terça-feira, 30 de junho de 2009

Silencio e a Voz de Deus

Algumas pessoas dizem que Deus não fala mais como antigamente, mas acredito que Ele continua a falar, mas somos nós que estamos em meio barulhento demais para ouvi-lo.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

E se alguém acender a luz?

Desconfio de uma grande tolice. A da religião ao acreditar que as pessoas sejam fiéis aos preceitos por ela legitimados. Os crentes, suspeito, apenas usam os dogmas. Usam como um artifício de proteção. As crenças oficiais apenas justificam a vida dos crentes. São todos, na verdade, rebeldes. Com as luzes apagadas.

Explico. Nós, evangélicos, afirmamos ser a Bíblia nossa regra de fé e prática. Declaramos a quem reivindicar nossos pressupostos de fé que o texto sagrado é infalível e sua inerrância nossa garantia por excelência. Sem gaguejar, confessamos nossa confiança no que diz a Bíblia como sendo tudo o que de Deus foi-nos revelado. Cada palavra é a exata expressão do que Deus queria dizer, pregamos com paixão. Não dá para negar. Essa é uma expressão de fé reconfortante. Pena não corresponder ao mundo vivido dos crentes.

Na prática, desconfiamos do texto canonizado. Cada um de nós canoniza seus próprios textos. A regra, silenciosa e hábil, é a da plausibilidade. Acolhemos com devoção e folguedo os textos cuja prática fazem todo sentido. Apagamos com distração e cinismo aqueles que se mostram toscos e inverossímeis. Praticamos sistematicamente, ao menos pretensiosamente, os conselhos paulinos da promoção da alegria e rejeição da ansiedade, aos Filipenses, mas sequer nos incomodamos com a dedicação paulina à Satanás do voluptuoso que praticou incesto, com o fim de purificar sua alma, aos Coríntios.

Fazemos conviver em nosso mundo, ambiguamente, duas crenças. Aquela que nos acomoda e conforta e a outra que permeia nossa vivência. Uma, promete-nos uma vida segura, porque correta e piedosa, e a outra, convence-nos do que faz sentido. Uma, falante e retórica. Outra, silente e real. Eis a vida do religioso e sua esquizofrenia de sobrevivência. Afirma sua fé como sem dúvida. Vive a sua vida como sem fé. Na fé pronunciada, esquece-se do que vive. Na prática escamoteada, esquece-se do que confessa. Não o culpo. Ou é crente e não se suicida. Ou é honesto e relativiza seus dogmas.

Sugira a um crente evangélico que o texto bíblico é tão contingente quanto sua vida e você será tratado como uma ameaça a sua segurança. Uma bactéria herética a ser combatida com doses de antibióticos escrupulosos. Você pode lidar com a Bíblia e toda e qualquer crença como verdades contingentes, contanto que não admita. Crenças contingentes só com a luz apagada.

Verdades contingentes são aquelas crenças que podem ser verdade lá, mas podem deixar de ser aqui. Que podem ser plausíveis quando Paulo ensina aos escravos cristãos a serem bom escravos, mas não ser em nossos dias, em que a consciência dos direitos humanos expurgou a prática da escravidão. Você pode aconselhar brasileiros vitimados pelo trabalho escravo a denunciarem seus patrões como criminosos, mas ao ler a Carta a Filemon, faz de conta que “servo” não é o mesmo que “escravo”. Ao ler o milagre realizado por Jesus de transformar água em muito e no melhor vinho, faz de conta que era suco de uva e continua a apregoar seu ascetismo.

E pensar que eu já sofri tanto, preocupado em como organizar a doutrina. Quem precisa de uma? Alguém, por favor, acende a luz e pede para os crentes olharem com coragem para a verdadeira fé, aquela que seu bom senso permite que participe de sua prática! Aquela que conversa reverentemente com a Bíblia, a tradição, a consciência, os sentidos do mundo vivido e aceita crer com modéstia, franqueza e sensibilidade.

Uma fé que só se mantém com a luz apagada é uma ficção. E João, que nos disse que Deus é luz e que nele não há treva alguma? E seu convite a andarmos na luz com a mesma coragem existencial de Jesus para termos comunhão uns com os outros? Afinal, comunhão é a arte da honestidade e a Bíblia, verdadeira demais para ser reduzida aos quartos escuros, sectários e covardes das ficções religiosas.


Elienai Cabral Jr.

A Bíblia, a Fé e os Provisórios Castelos de Areia

Ninguém precisou me ensinar a nadar. Criado em cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, Santos, Niterói e Fortaleza, a praia se tornou um ambiente natural em minhas descobertas. Aprendi a nadar vendo os outros nadarem e querendo muito entrar mar adentro. Foi na praia que também aprendi uma linda lição, mas estranhamente difícil para algumas crianças. A beleza dos castelos de areia é sua curtíssima duração. Castelos de areia, por mais belos que sejam e por mais tempo que neles se gaste, desmancham na primeira alta da maré. Meus primos, os que não eram do litoral como eu, gastavam enorme tempo na construção de seus castelos e se revoltavam até as lágrimas quando desmoronavam. Na época, achava-os chatos e mimados. Hoje os compreendo, mas não os absolvo.

Querer dos castelos de areia o que não podem dar é construir amarguras. É o que hoje mais me incomoda no ambiente religioso. A pretensão de posse da verdade é nosso castelo de areia. Temos o livro infalível, a doutrina fundamental, o ambiente de pessoas superiores, uma fé a toda prova, a certeza imbatível da melhor religião, a segurança de um mundo controlado pela onipotente mão divina, nada acreditamos acontecer sem um propósito superior e nos esquecemos de que toda essa construção, por mais bonita e incrementada que tenha sido um dia, é feita de palavras que são sempre como a areia à beira do mar.

Meu ofício de pastor se parece muito com minhas aventuras nas tantas praias que freqüentei na infância. Ficava inconformado com os primos do interior, caprichosos e sem graça. É assim que vejo muitos crentes quando tem que lidar com o sofrimento. Sua amargura não se deve à perda simplesmente, mas ao desmantelamento de uma segurança que não passava de um castelo de areia inutilmente tão vigiado.

A graça dos castelos de areia é que toda vez que chegamos à praia podemos construir um novo. E assim que desmoronar, podemos fazer outros ou, melhor ainda, tentar outras brincadeiras neste espaço sempre tão aberto e inventivo. Talvez devêssemos aprender com os castelos de areia em nossas construções de fé. Porque da mesma forma que os castelos da infância são feitos de areia, nossa fé é feita de palavras. Não há nada de errado com os castelos, contanto que não nos esqueçamos que são construídos com a areia solta da praia e à beira do mar. Nada de errado com nossas apaixonadas construções de fé, contanto que não nos esqueçamos de que são feitas de meras palavras, esses signos tão impotentes e transitórios, articulados à beira da incontrolável e contingente vida humana.

A Bíblia, queridas crianças, é a palavra de Deus. É verdadeira. Digna de aceitação. É edificante. E as crenças? São bonitas. Nasceram com contundência em resposta às mais variadas dúvidas. Fizeram de nós pessoas esperançosas e fiéis. Mas são feitas de palavras. Nossos conflitos de interpretação. Nossas tensões entre o que lemos e o que faz sentido na prática de todo dia. Nossa necessidade de ressignificação da fé. Nossa modéstia em propor explicações. Nosso assombro diante das tragédias. Nossa ânsia por novas respostas. Tudo isso é nossa experiência com a precariedade das palavras. A fé à beira do mundo que experimentamos novo a cada dia é como o castelo de areia e a próxima onda que ameaça desmancha-lo.

Qual a graça de se construir castelos de areia se são sempre tão provisórios? Por que ter esperança se nossas expressões de fé são tão precárias e passageiras?

A graça dos castelos é que eles não duram para sempre. E porque não duram para sempre não temos que desperdiçar tudo o mais na imensa praia para ficar tensos e vigilantes ao seu lado. E se a água fria e espumosa do mar e a vastidão da praia para correr e os outros meninos aos berros convidando para o futebol e as pranchas e bóias esperando para sangrar as divertidas ondas do mar e o homem do picolé oferecendo suas delícias frias não bastarem para nos arrancar dos castelos já construídos, a próxima onda vai livrar-nos deles e nos obrigar a sermos livres.
E as nossas expressões de fé? Também.


Elienai Cabral Jr.

A imaginação divina

Tão logo aconteceu, ainda nos primeiros instantes do ofício de pregador, desdenhei do que entendia como uma distração, ou superficialidade de muitos de meus ouvintes. Após um longo (e chato?) sermão, marcado por uma construção cuidadosa de conceitos, desembocando em uma conclusão bem assentada, ficavam apenas, como marcas distintivas, ou as comparações, ou as histórias ilustrativas, ou poesias, ou citações de filmes, ou músicas, utilizados como coadjuvantes do grande conceito. O brilho afetivo da poesia ofuscava levianamente a importância moral das asserções.

Hoje, menos ocupado em me auto-afirmar, descrente da relação entre o que digo e o que sou, rendo-me. As pessoas não pensam através de conceitos. Pensam através de imagens.

Palavra boa é palavra imaginada.

As palavras, provavelmente, estão primariamente relacionadas às imagens que colecionamos enquanto vivemos. Não só as imagens dos olhos, mas todas as que formamos impressionados por tudo o que nos afeta.

A verdadeira construção do saber é multimídia. As palavras ditas em e através de um mundo vivido. Ninguém, portanto, pensa para valer sem imaginar.

Esta é a grandeza da Bíblia. Marcadamente narrativas, As Sagradas Escrituras são sagradas imagens. Gênesis não conceitua e descreve a formação do universo e a origem da raça humana. Quem o faz absolutamente? Apenas imagina o significado do universo e da vida humana. Universo é criação. Humanidade é imagem. À imagem de Deus os criou.

A vida é feita de jardinagem. Insistente plantio de paraísos. Chão coberto de mato, flores e trilhas, o traçado da sobrevivência. Cores e sons. Aromas e sabores. Alguns familiares e com poucos atrativos. Outros diferentes. Proibidos. Intocáveis para quem não inventa destino. Incontornáveis para quem quer mais que viver. Para quem deseja ser, quem busca história.

Duvidar. Transgredir. Imaginar possibilidades tem gosto de fruto proibido. Escolha e culpa tem gosto de fruto comido e o jeito de humanidade parida. Na vertigem da liberdade, na nudez da responsabilidade, na dor dos processos de criação, no suor do trabalho, no mundo inseguro e inacabado. Na culpa de querer desistir tarde demais, no pecado de tentar fugir à história imprevisível que o lado de lá do jardim aponta.

Fé e esperança tem a afeição do calor de um Deus que desde já nos veste de perdão e graça. Salvação é a pele da inocência que sempre cobre a pele fria e desnuda da coragem de fazer escolhas. Emancipar-se é cercar-se da friagem do inusitado. Ser salvo é abrigar-se na compreensão quente de quem não nos deixa voltar atrás. É assim que vejo os três primeiros capítulos da Bíblia.

Faz alguns dias que sentei no chão do quarto só para contar histórias. Thales e Gabriela se aconchegaram rápido em torno de mim. Olhos dilatados. O sorriso ameaçado nos rostinhos. Conto histórias. Imito vozes. Alimento imagens com entonações várias. Conto uma. Conto duas. Conto três. Nunca me sinto tão perto de meus filhos quando conto histórias. Nunca os tenho por tanto tempo e com tanta intensidade quando sento no mundo das fantasias que mora lá no quarto deles. Mas ainda é pouco. Acredita? Gabriela acha que as melhores histórias não são as que lemos. Prefere as que inventamos. Conta uma, vai! Era uma vez um menino chamado Juninho. Silêncio e olhinhos compenetrados.

Ele tinha uma irmãzinha chamada Tamara. Pera aí! Essa é a sua história, pai! Tudo bem. Não para. Histórias findas. Crianças cobertas. Hora de dormir para elas. Hora de voltar para o mundo dos adultos para mim. Hora de conceitos. É assim que imagino Deus na Bíblia. Como um pai que conta histórias. Não quaisquer. As melhores estão para além da escrita. Mas não só. A surpresa é que as histórias que ele conta são também as suas.

Um Deus com histórias é um Deus mais perto e inesquecível. É o Deus da Bíblia. Um Deus narrado ao nosso lado.

Foi também naquela época infantil de pregador, das frustrações com a superioridade das imagens frente aos conceitos, que tomei uma decisão. Não posso fazer com a Bíblia, Palavra de Deus, o que seu grande inspirador se recusou a fazer com seu discurso. Revelar o que é pelo que se diz. Melhor é revelar o que pode ser pelo que imaginamos. Foi quando convidei gente imaginativa para ler a Bíblia comigo. Fernando Pessoa. Leonardo Boff. Drummond. Rubem Alves. Dostoievisk. Adélia Prado. Mario Quintana. Kierkegaard.Thomas Mann. José Lins do Rego. Ricardo Gondim. João Guimarães Rosa. Paulo Brabo. Chico Buarque. Mia Couto. Richard Rorty. Marcio Cardoso. Lenine. Meus filhos. Gente que toca o mundo pela imaginação.

Como Jesus e suas parábolas. Como explicar que ser salvo de uma vida sem sentido não é uma questão de religião, nem de hierarquia, nem de ideologia, mas uma questão de amor? Pelo que se diz? Não, sequer seria entendido. Apenas e precipitadamente crucificado. Melhor contar uma história como a do ‘Bom Samaritano’. Nem sacerdote, nem levita. Nem religioso, nem capacitado. Apenas sensível o bastante para interromper uma viagem e se aproximar de uma vítima da crueldade de outras pessoas. Só as imagens podem nos salvar das crueldades que nossos conceitos insistem em disfarçar.

Vejo gente usando a Bíblia para ter razão. Para construir sistemas doutrinários e messiânicos (teologias?). Para excluir os loucos (hereges?) deste mundo. Para instruir os pequeninos (aqueles que só querem uma boa imagem para ser felizes). Para ganhar o mundo e perder a própria imaginação (alma).

E pensar que na Bíblia Deus pode nem ter revelado palavra alguma do texto. Mas apenas imagens.

Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação.(1Co 1.20-21) Naquela hora Jesus, exultando no Espírito Santo, disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. (Lc 10.21)


Elienai Cabral Junior

Bono aos cristãos: “Não negligenciem a África”

Enquanto estava em Washington procurando apoio político para auxiliar à África, o cantor do U2, Bono Vox, fez uma clara confissão a respeito dos muitos evangélicos. “Ele disse, ‘Eu sou um crente e tenho fé em Jesus Cristo’”, recordou Richard Cizik, vice-diretor de assuntos governamentais da Associação Nacional de Evangélicos (EUA), que esteve presente no encontro realizado em Março na Capitol Hill. “Você não pode discordar que esse tipo de testemunho pessoal é uma maneira de abrir portas”.

Bono, um dos mais celebrados pop stars do mundo, tem se tornado um defensor internacional de projetos para a Aids, da absolvição da dívida financeira do Terceiro Mundo e do crescimento das transações comerciais. Ele incita os evangélicos a tomarem a frente na luta contra a Aids e a pobreza que tem desolado o continente Africano.

“Um terço da população da Terra está encarcerada pela pobreza”, Bono disse em entrevista a Cristianity Today. “Esse é, como ela mesma diz, o ímpeto da Escritura. Por quê esse não é o ímpeto das igrejas?”

Uma pesquisa realizada pelo Barna Research Group em 2001, à pedido da Visão Mundial, disse que os cristãos evangélicos são significantemente menos propensos a darem dinheiro para ajudar na educação e prevenção da Aids ao redor do mundo do que os não-cristãos. Apenas 3% dizem que planejam ajudar internacionalmente o combate a Aids, em comparação com 8% de não-cristãos e 8% de pessoas que disseram ter nascido de novo. Os evangélicos são também os menos propensos a ajudar crianças órfãs por causa da Aids.

O encontro de Bono ocorreu menos de um mês depois de Frnklin Graham ter conclamado os cristãos a participarem da Conferência Receita para Esperança, em Washington, para oferecerem aos pacientes de Aids mais amor e compaixão em vez de condenação. No evento, organizado pela organização de Graham Enfermeiro Samaritano, Jesse Helms disse estar “envergonhado por não fazer algo realmente significante” para combater o avanço da Aids.

Em seu orçamento de 2003, a Casa Branca estimou 200 milhões de dólares de contribuição ao Fundo Global para Aids, tuberculose e malária, e outras iniciativas da ONU. Existe também um desejo de aumentar de 435 para 540 milhões de dólares a ajuda aos programas de Aids/HIV – Bono e alguns Democratas disseram que isso é muito pouco.

Enquanto alguns participantes disseram que o apelo de Bono foi bem recebido, alguns desafiaram a noção de que o dinheiro do governo, mais do que o envolvimento do setor privado, poderia ser o veículo para resolver muitos problemas. Eles também enfatizaram que a ajuda deveria ir para países democráticos em vez de ir para ditaduras corruptas.

“Nós não deveríamos escrever cheques em branco para regimes opressivos, mas nós deveríamos apoiar governos que estão levando adiante a democracia e que não estão envolvidos com a corrupção”, disse Diane Knippers, presidente do Instituto sobre Religião e Democracia.

Os participantes, inclusive representantes de organizações evangélicas e grupos de advogados, disseram que ele apresentou os tópicos que ele irá falar no Congresso americano e na Casa Branca. Ele também fez uma conexão com uma comunidade que ele nunca conhecera antes, eles disseram.

Com os fundos da Fundação Bill e Melina Gates, Bono planeja abrir um escritório nos próximos meses, em Washington, para sua nova organização, a DATA (Debt, AIDS, and Trade for Africa) – em português, Dívida, Aids, e Movimento Comercial para a África.


Sheryl Henderson

O crime não compensa

“Meu rapaz, você, por preguiça, entra na mais trabalhosa das existências. Você se diz vagabundo! Prepare-se para trabalhar.

Já viu uma máquina perigosa que se chama laminador? É preciso cuidado com ela, porque é sorrateira e terrível; se consegue prender-lhe a barra do casaco, arrasta-o por inteiro. Essa máquina é a ociosidade. Pare enquanto ainda é tempo; ponha-se a salvo! Se não, tudo está acabado; daqui a pouco você será tragado pela engrenagem.

Uma vez preso, não espere mais nada. Trabalhe, preguiçoso! Nada de descansar! A mão de ferro do trabalho implacável o agarrou. Você não quer ganhar a vida, ter uma ocupação, cumprir um dever! Ser como os outros o aborrece! Pois bem: com você vai ser diferente. O trabalho é a lei; quem o rejeita, tê-lo-á como suplício. Você não quer ser operário, então será escravo.

O trabalho só o deixa de um lado para prendê-lo do outro; não quer ser seu amigo, então será seu escravo. Você não quer o cansaço honesto dos homens, terá então o suor dos condenados. Enquanto os outros cantam, você há de agonizar, vendo de longe, de baixo, os outros homens dedicados ao trabalho, que parecerão descansar.

O agricultor, o ceifeiro, o marinheiro, o ferreiro, aparecerão rodeados de luz como os bem-aventurados do paraíso. Que esplendor nas bigornas! Conduzir a charrua, enfeixar as espigas, aí está a alegria. A barca em liberdade ao sopro dos ventos, que festa!

E você, preguiçoso, se cansa, se arrasta, soluça, caminha! Puxe o cabresto, e ei-lo transformado em animal de carga entre as parelhas do inferno! Nada fazer é seu desejo. Pois bem, não haverá uma semana, um único dia, uma só hora, sem cansaço. Você não poderá levantar nada sem angústia. Todos os minutos que se sucederem farão estalar-lhe os músculos. O que para os outros é uma pena, para você será uma rocha. As coisas mais simples se tornarão difíceis. A vida se transformará em monstro ao seu redor.

Ir, vir, respirar, que trabalhos terríveis! Os pulmões far-lhe-ão o efeito de um peso de cem libras. Andar por aqui e não por ali já será um problema a se resolver. Qualquer um, quando quer sair, empurra a porta, e ei-lo fora. Você se quiser sair, terá que furar as paredes. Para ir à rua, que é que todos fazem? Descem a escada. Você terá que rasgar os lençóis da cama, fazer, fio a fio, uma corda, amarrá-la à janela, suspender-se por esse fio sobre o um abismo; será noite, haverá tempestade, vendo, chuva e, se a corda for muito curta, não haverá senão um meio para descer: cair. Cair de olhos fechados, ao acaso, num sorvedouro, que qualquer altura. Em cima de quê? Do que estiver por baixo, do desconhecido.

Ou então subir pelo tubo de uma chaminé, com perigo de se queimar, ou pelos canos do esgoto, com perigo de se afogar.

Nem falo dos buracos que precisam ser cobertos, das pedras que devem ser tiradas e recolocadas vinte vezes por dia, da caliça que é preciso esconder dentro do colchão...

Que precipícios são a preguiça e o prazer! Nada fazer é uma lúgubre resolução. Viver ocioso da substância social! Ser inútil, isto é, nocivo! Isso leva diretamente para a mais horrível miséria. Desgraçado de quem quer ser parasita; será sempre um verme.

Ah! trabalhar o aborrece? Você não pensa senão em beber bem, comer bem, dormir bem, mas terá que beber água, comer pão negro, dormir em cima de tábuas com uma corrente presa aos membros, sentindo durante a noite o seu frio sobre a carne. Você então quebra essa corrente e foge. Muito bem. Terá de se arrastar sobre o ventre debaixo das moitas, comendo erva como os animais selvagens.

Depois, será novamente agarrado. Então, terá de passar anos e anos num subterrâneo, preso a um muro, tateando para ir beber à bilha de água, mordendo um pão nojento que os próprios cães rejeitariam, mastigando favas que os vermes terão roído antes de você.

Você será um bicho-de-conta num buraco. Ah! Tenha piedade de si mesmo, pobre criança, tão jovem, que há vinte anos ainda sugava o leite da ama, e que, sem dúvida, ainda tem mãe.

Eu peço encarecidamente que me ouça. Você quer ter belos casacos pretos, sapatos de verniz, quer frisar os cabelos, untá-los com óleo perfumado, agradar às mulheres, ser bonito. Você terá a cabeça raspada e terá de se vestir com um macacão vermelho e calçar tamancos.

Você quer um anel no dedo, mas terá a gargalheira no pescoço. Se olhar para uma mulher, receberá uma bastonada.

Você entrará lá com vinte anos e sairá com cinqüenta! Entrará jovem, sadio, corado, com olhos brilhantes, com todos os dentes brancos, bela cabeleira de adolescente, e sairá alquebrado, recurvado, enrugado, sem dentes, horrível, de cabelos brancos!

Ah! pobre criança, você está no caminho errado, a ociosidade o aconselha mal, o mais rude dos trabalhos é o roubo. Creia-me; não prossiga nesse esforço para se tornar um preguiçoso. Transformar-se num vadio não é nada cômodo.

É muito menos penoso ser homem honesto. Agora vá, e pense no que eu lhe disse”.


Jean Valjean conversando com Montparnasse um jovem ladrão
em "Os Miseraveis" de Victor Hugo

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Pensamentos Antonio Vieira

“Trouxeram um cego a Cristo, para que o curasse; pôs-lhe o Senhor as mãos nos olhos e perguntou-lhe se via? Respondeu Video homines velut arbores ambulantes: que via andar os homens como árvores. Pergunto: e quando estava este homem mais cego, agora, ou antes? Agora, não há dúvida, que tinha alguma vista, mas esta vista era maior cegueira, que a que dantes tinha: porque dantes não via nada, agora via uma cousa por outra, homens por árvores; e maior cegueira é ver uma cousa por outra, que não ver nada. Não ver nada é privação; ver uma cousa por outra é erro. Eis aqui por nunca acabamos de nos conhecer. Porque olhamos para nós com os olhos de um mais cego que os cegos, com uns olhos que sempre vêem uma cousa por outra, e as pequenas lhes parecem grandes. Somos pouco maiores que as ervas e fingimo-nos tão grandes como as árvores; somos a cousa mais inconstante do mundo, e cuidamos que temos raízes; se o inverno nos tirou as folhas, imaginamos que no-las há de tornar a dar o verão; que sempre havemos de florescer, que havemos de durar para sempre. Isto somos e isto cuidamos”.

“Quando Deus quis converter aquele tão desvanecido rei Nabucodonosor, para que se descesse de seus soberbíssimos pensamentos e conhecesse o que era, o primeiro passo por onde o encaminhou à penitência, foi transformá-lo em bruto. Sobre o modo desta transformação há variedade de pareceres entre os doutores: uns dizem que foi imaginária, outros que foi verdadeira; e posto que este segundo modo é mais conforme ao Texto, de ambos podia ser. Se foi transformação imaginária, voltou Nabucodonosor os olhos para dentro de si mesmo, e viu tão vivamente o que era, que desde aquele ponto se não teve mais por homem, senão por bruto, e como tal se tratava. Se foi transformação verdadeira, converter Deus em bruto a Nabucodonosor, não foi outra cousa que virá-lo de dentro para fora, para que mostrasse por fora na figura, o que era por dentro na vida. Oh quão outro se imaginava este grande rei antes do que agora se via! Dantes não se contentava em ser homem, e imaginava-se Deus: agora conhecia que era muito menos que homem, porque se via bruto entre os brutos. Se voltarmos os olhos para dentro de nós, ou se Deus nos virara a nós mesmos de dentro para fora, que diferente conceito havia de fazer cada um de si, que agora fazemos!“.


Padre Antonio Vieira

O bem mais perdido

Há bens mais perdidos e bens menos perdidos. O bem mais perdido e totalmente perdido, é aquele que perdido uma vez não pode recuperar-se. Perde um homem a Deus, e perde o tempo: qual é maior perda? Em razão de bem é Deus, em razão de perdido é o tempo; porque Deus perdido pode recuperar-se; o tempo perdido não se pode recuperar.

Quando negligenciamos nossa comunhão com Deus, perdemos um bem irrecuperável, perdemos o tempo.


Padre Antonio Vieira

sábado, 13 de junho de 2009

Ser cristão

Um cristão verdadeiro é uma pessoa estranha em todos os sentidos. Ele sente um amor supremo por alguém que ele nunca viu; conversa familiarmente todos os dias com alguém que não pode ver; espera ir para o céu pelos méritos de outro; esvazia-se para que possa estar cheio; admite estar errado para que possa ser declarado certo; desce para que possa ir para o alto; é mais forte quando ele é mais fraco; é mais rico quando é mais pobre; mais feliz quando se sente o pior. Ele morre para que possa viver; renuncia para que possa ter; doa para que possa manter; vê o invisível, ouve o inaudível e conhece o que excede todo o entendimento.


A. W. Tozer

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Paixão

Segue mais um video da serie nooma de Rob Bell.

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A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva
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