terça-feira, 8 de junho de 2010

Solilóquios espirituais

Resisto, inquieto com a necessidade de esvaziar-me. Não tolero ver a vida se arrastando, o cenário mudando e eu sem fôlego, a correr sem me perceber.

Os pontapés da vida desnudaram a verdade de que os processos de esvaziamento são doloridos. Processos que significaram perder a onipotência que veio a reboque da minha religião e que herdei de minha insegurança juvenil. Há mortes que não estou disposto a morrer, há privações que procuro dispersar, há dores que não quero experimentar.

Quero ter o controle do tempo inclemente. Não suporto ouvir que sou responsável por quem sequer conheço. Não me imagino preso a compromissos alheios. Careço de ócio criativo, sou natural dos sábados. Anseio por conversas calmas, nasci de um amor calado. Debulho os instantes para sonhar com a eternidade. Choro a dor do mundo porque sei de meu egoísmo.

Fotografo o orgulho que se disfarça e sutilmente se esconde em meu coração. Tenho uma empáfia que se traveste de piedade e habilmente me faz sentir puro. Há uma arrogância embutida em mim, que me espreita de soslaio e, transparente, infecta tudo o que faço. Continuo dono de rompantes rebeldes, já enraizados na medula dos ossos.

Sei que devo aprender a ser apenas gente. Grito para dentro, meu grito é mudo: "Ainda hei de seguir a senda despretensiosa dos santos".


Ricardo Gondim

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Eu? Metáfora absurda

Eu? Pés que falam, ouvidos querendo ver, gosto com jeito de aconchego, toque melodioso, ruga expressiva, vontade solitária, desejo alado, alma ambiciosa e coração torcido.

Eu? Teimoso que, mesmo trôpego, insiste na trilha estreita. Poeta inebriado de sonhos que mal se dá conta do sal que corrói a face - A estrada é íngreme!

Eu? Filho da noite comprida, das horas que se arrastam, dos dias velozes. Aventureiro irrequieto em busca do pergaminho prateado com a Palavra Encantada. Um enigma: “Menino na estepe, felicidade no vale, vida no além”.


Ricardo Gondim

domingo, 6 de junho de 2010

Eu, bordadeira

Quando escrevo encarno o espírito das bordadeiras. Minha pena é agulha que fere o papel para transformar toda a consternação em beleza. Quando eu era criança, sofri por ter nascido canhoto. “Menino desastrado”, ouvi um sem número de vezes. Amedrontado, fugia; eu só queria desenhar. Hoje, bordo, talho, desenho, com palavras. Palavras que podem até revelar o quão desajeitado sempre fui, e ainda sou, mas que me salvam da autocomiseração.

A insignificância que me rondou na adolescência enfeita a minha prosa. A falta de coordenação que não me deixava dançar, dá ritmo aos meus dedos. Com o passar dos anos, substitui timidez juvenil por essa sanha de escrever. Quando me ponho a escrever, arranco lirismo da tristeza e contorno as fronteiras da lucidez para enfeitiçar o texto.

Já não estranho a solitude. Acolho a quietude outonal - já que inaugurei a última metade dos cinquenta. Caio de amores pelo anoitecer. Quando des-iludido, não deixo de encantar-me com a alvorada que anuncia o sempre novo.

Todos os dias, trombo com levas de anônimos. Porém, nunca esqueço que cada um sussurra o nome de alguém que ama. Nós nos distinguimos no meio da multidão porque nos lembramos que, em algum lugar, alguém também sussurra o nosso nome.

Não temo a morte, mas ela me angustia. Ansioso, procuro adiar o dia em que vou ter que me despedir do cheiro do meu travesseiro, dos pensamentos acelerados que roubam o meu sono, da vermelhidão apetitosa da siriguela, da saudade que tenho dos meus pais, da água quente do chuveiro em dia frio, do sorriso de meus netos. Não, não estou preparado para enfrentar o corredor estreito que me roubará o derradeiro fôlego.

Fatigado, confesso a minha humanidade, mas o meu cansaço não significa desistência. Vivo perenemente grávido do futuro. Sinto-me sempre perto de parir sonhos, ideias, divagações. Animado pela luta, só falo da estafa como denúncia. Mesmo quando grito, "não aguento mais", a minha alma continua encharcada de eternidades – assim mesmo, no plural.

Encaro as minhas inadequações sob o teto da graça. Não me dissolvo em falsas culpas. Nunca vou ser rejeitado por enfrentar-me. Prossigo não por teimosia, mas constrangido pelo amor. Amor, que muitas vezes tem gosto de cocada, cheiro de alfazema ou quentura de lágrima. Certamente, bondade e misericórdia me acompanham.

Continuarei bordando tapetes para que outros pisem, esta é minha sina.


Ricardo Gondim

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Igreja é

Igreja é um lugar onde o Pai se sente em casa,

Onde é adorado pelo que é e não pelo que pode,

Onde é obedecido de coração e não por constrangimento,

Onde o seu reino é manifesto no amor, na solidariedade, na fraternidade e serviço ao outro,

Onde o ser humano se perceba em casa e seja a casa de Deus e do outro,

Onde Jesus Cristo é o modelo, o desejo e o caminho,

Onde a graça é o ambiente, o perdão a base do relacionamento e o amor a sua cimentação.

Onde o Espírito Santo está alegre pela liberdade que desfruta para gerar e expressar a Cristo,

Onde Ele vê os seus dons serem usados para edificar, provocar alegria e servir ao próximo,

Onde todos andam abraçados,

Onde a dor de um é a dor de todos,

Onde ninguém está só,

Onde todos têm acesso ao perdão, à cura de suas emoções, à amizade e a ser cada vez mais parecido com Cristo,

Onde os pastores são apenas ovelhas-exemplo e não dominadores dos que lhes foram confiados,

Onde os pastores são vistos como ovelhas-líder e não como funcionários a serem explorados.

Onde não há gente nadando na riqueza enquanto outros chafurdam na miséria,

Onde há equilíbrio, de modo que quem colheu demais não esteja acumulando e quem colheu de menos não esteja passando necessidades.

Enfim, a comunidade do reino de Deus,

Onde aparece a humanidade que a Trindade sonhou,

Onde a cidade encontra paradigmas.


Ariovaldo Ramos

terça-feira, 1 de junho de 2010

Uma nova Reforma: re-formando desejo e imaginação

A fim de resgatar a Igreja como polis será necessário resgatar a Igreja como comunidade disciplinada. Este porém tem sido o aspecto da Igreja mais atacado pelo neoliberalismo, pois a igreja local tem se integrado por completo ao mercado de consumo; ao invés de frequentar uma igreja que disciplina nosso desejo e imaginação, é mais provável que frequentemos uma igreja que dá livres rédeas ao desejo que já possuímos1. Isso quer dizer que será necessário aprender a nos relacionarmos com a Igreja como comunidade que nos provê das disciplinas de que carecemos a fim de viver o cristianismo.

Como afirma Hauerwas: “Não quero ser ‘aceito’ ou ‘compreendido’. Quero fazer parte de uma comunidade com os hábitos e práticas que me levem a fazer aquilo que de outra forma eu não faria, para aprender a gostar de fazer aquilo que fui forçado a fazer”2. Em particular, a igreja deve praticar disciplinas que se contraponham às disciplinas impostas pelo neoliberalismo, a fim de liberar o corpo da repressão imposta pela alma3. Isso implica em incitar uma nova reforma – a reforma do desejo e da imaginação.

A igreja deve começar reformando o desejo, e restaurando-o a seu verdadeiro lugar e sua verdadeira finalidade4. Isso quer dizer que, enquanto o neoliberalismo disciplina o desejo fundamentando-o em carência e ganância, e alinhando-o a direito adquirido, a Igreja deve libertar o desejo, fundamentando-o em produtividade, paixão e criatividade agradecida.

Em vez de ver o desejo como função de carência, os cristãos devem entender o desejo como força produtiva, como abundante transbordar que traz continuamente novas possibilidades à existência5. Ao invés de ver o desejo como forma autocentrada de ganância, os cristãos devem entender o desejo como expressão de uma paixão pelo outro e, em particular, de uma paixão por Deus6. A igreja deve ocupar-se não do que é realista, mas do que é imaginável.

Entendido dessas maneiras, ao invés de se manter alinhado a um senso de merecimento, o desejo passa a se alinhar a uma participação grata e criativa no processo de nos apoderarmos do reino de Deus.

Além disso, enquanto o neoliberalismo disciplina a imaginação através de medo e desespero, a Igreja deve libertar a imaginação através de esperança. A imaginação, ao invés de ser utilizada para produzir fantasias que nos distraiam de nosso medo e desespero, pode ser tratada como “pensamento-em-tornar-se”, uma sorte de pensamento que transforma o mundo em vez de prover um escape do mundo7. De fato, substituir as doutrinas teológicas do neoliberalismo com as doutrinas teológicas do cristianismo é precisamente a forma de exercício que libera a imaginação a fim de transformar a ordem socio-política e econômica8.

Consequentemente, a verdadeira pergunta que a igreja deve fazer quando confrontada com o mundo do neoliberalismo não é “o que é realista, prático ou viável” mas o que é imaginável.9. Que os cristãos são capazes de imaginar completamente sem restrições fica evidente na esperança fundamentada nas promessas de Deus e na história do engajamento de Deus com o mundo. Como argumenta Moltmann10:
A esperança nada mais é do que a expectativa daquelas coisas que a fé crê terem sido genuinamente prometidas por Deus… É por isso que a fé, sempre que se desenvolve em esperança, causa não descanso mas desconforto… Os que esperam em Cristo deixam de ser capazes de suportar a realidade como ela é: começam a sofrer sob ela e a contradizê-la.

Tendo isso em vista os cristãos devem tornar-se “profissionais da esperança”, tendo suas imaginações unicamente disciplinadas pela recordação do que Deus fez e pela lembrança das promessas do que Deus está por fazer.


Daniel Oudshoorn
Uma dica do Pavablog.
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