sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O novo paradigma da missão

Sempre desconfiei do senso comum. Considero necessária e até mesmo imprescindível a coragem de questionar tudo, inclusive os alicerces da alma e da existência humanas. Para quem porventura se preocupa comigo, advirto estar em boa companhia – também estou alinhado com o apóstolo Paulo, que disse que “contra a verdade nada pode, senão a verdade”.

Até o conceito de missão da Igreja associado à grande comissão pode ser questionado. Discordo dos que afirmam que essa missão é de fazer discípulos. Primeiro, porque a declaração de Jesus registrada em Mateus 28.18-20 nos permite apenas deduzir a missão da Igreja, e segundo, por considerar reducionista a equivalência da tarefa de fazer discípulos com a missão da Igreja.

As referências bíblicas utilizadas para deduzir a missão da Igreja são diversas, sendo as mais utilizadas as dos evangelistas. É fácil perceber que cada um de seus textos possibilita um resultado diferente para o enunciado definidor do que seria aquela missão. O registro de Mateus 28.18-20 possibilita a fórmula “fazer discípulos”, implicando necessariamente o ensino detalhado de todas as ordens de Jesus. Marcos indica a proclamação do Evangelho como tarefa essencial, assim como Lucas (24.46-48), que também sublinha a proclamação, mas com conteúdo menos abrangente, restrito à convocação ao arrependimento para perdão dos pecados. Já o evangelho de João abre um leque extraordinário quando afirma que a missão da Igreja deve ser derivada da missão de Jesus – “assim como”, o que remete a declarações do tipo: “Porque o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10.45); ou ainda: “Veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19.10), de onde poderíamos deduzir que a missão da Igreja se sustentaria em três ações concomitantes: buscar, servir e salvar. Por fim, em Atos 1.8, o evangelista Lucas aponta na direção do testemunho a respeito da pessoa e obra de Jesus como aspecto essencial da missão.

Uma leitura mais ampla da Bíblia Sagrada, disposta inclusive a buscar as referências do Antigo Testamento como elementos constitutivos da missão do Messias transferida para sua Igreja, nos levaria necessariamente a concluir duas coisas: a primeira é que existem outras tantas narrativas negligenciadas pelo senso comum dos que querem definir a missão; e a segunda é que, incluídas e consideradas estas outras peças do quebra-cabeças, o resultado final será não apenas diferente, como também – e principalmente – muito mais abrangente do que a mera declaração “fazer discípulos”.

Na narrativa de Mateus sobre o Sermão do Monte, Jesus identifica seus discípulos como sal da terra e luz do mundo. Ali, o Senhor amplia o horizonte de compreensão da missão, incluindo a necessária transformação – ou, no mínimo, uma afetação da realidade conjuntural – da terra e do mundo, mediante a presença de seus discípulos. Já Lucas 4.17-21 identifica na ação e presença messiânicas a liberdade dos cativos e oprimidos, conforme Isaías profetizou –.o que inclui, para muitos, as dimensões sociais, econômicas e políticas

Ainda que exista certa divergência nos limites implicados, está claro que a presença e atuação de Jesus e de sua Igreja no mundo extrapolam a relação pessoal do indivíduo com Deus. É reducionista a definição da missão da Igreja que se esgota no esforço de chamar pessoas ao arrependimento para remissão dos pecados. Nesta interpretação, “fazer discípulos” seria apenas ensinar aos que crerem todas as coisas que Jesus mandou. Da mesma forma, parece equivocado dissociar a missão da Igreja da atuação dos cristãos na sociedade. Tal raciocínio mantém a dicotomia entre evangelização e responsabilidade social, dando primazia ao testemunho verbal do conteúdo do kerigma sobre os atos de justiça. Nessa perspectiva, a Igreja é vista como uma comunidade diaconal, mas o serviço cristão se presta a autenticar a pregação do Evangelho.

As expressões “fazer discípulos” e “missão da Igreja” apontam realidades distintas e não podem ser consideradas sinônimas. Estamos, portanto, diante de pelo menos dois paradigmas; um que resume a missão da Igreja na conquista de novos seguidores de Cristo, e outro que a considera em termos mais abrangentes. No primeiro – o da grande comissão – a salvação se resume à conversão pessoal e individual. Salvo é todo aquele que crê na mensagem do Evangelho, se arrepende para a remissão de seus pecados e passa a viver integrado na comunidade cristã, sob os imperativos éticos da Palavra de Deus e o compromisso de propagar e difundir a mensagem de salvação.

Já o outro paradigma, o da missio Dei, descarta a idéia de missão restrita ao discipulado individual e supera o reducionismo da salvação como livramento dos indivíduos das penas eternas. A Igreja não é para o mundo, nem mesmo espaço de fuga do mundo, mas o próprio movimento de Deus para dentro dele, e nesse sentido, da Igreja com o mundo. A missio Dei se relaciona com a missão da Igreja fazendo desta última a comunidade solidária com o Cristo encarnado e crucificado, bem como ressurreto e exaltado. Em Missão transformadora (Editora Sinodal), David Bosch conclui que o propósito da missão da Igreja não pode ser simplesmente a implantação de igrejas e a salvação de almas. “Pelo contrario, deverá ser representar a Deus diante do mundo (...) Em sua missão, a Igreja é testemunha da plenitude da promessa do Reino de Deus e é partícipe da batalha contínua entre esse reinado e os poderes das trevas e do mal”.


Ed Rene Kivitz

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Um Lamento

Esse mensagem do Ed Rene vêm de encontro ao pensamento evangélico comteporâneo sobre tragédias que ocorrem durante a vida e mais uma vez mostra Deus como nosso refúgio, lugar de confiança e segurança. Que Deus os abençoe e confronte ao ouvir essa mensagem.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

domingo, 26 de outubro de 2008

Graça Barata

Teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer popularizou nos meios teológicos a expressão “graça barata” por meio de seu livro Discipulado (Nachfolge) escrito em 1937. Logo nas primeiras páginas, ele faz um alerta contra a graça barata dizendo:

A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja… (…) Graça barata significa justificação do pecado, e não do pecador. (…) A graça barata é a graça que nós dispensamos a nós próprios. A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado. (…)

Bonhoeffer contrasta a graça barata com a graça preciosa, pela qual, segundo ele, devemos lutar:

A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem; a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue. A graça preciosa é o Evangelho que há que se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-lo sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho - fostes comprados por preço - e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus.

Desde a primeira leitura de Discipulado em 1986, Bonhoeffer se tornou meu teólogo favorito. Como ele, creio que existe a possibilidade de tornar algo tão precioso e belo como a graça de Deus em um conceito vazio, destituído de qualquer poder transformador, uma graça que justifica o pecado, e não o pecador.


Autor Desconhecido

Um pouco mais sobre Bonhoeffer

Na manhã do dia 6 de abril de 1945, entre as 5 e as 6 horas, os prisioneiros [...] foram retirados de suas células e o julgamento do tribunal de guerra lhes foi comunicado. Pela porta entreaberta de um quarto, no acampamento, eu vi, antes que os condenados fossem despidos, o pastor Bonhoeffer de joelhos diante de seu Deus em uma intensa oração. A maneira perfeitamente submissa e certa de ser atendida com que esse homem extraordinariamente simpático orava me emocionou profundamente. No local da execução, ele orou novamente e depois subiu corajosamente os degraus do patíbulo. A sua morte ocorreu em alguns segundos. Em cinqüenta anos de prática, jamais vi um homem morrer tão completamente nas mãos de Deus.


[Testemunho do médico do campo de concentração nazista Flossenburg, citado em D. Rance. Un siècle de temóins. Paris: Fayard-Le Sarment, 2000]

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vida Breve

Essas ultimas duas semanas que se passaram, estive mais vezes no cemitério do que gostaria, e diante de tudo isso encontei-me de certa forma forçado a falar sobre a vida ou sobre a morte. Mas como também o meu aniversário está as vesperas de acontecer escolhi falar dos dois, mais principalmente da vida, por isso, segue essa mensagem do Pr Ricardo Gondim falando sobre a brevidade da vida.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Nietzsche e o Deus que dança

Nietzsche disse que só creria num Deus que soubesse dançar. No entanto, por insensibilidade ou por distração não percebeu que em Jesus Deus estava dançando e, por isso, perdeu o show e não pode apreciar a dança.

Sim, em Jesus Deus dançou e dança de forma graciosa conosco. Ninguém que com alguma percepção e sensibilidade leia o Evangelho deixará de ver Jesus em constante dança. Vejamos:

Ele começa seu ministério interrompendo a falência de uma festa e transformando água em vinho; ele é recriminado e criticado porque atende a convites para festas em casas de pessoas pouco recomendáveis e porque dança com pessoas descriminadas e consideradas indignas; sua misericórdia para com o drama humano é música aos ouvidos dos oprimidos e marginalizados; seus gestos inclusivos e subversivos são parte da mais estonteante das coreografias; e quando ele deseja expressar a alegria de Deus e de anjos pela chegada da consciência a algum coração, ele prepara o cenário de uma festa. O pai do pródigo dançava e gostava de música; os reis das parábolas de Jesus promoviam grandes festas; e o Nazareno em pessoa convidava todos para a Grande Festa.

Por isso, eu digo que Nietzsche não viu nada. Aliás, viu tanto “cristianismo” que não viu Deus dançando em Cristo. Ele mesmo não percebeu o quão pré-condicionado estava; não conseguiu enxergar que tudo era um convite para a festa na casa do Pai. As parábolas de Jesus estão cheias de convites para que se venha dançar e quando ninguém atende ao convite, ainda assim ele não cancela a festa: enche a casa de mendigos, veste-os com trajes próprios e ordena a liberdade.

Até João Batista, que não dançava do lado de fora, sabia que o que estava acontecendo era uma festa. Jesus era o noivo. A festa era dele. João se alegrava.

De fato, se eu tivesse que dizer alguma coisa ao filósofo, lhe diria: Eu é que não acredito em filósofos que não sabem dançar e nem ver quando a festa está proposta. O que custava ao filósofo era crer que Deus não tinha nada a ver com o mal humor do Cristianismo; que chatos são os cristãos e não o Cristo; faltava-lhe perceber o contraste que existia e existe entre Jesus e os religiosos. Acabou que o pensador foi incapaz de ouvir as músicas e entrar na festa.

Portanto, quem tem ouvidos para ouvir as músicas da Graça, que entre na festa. Deus está chamando você pra dançar e é por isso é que o convite tem o nome de Boas Novas.


Filipe Garcia

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Seu, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Seu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.


Friedrich Nietzche
(traduzido por Leonardo Boff)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Des-Em-Si-Mesmar

Os dois videos abaixos contém duas mensagens do Pr Ricardo Agreste, da Igreja Prebisteriana Chacará Primavera em Campinas. As duas mensagens fazem parte de uma série chamada Des-Em-Si-Mesmar, inclusive não apenas essas duas mensagens são recomendáveis, mas a série toda.

Abaixo segue a primeira mensagem cujo titulo é "Um Desafio na Vocação", ela é um pouco longa mas demasiadamente recomendável (a não ser para os que ainda não querem deixar o individualismo e egosimo de lado), nós desafiando atravéz do chamado de Abraão e da história de Israel.

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A segunda mensagem por sua vez nós desafia a olharmos para a Crucificação não apenas como ato de Amor e Redentor de Cristo, mas também com um exemplo a ser tomado por todos nós. O titulo da mensagem é "Um Exemplo na Rendenção".


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Espero que ambas mensagens abençõem mas que principamente desafie a todos nós. E caso deseje ouvir a série toda clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

sábado, 11 de outubro de 2008

Exprimentar Deus

Embora sem nome adequado, Deus arde em nosso coração e ilumina nossa vida. Então não precisamos mais crer em Deus. Simplesmente sabemos dele porque o esperimentamos.


Leonardo Boff
Citação do livro "Exprimentar Deus"

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo

Então, enquanto aguardam a chegada do dom do céu que iria ensiná-los a ser testemunhas, ocorre aos discípulos, para preencher o silêncio, decidir por si mesmos o que é ser uma.

Ressentindo-se da lacuna deixada pela traição do Iscariotes, Pedro levanta-se e propõe (citando versos vagamente contraditórios do livro de Salmos) que o grupo reunido escolha um dos discípulos para unir-se aos onze apóstolos restantes, de modo a completar "o grupo dos doze".

Não se deixe enganar pela singeleza da narração: trata-se de ocasião tremendamente momentosa, que derramará profundas fissuras Novo Testamento adentro. Pedro não está aqui apenas advogando a consistência numérica ou tentando preservar de modo inocente uma tradição iniciada por Jesus. O que acontece é mais ambicioso e mais prenhe de conseqüências.

Pedro está, por iniciativa própria, definindo o que Jesus queria dizer – e com que estava falando – quando observou, antes da ascensão: "vocês receberão o poder do Espírito Santo e serão minhas testemunhas". Selecionar é interpretar, e Pedro pede que encontrem "um homem que acompanhou os doze durante todo o tempo em que Jesus conviveu com eles, a começar do batismo de João até o dia em que ele foi recebido no alto diante deles". Embora fosse provavelmente seletiva o bastante para eliminar a maior parte dos discipulos reunidos naquele dia, essa descrição não é definição de Pedro de uma testemunha, mas de um candidato a testemunha.

Quando dois nomes são indicados, o grupo vê-se obrigado a eliminar um – visto que na interpretação de Pedro os apóstolos divinamente apontados não poderão ser mais do que doze, conforme a configuração original. O ajuntamento solicita austeramente a predileção divina e realiza um sorteio, que consagra Matias e elimina da corrida Barsabás – não que nem um nem outro voltem a ser mencionados na história.

Com isso fica claro de antemão, diante do grupo, que a condição de testemunha de Cristo é algo a que nem todos – na verdade, muito longe disso – podem almejar. Pedro estabelece tanto os requerimentos formais da posição quanto os limites da sua circunscrição – e assim, num golpe só, transforma uma idéia que Jesus deixara no ar numa muito rígida instituição.

Ficou estabelecida, nesse único gesto, a tradição que viria a ser conhecida como autoridade apostólica: a noção de que o círculo mais interno de doze discípulos (justamente por terem estado mais perto de Jesus, no sentido literal) desfrutava de uma espécie de inalienável aval divino. O parecer desse grupo de apóstolos passava a ser considerado inquestionável tanto em termos administrativos quanto teológicos. Dito sem rodeios, Jesus mal havia esfriado no túmulo e os discípulos já haviam inventado uma hierarquia (com o passar dos tempo, interpretou-se que essa autoridade ia sendo transferida para os novos discípulos que viveram mais perto deste círculo inicial de discípulos, e assim por diante até o infinito. A autoridade espiritual reduzira-se a traços de uma radioatividade original que ia se esvaindo).

Jesus dissera que os discípulos aguardassem o poder do alto, mas Pedro, do alto de sua posição, já está distribuindo poder. O que redime a história é que o Espírito de Cristo, onde quer que esteja nesse momento, tem outras idéias.


Paulo Brabo

Um pouco de humor

Bem a vida é algo maravilhoso e supreendente, mas é triste ver várias pessoas tentando a levar tão seriamente, retirando toda a graça e evitando ao máximo as boas gargalhadas que sempre fazem muito bem a nós. Então seque ai um video, de um grande "palhaço" e amigo Túlio, espero que todos aproveitem e deêm boas risadas, afinal sem humor fica a vda se torna demasiadamente efadonha.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Amizades Espirituais

Earl C. Willer conta a história de Jim e Phillip, dois meninos que cresceram juntos e se tornaram melhores amigos. Atravessaram a adolescência e a juventude juntos, e depois de formados na universidade decidiram ser tornar marines, os fuzileiros navais norte-americanos. Pro uma casualidade rara, foram enviados para a Alemanha e lutaram lado a lado em uma das mais cruéis batalhas da Segunda Guerra Mundial. No meio da batalha, sob fogo cruzado, explosões e muitas perdas, receberam ordem do comandante para que recuassem. Enquanto corriam em fuga, Jim percebeu que Phillip não estavam com os que voltavam. Entrou em pânico, pois sabia que se Phillip não retornasse em um dois minutos, provavelmente nunca mais o faria. Pediu ao comandante para que o deixasse voltar para buscar o amigo, mas não obteve permissão, sob a justificativa de que seria suicídio.


Arriscando a própria vida, Jim desobedeceu à ordem e voltou ao encontro de Phillip. Com o coração quase explodindo e sem fôlego, sumiu entre a fumaça, gritando pelo nome do amigo. Poucos instantes depois, tinha o amigo ferido nos braços, e tudo quanto conseguiu foi presenciar o último suspiro de vida de Phillip.


Ao regressar para juntar-se aos outros soldados, o comandante estava aos berros. Dizia que aquele fora um ato impensado, tolo, inconseqüente e inútil. “Seu amigo estava morto, e não havia nada que você pudesse fazer.” ”O Senhor está errado”, replicou Jim. “Cheguei a tempo. Antes de morrer, suas ultimas palavras foram: ‘Eu sabia que você viria’”.


Esta história pequena e verídica, registrada por John Maxwell em seu livro “The theasure of a friend”, conduziu-me a muitas reflexões a respeito da amizade genuína e despertou em mim alguns sentimentos extraordinários. Vivemos a era da tecnologia, em que o valor de todas as coisas deriva de sua funcionalidade e eficiência. Tudo ao nosso redor vai aos poucos se tornando maquina de manipulação a serviço de nosso conforto e conveniência. Experimentamos um tipo de tecnostress, tentando equilibrar uma parafernália eletrônica que nos oprime com sues botões e suas falsas promessas de facilitação e simplificação da vida.


A maneira que nos relacionamos com os objetos é transferida para as pessoas. Organizamos a agenda como quem ajeita um painel de controle, colocando cada pessoa num lugar de fácil acesso, do outro lado de um botão de celular ou a alcance da mão, na exata distância entre o mouse e a remessa do e-mail. Pessoas que acionamos quando bem desejamos ou dela necessitamos. Pessoas que se tornam biotecnoparafernálias com a missão literal de funcionar para nos suprir e servir.


Talvez de tão acostumados a interagir com secretárias eletrônicas já não saibamos o que fazer, com que tom falar, com que dosagem de afetividade temperar a fala quando alguém de carne que osso nos atende. E assim vamos tocando os dias: maridos usando esposas, filhos usando pais, patrões usando funcionários, pastores usando seus rebanhos, empreendedores usando seus clientes, numa fila interminável de relacionamentos utilitaristas, que acontecem dinâmica de um vice-versa sem fim.


Com isso, perdemos a capacidade de estar ao lado desinteressadamente mesmo quando a única coisa que se pode fazer é estar ao lado. Manipuladores de máquinas, formos mordidos pelo vírus da onipotência que a tudo pretende fazer funcionar, e já não admitimos que há momentos na vida dos quando tudo o que podemos fazer é estar ao lado e ouvir: ”Eu sabia que você vivia”.


Larry Crabb fala sobre a comunidade como “o lugar mais seguro da Terra”, e diz que nos tornamos consertadores – não podemos suportar um problema a respeito do qual nada podemos fazer. Nossa preocupação é melhorar as coisas. Ouvimos desabafos e confissões entre lágrimas e os rotulamos como se fossem problemas a resolver. Ocupamo-nos em diagnosticar, abrimos nossas maletas de frases feitas e chavões como quem saca ferramentas, tecnobisturis para consertar tecnopessoas que recebemos não para abraçar, mas para estender sobre o balcão da pseudo-oficina psico-espiritual.


Chega de campanhas políticas, apelos institucionais, convocações para a “obra do Senhor”, atividades religiosas e frenesi expansionista. Já é hora de pagar o preço, qualquer que seja ele, diz Crabb, de fazer parte de uma comunidade espiritual, e não uma organização eclesiástica. Já é hora de nos lembrarmos que “não sois máquinas, homens é que sois”, como profetizou a pedra chamada Chaplin. Quero amigos. Amigos que voltem ao de batalha e arrisquem a vida por mim. Amigos que voltem ao campo de batalha e arrisquem a vida por mim. Amigos que me tomem nos braços, ainda que seja quase tarde. E quero viver a altura de cada um deles.



Ed Rene Kivitz

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Deus Conosco

O Salmo 23 é o testemunho de Davi a respeito de seu relacionamento com Deus. Revela a maneira como Davi percebia e experimentava Deus. Caso alguém pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele diria Deus é o meu Senhor/Pastor, é Aquele que me supre, guia, restaura, acompanha na adversidade, protege dos inimigos e me cobre de misericórdia e bondade. Uma leitura teológico-sistemática diria que Deus pode ser chamado de Provedor (águas tranquilas, pastos verdes, e refrigério para a alma), Condutor (guia pelas veredas da justiça) e Protetor (vara e cajado no vale da sombra da morte, mesa farta na presença dos inimigos, bondade e misericórdia todos os dias) dos seus filhos.

Mas devo confessar minhas incredulidades. Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Provedor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais passarei por privações financeiras, jamais ficarei desempregado, jamais endividado, jamais irei mal nos negócios, jamais ficarei mais pobre do que sou hoje, jamais precisarei da ajuda de terceiros, a resposta desta vez é um peremptório NÃO.

Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Condutor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais tomarei decisões erradas, jamais escolherei o caminho da injustiça, jamais terei meus planos frustrados e castelos desmoronados, jamais ficarei indeciso e sem saber para onde ir, desta vez a resposta é igualmente um peremptório NÃO. Igualmente, caso você me pergunte se creio em Deus como meu Protetor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais serei tocado pelas fatalidades, jamais serei alcançado pela tragédia, jamais serei ferido pela maldade, jamais serei injustiçado, jamais sofrerei perdas ou danos, mais uma vez a resposta é um definitivo NÃO.

A convicção quanto à provisão, orientação e proteção de Deus não nos isenta das possibilidades de fracassos, fatalidades, privações e ferimentos, tudo isso, ônus do direito de viver. A própria biografia de Davi me autoriza a tal afirmação. O início de sua trajetória rumo ao trono foi marcado por perseguição e ódio. Seu primeiro exército foi composto da escória da sociedade: endividados, angustiados e pessoas descartadas pela sociedade de então. Davi teve um filho que estuprou uma filha e depois foi assassinado pelo irmão. Depois disso, Davi usurpou seu poder de Rei e tomou para si a mulher de um de seus comandantes militares, que mandou matar: adultério e assassinato. O filho de seu adultério foi morto por ato disciplinar de Deus. O filho fratricida se revoltou contra sua autoridade e liderou uma rebelião no reino de Israel. Este filho rebelde foi morto pelo exército real e depois Davi teve que comparecer diante do povo para agradecer e honrar os assassinos do seu próprio filho, por quem chorou, desejando ter morrido em seu lugar. Qualquer pessoa poderia questionar que tipo de Provedor, Condutor e Protetor é esse que permite uma biografia marcada por tragédias, crimes, ódios, e pecados suficientes para determinar a infelicidade crônica de qualquer mortal.

Isso me leva a crer que as afirmações de Davi no Salmo 23 devem ser interpretadas de outra maneira, distinta daquela que nos leva a crer que Deus nos coloca dentro de uma bolha de bem-estar, conforto, e prosperidade inabaláveis. Por esta razão, creio que a expressão que sustenta o relacionamento entre Davi e Deus não apresenta Deus como Provedor, Condutor ou Protetor. Estas dimensões do relacionamento pertencem a Deus, e nas mãos de Deus está a prerrogativa de como prover, conduzir e proteger os seus. A expressão que determina a qualidade do relacionamento entre Davi e Deus é “tu estás comigo”. Caso você pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele deixaria de lado a teologia sistemática e falaria com o coração: Deus é meu grande companheiro. Ele está sempre comigo. Esteve comigo na caverna de Adulão. Esteve comigo quando Saul corria atrás de mim para me matar. Esteve comigo quando meus filhos se matavam e se odiavam. Esteve comigo quando eu não soube o que fazer para estancar o ódio dentro da minha casa. Esteve comigo quando eu andava pela escuridão usurpando, matando, mentindo. Esteve comigo quando meu filho conspirava contra mim. Esteve comigo quando eu precisei superar a minha dor para resguardar a autoridade do meu exército e preservar a unidade do exército e do povo. Deus é meu grande companheiro.

Minha leitura deste Salmo 23 me ensinou duas coisas essenciais. Primeiro, me ensinou que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que Deus pode fazer por mim, mas sim naquilo que Deus pode fazer em mim. As expectativas que tenho a respeito de Deus não estão relacionadas ao que Ele pode fazer em minhas circunstâncias, mas sim ao que Ele pode fazer em meu coração.

Afirmar “o Senhor é meu Pastor e nada me faltará” implica um caminho livre de ansiedade e repleto de satisfação. Espero que o dia da escassez nunca bata à minha porta, mas se chegar, o que mais espero é poder dizer que “aprendi a estar contente em qualquer situação, porque Deus está comigo, e posso superar qualquer circunstância ruim naquele que me fortalece”.

Afirmar que “ele me conduz às águas tranqüilas, aos pastos verdejantes e restaura a minha alma”, implica um caminho de serenidade e saúde emocional. Tenho certeza que Deus tem o seu caminho no meio da tormenta, e mesmo no deserto, me levará aos mananciais onde poderei ser restaurado no corpo e na alma. Espero jamais passar pelo que Paulo apóstolo passou, mas caso necessário, o que mais espero é também poder dizer que “combati o bom combate, terminei a carreira e guardei a fé: estou inteiro e passaria por tudo novamente”.

Afirmar que Deus prepara uma mesa na presença dos meus inimigos e unge a minha cabeça com óleo, implica um caminho onde a alegria é possível mesmo quando o que é mal está diante dos nossos olhos. Espero que o ódio do mundo e do mal não se materializem contra mim de forma tão visível e explícita, mas caso aconteça, espero muito mais ter a coragem de continuar em frente, com os olhos fitos na mesa posta pelo Bom Pastor que me prometeu vida abundante no meio dos lobos.

A segunda coisa que aprendi lendo o Salmo 23 é que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que Deus pode fazer por mim, mas no que eu posso fazer tendo um Deus como Ele. Diante dos vales de sombra da morte, não devo ficar esperando que Deus me leve para longe do vale, ou que Deus afaste do vale a sombra da morte. No dia em que tudo ficar escuro, espero me não me deixar tomar por um espírito de covardia, mas me levantar movido pelo espírito de amor, moderação, e poder, para atravessar o vale com a dignidade que somente os que afirmam “Deus está comigo” podem ter.

Que venha o futuro – ou melhor, eu vou ao futuro sentado na confortável poltrona 23.


Ed Rene Kivitz

domingo, 5 de outubro de 2008

O tipo de Fé que quero

Não quero a fé que espera Deus trabalhar por mim. Quero a fé que me faz trabalhar para Deus. Não quero a fé que me faça prosperar entre meus irmãos. Quero a fé que me faça cooperar e servir para que meus irmãos prosperem. No fundo, acho que sou movido por ambições maiores: não quero ser apenas fiel, quero ser herói da fé. Não me basta ser o tipo de homem que é digno no mundo. O que quero mesmo é ser o tipo de homem do qual o mundo não é digno.


Ed Rene kivitz
Citação do livro "Outra Espiritualidade"

Aproveitando a oportunidade

Aproveitando a oportunidade de um dia de eleições, potica e urnas dexio com vocês esse video com a música Pra Cima Brasil do João Alexandre. Pois além de esperar que todos tenham feito bom uso do seu direito de voto, pois como disse aos meus amigos: "urna não é privada", desculpem a expressão mas acho que todos entederam oque quis dizer com ela.

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A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

sábado, 4 de outubro de 2008

Tempo de Transcendência

A baixo segue uma preleção do teologo Leornando Boff, sei que parace um pouco longa, mas no caso de falta de paciência pelo menos ouça os ultimos 10, 15 minutos, creio que será no minimo muito interessante.

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A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O segredo de agradar a Deus

"Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz" Eclesiastes 9.7

José Fulano de Tal morreu ontem. Pobre homem! Consciente dos seus deveres, nunca atrasou no relógio de ponto. Jamais perdeu um trem. Era impensável que acelerasse no sinal amarelo. Correto, pagou todas as suas prestações na data exata. Vestiu a mesma camisa até puir o colarinho. Sempre elegeu o candidato que votou. Leu o jornal diariamente. Teve um enterro comedido, sem muita emoção, parecido como a sua existência.

José Fulano de Tal foi assíduo membro de uma igreja. Submeteu-se aos regulamentos e exigências de sua religião - seu maior desejo na vida era agradar a Deus. Trabalhou incansavelmente nos mutirões do bairro. Contribuiu com entidades filantrópicas. Em sua última jornada, os amigos, parentes e curiosos caminharam circunspetos pelas alamedas do cemitério. Despediam-se de um homem que não conseguiu viver.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta gostar, mas gostar mesmo, de poesia. No poema, a palavra ganha ritmo para sincronizar-se com o pulsar do universo. E nessa magnífica, porém silenciosa palpitação, ressoa a voz do Divino.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta achar tempo para ouvir música. Quando melodia e rima se acasalam, nasce a sublime sonoridade do Paraíso. O Pai Eterno sorri quando seus filhos se aquietam para escutar os artesãos dos salmos, dos noturnos, das toadas, dos réquiens, das cantatas, das óperas, das polcas, do samba, dos hinos, dos recitais, dos corais, do jazz, da bossa-nova.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta amar os livros. É prazeroso para Deus, ver os filhos transcendendo para mundos imaginários através da prosa, da narrativa. Os romances dissecam a alma humana, enaltecem a virtude, expõem a crueldade e quando não sofrem censura, descrevem a realidade crua da vida.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta transformar cada refeição em um ágape, cada aperto de mão em uma aliança e cada abraço em uma declaração de amor.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta deixar-se conduzir por um vento desatento, rumo ao horizonte inatingível; e esperar por um porvir insubstancial. Já que Deus gosta de prados selvagens e de matas sem cercas, viver é arriscar-se. Deus sabe desenhar o arco-íris com as gotas do ribeiro que despenca no precipício. Portanto, só vive quem não teme esvaecer.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta gostar de vinho, de doce de leite, de tapioca com manteiga, de filme de amor, de esporte, de meia hora de sono extra no feriado, de bolo de milho, de cafuné, de beijo, de viagem de férias com dois dias sobrando para descansar do descanso.

José Fulano de Tal deveria ter aprendido que para viver, basta chamar Deus de Pai ou de Mãe.


Ricardo Gondim

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Para suscitar reflexição

Perguntaram para Dai Lá Lama

O que mais te suprende na Humanidade?
Ele respondeu:
"O homem. Porque perde a saúde para ganhar dinheiro e depois perde o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensar anciosamente no futuro, esquece do presente de tal forma que acabam por não viver, nem o presente e nem o futuro.
E vivem como se nunca fosse morrer, e morrem como se nunca tivesse vivido!."


Dai Lá Lama

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

À espera do pai

Assisti algumas vezes o filme do cineasta brasileiro Walter Salles, Central do Brasil. Trata-se da história comovente de um menino, órfão de mãe no Rio, cujo pai vive no Nordeste, marcineiro mas entregue ao alcoolismo. Uma ex-professora primária que escrevia cartas a pedido de analfabetos lhe serve de guia. O menino quer porque quer conhecer o pai distante. A professora o acompanha numa viagem atribulada até identificar a casa onde o pai vivia no sertão nordestino. Ao chegar, descobre que o pai saira em busca do filho no Rio. Imenso qüiproquô: o filho sai do Rio e vai em busca do pai no Nordeste e o pai sai do Nordeste e vai em busca do filho no Rio. A história termina num impasse. Ninguém encontra ninguém. Mas ambos ficam esperando.

Esse filme, premiado pelo mundo afora, representa uma brilhante metáfora da figura do pai ausente e do filho abandonado. Todos dizem ao menino que o pai não vale nada. Mas não importa. Ele corre atrás do arquétipo do pai. E o arquétipo é uma força poderosa que move as pessoas em busca do pai real. Nele quer encontrar o herói, a referência básica, o sentido de orientação, o respeito aos diferentes e o aprendizado de limites necessários para a convivência.

Se o filho precisa de orientação, o pai sente o dever de oferecê-la. Só nesta conjunção entre a necessidade de um e o dever do outro, se dá e se criam as condições para uma educação adequada do filho, até ser pai de si mesmo.

Hoje há um sofrido eclipse da figura do pai. Por força do trabalho e de injunções sociais, ele está largamente ausente de casa. O filho sente um vazio que ninguém pode preencher. O conhecido psiquiatra infantil Donald R. Winnicott nos mostrou detalhamente como funciona a lógica psíquica nos dois a três primeiros anos de vida de uma criança. Primeiro, comparece a influência da mãe que lhe garante o sentimento de acolhida e de amor incondicional. Daí resulta a auto-estima e a segurança da criança. Em seguida, surge a figura do pai. Ele é a ponte entre o universo familiar e o mundo dos outros e da sociedade em geral. A criança entra num processo de estresse e de medo. Deixa o útero aconchegante da família e ingressa num mundo onde há diferenças, normas e conflitos. É função do pai ajudar o filho a fazer bem esta travessia, na qual deve sentir-se seguro, reconhecer e respeitar limites e acolher normas que lhe permitem conviver pacificamente com os outros.

Hoje ambos, pais e filhos, se encontram em crise. O filho espera o pai que não vem ou que saiu de cena ou que foi substituído pelo herói mais próximo. Este pode ser um professor, um tio querido e até um chefe do tráfico local, portador de arma pesada, capaz de enfrentar a policia e de matar. O filho sem a figura interior do pai-herói, tende a imitar a estes ou padece de um vazio oceânico. Sente-se perdido, sem rumo na vida, psiquicamente desestruturado.

O pai que sente, em seu íntimo, seu dever de pai, percebe-se desarmado, vencido por outros concorrentes, enfraquecido em sua honra porque se encontra desempregado e considerado um perdedor. É um anti-heroi. Como pode preencher a necessidade arquetípica do filho que quer ver nele o herói corajoso e vencedor?

Ambos estão à espera um do outro com sofrimento e infinita saudade. Agora entendemos a verdade de Telêmaco filho de Ulisses, na Odisséia de Homero: ”Se aquilo que os mortais mais desejam, pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu pediria aos deuses, seria a volta de meu pai”. É um clamor por um rumo na vida.

Pai, volte de pressa. Como no filme, teu filho te necessita e te espera com um olhar longo e saudoso no ponto de ônibus.


Leonardo Boff

Olhar de criança

Não tenho medo do julgamento final, sei que seremos julgados por um olhar de criança... Quando hoje me coloco diante desse terrível olhar inocente, não consigo ter ilusões sobre mim mesmo e, ao mesmo tempo, não posso mais desesperar. Quando fomos olhados assim, não nos sentimos mais fora do alcance do amor, qualquer que seja a espessura de nossas máscaras.


Jean-Yves Leloup
Citação do livro "O Absurdo e a Graça"

Envia-me Senhor

Marcos 5.7-13; Lucas 9.1-6.

Chamando seus doze discípulos, deu-lhes autoridade para expulsar espíritos imundos e curar todas as doenças e enfermidades. Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, que o traiu. Jesus enviou os doze com as seguintes instruções:

"Não se dirijam aos gentios, nem entrem em cidade alguma dos samaritanos. Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel. Por onde forem, preguem esta mensagem: 'O Reino dos céus está próximo'. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; dêem também de graça. Não levem nem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu sustento.

Na cidade ou povoado em que entrarem, procurem alguém digno de recebê-los, e fiquem em sua casa até partirem. Ao entrarem na casa, saúdem-na. Se a casa for digna, que a paz de vocês repouse sobre ela; se não for, que a paz retorne para vocês. Se alguém não os receber nem ouvir suas palavras, sacudam a poeira dos pés quando saírem daquela casa ou cidade. Eu lhes digo a verdade: No dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.

Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios. Mas quando os prenderem, não se preocupem quanto ao que dizer, ou como dizê-lo. Naquela hora lhes será dado o que dizer, pois não serão vocês que estarão falando, mas o Espírito do Pai de vocês falará por intermédio de vocês.

O irmão entregará à morte o seu irmão, e o pai, o seu filho; filhos se rebelarão contra seus pais e os matarão. Todos odiarão vocês por minha causa, mas aquele que perseverar até o fim será salvo. Quando forem perseguidos num lugar, fujam para outro. (...)

Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais! Quem, pois, me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante do meu Pai que está nos céus. Mas aquele que me negar diante dos homens, eu também o negarei diante do meu Pai que está nos céus.

Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que 'o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família'.

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.

Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará. (...)

Que ouçamos este chamado de Deus para novidade e mudança, entrega e renúncia, confiança e desafios...


Robson Eudes Duarte

(Essa reflexão foi retirada de um email enviado à mim por esse meu grande amigo, que já há um bom tempo tem me suportado e caminhado comigo em bons e outros não tão bons momentos da minha vida)

A Unidade Como um Fim

Após a ceia comunitária, conjunta, ecumênica – no sentido evangélico da palavra – programaram uma reunião para pastores e líderes com o objetivo de falar sobre as vantagens da unidade. Coube-me o privilégio de falar sobre o tema “A unidade e a evangelização”. Ao elaborar o que haveria de falar, comecei, obviamente, a tentar entender a relação entre uma coisa e outra. Como não poderia deixar de ser, recorri à oração de Jesus Cristo registrada pelo evangelista João, no capítulo 17 do livro que leva o seu nome, principalmente os versículos que se sucedem a partir do versículo 20, que diz: “não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim por intermédio da sua palavra, a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.”

Procurei, nestes dois versículos (20 e 21, de João 17), trabalhar o que deveria ser a minha fala. Entretanto, tão logo comecei a trabalhá-los me dei conta de que, historicamente falando, unidade e evangelização não são necessariamente complementares entre si. Isso não é difícil de provar, tendo em vista que há milênios estamos divididos. Contudo, a igreja continua a crescer, o Evangelho continua a ser pregado, às pessoas continuam a se converter. Então eu me dei conta de que unidade não é conditio sine qua non para uma evangelização eficaz. A evangelização tem ocorrido e produzido o adensamento da Igreja, a despeito de todas as divisões que sabidamente temos sofrido, por motivos que variam dos mais nobres aos mais mesquinhos, ao longo de nossa história.


O pior é que parece que o apóstolo Paulo concorda comigo, pois, em Filipenses, capítulo 1, do versículo 15 ao versículo 18, ele diz: “Alguns efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei”. Em outras palavras, o apóstolo Paulo está ratificando o que temos dito, que evangelização e unidade não são conseqüentes, entre si, ou interdependentes. Pode haver evangelização sem que haja um mínimo de unidade, até mesmo em termos de intenção de alcançá-la. Isto é o que a História tem nos ensinado e, segundo testemunho do apóstolo Paulo, desde priscas eras da Igreja cristã.


O que, então, evangelização tem a ver com unidade? Creio que, em termos de operacionalização, muito pouco. E acho que o que os irmãos mineiros, de fato, estavam buscando, não era a relação entre evangelização e unidade, mas sim, a relação entre evangelização e união. Nesse caso, não há dúvida de que esforços conjuntos, promovidos por igrejas unidas num só propósito, facilitariam, e muito, a evangelização de qualquer cidade. Por exemplo, a cidade poderia ser dividida em áreas, e cada área ser alocada para uma igreja, de modo que esta se responsabilizasse pela evangelização de todos os indivíduos que habitam na sua proximidade. É óbvia que isso não só apressaria o trabalho de evangelização da cidade como o tornaria factível. Há exemplos históricos disso, não só no Brasil, mas também, no Exterior. Aqui no Brasil, um dos exemplos mais eficazes foi o da evangelização de Santo André, encabeçada pela Primeira Igreja Batista de Santo André, quando o pastor Bartimeu era, então, o pastor titular daquela comunidade. Ele logrou envolver um grande número de igrejas evangélicas de Santo André no projeto e foi exatamente o que fez: dividiu a cidade em regiões e alocou uma para cada igreja, ou denominação, ou grupo de igrejas, o que, obviamente, não só acelerou como o tornou possível.


Mas é óbvio que união e unidade não são exatamente a mesma coisa. Unidade fala de um só pensar, de um só sentir, de um único desejo e consciência. É algo muito profundo. A unidade fala de um homem coletivo, enquanto que a união fala da soma de esforços, da conjugação de esforços, da organização de esforços, independente do que sentem ou do que pensam individualmente os participantes (conjugados).


Temos então que concluir que, do ponto de vista operacional, evangelização prescinde da unidade. Mas, quando observo a oração de Jesus Cristo, me dou conta de que se a operacionalização da evangelização pode prescindir da unidade, o resultado da evangelização não o deveria. E por quê? Porque no versículo 20, do capítulo 17, do Evangelho de João, Jesus Cristo, diz: “não rogo somente por eles, mas também por aqueles que vierem a crer em mim por intermédio da sua palavra, a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, também sejam eles em nós.” Ora, há um desejo explícito de Jesus Cristo aqui, e mais do que um desejo há um propósito. O Senhor parece deixar claro que Ele espera que todos os que vierem a crer nele, de fato, participem de uma unidade. Dessa forma, podemos dizer que o grande objetivo da evangelização é adensar a unidade que Jesus Cristo veio instaurar ou, melhor dizendo, restaurar.


Eu penso que é disso mesmo que estamos falando. Quando falamos de unidade da Igreja, não estamos falando de uma opção eclesiológica, ou de uma forma de ser Igreja, mas falando da Igreja na sua essência. Porque Jesus Cristo, em Sua oração, parece não ver a Igreja de outra forma, senão, como uma grande unidade humana. Daí Sua oração para que todos os que vierem a crer n´Ele, adensem essa unidade, já preexistente em relação àqueles que vão chegar. Dessa forma podemos perceber que “unidade”, para Jesus Cristo, é uma questão de essência. O que é a Igreja? Igreja é a unidade humana restaurada por Jesus Cristo. E parece-me que esse foi o grande objetivo de Jesus Cristo, ao ir à cruz. A gente pode perceber isso em Efésios, capítulo 2, versículo 15, onde está afirmado: “aboliu na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.”

O que estes dois versículos, o 15 e o 16, do capítulo 2 de Efésios, estão nos dizendo? Que o grande propósito da vinda de Jesus Cristo ao mundo e de Sua subida ao madeiro era criar uma unidade humana que Ele chamou de Igreja – a Sua Igreja. Dá-nos, portanto, a impressão de que a visão de Jesus Cristo era muito maior que a Salvação de indivíduos, isoladamente, e muito maior do que a transformação destes mesmos indivíduos – porque, como é sabido, o movimento da salvação é duplo: de um lado ele tira o sujeito do inferno e, do outro, tira o inferno do sujeito. Mas esta informação de Efésios parece nos dizer que não pára aí, porque, se parasse, estaríamos falando de algo meramente individual. Efésios, contudo, aponta-nos para o coletivo. Inclusive, a Bíblia de Jerusalém traduz este trecho, “um novo homem” como “um só novo homem” que, na minha opinião, é a tradução que capta o sentido mais profundo desta afirmação paulina. Ou seja, Jesus Cristo veio ao mundo para restaurar a unidade humana que foi quebrada no Éden, quando da rebelião da raça.


A impressão que este texto nos passa, portanto, é que Igreja, para Jesus Cristo, é o homem coletivo; que o grande objetivo de Jesus Cristo é ter um corpo de pessoas, como Igreja, que não apenas se amem, mas que, por tanto se amarem, tornam-se um só homem. Que têm, em si, inclusive como Paulo aconselha, um mesmo sentimento – “tende em vós”, diz ele, “um mesmo sentimento” – que, como Paulo também aconselha, referindo-se às duas irmãs que estavam em litígio, pensam a mesma coisa e são permeados pela mesma consciência, uma vez que o Cabeça, o Cérebro, e a Consciência da Igreja é Cristo.


Na Igreja, assim, as pessoas já se vêem como extensão umas das outras – ou ao menos deveriam, – mesmo porque, por definição, são “membros uns dos outros” – o grande corpo de Cristo. A própria figura do corpo já nos aponta para esta realidade: a realidade da harmonia, da unidade, a realidade do homem coletivo que tem a Jesus Cristo como cabeça.


Portanto, evangelização está intrinsecamente ligada à questão da unidade, não necessariamente pela operacionalização, mas, pelo seu propósito de convocar e agregar o maior número possível de seres humanos à unidade humana que Jesus Cristo implantou, e que chamou de “Sua Igreja”.


Agora parece claro que, se o propósito da evangelização é o adensamento da unidade, era de se esperar que o movimento que leva esta mensagem de conversão aos seres humanos fosse caracterizado justamente pela unidade. Portanto, a unidade dá credibilidade à evangelização, e conseqüentemente, dá testemunho da obra de Cristo. Parece-me que é isto é o que está explícito na afirmação de Jesus Cristo em Sua oração ao Pai, quando Ele coloca a unidade como condição para que o mundo creia que Ele foi enviado pelo Pai. É uma colocação fortíssima, e nos leva a considerar que, se a unidade não é imprescindível para a operacionalização da evangelização, ela é imprescindível para que essa operacionalização goze de crédito, e mais, para que a evangelização, de fato, revele tudo o que Jesus Cristo gostaria de ver revelado a respeito de Sua obra a Seu próprio respeito. Jesus Cristo veio para restaurar a unidade humana, unidade esta que, uma vez restaurada, tornar-se-ia a casa viva do Deus vivo, porque um deus vivo tem que morar numa casa viva.


Assim, a Igreja, ao evangelizar, não apenas chama os homens à unidade, como está obrigada a evangelizar a partir da unidade, porque é na unidade que ela revela, de fato, o grande projeto de Jesus Cristo. Hoje, quando pregamos o Evangelho, a partir de nossas divisões e idiossincrasias, o que comunicamos sobre Jesus Cristo é que Ele está dividido; que Ele não consegue manter o Seu povo unido; que Ele, no mínimo, não conta com a fidelidade de todo o Seu povo. Porque, ainda que o Seu desejo explícito seja a unidade de Seu povo, ainda que o Seu clamor seja pela unidade, ainda que o propósito da Sua obra tenha sido a formação de uma unidade humana. Seus filhos não se submetem à Sua vontade, não se abrem a essa unidade proposta por Jesus Cristo. Pelo contrário, cada vez mais se dividem e por, cada vez, menos. É claro que a evangelização vai continuar a acontecer, que as pessoas vão continuar a se converter, até porque a conversão do ser humano é uma obra da graça de Deus e um ato soberano de Deus. Mas não há a menor dúvida de que esta evangelização está comprometida. Ele não revela a verdadeira natureza do projeto de Jesus Cristo, e ela não testemunha de Jesus Cristo o que Ele gostaria de ver testemunhado; ela não fala do grande projeto de Cristo que é a grande unidade humana, unidade esta, que tornaria possível ao homem a expressão de Deus Triuno.


Por isso, unidade e evangelização, realmente, têm muito a ver. A unidade é a base da evangelização, e é o fim, o propósito da evangelização. Além do que o Senhor Jesus Cristo deixa claro que a unidade é um lugar. Ele afirma, na Sua oração ao Pai, uma relação. Ele diz: “para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim.” Ele diz: “a fim de que todos sejam como és tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, também sejam eles em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” Então, a unidade, aqui, é também um lugar: é o lugar espiritual da Igreja. Assim como Deus está em Cristo, Cristo está em Deus, e nós estamos n´Eles; assim como Eles são unidos, assim como Eles constituem uma unidade, nós, n´Eles, nos constituímos, ou fomos constituídos também unidade. E isso significa que o nosso esforço, o nosso trabalho, a nossa evangelização, enfim, todos os nossos atos, deveriam expressar a nossa unidade, a que foi constituída na Trindade. Logo, quando evangelizamos sem levar em consideração a unidade, falamos de Deus como se Ele estivesse dividido; falamos de Cristo como se Ele não tivesse, de fato, tanta autoridade assim sobre os Seus filhos; e falamos do Evangelho como algo meramente individual. Parece-me que, ao perder a dimensão da unidade, fomos, necessariamente, relegados ao individualismo, que é a negação do cristianismo. Penso que é hora de repensarmos esta relação entre unidade e evangelização, para que de fato a nossa evangelização tenha crédito e Jesus Cristo possa ser crido, como todos o desejamos.



Ariovaldo Ramos

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