sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O novo paradigma da missão

Sempre desconfiei do senso comum. Considero necessária e até mesmo imprescindível a coragem de questionar tudo, inclusive os alicerces da alma e da existência humanas. Para quem porventura se preocupa comigo, advirto estar em boa companhia – também estou alinhado com o apóstolo Paulo, que disse que “contra a verdade nada pode, senão a verdade”.

Até o conceito de missão da Igreja associado à grande comissão pode ser questionado. Discordo dos que afirmam que essa missão é de fazer discípulos. Primeiro, porque a declaração de Jesus registrada em Mateus 28.18-20 nos permite apenas deduzir a missão da Igreja, e segundo, por considerar reducionista a equivalência da tarefa de fazer discípulos com a missão da Igreja.

As referências bíblicas utilizadas para deduzir a missão da Igreja são diversas, sendo as mais utilizadas as dos evangelistas. É fácil perceber que cada um de seus textos possibilita um resultado diferente para o enunciado definidor do que seria aquela missão. O registro de Mateus 28.18-20 possibilita a fórmula “fazer discípulos”, implicando necessariamente o ensino detalhado de todas as ordens de Jesus. Marcos indica a proclamação do Evangelho como tarefa essencial, assim como Lucas (24.46-48), que também sublinha a proclamação, mas com conteúdo menos abrangente, restrito à convocação ao arrependimento para perdão dos pecados. Já o evangelho de João abre um leque extraordinário quando afirma que a missão da Igreja deve ser derivada da missão de Jesus – “assim como”, o que remete a declarações do tipo: “Porque o Filho do homem veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Marcos 10.45); ou ainda: “Veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19.10), de onde poderíamos deduzir que a missão da Igreja se sustentaria em três ações concomitantes: buscar, servir e salvar. Por fim, em Atos 1.8, o evangelista Lucas aponta na direção do testemunho a respeito da pessoa e obra de Jesus como aspecto essencial da missão.

Uma leitura mais ampla da Bíblia Sagrada, disposta inclusive a buscar as referências do Antigo Testamento como elementos constitutivos da missão do Messias transferida para sua Igreja, nos levaria necessariamente a concluir duas coisas: a primeira é que existem outras tantas narrativas negligenciadas pelo senso comum dos que querem definir a missão; e a segunda é que, incluídas e consideradas estas outras peças do quebra-cabeças, o resultado final será não apenas diferente, como também – e principalmente – muito mais abrangente do que a mera declaração “fazer discípulos”.

Na narrativa de Mateus sobre o Sermão do Monte, Jesus identifica seus discípulos como sal da terra e luz do mundo. Ali, o Senhor amplia o horizonte de compreensão da missão, incluindo a necessária transformação – ou, no mínimo, uma afetação da realidade conjuntural – da terra e do mundo, mediante a presença de seus discípulos. Já Lucas 4.17-21 identifica na ação e presença messiânicas a liberdade dos cativos e oprimidos, conforme Isaías profetizou –.o que inclui, para muitos, as dimensões sociais, econômicas e políticas

Ainda que exista certa divergência nos limites implicados, está claro que a presença e atuação de Jesus e de sua Igreja no mundo extrapolam a relação pessoal do indivíduo com Deus. É reducionista a definição da missão da Igreja que se esgota no esforço de chamar pessoas ao arrependimento para remissão dos pecados. Nesta interpretação, “fazer discípulos” seria apenas ensinar aos que crerem todas as coisas que Jesus mandou. Da mesma forma, parece equivocado dissociar a missão da Igreja da atuação dos cristãos na sociedade. Tal raciocínio mantém a dicotomia entre evangelização e responsabilidade social, dando primazia ao testemunho verbal do conteúdo do kerigma sobre os atos de justiça. Nessa perspectiva, a Igreja é vista como uma comunidade diaconal, mas o serviço cristão se presta a autenticar a pregação do Evangelho.

As expressões “fazer discípulos” e “missão da Igreja” apontam realidades distintas e não podem ser consideradas sinônimas. Estamos, portanto, diante de pelo menos dois paradigmas; um que resume a missão da Igreja na conquista de novos seguidores de Cristo, e outro que a considera em termos mais abrangentes. No primeiro – o da grande comissão – a salvação se resume à conversão pessoal e individual. Salvo é todo aquele que crê na mensagem do Evangelho, se arrepende para a remissão de seus pecados e passa a viver integrado na comunidade cristã, sob os imperativos éticos da Palavra de Deus e o compromisso de propagar e difundir a mensagem de salvação.

Já o outro paradigma, o da missio Dei, descarta a idéia de missão restrita ao discipulado individual e supera o reducionismo da salvação como livramento dos indivíduos das penas eternas. A Igreja não é para o mundo, nem mesmo espaço de fuga do mundo, mas o próprio movimento de Deus para dentro dele, e nesse sentido, da Igreja com o mundo. A missio Dei se relaciona com a missão da Igreja fazendo desta última a comunidade solidária com o Cristo encarnado e crucificado, bem como ressurreto e exaltado. Em Missão transformadora (Editora Sinodal), David Bosch conclui que o propósito da missão da Igreja não pode ser simplesmente a implantação de igrejas e a salvação de almas. “Pelo contrario, deverá ser representar a Deus diante do mundo (...) Em sua missão, a Igreja é testemunha da plenitude da promessa do Reino de Deus e é partícipe da batalha contínua entre esse reinado e os poderes das trevas e do mal”.


Ed Rene Kivitz

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