domingo, 6 de dezembro de 2009

Creio na prece poderosa

Nossos rumos são decididos na prece. Ela nos antecede. Orienta. Gesta nossos compromissos. Pendula nossas paixões.

Mas para os que já se decepcionam com o que parece ser uma recrudescência piedosa, meu escape: não qualquer renovação, mas uma que me potencializa a vida. Eu que não sabia mais o que fazer com a oração, tenho-na de volta, melhor e poderosa. Porque acordei para o que sempre esteve diante dos olhos. Orar é atravessar conflitos de imaginação. A tensão que nos lidera.

É muita ingenuidade a nossa continuar a crer que a vida é decidida, no que pode ser decidida, no instante. Nada nele se resolve. O instante apenas encena fugidio o que a imaginação ensaia à exaustão.

Nossas impaciências, acessos raivosos, medos, prazeres, tolerâncias, resiliências, atrações, repulsas, docilidades, cada uma de nossas mais humanas reações são constituídas em nossas preces.

Mas para os que começam a se empolgar com o que parece ser minha mão à palmatória, meu lamento: não qualquer oração, não o rito em busca de ascese, mas a oração que todos fazemos sempre ao transcender o que está aí, aspirando ao que pode estar lá. Nossa espiritualidade profunda é a vida de oração, a imaginação que nos liberta momentaneamente do curso irresistível do tempo e o antecede nos sonhos. A imaginação é a oração inexorável da alma.

Talvez aqui comecemos a melhor entender o prefácio diabólico da história de Jesus. Ou a tentação do deserto. Tão importante quanto a gestação do Filho de Deus no ventre humano de Maria foi a gestação do Filho do Homem no chão desértico da imaginação. O Espírito que o entretece em Maria, o inspira para a jornada de oração no deserto. Do ventre mariano nasce o menino. Do deserto da imaginação, o homem. Das contrações do útero à luz mundana. Das tensões do deserto à lucidez humana. “E o Espírito o levou para ser tentado no deserto.”

A narrativa indica os lugares virtuais em que os fatos se deram. Jesus freqüentou lugares para além do deserto em cada uma das três tentações do Diabo. Tudo o que ali aconteceu teve na imaginação de Jesus o espaço mais decisivo. A pedra nunca virou pão, mas bem que poderia. Ninguém enxerga todos os reinos e a glória deste mundo, muito menos os possui em um instante, mas pode imaginá-los seus. Jesus nunca deixou o deserto para viajar ao templo e escalar seu pináculo, mas sentiu a vertigem do lugar mais alto da Casa do Senhor sem nela ter posto os pés. Numa sucessão de tensões de mundos imaginados, Jesus escolheu de que vida ser ator.

O destino de Jesus não foi definido no Caveira, mas em um conflito de imagens no deserto de suas orações. A cruz foi o fim de uma trajetória seguida após a bifurcação dos caminhos da imaginação.

No deserto, Jesus enfrentou nossas mais graves e diabólicas imaginações. Quero pensar o “diabólico” no sentido de Leonardo Boff. O oposto do “sim-bólico”, que agrega, ou torna um mesmo é o “dia-bólico”, que separa em dois distintos. Abro mão de discutir o elemento mitológico ou não da figura do Diabo, para apenas divagar sobre o sentido óbvio do conflito, por isso “dia-bólico” da experiência de Jesus na tentação do deserto. Ali mundos possíveis se conflitaram na alma de Jesus.

Orar é transcender o mundo como está na tensão de mundos possíveis. A guerra espiritual que antecipa a história humana.

No deserto, portanto, talvez assistamos ao conflito de dois mundos possíveis. Um mundo excepcionalmente organizado para o benefício do eleito. E o mundo originariamente desorganizado para o benefício de qualquer um. O mundo dos controles ou mundo das liberdades. O mundo da providência para poucos ou o mundo das contingências para quem quer que seja.

No mundo dos eleitos, a despeito de todos os que já padeceram de fome, o pão é excepcional, até a pedra do deserto que a todos embrutece, aos abençoados alimenta. E Jesus parece nem precisar tanto assim de pão, o que carece mesmo o Diabo advinha. Confirmar que é bom o bastante, que é Filho de Deus. Só deseja que pedra vire pão quem quer afirmar-se a todo custo. “Se tu és Filho de Deus…”

No mundo das exceções, as políticas não se dispersam para o bem de muitos, mas convergem para o bem de poucos. A força do poder está em descobrir quem eu posso ser a despeito dos demais.

No mundo das providências nem nossas leviandades tem valor. É o mundo dos irresponsáveis. Joga-se do pináculo abaixo porque a vida não é pra valer. Deve haver anjos, gênios e milagres sempre a nos blindar contra o curso impessoal dos acontecimentos.

No diabólico jogo da imaginação, Jesus recusa o pão que para alimentá-lo tem que ser pedra para muitos. Despreza os poderes que ao servirem-no também prostram sua consciência. Desmerece qualquer promessa que tape seus olhos para a tragédia de uma vida irresponsável.

Não foi por acaso que Jesus enfrentou a morte na cruz bravamente. Que foi o mais humano dos humanos. Foi porque fez a prece com a consciência ampla de seu poder. Porque entendeu que imaginação não é brincadeira. Que imaginar é um poder ser. É decidir. Salvar.


Elienai Cabral Junior

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