa a falar como se Ele fosse Deus. Ele diz que perdoa os pecados. Ele diz que Ele existiu sempre. Ele diz que vem para julgar o mundo no fim dos tempos. Aqui tenhamos isto claro. Entre os Panteístas, como os Indianos, qualquer um pode dizer que é uma parte de Deus, ou um com Deus: isto não será nada estranho. Mas este homem, que era Judeu, não podia querer dizer que era esse tipo de Deus. Deus na língua daquela gente, significava o Ser fora do mundo que tinha feito o mundo e que era infinitamente diferente de qualquer outra coisa. E quando se percebe isto, pode-se ver como o que aquele homem dizia era, simplesmente, a coisa mais chocante alguma vez sussurrada por lábios humanos.

Uma parte da pretensão tende a passar ao nosso lado despercebida porque a ouvimos tantas vezes que já não sabemos de que se trata. Estou a falar da pretensão de perdoar os pecados: quaisquer pecados. A não ser que quem diz isto seja Deus, isto é tão prepóstero como cómico. Todos podemos compreender como um homem perdoa as ofensas contra si próprio. Pisas-me o dedo do pé e eu desculpo-te, roubas-me o dinheiro e eu desculpo-te.

Mas o que pensar de um homem, que não foi roubado ou pisado, que anunciou que te perdoou por ter pisado os dedos do pé de outro homem e roubado o dinheiro de outro homem? Fatuidade asinina é a descrição mais moderada que daríamos a esta conduta. Contudo, isto é o que Jesus fez. Ele disse às pessoas que os seus pecados estavam perdoados sem nunca ter esperado para consultar todas as outras pessoas a quem aqueles pecados tinham sem dúvida prejudicado. Ele comportava-se deliberadamente como se Ele fosse a principal parte interessada, a pessoa mais gravemente ofendida com todas as ofensas. Isto só faz sentido se Ele for realmente o Deus cujas leis são quebradas e cujo amor é ferido com cada pecado. Na boca de quem quer que não seja Deus estas palavras implicariam o que eu só consigo classificar como tontice e presunção nunca antes rivalizadas por qualquer personagem na história.

Porém (e isto é a coisa estranha e significativa) mesmo os Seus inimigos quando liam as Escrituras, não ficavam usualmente com a impressão de tontice e presunção. Ainda menos ficarão os leitores sem preconceito. Cristo diz que Ele é humilde e doce e nós acreditamo-lO, não reparando, que se Ele fosse meramente um homem, humildade e doçura são das últimas características que poderíamos atribuir a algumas das Suas palavras.

Estou a tentar aqui evitar que alguém diga a coisa realmente idiota que as pessoas dizem muitas vezes d'Ele: 'Estou pronto a aceitar Jesus como um grande mestre de moral, mas não aceito a Sua pretensão de ser Deus.' Esta é a coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse meramente homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre de moral. Seria ou um lunático - ao nível de um homem que diz que é um ovo escalfado - ou então seria o Diabo do Inferno.

Temos que fazer a nossa escolha. Ou este homem era, e é, o Filho de Deus ou então é um louco ou qualquer coisa pior. Pode-se ignorá-lo como um louco, pode-se cuspir-Lhe e matá-Lo como um demônio; ou pode-se cair a Seus pés e chamar-Lhe Deus e Senhor. Mas deixemo-nos de vir com disparates condescendentes acerca d'Ele ser um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa saída. Ele não fez tenções disso.


C. S. Lewis
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