domingo, 25 de abril de 2010

O trágico e o lúdico

Rir e chorar dependem do lado para que se olha. Ali na frente, poças lodocentas deslustram a alma. Aqui perto, o vôo irreverente dos pardais desenrugam os lábios para que se abra um largo sorriso. Basta ver a sorte inclemente dos miseráveis para perder o sono. Não é fácil conviver com a desigualdade social que rouba sonhos, tormenta, mata. Mas alegria explode no vértice do sofrimento; bastam o abraço despretensioso do neto, a alegria do casal que adotou, o zelo resiliente da mãe do filho com paralisia cerebral e o trabalho anônimo do voluntário.

Rir e chorar dependem do caminho que se escolheu na esquina deserta. Estradas largas levam ao calabouço. Atalhos despencam em abismos. Avenidas não passam de passarelas para o inferno. Trilhas inóspitas, virgens, são fascinantes. Quanta alegria na aventura de desbravar fronteiras. A felicidade mora alguns centímetros depois da linha do horizonte. Arriscar é tonificante. Fracassar, triunfar, instigar e suplantar-se transformam o tédio em disposição.

Rir e chorar dependem das expectativas que enlaçam a alma. Ilusões implausíveis exaurem, fatigam, esfolam. Promessas irreais, mentirosas, entorpecem como morfina. Ufanismos terminam em ressaca. Coragem de encarar a existência sem quimera, sem negação, sem fuga, produz um júbilo diferente.

Rir e chorar são duas faces no baralho da vida.

Rio e choro sem culpa, a vida é ao mesmo tempo trágica e lúdica.


Ricardo Gondim

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A lucidez profética

O homem que está em pé prestes a abrir a boca é um pescador, o homem mais apaixonado e mais caloroso – mas também o mais desastrado, impulsivo e falastrão – do panteão dos discípulos. Os outros balançaram a cabeça em silêncio, mas este sujeito ousou tentar convencer Jesus a abrir mão das necessidades da cruz. Os outros fugiram à uma para as trevas e para o isolamento, mas este negou o nome diante de todos, na dura luz do fogareiro e das tochas – não apenas uma, mas três fabulares vezes, como um pêndulo, como um estouvado metrônomo, e no último momento foi fisgado pelo olhar do seu mestre, que viu de longe o que o amigo estava fazendo.

A negação de Jesus foi o momento definitivo de Pedro, o instante em que teve de enfrentar quem realmente era e quem seria para sempre dali em diante. Ninguém tem o privilégio de se definir mais de uma vez na vida, ninguém tem como recuperar-se da definitiva contemplação no espelho, por isso é natural que estejamos céticos quando é o claudicante pescador que levanta-se diante de todos e toma a palavra para discursar pela primeira vez na vida.

É um momento formidável, este em que um derrotado fala em nome de Deus; porém, como nada será como antes, esta não será a última vez. Pedro conhecera a cegueira das lágrimas, o peso insustentável do perdão e a chã perplexidade da separação, mas quando se levanta para falar suas velas inflam-se com um vento que não é seu.

Não era coisa exatamente desconhecida, no fio da tradição bíblica, a incursão de gente comum e sofrida abrindo a boca para apregoar os oráculos de Deus. Mas eram casos excepcionais. Não era qualquer um (e definitivamente não eram todos) que recebia o chamado de profeta e alguma medida da lucidez divina. Mesmo quando acontecia, um dos rigores dessa condição estava em que o dom de dizer as divinas palavras era concessão estritamente temporária. Falar em nome de Deus era performance delimitada pela profilaxia divina, que recolhia higienicamente o privilégio logo que a mensagem havia sido transmitida pela boca do arauto. Ninguém era profeta o tempo todo, e certamente não pelo tempo que quisesse.

A inoculação desse privilégio cirúrgico sobre os profetas é representada nos textos dos profetas pela expressão-chave “a palavra do Senhor veio sobre ['fulano', ou 'sobre mim'], dizendo”. Enquanto a palavra do Senhor residia sobre o profeta, ele falava com o aval divino. Assim Samuel (1 Samuel 15:10), Natã (2 Samuel 7:4), Gade (2 Samuel 24:11), Salomão (1 Reis 6:11), Elias (1 Reis 17:2), Semaías (2 Crônicas 11:2) Isaías (38:4), Jeremias (1:4), Ezequiel (1:3), Oséias (1:1), Jonas (1:1), Miquéias (1:1), Sofonias (1:1), Ageu (1:1) e Zacarias (1:1). Mas a palavra do Senhor dizia o que tinha para dizer e ia embora, deixando o profeta sem fôlego e sua audiência num vazio de perplexidade.

Na Bíblia inteira, a última pessoa a receber essa inoculação de sanidade divina foi João Batista: “veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto (Lucas 3:2)”. No Novo Testamento a palavra do Senhor não voltará a visitar pessoa alguma, nem mesmo os apóstolos, nem mesmo Jesus. A boa razão e a boa nova por trás dessa deserção está em que na ótica desconcertante do evangelho Jesus é, ele mesmo, a Palavra do Senhor espantosa e definitivamente encarnada. Depois que Jesus veio, a Palavra (o Verbo, no vocabulário de João) passou a habitar entre nós – e estamos, dois mil anos depois, apenas começando a compreender as implicações desse privilégio.

Agora Pedro põe-se de pé para falar e entende que, vertiginosamente, pode falar em nome de Deus (em nome de Jesus!) sem que “a palavra do Senhor venha sobre ele”. O velho pescador foi dobrado e reerguido pelo espírito do seu mestre, e está agora inteiramente embebido nele no vaso de comunhão de seus irmãos e irmãs.

O discurso que ele irá proferir tem duas partes e baseia-se em duas constatações, e esta é justamente a primeira: a compreensão de que os dias da concessão cirúrgica da lucidez divina terminaram, e chegou o momento em que Deus derramaria do seu espírito de forma pródiga, generosa e indiscriminada: “sobre toda carne”. Como antecipado por Joel, tinha sido inaugurada a era em que “os filhos e as filhas de vocês profetizarão, os jovens terão visões, os anciãos terão sonhos”. Viera o momento em que Deus derramaria sua lucidez sobre “seus servos e sobre suas servas” (sobre escravos e escravas, no texto em hebraico), e eles todos profetizariam – isto é, falariam sanidade de Deus.

Este, anuncia Pedro, é o terrível e maravilhoso momento da extinção dos profetas. João Batista tinha sido o maioral, mas o mais insignificante dos seguidores de Jesus, na formidável dimensão do reino de Deus, é maior do que João. O milagre deste Pentecoste está em que crianças, jovens, anciãos, homens e mulheres, escravos e escravas, pescadores e cobradores de impostos, aqueles que não conheciam qualquer voz e qualquer relevância, podem falar e serão entendidos. É momento de sinais terríveis no céu e na terra, porque a estrutura da sociedade e as fundações da espiritualidade estão sendo abaladas para sempre. Quem abraçar essa redentora palavra do Senhor será salvo.

A primeira porção do discurso de Pedro aponta para as diversas vozes que falam ao seu redor, cada uma falando do seu ponto de vista, com seu próprio timbre e sua própria entonação, mas reverberando uma mesma Palavra. A língua de fogo da lucidez divina concedera seu aval a cada uma. É um momento de desvairada celebração, Pedro está de fato dizendo, e ainda nem começamos a beber. A lucidez profética pertence agora a todos, não a um eleito ou outro; está sobre mim, mas está também sobre todos e cada um destes. A palavra do Senhor, sua assombrosa mensagem, reside dentro de nós, e daqui ninguém pode removê-la, mas todos podem tomá-la para si.

A herança que trazia de Jesus, Pedro entendia agora, não era apenas de dias empoeirados, ensino repartido, aforismos decorados e aventuras compartilhadas; não era apenas questão de sanidade contra loucura, misericórdia contra inclemência, vida contra a morte, lealdade contra traição. Não era só questão de um grande homem de Deus que vivera e tinha sido ceifado pela loucura de todos.

A formidável palavra do Senhor, que concedera sua lucidez aos profetas, se fizera carne e havia habitado entre eles. Tinham comido juntos, caminhando juntos, sorrido juntos, chorado juntos, morrido juntos e levantado juntos para um impensável futuro. Tinham sido derrotado juntos, e agora estavam vivos.

A palavra divina tinha se despido aos olhos dos homens, e agora qualquer voz podia proferi-la. Tinha virado gente, e não era agora que isso iria mudar.


Paulo Brabo

A verdadeira mensagem

Então, no exato centro do redemoinho, Pedro levanta-se e faz algo belo e terrível e inteiramente prenhe de consequências: começa a falar.

Não sabemos porque é necessário que apenas um tome a palavra e ensaie um discurso quando todos já estavam “falando das grandezas de Deus”, mas a postura de Pedro (“pondo-se de pé e levantando a voz”, diante de uma multidão atenta e com as defesas baixas) passou a representar o modelo canônico de como Cristo deve ser efetivamente apresentado. O próprio Jesus não havia dito que mediante a concessão do Espírito os discípulos aprenderiam o ofício de “serem testemunhas”? Pelo que vemos aqui, “ser testemunha” nada mais é do que produzir um discurso – ou, como viria a ser chamado, um sermão – habilmente adequado à situação do momento. Todos que há um minuto falavam sinfonicamente, até mesmo os onze, são obrigados a calar para que a Voz seja ouvida em apenas um.

Um só pregador, uma só congregação, um só público de gente de fora carecendo de salvação: o Primeiro Momento do Espírito é também o arquétipo da Primeira Igreja.

Será essa uma interpretação justa deste momento e do que ele representa? De certa forma não temos a esta altura, depois de milênios dessa mesma leitura, como saber.

É claro que mesmo Jesus já havia discursado, e muitas vezes. Mas Jesus, dito grosseiramente, falava com mais parábolas e com menos esperança de angariar seguidores. Deve ser evidente também que o sermão de Pedro é mais misericordiosamente breve e mais contundente do que qualquer sermão dos nossos dias, mas talvez o que recebemos no livro de Atos seja uma versão estilizada, devidamente condensada – não apenas do que Pedro disse, mas do que aconteceu naquela ocasião.

Como o texto que chegou até nós exibe um grau indefinido de estilização, talvez o discurso centralizado de Pedro seja uma necessidade meramente narrativa; talvez seu conteúdo tenha sido transmitido cooperativamente, através de todos e a cada um. Mais importante será entender que, de certo modo, não faz diferença.

Como em todo o texto bíblico, de Gênesis a Apocalipse, a verdadeira mensagem e propósito deste momento não é nos ensinar como as coisas devem ser feitas, mas fornecer-nos um vislumbre do que representa que tenham acontecido como aconteceram. O livro de Atos é registro de terrível transformação, não de confortável permanência. Não é um Manual mas um Testemunho – e o livro inteiro é permeado pela tensão entre os que recusam-se a aprender a diferença e os que abraçam o impensável e o imponderável.

Importante aqui é que aparentemente Jesus havia sido calado pela cruz, definitivamente vencido pela vergonha da sua derrota, e não restava qualquer vestígio de vida na sua mensagem. O maluco havia sido silenciado e seus seguidores haviam demonstrado que não representavam ameaça; isto é, não estavam à altura dele.

Então há de repente um maluco – não, um bando de malucos – falando alto sobre a excelência da mensagem dele e sobre a grandeza encapsulada na sua vida e na sua morte. O discurso de Pedro é importante não porque nos ensine que devemos discursar, mas porque é a primeira vez desde a morte de Jesus em que alguém se levanta e fala em nome de Jesus.

É algo tremendamente ousado de se fazer e, veja, logo Pedro.


Paulo Brabo

História de um fazendeiro

Certo fazendeiro tinha dois filhos. Um dia o filho mais novo pediu ao pai a sua parte da herança, e dias depois recebeu dele o equivalente a metade do seu patrimônio. De posse do dinheiro, o rapaz partiu para uma terra distante, onde investiu todo o seu capital, aplicando-o criteriosamente em investimentos de baixo risco e elevado retorno. Em pouco tempo havia duplicado o seu patrimônio e vivia confortavelmente.

O filho mais velho, que trabalhava no campo, ficou sabendo da prosperidade do irmão e também exigiu do pai a sua parte da herança; em seguida partiu para outra terra distante, onde também enriqueceu.

Houve então uma grande fome naquela terra. Tendo dissipado tudo, o fazendeiro começou a passar necessidade. Sendo de idade avançada e sem forças para trabalhar, pediu aos vizinhos que lhe deixassem encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada. Caindo em si, o homem disse:

– Quantos empregados dos meus filhos têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Vou ao encontro deles, e direi: “Meus filhos, estou sozinho e não tenho mais como me sustentar; tratem-me como um dos seus empregados”.

E saiu pelo caminho, decidido a encontrar em algum lugar um abraço. Em poucos dias estava morto, e não reviveu; estava perdido, e não foi achado.


Paulo Brabo

quinta-feira, 22 de abril de 2010

As demarcações do Amor

Ma che cosa è questo amore, che fa tutti delirar?
Aria de Berta, Il Barbiere di Siviglia

Dizer, como a carta de João, que Deus é amor, aparentemente não basta.

Comentando o verso vinte e sete do décimo-sexto capítulo do evangelho de João – “porque o próprio Pai vos ama, visto que me tendes amado e tendes crido que eu vim da parte de Deus” – Agostinho (354-430) toma o cuidado de qualificar o mecanismo (e portanto os limites) do amor de Deus por nós. Na opinião de Agostinho, muitas vezes repetida depois dele, o amor divino pelas pessoas deve ser compreendido exclusivamente em termos do amor de Deus, interno à trindade, pelo Filho e pelo Espírito Santo.

“Não que Deus não nos ame,” esclarece o teólogo; “porém Deus nos ama como seremos, não como somos”. Segundo Agostinho, Deus, por um lado “nos ama, para que nos tornemos”, por outro “nos odeia pelo que somos, exortando e capacitando-nos a não desejarmos ser para sempre dessa forma1”.

“Deus nos ama como seremos, não como somos”.

Agostinho não duvida de que Deus nos ame, porém segundo ele Deus é incapaz de amar em nós mais do que o reflexo antecipado do seu Filho – a quem seremos, se tudo der certo, semelhantes um dia. Deus não nos ama e não pode nos amar “como somos”, simplesmente porque não há nada em nós que Deus possa amar sem contradizer e macular a sua singularidade. É por essa razão, argumenta o teólogo, que só podem beneficiar-se verdadeiramente do amor de Deus os que se aproximam o suficiente da pessoa de Jesus.

Simone Weil, em rigoroso contraste, crê que as pessoas devem ser amadas como são, do contrário “não serão as pessoas que estaremos amando, e o nosso amor será irreal”. Esta parece ter sido também, nos evangelhos segundo minha leitura, a disposição e o ensino geral do próprio Jesus.

O amor de Deus pelo que é indigno, incompatível e desprezível efetivamente macula, como queria Agostinho, a singularidade divina? Ou vem, ao contrário, reforçá-la e comprová-la? Se o que Jesus amava numa mulher adúltera, num agiota ou num endemoninhado não passava de um reflexo potencial e antecipado de sua própria pessoa, conhecerá Deus um amor que não seja narcisista? Haverá algo no amor de Deus que não seja referência interna? Haverá no universo outro objeto digno de amor?

Para complicar as coisas, quanto mais uso essa palavra menos claro fica para mim do que estou falando. No fim das contas, o amor atribui valor ao objeto amado, ou apenas reconhece esse valor? O amor precisa do amor? O amor precisa do objeto amado ou pode prescindir galantemente dele? Pode o amor ser despido, em alguma parcela, de amor-próprio? Posso condenar Deus por não amar pessoa alguma além dele mesmo? Com que freqüência consigo mais do que isso?

Pensando bem, é mais fácil pensar que o amor de Deus seja dessa forma auto-referencial e circular; seria pedir demais que eu aprendesse a amar como ele, para fora e não para dentro.


Santo Agostinho, em "Sobre a Trindade"
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...