segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Uma palavra sobre oração

Mais uma palavra lúcida, firme e clara para os ouvidos atuais diretamente do púlpito deste pregador notável.

Mark Driscoll discorre sobre o tema da oração e nos lembra como Jesus, ao tratar do assunto com seus discipulos, antes de ensiná-los a orar, os ensinou como NÃO orar.

Aproveite e siga no twitter o perfil @Mark_Driscoll dos editores do Pastor Mark Driscoll no Brasil. O perfil divulga material produzido pelo ministério Mars Hill Church em português.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ricardo Gondim e Fé

Ai vai mais uma mensagem do Ricardo Gondim, bom proveito a todos e bom natal.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A igreja que preciso ser

Eu ainda anseio ver uma igreja ortodoxa e piedosa. Uma igreja que tenha palavra e poder, uma igreja que tenha doutrina e vida. Eu ainda anseio ver aqueles que conhecem a verdade sendo transformados por ela a ponto de se tornarem pessoas humildes e não arrogantes.

Eu ainda anseio ver uma igreja cujas obras provem a sua fé e cuja fé honre ao seu Senhor. Eu ainda anseio ver uma igreja que pregue com fidelidade, ensine com autoridade e cante louvores a Deus com fervor. Eu anseio ver uma igreja onde Jesus tenha supremacia e as pessoas sejam verdadeiramente amadas. Eu creio que meus olhos verão ainda essa realidade.

A fé vê o invisível. Ela caminha no meio da escuridão das circunstâncias, guiada pela luz da verdade. Os olhos da fé não estão postos na improbabilidade da situação circundante, mas nas promessas fiéis daquele que não pode falhar. Mesmo que os horizontes sejam pardacentos, mesmo que as circunstâncias sejam desfavoráveis, mesmo que a oposição seja sem trégua, eu ainda anseio ver uma igreja onde a doutrina dará as mãos ao fervor, onde a ortodoxia se vestirá com a túnica da santidade, onde a reforma desembocará no reavivamento.

Estou cansado de ver o povo de Deus bandeando ora para um extremo ora para outro. Aqueles que são mais zelosos da doutrina, não raro são os mais apáticos no fervor. Aqueles que mais conhecem menos fazem. Aqueles que têm mais luz muitas vezes são os que têm menos calor. Aqueles que estadeiam sua cultura são os que menos refletem a doçura do Salvador. Ah! Eu ainda anseio ver uma igreja firmada na doutrina dos apóstolos, que ora e cante com entusiasmo. Uma igreja que tenha temor de Deus e alegria do Espírito. Uma igreja que tenha profunda comunhão interna e grande simpatia dos de fora.

Vejo com tristeza aqueles que tolamente abandonam a doutrina para buscar experiências arrebatadoras. Onde falta a semente da Palavra, não se vê o fruto da verdadeira piedade. Não é a experiência que conduz à verdade, mas esta deságua naquela. A vida decorre da doutrina e não esta daquela. Precisamos de uma igreja que seja ortodoxa sem deixar de ser ortoprática. Os que se desviaram da Palavra em busca de experiências, precisam de uma nova reforma e os que se desviaram da piedade e ainda conservam sua ortodoxia precisam de reavivamento. Eu ainda anseio ver uma igreja doutrinariamente fiel, mas que seja ao mesmo tempo amável e acolhedora aos que se aproximam. Uma igreja que ensine doutrina com zelo, mas que adore a Deus com fervor. Uma igreja que prega a verdade, mas vive em amor. Uma igreja onde a proclamação não está na contramão da comunhão.

Eu ainda anseio ver uma igreja que seja fonte para os sedentos, oásis para os cansados, refúgio para os aflitos, lugar de vida para os que cambaleiam na região da sombra da morte. Eu anseio ver uma igreja que viva para a glória de Deus, que honre o seu Salvador, que seja cheia do Espírito Santo, que adore a Deus com entusiasmo, que pregue sua Palavra com fidelidade e acolha as pessoas com efusiva alegria e redobrado amor. Que o meu e o seu anseio se tornem motivo das nossas orações até que vejamos cair sobre nós essa bendita chuva da restauração espiritual.


Hernandes Dias Lopes

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Em nome da justiça

Mais uma boa musica cristã, dessa vez segue uma do João.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Resumindo

No curso de seu ministério Jesus disse mais vezes “vá para casa” do que “venha me seguir”. A igreja deve ser capaz de adquirir essa maturidade.


Paulo Brabo

O tapaceiro de Stenio Marcius

Segue mais uma do Stênio.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quando a Igreja não é "Igreja"

Igreja tem que ser coisa de gente de Deus, de gente livre, de gente sem medo, de gente que anda e vive, que deixa viver, que crê sempre no amor de Deus; e sobretudo, é algo para gente que confia, que entrega, que não deseja controlar nada; e que sabe que não sabe, mas que sabe que Deus sabe...

Somente gente com esse espírito pode ser parte sadia de uma igreja local, por exemplo. Entretanto, para que as pessoas sejam assim seus pastores precisam ser assim.

Se o pastor é assim, tudo ficará assim. Ou, então, o tal pastor não emprestará a sua vida para o que não seja vida, e assim, bem-aventuradamente deixará tal lugar de prisão disfarçada de amor fraterno.

Em igreja há problemas...
É claro... Afinal, tem gente!

Mas nenhum problema humano tem que ser um escândalo para a verdadeira igreja de gente boa de Deus.Numa igreja de Deus ninguém tem que ser humilhado..., adúlteros não tem que ser “apresentados” ao público..., ladrões são ajudados a não mais roubarem...,corruptos são tratados como Jesus tratou a Zaqueu..., e hipócritas são igualmente tratados como Jesus tratou aos hipócritas...; ou seja: com silencio que passa..., mas, ao mesmo tempo, não abre espaço...

Na igreja de gente boa de Deus fica quem quer e até quando deseje... E quem não estiver contente não precisa ser taxado de rebelde e nem de insubordinado... Ele é livre para discordar e sair... Sair em paz. Sem maldições e sem ameaças; aliás, pode sair sem assunto mesmo...

Na verdadeira igreja não há auditores, há amigos.

Nela também toda angustia humana é tratada em sigilo e paz.

Igreja é um problema?...

Sinceramente não acho...

Pelo menos quando a igreja é assim, de gente, para gente, liderada por gente, com o propósito de fazer de toda gente um humano maduro — então, creia: não há problemas nunca, pois, os problemas em tal caso nada mais são do que situações normais da vida, como gripe, febre ou qualquer outra coisa, que só não dá em poste de ferro...

Tudo o que aqui digo decorre de minha experiência...
Não é teoria... Pode ser assim em todo lugar...

Mas depende de quem seja o pastor...
E mais: se o povo já estiver viciado demais nem sempre tem jeito...

Entretanto, se alguém decide começar algo do zero, então, saiba: caso você seja gente boa de Deus, e que trate todos como gostaria de ser tratado..., não haverá nada que não seja normal, pois, até as maiores anormalidades são normais quando a mente do Evangelho em nós descomplicou a vida.

Pense nisso!...

Nele,


Caio
Para conferir mais textos donde esse saiu, clique aqui.

O outro deus e outro universo

Imagine que, em vez de um, existissem dois deuses iguais em poder e majestade. Claro que isso só pode acontecer através de um conto. Então, prepare sua imaginação.

Dois deuses existiam. Contudo, eles não se encontravam, porque cada um tinha um reino, um universo próprio e governava segundo sua vontade soberana.

O primeiro amava a todos igualmente. Era santo, justo e verdadeiro. Por amar a todos, não fazia acepção de ninguém nem sonegava de um para dar ao outro. Desejava que todos aprendessem a amar e a compartilhar o que tinham. Ensinava o caminho da justiça por seu próprio exemplo. Sua proposta de vida para o mundo não era o sucesso, mas o significado; não a vitória, mas a igualdade.

O outro deus gostava de todos os que habitavam em seu universo, mas tinha compromisso apenas com aqueles que lhe eram devotos. A estes, oferecia uma vida de facilidades e lhes garantia livramento dos perigos próprios do existir. Assegurava que os devotos fossem recompensados por sua fidelidade.

Todavia, para garantir vida isenta aos devotos, esse outro deus tornou-se um ditador. Ora, isso é óbvio, uma vez que para existir proteção no meio de um perigo, faz-se necessária a coerção do agressor, isto é, a obstrução de seu livre arbítrio. Para que existam ganhadores, também devem existir perdedores. Um mundo constituído só de ganhadores é pura ficção.

Voltando para nossa estória, a questão é que, para garantir a promoção do devoto no emprego, aquele deus precisava barrar o progresso da carreira profissional do não devoto, mesmo que mais competente, de modo a impedir que ocupasse o cargo que, por justiça, deveria ser seu.

Com o passar do tempo, aquele deus tornou-se mestre em derrotar os inimigos daqueles que o amavam e continuava a lhes dar vitória. Mas seus devotos, insatisfeitos, pediam não apenas melhores empregos, mas também prosperidade. Assim, teve de empobrecer alguns para enriquecer os seus, garantindo-lhes uma vida como filhos do Rei. Sim, uns tinham que ser empobrecidos, porque é impossível mexer na história e na economia sem mexer no contexto e com as pessoas que deste fazem parte, uma vez que os recursos daquele universo eram os mesmos para todos. Inicialmente, todos tinham acesso aos bens da natureza, mas o excesso de recursos dados e esbanjados por uns foi proporcional à falta de recursos sentida por outros. Esse princípio era dos mais elementares na economia daquele mundo.

E assim, aquele outro deus tornou-se capitalista, garantindo a riqueza dos seus por meio do empobrecimento dos demais. Colocou os seus em uma redoma de vidro, enquanto o resto de seu mundo desabava em guerras, doenças e misérias.

O tempo passou e passou e passou. O universo do primeiro deus tornou-se justo como ele, feliz e amoroso como ele, um mundo à sua imagem e semelhança. Já o universo do outro deus tornou-se o retrato da injustiça social, da inveja, da cobiça, disputa e da miséria.

Em qual desses dois deuses você confiaria? Em qual desses dois mundos você preferiria viver?

Antes de encerrar, preciso dizer a verdade. Estes dois deuses, de fato, existem no conceito das pessoas. Só que um deles é falso. O primeiro chama-se Jesus. Puro e cheio de amor, veio viver nossa tragédia, para, através da compaixão, libertar nossas vidas e tornar o mundo justo. O outro deus recebe o nome que você quiser dar. Muitos até o chamam de Jesus – mas só como apelido. Todavia, ele não é o fruto do bendito ventre anunciado pelo anjo, mas o produto do ventre de nossa cobiça e do marketing ganancioso das religiões.

A pergunta permanece no ar. Qual dos dois você está servindo?


Domingos Rodrigues Alves
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A faculdade de despojar-se

O Filho do Homem, que propunha incessantemente que não havia nada de errado em acumular riquezas, a não ser uma imaculada insensatez, gostava de pontuar que havia uma única e inequívoca vantagem em possuir: a capacidade de despojar-se. Em suas histórias todos despojam-se, e de todas as coisas: o rico comprador de pérolas, o pai do rapaz que pede a herança, o samaritano na beira da estrada, o cidadão de quem exigem a túnica, a viúva pobre diante de sua única moeda, o príncipe diante da soma imperdoável, o dono da fazenda e seu filho diante de seus agricultores.

Foi essa, obviamente, a faculdade que Jesus quis apontar ao jovem rico que cumpria desde a sua infância todos os mandamentos.

Venda tudo que você possui e dê aos pobres.

A subversão que ele propunha era de fato assombrosa. Jesus estava na verdade dizendo, abrace sua posição privilegiada e a oportunidade que apenas você tem: despoje-se. Ouse, transgrida; deleite-se e refestele-se na arrebatadora liberdade de despir-se, ainda no caminho, do que o limita e constrange o seu avanço.

Não foi, obviamente, a fé na suficiência da riqueza que impediu o jovem rico de dar o temível passo que o faria avançar; ninguém de fato acredita na suficiência da riqueza, especialmente e em primeiro lugar os ricos. O que o impediu de avançar foi sua fé, sua exorbitante fé, na suficiência dos mandamentos.

Cumprir a justiça é sempre confortável e limitante demais, pelo que o rabi de Nazaré insiste que a justiça deve ser constantemente ultrapassada (ai de vocês se a sua integridade não exceder a dos mais devotos carolas). E o que pode ultrapassar a justiça é apenas o amor, que não tem critérios (dê aos pobres) e não admite exceções (venda tudo que você tem).

Para o jovem rico, dar ouvidos a Jesus teria representado pisar descalço e sozinho e nu o terrível terreno da liberdade e da responsabilidade – o imoderado domínio que se chama reino de Deus, – mas para adentrá-lo teria sido necessário despojar-se dos mandamentos.

E isso ele não ousou fazer, porque os tinha cumprido desde a infância. Leia +


Paulo Brabo

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Mais um pouco do Gondim

Dessa vez segue a mensagem "E o Verbo se fez carne"...



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Eu vim para que tenham vida

Segue mensagem do Pr Ricardo Gondim, bom proveito.



A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Deus imerso no humano

Quem é Deus? Por que existe algo ao invés de nada? Estupefatos, contemplamos o céu estrelado, a fúria das marés e inquirimos: Por que a beleza? Diante da mente humana, buscamos entender como nasceu amor e ódio, criatividade e maldade. Onde está Deus? Podemos entender a transcendência absoluta?

A cultura semítica, de onde Jesus formulou os seus conceitos, não especulava, mas se contentava em relacionar-se com Deus como Pai. Judeu nômade, profeta ou sacerdote, não esboçava cartilha para entender a Divindade. Javé não era objeto de estudo, não participava de uma elaboração lógica, dedutiva, que procurava captar mentalmente o ser divino. Na tradição judaica, Deus era crido na dimensão existencial e poética. Eles se contentavam em narrar os atos de Deus na história, na imanência. Não havia preocupação de encaixá-lo em uma racionalidade analógica e dedutiva.

Quando o cristianismo primitivo precisou dialogar com o mundo greco-romano, os Pais da Igreja, geração que sucedeu os apóstolos, mostraram-se cuidadosos em demonstrar que a fé cristã era mais que uma seita judaica. Eles lutavam para que o cristianismo sobrevivesse em um mundo que debatia ideias. A fé, confrontada com o pensamento platônico, não deixaria nada a desejar.

Vários pressupostos filosóficos sobre a Divindade foram então absorvidos pelo cristianismo. Assim como cristianismo influenciou de forma decisiva o Ocidente, o Ocidente também o transformou. A teologia que se consolidou passou a repetir o conceito aristotélico de que a divindade é um “Motor imóvel”. Já que perfeição significava imobilidade na filosofia, Deus era concebido como tão absolutamente perfeito, que nunca poderia experimentar qualquer mudança. Caso mudasse, deixava de ser Deus. Qualquer alteração, para pior ou para melhor, significava não ter, anteriormente, a perfeição absoluta. E um Deus que não fosse perfeito não era Deus.

Quando o cristianismo se espalhou, inúmeros deuses povoavam o mundo antigo - o Panteão estava lotado deles. Ninguém franzia a testa se escutasse sobre a Encarnação. Não espantava acreditar que Deus encarnou e foi visto caminhando pelas estradas poeirentas da Palestina. A dificuldade, a loucura, era afirmar que um contador de histórias, um carpinteiro frágil, manso e amigo de gente imperfeita, era Deus e, pior, havia morrido por mãos humanas.

Isso não era só um paradoxo, mas uma insanidade: Como? Deus morrer? A morte de Jesus, não só demolia o edifício conceitual da filosofia, como se colocava como a contradição mais escandalosa. Essa mensagem correu o mundo. O Transcendente absoluto, o Deus dos deuses, podia ser melhor compreendido olhando para Jesus de Nazaré. As conjecturas gregas não colavam nele. O Filho do Homem não tangenciava Movedor imóvel de Aristóteles.

É preciso retomar a ênfase do cristianismo primitivo. Jesus não se parece com Deus como “Ato Puro”. Em Cristo, Deus não é apático e não está preso pela camisa de força da metafísica. A Divindade se fez gente e mostrou-se comovida de “viscerais afetos” por uma viúva a caminho de enterrar o filho. Chorou diante da sepultura de um amigo (Ah, como a dor humana dói em Deus! – “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado” – Isaías 63.9). Irritou-se com a opressão religiosa. Entendeu, e acolheu, as lágrimas de uma prostituta.

Realmente Jesus não se parecia com o que fora dito sobre Deus. A pregação cristã nasceu em cultura distinta da helênica. O Reino que Jesus anunciou não encontrava paralelo na cultura, nos mitos, nas tragédias. O Deus de Jesus estava além do alcance de poderosos e sábios; mas podia ser intuído por puros de coração, crianças e marginalizados. Para detectar réstias do mundo espiritual, era preciso ouvir o inaudível, ver o imperceptível, tocar no intangível. Grãos de mostarda, ovelhas indefesas, gente inoperante, escravos inúteis, pecadores indignos, filhos pródigos, prostitutas, leprosos, cegos, mendigos, exorcistas informais, lírios e pardais, compunham o mosaico que revela Deus.

Jesus não se fantasiou, não encarnou por um breve período, mas assumiu a contingência humana com todas as consequências, inclusive a de morrer. Exageradamente humano, libertou homens e mulheres da exigência de se tornarem deuses - A plenitude da Divindade habitou em Jesus de Nazaré. Deus mostrou-se imerso no humano. Não era preciso procurá-lo na trans-história, no sobrenatural, mas na vida. “O Reino de Deus chegou!” Jesus foi a revelação mais próxima que jamais teremos de Deus, que escolheu vulnerabilizar-se em seu amor.

Outras divindades podem ser descartadas como ídolos.


Ricardo Gondim

domingo, 6 de dezembro de 2009

Creio na prece poderosa

Nossos rumos são decididos na prece. Ela nos antecede. Orienta. Gesta nossos compromissos. Pendula nossas paixões.

Mas para os que já se decepcionam com o que parece ser uma recrudescência piedosa, meu escape: não qualquer renovação, mas uma que me potencializa a vida. Eu que não sabia mais o que fazer com a oração, tenho-na de volta, melhor e poderosa. Porque acordei para o que sempre esteve diante dos olhos. Orar é atravessar conflitos de imaginação. A tensão que nos lidera.

É muita ingenuidade a nossa continuar a crer que a vida é decidida, no que pode ser decidida, no instante. Nada nele se resolve. O instante apenas encena fugidio o que a imaginação ensaia à exaustão.

Nossas impaciências, acessos raivosos, medos, prazeres, tolerâncias, resiliências, atrações, repulsas, docilidades, cada uma de nossas mais humanas reações são constituídas em nossas preces.

Mas para os que começam a se empolgar com o que parece ser minha mão à palmatória, meu lamento: não qualquer oração, não o rito em busca de ascese, mas a oração que todos fazemos sempre ao transcender o que está aí, aspirando ao que pode estar lá. Nossa espiritualidade profunda é a vida de oração, a imaginação que nos liberta momentaneamente do curso irresistível do tempo e o antecede nos sonhos. A imaginação é a oração inexorável da alma.

Talvez aqui comecemos a melhor entender o prefácio diabólico da história de Jesus. Ou a tentação do deserto. Tão importante quanto a gestação do Filho de Deus no ventre humano de Maria foi a gestação do Filho do Homem no chão desértico da imaginação. O Espírito que o entretece em Maria, o inspira para a jornada de oração no deserto. Do ventre mariano nasce o menino. Do deserto da imaginação, o homem. Das contrações do útero à luz mundana. Das tensões do deserto à lucidez humana. “E o Espírito o levou para ser tentado no deserto.”

A narrativa indica os lugares virtuais em que os fatos se deram. Jesus freqüentou lugares para além do deserto em cada uma das três tentações do Diabo. Tudo o que ali aconteceu teve na imaginação de Jesus o espaço mais decisivo. A pedra nunca virou pão, mas bem que poderia. Ninguém enxerga todos os reinos e a glória deste mundo, muito menos os possui em um instante, mas pode imaginá-los seus. Jesus nunca deixou o deserto para viajar ao templo e escalar seu pináculo, mas sentiu a vertigem do lugar mais alto da Casa do Senhor sem nela ter posto os pés. Numa sucessão de tensões de mundos imaginados, Jesus escolheu de que vida ser ator.

O destino de Jesus não foi definido no Caveira, mas em um conflito de imagens no deserto de suas orações. A cruz foi o fim de uma trajetória seguida após a bifurcação dos caminhos da imaginação.

No deserto, Jesus enfrentou nossas mais graves e diabólicas imaginações. Quero pensar o “diabólico” no sentido de Leonardo Boff. O oposto do “sim-bólico”, que agrega, ou torna um mesmo é o “dia-bólico”, que separa em dois distintos. Abro mão de discutir o elemento mitológico ou não da figura do Diabo, para apenas divagar sobre o sentido óbvio do conflito, por isso “dia-bólico” da experiência de Jesus na tentação do deserto. Ali mundos possíveis se conflitaram na alma de Jesus.

Orar é transcender o mundo como está na tensão de mundos possíveis. A guerra espiritual que antecipa a história humana.

No deserto, portanto, talvez assistamos ao conflito de dois mundos possíveis. Um mundo excepcionalmente organizado para o benefício do eleito. E o mundo originariamente desorganizado para o benefício de qualquer um. O mundo dos controles ou mundo das liberdades. O mundo da providência para poucos ou o mundo das contingências para quem quer que seja.

No mundo dos eleitos, a despeito de todos os que já padeceram de fome, o pão é excepcional, até a pedra do deserto que a todos embrutece, aos abençoados alimenta. E Jesus parece nem precisar tanto assim de pão, o que carece mesmo o Diabo advinha. Confirmar que é bom o bastante, que é Filho de Deus. Só deseja que pedra vire pão quem quer afirmar-se a todo custo. “Se tu és Filho de Deus…”

No mundo das exceções, as políticas não se dispersam para o bem de muitos, mas convergem para o bem de poucos. A força do poder está em descobrir quem eu posso ser a despeito dos demais.

No mundo das providências nem nossas leviandades tem valor. É o mundo dos irresponsáveis. Joga-se do pináculo abaixo porque a vida não é pra valer. Deve haver anjos, gênios e milagres sempre a nos blindar contra o curso impessoal dos acontecimentos.

No diabólico jogo da imaginação, Jesus recusa o pão que para alimentá-lo tem que ser pedra para muitos. Despreza os poderes que ao servirem-no também prostram sua consciência. Desmerece qualquer promessa que tape seus olhos para a tragédia de uma vida irresponsável.

Não foi por acaso que Jesus enfrentou a morte na cruz bravamente. Que foi o mais humano dos humanos. Foi porque fez a prece com a consciência ampla de seu poder. Porque entendeu que imaginação não é brincadeira. Que imaginar é um poder ser. É decidir. Salvar.


Elienai Cabral Junior

sábado, 5 de dezembro de 2009

Por que os evangélicos são tão crentes, mas tão feios?

De tudo o que venho dizendo o que mais ofende aos meus irmãos evangélicos é o que digo com poesia. Quando moleque, ainda tão marcado pelo jeitão carioca, gostava de brincar com as pessoas que não entendiam a ironia. Fazia uma brincadeira, mas os sisudos entendiam tal e qual e se apavoravam, ou se irritavam e partiam logo para uma solução séria ou uma advertência. Percebia a surdez poética e divertia-me sadicamente com as ironias até o limite da paciência. Era o que na época chamávamos de “tirar uma casquinha”, uma molecagem.

A ironia é uma das tantas variações da mesma desistência, a da capacidade de expressar sentidos com as palavras ao pé-da-letra. Mas não uma desistência azeda, o que seria um silêncio lúgubre ou um queixume ranzinza, mas uma desistência bem humorada, leve e despretensiosa. A desistência dos poetas. Daqueles que preferem abrir mão do rigor da comunicação para não terem que ficar sem o prazer da comunhão. Já que nunca consigo traduzir tudo o que sinto e penso em palavras descritivas, divirto-me com as aproximações das metáforas. Modestas, mas cheias de beleza. Tão sugestivas, insinuantes e provocativas. Às vezes, os poetas exageram de tão felizes e se satisfazem apenas com o som das palavras, não dizem quase nada, mas tocam em quase tudo. Tão viçosas e livres dos caixotes semânticos.

Vejo Jesus nos evangelhos com esse comportamento poético. Divertindo-se um pouco com a dificuldade de ser compreendido. Por alguma razão que os evangelhos não explicam, mas que o nosso breve olhar suspeita, Simão é apelidado por Jesus de pedra, Pedro. Quando ele demonstra ter alcançado o que era dito, Jesus se diverte com o trocadilho: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” Mas quando se atrapalha com os sentidos, nosso falastrão experimenta o mesmo trocadilho às avessas: “Pedro, tu és para mim pedra de tropeço.” Quase vejo Jesus com um riso indisfarçável no cantinho da boca.

E que dizer das parábolas. Nem um pouco ingênuas. Insinuantes e provocativas. Apenas assimiladas pelos que tentassem ler as entrelinhas. Em um mundo em que a religião é instrumento de exclusão, mormente étnica, onde os samaritanos são odiados por sua atrevida proximidade religiosa e cultural, Jesus conta uma história com cara de ‘sem-querer’ para exemplificar o verdadeiro amor. É a parábola que aprendemos a chamar de O Bom Samaritano. Seu exemplo de desamor são os líderes da religião dos judeus, o levita e o sacerdote. Mas ocupa a cátedra da misericórdia um réprobo samaritano. Em outra, a que chamamos de O Fariseu e o Publicano, para mostrar o valor da oração, Jesus expõe ao ridículo a arrogância legalista dos fariseus e exalta os deploráveis publicanos, tão convictos de sua miséria quanto agraciados por Deus. Jesus fala uma linguagem apimentada.

Todos os escandalizados com o meu livro Salvos da Perfeição, sem exceção, tiveram dificuldades com a linguagem poética. Para eles mito é mentira. Ironia é profanação. Insinuação é atitude suspeita. Metáforas são antropomorfismos. Narrativa é linguagem escorregadia. Estética é leviandade. Poesia é heresia. E teologia é ler a Bíblia ao pé-da-letra. Assusto-me como eles reagem com zanga e agressividade. Lêem-me como investigadores policialescos. Seus esforços se parecem com uma tentativa de amordaçamento intelectual. Mas o que me assusta é que justamente na poesia é que se transformam em meus oponentes. Onde deveria haver deleite e deslumbramento, experiências com o belo, há apenas escrúpulo e estranhamento, experiências com o feio. Penso que não sabem lidar com a beleza e a descontração.

Pergunto-me por que nossos cultos não tem os cheiros nem os paladares tão criativamente espalhados por Deus para aventura de viver. Por que nossos templos são descoloridos e preferimos os cartazes de propaganda e as frases de admoestação aos quadros e esculturas dos artistas? Por que nossas músicas são, com freqüência, tão piegas e repletas de frases repetitivas e sem criatividade? Por que nossos sermões são mais bem considerados na medida de seus moralismos e advertências austeras? E nossas liturgias são tão previsíveis? Nossa indumentária, austera? Sugerem uma gente com medo das sensações, desconfiada de tudo o que não termine em conclusões de ordenança moral e afirmações peremptórias. Por que nossas festas são reduzidas à comilança? Sem dança e descontração, sentamo-nos ao redor de mesas para nos ocuparmos do único prazer que nos resta, comer.

Há muitas explicações possíveis. Em algum momento e por alguma razão que não me cabe agora, acatamos a idéia castradora de que nossos prazeres são desprazeres para Deus. Nosso mundo, concluímos, um lugar perigoso e disposto para nos prejudicar e condenar ao inferno eterno. Nele, temos que nos portar com a mesma tensão dos guardas noturnos em ruas perigosas. Descontrair é abrir brechas para entrada destrutiva de imaginários inimigos. O rigor paranóico enfeia nossos crentes.

Mas desconfio de uma razão anterior. Nossa leitura da Bíblia. Ela é bem mais que a leitura de um texto sagrado, ou um manual religioso. É um modo de ler a vida. Reduzimos o mundo ao que está escrito na Bíblia. Nada existe distintamente do que está previsto na revelação do texto sagrado. Daí o esforço hercúleo de fazer caber a nossa vida nas páginas canonizadas. Algo semelhante ao que faziam os chineses com os pés de suas mulheres. Uma antiga tradição chinesa dizia que as mulheres na China deviam ter pés pequenos, e para isso quando as mulheres eram crianças os seus dedos dos pés eram quebrados, pois assim as mulheres sem os pés cobertos não podiam percorrer grandes distâncias, não podendo fugir de casa. O reducionismo biblista dos evangélicos pratica culturalmente a mesma violência.

No entanto, ainda mais decisivo na leitura evangélica da Bíblia não é a pretensão de encaixar nela nossas vidas, mas de tratá-la com o mesmo rigor cientificista dos tratados acadêmicos. Desejando para os argumentos da nossa fé a mesma reverência dada às ciências naturais, tratamos de conferir a tudo o que dizemos a correspondência rigorosa e fiel com uma pretensa verdade. Sendo assim fomos treinados a ler tudo literalmente. Ficamos sem a ginga poética. Um crente fundamentalista lendo a poesia tão presente na Bíblia é como um lutador de Sumô tentando jogar capoeira.

Dar ao texto bíblico este estatuto de supertexto inibe qualquer relação mais espontânea e descontraída. Como devem ser a oração e a meditação. Uma Bíblia assim é uma castração existencial para os devotos. Mas nem creio que Deus compartilhe esta crença nem entendo que a Bíblia deva ser lida assim.

A Bíblia dos exegetas e seus métodos com pretensão científica é um corpo morto e inerte e sua exegese, uma exumação. A Bíblia dos que a lêem literalmente é semelhante à comida sem cheiro e cor e sua leitura é uma desleitura.

Prefiro ler a Bíblia como foi sugerido a João fazer com a revelação trazida pelo anjo. Parar de escrever e comer. A revelação nunca se dá plenamente na escrita. Ela precisa ser incorporada. Necessita transformar-se em algo mais que as palavras imediatas, ao pé-da-letra. Deve tornar-se a vida do João. Como o pão vira corpo vivo. Mas a descoberta atordoante de João nem foi o gigantesco anjo, nem os conteúdos da revelação, mas seu gosto agridoce. Doce na boca e amargo no estômago. Sua experiência mais apocalíptica foi a sápida. A revelação é cheia de sabor.

Esta Bíblia é a libertação da metáfora e da beleza. Para pessoas que além de crentes querem ser felizes e bonitas.


Elienai Cabral Junior

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Uma ousada e intransigente demanda

A doutrina do Reino do céu, em que consistia o principal ensino de Jesus, foi certamente uma das mais revolucionárias doutrinas a já terem desafiado e alterado o pensamento humano. Não é de se admirar que o mundo tenha deixado de captar o seu significado completo, e recuado em horror diante até mesmo da apreensão parcial dos seus tremendos desafios aos hábitos e instituições estabelecidos da humanidade. Pois a doutrina do Reino do céu, como Jesus parece tê-la pregado, era nada mais nada menos do que uma ousada e intransigente demanda por uma completa mudança e purificação de nossa arquejante raça: uma purificação total, interior e exterior. Leia +


H. G. Wells em Breve História do Mundo (1922)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sem barganhas

Os judeus estavam persuadidos de que Deus, o único Deus do mundo inteiro, era um Deus justo – mas achavam também que fosse um Deus negociador, que fizera acerca deles uma barganha com seu patriarca Abraão (uma barganha na verdade muito favorável para eles), de alçá-los por fim à supremacia sobre a terra. Com horror e ódio eles ouviram Jesus varrendo para longe essas suas acalentadas seguranças. Deus, ensinava ele, não fazia barganhas; não havia povo escolhido nem favoritos no reino do céu. Deus era o pai amoroso de toda a vida, tão incapaz de demonstrar favoritismo quanto o universal sol.

Todos os homens eram irmãos – tanto os pecadores quanto os filhos amados – desse divino pai. Na parábola do bom samaritano Jesus lança seu escárnio contra nossa tendência natural a glorificar nossa própria gente e minimizar a virtude dos povos de outros credos e raças. Na parábola dos trabalhadores ele rejeita a pretensão obstinada dos judeus de possuírem um crédito especial diante de Deus. Todos que Deus acolhe em seu reino, ensinava ele, Deus serve da mesma forma; não há distinção no seu tratamento, porque não há medida para sua liberalidade. De todos, além disso – como dá testemunho a parábola dos talentos e reforça o episódio da moeda da viúva, – ele exige o absoluto máximo. Não há privilégios, não há abatimentos e não há desculpas no reino do céu.

Porém não era apenas o patriotismo tribal dos judeus que Jesus ultrajava. Os judeus eram um povo que valorizava intensamente a lealdade familiar, e Jesus queria que a estreiteza das restritas afeições familiares fosse levada de arrasto pela grande torrente do amor de Deus. Para os seus seguidores, “família” deveria ser o reino do céu inteiro.

Jesus não se contentava ainda em investir contra o patriotismo e contra os laços de família em nome da paternidade universal de Deus e da irmandade de toda a humanidade; fica claro que seu ensino condenava também todas as gradações do sistema econômico, toda a riqueza privada e todas as vantagens pessoais. Todos os homens pertenciam ao reino; todas as suas posses pertenciam ao reino; o modo de vida íntegro para todos os homens, o único modo de vida íntegro, era o serviço de Deus com tudo que temos, com tudo que somos – pelo que, vez após outra, Jesus denunciava as riquezas privadas e as reservas de qualquer vida privada.

Finalmente, em sua tremenda profetização desse reino que consistia em todos os homens unidos em Deus, Jesus reservava pouca paciência para com a integridade de barganha da religião formal. Uma porção significativa de suas palavras registradas nos evangelhos está dirigida contra a meticulosa observância de regras por parte dos seguidores da piedosa carreira. Leia +


H. G. Wells em Breve História do Mundo (1922)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sobre Jesus

E não era meramente uma revolução moral e social que Jesus proclamava: fica claro por um grande número de indicações que seu ensino tinha uma inclinação política muito manifesta. É verdade que ele disse que seu reino não era deste mundo, e situava-se no coração dos homens e não sobre um trono; porém fica igualmente claro que em todo o lugar e na medida em que seu reino se estabelecesse no coração dos homens, o mundo exterior seria naquela mesma medida revolucionado e renovado.

O que quer que a cegueira e a surdez dos seus ouvintes tenham deixado de captar das suas palavras, é muito evidente que não deixaram de captar sua firme resolução de revolucionar o mundo. Todo o método da oposição levantada contra ele, bem como as circunstâncias de seu julgamento e execução, demonstram claramente que para seus contemporâneos ele parecia estar propondo sem rodeios, e de fato propôs sem rodeios, alterar e fundir e alargar toda a vida humana.

Em vista das coisas que Jesus disse claramente, será de espantar que todos que eram ricos e prósperos tenham intuído um horror de coisas insólitas, o naufrágio iminente de seu mundo diante do seu ensino? Ele estava arrastando todas as pequenas reservas que eles haviam levantado contra o serviço social e trazendo-as para fora, para luz de uma vida religiosa universal. Ele era como um terrível caçador moral que forçava a humanidade para fora das cômodas tocas nas quais tinham vivido até aquele momento. No esplendor branco do reino dele não deveria haver propriedade alguma, privilégio algum, nenhum orgulho e nenhuma preferência; nenhum motivo e nenhuma recompensa que não fosse o amor. Será de espantar que os homens se tenham ofuscado e cegado e clamado contra ele? Mesmo seus discípulos clamavam em protesto quando ele não os poupava da luz. Será de espantar que os sacerdotes tenham percebido que entre este homem e eles mesmos não havia outra escolha, senão que ele ou o sacerdócio teriam de perecer? Será de espantar que os soldados romanos, confrontados e estupefatos diante de algo que se alçava muito além da sua compreensão e ameaçava todas as suas disciplinas, tenham buscado refúgio na risada selvagem, tenham-no coroado de espinhos e vestido de púrpura e feito dele uma versão de César da qual pudessem caçoar? Pois levá-lo a sério era adentrar uma vida estranha e intimidadora; era abandonar hábitos, controlar instintos e impulsos, era ensaiar uma incrível felicidade. Leia +


H. G. Wells em Breve História do Tempo (1922)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nas minhas palavras, Rubem Alves

“Quer eu escreva como um poeta, no esforço para mostrar a beleza,
ou como palhaço, no esforço para mostrar o ridículo,
é sempre a minha carne que se encontra nas minhas palavras”.


Rubem Alves

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Conhecendo um pouco sobre Santo Anselmo

Anselmo de Cantuária (1033/1034, Aosta - 21 de Abril 1109, Canterbury), nascido Anselmo de Aosta (por ser natural de Aosta, hoje na Itália), e também conhecido como Santo Anselmo, foi um influente teólogo e filósofo medieval italiano de origem normanda.

Foi Arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109 (sucedendo a Lanfranco, também um italiano), por nomeação de Henrique I de Inglaterra, de quem foi amigo e confessor, mas depois divergiu com ele na Questão das Investiduras. É considerado o fundador do escolasticismo e é famoso como o criador do argumento ontológico a favor da existência de Deus.

Viria mais tarde a ser canonizado pela Igreja Católica, e declarado Doutor da Igreja em 1720, pelo Papa Clemente XI. Santo Anselmo nasceu em Aosta, filho de um nobre, e de uma mãe rica, Ermenberga. Seguiu a carreira religiosa, estudou os clássicos e escreveu sempre em latim. Foi eleito prior em 1063, porque era considerado inteligente e piedoso. Sua biografia nos é contada pelo seu discípulo, Eadmero.

Foi comum na Idade Média que os religiosos buscassem o apoio da fé na razão. Anselmo escreveu uma obra sobre esse assunto. É considerado um dos iniciadores da tradição escolástica. "Não só a habilidade dialética fez de Anselmo o precursor da Escolástica, como também o princípio teológico fundamental que adotou: fides quarens intelectum. Foi ele também quem forjou uma nova orientação à teoria dos universais e que reverteu em grande proveito para os intuitos da Teologia racional" (SPINELLI, Miguel. O itinerário filosóffico de Anselmo de Cantuária, In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, t.64, f.1 2008, p. 247).

Anselmo buscava um argumento para provar a existência de Deus, e sua bondade suprema. Fala que a crença e a fé correspondem à verdade, e que existe verdadeiramente um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ele não existe apenas na inteligência, mas também na realidade. Anselmo desenvolveu uma linha de pensamento sobre essas bases, chamados de argumento ontológico, que foi retomada por Descartes e criticada por Kant, e ela estava numa obra chamada Proslógio. Ele parte do fato de que o homem encontra no mundo muitas coisas, algumas boas, que procedem de um bem absoluto, que é necessariamente existente. Todas as coisas tem uma causa, menos o ser incriado, que é a causa de si mesmo e fundamenta todos os outros seres. Esse ser é Deus. Seus argumentos não foram totalmente aceitos.

Anselmo chegou a arcebispo da Cantuária em 1093. Escreveu outras obras importantes, Do Gramático e Da Verdade, ambos em latim. Recebeu doações de terras para a Igreja, mas brigou com Guilherme, o ruivo, rei da Inglaterra pois não queria fazer comércio com os bens da Igreja. Isso foi considerado um desrespeito ao poder real, e Guilherme impediu Anselmo de viajar para Roma, desafiando o poder da Igreja.

Num dos seus primeiros livros, Monológio, em que apresenta sua visão de Deus, Anselmo fala que a essência suprema existe em todas as coisas e tudo depende dela. Reconhece nela onipotência, onipresença, máxima sabedoria e bondade suprema. Ela criou tudo a partir do nada. Anselmo procurava desenvolver um raciocínio evolutivo sobre o que considerava ser a verdade, que estava contida na Bíblia. Para Anselmo, o pensamento tem algo de divino, e Deus tem uma razão. Sua palavra é sua essência, e Ele é pura essência (essa noção não é nova) infinita, sem começo nem fim, pois nada existiu antes da essência divina e nada existirá depois. Para ela o presente, o passado e o futuro são juntos ao tempo, são uma coisa só. E Ela é imutável, uma substância, embora seja diferente da substância das outras criaturas. Existe de uma maneira simples e não pode ser comparado com a consciência das criaturas, pois é perfeito e maravilhoso e tem todas as qualidades já citadas. O verbo e o espírito supremo são uma coisa só, pois este usa o verbo consubstancial para expressar-se. Mas a maneira intrínseca que o espírito supremo se expressa e conhece as coisas é incogniscível para nós. O verbo procede de Deus por nascimento, e o pai passa a sua essência para o filho. O espírito ama a si mesmo, e transmite esse amor.

Para Anselmo, a alma humana é imortal, e as criaturas seriam felizes e infelizes eternamente. Mas nenhuma alma é privada do bem do Ser supremo, e deve buscá-lo, através da fé. E Deus é uno. Para contemplá-lo devemos nos afastar dos problemas e preocupações cotidianos e buscá-lo. Ele é onipotente embora não possa fazer coisas como morrer ou mentir. É piedoso, em parte por ser impassível, o que não o impede de exercer sua justiça, pois ele pensa e é vivo. Anselmo fala muito da crença divina do Pai, do filho e do espírito humano. Grandes coisas esperam por aquele que aceitar Deus e buscá-lo. Santo Anselmo influenciou muito o pensamento teológico posterior.


Para maiores detalhes clique aqui.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Que tipo de teólogo você é?

Essa aqui é um teste para o pessoal que gosta de teologia. Através desse teste você vai identificar com que teólogo você se parece mais! Eu fiz e achei muito interessante, e por isso estou colocando aqui para o pessoal acessar. Faça o teste e depois a gente conversa sobre os resultados lá em comentários!

Para começar a fazer o teste, clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Monge italiano abandona heavy metal

"A música é uma dádiva divina, mas a fama é uma tentação demoníaca." Se essa mensagem fosse compreendida no meio gospel, muitos ouvidos seriam poupados de músicas medíocres e de pregações cujo objetivo é tão-somente o bolso do povo. (retirado do Pavablog, para visitar o Pavablog clique aqui)

video


A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

No minimo curioso

No minimo curioso e engraçado, por assim, dizer.

Você que critica ou elogia os líderes evangélicos, já parou para pensar com qual destas personalidades você se parece mais? Com qual tem mais afinidade? O site Quizfarm.com é uma página especializada em testes do tipo quiz. Em um dos testes(Qual neo-evangélico você se parece?), você dá a sua opinião sobre 50 frases e jargões usados por personalidades da "comunidade evangélica". Para jogar, você precisa classificar cada uma das frases em diferentes níveis, que vão de "Heresia" a "Unção da Sabedoria".

Depois de classificar todos os "bordões", você terá a agradável ou terrível surpresa de ser comparado a Bispo Macedo, Estevam Hernandes, Silas Malafaia, os Valadões (André e Ana Paula), R.R. Soares, dentre outros. Isto porque o site indica com qual dos "líderes" você se parece mais e a porcentagem de afinidades entre você e o pastor-bispo-profeta-apóstolo...

Além de mostrar a figura gospel que mais se parece (ou pensa) como você, o site estabelece um ranking com todos os outros personagens.

Para fazer o teste, clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Teologia da prosperidade

Quando, na década de 80, a teologia da prosperidade chegou ao Brasil, ela veio como uma nova tese sobre a fé, prometia o céu aqui para o que tivesse certo tipo de fé. As promessas eram as mais mirabolantes: garantia de saúde a toda prova, riqueza, carros maravilhosos, salários altíssimos, posições de liderança, prosperidade ampla, geral e irrestrita. Lembro-me de, nessa época, ter ouvido de um ferrenho seguidor dessa teologia que, quem tivesse fé poderia, inclusive, negociar com Deus a data de sua morte, afirmava que, na nova condição de fé em que se encontrava, Deus teria de negociar com ele a data de sua partida para mundo dos que aguardam a ressurreição do corpo. Estamos, há cerca de vinte anos convivendo com isso, talvez, por isso, a grande pergunta sobre essa teologia seja: Como têm conseguido permanecer por tanto tempo? A tentação é responder a questão com uma sonora declaração sobre a veracidade desta proposição, ou seja, permanece porque é verdade, quem tem fé tem tudo isso e muito mais. Entretan to, quando se faz uma pesquisa, por mais elementar, o que se constata é que as promessas da teologia da prosperidade não se cumpriram, e, de fato, nem o poderiam, quando as regras da exegese e da hermenêutica são respeitadas, percebe-se: não há respaldo bíblico. Então qual a razão para essa longevidade?

Em primeiro lugar, a vida longa se sustenta pela criatividade, os pregadores dessa mensagem estão sempre se reinventando, bem fez um de seus mais expoentes pregadores quando passou a chamar seu programa de TV de “Show da Fé”, de fato é um espetáculo ás custas da boa fé do povo. Mesmo os mais discretos estão sempre expondo o povo, em alguns casos, quando mais simplório melhor, em outros, quanto mais bonita, e note-se o feminino, melhor. Além disso, é uma sucessão de invencionices: um dia é passar pela porta x, outro é tocar a trombeta y, ou empunhar a espada z, ou cobrir-se do manto x, e, por aí vai. Isso sem contar o sem número de amuletos ungidos, de águas fluidificadas e de bênçãos especiais. Suas igrejas são verdadeiros movimentos de massa, dirigidos por “pop stars” que tornam amadores os mais respeitados animadores de auditório da TV brasileira.

Em segundo lugar, a vida longa se mantém pela penitência; os pregadores dessa panacéia descobriram que o povo gosta de pagar pelos benefícios que recebe, algo como “não dever nada a ninguém”, fruto da cultura de penitência amplamente disseminada na igreja romana medieval, aliás, grande causadora da reforma protestante. Tudo nessas igrejas é pago. Ainda que cada movimento financeiro seja chamado de oferta, trata-se, na prática, de pagamento pela benção. Deus foi transformado num gordo e avaro banqueiro que está pronto a repartir as suas benesses para quem pagar bem, assim, o fiel é aquele que paga e o faz pela fé; a oferta, nessas comunidades, é a única prova de fé que alguém pode apresentar. Na idade média, como até hoje, entre os romanos, Deus podia ser pago com sacrifícios, tais como: carregar a cruz por um longo caminho num arremedo da via “crucis”, ou subir de joelhos um número absurdo de degraus, ou, em último caso, acender uma velinha qualquer, não é preciso dizer que a maioria escolhe a vela. Mas, isso é no romanismo! Quem quer prosperidade, cura, promoções, carrões e outros beneplácitos similares tem de pagar em moeda corrente, afinal, dinheiro chama dinheiro, diz a crença popular. E tem de pagar antes de receber e, se não receber não pode reclamar, porque Deus sabe o que faz e, se não liberou a bênção é porque não recebeu o suficiente ou não encontrou a fé meritória. Esses pregadores têm o consumidor ideal.

Em terceiro lugar são longevos porque justificam o capitalismo, embora, segundo Weber, o capitalismo seja fruto da ética protestante, (aliás, a bem da verdade é preciso que se diga que o capitalismo descrito por Max Weber em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo” não é, nem de longe, o praticado hoje, que se sustenta no consumismo, enquanto aquele se erguia da poupança, além disso, como sociólogo, Weber tirou uma foto, não fez um filme, suas teses se circunscrevem a sua época e nada mais) a fé, de modo geral, evangélica nunca se deu bem com a riqueza. A chegada, porém, dessa teologia mudou o quadro, o capital está, finalmente, justificado, foi promovido de grilhão que manieta a fé em troféu da mesma. Antes, o que se assenhoreava do capital tornava-se o avaro acumulador egoísta, agora, nessa tese, é o protótipo do ser humano de fé. Antes, o que corria atrás dos bens materiais era um mundano, hoje, para esses palradores, é o que busca o cumprimento das promessas celestiais. Juntamente com o capitalismo, essa mensagem justifica o individualismo, a bênção é para o que tem fé, ela é inalienável e intransferível. Eu soube de uma igreja dessas que, num rasgo de coerência, proibiu qualquer socorro social na comunidade para não premiar os que não tem fé. Assim, quem tem fé tem tudo quem não tem fé não tem nada. Antes, ter fé em Cristo colocava o sujeito na estrada da solidariedade, hoje, nesse tipo de pregação, o coloca no barranco da arrogância. Toda “esperteza” está justificada e incentivada. Não é de estranhar que ética seja um artigo em falta na vida e no “shopping center” de fé desses “ministros”.

Mas, o que isso tudo tem gerado, de verdade? Decepção, fragorosa decepção é tudo o que está sobrando no frigir dos ovos. As bênçãos mirabolantes não vieram porque Deus nunca as prometeu, e Deus não pode ser manipulado. O sucesso e a riqueza que, porventura, vieram foram mais fruto de manobras “espertalhonas”, para dizer o mínimo, do que resultado de fé. Aliás, para muitos foi ficando claro que o que chamavam de fé, nada mais era do que a ganância que cega, o antigo conto do vigário foi substituído pelo conto do pastor. Gente houve que ficou doente, mas, escondeu; perdeu o emprego, mas, mentiu; acreditou ter recebido a cura, encerrou o tratamento médico e morreu. Um bocado de gente tentando salvar as aparências, tentando defender os seus lideres de suas próprias mentiras e deslizes éticos e morais; um mundo marcado pela esquizofrenia. O individualismo acabou por gerar frieza, solidão e, principalmente, perda de identidade, porque a gente só se torna em comunidade. Tudo isso acontecendo enquanto muitos fiéis observavam o contraste entre si e seus pastores, eles sendo alcançados pela perda de bens, pela angústia de uma fé inoperante, pela perda de entes queridos que julgavam absolutamente curados e os pastores enriquecendo, melhorando sensivelmente o padrão de vida, adquirindo patrimônio digno de nota, sendo contado entre o “jet set”, virando artistas de TV, tudo em nome de um evangelho que diziam ter de ser pregado e que suas novas e portentosas posses avalizavam.

E onde estão estes decepcionados? E para onde estão indo os seus pares? Muitos estão, literalmente, por aí, perderam aquela fé, mas não acharam a que os apóstolos e profetas da escritura judaico-cristã anunciaram; ouviram o nome Cristo, mas não o encontraram e pararam de procurar. Talvez, estejam perdidos para evangelho; para sempre. Outros, no meio de tudo isso foram achados por Cristo e estão procurando pelo lugar onde ele se encontra. Para os primeiros não há muito que fazer a não ser interceder diante do Eterno, para que se apiede dos que foram vergonhosamente enganados; para os que estão a procura, entretanto, é preciso desenvolver uma pastoral. Eles não estão chegando como chegam os que estão em processo de reconhecimento de Deus e do seu Cristo. Estão batendo às portas das comunidades que julgam sérias com a Bíblia a procura de cura para a sua fé, para a sua forma de ser crente, para a sua esperança de salvação, para a sua falta de comunidade e para a sua confusão doutrinária. Precisam, finalmente, ver a Jesus Cristo e a si mesmos; precisam, em meio a tanta desinformação encontrar o ensino, em meio a tanto engano recuperar a esperança. Necessitam de comunidade e de identidade, de abraço e de paciência, de paz e de alento, de fraternidade e de exemplo, de doutrina e de vida abundante. Quem quer que há de recebê-los terá de preparar-se para tanto, mesmo porque, ainda que certos da confusão a que foram expostos, a cultura que trazem é a única que têm e, nos momentos de crise, de qualquer natureza, será a partir desta que reagirão, até que o discipulado bíblico construa, com o tempo, uma nova e saudável cultura.

Hoje, para além de tudo o que encerra a sua missão, a Igreja tem de corrigir os erros que, em seu nome, e, em muitos casos, sob a sua silenciosa conivência, foram e, ainda, estão sendo cometidos.


Ariovaldo Ramos

domingo, 15 de novembro de 2009

O prazer não é um lugar

O Salmo 1 diz que feliz é o que tem o seu prazer na Lei do Senhor.

Para alguém assim, o prazer não é um lugar.

Não é: "só faço o que me dá prazer." É: "fazer o que devo fazer me dá prazer."

E dever é fruto de convicção. E convicção é fé. E fé é presente de Deus.

Prazer, aqui, é uma construção a partir do senso de dever.

Se a gente aprender a ter prazer no que devemos fazer, faremos apenas o que nos dá prazer.

"Deus, nos dê a graça de ter prazer no que devemos fazer"


Ariovaldo Ramos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Nunca se explique

"Era 1964. Eu tinha 30 anos e estava fazendo pós-graduação nos Estados Unidos. No Brasil, o golpe militar trouxe um clima em que qualquer coisa era subversão. Não era preciso fazer nada para ir preso. Muitos amigos meus foram assassinados. Eu escrevia artigos falando de liberdade, nada explícito contra o regime, mas é claro que eu era contra ele. E assim ganhei inimigos. Eu tinha sido pastor. Pessoas que não gostavam de mim dentro da igreja começaram a me fazer acusações. Nada era claro. Nunca sabemos direito como são as coisas. Chegavam mensagens do tipo ‘consta que existe um documento contra você’ e tal. Eram ameaças. E, naquela época, até provar que focinho de porco não era tomada elétrica... Eu quis me defender. Publiquei artigos em revistas americanas para me explicar. Não houve repercussão. Foi então que meu professor de filosofia na universidade, muito sábio, me deu o melhor conselho que já me deram na vida. Ele me disse: ‘Rubem, nunca se explique. Para seus amigos, não é preciso se explicar. Para seus inimigos, é inútil se explicar’. Eu tentei seguir o conselho. Sempre tento, mas muitas vezes eu desobedeço. Ninguém segue conselho, né?"


Rubem Alves

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Além da submissão

Lutero não superou o mau uso das instruções morais de Jesus, que na Igreja de Roma demonstrara sua força completa e letal. Ele também tomava por certo que o cristão é obrigado, pelo menos, a obedecer cada palavra de Jesus que chegou até nós e não foi expressamente endereçada a um indivíduo em particular, sem considerar se a exigência que ela contém diz realmente respeito a ele mesmo em sua presente circunstância.

Uma obediência dessa natureza é, no entanto, um monstruoso mau uso das palavras de Jesus, e para um cristianismo cujo alvo é habitar o mundo, ela acaba não deixando qualquer escolha além da divisão entre clérigos e leigos, para detrimento moral de ambas as partes. Porém, mesmo que o resultado desse uso das suas palavras fosse a mencionada divisão, não teríamos direito de chamá-lo de abuso se o próprio Jesus demonstrasse tencionar que todos os homens obedecessem cegamente as suas palavras, mesmo sem apreender a verdade que elas contém.

Se tratadas meramente como padrões a serem copiados, as palavras de Jesus separam os homens da verdade, e portanto de Cristo.

Sem dúvida Jesus fez exigências para as quais ele esperava, de todos os seus discípulos, obediência incondicional. Porém ele jamais exigiu que alguém cumprisse suas palavras cegamente e precipitadamente, sem compreendê-las. Em cada caso ele pedia mais do que isso; não meramente submissão, mas a obediência interior de um agente livre. Suas palavras aplicam-se aos que realmente as aceitam, e essa verdadeira aceitação elas conquistam estimulando a tendência à independência que é inerente à vontade.

No coração de cristãos individuais o poder espiritual de Jesus há muito tem suprido o que faltou na ação de Lutero sobre a igreja – isto é, o discernimento moral de que podemos reconhecer Jesus como nosso líder e ao mesmo tempo perceber a iluminadora verdade de palavras que, se tratadas como padrões a serem copiados pefeitamente, separam os homens da verdade, e portanto de Cristo. Uma única palavra de Cristo é capaz de despertar essa compreensão; porém nenhuma palavra específica, nem a soma de todas as suas palavras, é capaz de nos fazer perceber a verdade que há nelas. Isso só pode acontecer se buscamos o próprio Jesus – e por isso não estou querendo dizer nada fantasioso, mas a simples tentativa de compreender a mente da qual procediam essas palavras maravilhosas e terríveis, porém graciosas.

As palavras de Jesus podem ser tabuladas, mas não suas idéias morais; essas só podem ser apreendidas quando as reconhecemos como o resultado de uma Vontade que nada tem de arbitrário, mas é uma mente em paz com a eternidade. Leia +


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

O amor não conhece outro caminho

Em segundo lugar, o amor distingue-se da justiça pela natureza dos seus motivos. A obediência legal é sempre induzida por estatutos definidos; o amor não. Uma vontade que dependa de um impulso externo como esse não compartilha da natureza do amor. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo. O fato de que outros estabeleçam como nosso alvo a verdadeira comunhão interpessoal não determinará que conduzamos uma vida cheia de amor; esse alvo, permanecendo para sempre em pé por seus próprios méritos, só pode ser compreendido por quem está cheio de amor, e que por livre escolha adota-o para si mesmo.

Além disso, como o amor é o reconhecimento, de dentro, de um alvo eterno, ele é guiado passo a passo por seu próprio caminho autodeterminado. O que por si mesmo julga ser, em suas próprias circunstâncias particulares, o melhor meio de alcançar o alvo eterno, regerá sempre a sua conduta; ele não conhece outro caminho. Caso se submetesse a quaisquer outras leis sua livre confiança seria dominada pelo medo, ou sua energia afundaria em indolência. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo.

Mesmo que, como os heróicos fariseus, um homem sofra o martírio por sua fé, isto é, por obediência à lei, se não tiver em si mesmo algo dessa sinceridade e dessa independência do amor, de acordo com o apóstolo Paulo ele nada será.

A verdade é que, no que diz respeito ao tempo, o amor começa em todos os casos apenas quando uma pessoa experimenta o amor. Daí os esforços incessantes de Jesus no sentido de despertar nas pessoas um senso do amor inesgotável que na realidade experimentam. Uma vez que essa consciência nascente produza sua obra dinamizante, a pessoa possuíra vida em si mesma. Sua atividade não estará mais fundamentada, como se fosse mera transação, no interesse próprio, já que vantagens podem ser obtidas promovendo-se o bem-estar de outros; não será despertada por estímulos à simpatia, surgindo a partir de uma comunhão já estabelecida.

Uma vez que o amor venha à existência, sua operação será inteiramente autodeterminada. Não poderá aceitar leis vindas de fora, mas a partir de sua consciência interior outorgará a lei para si mesmo. Deixará de depender de um objeto digno de amor, como acontecia quando foi inicialmente despertado, mas, como o sol de Deus, distribuirá livremente e abundantemente, em todas as direções, suas riquezas peculiares.

A esse amor pertence a tranqüilidade sublime do poder criativo. Sua natureza e sua força são divinas. Jesus ensina que é assim, e diz ainda que o amor, e apenas o amor, é requerido de todo homem. O fato de que Jesus seja capaz de exigi-lo, por saber que será desperto esse livre a ativo poder do amor naqueles reunidos ao redor de si, em cujas vidas resplandece agora mesmo a luz pela sua manifestação de si mesmo – é isso o que a redenção representa para nós. Leia +


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Em seis passos o que faria Jesus

Como vivo dizendo, ser cristão tornou-se insulto adequado para todo tipo de conduta, menos na escandalosa acepção original: a de quem assume a trilha de Jesus em sua espiral voluntária e redentora à desintegração e à morte – e quem sabe, à glória, mas por essa única via. Aprendemos a sensatamente desbastar todo o conteúdo subversivo da mensagem de Jesus (da forma como fazemos, naturalmente, com profetas menos consagrados, de Sócrates a Nietzsche), até o ponto em que o que Jesus disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.

A fim de remediar essa situação, meu desejo é fazer como o ateu da parábola e resgatar para o público contemporâneo o contéudo ideológico do bem-intencionado mas cabeça-dura rabi que os cristãos garantem ser o messias dos judeus, que os judeus negam ser o messias e o único Filho de Deus e que os muçulmanos afirmam ser profeta incompreendido do único Deus, que não tem filhos.

Este, senhoras e senhoras, é o primeiro capítulo de um Novíssimo Manual de Conduta do seguidor de Jesus, a ser lançado em breve para todo Brasil pelo Scriptorium do Monastério de São Brabo, em laboriosas cópias manuscritas. Resolvi chamá-lo de Em Seis Passos Que Faria Jesus, por motivos que se não ficaram evidentes ainda ficarão.

Você quer ser como Jesus? Seguindo esses seis passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra e consagração a médio prazo no céu. A pressa é sua. Leia +


Paulo Brabo

Teologia Comteporânea

Segue dica de blog que contém uma coletânea de textos sobre o livro Teologia Comtemporânea de Harvie M. Conn, traduzido do espanhol por Leonardo Gonçalves, para acessar o blog em questão clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Viciados em mediocridade

Ai vai um link do trecho do livro Viciados em Mediocridade do Franky Schaeffer, para visualizar basta clicar aqui. Boa leitura.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Religião e Repressão

O discurso acadêmico de Rubem Alves sobre "protestantismo" e "repressão": algumas observações 30 anos depois. Artigo escrito por Leonildo Silveira Campos para o periódico Religião & Sociedade. Clique aqui para visualizar o artigo.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O prazer nosso de cada dia

QUEM diria que o Riobaldo era profeta ecumênico? Foi ele mesmo que me disse: "Eu, cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Rezo cristão, católico e aceito as preces de compadre meu Quelemém, do Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles..."

Também eu não perco ocasião de religião. Tenho sangue católico nas veias. Meu avô ia ser padre. Lá no sobrado no sótão, ficavam guardadas as velharias numa canastra. Entre elas, uma carta do meu avô, adolescente, interno do Caraça, pedindo dez tostões para comprar uma batina nova.

Tenho também sangue de espírita, que eles chamam de "espiritualista" ou kardecista. Eu estava em São Paulo, puxei conversa com o motorista do táxi, perguntei de onde ele era. "Sou de Macuco", respondeu. "Macuco? Conheço muito... É perto de Lavras do Funil onde vivi desde menino..." O taxista se sentiu mais íntimo. "Lavras é lugar de um espírito de luz, médico que anda pelo mundo dos sofredores curando doenças..." "E como é que ele se chama?", perguntei. "É o doutor Augusto Silva..." Dei uma risadinha: "O doutor Augusto Silva foi meu tio..."

E tenho também sangue de protestante. A gente tinha ficado pobre por causa da crise de 1929. Fomos morar numa casa de pau a pique emprestada. Rico que fica pobre tem de mudar para longe. Todo mundo foge dele, com medo de que ele peça dinheiro emprestado.

Mas havia um homem que não fugia, se aproximava e visitava. Era o seu Firmino, evangelista protestante que prometia as riquezas do céu para aqueles que sofriam as pobrezas da terra. A pobreza do meu pai: não tinha dinheiro para pagar escola para os filhos.

Mas o seu Firmino conhecia os missionários protestantes donos do Instituto Gammon, em Lavras. Ele mexeu os pauzinhos e o Gammon deu bolsas de estudo para os meus irmãos. Ficamos então protestantes; não por conversão, por gratidão.

Pois não é que Deus, mesmo sabendo da minha religiosidade, anda me pregando umas peças? Meus amigos tentam interceder, inutilmente. E uma amiga querida me sugeriu que eu ficaria melhor se abandonasse minha incredulidade e acreditasse na reencarnação. Com a reencarnação tudo se explica e há a certeza de um final feliz...

"Pois saiba você que eu acredito na reencarnação", eu disse. "Faz tempo anunciei a minha conversão num artigo de nome esquisito: "oãçanracneeR'". Reencarnação ao contrário: não de trás para adiante, mas de diante para trás.

Não quero evoluir para frente nem ficar parado no eterno presente do céu... O céu me dá claustrofobia.

Além do que não quero evoluir.

Muitas coisas não podem e não devem evoluir: saíras de sete cores, riachinhos, ipês floridos, a "Nona Sinfonia", uma preta jabuticaba são seres perfeitos. Como seria uma jabuticaba evoluída? Uma jabuticaba cúbica? Esse objeto é divino, não pode e não deve ser melhorado. O que eu quero não é evoluir. Quero é viver de novo intensamente o passado que vivi, sem os sentimentos de culpa que a minha religião botou na minha cabeça.Toda noite peço perdão a Deus pelos pecados que não cometi...

Assim, quando já são poucas as jabuticabas na minha tigela, rezo o meu pai-nosso herético erótico: "O prazer nosso de cada dia dá-nos hoje..."


Rubem Alves

Uma dica de boa música

Ai segue a música Álguem como eu de Stênio Marcius, simplismente linda, espero que gostem.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma homenagem a Jorge Rheder

Hoje faleceu Jorge Rheder um dos mais belos compositores cristãos de nossa época, e em sua homenagem segue a música Unidade e Dibversidade de sua autororia junto com Guilherme Kerr também falecido. E antes que eu esqueça, é a galera da banda Raizes cantando.

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Da multidão dos que creram
Era só um o coração e a alma,
Uma só mente, uma semente,
Somente uma esperança brotando dentro da gente.
Nosso era o pão cada dia, nosso era o vinho, santa folia,
O que se parte e reparte, a própria vida,
Galho ligado à parreira, vida, em comum, verdadeira.

Sempre grande poder: curas, milagres de Deus.
Sempre proclamação! Cristo, o Senhor, ressurgiu!

Da multidão dos que creram
Era só um o coração e a alma,
Muita alegria, singela a vida,
Na simpatia de todos, nasce a Igreja de novo
Povo de Deus, sal e luz pra todos os povos.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Duas Parábolas

Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: “O mundo inteiro ainda deverá se transformar num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade.” Suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Era um trabalhão cuidar dos jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insetos, as fontes, as frutas, o perfume... Sozinho ele não daria conta. Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu que ele precisou fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, Paulo, Hermógenes e Boanerges e lhes disse: “Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas... A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores pelas rochas... E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins.” Ditas essas palavras ele partiu. O Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. O Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas o Boanerges não era jardineiro. Mentira ao se oferecer para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro ele disse: “Cuidar de jardins não é comigo. É trabalho demais...” Trancou então o jardim com um cadeado e o abandonou. Passados muitos dias voltou o Senhor dos Jardins, ansioso por ver os seus jardins. O Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Veio o Hermógenes e lhe mostrou o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Aí foi a vez do Boanerges. E não havia formas de enganar. “Ah! Senhor! Preciso confessar: não sou jardineiro. Os jardins me dão medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das taturanas, das aranhas. Minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer com a terra, essa coisa suja... Mas o que me assusta mesmo é o fato das plantas estarem sempre se transformando: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim. Se estivesse no meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra seria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras me dão tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguicho e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas o tranquei com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem.\" E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado.O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: “Esse jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar desse jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins. E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Você não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Você gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, você irá quebrar pedras na minha pedreira...” “O Bom Samaritano” = “O Bom Travesti” E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” E ele lhes contou a seguinte parábola: Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira”. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão. Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.” Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo...” Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião. Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!\" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!” e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma. Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.” Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido. Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”


Rubem Alves
(Correio Popular, 21 de julho de 2002)

A inteligência e o pênis

Como diria o Sergio Pavarine: "Não tem como não se apaixonar por Rubem Alves".

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

sábado, 7 de novembro de 2009

Eu também não te condeno

Pode procurar que você não vai achar. Não importa aonde vá, estou absolutamente convencido de que há duas coisas que você nunca vai achar. Você pode correr o mundo e o tempo, e tenho certeza que jamais conseguirá achar alguém que não se envergonhe de algo em seu passado. Para qualquer lugar que você vá, lá estarão elas, as pessoas que gostariam de apagar um momento, uma fase, um ato, uma palavra, um mínimo pensamento. Todo mundo tenta disfarçar, e certamente há aqueles que conseguem viver longos períodos sem o tormento da lembrança. Mas mesmo estes, quando menos esperam são assombrados pela memória de um ato de covardia, um gesto de pura maldade, um desejo mórbido, um abuso calculado, enfim, algo que jamais deveriam ter feito, e que na verdade, gostariam de banir de suas histórias ou, pelo menos, de suas recordações.

Isso é uma péssima notícia para a humanidade, mas uma ótima notícia para você: você não está sozinho, você não está sozinha. Inclusive as pessoas que olham em sua direção com aquela empáfia moral e sugerem cinicamente que você é um ser humano de segunda ou terceira categoria, carregam uma página borrada em sua biografia, grampeada pela sua arrogância e selada pelo medo do escândalo, da rejeição e da condenação no tribunal onde a justiça jamais é vencida. Você não está sozinho. Você não está sozinha. Não importa o que tenha feito ou deixado de fazer, e do que se arrependa no seu passado, saiba que isso faz de você uma pessoa igual a todas as outras: a condição humana implica a necessidade da vergonha.

A segunda coisa que você nunca vai encontrar é um pecado original. Não tenha dúvidas, o mal que você fez ou deixou de fazer está presente em milhares e milhares de sagas pessoais. Não existe algo que você tenha feito ou deixado de fazer que faça de você uma pessoa singular no banco dos réus – ao seu lado estão incontáveis réus respondendo pelo mesmíssimo crime. Talvez você diga, “é verdade, todos têm do que se envergonhar, mas o que eu fiz não se compara ao que qualquer outra pessoa possa ter feito”. Engano seu. O que você fez ou deixou de fazer não apenas se compara, como também é replicado com absoluta exatidão na experiência de milhares e milhares de outras pessoas. Isso significa que você jamais está sozinho, jamais está sozinha, na fila da confissão.

Talvez por estas razões, a Bíblia Sagrada diz que devemos confessar nossas culpas uns aos outros: os humanos não nos irmanamos nas virtudes, mas na vergonha. Este é o caminho de saída do labirinto da culpa e da condenação: quando todos sussurrarmos uns aos outros “eu não te condeno”, ouviremos a sentença do Justo Juiz: “ninguém te condenou? Eu também não te condeno”.

É isso, ou o jogo bruto de sermos julgados com a medida com que julgamos. A justiça do único justo reveste os que têm do que se envergonhar quando os que têm do que se envergonhar desistem de ser justos.


Ed Rene Kivitz

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cambistas da Fé

Jesus se dirigiu ao Templo, aquele que deveria ser chamado casa de oração, local aonde o povo deveria afluir para a adoração e dedicação ao Deus de Israel do melhor de suas vidas. Ele ficou estarrecido, chocado com o que estava diante de seus olhos: um covil de ladrões. O fato de comprar e vender não era o problema maior, mas o fato de haver a comercialização do sagrado, ou seja a dessacralização do santo e o auferimento de lucro desonesto com tal mercantilização. Jesus virou as mesas e expulsou de lá vendedores e compradores. Repito, ele expulsou os que vendiam e os que compravam.

Historicamente os oportunistas sempre lucraram com o sagrado e a boa-fé das pessoas. Já foram vendidas lascas da cruz, gotas de lágrimas da virgem Maria, fios da túnica de Jesus e tantas outras quinquilharias travestidas de “relíquias” sacrossantas. Com o objetivo de financiar a construção de edifícios suntuosos já se vendeu perdão de pecados, as famosas indulgências, e também o resgate de almas do purgatório. Tornou-se famosa a expressão “ao tilintar da moeda no fundo do cofre, uma alma sai do purgatório”.

Hoje em dia o que se vende é ainda menos nobre. Vende-se a ilusão de ser próspero num passe de mágica. De ter todos os problemas imediatos resolvidos, de ser rico, ter carrões, empresas e coisas do tipo. Vejam que o nível caiu muito. Perdão de pecados é um “produto” muito superior a um carro último modelo. E tudo em nome da fé, que sempre é materializada através de polpudas ofertas em dinheiro.

Há uma legião de iludidos que se deixam enganar pelo discurso fácil e inconsequente da “teologia do receber”, ou seja, a pessoa tem o “direito” de receber muitas e palpáveis bênçãos e, em contrapartida, basta pagar por isto, ou melhor, “doar” uma quantia como prova de sua fé e sacrifício. Mas os iludidos não são exatamente inocentes nessa história. Só há segmentos que pregam ilusão porque há quem queira ser iludido. Como em boa parte dos estelionatos, tanto vítima como estelionatário tem algum interesse escuso no negócio. Aqui o sujeito que quer pagar por uma benção também tem culpa, é interesseiro.

Reconheço que é muito fácil se deixar levar por um discurso que soa como música aos ouvidos de incontáveis miseráveis, ou mesmo remediados, que estão com a corda no pescoço e vislumbram uma solução mágica. Justamente aí entram os cambistas da fé que “vendem” seu produto, aproveitando-se das necessidades e desilusões das pessoas.

Pois bem, Jesus expulsou os vendedores e os compradores. Enganados e enganadores estão no mesmo barco. Cuidado. Muito cuidado. Não se deixe levar pela conversa fiada que tantos desencantos tem causado. Tantas decepções, tantas bênçãos não recebidas, apesar de terem sido devidamente pagas. Ah, mas aí foi a fé que faltou, dizem. De uma forma ou de outra, a culpa pelo fracasso sempre é lançada sobre o “cliente”.

Deus não está tão preocupado em dar bênçãos materiais, mas sim em proporcionar um relacionamento paterno. De braços abertos, Ele quer acolher a todos como filhos e abençoar com todas as bênçãos que um Pai pode dar: carinho, afeto, perdão, graça, pertencimento ao Reino. E isso não tem preço, é de graça!


Marcio Rosa

O que me move

Estou em busca de uma espiritualidade que seja coerente com o espírito das Escrituras, que seja fiel à essência do evangelho de Jesus Cristo, que faça sentido e seja o sentido das boas notícias trazidas por Jesus.

Eu estou realmente empenhado em tentar viver uma espiritualidade profunda, porém leve e humana. Não uma espiritualidade sobrenatural, mas humana, para chegar mais perto de Deus e do próximo. Quando Deus fala através do profeta Ezequiel, Ele diz que daria ao povo um coração novo, tiraria o coração de pedra e colocaria no lugar um coração de carne. Ou seja, no lugar do embrutecimento, que é sempre pecado, a sensibilidade. Um coração humano mesmo. De carne. Imperfeito. Mas não no sentido de estragado, e sim no sentido de inacabado, que ainda está em construção.

Não dedico minha vida, nem os melhores anos da minha vida à pregação do evangelho para agradar religiosos. Tampouco fui vocacionado para pregar para plateias de gente santa e perfeita. Não me empolga pregar para auditórios lotados de gente que “se acha”. Não quero olhar para trás e ver que investi meus melhores anos falando para gente que queria somente reafirmar seus sentimentos de superioridade espiritual. Não vejo a menor vantagem em sentir alívio por ser “santo” e não ser como o miserável pecador que está ao lado (esse sentimento era o que alimentava o fariseu que Jesus reprovou por estar orando assim, ao lado de um “pecador”).

Os sãos não precisam de médico. Salvação é para quem precisa. A boa notícia da graça é para quem se vê necessitado. Quem é perfeito não precisa de Jesus, nem de sua mensagem, nem de sua graça. Quem se acha perfeito, é um tolo e, geralmente, intolerante.

O que me empolga, o que enche o meu coração de ânimo, o que me faz acordar todos os dias ainda animado com o Reino de Deus, é a possibilidade de anunciar boas notícias de esperança e amor para aqueles que se reconhecem pecadores. O que me deixa animado e cheio de vigor é poder anunciar um evangelho que é boa notícia para os pobres de espírito, para os contritos, para os marginalizados, para os excluídos, para aqueles que a religião institucionalizada excluiu por conta de suas inadequações.

O que me faz vibrar com o evangelho é a possibilidade de anunciar uma notícia que alegra o coração de quem está triste. Uma notícia que traz riso para quem a vida só proporcionou choro. Uma voz de alento e conforto para aquele que se sente só, abandonado, infeliz.

O que é mais espetacular é que posso anunciar uma palavra de amor para aqueles que ninguém mais quer amar. É dizer com autoridade e com poder, que o poder que importa mesmo, no fim das contas, é poder do amor. Que tudo passará, mas o que ficará para sempre é o amor.

Bom é saber que Jesus veio para abraçar a todos, mesmo correndo todos os riscos de ser tachado de amigo de pecadores, que anda com pecadores e prostitutas, beberrão e glutão. Ele veio para proclamar liberdade aos presos, vista aos cegos, alegria aos tristes e aliviar os corações angustiados. Para dar esperança para o desanimado e a amor para os que querem ser amados.

Essa é uma mensagem que vale a pena anunciar.


Marcio Rosa

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Prédica Dietrich Bonhoeffer

Entrementes já nos deveríamos ter dado conta que soou a undécima hora para a igreja evangélica, que não nos resta muito tempo até que se decida se ainda haverá o raiar de um novo dia. Deveríamos saber também que não se pode consolar um moribundo com o toque de fanfarras ou, quem sabe, trazê-lo de volta à vida. O toque de fanfarra faz parte do cortejo fúnebre; daquele lugar onde se tenta suplantar o silêncio com um barulho mais frio ainda, onde coroas mortuárias e cânticos de luto tentam encobrir a decomposição. Crianças agem assim quando têm medo numa estrada escura; assobiam, pisam firme e fazem algazarra para criar coragem. Esse tipo de coragem, que na verdade é medo, essa coragem-medo e esses toques de fanfarra que apenas anunciam que a morte já chegou - fanfarras mortuárias, não são desconhecidas a nós que ainda participamos na vida da igreja. Dia da reforma – é o dia mais tenebroso a partir do qual conhecemos esse tipo de coisa. Hoje, entre as milhares de fanfarras que revelam uma Alemanha em estado terminal, se podem ouvir também as outras que anunciam ao mundo a morte da igreja. A Alemanha que tem medo de seu futuro tenta criar coragem através de grandes palavras de todo o tipo, ditas em voz alta – para que elas afugentem o medo da morte. A igreja da Reforma, que lá no íntimo sabe do despenhadeiro que a separa da Reforma, que estremece diante da proximidade das garras da morte, canta com desesperada coragem: “Deus é castelo forte e bom (...) fi Cristo Jesus, o eterno Senhor, outro não tem vigor (...)”, e nem percebe que todas as vezes que ela pronuncia “Deus”, este Deus se volta contra ela mesma. Nós cantamos: Deus é castelo forte e bom. Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus, porém, diz: Eu tenho contra ti... A igreja que celebra a Reforma não deixa o velho Lutero em paz, ele é responsável por tudo de ruim que nos acontece na igreja hoje. Colocamos o homem morto no meio da igreja, fazemos com que ele estenda o seu braço e mostre essa igreja com toda a ostentação da auto-segurança, e o fazemos repetir: Aqui estou, não posso agir de outra forma. Não vemos que, porém, que essa igreja já não é a igreja de Lutero, que Lutero falou o aqui estou com temor e tremor, encurralado pelo diabo até na última posição, no temor a Deus; não percebemos que essa palavra não é adequada para estar nas nossas bocas. Simplesmente não é verdade, ou é uma leviandade e uma arrogância imperdoáveis da nossa parte nos entrincheirar atrás dessas palavras. Nós podemos agir de outra forma; em todo caso devemos quere agir de outra forma, pois seria uma péssima glória diante de Deus e dos seres humanos se isso não fosse possível. Ninguém de nós está encurralado na última posição a partir da qual somente se pode dizer em oração a Deus: não posso agir de outra forma; Deus, ajuda-me. Nós podemos e somos desafiados a agir de outro jeito. Hoje deve ter ecoado milhares de vezes nos púlpitos: Aqui estou, não posso agir de outro jeito. – Deus, porém, diz: Eu tenho contra ti...

A igreja protestante celebra seu dia. É parte de seu dever protestar. Contra o que ela protesta, isto varia muito; mas protestar é preciso- por isso, desta vez, protestamos contra a secularização que se traveste de ateísmo e naturalmente também – e desta vez em especial – contra o catolicismo e seus perigos ( é claro que estamos pensando nos perigos políticos), protestamos contra todas as amarras, contra dogma e autoridade, protestamos em favor da liberdade de pensamento e de consciência, do indivíduo; protestamos contra a imoralidade e a descrença; protestamos contra todos que não estão na igreja e que não tomam conhecimento do nosso protesto. Hoje é o dia do protestantismo. Como é fácil protestar, com que autoconfiança conseguimos protestar, afinal temos um direito certificado para isso. Que dia lindo. “Nós protestamos” é a nossa palavra de ordem; Deus, porém, diz: Mas eu tenho ti... isto é, Deus protesta. Contra quem? Contra nós e o nosso protesto! Será que não ouvimos? Protestantismo não significa nosso protesto contra o mundo, mas o protesto de Deus contra nós. Mas eu tenho contra ti...

Na verdade nós estamos disfarçando. No fundo sabemos muito bem que, em nosso protesto, não se trata de castelo forte, nem do aqui estou. Sabemos do protesto de Deus contra nós; sabemos que justamente o Dia da Reforma é a grande ofensiva de Deus contra nós. Ocorre que nós não o queremos admitir diante de nós mesmo nem diante do mundo. Temos medo de não estar à altura dessa ofensiva; temos medo de passar vexame diante de Deus e diante do mundo se o admitirmos. Por isso fazemos tanto barulho em torno deste dia, por isso nós, no dia 31 de outubro, enfiamos nas cabeças de milhares de alunos coisas falsas, a saber, o respeito pela igreja, um respeito que há muito perdemos por Deus, tudo isso para não percebermos nossas fraquezas, ou melhor, para esquecê-las.

Não, já não nos resta mais tempo para essas celebrações festivas da igreja, nas quais nós apresentamos a nós mesmos. Vamos deixar de celebrar o Dia da Reforma assim! Deixemos o Lutero morto finalmente em paz e ouçamos o evangelho, leiamos sua Bíblia, ouçamos a palavra do próprio Deus. No dia do juízo final Deus seguramente não nos perguntará se celebramos dias da Reforma à altura, mas se ouvimos e guardamos sua palavra. Por isso deixemos que nos seja dito: Mas eu tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor.

Quisera dizer essa palavra de forma tal que ela nos doa. Ela deve doer, pois do contrário não seria palavra de Deus. Como vocês, porém, eu vejo que, como acontece com um romance ruim, lemos primeiro o final feliz, para não ficarmos irritados demais com o trecho anterior e para dizer a nós mesmos que no final vai dar tudo certo. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o primeiro amor. A diferença entre o que aqui se chama primeiro amor e tudo o que assim é chamado por aí afora é muito marcante: Na verdade, além desse amor, desse primeiro amor, existe somente ódio; abandonar esse amor significa nada mais que odiar Deus e o mundo. Eu, porém, tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor, ou seja, uma vez tudo foi diferente; também em você uma vez se fez um início! Também com você aconteceu alguma coisa. Você também teve - ou será que não? - algo a ver com Deus. Uma vez você orou a ele e lhe falou de sua maldade e de sua aflição, uma vez você o amou; uma vez você disse que queria tentar se relacionar com Deus. Naquela vez, acontecia alguma coisa ao seu redor, realmente acontecia. Você amou os outros, aquelas pessoas que o irritavam e que lhe davam tanto incômodo, porque, fazendo-o, você se lembrava do amor de Deus. Você já foi de opinião de que Deus deveria ser Senhor sobre a sua vida até no âmago, até o último recôndito; e ele de fato o foi quando você ia para o meio de seus irmãos tendo Jesus Cristo na mente e no coração. Eu, porém, tenho contra ti...

Olhemos a igreja como um todo. Onde está o tempo da primeira graça, o tempo no qual os primeiros cristãos confessavam Jesus Cristo como Senhor de suas vidas, saíam de suas casas para servir, quando a chama estava acesa e começou a arder; o tempo em que a vinda do reino de Deus era esperada com paixão ardente, tanto que esse reino se incorporava na esperançam concretizando-se em sinais inusitados? Onde está o tempo do qual se diz: “todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinha. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e Deus derramava muitas bênçãos sobre todos” (At. 4.32s.)? Onde está a comunidade que por saber do milagre de Deus, por saber da ressurreição dos mortos para a vida, tinha certeza de que, no poder da graça de Deus, no poder do amor de Deus, tudo era possível para aquele que crê, inclusive que um amasse o outro e que descesse até o sofrimento do outro para ajudá-lo? Onde está a comunidade do primeiro amor, que, semelhante a uma lâmpada, fala da luz de Deus no mundo?

De que adianta lembrar o passado! Ele se perdeu. Quem sabe alguém diga a si mesmo: Esse foi o meu primeiro amor, meu amor infantil, mas quando cresci, eu saí dessa. Sem dúvida, aquilo era lindo, mas era ilusão. Eu aprendi e descobri que o mundo é mau e que nem tudo é possível, que é necessário fazer conchavos e que precisamos ser mais modestos. Esse, afinal, é também o discurso da igreja. O que se pode responder a tudo isso? Acaso você acha que os primeiros cristãos, os reformadores e as primeiras comunidades não sabiam que o mundo é ruim? Será que aqueles que viram seu Senhor amado ser crucificado pelo mundo não o sabiam? Eles o sabiam milhares de vezes melhor do que nós todos juntos. Ouve a Bíblia, lê Lutero. Eles sabiam alguma coisa última a maia do que nós: Eles sabiam da raiz de toda a maldade do mundo, a saber, do ódio contra Deus e contra o semelhante e do amor do ser humano a si mesmo. No entanto, eles também ouviram e viram que Deus venceu esse ódio dentro do próprio mundo através de Jesus Cristo, de sua cruz e ressurreição. Eles criam o milagre do amor de Deus no mundo e por isso amavam Deus e o irmão.

Entretanto, não deixemos de olhar a cada um individualmente. Será que alguma vez você não cria e sabia que o ódio estava vencido e que o amor é que estava certo? Talvez naquele tempo tenha sido apenas ilusão, talvez tenha sido ilusão até o primeiro momento – quem quer se prender ao passado? -, mas deixe que lhe seja dito hoje; hoje não é ilusão, mas pura verdade, tanto que Deus empenha sua palavra: Tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor – abandonaste a mim.

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te”. Não foi outra coisa do que esse chamado que levou Lutero à sua Reforma. Lembre-se de onde você caiu, arrependa-se, foi seu chamado à igreja católica. Você deveria arder, mas é fria; deveria vigiar e está preguiçosa; deveria ter fome, mas está saciada; deveria crer, mas tem medo; deveria ter esperança, mas lança mão do poder; deveria amar, mas não consegue livrar-se de si mesma; deveria deixar que Cristo fosse seu Senhor, mas o contradizes; em seu poder você deveria operar milagres, mas não é capaz de realizar as coisas mais cotidianas. Lembre-se de onde você caiu, arrependa-se.

A igreja da Reforma é a igreja daqueles que se expõem ao chamado à penitência, que deixam que Deus seja Deus, que sabe que aquele que está de pé cuide para que não cair e que não se vanglorie por estar de pé. Nossa igreja está de pé na palavra de Deus e na sua palavra nós somos os julgados. A igreja que está em penitência, a igreja que deixa que Deus seja Deus, esta é a igreja dos apóstolos e de Lutero.

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras”. Este último é parte inseparável. Sem essa partezinha, todo o resto não faz sentido. Pode parecer inconveniente falar justamente das obras no Dia da Reforma; é, no entanto, um mal-entendido grosseiro do evangelho a gente pensar que fé e penitência são coisas para momentos piedosos matutinos e vespertinos. Fé e penitência significam deixar que Deus seja Deus naquilo que fazemos, e justamente naquilo que fazemos lhe sejamos obedientes. “Volta à prática das primeiras obras” – como é necessário que isso seja dito hoje. Ninguém que conhece a igreja atual poderá queixar-se de que a igreja não faz nada. A igreja faz muitas coisas, também com muito sacrifício e seriedade; mas todos nós fazemos tantas segundas e terceiras obras, e não as primeiras obras. E justamente por isso é que a igreja não faz o que é decisivo. Nós celebramos, nós representamos, nós buscamos ter influência, fazemos um movimento evangélico, praticamos o cuidado para com os jovens, fazemos caridade e assistência social, nos envolvemos em propaganda contra o ateísmo – mas será que praticamos as primeiras obras, das quais tudo depende? Amar Deus e o irmão com aquele primeiro amor apaixonado e ardente que põe tudo em jogo, só não o próprio Deus? Deixamos realmente que Deus seja Deus e lhe confiamos nossa igreja inteiramente? Se assim fosse, deveria ser diferente, alguma coisa deveria ter irrompido. Não nos deixemos levar pela tentação, porém, de nós mesmos fazer acontecer. Cabe a Deus provocar essa ruptura. Deus deverá fazê-lo. Cabe a nós nos colocar a seu serviço. Deixemos que ele seja Deus com aquele primeiro amor. Quem sabe volte a se tornar verdade o que lemos há pouco: Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.

E agora a coisa fica séria: “E, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candelabro, caso não te arrependas”. Aqui se fala com seriedade última. A hora da nossa igreja está próxima. Deus teve muita e longa paciência. Nós não conhecemos a hora. Ela pode irromper de repente e arrastar tudo consigo. Tudo já se move. Deus já lançou mão das mais incríveis ferramentas a serviço de sua obra destruidora. A história da destruição de Jerusalém pelos descrentes começa a ter um enorme significado para nós. Seja lá como for, é melhor que não usemos palavras eloquentes para destacar nossos atos heróicos em meio a tudo isso – que Deus seja Senhor!

O Senhor destruidor, diante do qual nos curvamos, é o Senhor da promessa. Somente ele conhece seu povo, ele está presente, talvez no meio de nós. Ele sim sabe a quem se dirigem as palavras: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”. Seremos nós, conseguiremos vencer, conseguiremos crer até o fim? O futuro nos amedronta. Mas a promessa nos consola. Bem-aventurado quem a ela é chamado.

E quando agora sairmos da igreja, não nos contentemos em avaliar se foi uma celebração da Reforma boa ou ruim, mas vamos e façamos com sobriedade as primeiras obras. Deus nos ajude. Amém.


Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 1906- Berlim, 9 de abril de 1945)
Prédica no dia da Reforma. In: BONHOEFFER, Dietrich. Prédicas e alocuções. tradução Harald Malschitzky. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007, p.45-50.
Texto traduzido do original: BONHOEFFER, Dietrich. Gesammelte Werke - Band IV. Chr. Kaiser Verlag: München, 1961.
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