domingo, 30 de maio de 2010

As possibilidades do futuro

Se foi necessário tamanho parêntese para recuperarmos parte do sentido de duas únicas expressões da resposta de Pedro – “arrependam-se” e “sejam batizados“, é para ficar demonstrado que a aparente solidez das palavras é totalmente ilusória. As palavras são pedras que no rio do tempo perdem por completo as suas arestas e adquirem outras formas.

Os estudiosos dessas transformações linguísticas explicam que quando examinamos uma palavra hoje em dia, por mais aplicada que seja a nossa investigação, não temos como saber o formato exato que tinha essa mesma palavra há cem ou duzentos anos. A norma inflexível é que, com a acumulação dos incidentes do tempo, vai ficando mais difícil determinar como determinado termo era usado ou interpretado numa dada época. Isso sem contar o fato de que, mesmo dentro dos limites de um único intervalo de tempo (digamos, na nossa própria época) ou de um único autor (digamos, este), uma palavra não se submete a assumir um significado fixo, mas insiste em esconder sua nudez atrás de nuanças e fluididades.

Como resultado, as palavras, que deveriam servir para elucidar os sentidos, acabam encobrindo-os. Deveriam servir para garantir a fixidez de antigos registros, e acabam por sequestrá-la. O viajante do tempo que dispõe-se a recuperar os significados originais de um texto razoavelmente antigo (isso supondo-se que exista algo tão singelo e inequívoco quanto um “significado original”) deve procurar corrigir a maleabilidade das palavras à luz de escavações arqueológicas e idiomáticas, e consertá-las precariamente pelo cinzel e pelo gesso de outras palavras – precisamente como temos tentado ao longo destes últimos capítulos. Mas esta está longe de ser uma ciência exata, e cada restaurador produzirá novas matizes e pinceladas a partir do mesmo quadro original.

No caso do texto bíblico, a dificuldade no processo de restauração dos sentidos é acentuada por dois fatores. O primeiro é a formidável distância cultural que nos separa das sociedades que produziram os textos originais. Estamos falando de gente que habitava um idioma e uma cultura com prioridades e símbolos espetacularmente diversos dos nossos. Podemos ter quase por certo que encontraríamos mais pontos de contato e mais preocupações em comum com um visitante de uma civilização extraterrestre do que com um judeu do primeiro século – perplexidade que apenas aumentaria se nos postássemos diante de um peludo patriarca como Abraão ou um de um desgrenhado profeta como Elias. Sabemos o que alguns desses disseram ou escreveram, mas isso pode não ser o mesmo que saber o que pensavam ou o que queriam dizer.

A segunda dificuldade a ser levada em conta na determinação dos sentidos bíblicos originais são as camadas inclementes de interpretação e teologização a que os textos foram submetidos ao longo dos milênios. A erudição cristã sujeitou ao seu escrutínio virtualmente cada milímetro da superfície de ambos os testamentos: revirou cada pedra, mediu cada til, pesou cada maiúscula e publicou suas anotações. Graças à intervenção onipotente dos comentaristas, é hoje em dia virtualmente impossível aproximar-se da Bíblia pelo que ela é, como quem se coloca diante do texto pela primeira vez. O resultado é que em vez de salvaguardar os sentidos originais, os exegetas conseguiram garantir que jamais nos aproximaremos legitimamente dele (pelo menos não pela via da leitura, e esta é parte da boa nova). Mesmo para aqueles de nós que sabem-na de cor, a Bíblia permanecerá para sempre um livro desconhecido. Pensamos tanto sobre ele que o esgotamos de qualquer significado. Interpretar a Bíblia é perder o Jogo, e nossa única chance seria esquecê-la.

Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.

Ou,

Abracem a nova mentalidade inclusiva [porque o Reino foi inaugurado, e sua divina vocação é alterar todas as estruturas exclusivas do mundo], e cada de um vocês seja mergulhado na pessoa de Jesus, o messias, tendo em vista a absolvição das suas faltas, e receberão de presente [pela sua imersão na comunidade subversiva dos que foram tocados pela singularidade de Jesus] a lucidez do seu singularíssimo espírito.

É um instante momentoso, qualquer que seja a tradução a que você escolha recorrer. Porque o que está dito aqui é que os primeiros candidatos a seguirem a herança de Jesus depois de sua execução fizeram aos apóstolos uma pergunta exemplar e bastante prática – “o que uma pessoa deve fazer para honrar a obra e a herança de Jesus?” – e receberam uma resposta, para os padrões do cristianismo institucional, pouco ortodoxa: “abracem a vocação de mudar as estruturas do mundo” (arrependei-vos) e “sejam imersos na comunidade inclusiva que produz a incubação e a consequente lucidez do espírito” (e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo).

É uma resposta revolucionária e subversiva – isto é, inteiramente digna de Jesus – porque não inaugura e não cancela nenhuma religião, não introduz nenhum rito e não rebaixa-se a qualquer teologia. Se é certo que um dos objetivos essenciais do livro de Atos dos Apóstolos é delinear é o formato mínimo da experiência cristã, esta será sua mais frequente e consistente resposta: arrependimento e batismo – os quais, decodificados pela narrativa de Lucas, representam subversão da ordem exclusiva do mundo e imersão na comunidade inclusiva dos tocados pela lucidez singular (ou Espírito Santo) de Jesus.

E, como se verá, a nova comunidade se mostrará tão radicalmente inclusiva que não tomará qualquer passo para distinguir-se do judaísmo de seus primeiros adeptos. Os perplexos ouvintes de Pentecostes, precisamente como os cento e vinte discípulos antes deles, são judeus, continuarão se considerando (e se comportando) como judeus e – não menos importante – permanecerão sendo vistos como judeus pelos demais representantes do judaísmo. O arrependimento e o batismo não fará deles convertidos a uma nova fé, não mudará o seu livro sagrado e não alterará em uma vírgula a sua vocação. O que está nascendo não é uma nova religião, mas um novo e irresistível movimento que não tem precedentes e não pode ser adequadamente descrito – “a que compararei o reino de Deus?”. Uma religião muda a forma como um homem reza; a árvore que está nascendo nesta menor das sementes deverá ser capaz aninhar o mundo e acolher em seus ramos todos os homens.

– Porque a promessa – explica o pescador, ainda surpreso diante da sua própria disposição em não excluir ninguém das possibilidades que espreitam no futuro – pertence a vocês, e aos seus filhos, e a todos que estão longe. Pertence a quantos o Senhor nosso Deus chamar.


Paulo Brabo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...