domingo, 19 de abril de 2009

Eu também quero menos deus

Em um artigo pedindo menos deus na revista de maior circulação do país, Diogo Mainardi declarou que havia uma superexposição ou vulgarização do divino no Brasil. Protestou contra líderes inescrupulosos que alardeiam títulos cada vez mais espetaculares, mas tem o nome manchado por não pagarem suas contas. Afirmou torcer contra jogadores de futebol que gravam em suas camisetas frases de efeito sobre a fidelidade de Deus com letras menores do que a propaganda da multinacional que os patrocina. Uma semana depois, Roberto Pompeu de Toledo, outro cronista do mesmo semanário, mencionou a influência do fundamentalismo evangélico de direita na política americana e mostrou a falta de sensibilidade cultural de algumas agências missionárias que desejam evangelizar os árabes. Toledo reforçou o pedido de Mainardi: “Menos deus, por favor!”. Percebi, entretanto, que o Mainardi grafou deus sempre em minúsculo. Não sei se o fez para distinguir do verdadeiro Deus, ou se ele considera que existe somente essa divindade pequena, fruto da imaginação humana. Contudo, eu distingo um do outro. A Bíblia também diferencia os deuses; há aqueles que chama de ídolos e há o Altíssimo, o criador do universo; Deus em maiúsculo.


Antes de condenar os articulistas à fogueira, preciso deixar claro: também quero menos deus; mas com “d” pequeno. Quero menos demiurgos! Convenhamos, há algumas expressões da divindade que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e análise critica também consideraria desnecessárias.


Não quero um deus técnico.


Que, para satisfazê-lo, baste aprender uma técnica, recitar uma reza, aderir a um credo ou cumprir um ritual. Chega de manuais teológicos ou livros que nos ensinem os passos para agradar a Deus. Relacionamentos não dependem de técnicas. Muito do nosso pensamento ocidental vem do mundo grego que entendia o universo numa relação de causa e efeito. Daí o fascínio teológico com o cognitivo. Precisamos voltar a pensar Deus a partir da cosmovisão judaica, menos técnica e mais relacional. Jesus afirmou a que a salvação vem dos judeus (João 4.21).


Por que a pós-modernidade ocidental rejeita a religião organizada? No Brasil, o segmento religioso que mais cresceu a partir do final da década de 90 foi a dos não religiosos. Paradoxalmente o misticismo e as praticas esotéricas fervilham exatamente entre esse grupo. Parece que as pessoas procuram práticas espirituais que não dependam de organização institucional, credos ou dogmas teológicos. Percebe-se que há um clamor pós-moderno pelo toque, pela experiência e pelo intuitivo. Quando o cristianismo ocidental voltar a teologia do afeto, ensinar as pessoas que elas podem experimentar a paternidade divina, poucas pessoas pedirão menos Deus. Ouvi uma historia, cuja a autenticidade desconheço, mas que serve para ilustrar uma carência pós-moderna: Uma pastor viajava de avião pelo Oriente. Depois que se apresentou ao homem sentado ao seu lado, falou-lhe de seu trabalho. Antes de poder compartilhar a mensagem do evangelho, o homem questionou-lhe: “Pastor em minhas viagens pelo Oriente, sempre que sento ao lado de um monge, tenho a sensação de estar ao lado de um santo homem. Por que ao me sentar ao lado de um pastor, tenho a sensação de estar perto de um homem de negócios?”.


Não quero um deus oligarca.


Que crie elites poderosas em seu nome. Não quero um Deus que gere pessoas soberbas; não quero uma religião em que as pessoas enriquecem a custa da mensagem que pregam. Infelizmente o estigma que pesa sobre os religiosos é que Deus os faz cobiçosos, materialistas e cheios de ganância. As pessoas desdenham dos discursos piedosos com agendas duvidosas. Millôr Fernandes assim se expressou: ”Eu não dou dois centavos por um homem que lucra com os ideais que defende”. Precisamos mostrar que a vocação que vem de Deus capacita para o serviço, e não para a dominação; para o sacrifício e não para o lucro. Os pastores são chamados para beberem o cálice que Jesus bebeu, tomarem a cruz sobre os ombros; tornarem-se criados de todos, principalmente dos pobres. A igreja existe para servir, não para se auto proteger. Os cristãos vivem para se dar e não para se vangloriar. Quero um Deus que me inspire a afirmar como Paulo: “Estou pronto [...] para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (Atos 21.13).


Não quero um deus minucioso e controlador.


Desde os dias de Jesus Cristo, passando pela igreja primitiva pelo ministério de Paulo, o legalismo tem sido o joio tão parecido com trigo. Entenda-se legalismo como um fascínio religioso que tenta controlar todos os pormenores da vida das pessoas. Os fariseus desciam a minúcias ridículas procurando legislar o que era ou não um dízimo; quantos passos podia-se caminhar num sábado. Depois, na Idade Média, os concílios se arrastavam tediosamente por décadas, discutindo temas irrelevantes: quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, quanto se deve pagar para abater um dia no purgatório. As pessoas não entendem como os religiosos perdem tempo, debatendo temas insignificantes da vida: o tamanho dos cabelos das mulheres, as gravatas e as togas dos pastores. Se as grandes questões como a justiça, a paz entre as nações, a sorte dos inocentes e a esperança dos perdidos não dominarem nossas prioridades, todos os outros debates serão irrelevantes. Diante de um mundo em que milhões sofrem com o desemprego de um modelo capitalista neoliberal, em que a África arqueia sob o peso da miséria e da aids, em que a corrida armamentista consome riquezas inomináveis; é ridículo apequenar Deus a questões insignificantes.


Não quero um deus manhoso e instável


Eu não quero um deus que precise ser agradado o tempo inteiro. Não quero uma religião neurotizante, que me force a andar constantemente preocupado em acertar com perfeição absoluta para não ser castigado. Não quero que meu culto se transforme naquilo que foram os rituais pagãos: meras cerimônias que visavam aplacar a ira dos deuses. Não quero um deus restritivo e punitivo. Acredito em um Deus libertador. Concordo com o rabino Harold Kushner:


Acredito que a mensagem fundamental da religião não é a de que somos pecadores porque não somos perfeitos, mas a de que o desafio de ser humano e tão complexo, que Deus não perde tempo esperando de nós a perfeição, a religião vem para purificar-nos de que, quando tentamos ser bons, e não conseguimos ser tão bons quanto desejávamos ser, não perdemos o amor de Deus... A religião é a voz que diz: “eu vou guiá-lo através desse campo minado das difíceis escolhas morais, compartilhando com você a percepção e a experiência das grandes almas do passado, e vou lhe oferecer o conforto e o perdão quando você estiver perturbado pelas escolhas dolorosas que fez”.


Eu quero menos deus, mas quero mais Deus para que sua mensagem continue a inspirar novos Bachs e novos Hendels a comporem hinos de pura beleza. Quero menos deus e mais Deus para que outros Martin Luther Kings, Mandelas se levantem como profetas da justiça. Quero menos deus e mais Deus para que outros Simontons, Vingres, Madres Teresas se aventurem a singrar mares e culturas com o ideal de Cristo. Quero menos deus e mais Deus para que muitas igrejas sejam plantadas nos morros violentos do Rio de Janeiro, para que se multipliquem os evangelistas que enfrentar as penitenciarias imundas do Brasil, saqueando vidas do inferno e povoando o céu. Quero menos deus e mais Deus, para que continuemos acreditando no amanhã.



Ricardo Gondim

Trecho do livro "O que os evangéçlicos não falam",

da editura Ultimato (grtifos meus)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Teologia da Esperança

Jürgen Moltmann causou espécie. Sua obra, “Teologia da Esperança”, encantou e importunou quando publicada em 1964. Alguns consideraram o livro a concretização de temas que “estavam no ar”, cumprindo assim um kairós (a inevitabilidade do "tempo que chegou").

Na Igreja Católica Romana, o Concílio do Vaticano II propunha a atualização de sua missão, liturgia e teologia. Nos Estados Unidos, o movimento pelos direitos civis ganhava força com Martin Luther King, que levou multidões às ruas. Em Cuba, jovens guerrilheiros tomavam o poder de Batista, um fantoche da máfia, para despertar a esperança dos pobres das Américas. Nesse ambiente, nascia a "Teologia da Esperança".

Releio Moltmann depois de vinte anos. A cada página, pergunto-me: “onde eu estava que não apreendi seus conceitos?”. Ainda na introdução, Moltmann repensa o signficado de “escatologia” – a doutrina das últimas coisas. Para ele, era aceito que “a compreensão da expressão “últimas coisas” englobava eventos, sobre o mundo, a história e a humanidade que irromperiam no fim dos tempos. Entre esses acontecimentos estava a volta de Cristo em glória, o juízo universal e a consumação do reino, a ressurreição universal dos mortos e a nova criação de todas as coisas. Esses acontecimentos finais irromperiam de fora da história para dentro dela e poriam fim à história universal, na qual tudo se move e se agita”.

Moltmann considera, então, que, como esses acontecimentos ficam no limiar do “último dia”, eles tiveram pouca relevância para os “tempos vividos antes do fim”. Escatologia ficou condenada a ser apenas uma aspiração piedosa. Isso explica, segundo ele, porque “as doutrinas do fim vegetavam esterilmente nas últimas páginas da dogmática cristã. Eram como um apêndice meio solto, que definhavam em sua insignificância apócrifa”.

Daí, Moltmann ousa resignificar a escatologia, trazendo-a para o presente. Ele afirma que “a escatologia é idêntica à doutrina da esperança cristã, que abrange tudo aquilo que se espera como o ato de esperar, suscitado por esse objeto”. A escatologia não adia, sine die, o apogeu da história, mas o trás para o presente, porque, “o cristianismo é total e visceralmente escatologia, e não só como apêndice; ele é perspectiva, e tendência para frente, e, por isso mesmo, renovação”.

“O escatológico não é algo que se adiciona ao cristianismo, mas é simplesmente o meio em que se move a fé cristã, aquilo que dá o tom a tudo há nele, as cores da aurora de um novo dia esperado que tingem tudo o que existe”.

Para Moltmann, portanto, a doutrina da “escato-logia” deve ser substituída por uma teologia da esperança: “Mas como falar de um futuro que ainda não existe e de acontecimentos vindouros aos quais ninguém ainda assistiu? Não se trataria aí de sonhos, especulações, desejos e temores, todos necessariamente vagos e indefinidos, já que ninguém pode verificá-los?”.

Ora, se se entende doutrina “como uma coleção de afirmações doutrinárias que se conhecem a partir de experiências que podem ser repetidas e feitas por todos; o termo logos se refere a uma realidade que está aí, que existe sempre e que pode ser conhecida como verdade na palavra que lhe corresponde”.

Concordo com Moltmann, pois também acredito que “não é possível haver logos do futuro, a não ser que o futuro seja a continuação ou retorno periódico e regular do presente. Mas se o futuro traz algo de surpreendente e novo, sobre ele nada podemos afirmar, nem conhecer sobre ele qualquer coisa que tenha sentido, pois a verdade ‘lógica’ (verdade com logos) não pode existir no que acontece no futuro como novo, mas tão somente naquilo que é permanente e retorna regularmente”.

Moltmann desmonta a arrogância do teólogo que se imagina capaz de fixar a realidade, pois “os conceitos teológicos não podem se tornar juízos, os quais fixam a realidade naquilo que ela é, mas tão somente juízos provisórios, os quais descobrem à realidade suas perspectivas e suas possibilidades futuras. Conceitos teológicos não devem fixar a realidade, mas ampliá-la pela esperança e assim antecipar seu futuro. Não devem arrastar-se atrás da realidade, nem olhar para ela com os olhos da coruja de Minerva, mas iluminar a realidade, mostrando-lhe seu futuro”.

Incentivo a leitura de “Teologia da Esperança” (Edições Loyola) de Jürgen Moltmann, seus conceitos são revolucionários:

Deus não está em alguma parte no além, mas ele vem e está presente, como aquele que vem e promete um novo mundo de vida plena, de justiça e de verdade, e com essa promessa põe novamente em questão este mundo. Não porque o mundo nada é para o que espera, mas porque ainda não é aquilo que está colocado à sua frente. Pelo fato de o mundo e a existência humana serem assim questionados, eles se tornam “históricos”, pois são postos em jogo e colocados na crise do futuro prometido. Quando o novo aparece, o velho se manifesta. Quando algo de novo é prometido, o antigo se torna passageiro e superável. Quando é esperado e aguardado algo de novo, o antigo pode ser abandonado. Assim a “história” resulta a partir de seu término, a história daquilo que acontece, o qual é percebido na promessa prévia e iluminadora.

A escatologia não é soterrada pela areia movediça da história, mas, ao contrário, mantém a história viva por meio da crítica e da esperança; ela é, por assim dizer, a própria areia movediça da história que vem do fim. A impressão da transitoriedade universal, que é tão evidente ao triste olhar de quem olha para trás, para o que não pode ser segurado, na realidade nada tem a ver com a história...

A história não engole a escatologia (Albert Schweitzer), nem a escatologia engole a história (Rudolf Bultmann). O logos do eschaton é a promessa daquilo que ainda não existe, e, por isso, faz a história. A promissio, que anuncia o eschaton e na qual o eschaton se anuncia, é o motor, a motivação, a mola propulsora e o tormento da história.


Ricardo Gondim

Repensando a fé

Certas coisas perderam ímpeto dentro de mim. Certas afirmações se esvaziam antes que alcancem o meu coração. Certas concepções já não fazem sentido quando organizo o meu dia.

Minha fé deixou de ser uma força dirigida a Deu que o induz a agir. Entendo fé como coragem de enfrentar a existência com os valores do Evangelho. Fé significa uma aposta; a verdade vivida e revelada por Jesus de Nazaré tornou-se suficiente para que eu encare as contingências do mundo sem me desumanizar. Fé não movimenta o Divino, mas serve de pedra de apoio onde me impulsiono para a deslumbrante (e perigosa) aventura de viver.

Já não espero que uma relação com Deus me blinde de percalços. Não acredito, e nem quero, que Deus me revista com uma carcaça impenetrável. Acho um despautério prometer, em meio a tanto sofrimento, que uma vida obediente e pura gere segurança contra doenças, acidentes, violência.

Considero leviano afirmar que, quando as mulheres oram, Deus poupa seus filhos de se envolverem com drogas, promiscuidade e outros males. Por que Deus ficaria de mãos atadas ou indiferente diante das opções, muitas vezes atrapalhadas, de rapazes e moças? Quer dizer que, se os pais não vigiarem, Deus permite que os filhos se percam? Como Deus induz alguém a se arrepender; Ele arrasta pela força em resposta ao pedido dos pais? Será se a "salvação" dos filhos não depende tanto de uma intervenção divina, mas do exemplo dos pais?

Tanto no Antigo Testamento como no ministério terreno de Jesus, há relatos de que Deus se recusa a manipular ou coagir para trazer qualquer pessoa para si. Deus é amor e quem ama se torna vulnerável ao abandono. Um exemplo clássico vem do profeta Oséias que encarnou um repudio semelhante ao de Deus.

Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho. Mas, quanto mais eu o chamava mais eles se afastavam de mim (11.1).

No evangelho de Lucas, Jesus lamentou sobre a cidade de Jerusalém que, além de repetir o padrão de perseguir os profetas, o rejeitou:

Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram! (13.34).

Não acredito que, para os que cumprem ritos religiosos, a existência se transforme em céu de brigadeiro. Não imagino que, ao obedecer corretamente os mandamentos, o mar da vida deixe de ser arriscado.

Orar de olhos fechados, debulhar terços em rezas, pedir ajoelhado, fazer campanhas, interceder ferozmente nas vigílias, clamar aos gritos, nenhuma dessas expressões religiosas significa devoção, se contempla vantagens que outros mortais, que não fizerem o mesmo, não alcançarão. Considero-as puro clientelismo, vãs repetições, murros em ponta de faca, mistura de ilusão com esperança.

Assemelham-se ao esforço da tartaruga que sonha com as altitudes, mas se vê obrigada a respirar o pó da estrada.

Acho indigno um cristão pedir que Deus lhe ajude a passar em concurso público. Aliás, considero um horror ético. Da mesma forma, em economias que produzem excluídos, não é lícito rogar que “o Senhor abra uma porta de emprego”. Não faz sentido conceber que o Todo Poderoso consiga recolocar mais pessoas no mercado de trabalho de países emergentes do que nos bolsões miseráveis do mundo, onde bilhões sobrevivem com menos de 1 dólar por dia.

Já me indispus com grandes segmentos do mundo evangélico, mas não consigo calar. Por todos os lados, ouço clichês como se fossem afirmações piedosas de fé. Infelizmente, tais jargões cumprem o papel ideológico de afastar as pessoas da realidade, empurrando-as para o delírio religioso. Religião, nesse caso, não passa de ópio.



Ricardo Gondim

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Uma declaração cristã

Meu impulso inicial foi chamar este post de “Resposta a Bento XVI”, mas logo desisti, pois seria atribuir demasiada importância ao pronunciamento do Vaticano. Chamo de “Uma declaração cristã” para ser coerente com o pensamento de que em tempos de pós-modernidade e pluralismo (que alguns confundem com relativismo) não cabem afirmações categóricas. O máximo que um cristão pode fazer é “uma declaração cristã”, pois a declaração cristã sugere a unanimidade entre os cristãos, o que certamente existirá apenas no céu.

O documento "Respostas a Questões Relativas a Alguns Aspectos da Doutrina sobre a Igreja" elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé e ratificado pelo papa Bento 16, afirma que "a única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica", cria a ocasião para uma declaração cristã.

Conforme bem advertiu Pierucci:

Não bastassem a arrogância fundamentalista da "Christian America" monoteísta do governo de George W. Bush e a truculência fundamentalista do monoteísmo intransigente dos aiatolás e talebãs, agora vamos ter pela frente, para completar, mais esta espécie do mesmo gênero: o fundamentalismo católico, que afirma o primado cristão da verdade católica no universo multicultural das igrejas cristãs agora declaradas "não-igrejas" ou "igrejas lacunares".
[ANTÔNIO FLÁVIO PIERUCCI, Folha de S.Paulo, 17 de julho de 2007]

Rejeitei, portanto, e de imediato o pronunciamento do Vaticano. Primeiramente porque poderia argumentar da legitimidade do protestantismo. Poderia advogar em favor do protestantismo, mas cairia no mesmo erro do Vaticano: reivindicar posse da verdade. Seria também vítima do equívoco que confunde o corpo místico de Cristo com as instituições que pretendem representá-lo na história.

Depois considerei afirmar que a verdade a respeito da fé cristã não se encontra nem no Catolicismo nem no protestantismo, mas nas Escrituras, ou na Bíblia Sagrada, compreendida como a coletânea de textos canônicos: a Lei de Moisés e os Profetas do Velho Testamento e os escritos apostólicos do Novo Testamento. Nesse caso, tanto o catolicismo quanto o protestantismo seriam apenas interpretações das Escrituras. Mas logo percebi que cometeria outro erro, a saber, confundir doutrina com verdade: tanto o catolicismo quanto o protestantismo articulam a fé cristã em termos dogmáticos e doutrinários, nos termos da modernidade com sua razão-mania que pretende fazer caber a verdade cristã em um conjunto de teorias filosófico-teológicas. Além de confundir doutrina com verdade, confundiria a experiência com o Cristo ressurreto com a apropriação intelectual das teorias que pretendem explicá-la.

Indo um pouco mais longe, considerei que a tentativa de estabelecer as Escrituras como lócus da verdade a respeito da fé cristã desconsideraria o fato de que a Bíblia Sagrada é uma realidade tardia à consolidação do cristianismo. De fato, havia no movimento cristão chamado primitivo um conjunto de escritos apostólicos, mas não eram considerados textos canônicos autoritativos como o são pela cristandade contemporânea. O Cânon bíblico é formado no quarto século da era cristã, de modo que já existia cristianismo antes que houvesse o que hoje chamamos Bíblia.

Considerei, então, que a verdade a respeito da fé cristã estivesse no testemunho da Igreja, que nasce no Pentecoste. A proclamação dos primeiros cristãos, os documentos gerados, e as experiências comunitárias seriam continentes da verdade. Mas nesse caso, deixaria o cristianismo e a obra de Cristo à mercê das contingências humanas, o que não me agrada, até porque não é o que leio nas Escrituras Sagradas, o que significa que nem mesmo os primeiros cristãos se compreendiam como protagonistas do movimento de Cristo.

Fiquei com a mais conservadora das possibilidades: a única verdade a respeito da fé cristã encontra-se em Cristo. O cristianismo prescinde da Igreja, das Escrituras, do Clero, e de qualquer outra realidade que tenha a mínima cooperação humana para sua existência. A única coisa (perdoe o “coisa”) da qual o cristianismo não prescinde é de Cristo.

O cristianismo é obra do Cristo ressurreto e do Espírito Santo. Não é obra do catolicismo, nem do protestantismo. É Cristo quem edifica sua igreja. É o Espírito Santo quem guia a toda a verdade, sendo que o próprio Cristo é a verdade. É Cristo a verdade e é o Espírito Santo quem aproxima e une Cristo aos que são seus. Cristo está aonde as Escrituras ainda não chegaram. Cristo está aonde Igreja ainda não chegou. Cristo está aonde o testemunho da Igreja ainda não chegou.

Eis uma declaração cristã: "a única verdade da fé cristã encontra-se em Cristo".


Ed Rene Kivitz

quinta-feira, 9 de abril de 2009

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