quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Khalid e seu destino eterno

Khalid é camponês no Iraque. Há séculos sua família vive cuidando de um pequeno curral com bodes, cabras e algumas ovelhas. Mas ele ainda hoje não entende porque aviões barulhentos sobrevoaram sua choupana despejando bombas. Uma dessas bombas caiu há cem metros de onde seus filhos brincavam. Dois meninos e uma menina morreram com estilhaços enormes que estraçalharam seus corpos franzinos. Khalid nunca ouviu falar de Jesus Cristo ou da Bíblia. Como é analfabeto, soube apenas que os seus sacerdotes abençoaram os pilotos do avião para aquela missão.

Para a enorme maioria dos evangélicos, Khalid, além de pobre, analfabeto e sem filhos, ainda vai para o inferno no dia em que morrer. Por ser herdeiro do pecado e da culpa de Adão, será punido com fogo eterno. A condenação de Khalid será inexorável porque não fez uma confissão pública de fé nos ditames dos evangélicos.

O iraquiano sofrerá muito. Vermes lhe comerão a carne por zilhões de anos; sedento, rangerá os dentes e perpetuamente lamentará por ter sido solidário com o pecado do primeiro casal. Seu desterro será perpétuo.

Eis a brilhante lógica do fundamentalismo evangélico: a sua má sorte foi nascer no Iraque e não em Dallas, Texas, pois nos estado mais evangélico do mundo, suas chances de ser converter seriam geometricamente maiores. Inclusive, dentro dessa lógica, o capelão que orou com o piloto antes de decolar vôo, não só o perdoou por antecipação, como garantiu que a “justa guerra” legitimava as bombas despejadas sobre o vilarejo suspeito. Quanto aos danos colaterais, mesmo péssimos, são inevitáveis e serão creditados à Providência. Isto é, se os filhos de Khalid morreram, “Deus que tem tudo sob o seu controle, supervisionou e permitiu as mortes com algum propósito” – que só serão conhecidos na eternidade.

Será que, enquanto a humanidade celebra o Natal, bilhões de Khalids seguem para o inferno inexorável?

Alguns convivem bem com essa lógica. Digo apenas que ela é cruel e não tem nada a ver com Jesus de Nazaré.

A todos os Khalids do mundo, amados e queridos de Deus, Feliz Natal.


Ricardo Gondim

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Para que a poeira de nosso Rabino nos cubra...

Bom proveito pessoal, e graças a Deus não estou só em meus pensamentos (ou viagens melhor dizendo).

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A exemplo de Jesus

O video baixo faz parte de uma série de produções do Pr Rob Bell (escritor do livro Repintando A Igreja, publicado pela editora Vida) chamada Nooma, infelismente apenas alguns desses videos (diga-se de passagem muito bem produzidos) estão disponiveis no youtube com legendas em português. E sinceramente espero que o video abaixo por ser algo de Deus para sua vida e mais a frente quem sabe mais videos dessa série não acabem parando nesse blog.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Siva

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Para pensar-mos um pouco

Prezado Gunnar,

Bem, chegaram às chuvas de inverno da Colúmbia Britânica, e com elas a expectativa de alguns meses de garoa, umidade e neblina canadenses. Na verdade, comecei a gostar desses longos períodos de tempo chuvoso. Há uma espécie de austeridade e terreno que acompanham esse clima, o que sempre me dá a impressão de jogar uma balde de água fria nas expectativas utópicas e egocêntricas de nossa cultura, tanto secular quanto religiosa. Temos tão pouco incentivos para cultivar o vazio que, quando o clima nos propicia isso, encaro como um presente. Sem o auto-esvaziamento, como poderíamos estar prontos para o enchimento do Espírito?

A paz de nosso Senhor,
Eugene Peterson
Trecho retirado do livro "Diálagos de Sabedoria" da editora Vida, escrito por Eugene Peterson. Grifo meu.

Um exercício bom para mim...

Prezado Gunnar,

Não, você não precisa gostar dos hinos. Sim, você precisa cantá-los, sim. Espero que mais ou menos no mesmo tom e no mesmo ritmo que os demais. Esse é um excelente exercício de humildade.


A paz de nosso Senhor,
Eugene Peterson
Trecho retirado do livro "Diálagos de Sabedoria" da editora Vida, escrito por Eugene Peterson.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Para que atuemos cada vez menos...

Prezado Gunnar,

Então seus amigos acham que eu sou contraditório. O problema é que eles são muito racionalistas, querem tudo numa ordem precisamente anotada. A vida não é assim, principalmente a vida de santidade, que é a vida elevada à sétima potência. É difícil anotar essas coisas sequencialmente, pois elas não acontecem desse modo. Não acho que esteja contradizendo-me, mas certamente reconheço um paradoxo, e uma considerável falta de clareza.

Vou tentar outra vez. O crescimento cristão (formação espiritual), na verdade, é a coisa mais fácil do mundo. É a obra de Deus em Cristo por meio do Espírito em nossa vida. É graça. Não precisamos fazer absolutamente nada. Na verdade, tudo que fazemos de nossa cabeça é sempre a decisão errada, começamos a assumir o controle e a dirigir o negócio, como deuses para nos mesmos e para os outros.

É, porém, a coisa mais difícil do mundo, pois constantemente temos de sair do caminho que “aconteça comigo conforme a tua palavra” (Lucas 1.38). O retorno diário e fiel à condição de uma criança que recebe e obedece, nenhuma dessas atitudes por iniciativa nossa, é a vida cristã.

O problema com tanta instrução-cristã-para-vender, hoje em dia, está em quem esta é só um pouco mais que psicologia de auto-ajuda aspergida com água benta ou o velho sonho empreendedor norte-americano fortalecido com alguns textos desafiadores de líder torcida.

Muito melhor que procurar encurtar etapas do desenvolvimento cristão é tentar aprofundar-se nas grandes narrativas das Escrituras, Abraão, Jeremias, Davi, Jesus. Quando entramos imaginariamente na vida dessas personagens, começamos a entender o significado da vida singular no Espírito, vida em que fazemos cada vez menos a fim de que o Espírito faça cada vez mais.

O paradoxo está em que, embora atuemos cada vez menos, na realidade cada vez mais se realizam obras por meio de nossas mãos, nossos pés e nossa palavra. Mais vigor, menos culpa; mais de Deus menos de nós. Como aperfeiçoar isso?


A paz de nosso Senhor,
Eugene Peterson
Trecho retirado do livro "Diálagos de Sabedoria" da editora Vida, escrito por Eugene Peterson. Grifos meus.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O esquilo Scrat e uma parabola dos nossos dias...

Além de boas risadas o esquilo gente boa Scrat do filme A Ela do Gelo 2 nós da uma boa analógia com os nossos dias de hoje, pois realmente nós nos parecemos e muito com o esquilo Scrat e o seu contexto, pois em quanto seu mundo todo estava se desafazendo ao seu redor, só uma coisa lhe importava, a sua avelã, e assim somo nós muitas vezes, nosso mundo desabando e agente so se importando com a nossa avelã.

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A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

sábado, 6 de dezembro de 2008

O que é ser santo???

Vejamos o que Jesus estava nos ensinando quando relacionou o tema da santidade à Palavra e aquilo que Deus faz a nosso favor.

1. O tema da Santidade conforme relacionado à Palavra de Deus (João 17:17). Para Jesus, a Palavra de Deus era o que poderia nos santificar. E para Ele não se tratava de uma definição de santificação esotérica e mágica. Ele não tinha em mente nenhum tipo de exposição mágica da alma humana à Palavra ao fim da qual a pessoa estivesse mais santa. Na sua mente não passavam aquelas "percepções" de que a mera exposição à Palavra santificava o ouvinte. Para Jesus, ser santificado tinha, na verdade, uma profunda e indissolúvel relação com a assimilação dos conceitos da verdade de Deus, mediante um aprendizado não apenas teórico e teológico da letra da Palavra, mas mediante a vivência da presença de Deus na história em conformidade com o padrão da Palavra de Deus feita verdade no coração.

Tal percepção da relação da Palavra com a vida deve nos comprometer com a confissão de que Deus é santo e com a vivência da santidade. Além disso, ela nos induz também a perguntar por dois conceitos básicos encontrados na prática de Jesus. O primeiro tem a ver com o conceito de Palavra de Deus no entendimento de Jesus. E o segundo é aquele relacionado a como Jesus, à luz de Sua interpretação da Palavra, entendia o tema da santidade.

Comecemos com o que a Palavra significava para Jesus e o que Ele chamava de Palavra de Deus. Inicialmente devemos dizer que Jesus olhava para a totalidade do Velho Testamento como Palavra de Deus (Jo. 5:39). Para Ele a questão nunca esteve entre o que era ou não Palavra de Deus no Velho Testamento, mas, apenas, em como entender, interpretar e aplicar essa Palavra ao contexto da vida humana. Ora, neste sentido Mateus 22:23-46 é o melhor exemplo disso. Nos três episódios narrados naquele texto, a grande questão não é o que é Palavra de Deus, mas como entendê-la e aplicá-la (Mt. 23:2,3). É por esta razão que nós não vemos na prática de Jesus querelas teológicas, na perspectiva seletiva a respeito do que deveria ser retirado do Velho Testamento para ser abandonado ou reforçado na prática dos seus discípulos (Lc. 24:45). Pelo contrário, para Ele, o Velho Testamento dava uma base e finalidade histórica (Lc. 4:16-19). Sua missão tinha suas raízes mais profundas nos sonhos dos profetas (Lc. 24.27). Seus sofrimentos e glórias já tinham sido vistos e saudados desde o início da caminhada histórica do povo de Israel (Lc. 22.36,37). Ele próprio tinha sido alegria existencial e a inspiração dos patriarcas e profetas (Jo. 8.56). Sua mensagem não era nova, mas o aprofundamento da revelação já existente (Mt. 22:34¬40; Lc. 10.25-28). Sua expectativa de aceitação e rejeição do seu ministério se baseava naquilo que a Palavra lhe autorizava a esperar (Mt. 13.14,15). A própria maneira sombria pela qual ele anuncia sua morte se fundamenta numa interpretação teológico-ideológico da freqüente e histórica atitude do povo de Israel, conforme descrita nas Escrituras (Lc 13.31-35). Para Ele, o Gênesis de 6 a 11 era digno de confiança histórica (Mt. 24.38-39). Além disso, o modo pelo qual ele interpretava a saúde relacional do homem e da mulher se fundamentava na originalidade do plano da criação conforme revelado no Gênesis (Mt. 19.4-6). A conexão entre pecado e queda, bem como entre ideal e realidade era para ele extraída da Escritura (Mt. 19:7-9).

Até mesmo textos do V.T. de ares místicos foram encarados por ele como absolutamente simples e reveladores do modo pelo qual Deus age na história (Mt. 16.1-4). Assim, tudo que Jesus fazia tinha seu fundamento no Velho Testamento. Seu território ministerial (Mt. 4.12-17), o exercício das curas (Mt. 8.16-17), a pregação (Lc. 4.16-19), o ensino (Mt. 6-7) e a atitude de discrição e singela misericórdia (Mt. 12.15-21) estavam fundamentados no Velho Testamento. Seu sermão do Monte era, em síntese, a pregação do sonho dos profetas. De fato, o Sermão do Monte é a condensação das utopias dos profetas. Aquilo que eles não tinham conseguido chamar de História, Jesus chamou Vida.

Concluindo, nós poderíamos dizer que, literalmente, toda a Escritura tem em Jesus sua afirmação: o Pentateuco (Mt. 22.23-29), os livros históricos (Mt. 12.1-7), os poéticos (SI. 118.26;22.8), as sabedorias (Mt. 12.42) e os profetas (Mt. 26.31). O próprio fato de as genealogias de Jesus estarem incluídas nos evangelhos com todas as ambigüidades “morais” às quais elas estavam sujeitas, pois Jesus descende de gentios (Mt. 1.3,5), adúlteros (Mt. 1.3-6), prostituta (Mt. 1.6), homicidas (Mt. 1.10) e ancestrais cheios de sincretismos (Mt. 1.7-10), nos mostra que, propositalmente, Ele quer estar ligado à História do Velho Testamento (Jo. 5.39).

Isto posto, devemos agora relacionar a Palavra com o fato de Jesus ter dito que deveríamos ser santificados por ela. Ora, nesse caso nossa visão do escopo e da profundidade da santificação muda radicalmente. Ser santo é buscar ser essencialmente humano, ser parte da história porém vivendo a presença de Deus no mundo (Lc. 7.39). Ser santo tem relação com a busca de uma sociedade sem desigualdades e onde os mais fracos jamais sejam despojados (Mt. 23.14). Ser santo é viver a alegria do conhecimento de Deus com oração e fé e é sofrer as angústias da história como resultado de nossos vínculos com um padrão que o mundo não conhece (Mt. 11.25-27; 5.11-12). Ser santo é ser separado, não dos pagãos; como Israel equivocadamente tentou, mas é viver a diferença radical dos valores do Reino em meio às sociedades pagãs (Mt. 5.43-48). Ser santo é ter na paixão dos profetas a motivação existencial para o nosso enfrentamento histórico do mal (Lc. 13.33). Ser santo é, mesmo em dia de sábado, trabalhar a favor da santidade de vida (Lc. 14. 1-6). Ser santo é colocar o valor da vida acima do valor das coisas, mesmo aquelas mais "sagradas" (Mt. 23.23). Ser santo é entender que o altar diante do qual Deus nos quer ver prostrados não é apenas o altar do templo, mas também os altares ensangüentados dos corpos dos nossos irmãos de história e que estão caídos nas esquinas da vida (Lc. 10.25-37). Ser santo é viver a misericórdia no agitado ambiente secular, ao invés de viver a quietude alienada do ambiente religioso que não tem janelas para a história da dor humana (Mt. 9.9-13). Ser santo é acreditar que a santidade não se polui quando toca com amor, aquilo que é sujo (Mt. 8.1-4; Mc. 7.1-23). Ser santo é não temer ser mal interpretado pela mente daqueles que estão sujos de pretensa santidade.(Mc.7.5;Lc.7.39).


Para Jesus, ser santo é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda emocional (Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46). Ser santo é admitir que o amor pode ser exercido na perspectiva da disciplina física (Mc. 11.15-19) e que o "desabafo" é um sadio escape quando se está farto de estupidez (Lc. 11.31-32). Ser santo é continuar sendo de Deus mesmo em meio ao mais profundo e inexplicável silêncio divino (Mt. 27.46).

Desse modo, não santificamos a Deus quando falamos o seu nome enquanto furtamo-nos à verdade e praticamos todas aquelas coisas que a Palavra de Deus decreta como abominações, ainda que disfarçados pela nossa pseudo-moralidade. Também não santificamos a Deus com a nossa teologia reducionista e domesticadora da divindade, que pretende reduzi-lo a dogmas, ritos, liturgias e espaços. Também não santificamos a Deus com a nossa noção de sermos secretários da divindade, achando que sabemos tudo sobre Ele, achando que discernimos toda a Sua vontade, como se tivéssemos todas as manhãs uma entrevista marcada com Ele, na qual nos mostrasse detalhadamente todos os caminhos da vida. Blasfema contra Deus quem não pode dizer como Paulo em Romanos 11:33-36, que ninguém jamais conheceu ou penetrou na totalidade dos seus caminhos. Blasfema contra Deus quem não se abriu para o ministério de Deus. Não santificamos a Deus quando todo o nosso interesse em relação a Ele é sermos "ajudados". Ofendemos a Deus não somente pela negação do Seu poder, mas também pela súplica egocêntrica. Não se santifica a Deus quando se estabelece um lugar para ele morar, caindo nas teologias pagãs do "lugar santo". Ora, lugares só são santos quando santificados pela presença de homens santos que cultuam ao Deus Santo. Não se santifica o nome de Deus quando se viola a sua imagem e semelhança nos seres humanos que nos cercam. Não se santifica a Deus onde os pequenos são apenas suportados e os grandes são preferidos. Não se santifica a Deus nas nossas ruas cheias de meninos nus e crus, que perambulam como cães virando latas de lixo. Não se santifica a Deus quando a Igreja se toma um "bastião" do poder religioso, capaz de favorecer influências políticas mundanas e iníquas. Não se santifica a Deus quando nossa esposa não é santificada pelo nosso convívio e os nossos filhos e amigos não provam o benfazejo resultado da nossa ligação com Deus.

2. A obra redentora de Jesus conforme relacionada ao tema da santidade: "E a favor deles eu me santifico a mim mesmo..." (v.19) A segunda idéia à qual o tema do Pai Santo e da santidade está relacionada em João 17 é a obra salvífica de Jesus. Isso porque a santificação que o Pai santo pede dos Seus filhos só pode ser vivida em Cristo. É por isso que Jesus, conquanto nos desafie concretamente à vivência da santidade, nos faz provisão espiritual para que tal santificação seja uma possibilidade. Sem tal provisão espiritual a vida cristã é simplesmente impossível. Talvez essa seja justamente a nossa principal falha histórica: tentar viver por nossa própria conta e meios a santidade para a qual somos chamados. Talvez o mais terrível exemplo disso na atualidade esteja exatamente demonstrado na queda dramática e escandalosa de pregadores cujos projetos teológicos e pessoais pregam comportamentos de santidade antropocêntrica. Ora, a única diferença entre legalismo e santidade é que o primeiro é esforço humano e o segundo é obra do Espírito.

Por que estou dizendo isso? Simplesmente para mostrar o que Jesus dissera quando afirmou que a "favor dos discípulos Ele se santificava a si mesmo", era muito mais do que poesia sacerdotal. De fato, tratava-se da mais fundamental afirmação de segurança espiritual que a Palavra de Deus nos oferece. É sabido por todos nós, que Jesus Cristo é a única provisão de Deus para a salvação humana. E na minha maneira de ver, salvação e santificação andam extremamente ligadas. Para entendermos o tema da santificação, precisamos entender primeiro o tema da salvação e aquilo a que ela está ligada.

Ora, Deus está redimindo hoje o espírito humano de modo forense e judicial, por causa da obra de Jesus na cruz. No entanto, tal salvação também traz consigo o anúncio das boas novas de um processo redentivo, multidimensional, que Deus continua a realizar, atingindo variados segmentos da nossa própria vida. É isto que Paulo diz num texto que tem criado problemas na mente de muitos irmãos: "... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar segundo a sua vontade" (Fp. 2.13). O fato de a salvação precisar ser desenvolvida não significa que ela tem de ser conquistada. Nós só desenvolvemos aquilo que temos, e nós temos a salvação, definitivamente, pela fé na Graça de Cristo. Tal salvação, precisa apenas expandir-se, corporificar-se e multidimensionar-se na existência humana. É também por isso que Paulo continua apresentando alguns exemplos básicos de como fazer a salvação “crescer”: "sem murmurações nem contendas". Ora, isto tem a ver com a nossa interioridade curada e com as relações que precisam ser reconciliadas para que, na História, nos tornemos “irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, e inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta”.

A salvação judicial e forense, por meio da fé em Jesus, deve desembocar num processo de humanização, tendo Jesus como protótipo, conforme diz Romanos 8.29 "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos". A salvação que se recebe pela fé, desse momento em diante, entra na fase de desenvoltura dentro de cada pessoa para quem Jesus é o Salvador, o projeto, o protótipo, a referência e o Mestre. Isto porque o plano de Deus é que esta salvação se multidimensione em cada um de nós, de modo a caminhar na direção de tornar cada pessoa "conforme a imagem de seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos", os quais são parecidos com Ele.

Assim é que, metafisicamente, aos olhos de Deus, nós somos uma obra acabada. Sua graça nos fez totais aos Seus olhos, de modo que judicial e forensemente estamos justificados. Mas historicamente falando, porém, veja o que Paulo diz em Filipenses 3.12,13: "Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus". No versículo 16 diz ainda: “Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos”. O versículo 15 ele já havia dito: “Todos pois que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Os dois elementos (salvação-forense-judicial versus salvação-histórico-processual) estão presentes nestas citações.

Veja o que se diz acerca da salvação forense-judicial: "Nós que somos perfeitos" (v.15). Ora, tal afirmação só é possível em Cristo. Fora dele, nenhum de nós, inclusive Paulo, é imperfeito e inacabado.

Veja agora o que se diz sobre a salvação histórico-processual: “não tenho obtido a perfeição...mas prossigo para conquistar...todavia andemos de acordo com o que já alcançamos...” (v.12,13,16).

Assim é que, forense e judicialmente estamos perfeitos em Cristo.

Historicamente, porém, estamos ainda a caminho, de modo que a justificação já realizada e acabada em Cristo não deve estagnar o processo histórico de continuidade de nossa salvação. Com relação a este último aspecto, Paulo utiliza em Filipenses três palavras e expressões processuais do tipo “prossigo”, “avançando”, “andemos”, “não alcancei”, e “tenho um alvo”. São palavras e expressões que nos colocam a caminho e que não permitem que a justificação se engesse no moralista religioso ou se apóie na graça barata.

Ainda em Filipenses 3, Paulo diz que a salvação, enquanto obra a ser desenvolvida, implica num processo histórico, pois tem relação com três tempos: passado, presente e futuro. Ele diz que as “coisas que para trás ficam”, para trás ficam; que as coisas do presente ao presente pertencem (“não que eu tenha alcançado”) e que as coisas do futuro, “diante de mim estão”. Ora, isto é precisamente o que compõe a História: presente, passado e futuro. Portanto, tal salvação-santificação tem que se desenvolver aqui, na História.

Paulo também afirma que este processo histórico pode ser chamado de processo de “cristificação”. Esse processo é dinâmico. Ele diz: “...não obtive, porém prossigo...”. Todos nós podemos alcançar tudo quanto Deus colocou à nossa disposição.

Ora, aqui neste ponto nós voltamos objetivamente ao tema da santificação, e com uma pergunta. Isto porque uma vez que os conceitos básicos relacionados com a salvação estão postos, nós devemos perguntar o que isso tem a ver com a nossa santificação. Não devemos nos esquecer de que em João 17, texto de nosso estudo, o Senhor Jesus disse que Ele mesmo se santificava a nosso favor. Ou seja: há algo da vicariedade de Jesus na nossa santificação também. É bom afirmar isto, pelo simples fato de que há muito legalismo com relação à perspectiva da santificação. Na maioria das vezes, a santificação tem sido entendida como sendo o “lado humano” da salvação. Ou seja: “Cristo nos salvou e cabe a nós tornarmo-nos dignos da salvação através da santificação”. No entanto, não há santificação possível que prescinda também da graça santificadora de Deus. Com isto não estou dizendo que a santificação não implica em compromissos éticos concretos na história. Se assim fosse, eu estaria negando tudo o que escrevi a respeito da necessidade das nossas vidas confirmarem a revelação da Palavra. Como diz Willian Barclay: “o cristianismo, como também o judaísmo, é essencialmente uma religião ética. Por isso se deve dizer que o cristianismo insiste que o ser humano deva viver um certo tipo de vida e ser um certo tipo de pessoa” (William Barclay; "The Mind of ST. Paul”, pág 75).

Do mesmo modo que o Novo Testamento ensina que a salvação é fruto da graça de Deus realizada e consumada em Jesus Cristo, ele nos ensina também que a realidade da santificação se alimenta da mesma fonte de eficácia espiritual: a Graça. A santificação resulta de uma vida que antes de tudo se viu morta em Jesus Cristo para o pecado (Rm. 6.11-14). Na realidade, a questão-chave da santificação se resume na expressão “estar em Cristo”. Estar em Cristo significa TUDO na vida cristã. Literalmente, não há qualquer progresso humano possível, fora desse estar “em Cristo”. Neste sentido, há uma diferença fundamental entre estar “em Cristo” e estar “na igreja”. Obviamente acredito que estar em Cristo significa também estar na IGREJA de Cristo. A questão, no entanto, é que a Igreja de Cristo se misturou com aquilo que nós chamamos de Cristandade. Foi precisamente nesse sentido que Santo Agostinho disse “que a igreja tem muitos aos quais Deus não tem e que Deus tem muitos aos quais a igreja não tem”. Para Santo Agostinho, a “igreja” não era necessariamente a IGREJA. Podia ser apenas uma deformação institucionalizada daquilo que Jesus sonhara.Isso porque, Santo Agostinho quanto nós, acreditamos que quem de fato está em Cristo está na IGREJA, e na comunhão da fé que a verdadeira Igreja promove e para a qual nos convida. No entanto, há aqueles que estão na IGREJA e que não conseguem “entrar nas igrejas”. Esses são cristãos, mas não suportam aquilo que nós chamamos de “cristianismo”.

Descrevendo esse afastamento do cristianismo em relação à IGREJA conforme exposta no Novo Testamento, Jacques Ellul afirma em “Subversion of Christianity” o momento histórico em que essa mudança teve e tem lugar. O momento é exatamente quando sai-se da perspectiva orgânico-qualitativa de igreja para a perspectiva organizacional-institucional (por exemplo, quando a comunidade da fé vira “-ismo”). Nesse caso, é como se uma fonte de água viva fosse transformada em um canal de irrigação mais ou menos regulado e estagnado, até ao ponto em que a água da fonte original torna-se totalmente poluída na medida em que ela vai sendo “mecânica e artificialmente trabalhada” pelo sistema de distribuição.

De fato, o grande segredo da santificação, como já dissemos, é estar em Cristo e tendo sempre a coragem de verificar se estamos mesmo nEle (II Co. 13.5) Este é o princípio essencial à santificação e às demais virtudes da fé cristã. Do ponto de vista do Novo Testamento, “em Cristo” nós temos:

1. Consolação: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria...” (Fp. 2.1,2).

2. Ousadia: “Pois bem, ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém ” (Fm 8).

3. Liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, e reduzir-nos a escravidão” (Gl. 2.4).

4. Vitória contra a mentira: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência” (Rm. 9.1).

5. Promessas: “...a saber que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef. 3.6).

6. O AMÉM de Deus à vida: “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus, por nosso intermédio” (11 Co. 1.20).

7. Somos santificados: “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co. 12).

8. Somos sábios: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos e vós fortes; vós nobres e nós desprezíveis” (Co. 4.10).

9. Somos novas criaturas: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas" (II Co. 5.17).

10. Somos chamados: "Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente o que foi chamado, sendo livre. é escravo de Cristo” (I Co. 7.22).

11. Temos o mais elevado objetivo: "Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fp 3.14).

12. Apesar de tantas vezes sermos imaturos, somos salvos: "Eu. porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais; e, sim, como a carnais. como a crianças em Cristo" (I Co. 3.1).

13. Estamos estabelecidos: "Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus" (11 Co. 1.21).

14. Podemos andar em vitória: "Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele" (Cl. 2.6).

Tudo isso parece simples demais para as mentes mais sofisticadas e teológicas, as quais, por certo, até "pularam" esta série de 14 afirmações decorrentes de se "estar em Cristo". No entanto, as coisas acima mencionadas são seriíssimas. Senão veja: se elas são assim tão simples, por que há tão poucas evidências dessa santificação em nosso meio? Por que tanto pecado, imoralidade, roubo, mentira, descrença, administração iníqua dos bens da igreja por parte de líderes? Por que tanta traição, falsidade, calúnia, inveja e maldade? E mais: por que isso acontece tão intensamente dentro da igreja quanto acontece fora dela? E mais: por que os grupos cristãos mais legalistas são, tantas vezes, as mais desgraçadas vítimas desse fracasso?

Talvez tudo isso aconteça pela simples razão de que aquilo que o evangelho nos convida a ser tem íntima ligação com a Graça de Deus. E, nesse sentido, aquilo que o evangelho oferece é intolerável e inaceitável. Você julga que há alguma coisa aceitável na graça? Não! As pessoas não gostam da graça justamente porque a graça não lhes dá controle sobre a situação. A graça não depende de mim. Ela extrapola meu domínio. Não há nada de seguro no fato das pessoas condenadas à morte estarem livres dela porque um desconhecido e Estranho Soberano simplesmente as livrou disso, sem lhes dar qualquer razão justificável para tal ato. A graça é totalmente arbitrária: "Eu serei gracioso para quem Eu quiser ser gracioso e misericordioso para quem Eu quiser ser misericordioso..." Nesse caso não há nada que possamos fazer: não há sacrifícios, ritos, orações, atos de bondade, busca de sabedoria, ascetismo moral e religioso, etc. Nada pode ser feito para se ter controle sobre a graça. Não há trocas a serem feitas, e assim nos sentimos extremamente humilhados na nossa incapacidade de "justificar" a relação, pelo menos por um pouco. A graça exclui tudo aquilo que nos garante segurança. Nossos sacrifícios não são aceitos, nossos moralismos são ridicularizados, nossas liturgias são chamadas de cansativas, e nossas justiças próprias são chamadas de trapos de imundícia. Pode haver algo mais afrontoso para a natureza humana do que esse estado de absoluta impotência no qual a graça coloca a todos nós? Não! E por isso que o legalismo é o supremo ato de rebelião contra Deus. O legalismo é mais blasfemo do que o desconhecimento de Deus (Rm. 2.12-16). O sincretismo, o paganismo e a promiscuidade suscitaram menos a ira de Jesus do que o legalismo que lutava contra a graça. Todos nós ficamos possuídos por um desejo obcecante de justiça própria. Temos obcecante desejo por nos mostrar justos e retos. Nossa maior idolatria é aquela na qual nós mesmos somos os "nichos" e os “santos" do nosso culto moral. Nosso maior prêmio é sermos vistos como justos pela nossa comunidade. Ora, nesse sentido, nós, "religiosos", somos menos suscetíveis à graça de Deus do que as meretrizes e os pecadores da nossa sociedade? Eles já estão "como canas quebradas e como torcidas que fumegam" (Mt 12.20). Eles já perderam a chance de lutar pela sua justiça própria. Foi por isso que eles foram os mais receptivos à graça de Deus durante o ministério de Jesus.

Eu quero dizer que a única maneira de receber o beneficio da graça de Jesus que nos santifica é mediante a aceitação da nossa total incapacidade de justificar o que Deus fez e está fazendo em nós. Somente quando nossas armas estão completamente depostas é que o Espírito pode atuar em nós, a fim de nos fazer entrar no profundo processo da santificação. Cristo já fez tudo na Cruz. O que nos resta é exorcizar os demônios das nossas pretensões religiosas, a fim de sermos suficientemente simples para receber aquilo que só os humildes de espírito admitem: a graça de Deus.


Caio Fabio
Trecho do livro" Oração Para Viver e Morrer" escrito por Caio Fábio em 1992 e publicado em 1994. Grifos meus.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Heróis que nos maravilham

“Paulo queria apresentar-se à multidão, mas os discípulos não o permitiram. Alguns amigos de Paulo dentre as autoridades da província chegaram a mandar-lhe um recado, pedindo-lhe que não se arriscasse a ir ao teatro”. (Atos 19.30-31)

Imagine um pânico! Pense em uma multidão pronta para linchar quem quer que se opusesse à suas demandas. Paulo pregara em Éfeso e sua mensagem foi recebida por um grande número de pessoas. Chegaram ao ponto de queimar os seus objetos de idolatria e livros de ocultismo em praça pública. Calculou-se o valor do que ardeu naquele sítio em aproximadamente umas cinqüenta mil moedas de prata. Demétrio, que negociava artigos religiosos incitou a cidade contra Paulo. O prejuízo seria ainda maior se permitisse que aquele pregador continuasse por perto. Ele reuniu uma multidão de aproximadamente vinte e cinco mil pessoas que gritavam sem parar que Diana, a deusa daquela cidade, era grande. O ódio religioso incendiava os corações com mais força que a fogueira que consumira os livros.

Quando Paulo viu a multidão, não pensou em salvar a própria pele. Sua reação imediata foi querer pregar para eles. Seu coração pulsou de alegria de poder falar a tanta gente ao mesmo tempo sobre o evangelho e sobre a pessoa de Jesus. Os seus amigos e alguns efésios pediram que não fizesse aquilo, mas se poupasse.

Acredito que precisamos urgentemente de pessoas com o calibre de Paulo. Carecemos de heróis que amem mais a sua missão que a própria vida. Vivemos dias em que o oportunismo impera. Nossa geração é conformada, dominada pelo comodismo. Faltam homens e mulheres com ideais, sonhadores que não se acovardam diante dos perigos, mas os contemplam como oportunidades para cumprir a vocação que queima no peito.

Quando leio sobre a obstinação e coragem de Paulo, peço a Deus que não permita que meu espírito se identifique com os pusilânimes. Eles não herdarão o reino de Deus.


Ricardo Gondim

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Minha vocação

12 de outubro de 1977,

Geralmente uso uma pequena cruz de estanho. Não conseguia encontrá-la quando estava me vestindo hoje de manhã e, então, gritei:

_ Linda, não consigo encontrar minha cruz.

Respondeu ela, com uma ponta de ironia:

_ Tenho certeza de que você vai encontrá-la.

Achei. Ela está comigo. Mas aqui, no meu quartinho na casa de hóspedes da Abadia Getsêmani, fico cismando sobre outra cruz, aquela que devo pegar para seguir a Cristo.

Não estou nada preparado para esse silêncio. Esperava ausência de som. Estou oprimido por uma presença concreta.

O folheto de instruções que me deram diz assim: "Os retiros são feitos de modo privado.". A solidão que sinto é uma coisa nova, totalmente diferente da solião das montanhas ou dos rios. É uma terivel confrontação com o barulho da minha própria mente e alma. Quero produzir um ruído, apresentarme àquele homem no fundo do corredor. Se eu pudesse falar de Deus, não teria de enfrentá-lo. Mas aqui nesse silêncio toda conversa é conduzida por Deus.

[...] A cruz que perdi estava me esperando nas Escrituras. "Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou quem vive, mas Cristo vive em mim." Agora, sentado diante desse caderno, descobrindo os meus pensamentos à medida que os escrevo, fico cismando. Terei a coragem de pegar essa cruz?

[...] O trabaho que devo realizar aqui, escrever sobre Thomas Merton, parece-me estranhamente sem importância nesse lugar. Ontem, minha sensação é de que u vinha aqui para me encontrar com Merton, de tando que identifica a Abadia Getsêmani com a vida dele. Hoje, ele está reduzido ao meu desejado anonimato, De repente, tomo consciência de que o único trabalho que vale a pena querer é o que Deus quer. Maravilhoso paradoxo! Trabalhar para receber a graça, para tornar-se uma pessoa em quem Deus fala com Deus.

Estou aqui sentado morrendo de frio, vestindo essa camisa de flanela e um suéter de lã, enquanto as fortes vozes masculinas dos monges enchem a igreja de louvor. À medida que a luz desaparece, a Luz continua presente. Minha imaginação é estimulada de um modo totalmente natural, mas algo mais do que a imaginação está agindo em mim.

Cristo está presente.

Deus em Cristo já fez tudo. Não preciso me preocupar em caminhar com Cristo, como se pudesse fazê-lo. Preciso apenas sentar-me à uz de sua graça, ficar quieto e ouvir. Que me dirá ele? A mesma coisa que disse a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Ele revelará a si mesmo, não coisas sobre si mesmo, e eu jamais querer abandonar o meu lugar.

Os 20 minutos de joelhos durante o ofício da noite são minutos em que o Atemporal habita o tempo. A eternidade é agora. Não tenho palavras. O Inefável as tomou de mim, assim como tomou o ruído que carreguei comigo durante toda minha vida ansiosa e agitada. "Você não temerá o pavor da noite, nem a flexa que voa do dia [...] e lhe mostrarei a minha salvação."

É possível viver em Cristo, na sua paz, na sua graça. É possivel ter consciência de que nele vivemos, nos movemos e existimos. E que nele, por meio de sua humanidade aperfeiçoada que se prolonga na sua igreja, estamos incluídos na vida da trindade.

Meu tempo aqui foi tempo de redenção. Meu conhecimento deste lugar tornou-se mais profundo, assim como o conhecimento de mim mesmo. Sinto-me atraído por imagens, tentando a ver através delas o Cristo que é o Criador de todas as imagens. Minha vocação é para o casamento, para viver na plenitude a metáfora da encarnação na realidade das minhas tarefaz diárias. Minha vocação é viver entre amigos, ensinar e ver nos meus alunos o Cristo que redime a todos. Não tenho vocação para o silêncio, mas sim para os silêncios entre as palavras que fazem os ritmos da poesia. Minha vocação é seguir a via da Afirmação.


John Leax
Trecho do diário do John Leax escrito durante sua estádia na Abadia Getesêmani publicado no livro "Muito Mais Que Palavras"

domingo, 30 de novembro de 2008

Aos olhos de Deus

Fomos para a cidade de carro com senador Dawson, um vizinho do mosteiro, e o tempo todo eu me perguntava como reageria ao encontrar-me outra vez cara a cara com o perverso mundo. Aconteceu o encontro, e eu achei que no fim das contas o mundo não era tão percerso. Talvez as coisas de que me ressentira ao deixar o mundo fossem defeitos meus projetados sobre ele. Agora, ao contrário, achava que tudo despertava em mim uma sensação e compaixão profunda e muda. Talvez algumas das pessoas que vimos andando pelas ruas fossem duras e rudes [...] mas eu não parava para observá-las porque parecia que tinha perdido a capacidade de enxegar o mero detalhe exterior. Em vez disso, tinha decosberto um profundo senso de respeito , amor e piedade pelas almas que esses detalhes nunca revelam plenamente. Fui passando pele cidade percebendo que primeira vez na vida como são boas todas as pessoas do mundo e quanto valor elas têm aos olhos de Deus.


Thomas Merton
Citação do livro "O Sinal de Jonas"

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Bono Vox e a Graça de Deus

Entrevista com Bono Vox (vocalista do U2) falando sobre um pouco de sua história e sobre Graça; no minímo muito interessante, sei que muitos não vão gostar desse video aqui, mas ainda assim espero que edifique alguns e que levem outros à pensarem.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Um pouco mais de Merton

"Havia essa sombra, esse dublê, esse escritor que entrou comigo no clausto.
Ele ainda está nos meus calcanhares. Vem atrás de mim, às vezes como o velho dor mar. Não consigo perde-ló. Ele ainda usa o nome de Thomas Merton. Será um nome de um inimigo?
Thomas Merton deveria estar morto.
Mas ele fica à espera e se encontra comigo na entrada de todas a minhas orações e me segue igreja adentro. Ajoelha-se comigo atrás da coluna, esse Judas, e o tempo todo fica soprando ao meu ouvido [...].
E o pior de tudo é que os meu superiores estão ao lado dele. Não o expulsam. Não consigo livrar-me dele.
Talvez no fim ele acabe me matando, bebendo o meu sangue.
Ninguém parece dar-se conta de que um de nós de morrer."

"Uma crise pessoal ocorre quando alguém toma conciência de opostos aparentemente irreconciliáveis dentro de si mesmo [...]. Uma crise pessoal é criativa e salutar caso se saiba aceitar o conflito e restaurar a unidade num nível mais alto, incorporando os elementos opostos numa unidade superior."


Thomas Merton
Citação do Livro "A Montanha dos Sete Patamares" e "Conjecturas de um Espectador Culpado" respectivamente

Thomas Merton e Entrega

Nada que nós consideremos ser um mal pode ser oferecido a Deus em sacrifício. Nós lhe damos o melhor do que temos a fim de declarar que Ele é infinitamente melhor. Damos-lhe tudo aquilo que apreciamos a fim de assegurar-les que ele é para nós mais que o nosso 'tudo'.


Thomas Merton
Citação do livro "Homem Algum é uma Ilha".

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Uma Parábola Da Igreja

Segue baixo uma mensagem do Ariovaldo Ramos sobre igreja, e como ele disse agradeço a Deus por podem ter amigos assim como os citados na mensagem, e sinceramente espero que possa ser amigo dessa forma também.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

A brevidade da vida

Porque a vida é breve, acordarei cedo nas segundas-feiras, olharei na direção do sábado e tremerei feito menino na cadeira do dentista. Não, não me conformo com a ladeira que transforma o tempo em cachoeira que despenca; meu relógio pegou velocidade, não tem mais quem o freie. Meus dias desaparecem em nacos semanais; minhas semanas se diluem em meses; meus meses se esfarelam em anos; meus anos se acabam nas décadas. Quando cerrar os olhos, finalmente, só espero que os meus inimigos se comportem e, discretos, digam um simples “foi-se, então?”. Pedirei que os meus filhos estejam do meu lado no instante em que precisar subir a escada de Jacó, cujo topo toca o céu.

Porque a vida é breve, cobiçarei novamente a deliciosa professora de matemática da minha adolescência. Em vão ela tentou ensinar-me as equações do terceiro grau; meus olhos apaixonados só se concentravam na geometria do seu corpo. Vou tentar rememorar aqueles tempos em que não conhecia moralismo, nem os tabus religiosos que assassinaram as minhas paixões.

Porque a vida é breve, recuperarei o tempo em que negligenciei a leitura. Aprenderei a distinguir entre os bons e os maus escritores. De Machado de Assis, lembrar-me-ei que a hipocrisia social é avassaladora e só conseguimos ser honestos sobre a vida, com os ardis humanos, se escrevermos “memórias póstumas”; de Graciliano Ramos, lembrar-me-ei que o sofrimento do pobre diminui as pessoas em menos que uma cadela chamada Baleia; de Fernando Pessoa, lembrar-me-ei que a angústia existencial precisa ser enfrentada, mesmo que produza o desespero mais intenso.

Porque a vida é breve, desejarei correr ao lado da minha mulher, do Villy, meu genro, e dos meus amigos Ed René e Márcio. Quero chegar melado de suor muitas vezes, tomar água-de-coco, alongar os músculos doloridos e conversar sobre tudo. Desejo sentir-me campeão de maratonas, São Silvestres e de todas as corridas de rua; quando pendurar uma medalha de participação no peito, deixar que um santo orgulho enrubesça o meu rosto enrugado.

Porque a vida é breve, sonharei com os meus parentes que já morreram para amá-los, mesmo tardiamente. Guardarei a carteira de atleta do Corinthians que papai me deu como um sacramento; o poema triste que mamãe imprimiu do tamanho de um pôster continuará na parede do meu escritório e o seu sorriso melancólico há de me acompanhar até o dia em que eu também tiver que partir.

Porque a vida é breve, beberei pouco para apreciar o paladar do vinho, que tanto agradou a Jesus. Esperarei o instante em que a lua tinge o dia de prata, com seu lusco-fusco, para acalmar o furor do sol. Quero ser sempre amigo da noite para curtir o silêncio, cheirar o meu travesseiro e poder sussurrar, “sou rei deste espaço inviolável, meu quarto”.

Porque a vida é breve, buscarei ser inteiro em tudo: fiel para com o amigo, bom para com o desconhecido, terno nos tropeços alheios, indignado com a injustiça e, para sempre, reverente com os pacificadores, pois só eles são chamados filhos de Deus.

Porque a vida é breve, trarei na aljava a delicadeza das rosas, o baile dos colibris, a folia dos golfinhos, a calma do jabuti, a imponência dos carvalhos, o renascer das marés, para dizer, diante da crueldade da história, "sou feliz".


Ricardo Gondim

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O novo paradigma da missão

Sempre desconfiei do senso comum. Considero necessária e até mesmo imprescindível a coragem de questionar tudo, inclusive os alicerces da alma e da existência humanas. Para quem porventura se preocupa comigo, advirto estar em boa companhia – também estou alinhado com o apóstolo Paulo, que disse que “contra a verdade nada pode, senão a verdade”.

Até o conceito de missão da Igreja associado à grande comissão pode ser questionado. Discordo dos que afirmam que essa missão é de fazer discípulos. Primeiro, porque a declaração de Jesus registrada em Mateus 28.18-20 nos permite apenas deduzir a missão da Igreja, e segundo, por considerar reducionista a equivalência da tarefa de fazer discípulos com a missão da Igreja.

As referências bíblicas utilizadas para deduzir a missão da Igreja são diversas, sendo as mais utilizadas as dos evangelistas. É fácil perceber que cada um de seus textos possibilita um resultado diferente para o enunciado definidor do que seria aquela missão. O registro de Mateus 28.18-20 possibilita a fórmula “fazer discípulos”, implicando necessariamente o ensino detalhado de todas as ordens de Jesus. Marcos indica a proclamação do Evangelho como tarefa essencial, assim como Lucas (24.46-48), que também sublinha a proclamação, mas com conteúdo menos abrangente, restrito à convocação ao arrependimento para perdão dos pecados. Já o evangelho de João abre um leque extraordinário quando afirma que a missão da Igreja deve ser derivada da missão de Jesus – “assim como”, o que remete a declarações do tipo: “Porque o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10.45); ou ainda: “Veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19.10), de onde poderíamos deduzir que a missão da Igreja se sustentaria em três ações concomitantes: buscar, servir e salvar. Por fim, em Atos 1.8, o evangelista Lucas aponta na direção do testemunho a respeito da pessoa e obra de Jesus como aspecto essencial da missão.

Uma leitura mais ampla da Bíblia Sagrada, disposta inclusive a buscar as referências do Antigo Testamento como elementos constitutivos da missão do Messias transferida para sua Igreja, nos levaria necessariamente a concluir duas coisas: a primeira é que existem outras tantas narrativas negligenciadas pelo senso comum dos que querem definir a missão; e a segunda é que, incluídas e consideradas estas outras peças do quebra-cabeças, o resultado final será não apenas diferente, como também – e principalmente – muito mais abrangente do que a mera declaração “fazer discípulos”.

Na narrativa de Mateus sobre o Sermão do Monte, Jesus identifica seus discípulos como sal da terra e luz do mundo. Ali, o Senhor amplia o horizonte de compreensão da missão, incluindo a necessária transformação – ou, no mínimo, uma afetação da realidade conjuntural – da terra e do mundo, mediante a presença de seus discípulos. Já Lucas 4.17-21 identifica na ação e presença messiânicas a liberdade dos cativos e oprimidos, conforme Isaías profetizou –.o que inclui, para muitos, as dimensões sociais, econômicas e políticas

Ainda que exista certa divergência nos limites implicados, está claro que a presença e atuação de Jesus e de sua Igreja no mundo extrapolam a relação pessoal do indivíduo com Deus. É reducionista a definição da missão da Igreja que se esgota no esforço de chamar pessoas ao arrependimento para remissão dos pecados. Nesta interpretação, “fazer discípulos” seria apenas ensinar aos que crerem todas as coisas que Jesus mandou. Da mesma forma, parece equivocado dissociar a missão da Igreja da atuação dos cristãos na sociedade. Tal raciocínio mantém a dicotomia entre evangelização e responsabilidade social, dando primazia ao testemunho verbal do conteúdo do kerigma sobre os atos de justiça. Nessa perspectiva, a Igreja é vista como uma comunidade diaconal, mas o serviço cristão se presta a autenticar a pregação do Evangelho.

As expressões “fazer discípulos” e “missão da Igreja” apontam realidades distintas e não podem ser consideradas sinônimas. Estamos, portanto, diante de pelo menos dois paradigmas; um que resume a missão da Igreja na conquista de novos seguidores de Cristo, e outro que a considera em termos mais abrangentes. No primeiro – o da grande comissão – a salvação se resume à conversão pessoal e individual. Salvo é todo aquele que crê na mensagem do Evangelho, se arrepende para a remissão de seus pecados e passa a viver integrado na comunidade cristã, sob os imperativos éticos da Palavra de Deus e o compromisso de propagar e difundir a mensagem de salvação.

Já o outro paradigma, o da missio Dei, descarta a idéia de missão restrita ao discipulado individual e supera o reducionismo da salvação como livramento dos indivíduos das penas eternas. A Igreja não é para o mundo, nem mesmo espaço de fuga do mundo, mas o próprio movimento de Deus para dentro dele, e nesse sentido, da Igreja com o mundo. A missio Dei se relaciona com a missão da Igreja fazendo desta última a comunidade solidária com o Cristo encarnado e crucificado, bem como ressurreto e exaltado. Em Missão transformadora (Editora Sinodal), David Bosch conclui que o propósito da missão da Igreja não pode ser simplesmente a implantação de igrejas e a salvação de almas. “Pelo contrario, deverá ser representar a Deus diante do mundo (...) Em sua missão, a Igreja é testemunha da plenitude da promessa do Reino de Deus e é partícipe da batalha contínua entre esse reinado e os poderes das trevas e do mal”.


Ed Rene Kivitz

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Um Lamento

Esse mensagem do Ed Rene vêm de encontro ao pensamento evangélico comteporâneo sobre tragédias que ocorrem durante a vida e mais uma vez mostra Deus como nosso refúgio, lugar de confiança e segurança. Que Deus os abençoe e confronte ao ouvir essa mensagem.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

domingo, 26 de outubro de 2008

Graça Barata

Teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer popularizou nos meios teológicos a expressão “graça barata” por meio de seu livro Discipulado (Nachfolge) escrito em 1937. Logo nas primeiras páginas, ele faz um alerta contra a graça barata dizendo:

A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja… (…) Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. (…) A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. (…)

Bonhoeffer contrasta a graça barata com a graça preciosa, pela qual, segundo ele, devemos lutar:

A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem; a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue. A graça preciosa é o Evangelho que há que se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-lo sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho - fostes comprados por preço - e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus.

Desde a primeira leitura de Discipulado em 1986, Bonhoeffer se tornou meu teólogo favorito. Como ele, creio que existe a possibilidade de tornar algo tão precioso e belo como a graça de Deus em um conceito vazio, destituído de qualquer poder transformador, uma graça que justifica o pecado, e não o pecador.


Autor Desconhecido

Um pouco mais sobre Bonhoeffer

Na manhã do dia 6 de abril de 1945, entre as 5 e as 6 horas, os prisioneiros [...] foram retirados de suas células e o julgamento do tribunal de guerra lhes foi comunicado. Pela porta entreaberta de um quarto, no acampamento, eu vi, antes que os condenados fossem despidos, o pastor Bonhoeffer de joelhos diante de seu Deus em uma intensa oração. A maneira perfeitamente submissa e certa de ser atendida com que esse homem extraordinariamente simpático orava me emocionou profundamente. No local da execução, ele orou novamente e depois subiu corajosamente os degraus do patíbulo. A sua morte ocorreu em alguns segundos. Em cinqüenta anos de prática, jamais vi um homem morrer tão completamente nas mãos de Deus.


[Testemunho do médico do campo de concentração nazista Flossenburg, citado em D. Rance. Un siècle de temóins. Paris: Fayard-Le Sarment, 2000]

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vida Breve

Essas ultimas duas semanas que se passaram, estive mais vezes no cemitério do que gostaria, e diante de tudo isso encontei-me de certa forma forçado a falar sobre a vida ou sobre a morte. Mas como também o meu aniversário está as vesperas de acontecer escolhi falar dos dois, mais principalmente da vida, por isso, segue essa mensagem do Pr Ricardo Gondim falando sobre a brevidade da vida.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Nietzsche e o Deus que dança

Nietzsche disse que só creria num Deus que soubesse dançar. No entanto, por insensibilidade ou por distração não percebeu que em Jesus Deus estava dançando e, por isso, perdeu o show e não pode apreciar a dança.

Sim, em Jesus Deus dançou e dança de forma graciosa conosco. Ninguém que com alguma percepção e sensibilidade leia o Evangelho deixará de ver Jesus em constante dança. Vejamos:

Ele começa seu ministério interrompendo a falência de uma festa e transformando água em vinho; ele é recriminado e criticado porque atende a convites para festas em casas de pessoas pouco recomendáveis e porque dança com pessoas descriminadas e consideradas indignas; sua misericórdia para com o drama humano é música aos ouvidos dos oprimidos e marginalizados; seus gestos inclusivos e subversivos são parte da mais estonteante das coreografias; e quando ele deseja expressar a alegria de Deus e de anjos pela chegada da consciência a algum coração, ele prepara o cenário de uma festa. O pai do pródigo dançava e gostava de música; os reis das parábolas de Jesus promoviam grandes festas; e o Nazareno em pessoa convidava todos para a Grande Festa.

Por isso, eu digo que Nietzsche não viu nada. Aliás, viu tanto “cristianismo” que não viu Deus dançando em Cristo. Ele mesmo não percebeu o quão pré-condicionado estava; não conseguiu enxergar que tudo era um convite para a festa na casa do Pai. As parábolas de Jesus estão cheias de convites para que se venha dançar e quando ninguém atende ao convite, ainda assim ele não cancela a festa: enche a casa de mendigos, veste-os com trajes próprios e ordena a liberdade.

Até João Batista, que não dançava do lado de fora, sabia que o que estava acontecendo era uma festa. Jesus era o noivo. A festa era dele. João se alegrava.

De fato, se eu tivesse que dizer alguma coisa ao filósofo, lhe diria: Eu é que não acredito em filósofos que não sabem dançar e nem ver quando a festa está proposta. O que custava ao filósofo era crer que Deus não tinha nada a ver com o mal humor do Cristianismo; que chatos são os cristãos e não o Cristo; faltava-lhe perceber o contraste que existia e existe entre Jesus e os religiosos. Acabou que o pensador foi incapaz de ouvir as músicas e entrar na festa.

Portanto, quem tem ouvidos para ouvir as músicas da Graça, que entre na festa. Deus está chamando você pra dançar e é por isso é que o convite tem o nome de Boas Novas.


Filipe Garcia

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.


Friedrich Nietzche
(traduzido por Leonardo Boff)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Des-Em-Si-Mesmar

Os dois videos abaixos contém duas mensagens do Pr Ricardo Agreste, da Igreja Prebisteriana Chacará Primavera em Campinas. As duas mensagens fazem parte de uma série chamada Des-Em-Si-Mesmar, inclusive não apenas essas duas mensagens são recomendáveis, mas a série toda.

Abaixo segue a primeira mensagem cujo titulo é "Um Desafio na Vocação", ela é um pouco longa mas demasiadamente recomendável (a não ser para os que ainda não querem deixar o individualismo e egosimo de lado), nós desafiando atravéz do chamado de Abraão e da história de Israel.

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A segunda mensagem por sua vez nós desafia a olharmos para a Crucificação não apenas como ato de Amor e Redentor de Cristo, mas também com um exemplo a ser tomado por todos nós. O titulo da mensagem é "Um Exemplo na Rendenção".


video

Espero que ambas mensagens abençõem mas que principamente desafie a todos nós. E caso deseje ouvir a série toda clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

sábado, 11 de outubro de 2008

Exprimentar Deus

Embora sem nome adequado, Deus arde em nosso coração e ilumina nossa vida. Então não precisamos mais crer em Deus. Simplesmente sabemos dele porque o esperimentamos.


Leonardo Boff
Citação do livro "Exprimentar Deus"

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo

Então, enquanto aguardam a chegada do dom do céu que iria ensiná-los a ser testemunhas, ocorre aos discípulos, para preencher o silêncio, decidir por si mesmos o que é ser uma.

Ressentindo-se da lacuna deixada pela traição do Iscariotes, Pedro levanta-se e propõe (citando versos vagamente contraditórios do livro de Salmos) que o grupo reunido escolha um dos discípulos para unir-se aos onze apóstolos restantes, de modo a completar "o grupo dos doze".

Não se deixe enganar pela singeleza da narração: trata-se de ocasião tremendamente momentosa, que derramará profundas fissuras Novo Testamento adentro. Pedro não está aqui apenas advogando a consistência numérica ou tentando preservar de modo inocente uma tradição iniciada por Jesus. O que acontece é mais ambicioso e mais prenhe de conseqüências.

Pedro está, por iniciativa própria, definindo o que Jesus queria dizer – e com que estava falando – quando observou, antes da ascensão: "vocês receberão o poder do Espírito Santo e serão minhas testemunhas". Selecionar é interpretar, e Pedro pede que encontrem "um homem que acompanhou os doze durante todo o tempo em que Jesus conviveu com eles, a começar do batismo de João até o dia em que ele foi recebido no alto diante deles". Embora fosse provavelmente seletiva o bastante para eliminar a maior parte dos discipulos reunidos naquele dia, essa descrição não é definição de Pedro de uma testemunha, mas de um candidato a testemunha.

Quando dois nomes são indicados, o grupo vê-se obrigado a eliminar um – visto que na interpretação de Pedro os apóstolos divinamente apontados não poderão ser mais do que doze, conforme a configuração original. O ajuntamento solicita austeramente a predileção divina e realiza um sorteio, que consagra Matias e elimina da corrida Barsabás – não que nem um nem outro voltem a ser mencionados na história.

Com isso fica claro de antemão, diante do grupo, que a condição de testemunha de Cristo é algo a que nem todos – na verdade, muito longe disso – podem almejar. Pedro estabelece tanto os requerimentos formais da posição quanto os limites da sua circunscrição – e assim, num golpe só, transforma uma idéia que Jesus deixara no ar numa muito rígida instituição.

Ficou estabelecida, nesse único gesto, a tradição que viria a ser conhecida como autoridade apostólica: a noção de que o círculo mais interno de doze discípulos (justamente por terem estado mais perto de Jesus, no sentido literal) desfrutava de uma espécie de inalienável aval divino. O parecer desse grupo de apóstolos passava a ser considerado inquestionável tanto em termos administrativos quanto teológicos. Dito sem rodeios, Jesus mal havia esfriado no túmulo e os discípulos já haviam inventado uma hierarquia (com o passar dos tempo, interpretou-se que essa autoridade ia sendo transferida para os novos discípulos que viveram mais perto deste círculo inicial de discípulos, e assim por diante até o infinito. A autoridade espiritual reduzira-se a traços de uma radioatividade original que ia se esvaindo).

Jesus dissera que os discípulos aguardassem o poder do alto, mas Pedro, do alto de sua posição, já está distribuindo poder. O que redime a história é que o Espírito de Cristo, onde quer que esteja nesse momento, tem outras idéias.


Paulo Brabo

Um pouco de humor

Bem a vida é algo maravilhoso e supreendente, mas é triste ver várias pessoas tentando a levar tão seriamente, retirando toda a graça e evitando ao máximo as boas gargalhadas que sempre fazem muito bem a nós. Então seque ai um video, de um grande "palhaço" e amigo Túlio, espero que todos aproveitem e deêm boas risadas, afinal sem humor fica a vda se torna demasiadamente efadonha.

video


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Amizades Espirituais

Earl C. Willer conta a história de Jim e Phillip, dois meninos que cresceram juntos e se tornaram melhores amigos. Atravessaram a adolescência e a juventude juntos, e depois de formados na universidade decidiram ser tornar marines, os fuzileiros navais norte-americanos. Pro uma casualidade rara, foram enviados para a Alemanha e lutaram lado a lado em uma das mais cruéis batalhas da Segunda Guerra Mundial. No meio da batalha, sob fogo cruzado, explosões e muitas perdas, receberam ordem do comandante para que recuassem. Enquanto corriam em fuga, Jim percebeu que Phillip não estavam com os que voltavam. Entrou em pânico, pois sabia que se Phillip não retornasse em um dois minutos, provavelmente nunca mais o faria. Pediu ao comandante para que o deixasse voltar para buscar o amigo, mas não obteve permissão, sob a justificativa de que seria suicídio.


Arriscando a própria vida, Jim desobedeceu à ordem e voltou ao encontro de Phillip. Com o coração quase explodindo e sem fôlego, sumiu entre a fumaça, gritando pelo nome do amigo. Poucos instantes depois, tinha o amigo ferido nos braços, e tudo quanto conseguiu foi presenciar o último suspiro de vida de Phillip.


Ao regressar para juntar-se aos outros soldados, o comandante estava aos berros. Dizia que aquele fora um ato impensado, tolo, inconseqüente e inútil. “Seu amigo estava morto, e não havia nada que você pudesse fazer.” ”O Senhor está errado”, replicou Jim. “Cheguei a tempo. Antes de morrer, suas ultimas palavras foram: ‘Eu sabia que você viria’”.


Esta história pequena e verídica, registrada por John Maxwell em seu livro “The theasure of a friend”, conduziu-me a muitas reflexões a respeito da amizade genuína e despertou em mim alguns sentimentos extraordinários. Vivemos a era da tecnologia, em que o valor de todas as coisas deriva de sua funcionalidade e eficiência. Tudo ao nosso redor vai aos poucos se tornando maquina de manipulação a serviço de nosso conforto e conveniência. Experimentamos um tipo de tecnostress, tentando equilibrar uma parafernália eletrônica que nos oprime com sues botões e suas falsas promessas de facilitação e simplificação da vida.


A maneira que nos relacionamos com os objetos é transferida para as pessoas. Organizamos a agenda como quem ajeita um painel de controle, colocando cada pessoa num lugar de fácil acesso, do outro lado de um botão de celular ou a alcance da mão, na exata distância entre o mouse e a remessa do e-mail. Pessoas que acionamos quando bem desejamos ou dela necessitamos. Pessoas que se tornam biotecnoparafernálias com a missão literal de funcionar para nos suprir e servir.


Talvez de tão acostumados a interagir com secretárias eletrônicas já não saibamos o que fazer, com que tom falar, com que dosagem de afetividade temperar a fala quando alguém de carne que osso nos atende. E assim vamos tocando os dias: maridos usando esposas, filhos usando pais, patrões usando funcionários, pastores usando seus rebanhos, empreendedores usando seus clientes, numa fila interminável de relacionamentos utilitaristas, que acontecem dinâmica de um vice-versa sem fim.


Com isso, perdemos a capacidade de estar ao lado desinteressadamente mesmo quando a única coisa que se pode fazer é estar ao lado. Manipuladores de máquinas, formos mordidos pelo vírus da onipotência que a tudo pretende fazer funcionar, e já não admitimos que há momentos na vida dos quando tudo o que podemos fazer é estar ao lado e ouvir: ”Eu sabia que você vivia”.


Larry Crabb fala sobre a comunidade como “o lugar mais seguro da Terra”, e diz que nos tornamos consertadores – não podemos suportar um problema a respeito do qual nada podemos fazer. Nossa preocupação é melhorar as coisas. Ouvimos desabafos e confissões entre lágrimas e os rotulamos como se fossem problemas a resolver. Ocupamo-nos em diagnosticar, abrimos nossas maletas de frases feitas e chavões como quem saca ferramentas, tecnobisturis para consertar tecnopessoas que recebemos não para abraçar, mas para estender sobre o balcão da pseudo-oficina psico-espiritual.


Chega de campanhas políticas, apelos institucionais, convocações para a “obra do Senhor”, atividades religiosas e frenesi expansionista. Já é hora de pagar o preço, qualquer que seja ele, diz Crabb, de fazer parte de uma comunidade espiritual, e não uma organização eclesiástica. Já é hora de nos lembrarmos que “não sois máquinas, homens é que sois”, como profetizou a pedra chamada Chaplin. Quero amigos. Amigos que voltem ao de batalha e arrisquem a vida por mim. Amigos que voltem ao campo de batalha e arrisquem a vida por mim. Amigos que me tomem nos braços, ainda que seja quase tarde. E quero viver a altura de cada um deles.



Ed Rene Kivitz

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Deus Conosco

O Salmo 23 é o testemunho de Davi a respeito de seu relacionamento com Deus. Revela a maneira como Davi percebia e experimentava Deus. Caso alguém pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele diria Deus é o meu Senhor/Pastor, é Aquele que me supre, guia, restaura, acompanha na adversidade, protege dos inimigos e me cobre de misericórdia e bondade. Uma leitura teológico-sistemática diria que Deus pode ser chamado de Provedor (águas tranquilas, pastos verdes, e refrigério para a alma), Condutor (guia pelas veredas da justiça) e Protetor (vara e cajado no vale da sombra da morte, mesa farta na presença dos inimigos, bondade e misericórdia todos os dias) dos seus filhos.

Mas devo confessar minhas incredulidades. Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Provedor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais passarei por privações financeiras, jamais ficarei desempregado, jamais endividado, jamais irei mal nos negócios, jamais ficarei mais pobre do que sou hoje, jamais precisarei da ajuda de terceiros, a resposta desta vez é um peremptório NÃO.

Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Condutor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais tomarei decisões erradas, jamais escolherei o caminho da injustiça, jamais terei meus planos frustrados e castelos desmoronados, jamais ficarei indeciso e sem saber para onde ir, desta vez a resposta é igualmente um peremptório NÃO. Igualmente, caso você me pergunte se creio em Deus como meu Protetor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais serei tocado pelas fatalidades, jamais serei alcançado pela tragédia, jamais serei ferido pela maldade, jamais serei injustiçado, jamais sofrerei perdas ou danos, mais uma vez a resposta é um definitivo NÃO.

A convicção quanto à provisão, orientação e proteção de Deus não nos isenta das possibilidades de fracassos, fatalidades, privações e ferimentos, tudo isso, ônus do direito de viver. A própria biografia de Davi me autoriza a tal afirmação. O início de sua trajetória rumo ao trono foi marcado por perseguição e ódio. Seu primeiro exército foi composto da escória da sociedade: endividados, angustiados e pessoas descartadas pela sociedade de então. Davi teve um filho que estuprou uma filha e depois foi assassinado pelo irmão. Depois disso, Davi usurpou seu poder de Rei e tomou para si a mulher de um de seus comandantes militares, que mandou matar: adultério e assassinato. O filho de seu adultério foi morto por ato disciplinar de Deus. O filho fratricida se revoltou contra sua autoridade e liderou uma rebelião no reino de Israel. Este filho rebelde foi morto pelo exército real e depois Davi teve que comparecer diante do povo para agradecer e honrar os assassinos do seu próprio filho, por quem chorou, desejando ter morrido em seu lugar. Qualquer pessoa poderia questionar que tipo de Provedor, Condutor e Protetor é esse que permite uma biografia marcada por tragédias, crimes, ódios, e pecados suficientes para determinar a infelicidade crônica de qualquer mortal.

Isso me leva a crer que as afirmações de Davi no Salmo 23 devem ser interpretadas de outra maneira, distinta daquela que nos leva a crer que Deus nos coloca dentro de uma bolha de bem-estar, conforto, e prosperidade inabaláveis. Por esta razão, creio que a expressão que sustenta o relacionamento entre Davi e Deus não apresenta Deus como Provedor, Condutor ou Protetor. Estas dimensões do relacionamento pertencem a Deus, e nas mãos de Deus está a prerrogativa de como prover, conduzir e proteger os seus. A expressão que determina a qualidade do relacionamento entre Davi e Deus é “tu estás comigo”. Caso você pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele deixaria de lado a teologia sistemática e falaria com o coração: Deus é meu grande companheiro. Ele está sempre comigo. Esteve comigo na caverna de Adulão. Esteve comigo quando Saul corria atrás de mim para me matar. Esteve comigo quando meus filhos se matavam e se odiavam. Esteve comigo quando eu não soube o que fazer para estancar o ódio dentro da minha casa. Esteve comigo quando eu andava pela escuridão usurpando, matando, mentindo. Esteve comigo quando meu filho conspirava contra mim. Esteve comigo quando eu precisei superar a minha dor para resguardar a autoridade do meu exército e preservar a unidade do exército e do povo. Deus é meu grande companheiro.

Minha leitura deste Salmo 23 me ensinou duas coisas essenciais. Primeiro, me ensinou que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que Deus pode fazer por mim, mas sim naquilo que Deus pode fazer em mim. As expectativas que tenho a respeito de Deus não estão relacionadas ao que Ele pode fazer em minhas circunstâncias, mas sim ao que Ele pode fazer em meu coração.

Afirmar “o Senhor é meu Pastor e nada me faltará” implica um caminho livre de ansiedade e repleto de satisfação. Espero que o dia da escassez nunca bata à minha porta, mas se chegar, o que mais espero é poder dizer que “aprendi a estar contente em qualquer situação, porque Deus está comigo, e posso superar qualquer circunstância ruim naquele que me fortalece”.

Afirmar que “ele me conduz às águas tranqüilas, aos pastos verdejantes e restaura a minha alma”, implica um caminho de serenidade e saúde emocional. Tenho certeza que Deus tem o seu caminho no meio da tormenta, e mesmo no deserto, me levará aos mananciais onde poderei ser restaurado no corpo e na alma. Espero jamais passar pelo que Paulo apóstolo passou, mas caso necessário, o que mais espero é também poder dizer que “combati o bom combate, terminei a carreira e guardei a fé: estou inteiro e passaria por tudo novamente”.

Afirmar que Deus prepara uma mesa na presença dos meus inimigos e unge a minha cabeça com óleo, implica um caminho onde a alegria é possível mesmo quando o que é mal está diante dos nossos olhos. Espero que o ódio do mundo e do mal não se materializem contra mim de forma tão visível e explícita, mas caso aconteça, espero muito mais ter a coragem de continuar em frente, com os olhos fitos na mesa posta pelo Bom Pastor que me prometeu vida abundante no meio dos lobos.

A segunda coisa que aprendi lendo o Salmo 23 é que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que Deus pode fazer por mim, mas no que eu posso fazer tendo um Deus como Ele. Diante dos vales de sombra da morte, não devo ficar esperando que Deus me leve para longe do vale, ou que Deus afaste do vale a sombra da morte. No dia em que tudo ficar escuro, espero me não me deixar tomar por um espírito de covardia, mas me levantar movido pelo espírito de amor, moderação, e poder, para atravessar o vale com a dignidade que somente os que afirmam “Deus está comigo” podem ter.

Que venha o futuro – ou melhor, eu vou ao futuro sentado na confortável poltrona 23.


Ed Rene Kivitz
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