domingo, 18 de outubro de 2009

A Teoria da lombriga

O livro de Provérbios diz que a sanguessuga tem duas filhas, a Dá e Dá. Engraçado não? Pelo menos para mim sempre pareceu no mínimo esquisito esse texto, mas depois de certo tempo com um poço de observação e imaginação me atrevo a dizer que entendi o texto.

Pois bem antes de explicar a teoria, queria dizer de maneira simples às observações que me ajudaram a entender o texto a desenvolver a teoria, e é muito simples, é só reparar na maioria das orações feitas nas igrejas ou em qualquer lugar, tem sempre alguém pedindo alguma coisa para Deus e para variar é sempre a sim, até mesmo uma mesma pessoa depois de ser atendida por Deus continua sua interminável lista de coisas que deseja, e pessoas assim parecem que nunca param e sempre estão por ai, para não dizer que são a maioria.

Ou ainda também se pode reparar nos cânticos que cantamos, posso dizer que infelizmente a maioria tende a satisfazer nossos próprios desejos e vontades. Parece que entendemos Deus como um gênio da lâmpada, mas muito melhor porque ao invés de três realiza quase todos seus desejos, isso, senão todos dependendo da boca do quem fala.

E daí vem à teoria, temos dentro de nós uma lombriga que sempre fica pedindo mais e mais para Deus, nunca satisfeita, simples não? Apenas espero que a lombriga que não se torne uma anaconda.


Ricardo A. da Silva
A Deus Somente A Glória

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Esses cristãos Reflexivos

A diferença sempre foi vista com curiosidade ou estranheza. A cor de sua pele, por exemplo, pode tornar você um estranho em alguns cenários. Já seu poder aquisitivo ou sua educação têm a capacidade de fazer com que se destaque em determinados ambientes. Até mesmo seu estilo de adoração, a linha teológica que você adota ou sua preferência por algum partido político podem colocá-lo à margem – ou para além dela – em certos casos. A verdade é que ser, pensar, olhar ou agir de modo diferente da maioria pode empurrar determinado indivíduo para fora dos círculos sociais e religiosos.

Fato é que, nas nossas igrejas, sempre há uma pessoa, ou um grupo, que na maioria das vezes se sente diferente da maioria – e gente assim quase sempre é marginalizada. Dan Taylor, em The Myth of Certainty [O mito da certeza], chama essas pessoas de “cristãos reflexivos”. Os menos solidários classificam-nas como questionadoras da fé; e, muitas vezes, suas atitudes de inconformismo fazem com que se tornem desrespeitados em suas comunidades.

Como quase todos os protestantes sabem, no século 16 a Igreja Católica Apostólica Romana estava empolgada acerca da emissão das famigeradas indulgências. Elas eram alardeadas pelo clero como maneiras de reduzir o tempo das pessoas no purgatório através da doação de dinheiro ou bens à Igreja. Mas apesar da generalização de tal prática, muitas pessoas não se contiveram e questionaram o programa de indulgência proposto pelas autoridades eclesiásticas. Elas duvidaram do que a instituição sustentava com tamanha convicção, simplesmente porque aquilo não fazia sentido para esses cristãos questionadores. Se permanecessem em silêncio, iriam se sentir desonestos e frustrados; contudo, se levantassem suas questões, seriam vistos com desconfiança. Alguns desses questionadores, como Martinho Lutero se manifestaram e descobriram que cristãos reflexivos, já àquela altura, não tinham futuro na Igreja.

Aproximadamente cem anos mais tarde, Galileu Galilei olhou através de um telescópio certa noite e viu luas posicionadas como bailarinas em órbita de Júpiter. Logo percebeu que a Igreja estava errada ao sustentar a visão de mundo tradicional, geocêntrica, que havia herdado de Aristóteles e Ptolomeu. Infelizmente, quando passou a questionar abertamente a corrente majoritária, ele descobriu aquilo que Martinho Lutero já sentira na pele: cristãos reflexivos não eram bem-vindos à Igreja.

Uma história semelhante poderia ser contada acerca do célebre evangelista John Wesley, que duvidava daquilo que todos sabiam: que atividades sagradas, como a pregação, precisavam ser desenvolvidas em espaços sagrados, como púlpitos. Por discordar disso, ele foi à porta das minas de carvão do Reino Unido anunciar a salvação em Jesus a trabalhadores que não freqüentavam os templos. Poderíamos falar ainda de crentes reflexivos como Phineas Bresee, fundador dos Nazarenos, que duvidou que pessoas pobres devessem ser evitadas por cristãos honrados. E o que dizer de Menno Simons, o líder dos anabatistas, que discordava da voz corrente de que cristãos deveriam matar outros cristãos em nome de Cristo?

Questionadores contemporâneos, como o pastor Martin Luther King Jr e o bispo Desmond Tutu, duvidaram que a raça fosse um fator de comunhão, e enfrentaram forte oposição por isso. Já líderes como Bill Hybels ou Rick Warren, com suas propostas de uma nova eclesiologia, ou talvez você, com suas idéias ainda não devidamente expostas, também tendem a provocar certo desconforto devido a suas posturas… Os heróis que estudamos na história da Igreja começaram como cristãos reflexivos que duvidaram daquilo que todos consideravam ser o óbvio. Como conseqüência foram, em quase todos os casos, marginalizados. Quando comunidades habitualmente marginalizam ou excluem seus membros mais reflexivos – aqueles que fazem perguntas difíceis sobre coisas que são completamente basilares para a maioria –, é claro que os que são estigmatizados acabam feridos.

A comunidade que exclui, no entanto, também é ferida, porque ao agir assim corta da própria pele recursos de crescimento e de renovação. Além disso, constrói resistências exatamente para aquilo que em breve será necessário, o que deixa no ar uma pergunta urgente: quem são os cristãos reflexivos, que talvez sintam que já estão com a camada de gelo bem fina nas margens, ou seja, prestes a serem marginalizados por completo? E o que seria necessário para dizer-lhes que eles são queridos, necessários e respeitados, que a sua diferença não é um problema a ser resolvido por meio da pressão para que se amoldem, mas que sua atitude questionadora é um recurso?

Aqui vai uma sugestão: que esses cristãos reflexivos sejam ouvidos! Tentemos entender suas perguntas, frustrações e novas idéias, mesmo que não concordemos com suas inquietações. Sejamos atenciosos, dando-lhes espaço para serem quem são, mesmo se pensam diferente da maioria. Às vezes, talvez seja preciso se posicionar entre eles e seus críticos mais contundentes a fim de defendê-los das forças que mantêm as fronteiras e promovem a exclusão. Um coração bondoso e um ouvido disposto a escutar podem manter os cristãos reflexivos dentro da comunidade – e, se a renovação vier das margens, como quase sempre parece ser o caso, então, ao amputarmos essas nossas margens, fazemos aquilo que os chefes dos sacerdotes e escribas fizeram quando uma voz necessária apareceu às margens de sua comunidade. Será que estamos escutando seu clamor?


Brian McLaren

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Não quero mais ser evangélico

“Irmãos, uni-vos! – Pastores evangélicos criam sindicato e cobram direitos trabalhistas das Igrejas.” Esse, o título da matéria, chocante, publicada pela revista Veja de 9 de junho de 1999, anunciando a formação do Sindicato dos Pastores Evangélicos do Brasil.

Foi a gota d’água! Ao ler a matéria acima finalmente me dei conta de que o termo “evangélico” perdeu, por completo, seu conteúdo original. Ser evangélico, pelo menos no Brasil, não significa mais ser praticante e pregador do Evangelho ( boas novas ) de Jesus Cristo, mas a condição de membro de um segmento do Cristianismo, com cada vez menor relacionamento histórico com a Reforma Protestante – o segmento mais complicado, controverso, dividido e contraditório do Cristianismo. O significado de ser pastor evangélico, então, é melhor nem falar, para não incorrer no risco de ser grosseiro.

Não quero mais ser evangélico! Quero voltar para Jesus Cristo, para a boa notícia que Ele é e ensinou. Voltemos a ser adoradores do Pai, porque, segundo Jesus, são estes os que o Pai procura e não por mão de obra especializada ou por profissionais da fé. Voltemos à consciência de que o caminho, a verdade e a vida é uma pessoa e não um corpo de doutrinas e/ou tradições, nascidas da tentativa de dissecarmos Deus; de que, estar no caminho, conhecer a verdade e desfrutar a vida é relacionar-se intensamente com essa pessoa: Jesus de Nazaré, o Cristo, o Filho do Deus vivo. Quero os dogmas que nascem desse encontro; uma leitura bíblica que nos faça ver Jesus Cristo, e não uma leitura bibliólatra. Não quero a espiritualidade que se sustenta em prodígios, no mínimo discutíveis, e sim, a que se manifesta no caráter.

Chega dessa “diabose”! Voltemos à graça, à centralidade da cruz, onde tudo foi consumado. Voltemos à consciência de que fomos achados por Ele, que começou em cada filho Seu algo que vai completar; voltemos às orações e jejuns, não como fruto de obrigação ou moeda de troca, mas como namoro apaixonado com o Ser amado da alma resgatada.

Voltemos ao amor, à convicção de que ser cristão é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nos mesmos; voltemos aos irmãos, não como membros de um sindicato, de um clube, ou de uma sociedade anônima, mas como membros do corpo de Cristo. Quero relacionar-me com eles como as crianças relacionam-se com os que as alimentam, em profundo amor e senso de dependência; quero voltar a ser guardião de meu irmão e não seu juiz. Voltemos ao amor que agasalha no frio, assiste na dor, dessedenta na sede, alimenta na fome, que reparte, que não usa o pronome “meu” mas o pronome “nosso”.

Para que os títulos: pastor, reverendo, bispo, apóstolo; o que estes significam se todos são sacerdotes? Quero voltar a ser leigo. Para que o clericalismo? Voltemos, sendo servos uns dos outros, aos dons do corpo que correm soltos e dão o tom litúrgico da reunião dos santos; ao “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu lá estarei” de Mateus 18:20. Que o culto seja do povo e não dos dirigentes – chega de show! Voltemos aos presbíteros e diáconos, não como títulos mas como função: os que, sob unção da igreja local, cuidam da ministração da Palavra, da vida de oração da comunidade e para que ninguém tenha necessidade, seja material, espiritual ou social. Chega de ministérios megalômanos onde o povo de Deus é mão de obra ou massa de manobra!

Para que os templos, o institucionalismo, o denominacionalismo? Voltemos às catacumbas, à igreja local. Por que o pulpitocentrismo? Voltemos ao "instruí-vos uma aos outros” (Cl. 3:16).

Por que a pressão pelo crescimento? Jesus Cristo não nos ordenou a ser uma Igreja que cresce, mas uma Igreja que aparece: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt.5:16). Vamos anunciar com nossa vida, serviço e palavras “todo o Evangelho ao homem... a todos os homens”. Deixemos o crescimento para o Espírito Santo, que “acrescenta dia a dia os que haverão de ser salvos”, sem adulterar a mensagem.

Chega dos herodianos, que vivem a namorar o poder, a vender a si e as ovelhas ao sistema corrupto e corruptor; voltemos à escola dos profetas que denunciam a injustiça e apresentam modelos de vida comunitária. Chega de corporativismo, onde todo mundo sabe o que acontece mas ninguém faz nada; voltemos ao confronto, como o de Paulo a Pedro (Gl.2:11) que dá oportunidade ao arrependimento e aperfeiçoa, como “o ferro afia o ferro” (Pv.27:17). Saiamos do “metodologismo”. Voltemos a “ser como o vento, que sopra como quer, se ouve a sua voz, mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai” (Jo.3:8).

Não quero mais ser evangélico, como é entendido, hoje, neste país. Quero ser só cristão. Um cristão integral, segundo a Reforma e os pais da Igreja. Adorando ao Pai, em espírito e verdade, comungando, em busca da prática da unidade do “novo homem”, criado por Cristo à Sua imagem (Ef.2:15), e praticando a missão integral...


Ariovaldo Ramos

Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento

“Sim, vamos começar a reconstrução. E se encheram de coragem.” (Ne 2.18)

Há certos assuntos do cotidiano que estão sempre presentes em nossas conversas: filhos, saúde, comida, contas a pagar etc. E na caminhada de fé não é diferente. Há assuntos que sempre voltam à tona. Um deles, que tem sido discutido nesta coluna*, é a nossa atuação como cidadãos. Devemos nos preocupar com as coisas terrenas ou só com as eternas? A vida pode ser “dividida” dessa maneira? Qual é, de fato, a nossa vocação?

Imagino que certos leitores, ao lerem esta série sobre os Objetivos do Milênio, fiquem se perguntando se Ultimato não estaria equivocada ao dar prioridade a estas coisas. Por que falar de fome, educação, mortalidade infantil, meio ambiente, se está em jogo o destino eterno das pessoas?

Na verdade, a eternidade não é algo desvinculado dos temas da vida, nem é uma mera questão de futuro. A eternidade passa a ser realidade a partir do momento em que o senhorio de Jesus Cristo e os sinais do reino de Deus se tornam presentes na nossa vida pessoal e comunitária. Quando Jesus libertou o geraseno dos demônios que o atormentavam (Lc 8.26-39), ele não estava apenas devolvendo a um homem o seu futuro, mas também o seu presente. O gesto de Jesus não teve um caráter meramente pessoal, mas também comunitário. No momento em que este homem é liberto, seu presente se torna absolutamente diferente, e ele é devolvido à sociedade como uma pessoa transformada. Ele já não é um risco para a sociedade, mas passa a ser um agente de promoção de vida em seu meio. Jesus lhe diz: “Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez”.

Nos Evangelhos, a vivência integral de Jesus nos convida e desafia para a vivência inteira do evangelho, na qual fazer o paralítico andar é tão importante quanto que ele não peque mais (Jo 5.1-14). E assim deve acontecer com os seguidores de Jesus. Não somos chamados apenas a “povoar os céus”, como diz uma expressão antiga, mas também a construir uma cidadania que busque o estabelecimento de sociedades mais justas, mais amorosas e mais felizes.

É por isso que nos aliamos às Nações Unidas na declaração dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio e celebramos quando eles são alcançados. Quando uma mãe dá a luz um filho e ambos sobrevivem, Jesus se alegra. Quando as crianças conseguem ter acesso à escola e continuar estudando no decorrer dos seus anos de crescimento, Deus sorri. Quando as mulheres são melhor tratadas por seus maridos e a violência doméstica diminui, o Espírito Santo sopra com alegria. Quando uma pessoa angustiada é encontrada pelo evangelho da graça, os anjos festejam; e quando o anúncio do evangelho promove o arrependimento e o encontro de nova vida, a igreja dança ao ritmo da dança da própria Trindade. Deus se alegra em ver as pessoas inteiras e satisfeitas -- seja hoje ou amanhã, mas de preferência hoje; seja como indivíduos ou como comunidade, mas quanto mais gente, melhor.

Um dos belos exemplos bíblicos em que vemos uma mudança fundamental de vida pessoal e coletiva tornar-se realidade está no livro de Neemias. Ali encontramos um homem que abraça o chamado para reconstruir os muros de uma cidade empobrecida e explorada. Um homem vocacionado para guiar o povo de Israel a uma profunda renovação da sua relação com Deus e assim estabelecer as bases para uma sociedade mais justa, mais humana e mais reverente ao próprio Deus. E tudo isso ele faz em conjunto com o povo, desafiando inimigos externos e com um compromisso de vida pessoal que modela integridade, entrega e resposta ao chamado de Deus.

Neemias viveu num tempo de muita dor, pobreza e exploração do seu próprio povo. Mesmo vivendo em situação muito privilegiada como copeiro do rei da Pérsia, não se esqueceu do seu próprio povo. Quando surgiu a oportunidade, procurou informar-se sobre ele e, ao deparar-se com a realidade, não ficou indiferente: “Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus” (Ne 1.4). Neemias ouviu a Deus e lhe obedeceu, na sua geração e no seu contexto.

A nossa geração de cristãos, no Brasil de hoje, é chamada a fazer o mesmo. Orar com fervor e se dispor a servir a Deus com inteireza e vigor. Engajar-se na sociedade, exercitando uma cidadania que honre o Senhor, que expresse uma igreja viva e atuante e busque a construção de uma sociedade onde as crianças já não precisem viver apenas poucos dias (cf. Is 65.20).

Quando, em 2015, as Nações Unidas procederem a uma avaliação dos objetivos que se pretendia alcançar até lá, os resultados certamente serão disformes. Enquanto alguns países terão alcançado estes objetivos com alguma folga, outros continuaram a mostrar índices que espelham muito sofrimento, dor e injustiça. Mas seria muito bom se nas Nações Unidas se pudesse dizer também que significativos setores da Igreja, nestas últimas décadas, viveram uma cidadania que fez diferença na qualidade de vida das pessoas, especialmente dos mais pobres. E isso nós fazemos para glória de Deus.


Valdir Steuernagel

sábado, 19 de setembro de 2009

Sem Sentido

Ludwig van Beethoven. Um dos maiores gênios e pilares da música ocidental, enfrentou inúmeras dificuldades físicas, financeiras e sociais, criando obras fantásticas, libertadoras, profundas e eternas. Acho que não preciso gastar meu tempo falando da vida dele e nem sua grandeza no campo das artes. Enfim, uma rápida leitura em sua biografia e torna-se muito mais fácil ver a infinidade do Deus criador nela, do que em quaisquer manifestações delegadas à Ele, que tanto vemos por aí.

Há 200 anos atrás, esse garotão produziu uma bagatela chamada Für elise ou "Para Elisa". Ao que tudo indica, a fez para uma senhora, a quem proporia casamento, chamada Therese Malfatti (Elisa seria um pseudônimo para evitar qualquer semelhança). Essa peça é mundialmente conhecida, é bastante complexa e tem uma intensidade que, se ouvida dentro do silêncio, pode nos emocionar profundamente.

Não sei se Beethoven tinha noção completa de sua capacidade ou da qualidade e profundidade de suas obras. Mas fico pensando o que ele pensaria se voltasse a viver conosco nos dias de hoje e, depois de se estressar amargamente com todo o caos tecnológico que, felizmente, não existia em sua época, ligasse para sua nova operadora de telefone e, após horas e horas sendo pentelhado, escutasse sua famosa Für Elise transformada em um barulhinho irritante. Ou então, estivesse em sua nova casa e, de repente, ver o tiozão do gás a 20 km/h na rua e... lá estava sua Für Elise amolando novamente.

Essa obra, como muitos outros casos, foram completamente (ou bastante) banalizadas. Já não soa como deveria soar. Já não nos toca como deveria nos tocar. Apenas quem a conhece no passado a aprecia com seu devido valor.

Isso tudo me levou a olhar o lado que mais tem efeito em minha vida. Durante 16 séculos a maior das obras foi escrita: a bíblia. A obra perfeita. As palavras transformadoras, os ensinos atemporais de um Jesus que era indignado com as barreiras da sociedade em sua época. E então me pergunto.. o que aconteceu com o valor, com o efeito, com o sentido de palavras e expressões como misericórdia, glória, aleluia, vaso, fogo, benção (ou bença), sangue de Jesus, setas, brecha, cabeça e cauda, vitória, campanha, explosão de milagres, abrir a tal porta, cura, restituição, apostólico, revelação, unção, pisar na cabeça do diabo, vontade de Deus, varão, servo, irmão, arca, semeadura e principalmente paz do Senhor (ou graça e paz pra ninguém se sentir excluído).

Muitas dessas palavras até foram inventadas por nós, de uma forma conveniente e tendenciosa. E ninguém mais suporta ouví-las. Irracionalmente, todos os dias essas palavras e expressões (a lista não tem fim) são vomitadas em discursos prontos e ninguém pensa no verdadeiro sentido e valor de cada. E, comparado à estorinha de Beethoven, tantas outras que possuem uma profunda carga semântica, como a Misericórdia, que é o sentimento profundo de dor e compaixão de Jesus por causa de nossa fraqueza resultando num ato intenso de amor e perdão, e são proferidas de forma banal e vulgar, como se já não valessem de nada.

Beethoven que nos desculpe. Deus que nos perdoe.


Túlio Benedetti
(Amigo, companheiro, e parceiro em ideias e indignações)
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