quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sobre Jesus

E não era meramente uma revolução moral e social que Jesus proclamava: fica claro por um grande número de indicações que seu ensino tinha uma inclinação política muito manifesta. É verdade que ele disse que seu reino não era deste mundo, e situava-se no coração dos homens e não sobre um trono; porém fica igualmente claro que em todo o lugar e na medida em que seu reino se estabelecesse no coração dos homens, o mundo exterior seria naquela mesma medida revolucionado e renovado.

O que quer que a cegueira e a surdez dos seus ouvintes tenham deixado de captar das suas palavras, é muito evidente que não deixaram de captar sua firme resolução de revolucionar o mundo. Todo o método da oposição levantada contra ele, bem como as circunstâncias de seu julgamento e execução, demonstram claramente que para seus contemporâneos ele parecia estar propondo sem rodeios, e de fato propôs sem rodeios, alterar e fundir e alargar toda a vida humana.

Em vista das coisas que Jesus disse claramente, será de espantar que todos que eram ricos e prósperos tenham intuído um horror de coisas insólitas, o naufrágio iminente de seu mundo diante do seu ensino? Ele estava arrastando todas as pequenas reservas que eles haviam levantado contra o serviço social e trazendo-as para fora, para luz de uma vida religiosa universal. Ele era como um terrível caçador moral que forçava a humanidade para fora das cômodas tocas nas quais tinham vivido até aquele momento. No esplendor branco do reino dele não deveria haver propriedade alguma, privilégio algum, nenhum orgulho e nenhuma preferência; nenhum motivo e nenhuma recompensa que não fosse o amor. Será de espantar que os homens se tenham ofuscado e cegado e clamado contra ele? Mesmo seus discípulos clamavam em protesto quando ele não os poupava da luz. Será de espantar que os sacerdotes tenham percebido que entre este homem e eles mesmos não havia outra escolha, senão que ele ou o sacerdócio teriam de perecer? Será de espantar que os soldados romanos, confrontados e estupefatos diante de algo que se alçava muito além da sua compreensão e ameaçava todas as suas disciplinas, tenham buscado refúgio na risada selvagem, tenham-no coroado de espinhos e vestido de púrpura e feito dele uma versão de César da qual pudessem caçoar? Pois levá-lo a sério era adentrar uma vida estranha e intimidadora; era abandonar hábitos, controlar instintos e impulsos, era ensaiar uma incrível felicidade. Leia +


H. G. Wells em Breve História do Tempo (1922)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nas minhas palavras, Rubem Alves

“Quer eu escreva como um poeta, no esforço para mostrar a beleza,
ou como palhaço, no esforço para mostrar o ridículo,
é sempre a minha carne que se encontra nas minhas palavras”.


Rubem Alves

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Conhecendo um pouco sobre Santo Anselmo

Anselmo de Cantuária (1033/1034, Aosta - 21 de Abril 1109, Canterbury), nascido Anselmo de Aosta (por ser natural de Aosta, hoje na Itália), e também conhecido como Santo Anselmo, foi um influente teólogo e filósofo medieval italiano de origem normanda.

Foi Arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109 (sucedendo a Lanfranco, também um italiano), por nomeação de Henrique I de Inglaterra, de quem foi amigo e confessor, mas depois divergiu com ele na Questão das Investiduras. É considerado o fundador do escolasticismo e é famoso como o criador do argumento ontológico a favor da existência de Deus.

Viria mais tarde a ser canonizado pela Igreja Católica, e declarado Doutor da Igreja em 1720, pelo Papa Clemente XI. Santo Anselmo nasceu em Aosta, filho de um nobre, e de uma mãe rica, Ermenberga. Seguiu a carreira religiosa, estudou os clássicos e escreveu sempre em latim. Foi eleito prior em 1063, porque era considerado inteligente e piedoso. Sua biografia nos é contada pelo seu discípulo, Eadmero.

Foi comum na Idade Média que os religiosos buscassem o apoio da fé na razão. Anselmo escreveu uma obra sobre esse assunto. É considerado um dos iniciadores da tradição escolástica. "Não só a habilidade dialética fez de Anselmo o precursor da Escolástica, como também o princípio teológico fundamental que adotou: fides quarens intelectum. Foi ele também quem forjou uma nova orientação à teoria dos universais e que reverteu em grande proveito para os intuitos da Teologia racional" (SPINELLI, Miguel. O itinerário filosóffico de Anselmo de Cantuária, In: Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, t.64, f.1 2008, p. 247).

Anselmo buscava um argumento para provar a existência de Deus, e sua bondade suprema. Fala que a crença e a fé correspondem à verdade, e que existe verdadeiramente um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ele não existe apenas na inteligência, mas também na realidade. Anselmo desenvolveu uma linha de pensamento sobre essas bases, chamados de argumento ontológico, que foi retomada por Descartes e criticada por Kant, e ela estava numa obra chamada Proslógio. Ele parte do fato de que o homem encontra no mundo muitas coisas, algumas boas, que procedem de um bem absoluto, que é necessariamente existente. Todas as coisas tem uma causa, menos o ser incriado, que é a causa de si mesmo e fundamenta todos os outros seres. Esse ser é Deus. Seus argumentos não foram totalmente aceitos.

Anselmo chegou a arcebispo da Cantuária em 1093. Escreveu outras obras importantes, Do Gramático e Da Verdade, ambos em latim. Recebeu doações de terras para a Igreja, mas brigou com Guilherme, o ruivo, rei da Inglaterra pois não queria fazer comércio com os bens da Igreja. Isso foi considerado um desrespeito ao poder real, e Guilherme impediu Anselmo de viajar para Roma, desafiando o poder da Igreja.

Num dos seus primeiros livros, Monológio, em que apresenta sua visão de Deus, Anselmo fala que a essência suprema existe em todas as coisas e tudo depende dela. Reconhece nela onipotência, onipresença, máxima sabedoria e bondade suprema. Ela criou tudo a partir do nada. Anselmo procurava desenvolver um raciocínio evolutivo sobre o que considerava ser a verdade, que estava contida na Bíblia. Para Anselmo, o pensamento tem algo de divino, e Deus tem uma razão. Sua palavra é sua essência, e Ele é pura essência (essa noção não é nova) infinita, sem começo nem fim, pois nada existiu antes da essência divina e nada existirá depois. Para ela o presente, o passado e o futuro são juntos ao tempo, são uma coisa só. E Ela é imutável, uma substância, embora seja diferente da substância das outras criaturas. Existe de uma maneira simples e não pode ser comparado com a consciência das criaturas, pois é perfeito e maravilhoso e tem todas as qualidades já citadas. O verbo e o espírito supremo são uma coisa só, pois este usa o verbo consubstancial para expressar-se. Mas a maneira intrínseca que o espírito supremo se expressa e conhece as coisas é incogniscível para nós. O verbo procede de Deus por nascimento, e o pai passa a sua essência para o filho. O espírito ama a si mesmo, e transmite esse amor.

Para Anselmo, a alma humana é imortal, e as criaturas seriam felizes e infelizes eternamente. Mas nenhuma alma é privada do bem do Ser supremo, e deve buscá-lo, através da fé. E Deus é uno. Para contemplá-lo devemos nos afastar dos problemas e preocupações cotidianos e buscá-lo. Ele é onipotente embora não possa fazer coisas como morrer ou mentir. É piedoso, em parte por ser impassível, o que não o impede de exercer sua justiça, pois ele pensa e é vivo. Anselmo fala muito da crença divina do Pai, do filho e do espírito humano. Grandes coisas esperam por aquele que aceitar Deus e buscá-lo. Santo Anselmo influenciou muito o pensamento teológico posterior.


Para maiores detalhes clique aqui.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Que tipo de teólogo você é?

Essa aqui é um teste para o pessoal que gosta de teologia. Através desse teste você vai identificar com que teólogo você se parece mais! Eu fiz e achei muito interessante, e por isso estou colocando aqui para o pessoal acessar. Faça o teste e depois a gente conversa sobre os resultados lá em comentários!

Para começar a fazer o teste, clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Monge italiano abandona heavy metal

"A música é uma dádiva divina, mas a fama é uma tentação demoníaca." Se essa mensagem fosse compreendida no meio gospel, muitos ouvidos seriam poupados de músicas medíocres e de pregações cujo objetivo é tão-somente o bolso do povo. (retirado do Pavablog, para visitar o Pavablog clique aqui)

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A Deus Somente A Gloria,
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

No minimo curioso

No minimo curioso e engraçado, por assim, dizer.

Você que critica ou elogia os líderes evangélicos, já parou para pensar com qual destas personalidades você se parece mais? Com qual tem mais afinidade? O site Quizfarm.com é uma página especializada em testes do tipo quiz. Em um dos testes(Qual neo-evangélico você se parece?), você dá a sua opinião sobre 50 frases e jargões usados por personalidades da "comunidade evangélica". Para jogar, você precisa classificar cada uma das frases em diferentes níveis, que vão de "Heresia" a "Unção da Sabedoria".

Depois de classificar todos os "bordões", você terá a agradável ou terrível surpresa de ser comparado a Bispo Macedo, Estevam Hernandes, Silas Malafaia, os Valadões (André e Ana Paula), R.R. Soares, dentre outros. Isto porque o site indica com qual dos "líderes" você se parece mais e a porcentagem de afinidades entre você e o pastor-bispo-profeta-apóstolo...

Além de mostrar a figura gospel que mais se parece (ou pensa) como você, o site estabelece um ranking com todos os outros personagens.

Para fazer o teste, clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Teologia da prosperidade

Quando, na década de 80, a teologia da prosperidade chegou ao Brasil, ela veio como uma nova tese sobre a fé, prometia o céu aqui para o que tivesse certo tipo de fé. As promessas eram as mais mirabolantes: garantia de saúde a toda prova, riqueza, carros maravilhosos, salários altíssimos, posições de liderança, prosperidade ampla, geral e irrestrita. Lembro-me de, nessa época, ter ouvido de um ferrenho seguidor dessa teologia que, quem tivesse fé poderia, inclusive, negociar com Deus a data de sua morte, afirmava que, na nova condição de fé em que se encontrava, Deus teria de negociar com ele a data de sua partida para mundo dos que aguardam a ressurreição do corpo. Estamos, há cerca de vinte anos convivendo com isso, talvez, por isso, a grande pergunta sobre essa teologia seja: Como têm conseguido permanecer por tanto tempo? A tentação é responder a questão com uma sonora declaração sobre a veracidade desta proposição, ou seja, permanece porque é verdade, quem tem fé tem tudo isso e muito mais. Entretan to, quando se faz uma pesquisa, por mais elementar, o que se constata é que as promessas da teologia da prosperidade não se cumpriram, e, de fato, nem o poderiam, quando as regras da exegese e da hermenêutica são respeitadas, percebe-se: não há respaldo bíblico. Então qual a razão para essa longevidade?

Em primeiro lugar, a vida longa se sustenta pela criatividade, os pregadores dessa mensagem estão sempre se reinventando, bem fez um de seus mais expoentes pregadores quando passou a chamar seu programa de TV de “Show da Fé”, de fato é um espetáculo ás custas da boa fé do povo. Mesmo os mais discretos estão sempre expondo o povo, em alguns casos, quando mais simplório melhor, em outros, quanto mais bonita, e note-se o feminino, melhor. Além disso, é uma sucessão de invencionices: um dia é passar pela porta x, outro é tocar a trombeta y, ou empunhar a espada z, ou cobrir-se do manto x, e, por aí vai. Isso sem contar o sem número de amuletos ungidos, de águas fluidificadas e de bênçãos especiais. Suas igrejas são verdadeiros movimentos de massa, dirigidos por “pop stars” que tornam amadores os mais respeitados animadores de auditório da TV brasileira.

Em segundo lugar, a vida longa se mantém pela penitência; os pregadores dessa panacéia descobriram que o povo gosta de pagar pelos benefícios que recebe, algo como “não dever nada a ninguém”, fruto da cultura de penitência amplamente disseminada na igreja romana medieval, aliás, grande causadora da reforma protestante. Tudo nessas igrejas é pago. Ainda que cada movimento financeiro seja chamado de oferta, trata-se, na prática, de pagamento pela benção. Deus foi transformado num gordo e avaro banqueiro que está pronto a repartir as suas benesses para quem pagar bem, assim, o fiel é aquele que paga e o faz pela fé; a oferta, nessas comunidades, é a única prova de fé que alguém pode apresentar. Na idade média, como até hoje, entre os romanos, Deus podia ser pago com sacrifícios, tais como: carregar a cruz por um longo caminho num arremedo da via “crucis”, ou subir de joelhos um número absurdo de degraus, ou, em último caso, acender uma velinha qualquer, não é preciso dizer que a maioria escolhe a vela. Mas, isso é no romanismo! Quem quer prosperidade, cura, promoções, carrões e outros beneplácitos similares tem de pagar em moeda corrente, afinal, dinheiro chama dinheiro, diz a crença popular. E tem de pagar antes de receber e, se não receber não pode reclamar, porque Deus sabe o que faz e, se não liberou a bênção é porque não recebeu o suficiente ou não encontrou a fé meritória. Esses pregadores têm o consumidor ideal.

Em terceiro lugar são longevos porque justificam o capitalismo, embora, segundo Weber, o capitalismo seja fruto da ética protestante, (aliás, a bem da verdade é preciso que se diga que o capitalismo descrito por Max Weber em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo” não é, nem de longe, o praticado hoje, que se sustenta no consumismo, enquanto aquele se erguia da poupança, além disso, como sociólogo, Weber tirou uma foto, não fez um filme, suas teses se circunscrevem a sua época e nada mais) a fé, de modo geral, evangélica nunca se deu bem com a riqueza. A chegada, porém, dessa teologia mudou o quadro, o capital está, finalmente, justificado, foi promovido de grilhão que manieta a fé em troféu da mesma. Antes, o que se assenhoreava do capital tornava-se o avaro acumulador egoísta, agora, nessa tese, é o protótipo do ser humano de fé. Antes, o que corria atrás dos bens materiais era um mundano, hoje, para esses palradores, é o que busca o cumprimento das promessas celestiais. Juntamente com o capitalismo, essa mensagem justifica o individualismo, a bênção é para o que tem fé, ela é inalienável e intransferível. Eu soube de uma igreja dessas que, num rasgo de coerência, proibiu qualquer socorro social na comunidade para não premiar os que não tem fé. Assim, quem tem fé tem tudo quem não tem fé não tem nada. Antes, ter fé em Cristo colocava o sujeito na estrada da solidariedade, hoje, nesse tipo de pregação, o coloca no barranco da arrogância. Toda “esperteza” está justificada e incentivada. Não é de estranhar que ética seja um artigo em falta na vida e no “shopping center” de fé desses “ministros”.

Mas, o que isso tudo tem gerado, de verdade? Decepção, fragorosa decepção é tudo o que está sobrando no frigir dos ovos. As bênçãos mirabolantes não vieram porque Deus nunca as prometeu, e Deus não pode ser manipulado. O sucesso e a riqueza que, porventura, vieram foram mais fruto de manobras “espertalhonas”, para dizer o mínimo, do que resultado de fé. Aliás, para muitos foi ficando claro que o que chamavam de fé, nada mais era do que a ganância que cega, o antigo conto do vigário foi substituído pelo conto do pastor. Gente houve que ficou doente, mas, escondeu; perdeu o emprego, mas, mentiu; acreditou ter recebido a cura, encerrou o tratamento médico e morreu. Um bocado de gente tentando salvar as aparências, tentando defender os seus lideres de suas próprias mentiras e deslizes éticos e morais; um mundo marcado pela esquizofrenia. O individualismo acabou por gerar frieza, solidão e, principalmente, perda de identidade, porque a gente só se torna em comunidade. Tudo isso acontecendo enquanto muitos fiéis observavam o contraste entre si e seus pastores, eles sendo alcançados pela perda de bens, pela angústia de uma fé inoperante, pela perda de entes queridos que julgavam absolutamente curados e os pastores enriquecendo, melhorando sensivelmente o padrão de vida, adquirindo patrimônio digno de nota, sendo contado entre o “jet set”, virando artistas de TV, tudo em nome de um evangelho que diziam ter de ser pregado e que suas novas e portentosas posses avalizavam.

E onde estão estes decepcionados? E para onde estão indo os seus pares? Muitos estão, literalmente, por aí, perderam aquela fé, mas não acharam a que os apóstolos e profetas da escritura judaico-cristã anunciaram; ouviram o nome Cristo, mas não o encontraram e pararam de procurar. Talvez, estejam perdidos para evangelho; para sempre. Outros, no meio de tudo isso foram achados por Cristo e estão procurando pelo lugar onde ele se encontra. Para os primeiros não há muito que fazer a não ser interceder diante do Eterno, para que se apiede dos que foram vergonhosamente enganados; para os que estão a procura, entretanto, é preciso desenvolver uma pastoral. Eles não estão chegando como chegam os que estão em processo de reconhecimento de Deus e do seu Cristo. Estão batendo às portas das comunidades que julgam sérias com a Bíblia a procura de cura para a sua fé, para a sua forma de ser crente, para a sua esperança de salvação, para a sua falta de comunidade e para a sua confusão doutrinária. Precisam, finalmente, ver a Jesus Cristo e a si mesmos; precisam, em meio a tanta desinformação encontrar o ensino, em meio a tanto engano recuperar a esperança. Necessitam de comunidade e de identidade, de abraço e de paciência, de paz e de alento, de fraternidade e de exemplo, de doutrina e de vida abundante. Quem quer que há de recebê-los terá de preparar-se para tanto, mesmo porque, ainda que certos da confusão a que foram expostos, a cultura que trazem é a única que têm e, nos momentos de crise, de qualquer natureza, será a partir desta que reagirão, até que o discipulado bíblico construa, com o tempo, uma nova e saudável cultura.

Hoje, para além de tudo o que encerra a sua missão, a Igreja tem de corrigir os erros que, em seu nome, e, em muitos casos, sob a sua silenciosa conivência, foram e, ainda, estão sendo cometidos.


Ariovaldo Ramos

domingo, 15 de novembro de 2009

O prazer não é um lugar

O Salmo 1 diz que feliz é o que tem o seu prazer na Lei do Senhor.

Para alguém assim, o prazer não é um lugar.

Não é: "só faço o que me dá prazer." É: "fazer o que devo fazer me dá prazer."

E dever é fruto de convicção. E convicção é fé. E fé é presente de Deus.

Prazer, aqui, é uma construção a partir do senso de dever.

Se a gente aprender a ter prazer no que devemos fazer, faremos apenas o que nos dá prazer.

"Deus, nos dê a graça de ter prazer no que devemos fazer"


Ariovaldo Ramos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Nunca se explique

"Era 1964. Eu tinha 30 anos e estava fazendo pós-graduação nos Estados Unidos. No Brasil, o golpe militar trouxe um clima em que qualquer coisa era subversão. Não era preciso fazer nada para ir preso. Muitos amigos meus foram assassinados. Eu escrevia artigos falando de liberdade, nada explícito contra o regime, mas é claro que eu era contra ele. E assim ganhei inimigos. Eu tinha sido pastor. Pessoas que não gostavam de mim dentro da igreja começaram a me fazer acusações. Nada era claro. Nunca sabemos direito como são as coisas. Chegavam mensagens do tipo ‘consta que existe um documento contra você’ e tal. Eram ameaças. E, naquela época, até provar que focinho de porco não era tomada elétrica... Eu quis me defender. Publiquei artigos em revistas americanas para me explicar. Não houve repercussão. Foi então que meu professor de filosofia na universidade, muito sábio, me deu o melhor conselho que já me deram na vida. Ele me disse: ‘Rubem, nunca se explique. Para seus amigos, não é preciso se explicar. Para seus inimigos, é inútil se explicar’. Eu tentei seguir o conselho. Sempre tento, mas muitas vezes eu desobedeço. Ninguém segue conselho, né?"


Rubem Alves

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Além da submissão

Lutero não superou o mau uso das instruções morais de Jesus, que na Igreja de Roma demonstrara sua força completa e letal. Ele também tomava por certo que o cristão é obrigado, pelo menos, a obedecer cada palavra de Jesus que chegou até nós e não foi expressamente endereçada a um indivíduo em particular, sem considerar se a exigência que ela contém diz realmente respeito a ele mesmo em sua presente circunstância.

Uma obediência dessa natureza é, no entanto, um monstruoso mau uso das palavras de Jesus, e para um cristianismo cujo alvo é habitar o mundo, ela acaba não deixando qualquer escolha além da divisão entre clérigos e leigos, para detrimento moral de ambas as partes. Porém, mesmo que o resultado desse uso das suas palavras fosse a mencionada divisão, não teríamos direito de chamá-lo de abuso se o próprio Jesus demonstrasse tencionar que todos os homens obedecessem cegamente as suas palavras, mesmo sem apreender a verdade que elas contém.

Se tratadas meramente como padrões a serem copiados, as palavras de Jesus separam os homens da verdade, e portanto de Cristo.

Sem dúvida Jesus fez exigências para as quais ele esperava, de todos os seus discípulos, obediência incondicional. Porém ele jamais exigiu que alguém cumprisse suas palavras cegamente e precipitadamente, sem compreendê-las. Em cada caso ele pedia mais do que isso; não meramente submissão, mas a obediência interior de um agente livre. Suas palavras aplicam-se aos que realmente as aceitam, e essa verdadeira aceitação elas conquistam estimulando a tendência à independência que é inerente à vontade.

No coração de cristãos individuais o poder espiritual de Jesus há muito tem suprido o que faltou na ação de Lutero sobre a igreja – isto é, o discernimento moral de que podemos reconhecer Jesus como nosso líder e ao mesmo tempo perceber a iluminadora verdade de palavras que, se tratadas como padrões a serem copiados pefeitamente, separam os homens da verdade, e portanto de Cristo. Uma única palavra de Cristo é capaz de despertar essa compreensão; porém nenhuma palavra específica, nem a soma de todas as suas palavras, é capaz de nos fazer perceber a verdade que há nelas. Isso só pode acontecer se buscamos o próprio Jesus – e por isso não estou querendo dizer nada fantasioso, mas a simples tentativa de compreender a mente da qual procediam essas palavras maravilhosas e terríveis, porém graciosas.

As palavras de Jesus podem ser tabuladas, mas não suas idéias morais; essas só podem ser apreendidas quando as reconhecemos como o resultado de uma Vontade que nada tem de arbitrário, mas é uma mente em paz com a eternidade. Leia +


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

O amor não conhece outro caminho

Em segundo lugar, o amor distingue-se da justiça pela natureza dos seus motivos. A obediência legal é sempre induzida por estatutos definidos; o amor não. Uma vontade que dependa de um impulso externo como esse não compartilha da natureza do amor. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo. O fato de que outros estabeleçam como nosso alvo a verdadeira comunhão interpessoal não determinará que conduzamos uma vida cheia de amor; esse alvo, permanecendo para sempre em pé por seus próprios méritos, só pode ser compreendido por quem está cheio de amor, e que por livre escolha adota-o para si mesmo.

Além disso, como o amor é o reconhecimento, de dentro, de um alvo eterno, ele é guiado passo a passo por seu próprio caminho autodeterminado. O que por si mesmo julga ser, em suas próprias circunstâncias particulares, o melhor meio de alcançar o alvo eterno, regerá sempre a sua conduta; ele não conhece outro caminho. Caso se submetesse a quaisquer outras leis sua livre confiança seria dominada pelo medo, ou sua energia afundaria em indolência. O amor genuíno só recebe ordens de si mesmo.

Mesmo que, como os heróicos fariseus, um homem sofra o martírio por sua fé, isto é, por obediência à lei, se não tiver em si mesmo algo dessa sinceridade e dessa independência do amor, de acordo com o apóstolo Paulo ele nada será.

A verdade é que, no que diz respeito ao tempo, o amor começa em todos os casos apenas quando uma pessoa experimenta o amor. Daí os esforços incessantes de Jesus no sentido de despertar nas pessoas um senso do amor inesgotável que na realidade experimentam. Uma vez que essa consciência nascente produza sua obra dinamizante, a pessoa possuíra vida em si mesma. Sua atividade não estará mais fundamentada, como se fosse mera transação, no interesse próprio, já que vantagens podem ser obtidas promovendo-se o bem-estar de outros; não será despertada por estímulos à simpatia, surgindo a partir de uma comunhão já estabelecida.

Uma vez que o amor venha à existência, sua operação será inteiramente autodeterminada. Não poderá aceitar leis vindas de fora, mas a partir de sua consciência interior outorgará a lei para si mesmo. Deixará de depender de um objeto digno de amor, como acontecia quando foi inicialmente despertado, mas, como o sol de Deus, distribuirá livremente e abundantemente, em todas as direções, suas riquezas peculiares.

A esse amor pertence a tranqüilidade sublime do poder criativo. Sua natureza e sua força são divinas. Jesus ensina que é assim, e diz ainda que o amor, e apenas o amor, é requerido de todo homem. O fato de que Jesus seja capaz de exigi-lo, por saber que será desperto esse livre a ativo poder do amor naqueles reunidos ao redor de si, em cujas vidas resplandece agora mesmo a luz pela sua manifestação de si mesmo – é isso o que a redenção representa para nós. Leia +


Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Em seis passos o que faria Jesus

Como vivo dizendo, ser cristão tornou-se insulto adequado para todo tipo de conduta, menos na escandalosa acepção original: a de quem assume a trilha de Jesus em sua espiral voluntária e redentora à desintegração e à morte – e quem sabe, à glória, mas por essa única via. Aprendemos a sensatamente desbastar todo o conteúdo subversivo da mensagem de Jesus (da forma como fazemos, naturalmente, com profetas menos consagrados, de Sócrates a Nietzsche), até o ponto em que o que Jesus disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.

A fim de remediar essa situação, meu desejo é fazer como o ateu da parábola e resgatar para o público contemporâneo o contéudo ideológico do bem-intencionado mas cabeça-dura rabi que os cristãos garantem ser o messias dos judeus, que os judeus negam ser o messias e o único Filho de Deus e que os muçulmanos afirmam ser profeta incompreendido do único Deus, que não tem filhos.

Este, senhoras e senhoras, é o primeiro capítulo de um Novíssimo Manual de Conduta do seguidor de Jesus, a ser lançado em breve para todo Brasil pelo Scriptorium do Monastério de São Brabo, em laboriosas cópias manuscritas. Resolvi chamá-lo de Em Seis Passos Que Faria Jesus, por motivos que se não ficaram evidentes ainda ficarão.

Você quer ser como Jesus? Seguindo esses seis passos muito simples você alcançará rejeição imediata na terra e consagração a médio prazo no céu. A pressa é sua. Leia +


Paulo Brabo

Teologia Comteporânea

Segue dica de blog que contém uma coletânea de textos sobre o livro Teologia Comtemporânea de Harvie M. Conn, traduzido do espanhol por Leonardo Gonçalves, para acessar o blog em questão clique aqui.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Viciados em mediocridade

Ai vai um link do trecho do livro Viciados em Mediocridade do Franky Schaeffer, para visualizar basta clicar aqui. Boa leitura.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Religião e Repressão

O discurso acadêmico de Rubem Alves sobre "protestantismo" e "repressão": algumas observações 30 anos depois. Artigo escrito por Leonildo Silveira Campos para o periódico Religião & Sociedade. Clique aqui para visualizar o artigo.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O prazer nosso de cada dia

QUEM diria que o Riobaldo era profeta ecumênico? Foi ele mesmo que me disse: "Eu, cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Rezo cristão, católico e aceito as preces de compadre meu Quelemém, do Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles..."

Também eu não perco ocasião de religião. Tenho sangue católico nas veias. Meu avô ia ser padre. Lá no sobrado no sótão, ficavam guardadas as velharias numa canastra. Entre elas, uma carta do meu avô, adolescente, interno do Caraça, pedindo dez tostões para comprar uma batina nova.

Tenho também sangue de espírita, que eles chamam de "espiritualista" ou kardecista. Eu estava em São Paulo, puxei conversa com o motorista do táxi, perguntei de onde ele era. "Sou de Macuco", respondeu. "Macuco? Conheço muito... É perto de Lavras do Funil onde vivi desde menino..." O taxista se sentiu mais íntimo. "Lavras é lugar de um espírito de luz, médico que anda pelo mundo dos sofredores curando doenças..." "E como é que ele se chama?", perguntei. "É o doutor Augusto Silva..." Dei uma risadinha: "O doutor Augusto Silva foi meu tio..."

E tenho também sangue de protestante. A gente tinha ficado pobre por causa da crise de 1929. Fomos morar numa casa de pau a pique emprestada. Rico que fica pobre tem de mudar para longe. Todo mundo foge dele, com medo de que ele peça dinheiro emprestado.

Mas havia um homem que não fugia, se aproximava e visitava. Era o seu Firmino, evangelista protestante que prometia as riquezas do céu para aqueles que sofriam as pobrezas da terra. A pobreza do meu pai: não tinha dinheiro para pagar escola para os filhos.

Mas o seu Firmino conhecia os missionários protestantes donos do Instituto Gammon, em Lavras. Ele mexeu os pauzinhos e o Gammon deu bolsas de estudo para os meus irmãos. Ficamos então protestantes; não por conversão, por gratidão.

Pois não é que Deus, mesmo sabendo da minha religiosidade, anda me pregando umas peças? Meus amigos tentam interceder, inutilmente. E uma amiga querida me sugeriu que eu ficaria melhor se abandonasse minha incredulidade e acreditasse na reencarnação. Com a reencarnação tudo se explica e há a certeza de um final feliz...

"Pois saiba você que eu acredito na reencarnação", eu disse. "Faz tempo anunciei a minha conversão num artigo de nome esquisito: "oãçanracneeR'". Reencarnação ao contrário: não de trás para adiante, mas de diante para trás.

Não quero evoluir para frente nem ficar parado no eterno presente do céu... O céu me dá claustrofobia.

Além do que não quero evoluir.

Muitas coisas não podem e não devem evoluir: saíras de sete cores, riachinhos, ipês floridos, a "Nona Sinfonia", uma preta jabuticaba são seres perfeitos. Como seria uma jabuticaba evoluída? Uma jabuticaba cúbica? Esse objeto é divino, não pode e não deve ser melhorado. O que eu quero não é evoluir. Quero é viver de novo intensamente o passado que vivi, sem os sentimentos de culpa que a minha religião botou na minha cabeça.Toda noite peço perdão a Deus pelos pecados que não cometi...

Assim, quando já são poucas as jabuticabas na minha tigela, rezo o meu pai-nosso herético erótico: "O prazer nosso de cada dia dá-nos hoje..."


Rubem Alves

Uma dica de boa música

Ai segue a música Álguem como eu de Stênio Marcius, simplismente linda, espero que gostem.

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma homenagem a Jorge Rheder

Hoje faleceu Jorge Rheder um dos mais belos compositores cristãos de nossa época, e em sua homenagem segue a música Unidade e Dibversidade de sua autororia junto com Guilherme Kerr também falecido. E antes que eu esqueça, é a galera da banda Raizes cantando.

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Da multidão dos que creram
Era só um o coração e a alma,
Uma só mente, uma semente,
Somente uma esperança brotando dentro da gente.
Nosso era o pão cada dia, nosso era o vinho, santa folia,
O que se parte e reparte, a própria vida,
Galho ligado à parreira, vida, em comum, verdadeira.

Sempre grande poder: curas, milagres de Deus.
Sempre proclamação! Cristo, o Senhor, ressurgiu!

Da multidão dos que creram
Era só um o coração e a alma,
Muita alegria, singela a vida,
Na simpatia de todos, nasce a Igreja de novo
Povo de Deus, sal e luz pra todos os povos.


A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

Duas Parábolas

Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem cessar: “O mundo inteiro ainda deverá se transformar num jardim. O mundo inteiro deverá ser belo, perfumado e pacífico. O mundo inteiro ainda se transformará num lugar de felicidade.” Suas terras eram uma sucessão sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Era um trabalhão cuidar dos jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pássaros, as borboletas, os insetos, as fontes, as frutas, o perfume... Sozinho ele não daria conta. Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu que ele precisou fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longínqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou três dos jardineiros que contratara, Paulo, Hermógenes e Boanerges e lhes disse: “Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero vocês cuidem de três dos meus jardins. Os outros, já providenciei quem cuide deles. A você, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japonês. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas... A você, Hermógenes, entrego o cuidado do jardim inglês, com toda a sua exuberância de flores pelas rochas... E a você, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com romãs, hortelãs e jasmins.” Ditas essas palavras ele partiu. O Paulo ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim japonês. O Hermógenes ficou muito feliz e pôs-se a cuidar do jardim inglês. Mas o Boanerges não era jardineiro. Mentira ao se oferecer para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro ele disse: “Cuidar de jardins não é comigo. É trabalho demais...” Trancou então o jardim com um cadeado e o abandonou. Passados muitos dias voltou o Senhor dos Jardins, ansioso por ver os seus jardins. O Paulo, feliz, mostrou-lhe o jardim japonês, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Veio o Hermógenes e lhe mostrou o jardim inglês, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Aí foi a vez do Boanerges. E não havia formas de enganar. “Ah! Senhor! Preciso confessar: não sou jardineiro. Os jardins me dão medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das taturanas, das aranhas. Minhas mãos são delicadas. Não são próprias para mexer com a terra, essa coisa suja... Mas o que me assusta mesmo é o fato das plantas estarem sempre se transformando: crescem, florescem, perdem as folhas. Cuidar delas é uma trabalheira sem fim. Se estivesse no meu poder, todas as plantas e flores seriam de plástico. E a terra seria coberta com cimento, pedras e cerâmica, para evitar a sujeira. As pedras me dão tranquilidade. Elas não se mexem. Ficam onde são colocadas. Como é fácil lavá-las com esguicho e vassoura! Assim, eu não cuidei do jardim. Mas o tranquei com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos não o invadissem.\" E com estas palavras entregou ao Senhor dos Jardins a chave do cadeado.O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: “Esse jardim está perdido. Deverá ser todo refeito. Paulo, Hermógenes: vocês vão ficar encarregados de cuidar desse jardim. Quem já tinha jardins ficará com mais jardins. E, quanto a você, Boanerges, respeito o seu desejo. Você não gosta de jardins. Vai ficar sem jardins. Você gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, você irá quebrar pedras na minha pedreira...” “O Bom Samaritano” = “O Bom Travesti” E perguntaram a Jesus: “Quem é o meu próximo?” E ele lhes contou a seguinte parábola: Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: “Vá passando a carteira”. O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão. Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: “Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você.” Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: “Ego te absolvo...” Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião. Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: “Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!\" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, “aleluia!” e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma. Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: “Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir.” Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido. Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”


Rubem Alves
(Correio Popular, 21 de julho de 2002)

A inteligência e o pênis

Como diria o Sergio Pavarine: "Não tem como não se apaixonar por Rubem Alves".

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A Deus Somente A Glória,
Ricardo A. da Silva

sábado, 7 de novembro de 2009

Eu também não te condeno

Pode procurar que você não vai achar. Não importa aonde vá, estou absolutamente convencido de que há duas coisas que você nunca vai achar. Você pode correr o mundo e o tempo, e tenho certeza que jamais conseguirá achar alguém que não se envergonhe de algo em seu passado. Para qualquer lugar que você vá, lá estarão elas, as pessoas que gostariam de apagar um momento, uma fase, um ato, uma palavra, um mínimo pensamento. Todo mundo tenta disfarçar, e certamente há aqueles que conseguem viver longos períodos sem o tormento da lembrança. Mas mesmo estes, quando menos esperam são assombrados pela memória de um ato de covardia, um gesto de pura maldade, um desejo mórbido, um abuso calculado, enfim, algo que jamais deveriam ter feito, e que na verdade, gostariam de banir de suas histórias ou, pelo menos, de suas recordações.

Isso é uma péssima notícia para a humanidade, mas uma ótima notícia para você: você não está sozinho, você não está sozinha. Inclusive as pessoas que olham em sua direção com aquela empáfia moral e sugerem cinicamente que você é um ser humano de segunda ou terceira categoria, carregam uma página borrada em sua biografia, grampeada pela sua arrogância e selada pelo medo do escândalo, da rejeição e da condenação no tribunal onde a justiça jamais é vencida. Você não está sozinho. Você não está sozinha. Não importa o que tenha feito ou deixado de fazer, e do que se arrependa no seu passado, saiba que isso faz de você uma pessoa igual a todas as outras: a condição humana implica a necessidade da vergonha.

A segunda coisa que você nunca vai encontrar é um pecado original. Não tenha dúvidas, o mal que você fez ou deixou de fazer está presente em milhares e milhares de sagas pessoais. Não existe algo que você tenha feito ou deixado de fazer que faça de você uma pessoa singular no banco dos réus – ao seu lado estão incontáveis réus respondendo pelo mesmíssimo crime. Talvez você diga, “é verdade, todos têm do que se envergonhar, mas o que eu fiz não se compara ao que qualquer outra pessoa possa ter feito”. Engano seu. O que você fez ou deixou de fazer não apenas se compara, como também é replicado com absoluta exatidão na experiência de milhares e milhares de outras pessoas. Isso significa que você jamais está sozinho, jamais está sozinha, na fila da confissão.

Talvez por estas razões, a Bíblia Sagrada diz que devemos confessar nossas culpas uns aos outros: os humanos não nos irmanamos nas virtudes, mas na vergonha. Este é o caminho de saída do labirinto da culpa e da condenação: quando todos sussurrarmos uns aos outros “eu não te condeno”, ouviremos a sentença do Justo Juiz: “ninguém te condenou? Eu também não te condeno”.

É isso, ou o jogo bruto de sermos julgados com a medida com que julgamos. A justiça do único justo reveste os que têm do que se envergonhar quando os que têm do que se envergonhar desistem de ser justos.


Ed Rene Kivitz

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cambistas da Fé

Jesus se dirigiu ao Templo, aquele que deveria ser chamado casa de oração, local aonde o povo deveria afluir para a adoração e dedicação ao Deus de Israel do melhor de suas vidas. Ele ficou estarrecido, chocado com o que estava diante de seus olhos: um covil de ladrões. O fato de comprar e vender não era o problema maior, mas o fato de haver a comercialização do sagrado, ou seja a dessacralização do santo e o auferimento de lucro desonesto com tal mercantilização. Jesus virou as mesas e expulsou de lá vendedores e compradores. Repito, ele expulsou os que vendiam e os que compravam.

Historicamente os oportunistas sempre lucraram com o sagrado e a boa-fé das pessoas. Já foram vendidas lascas da cruz, gotas de lágrimas da virgem Maria, fios da túnica de Jesus e tantas outras quinquilharias travestidas de “relíquias” sacrossantas. Com o objetivo de financiar a construção de edifícios suntuosos já se vendeu perdão de pecados, as famosas indulgências, e também o resgate de almas do purgatório. Tornou-se famosa a expressão “ao tilintar da moeda no fundo do cofre, uma alma sai do purgatório”.

Hoje em dia o que se vende é ainda menos nobre. Vende-se a ilusão de ser próspero num passe de mágica. De ter todos os problemas imediatos resolvidos, de ser rico, ter carrões, empresas e coisas do tipo. Vejam que o nível caiu muito. Perdão de pecados é um “produto” muito superior a um carro último modelo. E tudo em nome da fé, que sempre é materializada através de polpudas ofertas em dinheiro.

Há uma legião de iludidos que se deixam enganar pelo discurso fácil e inconsequente da “teologia do receber”, ou seja, a pessoa tem o “direito” de receber muitas e palpáveis bênçãos e, em contrapartida, basta pagar por isto, ou melhor, “doar” uma quantia como prova de sua fé e sacrifício. Mas os iludidos não são exatamente inocentes nessa história. Só há segmentos que pregam ilusão porque há quem queira ser iludido. Como em boa parte dos estelionatos, tanto vítima como estelionatário tem algum interesse escuso no negócio. Aqui o sujeito que quer pagar por uma benção também tem culpa, é interesseiro.

Reconheço que é muito fácil se deixar levar por um discurso que soa como música aos ouvidos de incontáveis miseráveis, ou mesmo remediados, que estão com a corda no pescoço e vislumbram uma solução mágica. Justamente aí entram os cambistas da fé que “vendem” seu produto, aproveitando-se das necessidades e desilusões das pessoas.

Pois bem, Jesus expulsou os vendedores e os compradores. Enganados e enganadores estão no mesmo barco. Cuidado. Muito cuidado. Não se deixe levar pela conversa fiada que tantos desencantos tem causado. Tantas decepções, tantas bênçãos não recebidas, apesar de terem sido devidamente pagas. Ah, mas aí foi a fé que faltou, dizem. De uma forma ou de outra, a culpa pelo fracasso sempre é lançada sobre o “cliente”.

Deus não está tão preocupado em dar bênçãos materiais, mas sim em proporcionar um relacionamento paterno. De braços abertos, Ele quer acolher a todos como filhos e abençoar com todas as bênçãos que um Pai pode dar: carinho, afeto, perdão, graça, pertencimento ao Reino. E isso não tem preço, é de graça!


Marcio Rosa

O que me move

Estou em busca de uma espiritualidade que seja coerente com o espírito das Escrituras, que seja fiel à essência do evangelho de Jesus Cristo, que faça sentido e seja o sentido das boas notícias trazidas por Jesus.

Eu estou realmente empenhado em tentar viver uma espiritualidade profunda, porém leve e humana. Não uma espiritualidade sobrenatural, mas humana, para chegar mais perto de Deus e do próximo. Quando Deus fala através do profeta Ezequiel, Ele diz que daria ao povo um coração novo, tiraria o coração de pedra e colocaria no lugar um coração de carne. Ou seja, no lugar do embrutecimento, que é sempre pecado, a sensibilidade. Um coração humano mesmo. De carne. Imperfeito. Mas não no sentido de estragado, e sim no sentido de inacabado, que ainda está em construção.

Não dedico minha vida, nem os melhores anos da minha vida à pregação do evangelho para agradar religiosos. Tampouco fui vocacionado para pregar para plateias de gente santa e perfeita. Não me empolga pregar para auditórios lotados de gente que “se acha”. Não quero olhar para trás e ver que investi meus melhores anos falando para gente que queria somente reafirmar seus sentimentos de superioridade espiritual. Não vejo a menor vantagem em sentir alívio por ser “santo” e não ser como o miserável pecador que está ao lado (esse sentimento era o que alimentava o fariseu que Jesus reprovou por estar orando assim, ao lado de um “pecador”).

Os sãos não precisam de médico. Salvação é para quem precisa. A boa notícia da graça é para quem se vê necessitado. Quem é perfeito não precisa de Jesus, nem de sua mensagem, nem de sua graça. Quem se acha perfeito, é um tolo e, geralmente, intolerante.

O que me empolga, o que enche o meu coração de ânimo, o que me faz acordar todos os dias ainda animado com o Reino de Deus, é a possibilidade de anunciar boas notícias de esperança e amor para aqueles que se reconhecem pecadores. O que me deixa animado e cheio de vigor é poder anunciar um evangelho que é boa notícia para os pobres de espírito, para os contritos, para os marginalizados, para os excluídos, para aqueles que a religião institucionalizada excluiu por conta de suas inadequações.

O que me faz vibrar com o evangelho é a possibilidade de anunciar uma notícia que alegra o coração de quem está triste. Uma notícia que traz riso para quem a vida só proporcionou choro. Uma voz de alento e conforto para aquele que se sente só, abandonado, infeliz.

O que é mais espetacular é que posso anunciar uma palavra de amor para aqueles que ninguém mais quer amar. É dizer com autoridade e com poder, que o poder que importa mesmo, no fim das contas, é poder do amor. Que tudo passará, mas o que ficará para sempre é o amor.

Bom é saber que Jesus veio para abraçar a todos, mesmo correndo todos os riscos de ser tachado de amigo de pecadores, que anda com pecadores e prostitutas, beberrão e glutão. Ele veio para proclamar liberdade aos presos, vista aos cegos, alegria aos tristes e aliviar os corações angustiados. Para dar esperança para o desanimado e a amor para os que querem ser amados.

Essa é uma mensagem que vale a pena anunciar.


Marcio Rosa

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Prédica Dietrich Bonhoeffer

Entrementes já nos deveríamos ter dado conta que soou a undécima hora para a igreja evangélica, que não nos resta muito tempo até que se decida se ainda haverá o raiar de um novo dia. Deveríamos saber também que não se pode consolar um moribundo com o toque de fanfarras ou, quem sabe, trazê-lo de volta à vida. O toque de fanfarra faz parte do cortejo fúnebre; daquele lugar onde se tenta suplantar o silêncio com um barulho mais frio ainda, onde coroas mortuárias e cânticos de luto tentam encobrir a decomposição. Crianças agem assim quando têm medo numa estrada escura; assobiam, pisam firme e fazem algazarra para criar coragem. Esse tipo de coragem, que na verdade é medo, essa coragem-medo e esses toques de fanfarra que apenas anunciam que a morte já chegou - fanfarras mortuárias, não são desconhecidas a nós que ainda participamos na vida da igreja. Dia da reforma – é o dia mais tenebroso a partir do qual conhecemos esse tipo de coisa. Hoje, entre as milhares de fanfarras que revelam uma Alemanha em estado terminal, se podem ouvir também as outras que anunciam ao mundo a morte da igreja. A Alemanha que tem medo de seu futuro tenta criar coragem através de grandes palavras de todo o tipo, ditas em voz alta – para que elas afugentem o medo da morte. A igreja da Reforma, que lá no íntimo sabe do despenhadeiro que a separa da Reforma, que estremece diante da proximidade das garras da morte, canta com desesperada coragem: “Deus é castelo forte e bom (...) fi Cristo Jesus, o eterno Senhor, outro não tem vigor (...)”, e nem percebe que todas as vezes que ela pronuncia “Deus”, este Deus se volta contra ela mesma. Nós cantamos: Deus é castelo forte e bom. Se Deus é por nós, quem será contra nós? Deus, porém, diz: Eu tenho contra ti... A igreja que celebra a Reforma não deixa o velho Lutero em paz, ele é responsável por tudo de ruim que nos acontece na igreja hoje. Colocamos o homem morto no meio da igreja, fazemos com que ele estenda o seu braço e mostre essa igreja com toda a ostentação da auto-segurança, e o fazemos repetir: Aqui estou, não posso agir de outra forma. Não vemos que, porém, que essa igreja já não é a igreja de Lutero, que Lutero falou o aqui estou com temor e tremor, encurralado pelo diabo até na última posição, no temor a Deus; não percebemos que essa palavra não é adequada para estar nas nossas bocas. Simplesmente não é verdade, ou é uma leviandade e uma arrogância imperdoáveis da nossa parte nos entrincheirar atrás dessas palavras. Nós podemos agir de outra forma; em todo caso devemos quere agir de outra forma, pois seria uma péssima glória diante de Deus e dos seres humanos se isso não fosse possível. Ninguém de nós está encurralado na última posição a partir da qual somente se pode dizer em oração a Deus: não posso agir de outra forma; Deus, ajuda-me. Nós podemos e somos desafiados a agir de outro jeito. Hoje deve ter ecoado milhares de vezes nos púlpitos: Aqui estou, não posso agir de outro jeito. – Deus, porém, diz: Eu tenho contra ti...

A igreja protestante celebra seu dia. É parte de seu dever protestar. Contra o que ela protesta, isto varia muito; mas protestar é preciso- por isso, desta vez, protestamos contra a secularização que se traveste de ateísmo e naturalmente também – e desta vez em especial – contra o catolicismo e seus perigos ( é claro que estamos pensando nos perigos políticos), protestamos contra todas as amarras, contra dogma e autoridade, protestamos em favor da liberdade de pensamento e de consciência, do indivíduo; protestamos contra a imoralidade e a descrença; protestamos contra todos que não estão na igreja e que não tomam conhecimento do nosso protesto. Hoje é o dia do protestantismo. Como é fácil protestar, com que autoconfiança conseguimos protestar, afinal temos um direito certificado para isso. Que dia lindo. “Nós protestamos” é a nossa palavra de ordem; Deus, porém, diz: Mas eu tenho ti... isto é, Deus protesta. Contra quem? Contra nós e o nosso protesto! Será que não ouvimos? Protestantismo não significa nosso protesto contra o mundo, mas o protesto de Deus contra nós. Mas eu tenho contra ti...

Na verdade nós estamos disfarçando. No fundo sabemos muito bem que, em nosso protesto, não se trata de castelo forte, nem do aqui estou. Sabemos do protesto de Deus contra nós; sabemos que justamente o Dia da Reforma é a grande ofensiva de Deus contra nós. Ocorre que nós não o queremos admitir diante de nós mesmo nem diante do mundo. Temos medo de não estar à altura dessa ofensiva; temos medo de passar vexame diante de Deus e diante do mundo se o admitirmos. Por isso fazemos tanto barulho em torno deste dia, por isso nós, no dia 31 de outubro, enfiamos nas cabeças de milhares de alunos coisas falsas, a saber, o respeito pela igreja, um respeito que há muito perdemos por Deus, tudo isso para não percebermos nossas fraquezas, ou melhor, para esquecê-las.

Não, já não nos resta mais tempo para essas celebrações festivas da igreja, nas quais nós apresentamos a nós mesmos. Vamos deixar de celebrar o Dia da Reforma assim! Deixemos o Lutero morto finalmente em paz e ouçamos o evangelho, leiamos sua Bíblia, ouçamos a palavra do próprio Deus. No dia do juízo final Deus seguramente não nos perguntará se celebramos dias da Reforma à altura, mas se ouvimos e guardamos sua palavra. Por isso deixemos que nos seja dito: Mas eu tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor.

Quisera dizer essa palavra de forma tal que ela nos doa. Ela deve doer, pois do contrário não seria palavra de Deus. Como vocês, porém, eu vejo que, como acontece com um romance ruim, lemos primeiro o final feliz, para não ficarmos irritados demais com o trecho anterior e para dizer a nós mesmos que no final vai dar tudo certo. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o primeiro amor. A diferença entre o que aqui se chama primeiro amor e tudo o que assim é chamado por aí afora é muito marcante: Na verdade, além desse amor, desse primeiro amor, existe somente ódio; abandonar esse amor significa nada mais que odiar Deus e o mundo. Eu, porém, tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor, ou seja, uma vez tudo foi diferente; também em você uma vez se fez um início! Também com você aconteceu alguma coisa. Você também teve - ou será que não? - algo a ver com Deus. Uma vez você orou a ele e lhe falou de sua maldade e de sua aflição, uma vez você o amou; uma vez você disse que queria tentar se relacionar com Deus. Naquela vez, acontecia alguma coisa ao seu redor, realmente acontecia. Você amou os outros, aquelas pessoas que o irritavam e que lhe davam tanto incômodo, porque, fazendo-o, você se lembrava do amor de Deus. Você já foi de opinião de que Deus deveria ser Senhor sobre a sua vida até no âmago, até o último recôndito; e ele de fato o foi quando você ia para o meio de seus irmãos tendo Jesus Cristo na mente e no coração. Eu, porém, tenho contra ti...

Olhemos a igreja como um todo. Onde está o tempo da primeira graça, o tempo no qual os primeiros cristãos confessavam Jesus Cristo como Senhor de suas vidas, saíam de suas casas para servir, quando a chama estava acesa e começou a arder; o tempo em que a vinda do reino de Deus era esperada com paixão ardente, tanto que esse reino se incorporava na esperançam concretizando-se em sinais inusitados? Onde está o tempo do qual se diz: “todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinha. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e Deus derramava muitas bênçãos sobre todos” (At. 4.32s.)? Onde está a comunidade que por saber do milagre de Deus, por saber da ressurreição dos mortos para a vida, tinha certeza de que, no poder da graça de Deus, no poder do amor de Deus, tudo era possível para aquele que crê, inclusive que um amasse o outro e que descesse até o sofrimento do outro para ajudá-lo? Onde está a comunidade do primeiro amor, que, semelhante a uma lâmpada, fala da luz de Deus no mundo?

De que adianta lembrar o passado! Ele se perdeu. Quem sabe alguém diga a si mesmo: Esse foi o meu primeiro amor, meu amor infantil, mas quando cresci, eu saí dessa. Sem dúvida, aquilo era lindo, mas era ilusão. Eu aprendi e descobri que o mundo é mau e que nem tudo é possível, que é necessário fazer conchavos e que precisamos ser mais modestos. Esse, afinal, é também o discurso da igreja. O que se pode responder a tudo isso? Acaso você acha que os primeiros cristãos, os reformadores e as primeiras comunidades não sabiam que o mundo é ruim? Será que aqueles que viram seu Senhor amado ser crucificado pelo mundo não o sabiam? Eles o sabiam milhares de vezes melhor do que nós todos juntos. Ouve a Bíblia, lê Lutero. Eles sabiam alguma coisa última a maia do que nós: Eles sabiam da raiz de toda a maldade do mundo, a saber, do ódio contra Deus e contra o semelhante e do amor do ser humano a si mesmo. No entanto, eles também ouviram e viram que Deus venceu esse ódio dentro do próprio mundo através de Jesus Cristo, de sua cruz e ressurreição. Eles criam o milagre do amor de Deus no mundo e por isso amavam Deus e o irmão.

Entretanto, não deixemos de olhar a cada um individualmente. Será que alguma vez você não cria e sabia que o ódio estava vencido e que o amor é que estava certo? Talvez naquele tempo tenha sido apenas ilusão, talvez tenha sido ilusão até o primeiro momento – quem quer se prender ao passado? -, mas deixe que lhe seja dito hoje; hoje não é ilusão, mas pura verdade, tanto que Deus empenha sua palavra: Tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor – abandonaste a mim.

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te”. Não foi outra coisa do que esse chamado que levou Lutero à sua Reforma. Lembre-se de onde você caiu, arrependa-se, foi seu chamado à igreja católica. Você deveria arder, mas é fria; deveria vigiar e está preguiçosa; deveria ter fome, mas está saciada; deveria crer, mas tem medo; deveria ter esperança, mas lança mão do poder; deveria amar, mas não consegue livrar-se de si mesma; deveria deixar que Cristo fosse seu Senhor, mas o contradizes; em seu poder você deveria operar milagres, mas não é capaz de realizar as coisas mais cotidianas. Lembre-se de onde você caiu, arrependa-se.

A igreja da Reforma é a igreja daqueles que se expõem ao chamado à penitência, que deixam que Deus seja Deus, que sabe que aquele que está de pé cuide para que não cair e que não se vanglorie por estar de pé. Nossa igreja está de pé na palavra de Deus e na sua palavra nós somos os julgados. A igreja que está em penitência, a igreja que deixa que Deus seja Deus, esta é a igreja dos apóstolos e de Lutero.

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras”. Este último é parte inseparável. Sem essa partezinha, todo o resto não faz sentido. Pode parecer inconveniente falar justamente das obras no Dia da Reforma; é, no entanto, um mal-entendido grosseiro do evangelho a gente pensar que fé e penitência são coisas para momentos piedosos matutinos e vespertinos. Fé e penitência significam deixar que Deus seja Deus naquilo que fazemos, e justamente naquilo que fazemos lhe sejamos obedientes. “Volta à prática das primeiras obras” – como é necessário que isso seja dito hoje. Ninguém que conhece a igreja atual poderá queixar-se de que a igreja não faz nada. A igreja faz muitas coisas, também com muito sacrifício e seriedade; mas todos nós fazemos tantas segundas e terceiras obras, e não as primeiras obras. E justamente por isso é que a igreja não faz o que é decisivo. Nós celebramos, nós representamos, nós buscamos ter influência, fazemos um movimento evangélico, praticamos o cuidado para com os jovens, fazemos caridade e assistência social, nos envolvemos em propaganda contra o ateísmo – mas será que praticamos as primeiras obras, das quais tudo depende? Amar Deus e o irmão com aquele primeiro amor apaixonado e ardente que põe tudo em jogo, só não o próprio Deus? Deixamos realmente que Deus seja Deus e lhe confiamos nossa igreja inteiramente? Se assim fosse, deveria ser diferente, alguma coisa deveria ter irrompido. Não nos deixemos levar pela tentação, porém, de nós mesmos fazer acontecer. Cabe a Deus provocar essa ruptura. Deus deverá fazê-lo. Cabe a nós nos colocar a seu serviço. Deixemos que ele seja Deus com aquele primeiro amor. Quem sabe volte a se tornar verdade o que lemos há pouco: Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.

E agora a coisa fica séria: “E, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candelabro, caso não te arrependas”. Aqui se fala com seriedade última. A hora da nossa igreja está próxima. Deus teve muita e longa paciência. Nós não conhecemos a hora. Ela pode irromper de repente e arrastar tudo consigo. Tudo já se move. Deus já lançou mão das mais incríveis ferramentas a serviço de sua obra destruidora. A história da destruição de Jerusalém pelos descrentes começa a ter um enorme significado para nós. Seja lá como for, é melhor que não usemos palavras eloquentes para destacar nossos atos heróicos em meio a tudo isso – que Deus seja Senhor!

O Senhor destruidor, diante do qual nos curvamos, é o Senhor da promessa. Somente ele conhece seu povo, ele está presente, talvez no meio de nós. Ele sim sabe a quem se dirigem as palavras: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus”. Seremos nós, conseguiremos vencer, conseguiremos crer até o fim? O futuro nos amedronta. Mas a promessa nos consola. Bem-aventurado quem a ela é chamado.

E quando agora sairmos da igreja, não nos contentemos em avaliar se foi uma celebração da Reforma boa ou ruim, mas vamos e façamos com sobriedade as primeiras obras. Deus nos ajude. Amém.


Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 1906- Berlim, 9 de abril de 1945)
Prédica no dia da Reforma. In: BONHOEFFER, Dietrich. Prédicas e alocuções. tradução Harald Malschitzky. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007, p.45-50.
Texto traduzido do original: BONHOEFFER, Dietrich. Gesammelte Werke - Band IV. Chr. Kaiser Verlag: München, 1961.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

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